A escola como espaço de escrita de si: entre a interdição da morte e o desejo de confissão



Baixar 57.84 Kb.
Encontro21.07.2016
Tamanho57.84 Kb.
A escola como espaço de escrita de si: entre a interdição da morte e o desejo de confissão
Juriene Pereira da Silva

Márcia Aparecida Amador Mascia


Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação

Universidade São Francisco campus Itatiba – SP

Apoio: CAPES

Eixo temático: Pesquisas em Pós-Graduação em Educação e Culturas

Categoria: comunicação

Os avanços ocorridos a partir do século XVIII, com relação à saúde, transformaram as relações com o adoecimento do corpo humano; a morte outrora desejada, ao menos pelos heróis cujos nomes eram eternizados quando perdiam a vida em combate, passa a ser vivenciada pelos moribundos nos hospitais. A partir deste pressuposto, esta pesquisa tem como objetivo geral contribuir para repensar a educação, a vida e a morte. Propomo-nos a levantar as representações acerca da morte em discursos manifestados por alunos do Ensino Médio, apontar os efeitos de sentido que emergem nas falas de sujeitos que vivenciaram perdas significativas nos últimos cinco anos e mostrar como tais efeitos e representações se materializam linguisticamente. Em última instância, apontar em que medida, ao falar de sua relação sobre a morte, o sujeito se ressignifica. O corpus analisado são entrevistas realizadas pela autora, com alunos do ensino médio. Sustenta-se por pressupostos teóricos da AD de linha francesa e em Foucault, a terceira fase do autor, do dizer de si. A conclusão nos aponta para a importância deste estudo para a área da educação, pois traz ao centro da discussão, não o sujeito na condição de aluno, mas a pessoa humana que precisa falar. Este falar, tão necessário, no discurso dos que perderam entes queridos, demonstra a interdição da morte e a relação paradoxal que existe entre este interdito, a partir do silenciamento e a necessidade exposta no discurso sobre ela.


Palavras-chave: Morte, Análise do Discurso, Escrita de si.

Introdução

Um dos assuntos mais difíceis de trazer à discussão em nossa sociedade é a morte, pois construímos uma sociedade alicerçada, entre outros valores, no consumo e na imagem. Esta sociedade imagética e consumista não tem com a morte uma relação em que ela é encarada como um processo natural da vida. A morte, sendo, o fim da vida, ou a última ação que o sujeito fará/sofrerá no processo de viver, traz em si, a necessidade de uma discussão.

O presente estudo apresenta a questão da morte como uma condição da vida humana e como a nossa sociedade tornou a morte um interdito cada vez mais distante da realidade dos sujeitos que a compõe.

Como professora, deparei-me com a necessidade de uma discussão sobre a morte há muito tempo. É triste estar neste processo e ver, ao longo dos anos, estudantes brilhantes se apagarem porque seu pai ou sua mãe morreu e não há nada que se possa fazer.

A urgência da discussão sobre a morte se faz presente face aos acontecimentos vivenciados por educadores, quando um estudante faleceu por uso de drogas, outro perdeu a namorada, morta em um acidente de carro com dezesseis anos de idade, entre outros casos.

A escola como lugar privilegiado do exercício do direito à educação precisa atentar para o fato de que sua clientela passa boa parte de seu dia entre seus muros, dentro de suas salas, corredores e pátios e é nesses lugares que aprendem a conviver. Nela se faz a maioria das amizades que acompanham o sujeito por toda a vida. Amizades que compartilham alegrias, progressos pessoais, profissionais, afetivos e se partilha momentos de perdas e de dores.

Esta pesquisa se insere na área de educação. O tema abordado é a morte e o discurso sobre ela. A hipótese é que a sociedade contemporânea interditou o tema da morte, o que faz com que o sujeito que passa pela experiência da perda de um ente querido não possa expressar a tristeza e o sofrimento, sentimentos esses que acabam sendo vividos na solidão e no silêncio.

