A educação na desordem



Baixar 83.93 Kb.
Encontro25.07.2016
Tamanho83.93 Kb.
A educação na desordem

Rosana Areal de Carvalho

Fabiana de Oliveira Bernardo

Gabriela de Almeida Cruz

Universidade Federal de Ouro Preto
Desordem e progresso

Assim foi a década de 20, se compreendermos como desordem a crise do governo oligárquico, as revoltas operárias, os movimentos em prol de uma cultura nacional, como a Semana da Arte Moderna e, por que não?, a desordem urbana motivada pela migração, pela expansão de uma camada média que, agora, reivindicava seus direitos.

Tomando o campo político como referência, podemos identificar os desdobramentos dessa desordem. O governo oligárquico que esteve nos postos de comando desde a Proclamação da República dava sinais evidentes de esgotamento. Criticado pela ineficiência, pela corrupção, por não representar as novas parcelas da população que ansiavam por uma maior participação política, em especial, as camadas urbanas formadas por profissionais liberais – médicos, engenheiros, jornalistas, comerciantes – e também pelos funcionários públicos. Entre os militares, responsáveis in totum pela ordem que garantia o progresso, também estava instalada a desordem, as críticas aos superiores hierárquicos e a posição de que o ideal defendido para o país não estava sendo realizado.

Um processo inequívoco e inexorável de industrialização atrelado ao desenvolvimento urbano, movimentado pelos imigrantes e por elementos nacionais, desordenava a cidade pacata. Aqueles, portadores de novas idéias em voga na Europa, questionavam as regras do mundo capitalista. Dentre os segundos, alguns ainda pouco adaptados à vida e ao tempo da cidade, recebiam a influência dos mais vividos e experimentados citadinos.

No âmbito cultural, a Semana da Arte Moderna deu visibilidade ao debate em torno dos valores nacionais. Mas, como fortalecer o elemento nacional se o mesmo está alijado do mundo das decisões, que é, por excelência, a decisão política?

Desde a década anterior, um forte movimento de tendência nacionalista entrou em curso, liderado por Olavo Bilac, pleiteando uma escola nacionalista que seria a salvação nacional, por meio da educação e do serviço militar – a Liga Nacionalista, criada em 1916. A ela aderiram os operários e atribui-se a esse movimento a defesa pelo voto secreto e direto.

Mas, uma dicotomia permanecia: um Brasil de vocação agrária ou um Brasil de porte industrial?

Outros tantos sinais de uma crise generalizada poderiam ser elencados. Crise esta que desembocou na Revolução de 30, resultando na alteração do jogo das forças políticas. Nos demais campos da vida de uma sociedade, as mudanças já estavam em curso...

De acordo com HILSDORF (2003:57), temos nessa década, o fim da diacronia monarquia versus república. A república havia vencido, sem dúvida, mas que república? A república federalista aos moldes norte-americanos? Ou uma república com um poder executivo forte, que determina os passos da nação?

Tudo isso, naturalmente, desembocou no cenário educacional que, novamente, foi chamado a contribuir na formação desse novo cidadão brasileiro. É neste contexto que se situa o presente trabalho, recortado para os limites do Estado de Minas Gerais, no cotidiano do Grupo Escolar de Mariana, então denominado Grupo Escolar “Dr. Gomes Freire”.



No ritmo da história

Floresceu, nas décadas anteriores, uma nova oportunidade de o Brasil “entrar no ritmo da história” (IANNI,2004:20). Há ampla ebulição de idéias e movimentos sociais. As muitas propostas de orientação social para esse período de extrema conturbação, promovida pelas mudanças que se deram com a abolição da escravatura, a Proclamação da República, a chegada do grande contingente de imigrantes, dentre outras, se amparavam em diversas matrizes de pensamento que foram selecionadas, apropriadas e recriadas, de acordo com os interesses políticos em jogo. Dentre elas destacamos o positivismo e o liberalismo.

Para entendermos a educação do período republicano faz-se necessário certo recuo no tempo, procurando verificar a influência que o positivismo exerceu especificamente no Brasil, porquanto a corrente filosófica se manifestou de formas distintas no espaço e no tempo.

A partir do positivismo, se acompanharia, promoveria e estruturaria a última etapa da evolução social, representada pela perfeição através da ciência e do progresso objetivo. Assim, com todas as benesses da ciência, o homem poderia esquivar-se de questões extra-mundanas, afinal, como aniquilador de doenças, epidemias, dos males da humanidade, o positivismo redefinia a relação do homem com a religiosidade, se apresentando como única e plena forma de ascendência. Técnica, ciência, competência são conceitos que marcam esse ideário e a partir deles se chegaria a um estágio superior da evolução da sociedade.

A corrente política e ideológica denominada por José Murilo de Carvalho como sociocrática, representava as influências positivistas que personificaram-se na figura de Benjamim Constant, considerado a “cabeça pensante” do movimento republicano. Ao lado de Tiradentes, na Inconfidência, e de José Bonifácio, na Independência, simbolizava a investida da sociedade brasileira rumo a seu futuro glorioso, que seria também a perfeição da humanidade em sua fase positiva.

De acordo com HILSDORF (2003:58), a ampla absorção das idéias positivistas na sociedade brasileira, deveu-se não apenas por sua proposta progressista com base na cientificidade, mas também pela sua ética cívica de respeito à lei e ao princípio do bem comum. Encontram-se, ainda, nas teorias positivistas, princípios de organização social que sublinham com clareza a diferença entre os grandes homens e os sujeitos que precisam ser orientados. Assim, existia certa tendência messiânica, no sentido de que apenas a ação de alguns homens aceleraria o processo evolutivo da sociedade.

Como titular do Ministério da Educação Pública Correios e Telégrafos, Benjamin Constant, em 1890, reformava a instrução pública como indica o trecho: “promover à mocidade brasileira a instrução secundária e fundamental, necessária e suficiente, assim para a matrícula nos cursos superiores da república, como em geral para o bom desempenho dos deveres do cidadão na vida social.1 Pode-se verificar que os objetivos da reforma atingiam a necessidade de produzir a concepção de cidadania e não apenas instruir.

Os patamares para se chegar à fase positiva se dariam da seguinte maneira: a República seria a mantenedora da ordem material, agregaria o proletariado à sociedade e proporcionaria a liberdade espiritual aos cidadãos. Previa-se uma intensa ação educacional que equacionasse o país ao modelo civilizatório do século.

As propostas positivistas ampararam diversas resoluções da sociedade republicana, como a laicização do Estado, e a decorrente separação entre a Educação e a Igreja ou a necessidade da produção de indivíduos que trabalhassem em consonância com os objetivos republicanos para se chegar à sociedade positiva, moderna.

