A escola normal oficial do piaui e suas contribuiçÕes para a sacralizaçÃo da memória cívica



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A ESCOLA NORMAL OFICIAL DO PIAUI E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A SACRALIZAÇÃO DA MEMÓRIA CÍVICA

Salânia Maria Barbosa Melo. Professora do Curso de História da UEMA, UESPI e Faculdade Santo Agostinho. Doutora em Educação pela UFC. E-mail: salaniamelo@yahoo.com.br

O presente trabalho tem como objetivo primeiro apresentar a Escola Normal Oficial do Piauí, enquanto instituição de ensino, inserida em um contexto histórico de construção da memória cívica, que buscava atender as exigências ora impostas através de um calendário específico de criação de datas e “inventando tradições”. Atentando para o fato de que todo este processo faz parte da expansão do ensino primário, como ação das práticas pedagógicas das normalistas. A conceituação de Cultura Escolar de Antonio Viñao Frago (1995) que a entende como sendo todos os aspectos do cotidiano escolar, desde sua materialidade física, seus fazeres, saberes e modos de pensar, portanto com habilidades para arquitetar hábitos e comportamentos coletivos, possibilitou este olhar interpretativo na tentativa de empreender um estudo desta Escola e suas contribuições, para a história da memória cívica piauiense na chamada Era Vargas, de 1930 a 1945, momento histórico em que a educação passa a ser vista como instrumento de formação e constituição da nacionalidade, o recurso mais lógico é atrelar esse pensamento ao cotidiano escolar, utilizando-se para tanto das festas cívicas e das disciplinas que facilitassem a construção do patriotismo como Educação Moral e Cívica, Educação Física, História e Canto Orfeônico. Para analisarmos a cultura escolar piauiense que pode ter seu início, a partir da implantação dos grupos escolares como espaço de ação de professores (as) formados (as) na Escola Normal é necessário, primeiramente compreender que, o que acontece no interior deste ambiente cultural, que se funda dentro dessa temporalidade por nós buscada, de 1930-1945, na tentativa de homogeneização de atitudes e padronização de práticas. Adotando como guia analítico o lugar ocupado e as dinâmicas entre a História da Educação e a História Cultural, como essa rede de significados sociais que possibilitam vislumbrar sentido neste universo imaginário que é a escola, com todas as suas representações, através das comemorações cívicas. Este caminhar faz-se metodologicamente pela História Oral, desta pesquisa ora em andamento, recorrendo-se às lembranças de ex-alunas e ex-professoras que vivenciaram este momento e ainda, as diversas fontes escritas como os periódicos locais, O Piauhy, Diário Oficial, o Almanaque da Parnaíba e as Mensagens Governamentais.

PALAVRAS-CHAVE: Instituições escolares, calendário cívico e memória.

No início do século XX já se percebe o delineamento de um pensamento autoritário de direita no país, que parece ser a construção da defesa de uma ordem autoritária, com apego às tradições e ao papel relevante do Estado na organização da sociedade, passando necessariamente por uma sistematização da política educacional.

A construção da memória nacional, memória esta pautada em uma cultura política autoritária e nacionalista, foi reacendida na sociedade brasileira como um movimento que envolveu a quase todos: modernistas, intelectuais que idealizavam o Estado, católicos, militares, professores e operários, com o interesse de dar um caráter nacionalista, criando assim justificativas para reproduzir a cultura nacional e que o homem brasileiro assumisse o sentimento de pertencimento a seu país.

A construção da identidade e da memória nacional faz-se sob diferentes ângulos em uma mesma sociedade, buscaremos mostrar essa construção através da educação, ou focando ainda mais nosso olhar através da formação das professoras.

O patriotismo brasileiro parece ter berço em 1930, quando o governo conclama o povo para referendar tudo que era tido como antídoto para qualquer tentativa de ação contrária, “acobertando intenções mais ou menos secretas”, o início desta análise aponta as possibilidades que compreendo para melhor entender a educação e as políticas educacionais adotadas neste século até 1945, período escolhido pelo recorte temporal, que são necessariamente o traço autoritário no pensamento dos homens de então, a construção da memória nacional e as contribuições da educação na arquitetagem das identidades nacionais.