Contribuir para repensar a educação para além do meramente pedagógico, repensando a vida e a morte é o objetivo geral deste artigo.

Os objetivos específicos propostos são:

1. Levantar das representações acerca da morte e do morrer em discursos manifestados por alunos do Ensino Médio.

2. Apontar os efeitos de sentido que emergem nas falas de sujeitos que vivenciaram perdas significativas nos últimos cinco anos.

3. Mostrar como tais efeitos e representações se materializam linguisticamente.

4. Apontar em que medida, ao falar de sua relação sobre a morte, o sujeito se ressignifica.

Este estudo torna-se importante porque busca no sistema de ensino brechas para que se discuta questões relevantes para o homem: a vida e a morte.


Da morte: Palavras Introdutórias

Sobre a morte não cabe à raça humana saber nada além do que aquilo que se percebe quando ela se apresenta na forma da morte do outro. É impossível ao ser humano pensar na morte de si mesmo, na linguagem, o homem só é capaz de expressar-se sobre a própria morte quando se trata de hipérboles, numa linguagem exagerada e denotativa, ou metaforicamente.

Ele é capaz de dizer que está “morrendo de fome”, mas isso não é verdadeiro, porque quem está morrendo de fome não consegue falar e, nesta construção linguística, há o auxílio do verbo estar, conjugado na primeira pessoa do presente do modo indicativo. O homem costuma dizer ao ver um filme de terror que “está morrendo de medo”, o que é falso, pois todo filme é uma fantasia criada com a condição de entreter. Os mais românticos dizem “morro de amor”, sobre essa forma de morrer nada há a fazer senão deixá-la aos cuidados dos poetas, porque só eles seriam capazes de fazê-lo.

Além dos exemplos acima que representam as fantasias humanas sobre a morte, só se poderia falar sobre a morte de si, o que nos diz Elias (2001, p. 16-17):

Aqui encontramos, sob forma extrema, um dos problemas mais gerais de nossa época- nossa incapacidade de dar aos moribundos a ajuda e a afeição de que mais que nunca precisam quando se despedem dos outros homens, exatamente porque a morte do outro é uma lembrança de nossa própria morte.
Nossa sociedade fez da morte um interdito tão profundo que depois de milênios de história, não fomos capazes de, como seres que se utilizam da linguagem para se comunicar e mais que isso para se constituir como sujeitos a partir dela; de criarmos um verbo para designar a morte de nós mesmos.

Para o nosso idioma, nossa forma de dizer de si ao mundo e pelo mundo, criado por nossa cultura, a palavra morte significa: Cessação da vida. Termo. Fim. Destruição. Ruína. Pesar profundo. (FERREIRA 2001, p. 472). Quem morre é um sujeito de uma oração, porque sendo sujeito de uma oração há sempre um verbo que demonstre esta ação causada ou sofrida pelo sujeito. Se quem morre é um sujeito de uma oração, ele é capaz de sofrer a ação na voz passiva do verbo, mas também de cometer a ação na forma ativa do verbo. Morrer em nosso idioma significa: “Perder a vida; falecer, finar-se, fenecer, expirar, desaparecer, descansar, desencarnar, ir, perecer, sucumbir, espichar, esticar. Extinguir-se, acabar-se. Perder o vigor, estiolar-se. Não chegar a efetuar-se. Parar de funcionar. Experimentar em grau muito intenso. Achar-se no fim da vida”. (FERREIRA, 2001).

Morrer é um verbo intransitivo, que tem uma conjugação regular, mas não transita para um complemento, tem significado próprio, ou melhor, ao se dizer morrer, entende-se a mensagem por si mesma. Ao se conjugar em português o verbo morrer, na primeira pessoa do singular do pretérito do modo indicativo, se faz essa conjugação sem uma relação direta com a realidade, com a conotação da oração. “Eu morri”, na prática não se pode dizer, a não ser, nas condições exemplificadas acima.