Outra corrente de pensamento que agregou diversos componentes era representada pelo liberalismo, a partir do qual, pela mínima, mas não inexistente ação do Estado, que educando a massa - ou coletivo amorfo e sem identidade - inepta e não educada, causa e consequência de uma sociedade dispersa, improdutiva; daria origem a uma nova sociedade, esta sim, moderna, civilizada, laboriosa, individualista e cidadã. O fundamento básico do governo seria o de promover a criação e a unidade do povo, que ativamente exerceria seu papel de cidadão, para o bem da democracia e da república.

Podemos inferir que essas correntes possuíam muitos pontos convergentes, afinal o período tinha específicas necessidades, e cabia à República pagar a dívida da organização social. Podemos destacar ainda que a República se apresentou como grande frustração ao longo das décadas seguintes. As fraudes eleitorais comuns no período, a assimilação de idéias estrangeiras – mesmo que para reinterpretar a sociedade, a desagregação social, faziam com que setores da população se mobilizassem procurando novas formas de nortear essa sociedade.

Dentre os movimentos que procuravam alternativas às mazelas sociais caracterizadas acima, destaca-se a Semana de Arte Moderna, que representa a ação de um grupo de artistas e intelectuais à procura de novos temas para as artes e para o pensamento social tipicamente brasileiro. Apresenta-se como marco para a divulgação do modernismo brasileiro. A chave para se entender o movimento é a recepção das contribuições estrangeiras no campo da arte, não apenas uma pura e simples apropriação, mas sim, uma verdadeira ‘digestão’ dessas formas de expressão no sentido de se recriar, a partir de temas brasileiros e a partir de uma linguagem diversa da imperial, uma arte vanguardista e fincada em raízes nacionais.


Questões de gênero na década de 20

Só podemos entender o contexto de importância que as mulheres conquistaram na educação na década de 20 se pensarmos o panorama de lutas e reivindicações por parte das mesmas, fatos que nesse período foram efervescentes no Brasil. O entusiasmo pela educação que o governo republicano se dispunha a efetivar e pela sociedade moderna que queria formar, deram a essas mulheres esperanças de lutar pelo sufrágio universal, pelo seu direito de instruir-se, por uma educação de nível superior e, assim, ocupar um lugar no mercado de trabalho, engrandecendo sua vida pessoal e profissional. Formando grupos de debate influentes como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, de 1922, ou União Universitária Feminina, em 1929, estavam sempre atentas às ações políticas e, dessa forma, iam gradativamente ganhando espaço dentro da escola, agora não somente como mães, mas como professoras, diretoras, fiscais, ou serventes, exercendo seus cargos segundo as exigências da época.

Quanto à preocupação com a futura geração de brasileiras que iriam formar-se pelas escolas primárias na década, o governo providenciou disciplinas especiais para as meninas, mesmo que ainda bem carregadas pelo projeto de civilidade, diferenciado para homens e mulheres, e a função que desempenhariam na sociedade. Os trabalhos manuais, por exemplo, disciplina que fazia parte do currículo do ensino primário, eram uma síntese das prendas domésticas que toda menina devia aprender. Os trabalhos de corte e costura, objetos de fantasia e ornamentação são algumas das práticas voltadas para as alunas do período.
Igreja e Estado: afinal, a quem cabe a primazia da educação do povo?

Data do Descobrimento do Brasil, uma expressiva e inequívoca participação da Igreja Católica na sociedade brasileira. Sua aliança com o poder político, que mantinha seus privilégios como educadora, disciplinadora social, ditadora dos cânones morais e detentora de influência sobre as decisões de estado, nunca tinha sido abalado de tal forma no país como foi no início da Primeira República, quando, pela nova Constituição, a Igreja foi separada da instituição estatal. Pela primeira vez teve que enfrentar desafio de sobreviver à laicização e, consequentemente, aprender regras de convivência e conduta sociais que não tinha necessidade de corresponder, e como qualquer outra agremiação civil (clubes, associações, partidos, organizações de múltiplos fins, seitas religiosas etc.) teve que competir pelo maior número de adeptos e fiéis. A separação do Estado significou, para a Igreja, mais que a perda de privilégios econômicos e políticos, custou pensar em qual seria o seu papel social, já que as novas correntes intelectuais estrangeiras estavam presentes nos vários espaços sociais, fragilizando ainda mais a sua imagem.

Hostilizada pelos positivistas, liberais e cientificistas, a Igreja precisava manter o que restava de seus fiéis e de sua influência, da mesma forma que necessitava familiarizar-se, de um jeito ou de outro, ao regime republicano instaurado e aos novos discursos que explicavam e defendiam o progresso sob os auspícios da ordem e da ciência.

A reação católica não foi passiva, ou seja, não se restringiu ao espaço dos sermões e documentos internos. Para enfrentar a crise e manter-se no posto de educadora algo mais haveria de ser feito.

“Em algumas dioceses foi criado um organismo, sob a direção do bispo local. Além de instrução tinha objetivo de orientar os párocos na criação e no funcionamento das escolas paroquiais e na formação de professores. Dessa forma, todos os meios estavam sendo empregados para uma educação, de acordo com os princípios católicos”. (PASSOS,2005:189)
Os regimes de internato em escolas católicas para jovens, escolas femininas de ensino normal, universidades católicas e escolas profissionais, foram uma forma de reação; mas não só, foram também uma estratégia de educar as gerações vindouras pelo catolicismo, objetivo a ser alcançado com a formação de professoras. Estas assumiam um dupla tarefa: a de educar com base nos princípios morais católicos e defender, nas escolas públicas, o ensino religioso como fundamento para a aquisição dos bons costumes sociais. Além de infiltrar-se pela pressão para a aprovação do ensino religioso nas escolas públicas e fundando suas próprias escolas, a Igreja dos anos 20 também difundiu seu ideário pedagógico na forma de livros, artigos em revistas e jornais e, especialmente, sob a forma de livros didáticos, para a formação dos alunos do primário e para as professoras nas escolas normais.

Vemos que, por mais que o Estado se revestisse de atitudes que queriam privilegiar a ciência, a filosofia e o patriotismo nas escolas, uma influência de séculos de história, como era a da Igreja Católica, não se rompe facilmente. Apesar dos intensos debates e acusações de ambos os lados, muitos ideais permaneciam os mesmos, e cada um tomava partido do que lhe convinha. Um exemplo disso é a conduta para a contratação de professores nas escolas primárias dos anos 20. Esperava-se destes que fosse um modelo de caráter, moral e fé, e isso atingia principalmente as professoras que tinham ainda a responsabilidade de educar, pelo exercício do magistério, os seus alunos pelos conceitos moralizantes e de bons costumes.


A educação pelo voto e pela escola

Havia uma grande gama de sujeitos não votantes, porquanto o artigo 70 da Constituição de 1891 restringia o voto aos cidadãos maiores de 21 anos e alfabetizados. Sem o projeto de escola para todos, os filhos das camadas médias orientavam-se para os Seminários – de confissão católica, ou para as Escolas Militares que baseavam-se, pedagogicamente, nas determinações positivistas.