Neste momento pós-Revolução de 1930, com a organização e sistematização pelo Ministério da Educação e Saúde, o pensamento dos homens de governo tem como um dos seus objetivos que a educação atenda as necessidades de construir uma mentalidade de sagração do Estado.

Para execução de um projeto desta envergadura era necessário a arquitetagem de um instrumental capaz de consolidá-lo, neste sentido, desde 1912 com a formatura da primeira turma de normalistas, a Escola Normal Oficial do Piauí, já dera seus passos iniciantes na qualificação de profissionais para alfabetizar meninos e meninas piauienses.

As características que o momento histórico impunha às práticas políticas trouxeram à educação exigências para além da necessidade de formar normalistas, mas também pensar na construção de prédios escolares, além de ampliar as possibilidades de qualificar mais profissionais para atuar na educação.

A construção de grupos escolares imprimiu um ritmo diferenciado a cada um desses lugares para onde iam nomeadas as normalistas formadas pela Escola Normal Oficial, conseqüentemente alterando o cotidiano da cidade e de cada pessoa, à medida que ela chegava com seus conhecimentos, desenhavam-se e redesenhavam-se as mudanças que modificam a vida de todos, é claro que não atinge a todos diretamente e nem na mesma proporção. As normalistas chegavam e tratavam de misturar a cultura letrada, por isso mesmo ilustrada, com os costumes e os conhecimentos que já existiam, dando início a uma nova dinâmica à vida do lugar, ou seja, a uma cultura escolar.

Nesta perspectiva, os horizontes serão ampliados a partir da escola, o cotidiano de todos será alterado, com o aprendido no trabalho ou na escola, a escola esse local de cultura, esse lugar da multiplicidade de saberes e fazeres, de diferentes práticas e sociabilidades, não podendo, portanto se dissociar o cotidiano da história e do espaço da escola, entendendo-a como espaço de produção de sentidos, lugar de memória, tais como o patrimônio arquitetônico e seu estilo que nos acompanham por toda a nossa vida, as paisagens, as datas e personagens históricos de cuja importância, somos incessantemente relembrados (NORA, 1995).

As alterações provocadas na vida e no tempo de todos e de cada um constitui-se em algo impactante, inserindo-se em um novo tempo, em um tempo moderno e modernizante, não importa aqui se o recorte temporal é o mesmo dos grandes descobrimentos, da constituição do capitalismo, das reformas religiosas ou o tempo da hegemonia do pensamento europeu, é um tempo novo no Piauí, tempo do grupo escolar, é o tempo da escola.

Durante todo o período do governo de Vargas e mais especificamente durante o Estado Novo, a educação passou a ser destacada nos discursos oficiais e sua necessidade é acentuada à medida que transparece o caráter autoritário do regime.

Com o Estado Novo se tornam transparentes as políticas educacionais de criação dos heróis nacionais e de sacralização do Estado, ampliando assim, a sua capacidade de dominação, a nacionalização do ensino através da unidade lingüística, fortalecendo o sentimento de amor à pátria.

Tal pensamento evidencia como era vista a educação neste período, visando coerência política com o que almejavam os ideólogos do Estado em relação ao projeto político pedagógico, neste sentido Schwartzmann (2000), afirma:
Coroando toda essa armação, não ficaram de fora os aspectos de orientação cívica e política necessária à propagação do novo regime: o culto à bandeira, o canto do Hino Nacional e da Mocidade, o ensino de noções militares e patrióticas. Através da educação individual, praticada dentro da disciplina da Organização, contava-se com uma preparação para o exercício dos atos e deveres da vida civil, o que vale dizer, do fortalecimento de uma milícia civil organizada. (p. 141).
O projeto nacional de educação de Capanema, dentro do Estado Novo, objetivava homogeneizar a massa, daí toda a dedicação no que se referia à educação como instrumento capaz de uniformizar a cultura e acabar com todas as diferenças. Assim a unidade da Nação se dava ao caráter salvacionista ou redentor da educação, principalmente no que concerne “à crença em seu poder de moldar a sociedade a partir da formação de mentes e da abertura de novos espaços de mobilidade social e participação”. (SCHAWARTZMAN, 2000, p.246).

O ministro da Educação, Gustavo Capanema, expõe em discurso em rede nacional os objetivos deste projeto evidenciando a importância da educação feminina:


Os poderes públicos, tendo em mira que a finalidade da educação é preparar o indivíduo para a vida moral, política e econômica da Nação, devem, na organização dos estabelecimentos de ensino, considerar diversamente o homem e a mulher. Cumpre reconhecer que, no mundo moderno, um e outro são chamados à mesma quantidade de esforço pela obra comum. Pois a mulher se mostrou capaz de tarefas as mais difíceis e penosas, outrora retiradas de sua participação. A educação a ser dada aos dois há de ser de, porém, diferir, na medida em que diferem os destinos, que a Providência lhes deu. Assim, se o homem deve ser preparado, com têmpera militar, para os negócios e as lutas, a educação feminina terá outra finalidade, que é o preparo para a vida do lar. A família, constituída pelo casamento indissolúvel, é a base de nossa organização social e está, por isto, colocada sob a proteção especial do Estado. Ora, é a mulher que funda e conserva a família, como é também por suas mãos que a família se destrói.

Compreende-se mais claramente o projeto do ministro Capanema quando trazemos à discussão parte do discurso do Presidente da República no aniversário do Centenário do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, quando afirma:


Senhores: O magistério brasileiro, na sua mais alta expressão, prestando-me homenagem tão digna e eloqüente, não pretendeu, por certo, atribuir-lhe exclusivo caráter pessoal. Os meus agradecimentos, como homem e como Chefe de Estado, assumem a significação de um compromisso público ao qual quisestes associar-vos, nobre e espontaneamente, reconhecendo também a necessidade deste movimento renovador, capaz de fazer da educação e da cultura instrumentos eficientes da civilização brasileira.

Falando aos mestres, numa hora como esta, de comunhão patriótica, falo aos responsáveis pela saúde espiritual da nossa mocidade. A palavra do professor não transmite apenas conhecimentos e noções do mundo exterior. Atua igualmente pelas sugestões emotivas, inspiradas nos mais elevados sentimentos do coração humano. Desperta nas almas jovens o impulso heróico e a chama dos entusiasmos criadores. Concito-vos, por isso, a utiliza-la no puro e exemplar sentido do apostolado cívico – infundindo o amor à terra, o respeito às tradições e a crença inabalável nos grandes destinos do Brasil. (Discurso proferido por ocasião do Centenário do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, em 2 de dezembro de 1937).

Durante a gestão de Gustavo Capanema e sob sua orientação, foi promulgada, em 09 de abril de 1942, a Lei Orgânica do Ensino Secundário, ou Reforma Capanema. Esta lei instituiu o ensino secundário com duração de quatro anos, que correspondia ao ginasial, e mais um ciclo de três anos equivalente ao científico.

À época a Lei Orgânica também instituiu a educação militar para os alunos do sexo masculino, em decorrência da Segunda Guerra Mundial; reafirmou o caráter não-obrigatório do ensino religioso e tornou obrigatório o ensino de Educação Moral e Cívica, além de fazer recomendações quanto a educação das mulheres, que teria de ser feita em estabelecimento distinto de onde se educavam os homens.

Para seu cumprir papel de Estado-pátria ou mátria que “cuidava” de todos, como a grande mãe; para as disciplinas escolares, como Canto Orfeônico, História, Educação Física e Educação Moral e Cívica, foram pensados conteúdos ideológicos, considerados estratégicos para a arquitetagem de uma memória cívica, que traziam em seus conteúdos ensinamentos voltados para formar a mentalidade patriótica e cívica, o sentimento de pertença à nação, o corpo são e treinado para servir a Pátria.

Procurando atender as determinações nacionais para a educação, o Interventor do Piauí, Leônidas de Castro Melo, apresenta ao Presidente da República o relatório das atividades do ano de 1942, expondo o funcionamento e ampliação do ensino Normal no Piauí:


Durante o ano letivo de 1942, funcionaram regularmente a Escola Normal Oficial, como as de Parnaíba e Floriano, e o curso normal do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Teresina, e Nossa Senhora das Graças, em Parnaíba. [...] a matrícula geral no Ensino Normal a 573 alunos. (p.35).

A partir do primeiro decênio do século XX, a ação da Escola Normal Oficial traz mudanças significativas para a educação piauiense. O Ensino Normal Oficial ressurgiu no Piauí, tanto no interior quanto na Capital, entre os anos de 1910 a 1930, quando as normalistas passam a substituir os professores leigos aumentando significativamente a quantidade de professoras normalistas na rede oficial de ensino.

Destacando a importância da Escola Normal Oficial e seu papel na construção da memória cívica piauiense, retomando a discussão anteriormente proposta, lembrando que, no pós-1930, tem início a ideia de construção do Estado Nacional, tendo a educação como instrumento de formação e constituição da nacionalidade, o recurso mais lógico será atrelar esse pensamento ao cotidiano escolar, utilizando-se para tanto das disciplinas que facilitassem a construção do sentimento patriótico, como as disciplinas escolares, acima elencadas, permeando a grade curricular se fundam os aspectos ideológicos quando os setores políticos apresentam um anteprojeto determinando a obrigatoriedade de algumas disciplinas, como aponta Horta:
Durante os trabalhos preparatórios para a Assembléia Nacional Constituinte de 1934, o problema só foi abordado quando a Comissão encarregada da elaboração do anteprojeto incluiu um dispositivo determinando que o ensino cívico, a educação física e o trabalho manual fossem considerados matérias obrigatórias, em todas as escolas primárias, secundárias, profissionais e normais do país. (1994, p. 144).
A ideia da grade curricular, ou seja, das disciplinas que a integravam, era da formação de um todo compacto, as disciplinas consideradas de cunho ideológico tinham relação uma com a outra, voltadas para o objetivo maior que era o doutrinamento das crianças e da juventude. Se a Educação Física treinava e modelava os corpos, a História cuidava da mente com a educação cívica e patriótica e o reforço permanente das ideias de unidade nacional, que concretizavam o sentimento de pertença. A disciplina do Canto Orfeônico, além de fortalecer o sentimento nacionalista emprestava as vozes treinadas para dar beleza ao que não podia se apresentar como realmente era.

As práticas escolares fornecem elementos que auxiliam na compreensão da história das disciplinas escolares - também cabe aqui uma explicação para “disciplinas” como sendo as matérias, ou conteúdos programáticos, ensinadas em sala de aula; disciplina com o sentido de ordenar, controlar o que é ensinado, o que é legado para cada geração. Por isso elas adquirem novas características, ao longo da história tomaram o formato que aquele momento histórico permitia ou exigia que elas tivessem.

Buscar através da memória, dos signos ou símbolos que perduram de um tempo a outro, ou das permanências, faz-se sentir quando em 1937, o então governador Leônidas de Castro Mello, já tem uma preocupação de adequar o Piauí ao novo modelo instaurado no País, através da contratação de professores do Rio de Janeiro, para preencher as vagas de Canto Orfeônico e de Educação Física.

Para marcar bem o significado deste Curso Especial de Educação Física, o governo do Estado torna o momento de seu lançamento em festa, conforme noticiou o Diário Oficial de 5 de abril de 1939:

Constituiu uma brilhante solenidade a instalação, na manhã de sábado último, do curso de educação física, anexo ao Departamento de Ensino, tendo comparecido ao salão principal da Escola Normal Oficial os professores da capital e crescido o número de estudantes, previamente convidados para a cerimônia. Precisamente às 10 horas chegou àquele edifício, acompanhado de seus auxiliares de administração, o Exmº. Sr. Dr. Leônidas de Castro Melo, Interventor Federal no Piauí, sendo recebido à porta pelo Sr. Dr. Anísio Brito, Diretor do Departamento de Ensino e Senhora Maria de Lourdes do Rêgo, Diretora da Escola Normal Oficial. [...] Referiu-se ao empenho desenvolvido pelo governo para dotar a instrução pública do Estado de um curso de educação física, com o qual se vinha de preencher uma necessidade cultural vivamente reclamada, congratulando-se, a seguir, com o Sr. Diretor do Departamento e demais professores presentes pela aquisição de um profissional especializado. [...].

O profissional especializado ao qual se referiu o Interventor era o professor Manoel Carvalho de Anchieta, do Estado do Espírito Santo, a quem foi confiada a missão de organização do Serviço de Educação Física no Piauí e que em seu discurso no dia da instalação do curso de Educação Física assim se pronunciou:

[...] A criação da Inspetoria de Educação Física nesta unidade da Federação é um feito de projeção nacional. Reflete sabiamente a nova e sã política brasileira, a orientação firme, segura e patriótica, que vem S. Excia o Sr. Dr. Getúlio Vargas, eminente Chefe da Nação imprimindo aos magnos problemas que dizem respeito à nossa nacionalidade. Não se restringe ao rincão piauiense. Todos nós do sul, muitos nos regozijamos com semelhante iniciativa. [...] Todos vós bem conheceis das vantagens enormes oriundas da educação física. Harmonizando cérebros e corações, como peças necessárias, ao funcionamento vital, contribuindo para a construção de um tipo racial perfeito sobre os alicerces científicos do progresso hodierno é sobre esta base que repousa a grandeza deste imenso Brasil. [...] Proporcionemos à nossa mocidade, pelo cultivo equilibrado de suas faculdades, a satisfação imensa de viver acompanhada de uma inclinação espontânea para o bom, para o belo, o verdadeiro, o útil, o grande, que tanto dignificam e engrandecem a personalidade. Seja pois o nosso lema – Ser integralmente forte, forte de corpo e de espírito, para fazer o Brasil forte. (Fonte: Diário Oficial, nº 77, 5/abril/1939, p.1).

Em Mensagem do Governador à Assembléia Legislativa de 01/06/1937, tal propósito fica bem evidente “espero mais, manter no edifício da Escola Normal um curso de piano destinado às alunas que mostrarem especial inclinação a esse gênero de estudo”, enfatizando, desta maneira a importância da Música, enquanto disciplina curricular e instrumento propagador de ideologia, implantando o Canto Orfeônico, como disciplina obrigatória nas escolas cujo principal objetivo era promover nos corais criados a execução anual em datas comemorativas tanto do calendário local quanto nacional.

Da mesma maneira que os conteúdos ensinados são levados para a vida, permanecem na memória de todas as colaboradoras desta pesquisa que estudaram na Escola Normal Oficial, a lembrança da Professora Adalgisa Paiva, como assim se recordou Dona Constância Nogueira Bastos (2008):

[...] Adalgisa era de Canto Orfeônico, depois a dona Adalgisa entrava de licença e vinha uma moça que vinha do Colégio das Irmãs, eu não recordo o nome dela, ela passava pouco tempo, mas a dona Adalgisa é que era... ela era maravilhosa.

[...] Eram umas aulas muito boas animadas, quando era assim perto do dia do professor, do dia do aniversário da Escola Normal, ela fazia aquilo tudo, tinha o Salão de Honra como ela chamava, um piano muito bonito que ela ensaiava [...].

Destacando as reminiscências das ex-alunas da Escola Normal Oficial, quando indagadas sobre o que mais gostavam e o que menos gostavam na escola, a professora Elza Paiva (2002) evidencia, com certa tristeza, parte de suas lembranças em relação às disciplinas estudadas,


O que eu menos gostava era da matéria de História da Educação. Nós tínhamos que decorar um livro enorme. Eu tinha horror, o professor Valdir Gonçalves [...]. O que eu mais gostava eram das festas, que me encantavam. Eu sempre participava, eu achava engraçado porque muitas coisas eram feitas em frente à escola, ocupava a praça. Era lá que aconteciam as festas, os jogos, as brincadeiras, as ginásticas rítmicas. Eu gostava demais das disciplinas de trabalhos manuais [...]. (2002).

Dentre as disciplinas que auxiliam na construção do sentimento nacionalista, uma delas é História, ensinada neste período e por muito mais tempo a partir de uma visão de um só passado, congregando aí sentimento único, como se não houvesse diversidade cultural, firmando a ideia de unidade nacional, não somente as aulas propriamente ditas serviam para ensinar História, mas também as notícias veiculadas pela imprensa local das festas cívicas, dos desfiles, das inaugurações, das homenagens às autoridades.

O Decreto nº 1.139, de 2 de janeiro de 1931, no seu artigo de número 14 determinava que o ensino pedagógico, nas Escolas Normais, do Estado do Piauí,
[...] o ensino de história não consistirá predominantemente na citação de nomes e datas nem se baseará precipuamente na enumeração de batalhas e conquistas. Nelle se focará a evolução progressiva do homem, da animalidade primitiva até a civilização actual, fazendo-se o estudo das principaes descobertas, invenções e ideaes que mais têm contribuído para o progresso e adiantamento moral da humanidade.

Os desfiles funcionavam como pedagogia porque ensinavam a história pátria, ensinavam o que era necessário para fazer o povo acreditar que aquilo era a verdade, até a introjeção e se passasse a defender o que tinha visto e escutado. As ruas eram palcos para a exibição do que a escola havia preparado ao longo dos anos, grande teatro aberto onde a cidade se envolvia, os estudantes, os professores, os militares, as autoridades eram os principais da festa, os outros compareciam para se sentirem parte integrante das comemorações, por ser um dos raros momentos em que eram convidados a participar, uma vez que politicamente estavam sempre excluídos de qualquer participação.

As comemorações iam além dos desfiles estudantis e militares, somando-se aí várias outras atividades, como os hinos que eram cantados, as exibições de educação física, as várias bandeiras, as disputas entre as escolas, a demonstração de aparato militar representando a força do Estado, os discursos das autoridades eram sempre o coroamento das festividades, era o momento, além do desfile, que dava maior conotação política ao evento e, acima de tudo, com sua significação pedagógica.

Era a História sendo ensinada por uma metodologia de caráter positivista e de inculcação de valores morais e éticos voltados sempre para um passado glorioso, desviando o foco de atenção para o presente que estava sendo vivido.

No jornal Diário Oficial, de 22 de janeiro de 1937, localizo em meio às listas de compras para as escolas de material que seriam usados, como giz, goma-arábica, lápis bicolor, latas de creolina, mata borrão, mapas de todos os continentes, borrachas, caixas de penas “Bayard”, sabonete “Protector”, novelos de barbante grosso, réguas de madeira milimetrada, os livros didáticos que seriam comprados pelo governo para as crianças piauienses, livros estes que evidentemente já tinham passado por uma análise e que cabiam perfeitamente nos objetivos propostos pelo Estado através do Ministério da Educação, como por exemplo, “Nossa Pátria” de Rocha Pombo, “Corações de Crianças” de Rita M. Barreto, “Livro de Leitura” de A. Firmino Proença, “Contos Pátrios” e “A Pátria Brasileira” de Olavo Bilac e Coelho Neto, uma pequena mostra dos autores que serviam de apoio aos professores, com conteúdos programáticos voltados para a História do Brasil e eram estudados no período aqui analisado, definindo claramente o perfil doutrinário de então, através dos conteúdos programáticos.

Os livros didáticos cujos títulos são como “Contos Pátrios”, “A Pátria Brasileira” e “Nossa Pátria”, serviam de base para as lições de civismo, de amor e de engrandecimento da Pátria, pelas letras destes poemas, como o que segue abaixo, de Olavo Bilac e Coelho Neto. Compreende-se este processo educacional de jovens e crianças, que desde muito cedo eram preparadas para amar a Pátria, a terra em que nasceu, em que “A Natureza, aqui, perpetuamente em festa”, além da exuberância da própria terra retratada pela natureza, esta “Boa terra! jamais negou a quem trabalha o pão que mata a fome, o teto que agasalha”, ensinava-se às crianças a existência de um lugar sem problemas, onde tudo era festa, ordem e beleza.

A festa, o espetáculo público, para construir e sempre rememorar as datas simbólicas, com função de sacralizar a memória nacional, a memória analisada por Hallbawachs (1990) como aquela construída pela oficialidade, ou ainda, como aquela que é

[...] o elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia (Le Goff, 2003, p.469).

A cidade fica mais bonita, é o cenário onde tudo será redimensionado, terá maior visibilidade. Visibilidade necessária para realçar a pluralidade de significados da comemoração, um ritual quase religioso em que, cada elemento que a compõe tem o seu lugar definido e sentido próprio, cada pelotão1 e uniformes ali apresentados são como uma lente que ampliará o olhar sobre a educação para a construção da memória e da unidade nacional, rememorando os tempos idos dos heróis longínquos, dando concretude ao fazer histórico, como tarefa escolar, que se leva para casa todos os dias.

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1 Pelotão, expressão que designa cada uma das três partes de companhia de soldados, adotada na organização dos estudantes para o desfile escolar.

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