Compreende-se que ao sujeito que poderia dizer “eu morri”, a partir do momento em que o verbo fosse conjugado já não seria possível fazê-lo porque o sujeito da frase não estaria mais vivo para pronunciá-la, portanto, em linguagem conotativa esta conjugação é impossível. O que não acontece no futuro, no mesmo modo de conjugação, “eu morrerei”.

O “eu morrerei” é uma realidade dada, mas ao sujeito que conjuga o verbo parece uma possibilidade remota. Acontecerá um dia, num futuro, tão impessoal e distante como o verbo conjugado. Algo que nos remete à condição de mortal, mas não uma mortalidade imediata, dada, possível, condição única da vida que já está sendo gasta minuto a minuto, desde o nascimento. Essa realidade é tão premente que as pessoas contam o tempo em relação ao futuro como se caminhassem num ad aeternum, num caminho sem fim, onde os significados estão adiante, no próximo passo, e se esquecem que o que já foi vivido é o que realmente se teve. As experiências que se viveu e os sentimentos em relação a elas, a construção da vida é o que se fez; não o que se fará. Na próxima curva, da próxima estrada poderá não haver curva e muito menos estrada. Para Elias (2001, p. 10), a consciência da morte faz parte da condição humana e a diferencia das demais da natureza:
A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema só para os seres humanos. Embora compartilhem o nascimento, a doença, a juventude, a maturidade, a velhice e a morte com os animais, apenas eles, dentre todos os vivos, sabem que morrerão; apenas eles, podem prever seu próprio fim, estando cientes de que pode ocorrer a qualquer momento...

Uma outra importante contribuição para os estudos sobre a morte reside nos estudos de Kübler-Ross (1987) quanto à morte e a sua principal descoberta; os estágios do luto, que se apresentam tanto para quem está a beira da morte, quanto aos seus entes queridos, como diz a autora:


O primeiro é a negação e o isolamento. Ao tomar conhecimento da fase terminal de sua doença, a maioria dos pacientes moribundos que entrevistamos reagiu com esta frase. “Não, eu não, não pode ser verdade. (op., cit. p.49)... Quando não é mais possível manter firme o primeiro estágio de negação, ele é substituído por um sentimento de raiva, de revolta, de inveja, de ressentimento. Surge lógica uma pergunta: “Porque eu?”(op., cit, p.61). O terceiro estágio, o da barganha é o menos conhecido, mas igualmente útil ao paciente, embora por um tempo muito curto (op., cit. p.62)... O quarto estágio é o da depressão. Quando a depressão é um instrumento na preparação da perda iminente de todos os objetos amados, para facilitar o quinto estágio, o de aceitação, o encorajamento e a confiança não tem razão de ser. (op., cit. p.93)
A Análise do Discurso e a Escrita de si
Apresentaremos, nesta parte, os pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso (doravante AD) de linha francesa que subsidiou a análise do corpus da pesquisa.

A AD cunhada por Pêchuex (1997) costuma ser concebida no imbricamento de três grandes correntes do pensamento: a linguística, o marxismo e a psicanálise, considerados fundantes para esta disciplina. O encontro dessas três correntes vão culminar na AD e implicará em ressignificações de alguns conceitos com os quais a teoria irá trabalhar.