Os diversos setores e projetos concordavam apenas em uma questão: que medidas com relação à educação deveriam ser tomadas com urgência.

A escola foi utilizada como locus privilegiado para a conformação desta sociedade que se encontrava desorganizada, aplasmada. Era flagrante a crença de que a educação promoveria a modernização e através dela tornaria-se efetivo o controle social.

De acordo com (2003a:13) o papel da escola foi hiperdimensionado: ela deveria dar forma ao país amorfo, constituir a nação. Podemos inferir ainda: constituir o cidadão e constituir o trabalhador. Todas as atividades relacionadas à escola seriam como um grande evento social: desde a arquitetura dos prédios, às inaugurações dos mesmos, até as festas escolares cívicas e de promoções para as classes seguintes, denotando o papel da instituição.

Instava-se reabilitar a sociedade improdutiva, organizando o trabalho nacional não apenas instruindo, mas formando cidadãos. As experiências com as revoltas e greves atribuídas aos imigrantes provocava temores aos dirigentes do país que ratificavam a necessidade de uma educação patriótica, pois como se pronunciou Azevedo Sodré em conferência da ABE em 1925, “iletrados adultos que trabalham, produzem, não fazem revoltas, não perturbam, nem anarquizam o nosso meio.” (CARVALHOa, 2003:40). Assim, a escola deveria propagar o ideário cidadão, formar o trabalhador útil à sociedade e não apenas fornecer-lhe a instrução que, sozinha, poderia se constituir numa arma contra o projeto de nação que se queria construir.

Grupos da sociedade como os ex-escravos, os improdutivos, os que não se adaptavam às novas regras do trabalho assalariado, eram vistos como freios ao progresso. A questão do analfabetismo mobilizou diversas instituições como a Liga Nacionalista, que fazia campanhas de alfabetização intrinsecamente ligadas às campanhas de alistamento eleitoral. Dessa forma, o discurso educacional se ligava a interesses políticos no sentido de que a ampliação de sujeitos alfabetizados significava, por conseguinte, a ampliação de cidadãos votantes. Tratava-se, também, de incutir nos brasileiros uma noção comum de cidadania e identidade, bem como conformar os imigrantes aos padrões republicanos. Educar os populares significaria transformar essa sociedade, ainda impregnada por valores monárquicos.

Para fortalecer a ação dos educadores

Criada em 15 de outubro 1924, por Heitor Lyra da Silva, a Associação Brasileira de Educação – ABE – “tem por finalidade congregar educadores, professores, pessoas físicas e jurídicas interessadas no estudo e no debate de assuntos ligados à Educação e à Cultura”2. Ao longo dos anos 20 promoveu várias conferências nacionais, fórum que refletia a efervescência educacional em consonância com a reorganização das forças políticas e sociais.

A historiografia atual, liderada pela pesquisadora Marta Carvalho, revela uma dualidade muito sintomática, em oposição à linha azevediana, também adotada por Jorge Nagle, que afirma estarem na fundação da ABE os “pioneiros da educação”, especialistas educacionais movidos por um “otimismo pedagógico”.

Segundo Marta Carvalho, os pioneiros dos anos 20 era um grupo de forte inspiração católica, perfilando uma entidade autoritária, preocupada com a formação das elites com base numa intensa cultura religiosa. Nessa primeira geração, presente na fundação da ABE, os especialistas em educação não são expressivos, e sim engenheiros e médicos. Não defendem um projeto pedagógico, mas sim político, ocupados com a moldagem da sociedade. É assim que a Escola Nova é adotada: como “um mecanismo eficiente de controle social” (HILSDORF, 2003:83).

Fernando de Azevedo descrevia como “estabilidade e rotina” a educação na Primeira República, estando a escola à margem da preocupação política. Foi alvo de reformas apenas a partir dos anos 20, reformas essas dirigidas por educadores liberais vinculados aos pressupostos escolanovistas; a Escola Nova seria um divisor de águas: antes, o tradicional, o obsoleto; depois, o moderno, o progressista.

O “otimismo pedagógico”, termo cunhado por Jorge Nagle para descrever o movimento dos especialistas em educação, postulando o escolanovismo como a única forma da escola recuperar sua função social, tem sido, portanto, questionado. É de Nagle também a posição de que as reformas educacionais ao longo da década de 20, por estarem capitaneadas por esses mesmos especialistas, vão se tornando menos políticas e mais pedagógicas.

Um meio termo entre tais posições talvez fosse pensar que, em que pese a existência da ABE, as reformas educacionais dos anos 20 se deram a partir do modelo paulista e, mais ainda, em estados que, ao mesmo tempo que questionavam publicamente o predomínio paulista no governo federal, aspiravam um desenvolvimento econômico nos moldes também paulistas.

Corrobora nessa perspectiva a leitura de Marta Carvalho. Ao buscar a trajetória dos primeiros associados da ABE, aponta para uma realidade distinta da historiografia mais tradicional. A ABE encabeçou campanhas pautadas numa similitude entre a escola e a fábrica e, como dito anteriormente, dirigido por médicos, higienistas e engenheiros de orientação católica. Conclui por dois grupos de “pioneiros da educação”: os da década de 20, de formação católica, e os dos anos 30, mais a esquerda, que assinaram o Manifesto. Nos anos 20 predominou uma entidade autoritária e não liberal; sob a orientação dos católicos que entendiam a cultura religiosa como “cimento da nacionalidade e da ordem”.

Portanto, nos anos 20, o grupo que dirige a ABE apresenta propostas de renovação educacional pautadas numa visão conservadora da sociedade, preocupados com o controle e a moldagem dessa sociedade. Nesse âmbito é que a Escola Nova – paradoxalmente, defendida por liberais e católicos, surge como uma pedagogia que substituiria o brasileiro nato – fraco, doente, apático, a exemplo do Jeca Tatu, por outro individuo construído conforme normas de higiene e racionalidade para o trabalho, além dos sentimentos nacionalistas. Em resumo, Marta Carvalho afirma que a Escola Nova agiu no sentido de uma repolitização.

Cabe ressaltar que desde a década anterior, a Igreja Católica vinha buscando uma aproximação tanto com o Estado quanto com Roma, e não por acaso tornou-se a principal mantenedora dos colégios secundários existentes no país. Dentre as ações visando a disseminação e fortalecimento do pensamento católico destaca-se a fundação do jornal A Ordem e do centro de estudos “Dom Vidal”, ambos oponentes ferrenhos do pensamento liberal. Segundo HILSDORF (2003:82), os católicos escolanovistas presentes na ABE deram vazão a um “amplo projeto de conformação social por meio da ênfase na saúde, no trabalho e na moral”.


