A experiência da história numa era de expectativas decrescentes



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O novo tempo do mundo

A experiência da história numa era de expectativas decrescentes


Paulo Eduardo Arantes
1.

World Time
Costuma-se atribuir a origem da expressão world time a um livro de assunto um tanto remoto — conflitos sociais na China medieval —, Conquerors and Rulers, de Wolfram Eberhard. Em sua acepção de estréia no repertório historiográfico, tal conceito sugeria a existência de algo como um clima internacional, suficientemente persuasivo para influenciar escolhas sociais e decisões políticas em arenas locais mais restritas. Fosse outro o “tempo do mundo”, a dose de brutalidade implicada na decolagem econômica do Japão, em fins do século XIX, por exemplo, não se beneficiaria do “clima” mundial que de certo modo a favoreceu. Subsidiariamente, uma questão de método: a idéia de um “tempo mundial” cortaria pela raiz a tentação de comparações excessivas entre períodos ou experiências históricas particularmente afastados uns dos outros, não obstante analogias estruturais à primeira vista irrecusáveis. Em suma, um demarcador de época que permite comparar e se comparar. Por este fio comparatista puxará Immanuel Wallerstein, ao mencionar de passagem o conceito e seu autor na “Introdução” do primeiro volume do Modern World-System. A seu ver, o que Wolfram Eberhard batizara de world time nada mais era do que o contexto mundial de uma época determinada, de sorte que, num exemplo nem tão a esmo assim, França do século XVII e Índia do século XX, mesmo compartilhando certas características estruturais, permaneciam no entanto incomparáveis na medida em que os respectivos contextos mundiais não poderiam ser mais distantes. A distinção era menos corriqueira do que parece: a noção de “tempo mundial” permitia contornar o absurdo de comparar incomparáveis, evitando igualmente as ciladas comparatistas armadas pelo ponto de vistas das “modernizações”, das “defasagens”, etc. Tratava-se afinal de aproximar ou afastar industrializações, revoluções, etc, enquanto processos ou acontecimentos histórico-mundiais. Como se dizia antigamente, quando era outro, aliás, o Tempo do Mundo. E outra também a exigência de compreensão da mudança social substantiva na origem do mundo moderno. Enfim, nova menção do autor e do conceito, ainda nos mesmos anos 70 em que o antigo tempo do mundo estava começando a expirar — seja dito para adiantar um pouco o argumento —, se encontra no estudo de Theda Skocpol sobre as relações entre Estado e Revoluções Sociais, justamente uma análise comparativa de França, Rússia e China. No caso, a dimensão em que as revoluções transcorrem e modelos específicos que se deixam contagiar a distâncias históricas em princípio intransponíveis.
Le temps du monde
No limite, este breve certificado de origem seria dispensável não fosse um lapso de Braudel. Que simplesmente declara, na abertura do terceiro e último volume da Civilização material, economia e capitalismo, que o seu título, Le temps du monde, se inspira livremente na “feliz expressão” de Wolfram Eberhard, world time. Até aqui nada demais, se não fosse o tal lapso. No artigo de 1958 para os Annales sobre a longue durée — como esquecer? —, o próprio Braudel introduzira a expressão tempo do mundo para melhor destacar a originalidade do historiador quando confrontado, por exemplo, com os cientistas sociais, como o seu amigo Georges Gurwitch, segundo o qual cada realidade social decanta seu tempo, suas escalas de tempo. “Mas que ganhamos nós, historiadores, com isso? A imensa arquitetura dessa cidade ideal permanece imóvel. A história está ausente dela. O tempo do mundo, o tempo histórico, está aí, mas, como o vento no país de Eolo, encerrado num odre”.

