A elevaçÃo no reaa aumento de salário do Aprendiz



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Encontro29.07.2016
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A ELEVAÇÃO NO REAA

Aumento de salário do Aprendiz
Assim como as cerimônias religiosas, as peças de teatro e outros ritos sociais, a Elevação no REAA também é uma dramatização. Especialmente na Arte Real e nas cerimônias religiosas tradicionais, essa dramatização tem pelo menos duas funções: contar uma história - real ou lendária - que é considerada importante e simultaneamente inserir o participante na história daquele grupo, com toda sua tradição.

É desse ângulo que prefiro olhar a cerimônia de Elevação, quando os Aprendizes, considerados aptos, recebem seu aumento de salário, isto é, são promovidos no corpo da Loja.

Enquanto aprendiz, que nas oficinas medievais exigia uma dedicação de 7 anos sob a orientação de um mestre naquele ofício, o jovem aprendia a utilizar os vários instrumentos, ia incorporando os hábitos daquela profissão, aprendia a linguagem própria daqueles profissionais (jargão), obedecia às ordens e não se sentia ainda seguro bastante para questionar ou propor.

Em uma Loja Simbólica, o processo é revivido simbólica e praticamente. Não se exige mais 7 anos de preparação, mas o aprendiz ainda vai aprendendo vagarosamente os instrumentos da Arte que vai desenvolver, sua utilização na vida prática, vai adquirindo uma linguagem própria daquela Arte, sentindo-se cada vez mais parte da história daquele grupo.

Assim como quando ingressou pela sua Iniciação, se aprendeu devidamente o que lhe foi ensinado e cumpriu corretamente o que lhe foi pedido, está apto para ser Elevado a Companheiro.

Os companheiros já são considerados, como o nome diz, trabalhadores habilitados naquela Arte. Já sabem o bastante para perguntar, questionar e discutir. Não estão mais submetidos ao rigor do silêncio que lhes foi quase que natural durante o noviciado. Já poderão assumir alguma função na Loja por solicitação do Mestre e saberão bem desempenha-la se foram realmente bons Aprendizes.

Compreenderão bem isso quando aprenderem "os passos" de sua Arte. Enquanto Aprendizes, se mantinham em linha reta, dando um passo de cada vez, cuidadosamente, juntando sempre os pés a cada passo, para não errarem. A palavra que o orienta em sua caminhada, sua Palavra "Sagrada", é BOAZ, que significa "na força". É na força da dedicação, do estudo, da observação, no esforço, que vem do latim exfortiare, mostrar força. Como Aprendiz lhe é dado, a princípio, uma pedra bruta, um maço e um cinzel e ele deverá lapidar com paciência até que, medindo corretamente com a régua e o esquadro, possa dizer ao Mestre que seu trabalho está pronto. É claro que essa pedra é ele mesmo, o maço é a força que coloca no trabalho de aprender sobre si mesmo, com a precisão utilizada através do cinzel e sempre esquadrejando com a régua e o esquadro para ver se está "modelando" bem.

Notemos que o Aprendiz não está ali, a princípio, para tornar-se algo; ele está ali para aprender um trabalho. Sua tarefa é realizar as tarefas que lhe são dadas, observar atentamente o uso dos instrumentos, ouvir atentamente, imitar as ações dos Companheiros e Mestres. Ao fazer isso com dedicação e paciência ele vai, automaticamente, se tornando algo, aquele ser que ele veio construir. O primeiro passo, lá em sua Iniciação, tornou-se uma longa caminhada que, espera-se, durará para toda sua vida.

Enfim, o mentor de seu grupo - sua Coluna -, o Primeiro Vigilante, comunica ao Venerável Mestre da Oficina que ele está pronto. Irmãos de outras funções na Oficina - o Chanceler e o Tesoureiro - informam que ele não deixou de contribuir com sua frequência e moedas para seu aprendizado. O Venerável Mestre manda aprontar a cerimônia pela qual esse Aprendiz receberá seu aumento de salário e será promovido.

É uma festa e ao mesmo tempo uma apresentação aos novos companheiros de trabalho. Vai trabalhar em outro grupo dentro da Obra, aquele que fica na área Sul. Outra Coluna, como falam por aqui. Nessa cerimônia festiva contarão um pouco mais da história daquele grupo que trabalha na obra bem antes dele chegar, que, por sua vez, veio substituindo outros trabalhadores que substituíram outros trabalhadores, desde os tempos em que a memória já se perdeu.