Educação nas Minas Gerais

Em 1924, no governo de Olegário Maciel, a instrução pública era uma grande preocupação na política estadual. Analisaremos os pontos mais significativos das ações regulamentares a fim de compreender as bases da escola pública e o contexto das reformas posteriores – 1925 e 1927, implementadas, respectivamente, por Sandoval Azevedo e Francisco Campos.

De acordo com a legislação vigente, as escolas públicas eram divididas em três tipos: infantis, primárias e complementares, sendo as escolas infantis divididas em jardins de infância (para crianças de quatro a sete anos) e escolas maternais (para crianças de três a seis anos), esta última uma novidade na legislação. O ensino primário compunha-se de duas categorias: o fundamental e o complementar, sendo o fundamental obrigatório, leigo e gratuito, e o complementar, também leigo, mas facultativo e gratuito para os alunos de baixa renda. As escolas primárias também foram classificadas em rurais, noturnas e ambulantes; distritais, urbanas e singulares; urbanas reunidas e grupos escolares. Quanto ao ensino complementar, este deveria ser prático, técnico e essencial, tendo diferentes currículos nas áreas urbanas industriais (aprendizagem industrial, trabalhos manuais, datilografia escrituração mercantil e etc.); rurais (história natural aplicada à agricultura, agronomia, trabalhos agrícolas, redação comercia e etc.); e comerciais (língua pátria, escrituração mercantil, contabilidade, estenografia, francês ou inglês e etc.). Seriam admitidos na escola complementar alunos maiores de doze anos e menores de dezoito, desde que aprovados no curso primário.

O Regulamento do Ensino Primário, referente ao Decreto 6.655 de 1925, tratou também do funcionamento das escolas. Os estabelecimentos públicos não funcionariam aos domingos e quintas-feiras; na segunda-feira de carnaval; quinta, sexta e sábado da Semana Santa e nos dias de eleição, quando o prédio escolar era requisitado. As grandes datas como o Dia da Bandeira (19 de Novembro), Dia da Árvore (21 de setembro), e a entrega de diplomas deviam ter um ‘programa especial’ nas escolas. A Caixa Escolar foi mantida como em outras reformas, devendo dar assistência e custear a distribuição de gratificações para estimular os alunos, fornecer merenda, roupas, calçados e objetos de uso indispensável e pessoal para os necessitados.

O artigo 489 estabelecia que nas escolas públicas ou particulares subvencionadas poderia ser ministrado, fora das horas de trabalhos escolares o ensino da religião da maioria dos habitantes da localidade. Este artigo, como sabemos, foi uma porta para que o ensino católico prevalecesse dentro das escolas que, mesmo sendo leigas, abriram este espaço para que o catolicismo continuasse sendo a religião eleita pelos mineiros.

Com a entrada do novo presidente do estado de Minas Gerais, Fernando de Melo Viana (dezembro de 1924 a setembro de 1926), as reformas no ensino público ampliaram-se pelas mãos de seu Secretário do Interior, Sandoval Soares Azevedo. No campo educacional, as medidas de maior expressão do governo de Melo Viana foram, principalmente, a aprovação do programa do ensino primário e complementar, criação de muitos grupos escolares no estado, criação do regulamento das escolas normais e a construção de prédios destinados à educação.

Em janeiro de 1925, o Decreto 6.758 aprovou os programas do ensino primário. O Conselho Superior da Instrução Pública, com base no mesmo decreto, elaborou as instruções que deveriam ser observadas nos grupos escolares. Estas instruções eram conselhos ao professor para como proceder com os alunos em atividades de aprendizado, lições, avaliações, material e métodos que fariam parte do ensino das disciplinas em cada ano, de acordo com a idade e a série, e os resultados que deveriam ser alcançados pela turma ao final do curso. O currículo era composto das seguintes disciplinas: leitura, escrita, língua pátria, aritmética, geometria, história do Brasil, geometria e desenho, noções de ciências naturais e higiene, trabalhos manuais, educação moral e cívica, educação física e canto. Estava previsto, também, a formação do museu escolar para o ensino de geografia, história do Brasil, história natural, etc., tendo a função de expor produtos agrícolas e industriais, plantas, animais, e minérios.

No mesmo ano, o Decreto 6.832 aprovou os programas de ensino nas escolas normais, que formavam os professores para as escolas primárias do estado. O sistema das escolas normais baseava-se em uma escola normal modelo, localizada na capital, que supervisionaria as outras escolas normais oficiais do estado, que eram em regime de externato. Escolas particulares equiparadas às escolas normais superiores também poderiam oferecer cursos. As escolas normais deveriam manter escolas primárias anexas, para servir às práticas e estágios das normalistas. O curso normal era composto de fundamental (que visaria completar os conhecimentos do curso primário) e o normal, para a profissionalização propriamente dita. As disciplinas do curso normal seriam: português (gramática expositiva), português (gramática histórica e noções de literatura nacional), francês, aritmética e noções de álgebra, corografia do Brasil e geografia, geometria e desenho linear, história do Brasil, educação cívica e noções de história universal, noções de física, química e história natural, pedagogia, psicologia infantil e higiene, música e canto coral, desenho figurado e caligrafia, costura e trabalhos manuais, e educação física.

Outro ponto importante do governo Melo Viana foi a criação da escola maternal da capital. Para o funcionamento desta escola, Viana mandou construir um “importante e vastíssimo edifício”, com instalações e decoração adequados às atividades que seriam lá exercidas (MOURÃO, 1962:139). Abriu créditos também para a construção e mobiliário dos prédios do Ginásio Mineiro e para o Conservatório de Música da capital. Regulamentou os programas de ensino dos cursos complementares das escolas agrícolas, industriais e comerciais.

Em 7 de setembro de 1926, toma posse como presidente do estado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, que governou até setembro de 1930. O Secretário do Interior, Francisco Luís da Silva Campos, marcou o ensino mineiro ampliando recursos, modernizando as escolas e investindo, intensamente, em uma reforma que se tornou modelo e exemplo para todo país. Para saber do andamento do ensino em Minas Gerais e entrar em maior contato com professores e administradores das escolas públicas, Francisco Campos convocou os professores, em outubro de 1926, para participarem de um Congresso que se realizaria entre 9 a 14 de maio do ano seguinte. A realização de um Congresso de Instrução Pública em Minas Gerais tinha um duplo objetivo: dar aos dirigentes uma visão acerca dos professores do Estado e cooptá-los para levarem à frente a reforma que se pretendia. Marcou o início da formulação das idéias para as reformas de Campos, com base nos relatos dos professores sobre a realidade escolar, formando assim uma síntese geral do contexto educacional mineiro nos anos 20. Realizado o congresso, discutidas as teses, estava preparado o terreno para a execução da reforma. Francisco Campos, reunindo esses materiais, elaborou uma nova legislação estadual, não somente para o ensino primário, mas também para o ensino normal.