Todavia, do artigo ao livro que encerra a trilogia, o conceito se especificou. Mas não apenas por recobrir a história econômica do mundo entre os séculos XV e XVIII, pois agora se trata de saber em que “hora do mundo” nos encontramos. Ao contrário do que sua amplitude dá a entender, esse Tempo do Mundo não pode ser a totalidade da história dos homens. Estamos às voltas com “um tempo vivido nas dimensões do mundo”. E mais, um “tempo excepcional” que governa, segundo os lugares e as épocas, certos espaços e certas realidades. Neles é que se vive verdadeiramente na “hora do mundo”, ao passo que outras realidades, outros espaços lhe escapam, alheios à batida desse relógio mais impositivo. É assim que podemos encontrar por toda parte zonas em que o “tempo do mundo” não repercute, “zonas de silêncio, de ignorância tranquila” — mesmo nas Ilhas Britânicas da Revolução Industrial. Mesmo nos países ditos “avançados”, “le temps du monde n’a pas tout brassé”. São as imensas manchas brancas no mapa da vida material e econômica que permanecem à margem da “história triunfante”. Ênfase à parte, onde estamos afinal quando se fala em tempo do mundo? Ao que parece, no andar superior da bizarra topologia braudeliana, pois a seu ver o que se encontra em jogo no tempo do mundo seria uma curiosa “superestrutura da história global”, como se nele culminasse todo um jogo de forças que se desenrolaria na sua base e sobre a qual ele exercesse por sua vez uma pressão equivalente. Curiosa imagem espacial para evocar uma noção em suma temporal, ainda que esta não se confunda com a mera sucessão cronológica de formas e experiências. É que esse tempo envoltório recobre a economia-mundo capitalista que no decorrer de cinco séculos tornou-se um sistema mundial. Não será necessário reconstruir a visão braudeliana — apurada posteriormente por Wallerstein — da economia mundo, como uma tríplice realidade: um espaço cujos limites se rompem de tempos em tempos, recortado por jurisdições políticas concorrentes, formado por zonas concêntricas atravessadas por uma divisão do trabalho que as hierarquiza, gravitando o conjunto em torno de um pólo, representado originalmente por uma cidade-estado, depois por uma capital econômica. Houve tempo em que várias economias-mundo coexistiam com a européia, a Rússia até à abertura de Pedro o Grande, vivendo essencialmente de si mesma e para si mesma, ou o Império Turco até o século XVIII etc. O tempo do mundo que nos interessa porém, como ficou dito, é o da economia-mundo européia em expansão na forma de ciclos sistêmicos de acumulação, para falar agora na linha de um outro teórico dos sistemas mundiais. Mais exatamente, o transcurso das hegemonias do capitalismo histórico. Até agora três, nas contas de Arrighi, holandesa, inglesa e norte-americana, em crise esta última desde a virada financeira que se sabe. Pois é nesses momentos de troca de comando que segundo Braudel soa a hora fatídica de relógio do mundo, deslocamentos que se realizam no transcorrer de lutas, choques e crises econômicas. Uma bifurcação extemporânea talvez ajude a esclarecer melhor toda essa configuração.
Passagens para o Novo Tempo (I)

Vistas as coisas pelo prisma da zona periférica que nos coube como ponto de observação, digamos que a experiência histórica de ser alcançado pelo temps du monde em questão, nos é familiar. Não estou me referindo, é claro, ao choque sofrido pelas vítimas nativas da Conquista resultante do desenclave planetário do sistema europeu de Estados. Tampouco aludindo ao outro lado dessa violência em expansão, ou melhor, ainda não, à reviravolta mental, à crise da consciência européia provocada pelas Grandes Descobertas. Penso em primeiro lugar em nossa Passagem para o Novo Mundo, nos termos em que o historiador Fernando Novais reconstituiu a longa conjuntura de crise do Antigo Sistema Colonial que levou à ruptura do vínculo com a Metrópole. Pressionados pela erosão convergente do colonialismo mercantilista e do absolutismo, a camada dominante na colônia deve então ter experimentado enfim o que vem a ser aquele mencionado “tempo vivido nas dimensões do mundo”. Dimensões do Modern World-System de que há pouco falávamos, que ao se desenvolver e se encaminhar para a constituição do capitalismo industrial vai multiplicando as pressões sobre metrópole e colônia, até então à margem desses influxos emanados do recentramento do eixo gravitacional do mecanismo de fundo de todo o sistema. Esse o tempo excepcional de crise que passou a governar as cabeças dirigentes do senhoriato colonial — ainda o tempo do mundo identificado por Braudel. Além do mais, tempo vivido na forma de uma tensão inédita induzida pela percepção de uma conjuntura não só em rápida e instável mutação, mas assombrada pela lembrança recente de acontecimentos que Wallerstein incluiria na escala dos eventos world-historical como a Revolução Francesa, à qual se somara o espectro mais apavorante da rebelião negra de São Domingos (1791), o conjunto negativamente projetado no futuro nebuloso da América, tanto a hispânica, a primeira a se desintegrar, quanto a portuguesa.



Experiência histórica de passagem para um Novo Tempo, portanto. E cujo registro, através das idas e vindas de um vocabulário político ainda incerto, outro historiador, João Paulo Pimenta, teve a boa inspiração de transcrever e ordenar no quadro categorial definidor justamente desse tempo braudeliano do mundo que estava passando como um rio pela vida do colonato atlântico, escoando entre a Revolução Francesa e o Congresso de Viena: “Uma crescente definição da luta política em torno de posições progressivamente radicalizadas de adesão a projetos políticos de manutenção da ordem vigente, ou contrários a ela, e que conduzirão ao rompimento definitivo entre colônias e metrópoles, ao mesmo tempo em que atribuirá a vocábulos como insurgência, insurreição, insubordinação e revolução um sentido de afronta à ordem ainda debilmente vigente, perpetuará, para o período seguinte de construção de novos Estados e novas Nações, um novo espaço de experiência, que ajudará a definir os ulteriores horizontes de expectativa, capitaneando as ações políticas daquele novo presente”. Como ainda estamos repertoriando noções básicas para o argumento a ser desenvolvido, basta assinalar, entre as noções mobilizadas pelo autor, o livre jogo com as categorias que segundo Reinhart Koselleck permitem redefinir a novidade dos Tempos Modernos, o par assimétrico constituído pelo contraponto indissolúvel entre Espaço de experiência e Horizonte de expectativa. A boa inspiração ressaltada há pouco não se restringe entretanto ao sucesso de um exercício de semântica aplicada, é bem verdade que a um campo linguístico sócio-político demarcado pela tensão vivida na hora dramática da nossa passagem para o Novo Mundo pós-colonial — ainda que culminando no desfecho conservador que se sabe, a tríplice modernização liberal da monarquia, da escravidão e da terra enclausurada pela monocultura de exportação. É que ao encaixe analítico preciso do par conceitual de Koselleck no vocabulário estratégico daquela conjuntura crítica — afinal a hora do mundo, para falar como Braudel, era a da transição, congestionada por guerras e revoluções, de uma hegemonia mundial à outra —, se sobrepõe um outro achado não programado, um outro encaixe mais profundo, no limite responsável pelo sucesso do primeiro, a evidência que o tempo braudeliano do mundo, que afinal se espraiara com a crise do antigo sistema colonial, se apresentara devidamente decifrável e politicamente vivido, nos termos mesmos em que na experiência européia da história estava se cristalizando a noção decisiva do Novo Tempo: os “tempos modernos” (Neuzeit), cuja “modernidade” começava a se confundir com a temporalidade própria da “época contemporânea” (neue Zeit), no léxico dos historiógrafos estudados por Koselleck, ao mapear as realizações linguísticas graças às quais, no processo de desintegração do Antigo Regime, “experiências” eram reunidas e “expectativas” eram enfeixadas. Tudo somado — embora não tenhamos ainda reconstruído o esquema metateórico de Koselleck, crucial em nosso argumento acerca do novo tempo do mundo, como se verá: mal estamos relembrando o nascimento daquele que só mais tarde (as datas variam) passaria por um “antigo” tempo do mundo, na acepção de Braudel, é claro —, podemos dizer que os Estados Coloniais recém emancipados das Américas espanhola e portuguesa, comunidades de proprietários, “cujo principal interesse estava ligado ao valor monetário de seus bens, e não ao poder autônomo de seus governantes”, e por isso mesmo formavam o eleitorado natural da expressão hegemonia britânica do livre comércio, de Giovanni Arrighi, nasceram como comunidades políticas imaginadas, e imaginadas segundo um ritmo temporal inédito, escandido justamente por um “horizonte de expectativa” cujo ponto de fuga se concentrava na construção perene de um artefato político chamado Nação. Por onde se vê — ou melhor, presumimos, pois ainda não vimos nada — que a idéia moderna de Nação é um daqueles conceitos históricos demarcadores do Neuzeit que Koselleck batizou de “conceitos de movimento”, conceitos em cuja dimensão pragmático-temporal incide algo como uma experiência fundamental da mudança em direção de um futuro aberto. E tudo isso porque o temps du monde por assim dizer desaguou enfim na periferia colonial da economia-mundo capitalista. Acoplado àquela maré alta da passagem para o Novo Mundo redescoberto pelo colapso do Antigo Regime, algo como um espaço do mundo, análogo à visão braudeliana de que partimos — o “tempo excecpcional” que reordena os ritmos costumeiros ao irromper como uma avalanche em câmara lenta —, de sorte que, na mesma proporção, “todos os lugares ficaram vulneráveis à influência direta do mundo mais amplo, graças ao comércio, à competição intraterritorial, à ação militar, ao influxo de novas mercadorias, ao ouro e à prata etc”
Passagens para o Novo Tempo (II)
No ensaio de abertura do Futuro passado — para entrarmos de vez no núcleo categorial de nossa hipótese, um diagnóstico de época orientado pelo deslocamento de todo um Horizonte de Expectativa enquanto parâmetro fundador do Tempo do Mundo — Koselleck reconstitui uma verdadeira experiência da história, para ser exato, uma experiência direta do fenômeno moderno da “temporalização da história”. No centro da cena onde se desenrola tal experiência — por enquanto inteiramente privada e intelectual —, Friedrich Schlegel por volta de 1800, fascinado e perplexo diante do anacrônico esplendor de um afresco de Altdorfer, executado em 1529 por encomenda do Duque da Baviera, A batalha de Alexandre, na qual se defrontavam poderes celestes e cósmicos — pois até o sol e a lua, forças da luz e das trevas, se distribuíam entre os exércitos em choque: de um lado os combatentes persas representados de modo a serem identificados de imediato com os turcos ameaçadoramente nas portas de Viena, do outro, os guerreiros helênicos de Alexandre figurando a cristandade triunfante na fisionomia inconfundível dos príncipes germânicos do tempo. Presente e passado se encontravam assim englobados por “um horizonte histórico comum”. Ocorre que a batalha de Issus, travada em 333 a.C., não era uma batalha qualquer, tampouco o fim do Império Persa que ela selou, um acontecimento entre outros, um grão a mais na poeira dos eventos que recobrem o chão da história, como diria Braudel. Sob o céu escatológico de toda uma era, a vitória de Alexandre sobre os persas, situando-se entre o começo e o fim do mundo, preludiava, simbolizando-o, o combate final com o Anticristo: os que lutavam ali, naquela imagem congelada fora do tempo, “eram contemporâneos de todos aqueles que viviam aguardando o Juízo Final”. Aqui o nervo do nosso enredo: tudo orbitava em torno dessa Espera. “A história da Cristandade, até o séc.XVI é uma história das expectativas, ou, melhor dizendo, de uma contínua expectativa do final dos tempos; por outro lado, é também a história dos repetidos adiamentos do mesmo fim do mundo. O grau de imediatismo dessas expectativas podia variar de uma situação para outra, mas as figuras essenciais do fim do mundo já estavam definidas (...) embora variassem as imagens do fim do mundo, o papel do Sacro Império Romano permanecia fixo nesse quadro: enquanto ele existisse, a derrota final seria protelada. O Imperador era o kathecon do Anticristo”. A Reforma — a mesma Reforma cuja ética deveria impulsionar a compulsão cega da acumulação capitalista interminável, atribuindo um “espírito” ao nonsense desse fim em si mesmo que vem a ser a acumulação pela acumulação — menos “esclareceu” esse quadro mental do que lhe imprimiu um sentido imediato de Urgência. Assim “Lutero viu o Anticristo sentado em um trono sagrado; para ele, Roma era a Babilônia prostituída, ao passado que os católicos viram em Lutero o Anticristo; a Guerra dos Camponeses, assim como os diferentes partidos militantes de uma Igreja decadente, pareciam preparar a última guerra civil que deveria preceder o fim do mundo”. Trazendo consigo os sinais do fim do mundo, um movimento de renovação religiosa como a Reforma — não obstante, ou talvez por isso mesmo, a teologia calvinista infletir a doutrina sombria da predestinação no rumo da ascese facilitadora da acumulação laboriosa — exponenciou aquele sentimento de urgência: “Lutero dizia frequentemente que o fim deveria ser esperado para o próximo ano, ou mesmo para o ano em curso (...) Acreditava que os acontecimentos do novo século haviam sido comprimidos em uma única década (...) Essa abreviação temporal indicava que o fim do mundo se aproximava com grande velocidade, ainda que a data permanecesse oculta”.

Nesse ponto de sua narrativa, Koselleck faz uma pausa para sobrevoar 300 anos à frente, afinal seu assunto é a transformação da estrutura temporal nesse período — e nos termos em que encaminhamos a questão até agora, o mesmo período ao longo do qual o Tempo do Mundo foi estendendo sua soberania sobre novos territórios, como diria Braudel. Confronta então duas Esperas, a de Lutero e a de Robespierre, para constatar uma decisiva inversão do Horizonte de Expectativas — cuja definição, aliás, estamos deliberadamente postergando. Quando Robespierre proclamava que era chegada a hora de cada um atender ao chamado do destino — que de resto se apresenta como uma missão — e que portanto, uma vez que “o progresso da razão humana preparou essa grande Revolução”, recai sobre os ombros de todos os cidadãos “o especial dever de acelerá-la”, sua fraseologia de cunho providencial — que embaralha num só personagem o philosophe e o profeta exaltado — já não pode mais dissimular o fato de que a Grande Espera já não é mais a mesma: “para Lutero, a abreviação do tempo é um sinal visível da vontade divina de permitir que sobrevenha o Juízo Final, o fim do mundo. Para Robespierre, a aceleração do tempo é uma tarefa do homem, que deverá introduzir os tempos da liberdade e da felicidade”. No lugar antes ocupado pela antevisão do fim do mundo, um tempo novo, diferente, o tempo de Schlegel enfim, explicação da vertigem estética que o assalta ao perceber, num breve relance, que se defrontava com um curto circuito de duas Esperas definitivamente incomunicáveis. É que para ele a história assumira de vez uma dimensão especificamente temporal, algo que para Altdorfer simplesmente não fazia sentido. Noutras palavras, continua Koselleck, “nos 300 anos que o separam de Altdorfer, transcorreu para Schelegel mais tempo, de toda maneira um tempo de natureza diferente daquele que transcorreu para Altdorfer, ao longo dos cerca de mil e oirtocentos anos que separam a Batalha de Issus e sua representação”.

Com essa quadro em mente — a qualidade inteiramente nova que o tempo histórico adquiriu entre 1500 e 1800 —, voltemos à confluência registrada acima, mais do que mera analogia, entre as duas passagens, para o Novo Tempo orientado para um futuro aberto enquanto horizonte de expectativa, e para o Novo Mundo, que se desenhava no ponto de fuga de uma crise concomitante do Antigo Regime e do Sistema Colonial. Graças a esse entrecruzamento, as projeções políticas do senhoriato colonial foram arrastadas para a correnteza do tempo braudeliano do mundo, na exata medida em que comunidades nacionais de proprietários foram se constituindo à sombra de um outro regime mundial de acumulação e governo do world system, como apontado sem maiores intenções teóricas, seguindo aliás raciocínio citado de Fernando Novais. Que de resto resumiu nossa (América Portuguesa) passagem para o Moderno (Sistema do Capitalismo Industrial) metaforizando outra vez a fórmula Novo Mundo, sabidamente a expressão de um conceito que nunca foi meramente geográfico, mas antes de tudo “um topos do pensamento, da imaginação e do discurso”. Ora, se retrocedermos então ao emaranhado original que envolveu a expressão Novo Mundo nos primeiros tempos da Conquista veremos — ou melhor, em nossa ignorância moderna somos condenados a relembrar — que a visão endêmica do Paraíso Terreal reencontrado é indissociável da mesmíssima “esperança do tempo do fim”, por assim dizer retratada no afresco de Altdorfer — a Batalha de Alexandre se reapresentava sob o mesmo signo escatológico que presidia a empresa moderna por excelência que foi a expansão ultramarina européia, sem a qual o capitalismo jamais seria o que veio a ser enquanto sistema mundial estratificado e polarizado de alto a baixo.

Como essa circunstância paradoxal está longe de ser uma evidência — salvo para especialistas —, sem falar, mais uma vez, na surpreendente superposição entre o tempo apocalíptico do conquistador-missionário e a fusão de acontecimentos díspares num único horizonte histórico comum, surpreendido por Koselleck no estranhamento temporal ressentido por Schlegel, como se viu. Assim sendo, não será demais um breve rodeio, de resto inteiramente ancorado num ensaio de Frank Lestringant. Afirmar que o encontro de um Novo Mundo é presságio do Fim do Mundo, embora estritamente contemporâneo daquele mal-encontro, contraria é claro o senso comum positivador da descoberta da América como sinônimo de abertura, da qual data a explosão do mundo fechado da Idade Média, cujos estilhaços abalaram o etnocentrismo europeu na forma de um sem número de “alteridades críticas”. A idéia mesmo de um globo terrestre implicava a perfeição esférica de um autoconhecimento da humanidade por ela mesma que afinal se perfazia. No entanto um forte sentimento escatológico fazia de Colombo muito mais um profeta do que um descobridor. Uma atmosfera apocalíptica domina pouco a pouco suas explorações, por isso “insiste na urgência que há em levar a tarefa a seu termo. Segundo seus cálculos, com efeito, restam apenas 150 anos antes do fim do mundo”. Já vimos — em Lutero mais precisamente — esta aceleração da história. Por isso se batiza — ou trucida — às pressas, multidões indígenas arrancadas ao jugo da idolatria. Sendo eminente o fim dos tempos, 1492 marca a transposição do derradeiro limiar. Esse curso precipitado da História é a regra nas grandes visões da época: sempre que se fala do Novo Mundo e de sua evangelização, “o horizonte temporal que se impõe é ainda e sempre apenas o fim do mundo”. Mesmo entre os dissidentes e os refratários, como Las Casas, que “não hesita em fixar em uma duração de cem anos o reinado terrível mas efêmero de Satã sobre o Novo Mundo”. Seu requisitório — prossegue nosso autor — “exprime a obsessão profunda de um fim prematuro de um mundo, que bem poderia significar a da nação da humanidade inteira”. Em suma, nos deparamos com uma América “igualmente governada pela espera do combate apocalíptico entre o Anticristo e o Redentor”. Pois esse Grande Teatro dos Últimos Dias foi aos poucos cedendo terreno a uma outra Espera, como sabemos, onde se mesclam ciência racional do prognóstico político e visões de uma outra aceleração — pois agora se tratava de “recuperar o atraso da razão”. Mas por aí já retornamos aos nossos trilhos — depois de notar que correm paralelos, na Metrópole, e nas Colonias.

Se essas simetrias procedem, quer isto tudo dizer que a flecha da temporalização da história que atingira a imaginação de um intelectual contemporâneo da Revolução — não esqueçamos que os escritores reunidos em torno da revista Athaeneum proclamaram a primazia de três acontecimentos maiores na inflexão da Idade então Contemporânea: a Revolução Francesa, a Doutrina da Ciência de Fichte e o Wilhelm Meister de Goethe —, e também das Guerras Napoleônicas, perdidas aliás na convulsão sistêmica que precipitou o colapso dos impérios coloniais ibéricos. Quer dizer enfim que a reversão do Horizonte de Expectativa assinalada páginas atrás, a propósito do fim e do começo simbolizados respectivamente pela Reforma e pela Grande Revolução, também operava entre 1500 e 1800 na reviravolta da experiência temporal do Novo Mundo. Dada no entanto a centralidade da expansão colonial para a consolidação da economia-mundo capitalista, será plausível afirmar que, sem o combustível daquela acumulação atlântica de experiências realizadas em uma Fronteira histórica inédita não se constituiria no continente europeu um novo, ou por outra, propriamente dito, Horizonte de Expectativa, sem a abertura do qual — se os esquemas de Koselleck estão corretos — não se poderia falar de um Neuzeit. Aliás, o próprio autor que está nos guiando — e por assim dizer instruindo os primeiros passos deste estudo sobre a experiência política do pensamento numa era de expectativas decrescentes, uma Idade de Diminishing Expectations, como se começou a dizer em meados dos anos 70, de resto, no exato e não casual momento em que o autor de Crítica e crise, uma investigação magistral do que chamou então (1959) uma “patogênese do mundo burguês”, consolidou sua concepção do moderno tempo do mundo como a expressão dinâmica de uma tensão crescente até à dissociação entre “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa” — sublinha em mais de uma ocasião, embora de passagem e sem maiores considerandos, o papel desempenhado pelo ciclo das Grandes Navegações e a conseqüente revelação do globo terrestre — independentemente da predação traumática da Conquista — na paulatina constituição de um “coeficiente temporal” novo, reagrupando num só paradigma um bloco inusitado de experiências e expectativas. Denominar sem mais Progresso este paradigma inédito, encobre um ponto essencial, a percepção que começa então a se generalizar da contemporaneidade do não-contemporâneo — daí a obsessão crescente por toda a espécie de rattrapage —, percepção deflagrada em grande medida pela expansão ultramarina em direção do Novo Mundo.

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