A AD nos oferece um referencial metodológico de análise possibilitando um instrumento de análise e levantamento das imagens das práticas dos sujeitos que se apresentam através das técnicas do dizer de si. Um dos fatores constituintes do discurso e fundamentais da Análise do Discurso é o outro. O outro constituído na figura das pessoas que interferem no discurso do sujeito, seja de forma a justificar o discurso deste, seja de forma a contrariar seu discurso. Além do outro materializado na forma do interlocutor do discurso, a AD admite, também, um Outro, grafado com o “O” maiúsculo, significando o inconsciente. Este Outro é uma contribuição trazida da psicanálise no seu conceito de inconsciente. É no inconsciente e suas imagens criadas, a partir da percepção da realidade ou de imagens oníricas, que o sujeito constitui uma forma de se perceber como sujeito. O outro na Análise do Discurso está relacionando ao conceito de alteridade formulado por Lacan, e pode ser entendido como
Termo cunhado por Lacan para explicar a dualidade do sujeito. Vincula-se às produções formuladas a respeito da função do Eu e a complexa estrutura aí presente, envolvendo os conceitos do outro (pequeno) e o Outro (grande). O Eu não se encontra como uma forma fechada em si, mas tem relação direta com um exterior que o determina. (Ferreira, 2005, p.11)
O sujeito é entendido como descentrado: um mesmo sujeito é, efetivamente, outro (os outros com os quais se relacionou e se relaciona), noção que advém de Bakhtin enquanto polifonia (COURTINE & HAROCHE 1988). O Outro (maiúsculo) advém dos estudos de Lacan e remetem ao inconsciente. Lacan (1998) aborda esta questão detalhadamente no texto “O estágio do espelho como formador da função do eu”, de 1949.

A língua que interessa à AD é aquela que mantém uma relação com a ideologia que pode ser observada, por isso, a contribuição do marxismo como proposta ideológica foi fundamental para a construção da AD, assim como a da linguística. Sobre o discurso nos diz Foucault (1998, p.10):

Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou- não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é também, aquilo que é o objeto do desejo; e visto que-- isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente àquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que pelo que se luta o poder do qual nos queremos apoderar.
Assim, que o discurso pode ser visto como que ligado ao poder, será pelo discurso que o sujeito, também, pode resistir. É o que nos assevera Foucault, em sua terceira fase: da escrita de si.

Para Foucault (2004b, p. 156), escrever é “se mostrar, se expor, fazer aparecer seu próprio rosto” e significa que a escrita de si pode apontar subjetividades outras que se constitui no exercício do narrar-se. Escrever para quem o faz passa a ser uma atividade de dizer-se e, como propõe Foucault (2004a, 145):


A escrita de si aparece aqui claramente em sua relação de complementaridade com anacorese; ela atenua os perigos da solidão: oferece aquilo que se fez ou pensou a um olhar possível; o fato de se obrigar a escrever desempenha o papel de um companheiro, suscitando o respeito humano e a vergonha; é possível então fazer uma primeira analogia: o que os outros são para o asceta em uma comunidade, o caderno de notas será para o solitário.
Com base nesses pressupostos da AD sobre discurso e sujeito, e da escrita de si de Foucault, lançamo-nos a analisar as entrevistas dos alunos.

A necessidade de confissão: consequência da interdição da morte
Para a pesquisa original foram entrevistados três sujeitos. Para este texto, apresentamos apenas dois excertos, oriundos de dois sujeitos, cujos nomes foram alterados.

Apresentaremos, a seguir, dois excertos de análise.

Referimo-nos, na parte teórica deste texto, que a sociedade ocidental interditou a morte, não se fala da morte entre os vivos, o que é um paradoxo, pois para Elias (2001), “a morte é um problema dos vivos, os mortos não têm problemas.” Diante dessa afirmação, supomos que, aos vivos, cabe a discussão sobre a morte.

Assim, é muito evidente esse paradoxo da interdição e necessidade de falar sobre a morte, nos discursos de nossos entrevistados, como apontamos, a seguir.