A Reforma de 1927 prezava por temas bem diretos que se fizeram cumprir para a efetiva educação e controle dos personagens sociais envolvidos. Destes temas, podemos destacar: a inspeção escolar como forma de controle, incrementando-se a fiscalização realizada pelo inspetor do ensino público que também tinha a ter função de intervir no funcionamento e no trabalho pedagógico da escola; a ênfase no cumprimento do novo programa imposto em todos os seus aspectos, especialmente aos exercícios de educação física e aos modernos processos de ensino (baseados principalmente nas literaturas de Decroly, Dalton Plane, Binet, Froebel, Montessori e outros), ao canto e as excursões escolares; a construção de mais escolas, em que se encontram orientações ao inspetor escolar no sentido de apelar para setores privados e não apenas aos públicos, afinal verifica-se que não era interesse do governo a exclusividade na oferta de escolas, dando uma brecha ao setor privado que estivesse disposto a formar escolas; a defesa da instrução e da educação moral, que gerou como conseqüência dessa ênfase a Associação das Mães, enquanto uma das vias pretendidas para a educação moral dos alunos, ou formação de caráter, vistos como base da formação do bom cidadão; a indicação do ensino de uma especialidade e de trabalhos manuais no grupo escolar, adaptando a escola primária ao meio de desenvolvimento técnico-econômico e preparando as crianças para o trabalho dentro da educação utilitária; a defesa da eugenia, preocupação expressa nos códigos de higiene e ensino de ginástica, como fatores que influem na qualidade das raças, pregando-se também o trabalho de assistência médica juntamente com a família e a escola na proteção às crianças, à sociedade e às raças; a democratização do ensino, a educação popular e o nacionalismo, que são temas correlatos e implícitos nos regulamentos e em praticamente todos os periódicos de época; o papel da Igreja nas escolas, e o seu reconhecimento pelo governo como sendo a religião da maioria dos brasileiros; a valorização e o conseqüente cuidado com as escolas normais, entendendo que pelo pensamento da elite intelectual, somente pela formação adequada dos professores da instrução primária se viabilizaria a prática dos novos processos pedagógicos adotados. O grande exemplo desta preocupação foi a Escola de Aperfeiçoamento da capital, instalada sob a supervisão do próprio ministro.

Com base nessas determinações, podemos inferir algumas considerações. Primeiro: em que pese a referências a novos estudiosos da educação, os pilares da legislação educacional de 1927 não se difere, essencialmente, do que podemos apreciar na Reforma de 1906, que deu origem aos grupos escolares. Ou seja, a legislação apontava para uma realidade que ainda estava por vir, lá nos primeiros anos republicanos, e aqui, num contexto de crise política e social, reafirma a posição de construção dessa realidade. Afirma-se, pois, que o projeto político e social, republicano e formador de uma nação, continuava acertado, mas se faziam necessários reajustes fundamentais para que tal projeto se concretizasse. Novamente a escola é chamada a cumprir a sua função formadora.

Também se pode inferir uma sociedade que vai se tornando complexa, e a escola deve responder a isso: os avanços na formação de professores, que deveria ser feita a partir de princípios científicos; a função primordial dos inspetores; o papel da religião na conformação social; e os avanços no campo do processo de aprendizagem, com um olhar mais atento aos alunos, repercussões inequívocas do modelo escolanovista que chegava ao Brasil.
Em Mariana, uma equação complexa: política, religião e educação

Na República Velha, a Igreja se caracterizou pela continuidade do processo de romanização, pela busca de um crescimento na participação e poderio na sociedade, resultando na criação de diversas novas dioceses e espaços católicos, fez aumentar a sua esfera de influência. Era um período de readaptação, tendo em vista que era a primeira vez que a Igreja se via formalmente separada do Estado e era promulgada uma3 Constituição laica. Apesar desse laicismo, a Igreja manteve boa relação com o Estado e com os grupos abastados, o que contribuiu para o seu crescimento e para a manutenção do seu lugar na sociedade. Nesse contexto, a preocupação era, de modo especial, como reafirmar seu poderio e a esfera de influência sobre o Estado e a elite agrária mineira, favorecida pela prosperidade trazida pela venda de café.

Em Mariana, essa realidade se repetia, com algumas particularidades. Historicamente, uma cidade cuja população formou-se numa íntima e tradicional relação com a religiosidade católica, desde a época de sua fundação em 1711. Exemplo disso foi a instalação da sexta diocese do Brasil, em 1748, menos de 40 anos após a fundação da vila, marco de ímpar importância para o estado e para a região. Pensando que a influência católica se entrelaçou de tal forma com a política, a cultura, a sociedade e os moradores da cidade, por tanto tempo, não há como pensar o contexto da cidade em separado da presença da Igreja.

Na perspectiva de Dom Leme, pensador e Cardeal de Olinda, a Igreja deveria expandir e, dentro do espírito de fortalecimento das instituições católicas, a diocese de Mariana foi elevada a Arquidiocese em 1906. Na década de 1910, em Minas Gerais, o estado mais católico do Brasil, a Igreja organizou um forte movimento de Ação Católica, elaborou petições com centenas de milhares de assinaturas para defesa dos interesses católicos, estimulou o desenvolvimento institucional e buscou recuperar e ampliar o prestígio e a influência. Isso fez parte da reação à decisão do governo de abolir o ensino religioso das escolas.



Com o olhar mais adiante, para atingir o foco da nossa pesquisa, mesmo que a Igreja marianense tenha perdido espaço com a República e a Constituição de 1891, sua tradicional influência nas decisões não terminou com essa4 ruptura. Apesar da separação formal entre a Igreja e o Estado, não ocorreu um distanciamento irrevogável, pois a Igreja continuava a ver o Estado como um grande aliado para tornar-se a instituição mais consolidada e conseguir brechas para ainda manter-se no posto de religião eleita pelos cidadãos. Assim, entre 1910 e 1930, podemos perceber um processo de reaproximação com o Estado, iniciado com a organização de partidos políticos católicos, como o Partido Regenerador de Mariana, que funcionou entre 1908 e 1911. No âmbito nacional, em 1925, o Presidente Artur Bernardes tentou uma reforma constitucional, e a Igreja Católica buscou introduzir pontos que flexibilizassem a posição do Estado frente ao ensino religioso, facultativo nas escolas públicas desde a Constituição de 18915.

Mesmo com as devidas aproximações para a manutenção e sobrevivência dos interesses de ambas as partes, o diálogo nem sempre se deu de forma harmoniosa. Em Mariana, a Igreja estava atenta às intervenções do grande expoente republicano na cidade, Dr. Gomes, como era chamado pela população.

Gomes Henrique Freire de Andrade, formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Além de professor da Escola de Farmácia de Ouro Preto, era médico da Companhia da Mina de Passagem e ocupou vários cargos políticos. Como Presidente da Câmara Municipal e Agente Executivo foi o grande ativista republicano na cidade. E sua atividade política era variada: desde a tribuna executiva e legislativa, passando pelo jornal, pelo grupo escolar, até uma banda musical. Iniciou sua atuação política como congressista na Assembléia Constituinte estadual, em 1891, e, somente no final da década de 20 sua influência se ofusca, resultando, inclusive, na transferência para Belo Horizonte, com toda a família. Como republicano convicto, suas relações com a Igreja eram polidas e políticas.

Como já citado, a efervescente década de 20 fortaleceu correntes de pensamento que alcançaram patamares significativos desde o início da República, concretizando-se cada vez mais até a Revolução de 30, que mudou as lideranças de governo. Em Minas Gerais o campo educacional estabilizava-se, com as reformas exemplares nos grupos escolares e nas escolas normais, mostrando uma articulação republicana de fortes laços regionais que, em locais estratégicos, mantinha a coesão do grupo no comando político. Os grupos de liderança republicanos tinham forte respaldo no poder executivo e, em Mariana, o jogo político sofria uma maior tensão pela proximidade com a capital. Soma-se a isso a liderança de Gomes Freire – muito popular também como médico que atendia gratuitamente os menos favorecidos, aliado das lideranças regionais e forte articulação com o governo estadual. Isso enfraqueceu a força política da diocese local, que não encontrava respaldo suficientemente forte para se opor às decisões tomadas no âmbito municipal.

Porém, as mudanças nesse cenário viriam. Um exemplo disso é a mudança do nome do Grupo Escolar de Mariana que, em 1914 passou a se chamar Grupo Escolar “Dr. Gomes Freire”, implicitamente mais do que uma homenagem ao grande benfeitor republicano, mas uma clara demonstração da hegemonia das redes de poder que estavam presentes no período; e, em 1931, tornar-se o Grupo Escolar “Dom Benevides”.

Se entendermos que a mudança de lideranças políticas no país se alterou radicalmente depois da Revolução de 30, e que a Igreja local, insatisfeita com os mandos e desmandos do grupo de Gomes Freire apóia as lideranças conservadoras em torno do golpe de 30, e aí muda-se o nome do grupo escolar, temos um fato que, de forma alguma, é mera coincidência. Após a Revolução de 30, Gomes Freire saiu da cidade, hostilizado pelas novas lideranças, perdendo totalmente sua influência e força política. E, exatamente, em 1931, o grupo escolar sofre a alteração do nome, mantido até os dias atuais. Todo esse processo de embate político já estava ocorrendo na segunda metade da década de 20, e se concretiza na década seguinte, quando a Igreja recobra a voz e o espaço perdidos quando o grupo republicano imperava na cidade.

Resta considerar que, enquanto Agente Executivo e presidente da Câmara Municipal, a atuação de Gomes Freire não se restringiu ao grupo escolar. Pelas atas da Câmara, observa-se sua preocupação com a manutenção da educação na cidade e distritos: gastos fixos destinados ao distrito de Passagem, para a ‘instrucção (escola nocturna)’; despesas com a gratificação a uma professora para o districto de Sumidouro; auxílio à construção de uma escola na povoação de Cachoeira do Brumado, etc.
O Grupo Escolar de Mariana: política e instrução

Fundado em 1909, o Grupo Escolar de Mariana insere-se no contexto da instalação dos grupos escolares em Minas Gerais, em resposta à Reforma João Pinheiro de 1906. Em torno de sua fundação, havia um forte aparato político configurado no Partido Republicano de Mariana, sob a direção de Gomes Henrique Freire de Andrade. Sob sua direção, somavam-se mais de uma dezena de partidários republicanos que se revezavam em diversas atuações, sempre com o mesmo objetivo: divulgar o republicanismo.

Dentre essas atuações estava o grupo escolar, instituição que é objeto do nosso estudo; mas também é digno de nota a ação através de um jornal, O Germinal, e uma banda de música – União 15 de novembro. Tanto o nome do jornal quanto da banda carregam uma simbologia digna de estudo.

A história dessa instituição de ensino nos traz aspectos comuns à realidade dos grupos escolares da época – racionalização do trabalho do professor, classes seriadas, corpo docente majoritariamente feminino, reunião de escolas isoladas, preocupações com a homogeneidade do trabalho docente expressa nas ações de inspeção escolar, etc. – como também nos apresenta particularidades que traçam um cotidiano peculiar, porque construído por sujeitos distintos. Dentre tais sujeitos, no âmbito interno à escola, mas que também era responsável pelo diálogo externo no campo político, citamos, especialmente, o primeiro diretor da escola – José Ignácio de Sousa, que esteve à frente da mesma por quase uma década.

Da sua atuação, destaca-se o esmero e o capricho em fazer valer os pressupostos republicanos. Com base nas correspondências trocadas com a Direção da Instrução Pública, podemos intuir um temperamento forte, idealista, cônscio dos seus deveres; uma personalidade que traduzia, por inteiro, a mentalidade da época. Atribuímos a ele, na direção da escola, a consolidação da própria instituição, num cenário nem sempre favorável à essa nova escola que se impunha à sociedade. Fez cumprir a legislação à risca, sem se afastar um milímetro do que pregava a bíblia republicana. Num espaço onde a bíblia católica exercia uma influência profunda!

Muito próximo de Gomes Henrique Freire de Andrade que, por sua vez, era amigo pessoal de João Pinheiro, sua compreensão acerca da função social da educação e, por extensão, da escola, fez com que tratasse o tema como sacerdócio. Aqueles que não se alinhavam a essa crença eram tratados como inimigos. Exemplo disso é o relatório das atividades do grupo escolar de 1911, que dirige ao secretário de estado dos Negócios do Interior, denunciando o comportamento indisciplinado de algumas professoras, mas também elogiando aquelas que souberam se conduzir em sala de aula conforme os preceitos da modernidade escolar.

Outra mostra do rígido cumprimento do aparato legal e simbólico da República, temos o exemplo da criação da Caixa Escolar “Gomes Freire”, inaugurada no dia da Bandeira, cujo objetivo era estimular a maior freqüência dos alunos no Grupo Escolar. Some-se a isso as festas cívicas, comemoradas no interior do espaço físico da escola como também em praças públicas, contando, sempre, é claro, com a participação da Banda União 15 de Novembro. Festas, aniversários dos professores, promoções e premiações, ou seja, todos os movimentos da escola eram noticiados em O Germinal.

Ao lado das transformações ensejadas pelo regime político recém instaurado, podemos inferir que o currículo educacional trazia consigo os anseios dessa sociedade. O conceito de trabalho pode ser tomado como exemplo no sentido de que, nesse momento, ainda estava fortemente ligado à idéia de escravidão, recém abolida. Essa sociedade tinha no trabalho a esperança de sua alavanca progressista. Urgia-se alterar a relação dos cidadãos com o mesmo, e a educação fez parte da produção desse novo saber e/ou nova prática.

Desde 1906, nas “Instruções metodológicas para o ensino primário”, divulgadas pelo Decreto 1.947 de 30 de setembro conhecido como Reforma João Pinheiro, verifica-se a necessidade de, a partir da instituição escolar, alterar-se a concepção acerca do trabalho, legada pelo regime político anterior. Em 1911, José Ignácio de Souza demonstrava sua preocupação com as atividades práticas dos alunos como podemos verificar em passagem de seu relatório de atividades enviado a Delfim Moreira da Costa Ribeiro, Diretor da Instrução Pública:

“Seria de grande vantagem a creação de um campo pratico de agricultura, anexo ao grupo, que viria ensinar os meninos, amar a terra, as arvores, e o trabalho, rompendo, deste modo, com preconceitos mal entendidos de muitos, para os quaes o trabalho é humilhante.”


Podemos verificar, ainda, através do regulamento de 1906, que as atividades eram direcionadas de acordo com o sexo. Às meninas cabia-se “familiarizar-se com utensílios do trabalho doméstico”. Ao deixar a instituição, a menina devia possuir a competência de “execução de peças de vestuário”, bem como executar “trabalhos comuns da vida doméstica, para ser desde logo útil a si e à família”. Em 1913, inseriu-se além da produção de peças diversificadas, trabalhos em tricô, crochet, fabrico de envelopes e pacotes, bem como engomar peças de vestuário. (MOURÃO, 1961:275, 279 e seg.)

De outra forma, os meninos deviam habituar-se ao trabalho metódico, familiarizando-se com ferramentas. Confeccionariam pacotes, modelariam cerâmica, bem como aprenderiam a trabalhar com arames e madeira.

Verificamos através do balancete da Caixa Escolar do Grupo Escolar de Mariana que ocorre em 1913 uma doação de uniformes para os alunos de maior necessidade. Algo que nos chamou a atenção refere-se ao fato de que aos meninos doou-se o uniforme, e às meninas doou-se apenas o tecido, o que nos faz imaginar que estas deveriam confeccionar seus próprios uniformes, comprovando a efetivação das disciplinas de trabalhos manuais e a flagrante diferença entre o papel feminino e masculino nesta sociedade. Se ao homem caberia o trabalho, a ação cidadã ativa a partir do voto, por exemplo, à mulher caberia a manutenção do lar e a garantia da reprodução do grupo familiar. De acordo com HILSDORF (2003), a mulher teria sua formação científica e moral atualizada pelas instituições escolares, pois deveria atuar como mãe e esposa zelosa de bons cidadãos.

Em 1914, o Grupo Escolar de Mariana recebe a denominação de Grupo Escolar “Gomes Freire”, tido como patrono da escola, presente em todas as cerimônias solenes, festas e atividades diversas promovidas pela escola. Seu nome já estava vinculado à Caixa Escolar e agora, recebia essa outra homenagem. À época, Gomes Henrique ainda ocupava o cargo de Agente Executivo e Presidente da Câmara Municipal de Mariana, além de médico – eram dele todos os atestados médicos das professoras do grupo escolar que chegavam à Direção da Instrução Pública do estado – e professor na Escola de Farmácia – onde, segundo intuímos, teria se dado o primeiro contato com José Ignácio de Sousa, farmacêutico formado por essa escola. A alteração do nome da escola denuncia o movimento e a força política do grupo republicano, a despeito de outras forças existentes em Mariana, consideradas mais conservadoras, as quais contavam com um apoio mais expressivo da Igreja Católica. Consoantes ao apreço aos valores republicanos, José Ignácio e Gomes Henrique acatavam, com convicção, a separação entre a Igreja e o Estado. Filho da terra, Gomes Henrique mantinha uma convivência respeitosa com os principais da Igreja Católica, sediada em Mariana enquanto Arquidiocese; ora mais próximo ora mais distante do Bispado.

Nos últimos anos da década de 10, mais precisamente em 1917, José Ignácio afastou-se da direção do Grupo Escolar “Gomes Freire”. Havia se transferido para o extremo oeste do Estado de Minas Gerais, hoje conhecido como Triângulo Mineiro. Inicialmente, estabeleceu-se em Ituiutaba e depois transferiu-se para Uberlândia. Nessas cidades atuou profusamente no campo educacional, a ponto de ser homenageado com seu nome em uma escola estadual em Uberlândia.

Sua saída da escola ainda é uma incógnita. Por um lado, parece ter sido intempestiva, pois o inspetor regional Arthur Napoleão foi chamado para atender à vacância do cargo, em novembro de 1917, e dar início aos exames finais de praxe. Por outro lado, encontramos documentos que indicam uma denúncia contra diretor do Grupo Escolar de Ituiutaba, para onde se dirigiu José Ignácio e lá atuou, durante os anos 20, como diretor. Teria sido José Ignácio convidado a assumir a direção deste grupo?

Em março do ano seguinte, assume a direção do Grupo Escolar “Dr. Gomes Freire”, José Candido Monteiro, removido de Campo Belo, que ocupou o cargo até agosto. Cabe destacar que a posição de diretor do grupo escolar era um cargo político, um cargo de confiança, não necessariamente ocupado por um professor de carreira. Merece, portanto, maior investigação quanto às causas da indicação de José Candido Monteiro. A partir de agosto, assumiu a diretoria Olympia Santos, professora do estabelecimento, que dirigiu a escola durante toda a década de 20.

Na documentação primária da escola – “Termo de Posses – 1906 a 1964”, existem registros das estagiárias, já sendo chamadas de normalistas porque frequentavam o curso normal, e tinham o grupo escolar como campo prático. Essa atividade revela a importância que se dava à prática na formação do magistério. Com esse mesmo objetivo, ao longo dos anos 20 era muito comum o diretor de um grupo escolar participar de comissões de exame final nos cursos normais do estado. Por exemplo: em 1922, José Claudino dos Santos, professor do Grupo Escolar “Dr. Gomes Freire”, atuou como examinador nos exames da Escola Normal São Paulo, em Muriaé6. A intenção é que, em sendo professor ou diretor de um grupo escolar, teria maiores elementos para julgar a competência das futuras professores. Em geral, esses examinadores elaboravam um relatório dando conta da infra-estrutura da escola, do corpo docente, da matriz curricular e da documentação escolar.

Na cidade de Mariana havia o Colégio Providência, que oferecia o curso normal, de orientação católica, destinado às moças, em regime de internato e externato. A mesma documentação indicava um movimento de remoção e deslocamento de professores, atuantes nos distritos e em escolas isoladas, para o grupo escolar da cidade. Essa realidade mudou, principalmente na segunda metade da década de 20, quando as estagiárias se apresentavam à escola e se efetivavam como professoras, denotando uma estabilidade do seu corpo docente com normalistas formadas na própria cidade e localidades vizinhas, que optaram por terminar seus cursos de prática no Grupo Escolar de Mariana.

Outro ponto interessante do cotidiano do grupo escolar nos anos 20 são as relações descritas no livro ‘Inventário geral da escola’. Os livros recebidos têm títulos bem claros para suas funções: 20 exemplares da ‘Pátria Brasil’ de Bilac e Coelho Neto; 11 de ‘Catecismo Cívico’ de Mario Brant; e 1 ‘Teatro Cívico’ de Carlos Góes são exemplos da literatura da escola. Confrontando tal documentação com a existente sobre os materiais pedagógicos adquiridos pela Secretaria do Interior, encontramos os mesmos títulos, ou seja, tais livros eram comprados pelo estado e distribuídos para os grupos escolares7.

Os objetos também interessam para se pensar sobre o ensino das disciplinas da época. Ainda no livro, há menção a uma grande coleção de mapas recebidos pela escola em 1927 como ‘mappa da Ásia, África, Europa, América do Norte, América do Sul, Minas Geraes, Accidentes Geographicos, Brasil, Mundi ou Globo, Figuras Geométricas e Systema Métrico’ e ainda ‘Carta de Parker’, ‘Cartas de Linguagem e Aritmética’, e ‘Colecção de 29 cartões de História Natural’. Pelo que vimos, a ilustração se fazia presente a todo o momento no método de ensino dos professores do grupo escolar, e convém observar um bom investimento financeiro neste material feito pela Secretaria do Interior, semelhante ao que já informamos sobre os manuais escolares. Convém notar que não era material suficiente, pois os pedidos se repetiam nas correspondências enviadas à Diretoria de Instrução Pública.

Outros objetos que chamam atenção são a encomenda de uma ‘bandeira nacional’, um ‘quadro da história de Minas Gerais,’ livros como ‘Cânticos infantis’ e ‘Festas Nacionais’, em total acordo e sintonia com o pensamento republicano da época. Havia um claro interesse pelo culto patriótico na escola, que extrapolava para a comunidade marianense, na forma de festas de caráter local e nacional, tendo a música sempre presente. A tradição das bandas já se fazia presente, destacando a União XV de Novembro, fundada pelo próprio Gomes Freire. Responsável por inúmeras apresentações em logradouros públicos, às vezes fora de Mariana, a ela coube a honra de executar, pela primeira vez, o “Hino de Mariana”, com música de Antônio Miguel e letra do poeta Alphonsus de Guimaraens.

Levar estas festas para as ruas e praças de Mariana pelos alunos da escola como relatado em jornais da década de 20, era mostrar a força do ideário de sociedade que a república tinha o orgulho de inaugurar. A escola, vista pela população nas festas, na disciplina dos alunos e na propaganda dos jornais foi tornando-se referência do regime republicano perante a comunidade, um exemplo vivo da atividade de um governo que transmitia seriedade, competência e modernidade nas ações, e assim ganhava apoio e adeptos entre a comunidade, contribuindo, mais uma vez para o enfraquecimento da Igreja na cidade.

Tal realidade se fez presente em todas as minas, como denuncia uma correspondência de José Ignácio de Sousa, como diretor do Grupo Escolar de Ituiutaba, informando que os filhos dos grandes da cidade já se matriculavam nesta instituição.8


Fontes Primárias

Arquivo Público Mineiro, Fundos da Secretaria do Interior.

Acervo da Escola Estadual “Dom Benevides”

Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Mariana

Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana
Referências Bibliográficas

CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

CARVALHO, Marta Maria Chagas. A Escola e a República e outros ensaios. Bragança Paulista: EDUSF, 2003(a).

CARVALHO, Marta Maria Chagas. Reformas da Instrução Pública. In: LOPES, E. M. T. ; FARIA FILHO, L. M. 500 anos de educação no Brasil. 3ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003(b). pp.225-251.

CARVALHO, Rosana Areal, FARIA, Vinicius Leal, MÁRQUES, Elisângela Fátima. Grupo Escolar de Mariana: educação pública em Mariana no início do século XX. Revista HISTEDBR online, Campinas, n.21, março/2006, p.2-14.

HILSDORF, Maria Lucia Spedo. História da educação brasileira: Leituras. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

GOUVEIA, Maria de Lourdes Caudas. Miragens Positivistas. In: LOPES, A.; GONÇALVES, I.; FILHO, L; XAVIER, M. (Org.). História da educação em Minas Gerais. Belo Horizonte: FCH/FUMEC, 2002. p.127-135.

IANNI, Octávio. Pensamento social no Brasil. Bauru, São Paulo: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 2004.

MOURÃO, P. K. O ensino em Minas Gerais no tempo da República. Belo Horizonte: Centro Regional de Pesquisas Educacionais de Minas Gerais, 1962.

PASSOS, M. Entre a fé e a lei: o pensamento educacional católico no período republicano (1889-1930). In: LOPES, A.; GONÇALVES, I.; FILHO, L; XAVIER, M. (Org.). História da educação em Minas Gerais. Belo Horizonte: FCH/FUMEC, 2002. p. 183-195.



PILLETI, Nelson. História da Educação no Brasil. São Paulo: Ática, 1995.



1 Art. 1° do Decreto nº 1 075, de 22/11/1890

2 www.abe1924.org.br

3 Verificar que a idéia está repetida no texto.

4 Rever .

5 Deslocar para cenário nacional.

6APM, SI2600.

7APM, SI1106, SI4041.

8 APM, SI4054.


Catálogo: acer histedbr -> seminario -> seminario8 -> files
files -> Cartas sobre a educação infantil
files -> Os professores e seu papel na sociedade imperial
files -> Os projetos educacionais do empresariado industrial mineiro associado a fiemg a partir das diretrizes educacionais da cni (1980-2000) Jane Maria dos Santos
files -> Processos históricos e educacionais da escola alemã da colônia riograndese – sp (1924-1938)
files -> Experiências Educacionais Libertárias no Brasil: Autonomia, Solidariedade e Liberdade Ingredientes para uma ação educativa eficaz
files -> A pedagogia Libertária e a Educação Integral Angela Maria Souza Martins Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – unirio neb/Grupo do histedbr – unirio introdução
files -> O projeto tavares lyra e sua proposta de reforma para o ensino secundário no brasil. A instruçÃo pública no início do século XX
files -> ContribuiçÕes de tomás de aquino para a história da educaçÃO: interrelaçÕes entre ética e educaçÃO
files -> Os jesuítas e o ensino de filosofia no brasil
files -> Ginásio de conquista


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal