A escola nova em sergipe na primeira metade do século



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A ESCOLA NOVA EM SERGIPE NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO

Anamaria Gonçalves Bueno de Freitasi

Universidade Federal de Sergipe

anagbueno@uol.com.br

Palavras-chave: Escola Nova, Sergipe, Cultura escolar


Como em outros Estados do Brasil, em Sergipe os diferentes grupos de intelectuais com responsabilidades sobre a política educacional durante as primeiras décadas do século XX compreenderam o movimento da Escola Nova como um projeto pedagógico capaz de auxiliar na resolução dos problemas referentes à Educação, principalmente no que dizia respeito à difusão da escola pública, gratuita e laica, bem como a renovação dos métodos de ensinar e aprender.

Apesar de ser tema recorrente na historiografia educacional brasileira e da existência de trabalhos que examinam detidamente o problema em vários Estados, os pesquisadores do campo que se dedicam a estudar especificamente problemas da área a partir do espaço geográfico de Sergipe priorizaram minimamente trabalhos mais completos voltados a análise do movimento da Escola Nova. É fato que o assunto aparece em muitos trabalhos de ampla circulação produzidos por pesquisadores de História da Educação que estudam Sergipe. Mas, é uma aparição pontual, como suporte necessário a explicação de outros fenômenos. Poucos estudos priorizaram a análise do processo de difusão e incorporação da Escola Nova em Sergipe. Dos que ganharam maior visibilidade, vale registrar as dissertações de mestrado de Luzia Cristina Pereira Brito apresentada em 2001 na Universidade Federal de Sergipe (Ecos da Modernidade Pedagógica na Escola Normal Rui Barbosa); de Anne Emilie Souza de Almeida (A difusão do ideário escolanovista em grupos escolares sergipanos) defendida em 2009; de Cristina Valença (Civilizar, regenerar e higienizar: a difusão dos ideais da Pedagogia Moderna por Helvécio de Andrade), levada à defesa em 2006; de Maria do Socorro Lima (República, política, Direito: representações do trabalho docente e a trajetória de Antônio Manoel Carvalho Neto), publicada em 2008; e, de Rita de Cássia Dias Leal (O primeiro jardim de infância de Sergipe. Contribuição ao estudo da Educação Infantil), produzida em 2004. Do mesmo modo, o livro de Josefa Eliana Souza, “Nunes Mendonça: um escolanovista sergipano”. Também importantes são os artigos “A escola no espelho: São Paulo e a implantação dos grupos escolares no Estado de Sergipe”, de autoria de Jorge Carvalho do Nascimento; e, “Ecos de uma viagem: Rocha Lima e a Escola Nova em Sergipe”, de Neide Sobral.

Não obstante serem quantitativamente poucos os trabalhos sobre o tema existe em arquivos sergipanos abundantes fontes que possibilitam variadas análises do problema principalmente nos acervos do Arquivo Público do Estado de Sergipe e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, além de diversos arquivos, mantidos por instituições escolares públicas e privadas. Os documentos existentes e já analisados pelos estudos que aqui se elencou, apontam o diálogo entre os intelectuais da Educação que atuavam em Sergipe e as relações que estes estabeleceram, principalmente com aqueles que comandavam as reformas educacionais no Distrito Federal e nos Estados de São Paulo e da Bahia.


O Método Intuitivo e as mudanças da Pedagogia Moderna
Remetem ao ano de 1912 os registros que dão conta do entusiasmado discurso assumido por alguns intelectuais da Educação defensores da nova ordem republicana em Sergipe, que propuseram a bandeira da Pedagogia Moderna como alternativa possível à solução dos problemas educacionais sergipanos. Ao elaborar o programa dos grupos escolares de Sergipe naquele ano, o professor Balthazar Góes estabeleceu a obrigatoriedade do uso do Método Intuitivo. O encantamento do professor Balthazar Goes com o Método datava de 1905, quando publicou o livro Pedagogia: Apostilas de Pedagogia precedidas de algumas noções de Psicologia colhida de bons mestres, no qual explicita a influência que recebeu de Norman Alisson Calkins, com a edição do livro, Primeiras Lições de Coisas, traduzido para a língua portuguesa ainda no século XIX por Ruy Barbosa.

Nos anos seguintes a proposta de Balthazar Góes ganhou outros aguerridos defensores: Helvécio de Andrade, José Augusto da Rocha Lima, Acrísio Cruz e José Antonio Nunes Mendonça. Certamente o mais importante contingente de entusiastas da Escola Nova em Sergipe foi o de professores da Escola Normal Rui Barbosa, influenciando sobremodo na formação dos jovens professores das décadas de 30, 40, 50 e 60 do século XX.

Nos depoimentos das ex-alunas da Escola Normal Rui Barbosa (renomeado, a partir de 1947, de Instituto de Educação Rui Barbosa), que se formaram no período de 1920 a 1950, investigados por Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas (2003) a busca pela renovação dos métodos pedagógicos, através de diferentes práticas, fazia parte do cotidiano da formação.

No discurso da maior parte dos intelectuais da Educação que atuaram em Sergipe defendendo o novo ideário, é possível observar o encantamento com o Método Intuitivo. Esse grupo de intelectuais incorporou o discurso da Escola Nova, sem descaracterizar os elementos legados pela chamada Pedagogia Moderna. Não é objeto desse texto discutir as convergências e divergências existentes entre a Pedagogia Moderna e a Escola Nova. Todavia, e importante pontuar que um dos principais articuladores do movimento escolanovista no Estado de Sergipe, o médico Helvécio de Andrade, discutiu essa questão ainda nos primeiros anos do século XX, para acrescentar à Pedagogia Moderna elementos que entendia como escolanovistas, a exemplo do Método Ativo.

Em 1913, Helvécio de Andrade colocou em circulação o seu livro Curso de Pedagogia: Psicologia, Pedologia e Higiene Escolar, assumindo também a defesa do Método Intuitivo.

Toda a incorporação do discurso reformista passou pela forte mediação das viagens que estes intelectuais fizeram principalmente a São Paulo e ao Rio de Janeiro e do diálogo permanente com os reformadores baianos. Esse diálogo com reformadores de diferentes Estados incluiu também a importação de técnicos de São Paulo que atuaram em Sergipe, como foi o caso de Carlos da Silveira que exerceu o cargo de diretor da Instrução Pública no período 1909-1911, sob o governo do Presidente Rodrigues Dórea, e propôs um plano “que previa a construção de grupos escolares, a organização do serviço de inspeção escola, a adoção de novos métodos de ensino e a remodelação dos ensinos normal e secundário” (Nascimento, 2006, p. 153).

Uma das viagens de maior repercussão para o processo das reformas educacionais em Sergipe foi realizada, em 1931, pelo professor José Augusto da Rocha Lima. Ele visitou o Estado de São Paulo, onde fez contatos com o professor Lourenço Filho e outros intelectuais da Educação que defendiam o novo projeto, além de conhecer importantes instituições escolares. Em São Paulo, adquiriu textos de importantes pedagogos europeus e norte-americanos como Ferriére, Claparède, Dewey, Decroly e Montessori. Mesmo demonstrando entusiasmo com as reformas que ocorriam em São Paulo, Rocha Lima defendia que o Estado de Sergipe deveria incorporar de modo parcimonioso alguns elementos do projeto paulista, uma vez que eram muitas as diferenças culturais e econômicas existentes entre os dois Estados. Dentre os elementos que o entusiasmaram e que defendeu como fundamentais para as reformas que ocorriam em Sergipe, Rocha Lima apontou a difusão das bibliotecas pedagógicas, principalmente a Biblioteca Pedagógica que funcionava em anexo a Diretoria de Instrução Pública. Na mesma direção, propôs adotar um programa de conferências pedagógicas destinadas aos professores, a fim de que se obtivesse a adesão destes ao projeto das reformas.

A concepção assumida por Rocha Lima era a de que a instrução estava articulada à vida quotidiana, servindo para o aluno conhecer o meio no qual vivia. “A escola deve preparar para a vida, em vez de se limitar ao aprendizado de técnicas (leitura, escrita, ortografia, cálculo) e ao ensino verbal de geografia, história, e de outra ciência morta” (ROCHA Lima, 1931, p. 12). O seu entendimento se identificava principalmente com o projeto proposto por Ovídio Decroly matizado pelas observações de John Dewey: “Desde que se separe a atividade do interesse, adverte Dewey, cria-se uma luta entre dois pólos da atividade” (ROCHA Lima, 1931, p. 13).

Essa primeira geração de escolanovistas sergipanos foi substituída por novos intelectuais no final da década de 40 do século XX que, todavia, continuaram a empunhar a bandeira das reformas até o final da década de 50. Dois deles ganharam muita visibilidade: Acrísio Cruz e Jose Antônio Nunes Mendonça. Como diretor do Departamento Geral de Educação, no período de 1944 a 1950, Acrísio editou o Regulamento nº 262, de 31 de outubro de 1945, instituindo as reuniões pedagógicas e estabelecendo como tarefa dos inspetores nessas reuniões a difusão do ideário escolanovista.

O professor José Antônio Nunes Mendonça, foi responsável pelas cadeiras de Sociologia da Educação e Biologia Educacional da Escola Normal, sua notoriedade foi garantida depois que ele atuou como bolsista do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos e publicou, em 1958, o livro A Educação em Sergipe:


Tal como em A Cultura Brasileira [de Fernando de Azevedo], o trabalho desenvolvido pelo professor Nunes Mendonça em A Educação em Sergipe fazia parte de um projeto maior. Se para o primeiro representou uma encomenda da CNE, para o segundo foi uma tarefa atribuída pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), órgão do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Souza, 2003, p. 121).

O estudo sociológico de Nunes Mendonça resultou da incumbência que Anísio Teixeira atribuiu a este de pesquisar a Educação em Sergipe. Escrito no ano de 1956, o trabalho serviu também para o autor concorrer ao cargo de professor catedrático do Instituto de Educação Ruy Barbosa. No seu texto, ele afirmou que as reformas escolanovistas propostas nas décadas anteriores em Sergipe não foram efetivamente implementadas e, como em outros Estados, se impunha pari passu uma reforma dos fundamentos democráticos da sociedade. Como John Dewey, Nunes Mendonça afirmava que a Educação não se esgotava na instrução, mas era também responsável pela reforma social, fundada em preceitos democráticos. Para fortalecer o seu discurso, recuperou o conjunto de críticas que o médico Helvécio de Andrade formulara na década de 30 à política educacional do Estado de Sergipe, reafirmando a sua validade 20 anos depois.



A Associação Sergipana de Educação
A Associação Brasileira de Educação - ABE ofereceu uma contribuição muito importante para a difusão em Sergipe das inovações pedagógicas que entusiasmaram o país no início do século XX. De acordo com Anne Emilie Souza de Almeida, um ano após a sua fundação, em 1924, o presidente da ABE, Cândido de Melo Leitão, solicitou ao presidente do Estado de Sergipe, Maurício Graccho Cardoso, o envio da legislação do ensino estadual para a organização do arquivo nacional sobre o tema proposto pela Associação Brasileira de Educação. “A iniciativa da Associação de articular com outros Estados brasileiros, tinha como finalidade difundir os pilares da Educação defendidos pela ABE, os quais eram saúde, moral e trabalho” (Almeida, 2009, p. 26).

A partir deste primeiro contato, a ABE intensificou o diálogo com os intelectuais da Educação que trabalhavam em Sergipe, principalmente aqueles com responsabilidades gerenciais a política educacional. Era prática da ABE solicitar a colaboração dos governos estaduais para o cumprimento dos seus objetivos, articulando sempre as suas iniciativas ao apoio dos governos:


Interventor: Tenho a honra de comunicar a Vossa Excelência, na qualidade de Presidente da Associação Brasileira de Educação e da Comissão Executiva da VIII Conferência Mundial de Educação que se acha instalada à Avenida Rio Branco 91, 10º andar, nesta cidade, a sede da Comissão incumbida de organizar e preparar a VIII Conferência Mundial que se reunirá no Rio de Janeiro de 6 a 11 de agosto por iniciativa da Federação Mundial da Associação da Educação, de Washington e sob o patrocínio do Governo da República. A referida Comissão Executiva nos termos do art. 1º do Decreto nº 1.074 de 25 de Janeiro de 1939, está constituída por esta forma (Sergipe, 1939).
Em Sergipe, um dos primeiros intelectuais a aderir a ABE foi o médico Helvécio de Andrade, professor da cadeira de Pedagogia da Escola Normal. Foi ele que, dez anos depois da fundação da ABE, em 1934, tomou a iniciativa de criar a Associação Sergipana de Educação – ASE. Anne Emilie Souza de Almeida (2009, p. 45) revela que a ASE foi fundada no dia seis de fevereiro, como seção estadual da ABE, numa reunião da qual participaram os principais professores da Escola Normal, inspetores escolares e os diretores dos grupos escolares que então funcionavam no Estado de Sergipe. Diretor da Instrução Pública, Helvécio de Andrade assumiu também a presidência da Associação, designando o seu Conselho Diretor, do qual participou como vice-presidente o professor José Augusto da Rocha Lima. Dentre os fundadores da Associação Sergipana de Educação aparecem os nomes dos professores Francisco da Graça Leite, José Magalhães Carneiro, Joaquim Sobral, Florentino Teles de Menezes, Passos Cabral e José Teles de Menezes.

Na mesma reunião em que foi fundada a ASE, o professor José Augusto da Rocha Lima fez uma conferência sobre a reforma educacional, sob o título “O Método Intuitivo no ensino da leitura”, demonstrando que este continuava a ser um dos temas prediletos da discussão dos reformadores educacionais de Sergipe.

Em junho de 1934, quatro meses depois de instalada a Associação Sergipana de Educação, o Diário Oficial do Estado de Sergipe publicou documento firmado pelo professor Lourenço Filho, presidente da ABE, acerca dos vínculos existentes entre a Associação Brasileira de Educação e a ASE:
Tendo presentes o Estatuto da Associação Sergipana de Educação, fundada em fevereiro findo no Estado de Sergipe, e havendo recebido ofício em que o presidente da mesma Associação, dr. Helvécio Andrade, solicita a sua filiação a ABE, declaro que verifiquei estarem no caso preenchidas as condições exigidas pelo artigo 13 dos Estatutos desta e, assim, opino, em face do art. 6º do Regimento Interno, que seja concedida sem demora a filiação solicitada. Rio, 31 de maio de 1934 – M. B. Lourenço Filho, presidente da Associação Brasileira de Educação (Sergipe, 1934).

A tecnologia dos inspetores
O papel desempenhado pelos inspetores escolares na difusão do ideário escolanovista foi fundamental, também em Sergipe. Anne Emilie Souza de Almeida (2009, p. 57) estudou a ação da inspetoria de ensino em Sergipe, assumindo os aportes teóricos concebidos por Rosiley Teixeira Souto na sua tese de doutoramento intitulada Recrutamento e qualificação de professores na instrução pública paulista (1892-1933). Ambas entendem como tecnologia de Estado o trabalho realizado pelos inspetores. Viram as responsabilidades de tais agentes como “meios utilizados para qualificar os professores e, assim, fazer chegar a eles os modernos preceitos pedagógicos” (Almeida, 2009, p. 57). Para Almeida (2009), os inspetores exerceram não apenas a função de fiscalizadores, mas, fundamentalmente, a de orientadores, moldando e adequando as instituições de ensino e os agentes inseridos no campo escolar. Um bom exemplo, em Sergipe, foi o da responsabilidade de difundir os fundamentos da Escola Nova, encargo que receberam formalmente a partir de 1945 e cumpriram estabelecendo a tradição de realizar nos grupos escolares sergipanos reuniões mensais, durante as décadas de 40 e 50 do século XX, destinadas ao debate dos princípios escolanovistas.

Não obstante essa intensificação formal do trabalho dos inspetores difundindo o ideário da Escola Nova a partir da década de 40, essa pratica encontra registros que remetem aos anos 30 do século passado. O Regulamento de nº 25, publicado no dia três de fevereiro de 1931, definiu o acesso à carreira de inspetor de ensino no Estado de Sergipe através de concurso público prestado perante uma banca presidida pelo diretor geral da Instrução Pública e composta por mais três professores. Os candidatos eram submetidos a uma prova escrita de conhecimentos de Psicologia aplicada à Educação, Metodologia e Higiene Escolar. Os conteúdos das provas estavam fundados no discurso dos principais reformadores da Educação cujos trabalhos circulavam no país (Almeida, 2009, p. 59). Estes saberes cobrados dos inspetores eram compatíveis com as exigências do Regulamento nº 25, segundo as quais a aprendizagem da criança no ensino primário deveria se pautar pela observação, conforme o Método Intuitivo; pela demonstração dos deveres morais, pelos preceitos cívicos e pela descoberta das habilidades que objetivassem o exercício das vocações. A aprendizagem dos deveres morais estava articulada ao ensino de disciplinas como Ciências Físicas e Naturais, buscando a associação dessas responsabilidades com as noções de Higiene e Instrução Moral. Eram os inspetores os responsáveis pela verificação da observância dessas competências na escola.

A partir de 1941, o diálogo com os fundamentos da Escola Nova ficou mais evidente nas provas para o cargo de inspetor do ensino, do mesmo modo que aumentou o rigor do concurso após a entrada em vigor do decreto nº 121, de seis de dezembro daquele ano. A nova regulamentação estabeleceu a obrigatoriedade de comprovação dos conhecimentos dos candidatos em cinco disciplinas: Psicologia aplicada à Educação, Pedagogia Didática, História da Educação, Legislação do Ensino e Administração Escolar (Almeida, 2009, p. 59). Nesse mesmo ano de 1941, o Governo do Estado de Sergipe publicou o Boletim de Organização do Ensino Primário de Sergipe, elaborado pelo professor Lourenço Filho, com diretrizes a respeito da organização e funcionamento da inspeção escolar no Estado. O documento dispunha sobre a responsabilidade dos inspetores quanto a orientação do trabalho docente, de modo a promover o aperfeiçoamento das práticas dos métodos e dos processos pedagógicos. Assim, uma das responsabilidades de maior importância da função era reportar ao Departamento de Educação quanto aos processos de ensino e o material pedagógico utilizados pelos professores.

Em 1943, novamente, o regulamento da inspeção escolar foi modificado, agora pelo decreto-lei nº 121, do dia dois de dezembro. Foi criado o cargo de inspetor geral, com a responsabilidade específica de analisar os métodos empregados nas diversas escolas e sugerir formas de melhorar a execução dos mesmos. Os inspetores escolares, de acordo com as novas regras eram também responsáveis pela observação do uso por parte dos professores dos livros recomendados pelo Departamento de Educação, impedindo a adoção de autores não recomendados. Além disso, era ainda da competência dos inspetores, o estímulo a organização de museus e bibliotecas escolares.

Ao analisar os termos de inspeção produzidos por inspetores que visitaram diferentes grupos escolares no Estado de Sergipe, Anne Emilie Souza de Almeida (2009) assinala, em todos eles, as observações a respeito do ensino mútuo e das práticas difundidas pelo discurso dos intelectuais entusiasmados com a Escola Nova. O inspetor Ascendino Argolo, que visitou o Grupo Escolar João Fernandes de Brito, na cidade de Propriá (distante de Aracaju cerca de 100 quilômetros em direção ao norte), em 1942, afirmou haver verificado o uso do Método Intuitivo. Em 1943, visitando o mesmo grupo escolar, o inspetor Sebrão Sobrinho
observou como as professoras ministravam as aulas e promoveu uma demonstração sobre o ensino de acordo com os procedimentos metodológicos abordados por Decroly: as aulas globalizadas e os centros de interesse (Almeida, 2009, p. 69).
Entusiasta das lições de Ovide Decroly, em seus relatórios o inspetor Sebrão Sobrinho assinalou sempre a importância das aulas globalizadas e dos centros de interesse, preocupado com a difusão do ideário da Escola Nova:
[...] passei a inspecioná-los, classe a classe e fiz com que desenvolvessem, com meu auxílio, em aulas globalizadas, dois centros de interesse, ambos amoldados nas disciplinas que cursam. Tive sempre de intervir, como era natural, como um colega mais experimentado [...].Obrigando a observar, forçando a associar [...] (Sergipe, 1943, p. 3).
Dez anos depois de Sebrão Sobrinho, em 1953, outro inspetor, Gumercindo Ferreira, visitando a mesma instituição de ensino, anotou a importância dos fundamentos da Pedagogia da Escola Nova adotada pelo Departamento de Educação, citou Claparède e indicou leituras que considerava adequadas à consciência metodológica e à orientação das praticas dos docentes em sala de aula:
Para encaminhar os mestres, pedagogicamente, recomendei-lhes a leitura de algumas obras. Manual do Professor Primário, de Miranda Santos; História da Educação, de P. Monroe; Manual de Pedagogia Moderna, de Everardo Backheuser; Noções de Psicologia Educacional, de Miranda Santos; Noções de Psicologia, de Iago Pimentel; Introdução à Administração Escolar, de Carneiro Leão; Psicologia, de Djacir e o método da Pedagogia científica, de Maria Montessori (Sergipe, 1953).
Nos seus relatórios sobressai ainda outro teórico da Escola Nova, cuja obra era referenciada permanentemente por Gumercindo Ferreira Batista: M. Aguayo e a sua Didática da Escola Nova.

No seu estudo aqui já citado, Anne Emilie Souza de Almeida analisou também visitas de inspeção feitas no Grupo Escolar Gumercindo Bessa, na cidade de Estância (distante de Aracaju cerca de 70 quilômetros em direção ao sul), e apontou os registros do inspetor Paulo Andrade Monte, que esteve na instituição durante o ano de 1944. Ele indicou a qualificação das professoras para o trabalho com o Método Intuitivoii e outras propostas da Pedagogia da Escola Nova. Contudo, criticou a dificuldade para a obtenção de material didático adequado às inovações pedagógicas:


O estabelecimento se ressente de mapas do Brasil, contendo os territórios nacionais, cartas de linguagem, vez que as existentes estão estragadas, mapas econômicos do Brasil e mapas de Sergipe. Ante esta falta o corpo docente se vê em dificuldades para o ensino intuitivo e o corpo discente com relevante prejuízo (Sergipe, 1944).
O inspetor Paulo Monte afirmava nos seus registros a importância do material didático para a boa aprendizagem e registrava os nomes dos docentes que assumiam as práticas da Escola Nova, como a professora Rosa Santos Pardo que, segundo ele, possuía aptidão e sabia ensinar com base no Método Intuitivo. Além disso, freqüentemente reunia os professores com o objetivo de doutriná-los nos fundamentos da Escola Nova:
Terminada a inspeção convoquei todo o corpo docente e administrativo do Grupo Escolar Gumercindo Bessa para uma reunião na sala da Diretoria e aí, aprovando o desenvolvimento dos trabalhos escolares, e educacionais, em geral fiz uma palestra exigindo pela Escola Nova, procurando estimular mais e mais a adoção dos métodos modernos, pela sua comprovada eficiência (Sergipe, 1944).
Os padrões de funcionamento observados nos grupos escolares localizados nos municípios do interior do Estado de Sergipe eram os mesmos anotados pelos inspetores nas visitas que faziam aos grupos escolares da cidade de Aracaju, a capital. O inspetor José de Alencar Cardoso não poupava elogios ao professor Acrísio Cruz, que em 1934 dirigia o Grupo Escolar Manuel Luiz, colocando em relevo o domínio deste último em face dos métodos da Escola Nova:
Aos vinte e oito dias do mês de setembro, inspecionei o Grupo Escolar Manuel Luiz, que funciona em sede própria, com todos os requisitos pedagógicos. No que tange à ordem e à disciplina, o que se observa recomenda o seu diretor prof. Acrísio Cruz, espírito lúcido e Senhor dos problemas da escola nova e as mestras que sacerdotizavam o ensino (Sergipe, 1934).
O inspetor não deixava de observar que o corpo docente do Grupo Escolar Manuel Luiz era integrado predominantemente por professoras formadas na Escola Normal e também que a instituição serviu como campo de estágio ara as alunas-mestres enquanto estas recebiam formação. O trabalho naquele Grupo sob tais padrões persistiu durante as décadas de 30, 40 e 50 do século XX, com sucessivos inspetores elogiando, principalmente, a correção no uso do Método Intuitivo.

Outra importante dimensão do trabalho realizado pelos inspetores para a difusão do ideário da Pedagogia da Escola Nova diz respeito a organização das reuniões pedagógicas, regulamentadas em 1945. As reuniões eram realizadas bimestralmente nos grupos escolares, de modo que a cada ano acontecessem quatro encontros. Nessas reuniões ocorriam “conversas, palestras sucintas, estudos, leitura e discussão de artigos de jornais, revistas, capítulos ou trechos de livros sobre educação” (Almeida, 2009, p. 93). Cada reunião, presidida pelo diretor do grupo escolar, durava duas horas. Em algumas instituições, como no Grupo Escolar Manuel Luiz, a cada reunião uma professora assumia a responsabilidade de expor um tema pedagógico para os demais colegas:


Mirena Lima Madureira comentou que a educação deve à Psicologia. Para os escolanovistas esta era uma das ciências fundamentais para compreender a criança como um todo, daí a dívida da Educação em relação a Psicologia. A professora acrescentou que a nova educação tinha o intuito de preparar os futuros cidadãos para a construção de um mundo novo (Almeida, 2009, p. 115).
Essas reuniões pedagógicas, portanto, foram poderoso instrumento de difusão do ideário da Escola Nova e complementando o processo de formação do corpo docente.

Considerações finais
É possível afirmar que a apropriação dos padrões do movimento da Escola Nova em Sergipe foi ajustada ao conjunto de necessidades e possibilidades existentes no âmbito local, não apenas em face da compreensão que tiveram os intelectuais sergipanos que se entusiasmaram pelo movimento, mas também considerando os conflitos e resistências enfrentados pela proposta.

No caso do Estado de Sergipe, é da maior importância também considerar o papel desempenhado pela Associação Sergipana de Educação – ASE, fundada em 1934. A Associação promoveu debates entre intelectuais da Educação, organizou reuniões científicas e articulou os contatos com os estudiosos que atuavam em outros Estados e com a própria Associação Brasileira de Educação – ABE.



Certamente, em Sergipe, a estratégia da inspeção escolar como tecnologia de Estado adotada para a difusão dos princípios da Pedagogia da Escola Nova, juntamente com as reuniões pedagógicas foram fundamentais para a modernização dos métodos pedagógicos.


i Este texto foi produzido em co-autoria com o Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (UFS). E-mail: jocarna@uol.com.br.

ii Sobre os diferentes usos do método intuitivo no Brasil, relacionados com a modernização pedagógica verificar entre outros estudos: Vera Teresa Valdemarin (2004a e 2004b).

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VALENÇA, Cristina. Civilizar, regenerar e higienizar: a difusão dos ideais da Pedagogia Moderna por Helvécio de Andrade (1911-1935). Dissertação (Mestrado em Educação). São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2006.




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