Ele se despede de seu velho Vigilante realizando um último trabalho rápido na pedra bruta que um dia foi o seu "modelo". Ele já está esquadrejado e polido. Seu trabalho agora será mais afinado e delicado. Mais sutil e artístico. Menos bruto. Exigirá mais Estabilidade - sua nova Palavra Sagrada - do que Força.

Agora ele já pode circular dentro da Oficina, por suas Colunas, e para isso recebe um "crachá" - uma Palavra de Passe - que não possuía como Aprendiz. Ainda não tinha essa liberdade. Ainda não pode adentrar o Oriente, onde os Mestres trabalham no Plano da Obra, mas todo o Ocidente lhe é franqueado sem limites.

Seu caminhar já expressa essa liberdade relativa, pois seus passos já podem desviar-se para a direita e para a esquerda. Ainda buscam sempre a segurança do "meio", da reta, mas já podem se atrever a avaliar outras paragens, buscar outras fontes de inspiração, imaginar outras maneiras de realizar sua tarefa, deixar um pouco os manuais rígidos e estudar a Natureza - física, social e psíquica - em busca de novos instrumentos. Seu estudo já incluirá menos treinamento e mais reflexão, mais pensamento.

A dúvida, por sua vez, será maior, pois com a liberdade surge sempre esse terrível número 2 - sobre o qual já foi alertado - sempre questionando, sempre duvidando, sempre inquerindo, sempre desafiando.

Enquanto Aprendiz, caminhou do 1 ao 4. Começou bem no início e lhe foi apresentado um novo modelo possível, um segundo modo de ver, de pensar e de sentir. Mas mãos seguras não permitiram que essa duplicação o perdesse. Daí encontrou um terceiro caminho, uma síntese, onde o modelo que ele era e o modelo que lhe foi apresentado iam se conjugando num modelo simultaneamente novo e antigo, onde coisas novas entravam, mas coisas antigas permaneciam. Esse modelo novo se formava seguro, ultrapassando a dualidade da dúvida e da crise de crescimento. Enfim a obra se realizou, ainda dentro de um plano material formado por informações, conceitos, símbolos, ideias e hábitos. Obra que se traduzia num cubo, com 4 lados, nenhum deles se estendendo ainda para o Alto, como a pirâmide. Talvez um dia sobre esse cubo se projetasse uma pirâmide, elevando-se para o Alto como um dia os homens tentaram fazer na Torre de Babel.

Começaria nessa nova função, aceito como Companheiro de todos os mestres, pela compreensão do ser humano, simbolizado numa estrela de 5 pontas. Começaria a trabalhar a partir desse número, nesse Homem, para que, compreendendo-o bem, pudesse um dia dirigi-lo com a sabedoria necessária para fazer dele um Mestre.

Seus cinco sentidos foram abertos para que ele se tornasse totalmente alerta. A partir daí ele ouviria, observaria, degustaria, tocaria e cheiraria e só então agiria, após entender bem o que estava experimentando. Seu ser se expandiria pelos sentidos todos que o mantinham conectado ao mundo que o envolvia, por dentro e por fora. Compreenderia que era um círculo "vazio", pois a quintessência do Universo, aquela Vida Palpitante que mantinha a Unidade o preenchia por fora e por dentro. Começaria a perceber que aquela primeira pedra bruta em que trabalhou só aparentemente era sólida, porque, em verdade, era apenas um num mar de energia em que tudo se movia.

Isso ele teria que experimentar a partir daí. A compreensão profunda de que trabalhar com o ser humano é muito mais delicado do que trabalhar com pedras brutas. Que a Força que tem que ser empregada no caminho da transformação só pode ser usada por cada um consigo mesmo, porque sobre o outro só se pode empregar o exemplo e o estímulo. Aprender a se relacionar com o mundo - a sociedade, as pessoas, as instituições - a fim de construir um Templo novo, capaz de abrigar a Humanidade toda em paz e fraternidade, essa sua tarefa. Delicada tarefa a ser medida rigorosamente com a precisão do compasso sobre a pedra polida. Cada ato, cada palavra, cada ação teria que ser rigorosamente observada, refletida, para se tornar aprendizado.

Isso foi feito pelos antigos Companheiros em suas viagens de especialização pelas várias Obras em andamento no seu tempo. Ainda hoje outro grupo descendente dos maçons operativos e que ainda são artesãos de alta qualificação, que formam uma Ordem denominada Compagnoagei, pratica viagens de especialização pelas Oficinas espalhadas na França - o chamado Tour de France. Por isso em sua Elevação os novos Companheiros são convidados a fazer 5 viagens que, simbolicamente, poderiam significar viagens através de si mesmos, aprofundando seu autoconhecimento para poder conhecer melhor os outros. Afinal, não dizemos a alguém que passa por uma experiência, "sei como é, já passei por isso"? Por isso o Companheiro tem que experimentar a plenitude de sua humanidade antes de pretender ser Mestre.

A cada viagem transportará novos instrumentos, mais apropriados ao aprofundamento que deverá estar fazendo em seus estudos. Inclusive experimentará a alavanca, para tentar - ainda que modestamente - elevar um pouco seu entorno. Talvez se assuste, talvez seja desajeitado, mas um dia o futuro cirurgião vai ter que empunhar o bisturi e decidir se atua ou não.

Despedir-se-á de seu velho Vigilante terminando seu último trabalho na pedra bruta e dando a ele os sinais, toques e palavra que aprendeu sob sua supervisão, que o identificava perante seus companheiros de trabalho. Dará a palavra letra por letra, pois foi assim que aprendeu quando ainda "não sabia ler e nem escrever".

Ao novo Supervisor, o Segundo Vigilante, dará os novos toques e palavra, agora já em sílabas, pois já sabe ler e escrever, embora ainda não seja um mestre nessa Arte.

Em rápidas pinceladas, meus Companheiros, sua caminhada até este momento. Agora seus passos já admitem retas e curvas, não apenas uma reta. Já aparecem ângulos, senos e cossenos em sua geometria, que ainda é plana, mas começa a rascunhar os primeiros traços verticais.



Tanta leitura, reflexão, dúvidas, encontros e desencontros com os Irmãos fizeram os dias desde seu primeiro passo na Arte Real. As Iniciações foram momentos especiais nessa participação, talvez ficando até esquecidas até que participemos delas novamente, agora como obreiros. Mas elas é que dão o sentido mítico de nossa Arte. Elas é que nos inserem no caminho e o vão renovando a cada tempo. Elas é que nos permitem ter uma visão coerente de nossa lenda e de nossa simbologia. Sem elas tudo seria uma grande bobagem sem sentido.

Quando entendermos a mensagem plena que a Iniciação nos transmite e soubermos vinculá-la ao plano traçado no Painel do Grau, teremos o mapa correto de nossa caminhada pelos degraus daquela escada em caracol, que substituiu a escada reta de Jacó, e nunca mais nos perderemos até o fim de nosso tempo.


Que assim seja, meus Companheiros.
Ir Francisco Pucci.


i O termo compagnonage ou companheirismo refere-se principalmente a um ramo do movimento operário francês, famoso pelo seu Tour de France, que atingiu o auge de sua fama com Agricol Perdiguier em meados do século XIX antes de desaparecer quase inteiramente devido à industrialização, a transformação de aprendizagem e a autorização dos sindicatos. No entanto, ela escapou da extinção no início do século XX antes de experimentar um período de renovação. A guilda de Companheiros também tem sido praticada em menor escala na Bélgica, e sob uma forma ligeiramente diferente no Canadá e na Alemanha. Mas, ela nunca foi implementada na Grã-Bretanha, onde outra forma de organização, as “companhias de libré” sucederam às guildas e corporações da Idade Média. As guildas francesas de companheiros foram incluídas no Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2010 sob o título de “As Confrarias de Companheiros, rede de transmissão de conhecimento e de identidade através da profissão.” Um Comitê Intergovernamental da UNESCO, reunido em Nairobi viu nelas “uma forma única de transmitir conhecimentos e o know-how” [http://bibliot3ca.wordpress.com/companheiros-do-dever-a-compagnonnage-na-franca/]


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