Ao ser solicitada, em entrevista, a falar da morte de seu filho, Rosa nos diz:

E1

...Por mais que esse é um assunto dolorido. É um assunto muito dolorido, mas me faz bem falar disso. Sabe. Eu consigo desabafar. Sabe. Você expondo é uma coisa realmente dolorida, mas me faz bem assim eu não fico com aquilo guardado pra mim, eu consigo desabafar, eu consigo esclarecer está sendo. Esse momento pra mim eu não vou dizer pra você que está sendo fácil. Não tá sendo fácil mesmo. Eu passei o dia inteiro prensando nisso, eu falei meu Deus, eu tenho que ter forças pra conseguir fazer isso. Mas ao mesmo tempo é bom pra mim. Sabe. Não só com você, mas tocar neste assunto a turma fala, é dolorido? É dolorido, só que hoje em dia eu consigo vê isso como que eu vou dizer pra você? Um refúgio? Não. Não seria um refúgio. Sabe, seria uma saída pra eu poder ir aceitando isso que aconteceu, e se você não conversa, você não fala você vai guardando pra você, é onde sua cabeça vai ficando mais confusa você pensa: eu vou desanimar, eu vou parar , mas eu não posso, de forma nenhuma, eu não posso. É bom, é bom conversar por mais dolorido que seja é bom eu me desabafo, você vê que eu chorei um pouco, mas agora eu já estou mais controlada...

Neste excerto, Rosa apresenta uma contradição quando afirma: “Por mais que esse é um assunto dolorido. É um assunto muito dolorido, mas me faz bem falar disso.” Tal contradição permeia o discurso de Rosa quando se trata da morte de seu filho e do falar sobre ela. É um paradoxo esta atitude de Rosa porque se, de um lado, ela expressa sua dor, possivelmente a maior dor a que ela já foi exposta, a dor da morte de um filho, e este tema, a morte de seu filho é, para Rosa muito dolorido, falar sobre ele é algo considerado por ela como algo que faz bem. Para expressar o bem que falar sobre a morte de seu filho lhe faz, Rosa apresenta termos de um mesmo campo semântico como: “desabafo, refúgio e saída”, que significam “colocar algo para fora”.

Dos termos acima, dois chamaram muito a atenção, “refúgio e saída” como em: “Um refúgio? Não. Não seria um refúgio. Sabe, seria uma saída pra eu poder ir aceitando isso que aconteceu.”



Rosa deixa claro que não é um refúgio, palavra que, segundo o dicionário Aurélio, significa: “asilo, abrigo, apoio, amparo, mas afirma ser uma saída cujo significado é ato ou efeito de sair, lugar por onde se sai, movimento de sair” (FERREIRA. 2001 p.66). Segundo seu discurso, Rosa não está procurando amparo, abrigo ou apoio, ela não quer ser apoiada pelos demais em sua dor, sua busca é encontrar uma saída para este sofrimento todo. Por ser muito dolorido, não procura se esconder, se asilar, ela busca sair do sofrimento, nesta busca, encontra-se a necessidade de escrita de si.

A expressão “dolorida” ou “dolorido” surge no discurso de Rosa num total de cinco vezes, enquanto a expressão “faz bem falar, é bom conversar. É bom”, surge quatro vezes, sempre seguindo uma expressão sobre a dor. Essa materialidade linguística nos deixa ver que a dor gera uma necessidade de confissão. A confissão da sua dor, para outra pessoa, alivia a dor. Como diz Rosa: “é bom conversar por mais dolorido que seja é bom, eu me desabafo”. E desabafo, substantivo utilizado por Rosa significa: “ato ou efeito de desabafar”, que, entre outros, tem o significado de “desafogar-se, desentranhar-se e expressar o que sente ou pensa” (op.cit. p. 244). Rosa usa “desabafar-se”, verbo reflexivo, no sentido de “eu desabafo”, “eu me desentranho”, “eu me ponho para fora”, “eu me desafogo”. Neste caso, o sujeito e o objeto coincidem, é como se ela falasse consigo mesma, tal é, possivelmente, a perspectiva da escrita de si, postulada por Foucault, ao falar, escrever para o outro, o sujeito está falando e escrevendo para si, mais do que para o outro, ou ainda, existe um outro dentro de cada um de nós, com o qual, nos defrontamos o tempo todo. Note-se que não é alguém ou algo fora de Rosa que a afoga, e, sim, ela mesma que se desabafa, tentando sair do refúgio em que esconde para depois procurar uma saída. Mas essa saída procurada por Rosa choca-se com o interdito social do falar sobre a morte, materializado pelo verbo “controlar” como vemos, no final deste mesmo excerto, quando afirma: “mas agora eu já estou mais controlada”.

O interdito social ao tema morte e o falar sobre a morte, gera a necessidade de confissão, pois ao dizer que “agora eu já estou mais controlada”, Rosa também diz que o discurso social a controla, ela diz que está mais controlada, quem está controlada não é alguém que se controla, é alguém que é controlada, por outro, pela sociedade, pelo interdito da morte, pela “ordem do discurso” da morte: “pode-se até falar, mas para se livrar”, “falar para calar”.

Rosa diz que o tema é dolorido, mas em nenhum momento, ela menciona o tema em questão: a morte do filho. Ela parece evitar o uso do termo “morte”, utilizando para isso a palavra “assunto”, em momento algum ela diz morte, ou diz o nome do filho, durante toda a entrevista concedida a esta autora. Para se referir à morte do filho, ela utiliza várias instâncias linguísticas como “assunto”, “coisa”, e pronomes indefinidos ”isso”, “aquilo”, “isso que aconteceu”. Ela trata a morte do filho, o nome do filho e a morte em si como um interdito. Ela interdita o nome do filho na entrevista toda, assim como o tema morte. Mesmo quando ela diz “é bom conversar” não termina a frase, é bom conversar sobre o quê? E quando ela diz “por mais que seja dolorido é bom, eu me desabafo”, desabafo o quê? Desabafar sobre o quê? Essa “fuga” da palavra morte, e a interdição ao nome do filho nos apontam um paradoxo no discurso de Rosa.

Também surge no discurso de Violeta a questão da interdição da morte e a necessidade que esta interdição desperta de falar sobre o acontecimento da morte de um ente querido, como a seguir:
E 2
É... Falar né. Acho que a gente guarda muita coisa dentro da gente, quando a gente perde alguém, você fica pensando em tudo aquilo que você passou com a pessoa ou deixou de passar com ela. E tá tudo ali. Tá tudo guardado dentro da gente, então, quando a gente fala, parece que tá eliminando um pouco todo esse fardo. Que você carrega e principalmente da culpa, porque lá no fundo todo mundo carrega culpa pela pessoa ter ido embora, pelo que você fez, pelo que deixou de fazer, pelo que deixou de dizer. A vida que você deixou de dar. Eu acho que falar é sempre bom para eliminar mesmo o que... a gente sabe que lá no fundo as coisas acontecem mesmo e não tem como voltar atrás. A gente tem que realmente aprender a viver direito com os que ficaram. Fica sempre um aprendizado. Acho que falando, discutindo, abrindo o coração mesmo, você ganha forças prá lembrar dessa pessoa o quanto melhor possível, que tira um pouco da tristeza,. Você passa a lembrar de tudo o que você passou com ela, dos momentos bons, e não fica com aquela coisa de que ela morreu...

Neste excerto, parece muito explicitamente a troca de pronomes (a gente, no lugar de nós como se fosse um “eu” e também um “você” como se fosse um “eu”). Violeta alterna esses pronomes, em seu discurso para dizer de si, “escondendo” assim, atrás do “a gente/nós” o “eu” que não suportaria os dizeres, mas tem necessidade de se expressar.

Outra materialidade linguística importante é a repetição do verbo “falar” nas suas conjugações (fala, falar, falando) por cinco vezes, podendo indicar a necessidade que tem Violeta de expressar sua dor, através da palavra.

Observa-se expressa outra materialidade linguística nos verbos “guardar”, “carregar” e “passar”, seguidamente e na sequência, por três vezes num único parágrafo. Para Violeta, esta perda é um fardo que se guarda para ser carregado até passar.

Neste excerto, Violeta traz um dos estágios do luto apresentado por Kubler-Ross, o da raiva (1987, p. 49). Aparece, em seu discurso, explicitamente “quando a gente fala, parece que tá eliminando um pouco todo esse fardo. Que você carrega e principalmente da culpa, porque lá, no fundo, todo mundo carrega culpa pela pessoa ter ido embora, pelo que você fez, pelo que deixou de fazer, pelo que deixou de dizer. A vida que você deixou de dar.”

Essa culpa, que caracteriza o segundo estágio, o de raiva, apresentado por Kübler-Ross (1987), é muito conhecido por quem perde um ente querido. É como culpado, por ter morrido, que o morto é visto pelos vivos, mas é, também, como culpado que o enlutado é visto socialmente logo após a morte de um ente querido, não é uma culpa relacionada à morte do outro, mas é uma culpa relacionada à falta de alegria, de felicidade, a traição da promessa de felicidade perene que a sociedade faz em relação às pessoas. Ninguém tem o direito de morrer, menos ainda o de sofrer com a perda. Sobre este segundo estágio, o estágio de raiva, que traz entre outros componentes a culpa, nos diz a pesquisadora:


Contrastando com o estágio de negação, é muito difícil do ponto de vista da família e do pessoal hospitalar lidar com o estágio de raiva. Deve-se isto ao fato dessa raiva se propagar em todas as direções e projetar-se no ambiente, muitas vezes sem razão plausível... A reação dos parentes é de choro, e pesar, culpa ou humilhação; ou então, evitam visitas futuras, aumentando no paciente a mágoa e a raiva (KÜBLER ROSS- 1987, p. 62).
A culpa/raiva é entendida como interiorizada no corpo/alma do sujeito; como pode ser evidenciado pelo uso do verbo “guardar” (FERREIRA, 2001, p 357) e a preposição de lugar “dentro”, contradição com os termos “eliminando, abrindo o coração, discutindo” num contexto em que Violeta afirma que, ao falar, o sujeito se abre, e esta abertura “tira um pouco da tristeza”, pois vai se “eliminando um pouco todo esse fardo”.

Assim, a culpa/raiva se manifesta pelo uso do substantivo, “fardo” que significa “coisa mais ou menos volumosa, ou pesada, destinada a transporte, carga, o que moralmente custa carregar” (op., cit, p. 313).

Violeta parece afirmar que a morte de um ente querido é “uma carga pesada que se carrega aos lugares em que se vai, e, que moralmente esta carga recai sobre os ombros daquele que perde um ente querido”.

Concluimos que é necessário se livrar do fardo e da carga guardada dentro, para que se possa “ganha(r) forças prá lembrar dessa pessoa o quanto melhor possível; é preciso falar: Acho que falando, discutindo, abrindo o coração mesmo”.

Quando Violeta se refere a um fardo a ser carregado e que falar sobre o tema ajuda a eliminá-lo, está se referindo ao interdito que a sociedade apresenta em relação à morte e ao morrer. Interdito que Martins considera quando diz que “a morte acabou por ser banida, ocultada, proibida das preocupações do homem ocidental do nosso século; ela chega a ser até algo obsceno, um verdadeiro tabu.” (1983, p.62)



Considerações Finais

A característica singular desta pesquisa é seu tema tão necessário e urgente quanto tabu em nossa sociedade, especialmente quando se relaciona a morte com a educação.

Tema maior da filosofia, em se tratando deste período de transição entre Modernidade e Pós-modernidade, ele sequer é citado nas escolas ou surge como assunto de discussão pedagógica; reflexo que é sua ausência das rodas de conversa na escola, e na sociedade.

Nossa cultura se baseia na fala, somos uma sociedade falante. E numa sociedade falante, um interdito traz consigo uma necessidade, no caso do interdito da morte, ele traz consigo, a necessidade de expressão a partir da fala.

Como nossa sociedade interditou a morte, a fala sobre ela é a principal característica deste interdito. Esse não falar, não dizer sobre ela é a expressão deste interdito. É através deste silêncio perturbador que o interdito social e moral sobre a morte apresenta sua mais característica expressão.

Foucault (2004a) afirma que cada sociedade constrói seus regimes de verdade de acordo com os princípios que a norteiam naquele momento e eles são propagados e incorporados pelos sujeitos também (re)formatados por essa sociedade. Ou seja, o sujeito é forma(ta)do para a manutenção da própria sociedade.

Estes sujeitos são formatados e reformatados com temas interditos, entre eles a morte. Não se concebe discuti-los, porque não se pode falar sobre o que não se experimentou. Nossa sociedade, por ser uma sociedade falante, traz na fala a possibilidade de construção da realidade e esta construção só é possível a partir da experiência desta realidade, por isso, não é possível produzir um discurso sobre algo não experimentado, como já dissemos acima, este não discurso torna-se então um tabu.

(Re)pensar a educação para além do meramente pedagógico, discutindo a morte e o morrer foi uma via para alcançarmos o objetivo geral deste artigo, trazer a vida para o centro da discussão na escola.

Descobrimos que nossas entrevistadas precisavam falar sobre a morte e que a escola, lugar privilegiado de construção do conhecimento, não lhes permite buscarem na sua dor e no seu sofrimento a profundidade necessária e a força para continuar a vida, depois da perda.

Tivemos nas pessoas de Rosa e Violeta, a generosidade necessária a que uma pesquisa, nestas condições, exige àqueles que se dispõem a colocar suas dores à mostra porque também precisam falar.

A necessidade de falar citada nos dois casos, nos alerta sobre quanto a escola atual deixa a desejar no que se refere à educação da pessoa humana. Perceber o sujeito como pessoa, além da condição de aluno, talvez seja uma das urgências em relação à educação que buscamos.

A relação paradoxal que norteia os discursos de Rosa e Violeta, regularidades destes discursos, no paradoxo-interdição da morte X a necessidade de confissão sobre a morte está relacionada ao silenciamento envolto ao tema da morte e a necessidade de falar sobre sua dor, quando se perde um ente querido.


Referências Bibliográficas

COURTINE, J. J. & HAROCHE, C. O Homem perscrutado: semiologia e antropologia política da expressão e da fisionomia do século XVII ao século XIX. In: ORLANDI, E. et al. Sujeito e Texto. São Paulo: Edusc, 1988. p. 37- 60.

ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos. Seguido de Envelhecer e morrer Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio século XXI Escolar - O minidicionário de língua portuguesa. 4ªed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

FERREIRA, Maria Cristina Leandro (org.). Glossário de termos do discurso... Porto Alegre: Instituto de Letras da UFRGS, 2005.

__________. O caráter singular da língua na análise do discurso. Porto Alegre: Instituto de Letras da UFRGS, 2003

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1998.

________, M. A escrita de si. In. Ética, sexualidade e política. Coleção: Ditos e Escritos V. São Paulo: Forense Universitária, 2004a.

________. M. A ética do cuidado de si como prática da liberdade. In: Foucault, Michel. Ética, sexualidade e política. Col. Ditos e Escritos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004b.

FREUD. S. Reflexões para o tempo de guerra e morte. Rio de Janeiro: Imago, 1915. v.14.

_______ Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago, 2000.

KÜBLER–ROSS, Elizabeth. Sobre a morte e o morrer. 3ª ed. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editores Ltda, 1987.

LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu. In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Editora, 1998. p. 97-103.

MARTINS. José de Souza. (org) A morte na sociedade brasileira. São Paulo: Editora, HUCITEC. 1983.



PÊCHEUX. M. O discurso: estrutura ou acontecimento; Orlandi, Eni P. Trad. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.

.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal