A educaçÃo no processo de constituiçÃo de sujeitos: o dito nas produçÕes e o feito no cotidiano



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A EDUCAÇÃO NO PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DE SUJEITOS: O DITO NAS PRODUÇÕES E O FEITO NO COTIDIANO

Na grande Enciclopédia Delta Larousse, vou buscar uma definição de pantaneiro. “Diz-se de, ou aquele que trabalha pouco, passando o tempo a conversar.” Passando o tempo a conversar pode ser que se ajuste a um lado da verdade; não sendo inteira verdade. Trabalha pouco, vírgula. Natureza do trabalho determina muito. Pois sendo a lida nossa de a cavalo, é sempre um destampo de boca. Sempre um desafiar. Um porfiar inerente. Como faz o bacurau. No conduzir de um gado, que é tarefa monótona, de horas inteiras, às vezes dias inteiros- é no uso de cantos e recontos que o pantaneiro encontra o seu ser. Na troca de prosa ou de montada, ele sonha por cima das cercas. É mesmo um trabalho na larga, onde o pantaneiro pode inventar, transceder, desorbitar pela imaginação. Porque a maneira de reduzir o isolado que somos dentro de nós mesmos, rodeados de distâncias e lembranças, botando enchimento nas palavras. É botando apelidos, contando lorotas. É, enfim, através das vadias palavras, ir alargando os nossos limites. BARROS, Manoel de. Lides de Campear. In: Gramática Expositiva do Chão. (Poesia Quase Toda). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1999. p,239


SONIA DA CUNHA URT
Antecedentes e justificativa
Na sociedade contemporânea torna-se emergente o trato das questões relacionadas ao meio ambiente. Alguns trabalhos acerca da temática ambiental consideram a necessidade de uma visão interdisciplinar para a compreensão desse objeto. Entretanto, a figura humana como motivo e motivadora destes estudos ambientais não tem sido personagem principal.

A maioria dos estudos realizados sobre o pantanal sul-mato-grossense tem privilegiado como objeto de investigação a fauna e a flora da região. Estudos mais recentes acerca da região pantaneira evidenciam essencialmente a figura do homem para a compreensão desse ecossistema, contudo, esses trabalhos ainda são escassos.

Conforme aponta Caruso no prefácio da obra “Pantanal: homem e cultura”, Nogueira (2002): “Tiranicamente, fauna e flora dominam, sufocam qualquer lembrança para além dela mesma. Pantanal é mata e bichos, brejo e peixes, rios e aves. O homem, no entanto, quando é lembrado é apenas vilão”. (p.9)

Nessa direção que estudos mais recentes acerca da região pantaneira, evidenciam essencialmente a figura do homem para a compreensão desse ecossistema, entretanto estes trabalhos ainda são escassos.


É dentro desta perspectiva de valorização do particular, entrelaçado num todo maior, onde cada uma das particularidades tem a sua função peculiar, na constituição global, que se pretende enfocar o universo cultural pantaneiro, colocando o homem como elemento essencial para a sobrevivência do ecossistema como tal. (NOGUEIRA, 1989, P. 137)
Mais raros ainda são os estudos que, além de centrar o foco no sujeito, articulem a relação homem, educação e cultura.

Duas dissertações orientadas por nós (FINOCCHIO, 1998; GOMES, 1995) centraram seu foco de investigação na educação do homem e da mulher que vivem no pantanal sul-mato-grossense. A primeira resgatou o processo de constituição do sujeito da região do pantanal do Paiaguás e a segunda ofereceu um retrato das mulheres pantaneiras da região da Nhecolândia.

Diante desse quadro, nossa tarefa é contribuir na produção de conhecimento que contemple a condição do sujeito pantaneiro que se faz através da apropriação da cultura pela educação.

Sendo assim, há necessidade de se organizar e analisar a produção já existente acerca do homem e de sua educação na região pantaneira evidenciando os aspectos que vêm sendo destacados e privilegiados, em diferentes momentos históricos. As várias formas de expressão acerca do homem pantaneiro encontram-se, de certa forma, pulverizadas impossibilitando a percepção do processo de constituição de sua identidade.

Para se ordenar, do ponto de vista acadêmico, as produções científicas acerca de uma temática, faz-se necessário que se busque as possibilidades de integração das diferentes perspectivas de aproximação de um determinado fenômeno, a fim de evidenciar as tendências, os destaques e os espaços ainda não investigados. As outras formas de expressão da produção da dita cultura pantaneira também são manifestações da sociedade, sujeita aos mesmos parâmetros de sistematização e análise para que se possa avançar na compreensão do objeto desta pesquisa: o conhecimento do homem pantaneiro e as formas como ele se apropria da cultura através da educação.

Em face deste contexto, considera-se fecunda a proposição de uma investigação acerca da constituição dos sujeitos que vivem na região do pantanal sul-mato-grossense centrando-se na tríade: homem – educação e cultura. Parte-se da premissa que os estudos no campo da diversidade cultural não se limitem apenas à singularidade da regionalidade, mas pautem-se pela relação entre o particular e o universal.

Conforme o indivíduo vai interagindo nos contextos sociais durante sua vida, ele vai internalizando os conteúdos que foram desenvolvidos na história e na cultura da sociedade. Nesse movimento, nas experiências vivenciadas no dia-a-dia, dá-se a apropriação do saber e do fazer da sociedade, determinantes do modo de ser, pensar e agir das pessoas.

Dessa forma, cabe investir na desmistificação das diferenças culturais, trazendo à tona aquelas construídas historicamente pelas estratégias do capital. A cultura, considerada como processo que vai além das aparências, deve revelar as causas reais dos fenômenos sociais e políticos, contemplando as determinações da economia e da sociedade.

É através da educação que o homem se apropria da cultura e dos bens disponíveis pela humanidade. Compreender o homem pantaneiro implica, portanto, em apreender as formas de apropriação da cultura, seja no espaço da educação formal ou não – formal.

Nas produções já realizadas, que abordam o homem dessa região, buscar-se-ão indícios dos processos educativos presentes no modo de produção material da existência dos sujeitos pantaneiros. Para conhecer o homem pantaneiro precisamos evidenciar os mecanismos e a dinâmica presentes nesse modo de apropriação da cultura por meio da educação.

No espaço pantaneiro, recortado pela seleção de duas fazendas no pantanal sul-mato-grossense, será investigado o papel da escolarização na vida dos sujeitos que vivem nessa região e de como a existência da escola pantaneira com suas especificidades garante, ou não, o acesso à educação que vá além da mera relação campo x cidade.

Analisar as produções realizadas sobre o homem pantaneiro e sua educação e, ademais explicitar o cotidiano desse homem em uma situação de escolarização, em seu lócus, favorecerá encaminhamentos para possíveis programas e políticas. Serão afetadas tanto as pessoas que vivem nessa região, quanto os demais sul-mato-grossenses que poderão perceber o Pantanal muito além de suas cores e aves: o pantanal que forja aqueles que lá vivem e que manifestam na sua singularidade a realização do universal, a expressão da organização da sociedade.


Objetivos
Objetivo Geral:
Investigar a constituição dos sujeitos que vivem na região do pantanal sul- mato-grossense, explicitando como se dá o processo de apropriação da cultura que se faz através e pela educação.
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