A estrela de beléM* Elizabeth Goudge



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A ESTRELA DE BELÉM*
Elizabeth Goudge**

Davi estava sentado, com as pernas cruzadas, em um canto do aposento, distante dos seus irmãozinhos. Estava pensativo e triste, desejando ser já um homem, rico, forte e poderoso, senhor e dono de inúmeros camelos e incalculável quantidade de ovelhas. Por infelicidade, não só era pequeno como também muito pobre, extremamente pobre.


Era um pastorzinho cuja única fortuna consistia na sua flauta rústica, que levava pendurada ao pescoço e da qual arrancava doces notas ao longo do dia, quer para se distrair a si mesmo, quer para reunir o seu rebanho, que acudia como que encantado ao ouvi-Ia. Dissemos que a flauta era a sua única fortuna e, na verdade, o menino tinha por ela um carinho imenso.
Ele e a sua família passavam por maus momentos. O pequeno comprimia o estômago com as mãos. Quanto tempo faltaria para que morresse de fome? Quanto tempo demorariam os seus até morrerem também, para buscar a paz e o descanso eterno no seio de Abraão? Não duvidava de que isso fosse o melhor a que poderia aspirar um mortal; mesmo assim, achava certo que os velhos pensassem em morrer, mas não os jovens e sobretudo as crianças como ele e os irmãozinhos, que apenas tinham vivido poucos anos, que apenas tinham visto florescer umas poucas primaveras, com as nuas montanhas vestindo-se com o escarlate e a púrpura das anêmonas, e uns poucos verões, ardentes, porém cheios de vida e de alegria.
Se ao menos agora fosse verão! Mas, para cúmulo de desgraças, era uma noite do mais terrível inverno. E se mamãe pudesse acender um bom fogo para que ele e os seus irmãozinhos se apinhassem ao redor, combatendo o frio, já que não podiam combater a fome!... Na pobre choupana, porém, não havia mais que a luz de um débil candeeiro, e a sua pobre mãe jazia junto do pai enfermo, esquecendo no seu desespero as queixas dos quatro filhos famintos.
Davi continuava a meditar e pensava que, se fosse um homem rico, pouco importaria que as colheitas malograssem, nem que seu pai ficasse sem trabalho e enfermo; porque ele, com as suas riquezas e a sua força, remediaria todos os males.
Repentinamente, acudiu-lhe à mente a lembrança do "manancial dos desejos", situado a pouca distância de casa, no caminho de Belém. Era um manancial de água clara, e dizia-se que aqueles que se abeirassem dele à meia-noite, com o coração puro, para orar ao bom Pai e Senhor Javé, conseguiriam o que pedissem na sua fervorosa súplica. A dificuldade consistia, naturalmente, em estar puro de coração. Dizia-se que, se alguém estivesse assim, e a súplica fosse ouvida por Javé, veria refletir-se nas águas do manancial o objeto do seu desejo, fosse o rosto de um ser amado ou o ouro com o qual salvaria da desgraça um pobre lar. O rapaz sentia-se bastante desanimado; nenhuma das pessoas de seu conhecimento que tinham ido rezar ao "manancial dos desejos" havia conseguido ver alguma coisa refletida nas águas. Alguns até haviam ido lá mais de uma vez. Apesar disso, escapou pela porta e mergulhou nas sombras da noite. Não sabia se estava puro de coração, mas, de qualquer maneira, pensava que, pela sua intenção, bem valia a pena fazer a prova.
Era uma noite escura, silenciosa, fria, e ele sentiu-se de súbito terrivelmente assustado. Em seu redor erguiam-se as nuas montanhas, projetando sombras gigantescas e assustadoras; e lá longe, bem adiante, montes cobertos de oliveiras misteriosas sumidas nas sombras, e a mais profunda quietude. O céu brilhava com luz refulgente e estava tão carregado de cintilantes estrelas que parecia que iam desabar com grande estrépito sobre a terra reduzindo-a a escombros.
A solidão, a lúgubre obscuridade, o frio e a grande abóbada do céu fizeram com que o coração do pobre pastorzinho se sentisse aflito e tremesse de medo. Ele nunca tinha saído de casa àquela hora e nesse momento não se sentia com muita coragem, faminto e esgotado como estava, para empreender sozinho a marcha através das sombras das colinas, passando pelo monte das oliveiras, rumo ao branco caminho onde diziam que no silêncio das noites costumavam esconder-se ladrões, assaltantes e assassinos que se atiravam sobre o primeiro que passasse e lhe atravessavam a garganta com os seus punhais, pelo mero prazer de fazê-lo.
Depois, lembrou-se de que, no alto de um monte próximo, costumavam acampar uns pastores conhecidos seus; ali se reuniam, ao calor do fogo guardando os rebanhos. Com certeza encontraria entre eles um primo seu, chamado Elias, que lhe estava ensinando o ofício de pastor. E não havia dúvida de que Elias concordaria, com satisfação, em deixar por um instante as suas ovelhas ao cuidado dos outros pastores, para acompanhá-lo até o "manancial dos desejos". Pelo menos, ele lhe faria o pedido.
Dirigiu-se pois, correndo, para o monte; e corria velozmente, porque tinha medo. O pobrezinho pensava que, para cúmulo, essa noite tinha algo de raro e de solene que o assustava. A terra estava serena, como se esperasse alguma coisa; e o céu, cheio de luz, parecia palpitar de glória. Várias vezes, no percurso da sua carreira, pôde jurar que ouvia vozes que diziam regozijantes: "Glória a Deus! Glória a Deus!", como se as próprias montanhas estivessem cantando e como se ouvisse o murmúrio de asas que adejassem sobre a sua cabeça. Não obstante, nos momentos em que se detinha e escutava atentamente, nada ouvia além do sibilar do vento e, de quando em quando, o suave som da flauta de um pastor, à distância.
Quando por fim chegou ao destino, deu um suspiro de alívio e chamou:
- Elias! Está aí? Jacó! Tobias! Sou eu, Davi!
Não obteve nenhuma resposta, a não ser o suave balido de algumas ovelhas e essa estranha onda de música sobrenatural que se ouvia e não se ouvia... Palpitante, avançou até à entrada de uma caverna que servia de refúgio aos rebanhos. Olhou, examinou a escuridão, mas nada: os seus amigos não estavam ali. Na verdade, não havia ninguém - ninguém, exceto um estranho. Um homem alto, barbudo, de aspecto impressionante, majestosamente sentado em uma rocha, no meio das ovelhas.
Davi olhou assombrado, porém mais se assombrou ao ver com que confiança as ovelhas se agrupavam em torno do desconhecido, elas que em geral são tão assustadiças e desconfiadas com estranhos.
- Boa noite, pastorzinho - disse o desconhecido -; esta, sim, é que é deveras uma linda noite.
O rapaz avançou lentamente, coçando o nariz, inteiramente perplexo. Quem era esse homem? As ovelhas pareciam conhecê-lo, e, coisa mais rara ainda, ele parecia conhecer o pequeno Davi. Mas Davi não se lembrava de ter visto nunca esse homem extraordinário, de elevada estatura, de rosto tão impressionante e de voz tão profunda, doce e majestosa. Não havia dúvida: devia ser alguma alta personagem; um soldado, talvez, mas nunca um pastor.
- Boa noite - respondeu Davi, como menino educado que era. - A noite é bela, na verdade, mas sente-se bastante frio nas pernas.
- Verdade? Pois então venha cobrir-se com o meu manto.
O menino aproximou-se timidamente e o homem o cobriu com o manto. E Davi sentiu um tépido bem-estar que lhe envolveu o corpo, pouco antes enregelado. Assim como o frio, o medo desvaneceu-se do seu coração, evaporou-se, e, já libertado, Davi cobriu-se bem, sentindo-se protegido e sobretudo feliz, com uma felicidade impossível de explicar.
- Onde estão os outros pastores? - perguntou ao desconhecido - Quero dizer, Elias, Jacó e Tobias?
- Foram a Belém - disse o estranho - Foram assistir à celebração de um nascimento.
- Foram e não me levaram? - exclamou Davi, cheio de indignação. - Que egoístas! Esqueceram-se de mim!
- Estavam muito apressados - replicou o outro -; parece que o caso foi inesperado.
- Então foram sem levar presentes? Vão sentir-se envergonhados de apresentar-se de mãos vazias. Isso lhes servirá de castigo por não me terem levado.
- Levaram presentes, sim - disse pacientemente o homem -, levaram o que puderam: um bordão de pastor, um manto e um bocado de pão.
Davi fez um gesto de desprezo e outro de indignação. - Não deveriam ter ido - disse -, sabendo que é um crime os pastores abandonarem os seus rebanhos, tanto mais que há tantos ladrões e assassinos à espreita de uma oportunidade para assaltar e roubar.
- Engana-se, pequeno - disse o homem sorrindo -; pelo contrário, fizeram muito bem em ir. E porque fizeram bem, aqui estou eu, cuidando dos rebanhos deles.
- Mas o senhor é um só - objetou Davi -, e para lutar contra os ladrões são precisos muitos, pois os ladrões das montanhas são muito ferozes.
- Acho que posso fazer frente a qualquer número de ladrões, disse sorrindo o desconhecido.
Davi olhou-o assombrado, porque o homem não falara em tom de brincadeira; pelo contrário, tinha afirmado aquilo com toda a clareza, na sua voz grave, serena, majestosa. Além disso, agora o garoto sentia também a força enorme daquele braço que lhe rodeava os ombros e a robustez daqueles joelhos contra os quais apoiava o corpo.
- Tem lutado em muitas batalhas? - perguntou Davi, pasmo de admiração.
- Ah!, sim em muitas - assentiu o desconhecido.
- E contra quem lutou? Contra os bárbaros?
- Não. Contra o demônio e seus anjos infernais, disse o homem, um tanto triste.
Davi sentiu-se por um momento privado da fala; depois, apertou-se mais contra os joelhos do homem e olhou para o seu rosto; pelo que viu, julgou que nem ladrões, nem anjos infernais, nem mesmo o demônio podiam inspirar medo a um homem como aquele. O seu rosto era delicado e forte, cheio de poderosa expressão, mas transbordante de ternura, brilhante como o sol em pleno dia e, além disso, coberto de insondáveis sombras de mistério.
Antes que Davi pudesse articular outra palavra, pareceu-lhe que se passara uma eternidade.
- Quem é o senhor? - perguntou, por fim. - Não é um pastor.
- Sou um soldado - disse o desconhecido -, e meu nome é Miguel. E você, como se chama?
- Davi - balbuciou o garoto, que se viu obrigado a fechar os olhos, porque o rosto do homem o ofuscava. Se era um soldado, não havia dúvida de que entre os soldados devia ser considerado um rei.
- Bem, Davi; diga-me agora para onde se dirigia. Uma vez que ambos haviam dito os respectivos nomes, o garoto pensou que seriam amigos para toda a vida e não teve dúvida alguma em contar toda a sua história. Contou tudo, sem omitir nada. A doença do pai, as lágrimas da mãe, a fome dos irmãozinhos, o frio do lar, onde já não havia fogo nem azeite para o candeeiro que os alumiava à noite. Falou dos seus desejos de ser um homem rico para remediar todas aquelas desgraças e fazer felizes os seus, e da sua idéia de ir orar no "manancial dos desejos", assim como das suas dúvidas sobre se estaria puro de coração para que Deus ouvisse os seus rogos e lhe mostrasse, refletido nas águas, o objeto dos seus desejos.
- Devo confessar - acabou dizendo - que não me atrevia a ir sozinho ao manancial e que vim buscar o meu primo Elias para que me acompanhasse. E agora fico sabendo que ele foi a esse nascimento...
- O que quer dizer que você irá sozinho ao manancial.
- O senhor acredita que as ovelhas não poderiam ficar um instante sozinhas? - disse Davi, sem se atrever a falar mais claramente.
- Certamente que não - disse Miguel com firmeza;
-Eu não tenho medo, naturalmente - disse Davi; mas, ao mesmo tempo, aconchegou-se mais a Miguel.

- Também acho que não - disse Miguel com energia. - Observei que todos os que se chamam como você têm sido sempre valentes. Lembre-se, por exemplo, do rei Davi, que lutou contra o leão e o urso quando era apenas um pastorzinho como você.


- Sim, mas Javé, o guiava e protegia - objetou o garoto.
- E o Senhor também o protegerá, sem dúvida.
- Mas... não me sinto como se estivesse sendo protegido.
- É que ainda não começou - disse rindo Miguel. - Como você quer que o proteja agora, se não há nada contra que protegê-lo? E como quer sentir-se guiado, se ainda não empreendeu o caminho? Empreenda-o e a proteção divina não tardará a fazer-se sentir sobre você. Vamos, depressa.
E com um pequeno empurrão, carinhoso e firme ao mesmo tempo, Miguel desprendeu Davi dos seus joelhos e levantou o seu manto de forma que mais parecia um par de asas pronto para voar até o céu. O vento e o frio fizeram-se sentir novamente nas pernas nuas do pastorzinho, que ficou um momento indeciso, de pé, olhando para Miguel.
- Adeus - disse a voz sonora e bem timbrada do desconhecido. - Se tiver medo, toque a sua flauta, que a música é a voz da confiança que o homem deposita em Deus, assim como o dom da coragem é a prova da resposta do Altíssimo. Davi começou a sua caminhada, cheio de medo, mas disposto a tudo. E o medo fez com que se queixasse das pedras e se ferisse nos joelhos ao cair. Havia momentos em que o desalento se apossava dele; lembrava-se então das palavras de Miguel e tocava a flauta, cujos acordes lhe levantavam maravilhosamente o ânimo. Ainda que não muito grande, o trajeto foi muito penoso para o garoto; mas quando por fim viu as águas tranqüilas do manancial, reanimou-se.
Apoiou-se contra o parapeito de pedra, olhando fixamente para o líquido benfeitor. Naquelas terras assoladas pelo calor e pela seca, a água era uma verdadeira bênção de Deus; por isso não era raro que os homens viessem orar junto dela. E Davi começou a orar, e tão fervorosamente o fez, que se esqueceu dos ladrões que infestavam os caminhos. Depois, pouco a pouco, voltou a si, tirando as mãos que mantivera sobre os olhos. Teria Deus ouvido os seus rogos? Olhou e, ah! prodígio!, viu refletidas sobre as águas algumas moedas de ouro. E era ouro de verdade! Ouro! Emocionado, inclinou-se sobre a água, até quase tocá-la com o rosto. E então um grito de terror morreu na sua garganta, porque junto do ouro viu o rosto barbudo de um homem. De modo que o Senhor não o havia protegido e os ladrões vinham matá-lo!... Ia começar a gritar quando a voz benévola do homem de barba lhe disse:
- Não grite, meu filho, que não lhe farei nada de mau; aproximei-me porque fiquei intrigado vendo-o olhar para a água tão atentamente.
A voz doce, de sotaque estrangeiro, dissipou os temores de Davi. Com certeza, aquele não era um ladrão. O garoto olhou então para o homem, que era alto, ainda que não tanto como o esplêndido Miguel, e tinha um rosto moreno, de nariz pontudo; sobre o turbante e o manto, levava os adornos de ouro que Davi vira refletidos na água.
- Por que olhava tão fixamente para a água, meu filho? - perguntou o estrangeiro.
- Porque vim formular um desejo, senhor -murmurou Davi.
- Então isto é um manancial de desejos?
Sim. Dizem que, se alguém rezar com o coração puro e Deus ouvir a súplica, verá, refletida na água, a imagem do que deseja.
- E viu alguma coisa? Davi moveu a cabecinha e disse:
- O senhor chegou, e eu o vi.
Aproximou-se então outro homem, luxuosamente ataviado com um manto verde, mais velho que o primeiro, e logo um terceiro; e acontece que os três eram reis poderosos, que vinham viajando desde muito longe. O mais velho aproximou-se, como dissemos, e perguntou sorridente:
- Nós três perdemos de vista uma estrela, filho; acredita que poderemos vê-Ia no seu manancial?
- Se estiverem puros de coração, sim, senhor -respondeu firmemente o garoto.
O velho voltou-se então para o terceiro rei e disse-lhe afavelmente:
- Gaspar, você é o mais jovem de nós três e por isso é o mais puro de coração; venha, reze e olhe.
Gaspar duvidou e até sorriu do "manancial dos desejos".
- Perdemos de vista a estrela vinte vezes, e vinte vezes conseguimos voltar a encontrá-la -disse.
- Apesar disso, venha, reze e olhe - insistiu com mais firmeza o velho.
Gaspar acercou-se, obediente, e inclinou-se sobre o manancial.
-Vejo - disse - uma parte do céu; está cheio de estrelas, todas iguais em esplendor. Não! Sim!
E de repente deixou escapar um grito de triunfo:
- Vejo-a, Belquior, vejo-a!
Davi olhou então para o céu e exclamou:
- Ah! Uma estrela grande e brilhante! É essa! Eu também a vejo agora!
Os três reis olharam para o céu e, realmente, voltaram a ver a estrela que tinham perdido. Parecia suspensa sobre Belém.
- Graças a Deus! - disse o velho Belquior, cruzando as mãos sobre o peito e inclinando a cabeça.
- Belém... - murmurou o rei que Davi vira primeiro e que se chamava Baltasar -, o final da nossa jornada.
- Vamos, servos, preparem os camelos, que seguimos viagem! - ordenou Gaspar, cheio de entusiasmo, aos homens que os seguiam.
- Eu os guiarei até Belém - disse então Davi, cheio de entusiasmo.
- Muito bem! - aprovou Baltasar, rindo -; você montará o meu camelo.
- E para onde se dirigem? - perguntou timidamente Davi.
- Um rei acaba de nascer, e nós vamos adorá-lo - disse Belquior.
Um rei? Aquela noite parecia estar cheia de reis, e eis que ali anunciavam o nascimento de mais outro.
Davi ia muito satisfeito sobre o camelo, e a sua alegria fez com que se pusesse a tocar a sua flauta.
Quando chegaram a Belém, seguindo sempre a estrela, os camelos encaminharam-se para o bairro pobre da cidade.
- Que caminho deseja seguir? - perguntou o garoto ao rei Baltasar.
- Nenhum outro além do que indica a estrela, filho.
- Mas é que ela vai para o bairro pobre! Um rei não pode ter nascido ali!
- Veja! - disse Baltasar em resposta, apontando para diante.
A estrela tinha-se detido, ficando como que suspensa sobre o teto da mais pobre de todas as casas.
- É um erro! - exclamou Davi -; é impossível que um rei...
Mas nenhum dos três reis lhe dava ouvidos. Parecia estarem possuídos de uma grande emoção. Diante da paupérrima casa, que afinal era apenas um estábulo, desmontaram e, caminhando solenemente, dirigiram-se até à porta carregados de ricos presentes e entraram. Perplexo, o garoto escondeu-se junto de um buraco que havia na porta e espiou. Como tinha dito, ali não podia haver nenhum rei. Mas o que mais o assombrou foi ver que ali estavam o seu primo Elias e os outros pastores, Jacó e Tobias; além deles, havia uma mulher, de rosto dulcíssimo, e um homem, ancião e venerável; e dois animais, um burro e uma vaca; e tudo ali respirava tanta pobreza como na própria casa de Davi.
Como poderia um rei nascer ali? E apesar disso, os três, Baltasar, Belquior e Gaspar, prostravam-se agora junto do que o garoto presumia fosse o berço do recém-nascido, que ele não podia ver, e adoravam-no. Coisa rara. A mulher olhava para os três pastores docemente, com um olhar de inefável santidade. O interessante era que, ao lado dos presentes de ouro, incenso e mirra, trazidos pelos reis, estavam os de Elias, Jacó e Tobias, que, como sabemos, consistiam em um cajado de pastor, um manto pobre e um bocado de pão. Davi não se cansava de olhar e não se cansava de espantar-se. A curiosidade fez com que abrisse a porta e se introduzisse em um canto sombrio do estábulo. Timidamente, porque tudo ali era silêncio, olhou e pôde então distinguir o recém-nascido. E o que experimentou nesse momento foi tão grande, tão solene, tão imensamente doce que, embora fosse um menino e não soubesse explicá-lo, compreendeu que era natural que três poderosos e ricos reis tivessem vindo adorá-lo. Olhou como se, ao olhar, estivesse bebendo nas fontes da felicidade e pensou que ele também, por pobre que fosse, devia deixar o seu presente. Que poderia oferecer? Ah! sim, a flauta! Tinha por ela muito carinho, mas, coisa esquisita, sentia que, deixando-a para aquele Menino, se sentiria ainda mais feliz. Avançou resolutamente e, interpondo-se entre Baltasar e Tobias, depositou a sua flauta junto dos demais presentes. O pastorzinho era muito pequeno para compreender que os presentes que ali se viam simbolizavam tudo aquilo de que um homem necessita para viver: um manto, para abrigar-se e cobrir-se; um bocado de pão, como alimento; um cajado de pastor, como instrumento de trabalho, e a sua flauta, o instrumento musical que lhe encheria de paz e sossego o coração; os ricos presentes dos reis, ouro e especiarias, eram também simbólicos, e o seu significado ia mais longe do que podia alcançá-lo a inteligência humana. É claro que Davi não pensava nada disso; mas, em compensação, sentia-o muito profundamente. Nunca havia sido tão feliz, e desejou ficar eternamente junto daquele Menino.
Todos se retiraram, e Davi agora caminhava pela estrada poeirenta, atrás de Elias, Jacó e Tobias.
- Onde estará o rei Baltasar? Quando cheguei, vim montado com ele, no camelo.
- Bem, agora você vai regressar a pé - disse Elias, sorrindo.
Ao mesmo tempo, virou-se para olhar o seu priminho. E perguntou-se: "Será possível que este moleque seja o mesmo que tão decorosamente se portou em casa de Maria e José?" E, levantando a voz, gritou-lhe:
- É melhor fechar a boca e apertar o passo; devemos ir buscar nossos rebanhos.
Mas Davi estava um pouco triste, e assim, sem perceber, foi ficando para trás, de modo que, quando chegou ao manancial dos desejos, estava novamente só.
- O manancial! - Exclamou.
E, ao vê-lo, voltou a sentir-se mais triste que nunca. A aventura dessa noite de nada lhe havia servido, e, em lugar de lhe trazer riquezas, deixara-o mais pobre que nunca, uma vez que já não tinha o seu único bem, a sua amada flauta. Além, no monte, estava a sua mísera casinha, onde seu pai jazia enfermo, sua mãe chorava e seus irmãozinhos gritavam de fome. O pensamento de que voltaria para eles mais pobre do que nunca fez surgirem lágrimas nos seus olhos. Já nem sequer lhe restava a flauta com cuja música dissipava as suas penas e se esquecia de que não havia comido. Agora já não tinha nada, nada no mundo, além da miséria, da família e da própria tristeza.
O pobre pastorzinho deixou-se cair sobre a erva, junto ao manancial, e chorou amargamente, como se tivesse o coração partido. Sentia-se verdadeiramente angustiado e, enquanto não atingiu o limite extremo da sua dor, não parou de chorar. Depois, parece que as suas lágrimas o consolaram um pouco, e ele foi-se acalmando. Levantou a cabeça, notou o frio da relva úmida e sentiu-se como se uma força estranha o houvesse reanimado. Depois lembrou-se de que, ao sair de casa, correndo, lhe parecera ouvir lindas vozes cantando nas asas do vento. Agora parecia-lhe voltar a ouvi-Ias, e eram como que débeis vozes, quase imperceptíveis, que subiam da relva mais rasteira. E essas vozes diziam, cantando:
"Aquele que hoje chora estará cheio de felicidade". "Aquele que deixou o seu presente e regressou chorando, por ter ficado sem nada, que se console e se regozije porque receberá, como prêmio, o valor do seu presente várias vezes multiplicado".
Pôs-se em pé, um tanto consolado, e inclinou-se sobre as águas do manancial. Mas dessa vez não rezou para ser um homem rico nem olhou as águas para ver se refletiam os objetos do seu desejo; simplesmente quis lavar o rosto, porque não podia apresentar-se diante da mãe sujo de poeira e das lágrimas que chorara. Como todas as crianças, fez muito barulho com a água, ao lavar-se, e isso o impediu de ouvir o ruído dos cascos de um camelo no caminho. Quanto às águas do manancial, agitadas por ele ao lavar-se, nada refletiram e voltaram a serenar-se. Mas quando ficaram calmas, refletiram a imagem do rei Baltasar, que sorria tranqüilo. Davi deu um salto de surpresa e de alegria.
- Então você pensou que eu o havia abandonado, Davi? - disse Baltasar, sempre sorrindo.
- Eu não poderia esquecer-me de um guia tão bom como você, meu filho. Quando saiu do estábulo, segui-o o mais rapidamente que pude. E olhe o que lhe trago. Unindo a ação à palavra, estendeu a mão, que segurava uma bolsinha. Davi tomou-a e abriu-a, e, aos primeiros fulgores da alvorada, viu brilhar algumas reluzentes peças de ouro. Havia ali muitas moedas; tantas, que daria para comprar remédios, ungüentos e bálsamos para seu pai enfermo, para transformar em sorriso de felicidade as lágrimas da sua mãe e para satisfazer a fome e cobrir os seus irmãozinhos, gelados de frio. Não foi capaz de manifestar com palavras o agradecimento que sentia em seu coração, mas o rosto com que olhou para o rei Baltasar tinha uma expressão suficientemente eloqüente. O bom rei afagou-o carinhosamente e disse-lhe:
- Quando vi você dar a sua flauta de presente ao pequeno rei Jesus, prometi que não o deixaria regressar à sua casa de mãos vazias. E creio que foi o próprio Jesus quem pôs esse pensamento na minha mente. Agora devo voltar ao meu reino e você ao seu lar; mas jamais nos esqueceremos de que somos amigos, não é verdade, Davi? Adeus, filho, e que o Senhor o abençoe.
Quando ficou só, Davi não teve mais medo de ladrões nem de assaltantes, porque o seu coração estava repleto de felicidade. As árvores haviam voltado a cantar, sob os impulsos da brisa do amanhecer. Começou a caminhar, e então pareceu-lhe que o canto das árvores se transformava em um canto universal em que tomavam parte todos os elementos, as árvores, os pássaros, o sereno céu azul e as fontes de águas murmurantes. E todos diziam em coro:
- Hosana! Hosana! O Filho de Deus nasceu para salvar os homens! Glória a Deus nas alturas! Paz na terra aos homens de boa vontade!
Davi começou a correr até a sua casa; era importante que chegasse a tempo, não tanto para anunciar que trazia ouro para remediar os males, mas para algo que lhe parecia muito mais importante: anunciar a chegada de Deus à terra!
Vários Autores. Contos de Natal. São Paulo, Quadrante, 2005, pp. 31-46.


* Extraído de Araújo Nabuco, editor, Livro de Natal. As mais lindas histórias de Natal dos maiores escritores do mundo, tradução e edição Livraria Martins Fontes Editora S. A., São Paulo, 1950.

** Elizabeth Goudge (1900-1984), autora de romances, contos e obras infantis, nasceu em Ely, no País de Gales. Filha do clérigo anglicano Henry Leighton Goudge, mudou-se mais tarde com a família para a Christ Church, em Oxford, quando o pai se tornou professor naquela Universidade. A mãe, inválida, era uma grande contadora de histórias, e assim preparou a vocação literária de Elizabeth.

O seu primeiro livro, The Fairies' Baby and Other Stories ("A criança das fadas e outras histórias”, 1919), foi um fracasso. "Nesse período de atividade literária", confessava ela numa nota autobiográfica, "ganhei exatamente cinqüenta shillings, o que me levou a concluir que a literatura não era grande coisa"... Foi somente em 1934 que lançou Island Magic ("A magia das ilhas"), baseado em lendas das ilhas do Canal da Mancha - a mãe era de Jersey, uma dessas ilhas -, a sua primeira obra de sucesso.

Para manter-se, ensinava desenho e artes aplicadas. O romance Green Dolphin Country ("O condado do golfinho verde”, 1944), publicado nos Estados Unidos como Green Dolphin Street, foi filmado e recebeu o prêmio da MGM. Em 1946, Goudge recebeu a Medalha Carnegie pela obra The Little White Horse ("O pequeno cavalo branco"), que J.K Rowling considerava seu livro infantil favorito. Uma das suas últimas obras é A Diary of Prayer ("Um diário de oração”, 1966). A escritora passou os últimos anos de vida na sua casa no Peppard Common, nos arredores de Henley-on-Thames.

O conto (...) permite, através dos olhos de um simpático personagem fictício, experimentar a solenidade da Noite Santa. Mas, sobretudo, mostra-nos que Cristo, embora tenha vindo também socorrer-nos nas nossas necessidades imediatas e materiais com bens de valor relativo, deseja sobretudo ajudar-nos a elevar os olhos para o verdadeiro Bem: Ele mesmo, o próprio Deus, que deseja dar-se aos homens.






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