A exploração dos rios Amazonas e Madeira no Império Brasileiro por Franz Keller-Leuzinger: imprensa e nação



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A Exploração dos rios Amazonas e Madeira no Império Brasileiro por Franz Keller-Leuzinger: imprensa e nação

Resumo


A relação entre o Amazonas e os viajantes é um tema que há muito vem instigando pesquisadores em diferentes disciplinas e em várias partes do mundo. Tal qual este rio, o tema às vezes parece inesgotável. O presente texto procura contribuir para este enorme mosaico com mais um pequeno fragmento: narrar à viagem de Franz Keller-Leuzinger. Apesar de sua obra já ter sido utilizada em trabalhos sobre a história da ferrovia e fotografia, ainda são escassos os trabalhos dedicados exclusivamente para este personagem, que continua um quase desconhecido. Assim procuramos dar destaque a este viajante e caminhar no entendimento de questões como a Amazônia era percebida no final do Império e quais os projetos que circulavam para sua maior integração com o restante do país e construção de um sentido de nacionalidade que tinha a grandeza do território por base.

Palavras-chaves: Franz Keller-Leuzinger, viajantes e Amazonas.


The Exploration of the rivers Amazon and Madeira in the Brazilian Empire for Franz Keller-Leuzinger: the press and nation

Abstracts

The relationship between the Amazon and voyagers is a subject that has long been urging researchers in different disciplines and various parts of the world. And this subject sometimes seems endless. This paper seeks to contribute to this discussion with a small fragment: narrating the journey of Franz Keller-Leuzinger. Although his work has already been used in work on the history of the railroad and photography, yet there are few studies dedicated exclusively to this character, which remains primarily an almost unknown in the History. Is this the main intention of this work, give prominence to this reviewer, and thus seek to walk in the understanding of issues such as Amazon was perceived at the end of the Empire and which projects that circulated for greater integration and help to built the Brazilian nationalism upon the idea of a great territory.

Keywords: Franz Keller-Leuzinger, voyagers and Amazonas




  1. Uma apresentação

Ao pesquisar periódicos dedicados à divulgação da ciência no século XIX, deparei-me com uma nota sobre a exploração de Franz Keller-Leuzinger aos rios Amazonas e Madeira. Nestes periódicos, principalmente a partir dos anos de 1870 até o início da República, observamos cientistas e literatos lado a lado exigindo do Estado melhores condições para ampliar o conhecimento sobre o território nacional. Estes intelectuais se valiam de uma retórica de forte cunho nacionalista que tinha na grandeza do território e suas riquezas (reais e imaginadas) um forte elo na corrente do sentimento de brasilidade. Em meio a esta pesquisa, foi despertado em mim o interesse por Franz Keller-Leuzinger e sua viagem ao Amazonas, que surgiu como uma instigante oportunidade para estudar um dos momentos mais estimulantes da história sobre a conquista das fronteiras ocidentais no Brasil. Além disso, esta viagem oferece uma ótima oportunidade para ver as representações do Amazonas no Império, por ter gerado publicações nacionais e internacionais ricamente ilustradas. Assim, tendo aquele personagem como guia, investiguei o contexto que motivou sua viagem e os conhecimentos científicos que foram acionados ao longo de seu percurso.

A seu respeito, sabemos que nasceu em Mannheim na Alemanha em 1835. Era desenhista, cartógrafo, engenheiro e pintor e sua educação artística ocorreu em Dürsseldorf. Chegou ao Brasil em 1857 com seu pai Joseph e irmão Ferdinand Keller e estabeleceram-se no Paraná onde junto com seu pai realizou trabalhos de exploração dos rios Tibagí e Paranapanema. Em 1865 integrou-se à Expedição do Avaí, quando produziu aquarelas da região (Vasquez, 2000:77). Em 1867 casou-se com a filha do impressor e livreiro George Leuzinger, Sabine Chiristine, a partir de então adotou o nome de Keller-Leuzinger. No mesmo ano, ele e seu pai foram comissionados pelo Governo Imperial com o objetivo de realizar um estudo para a construção de melhorias para a navegação e de uma ferrovia ao longo do rio Madeira, no vale do Amazonas (Ferreira, 1994:192). Cabe ressaltar que foi precisamente esta missão o notabilizou através de seus escritos e desenhos. Segundo ele, a repercussão de seu relato sobre o Amazonas e o Madeira foi de tal ordem que o celebre explorador Scweinfurth havia lhe convidado para realizar o levantando do mapa topográfico do Alto Nilo.

Terminado os trabalhos de exploração do rio Madeira, Franz Keller-Leuzinger fixou morada no Rio de Janeiro e colaborou com o seu sogro no ateliê fotográfico (Ferrez, 1985:60). A Casa Leuzinger fechou este ateliê em 1871 e passou a dedicar-se somente a tipografia (Senna, 2006:102). Franz Keller-Leuzinger retornou em 1873 a Europa para tratar da saúde, fixando residência na cidade alemã de Carlshuche. Segundo Frank Kohl, ele havia contraído malária no Amazonas e justamente por isto não pode aceitar o convite do coronel americano Georg Earl Church (1835-1910) para participar da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, que utilizou os dados levantados pelos Kellers naquela região (Cf. Kohl, 2006).

Em 1876, aproveitando a passagem de Pedro II à Alemanha, Franz Keller-Leuzinger lhe escreveu uma carta, na qual expunha os planos que o animavam a retornar ao Brasil. Estes projetos não eram nada modestos: ele pleiteava receber o monopólio para a exploração do sal no Paraná, bem como se oferecia como intermediário na venda de pólvora alemã para o Império, e expressava sua intenção de voltar ao Brasil como engenheiro, uma vez que na Alemanha vivia apenas de seus trabalhos artísticos:

Voltando desse modo outra vez as belas praias da Terra de Santa Cruz, isto é, acompanhando em pessoa um carregamento de pólvora e se necessário fosse de armamento ao Rio de Janeiro. V. M. I. dignasse talvez de encarregar-me outra vez com trabalhos técnicos como antigamente.

Me seja permitido, afora os trabalhos de exploração dos rios, alinhamento de estradas e caminhos de ferro e o levantamento de mapas geográficos, citar a elaboração de projetos de abastecimento da capital com água potável, que dia a dia fica mais urgente1.
Na carta, constatamos que suas ambições empresariais rivalizavam com as científicas, mas ele sem dúvida alguma se via como um homem de ciênica e queria ver seu nome ao lado dos demais cientistas como o geólogo americano Charles F. Hartt (1840-1878). Keller-Leuzinger afirmava também que fora encorrajado pelo antropólogo alemão Rudolf Virchow (1821-1902) a continuar seus trabalhos científicos. Neste sentido, desejava estudar “tudo o que o vasto Imperio encerra ainda de curioso e de interessante para o mundo científico”. Ao que tudo indica, estes projetos não sairam do papel, ele visitou o Brasil nos anos de 1880 e retornou a Alemanha, onde faleceu em Munique em 1890.


  1. O Amazonas, o Império e a viagem de Franz Keller-Leuzinger

Um dos desafios do Império do Brasil foi o efetivo conhecimento de seu território herdado de sua antiga metrópole. A conquista do “corpo da nação” se constituiu por diversos meios tais como a delimitação de fronteiras, o inventário de seus primeiros habitantes e a classificação de sua natureza e seu potencial econômico, foram práticas que contribuíram para forjar o espírito de nacionalidade brasileiro. Este processo reforçou uma mitologia sobre o Brasil, como a “terra da abundancia” e formado por uma “fronteira natural” conferido pelas bacias do Prata e do Amazonas. Este desiderato fora vital para o fortalecimento do Estado Imperial e instituições dedicadas ao inventário científico de seu território.

Este desejo de se conhecer fisicamente o território, frequentemente formulados por cientistas e literatos2, que se manifestava, por exemplo, na demanda por melhores mapas nacionais. Isti se devia ao fato de que o país herdou mais um conceito do que um espaço efetivamente delimitado e conhecido. Em outras palavras, se sabia perfeitamente das extremidades norte e sul e a costa, contudo, a banda ocidental que ainda estava por ser definida (Cf. Davidson,1970), como a região explorada por Franz Keller-Leuzinger.

Quanto ao rio Madeira, a exploração por este viajante pode ser pensada como um problema de longa duração, pois vale lembrar que este rio desempenhou um importante papel no período colonial. Fora conquistado pela ação de bandeirantes e sertanistas alargando a linha do Tratado de Tordesilhas. Esta ação fora materializada pela utilização do Madeira tanto para o escoamento de metais preciosos no Mato Grosso, quando para a integração, apesar das dificuldades de navegação, daquela região ao restante do país. O rio Madeira permaneceu como importante via mesmo após o declínio da produção aurífera. Assim, podemos ver a emergência dos rios como um instrumento geopolítico no âmbito da diplomacia luso-brasileira.

Contudo, ainda segundo David Davidson, a ocupação não seria o único fato para tornar aquelas terras pertencente à Coroa, os embaixadores portugueses teriam que garantir a legitimidade destas conquistas. A soberania portuguesa no Amazonas se deu pelos embates dos agentes locais na América, como também na esfera diplomática na Europa, com os argumentos de uti possidetis (1970:3-4). Desta forma, foi a partir do Tratado de Madri de 1750, que o rio Madeira torna-se incontestavelmente português e mais tarde brasileiro (Cf. Peixoto, 2005). Se em meados do século XIX não havia dúvidas de que o rio Madeira era brasileiro, este ainda deveria ser mais bem explorado.

A conjuntura da expedição de Franz Keller-Leuzinger também estava marcada pela abertura do Rio Amazonas para outras nações em 7 de setembro de 1866, no decreto imperial n. 3749. Em meados do século XIX, o Império sofreu pressões internacionais, principalmente vindas dos Estados Unidos de abrir a navegação do Amazonas. A concessão de liberdade de navegação só ocorreu, após intensos debates iniciados pelo impacto do “Memorial de Memphis” publicado em 1853 pelo Tenente da Marinha Americana, Matthew Fontaine Maury, que urgia seu governo a tomar providências, com o uso de força se preciso fosse para angariar a almejada liberdade de navegação a todas as nações no Amazonas e seus afluentes. A repercussão no Brasil da propaganda de Maury causou protestos indignados na imprensa, mas fez com que crescesse os argumentos da importância da abertura do Amazonas para a projeção de uma imagem positiva do país em âmbito internacional, principalmente capitaneadas por Tavares Bastos (Cf. Martin, 1918). Keller-Leuzinger reforçava estes argumentos ao afirmar que a abertura daquele rio significava avanço do Governo Brasileiro contra “resquícios do monopólio colonial” (1875:33). Além disso, logo em seguida em 1867, foi assinado o de Tratado de Ayacucho com a Bolívia que definia os limites entre os dois países. Assim, segundo a portaria de 10 de outubro do mesmo ano, Franz Keller-Leuzinger e seu pai, foram


incumbidos pelo governo imperial de explorar o rio Madeira na arte encachoeirada dele, desde Santo Antonio até a barra do rio Mamoré, e de elaborar os projetos mais apropriados para o melhoramento dessa importante via de comunicação com a província de Mato Grosso e a república da Bolívia (Keller, 1869:2, grifo nosso)
Outrossim, podemos interpretar esta viagem como uma investida do Estado Imperial para resolver a questão herdada da colônia, ou seja, a exploração dos rios Amazonas e Madeira e a integração do país, levando em consideração a comunicação com Mato Grosso. A convergência destes eventos, além da exploração da borracha, cacau, café, tabaco e quina, produtos de grande demanda comercial também podem ser vistos como motivadores para a organização desta expedição (Church, 1975). Desta forma, criar vias de ligação desta área com o restante do globo não só um problema de integração do Império Brasileiro, mas também de escoar valiosas matérias-primas para o mercado internacional. E era fundamental para a Bolívia ter outros canais para escoar sua produção, uma vez que transpor os Andes era inviável, a solução articulada naquele momento seria uma rota pelo Amazonas3.

Na década de 1860, já se observava seringueiros trabalhando ao longo do baixo Purus e Madeira, e durante a década seguinte, os brasileiros e bolivianos lá acamparam enquanto a fronteira entre os dois países permanecia incerta. Estes seringueiros eram de origem indígena e não os provenientes do Nordeste, que só ocorrerá na década seguinte. Para Valerie Fifer, uma das consequências do Tratado de 1867 foi o afastamento dos bolivianos do Baixo Madeira, deixando este para a ocupação brasileira, a ocupação boliviana se concentrou no Alto Madeira, obedecendo a nova linha oblíqua que cortava da nascente do rio Javary (ainda inexplorado naquele momento) até a latitude 10º 20´sul na confluência do Madeira-Mamoré (Fifer, 1970:117). Em outras palavras, esta área era brasileira, justificando ainda mais o esforço do governo em explorar esta região pouco conhecida e povoada, Ultima Thule do Brasil (Cf. Tocantins, 2009).

Em novembro de 1867, Franz Keller-Leuzinger saiu do Rio de Janeiro subindo pela costa até chegar ao Pará, de onde iniciara sua expedição no Amazonas. Foi na cidade de Manaus que ele organizou a viagem aos vales dos rios Madeira-Mamoré. O carregamento, dividido em sua frota de sete canoas, consistia em provisões para quatro meses, ferramentas para conserto das canoas, cordas, tendas, armas, medicamentos e presentes para as “tribos selvagens e semisselvagens” dos vales (Keller-Leuzinger, 1875: 42). A tripulação era formada por seu pai, Joaquim Manuel da Silva – engenheiro brasileiro, um técnico assistente, um comerciante italiano vindo da Bolívia, um alemão do qual só se referiu pelas iniciais P.v.S., descrito como um jovem aventureiro experiente em viagens como aquela em outras partes do mundo, além de 70 índios bolivianos das missões do Mamoré e pilotos de 7 canoas e de 8 brancos. Os índios eram remeiros, essenciais para a exploração e foram conseguidos com a ajuda do vice-cônsul boliviano que estava em Manaus. Para nós, acompanhar esta expedição amplia a compreensão do termo fronteira, que pode significar uma área de limites fluidos com práticas sociais e culturais próprios e que não deve ser confundido com limites territoriais.

Figura 1 – Mapa de Franz Keller-Leuzinger reproduzindo o percurso de sua viagem, no livro Vom Amazonas und Madeira. Fonte: Biblioteca do IHGB.

No caso desta expedição, os estudos dos rios consistiam, além da produção cartográfica, fazer estimativas dos custos para a construção de uma ferrovia ao longo daqueles rios e obras de canalização, bem como a construção de vinte planos inclinados entre as cachoeiras de Santo Antonio e Guajará. Em seu relatório, ele conclui que o sistema de transporte baseado em canoas movidas por remadores inviabilizava por completo a possibilidade de desenvolvimento do futuro comércio da região. Por isto a construção de planos inclinados que ampliaria a capacidade de oito para 30 toneladas de carga. Para o autor, a população indígena que vivia “destruída fisicamente” por estes trabalhos, com as obras de engenharia, poderiam se dedicar à agricultura e a indústria (Keller-Leuzinger, 1870:72).

A expedição chegou ao rio Madeira no mês de julho de 1868 e encontrou o rio 4m mais baixo que o usual, “os bancos de areia nas margens convexas, apareciam de mais a mais” (Keller, 1869:5). Em sua passagem por aquele rio, registra a queixa dos seringueiros do Madeira de que os bolivianos frequentemente não levavam consigo a quantidade precisa de mantimentos e roubavam constantemente as roças que margeavam o rio. Este relato é interessante para relativizar a ideia da Amazônia como terra da abundancia (imagem presente até hoje). Se o viajante não levasse consigo as provisões necessárias, morreria de fome, pois em determinados setores da floresta não há frutos nem peixes.

A geografia do Alto Madeira conta com uma série de cachoeiras que marca a agitada confluência com o Mamoré. Quando a comitiva lá chegou tiveram que descarregar e subir as canoas com ajuda de cordas, esta penosa tarefa foi repetida várias vezes ao longo da jornada. Entre as cachoeiras Morrinhos e o Caldeirão do Inferno, observaram canoas dos índios Caripunas dos quais Keller-Leuzinger já havia tido notícia de acirrados conflitos com os brancos, mas ele não teve problemas, chegando a trocar presentes por milho e raízes de mandioca (1875:57).

A cachoeira Caldeirão do Inferno possuía a pior reputação por ter provocado a morte de vários navegantes pela força de sua correnteza, quebrando as embarcações contra as pedras e sendo as mesmas tragadas por redemoinhos. Em seguida, a comitiva atingiu a parte inferior da cachoeira do Ribeirão, formada por cinco cachoeiras, que segundo Keller-Leuzinger possuíam as quedas d’água mais notáveis, chegando a 13 metros de altura. Estas descrições, além de conferir uma dramaticidade ao relato, justificariam a recomendação de construção de planos inclinados para viabilizar a navegação destes rios encachoeirados expresso no relatório entregue ao Ministério da Agricultura.

Quando estava no rio Beni, nas proximidades da cachoeira Guarajá-Guassú, Keller-Leuzinger encontrou uma grande comitiva boliviana que carregava sebo e couros e lhe pediu para enviar ofícios e cartas para o Pará e Rio de Janeiro. Nesta passagem, podemos ver como a comunicação se dava em uma área afastada de centros urbanos e desprovida de rede telegráfica. A correspondência de Keller-Leuzinger provavelmente não chegou ao seu destino, pois em seu relatório ele afirmava que a falta de notícias provocou rumores de que a expedição havia fracassado e que a tripulação havia desaparecido.

O trabalho de campo da expedição consistia em fazer levantamentos hidrográficos, hipsométricos e determinação de coordenadas geográficas a partir de observações astronômicas em uma região que ainda não fora mapeada. Para executar o levantamento das coordenadas geográficas, era necessário realizar a determinação das longitudes4. Keller-Leuzinger afirmou que seus cronometro de marinha, instrumento fundamental para o transporte da hora5 no cálculo da longitude, já haviam se mostrado defeituosos em Manaus. Um expedicionário mais experiente o tinha prevenido de que estes delicados instrumentos sofreriam com as condições instáveis da viagem em canoas, e os tornariam ineficazes na determinação das longitudes. Assim para resolver este problema, ele se baseou nas diferenças lunares como forma de obter estas coordenadas. Este método, segundo ele, não possibilitou que todas as medições tivessem a mesma precisão, uma vez que as observações dependiam das condições meteorológicas.

No relatório de 1869, ele descreveu como fez suas medições: as latitudes foram determinadas pela altura do sol e das estrelas, tomadas quase sempre nos lugares onde acamparam. As observações noturnas foram favorecidas por um céu sem nuvens principalmente nas estações secas. Os instrumentos usados foram um circulo de reflexão de Casella e dois sextantes com horizontes artificiais. Também utilizou um micrômetro de Rychon e uma bússola prismática para estabelecer o curso dos rios. Entretanto não realizou triangulações por falta de pessoal e a dificuldade de estabelecer sinais trigonométricos na densa floresta. Segundo Neville Craig, o engenheiro alemão realizou um valioso trabalho ao compilar mapas do rio Madeira:
Keller reuniu vasta cópia de informes sobre a região e confirmou, em grande parte, as ideias expendidas pelo Tenente Gibbon. Compilou mapas do rio, em escala grande, e procedeu a cuidadosas sondagens, mas, não podendo contar com seus cronômetros que se estragaram pelo excesso de uso e obrigado a valer-se de observações lunares para cálculos de longitude, verificou-se, mais tarde, que havia diferenças consideráveis em seus mapas, na direção leste-oeste (Craig, 1946: 31).
A altitude do relevo foi feita por barômetros e hiposmetros. Junto com os instrumentos científicos, podemos afirmar com bastante segurança que ele levou consigo o Anuário do Imperial Observatório para os cálculos geodésicos, uma vez que o meridiano de referência de suas coordenadas é o Rio de Janeiro. O Observatório aparece em uma nota no livro de 1874 ao descrever o clima da capital do Império, afirmando que a cidade deveria ser mais quente do que dizia as estatísticas oficiais, uma vez que o Observatório (lugar das aferições meteorológicas) ficava no alto Morro do Castelo “varrido pela fria brisa do mar” (Keller-Leuzinger, 1875:2).

A parte mais ocidental que a expedição alcançou foi Exaltacion na Bolívia. Nesta cidade, Keller-Leuzinger buscou mantimentos e mais remadores para fazer sua viagem de volta e lá visitou uma antiga missão jesuítica. Segundo ele, foi no final do século XVII que se fundou esta missão nas margens do Mamoré e terra dos índios Cayubabas (Keller-Leuzinger, 1870:19). Para este engenheiro alemão a catequese era a única alternativa para integrar os índios à civilização, uma vez que após o contato com os brancos, de forma geral, a de vida dos índios estaria condenada. Em suas palavras “por uma aniquilação moral e física, sendo as missões religiosas tanto do sul como do norte do país a salvação dos indígenas ao prevenirem de um destino de maior exploração” (Keller-Leuzinger, 1875: 155).

Em novembro de 1868, findava a expedição e já tendo chegado em Manaus, Keller-Leuzinger afirmou que teve que “devolver as armas e demais utensílios” sem esclarecer precisamente que utensílios eram estes, quando se despediu do presidente da província (Keller-Leuzinger, 1870: 26). Interessante notar que a expedição foi armada para a viagem, mas não há registro de confrontos em seu relato. No dia 4 de janeiro de 1869, chegou ao Rio de Janeiro, de onde saíra quatorze meses antes, menos queimado pelo sol e menos enfraquecido pelas febres (Keller-Leuzinger, 1870: 84).

Em 1869, foi publicado o relatório final, sob o título “Relatório da Exploração do Rio Madeira na parte compreendida entre a cachoeira de Santo Antônio e a barra do Mamoré”, assinado por José e Francisco Keller. Este documento é bastante citado nos trabalhos subsequentes sobre a ferrovia Madeira-Mamoré.

Na historiografia do século XX, a ida dos Kellers ao Amazonas nem sempre foi avaliada positivamente pelos historiadores. No livro Introdução à História Ferroviária do Brasil, Ademar Benévolo o viu como parte de uma “invasão de técnicos estrangeiros no chamado Segundo Império” (1953: 587). Para este autor, o Governo Imperial legitimou e incentivo a entrada de estrangeiros por meio de um decreto do Ministério da Agricultura de 1862, que permitia a nomeação de engenheiros, em detrimento dos técnicos brasileiros que, segundo Benévolo poderiam ter realizado tal empreitada.

Na mesma linha de argumentação, encontramos Manoel Rodrigues Ferreira, para quem a escolha dos Kellers se devia ao “complexo de que sofriam os dirigentes brasileiros relativos aos técnicos estrangeiros” (2005:67). Ferreira também fez um balanço pouco positivo de seus trabalhos: segundo ele, aqueles engenheiros estiveram apenas quatro meses nas cascatas, o que não daria tempo para fazer um projeto detalhado das soluções propostas em seu relatório final. Os custos que apresentavam eram nada mais que simples estimativas, sem nenhuma base na realidade. Para a ferrovia estimam o custo de 8.500:000$000 e para os planos inclinados 21.000:000$000. Contudo, para este autor, o mérito desta empreitada estaria nas conclusões: o traçado da ferrovia deveria acompanhar o trecho das cachoeiras e que esta deveria passar obrigatoriamente, em frente à foz do Beni, a fim de coletar o comércio que descia por este rio.

Como afirmamos anteriormente estes dados foram transferidos para o Georg Earl Church que fora contratado pelo governo brasileiro para construção de ferrovia (1869) e obteve de Pedro II a autorização pretendida e mais a concessão de explorar a ferrovia durante cinquenta anos, fundando a empresa Madeira and Mamoré Railway. No Diário Oficial do Império lê-se:
Depois que o governo brasileiro franqueou o Amazonas e seus principais afluentes às bandeiras amigas, uma grande revolução econômica começou a desenvolver-se, lenta a princípio, prometendo tomar proporções incomensuráveis no futuro. A primeira consequência notável do ato magnânimo do governo brasileiro, oi o contrato que acaba de celebrar o governo da Bolívia com o engenheiro americano George E. Church para a navegação do Mamoré e outros afluentes do Madeira que pertencem à República, podem o empresário de acordo com o governo brasileiro, executar também a grande obra da estrada de ferro que deve evitar as cachoeiras desse rio (Diário Oficial do Império do Brasil, de 24 de janeiro de 1869).
Os desdobramentos da expedição de Keller-Leuzinger não foram muito felizes. Tendo o governo boliviano como avalista, Church em 1872, conseguiu o empréstimo de um milhão e setecentas mil libras dos banqueiros ingleses. No período de 1872-1879 contratou quatro empresas construtoras: duas inglesas e duas norte-americanas as quais por adversas circunstâncias fracassaram na tentativa de construir a ferrovia. Em 1881 o governo brasileiro cancelou a concessão dada ao coronel americano, como informou Ernesto Mattoso Maia Forte, em seu livro “Do Rio de Janeiro ao Amazonas e Alto Madeira” de 1883, membro da comissão de Church. Esta ferrovia só iria ser iniciada no começo do século XX sem, contudo chegar a ser eficazmente utilizada (Cf. Hardman, 2005).


  1. O livro Vom Amazonas und Madeira

Em 1874 surgiu o seu livro Vom Amazonas und Madeira na Alemanha, com 68 belas gravuras executadas no Xylograpjische Anstalt Von A. Closs, de Stuttgart, com desenhos de seu irmão Ferdinand, feitos a partir dos esboços de Franz Keller (Ferreira, 1994:192). O livro se divide em sete capítulos e um anexo e um mapa. Interessante notar que o relato da viagem em si termina no segundo capítulo, amplamente baseado no Relatório de 1869. O autor reservou o restante da obra para se dedicar a descrição da vida na região, incluindo caça, culinária, vegetação, pesca, as tribos indígenas do Vale do Madeira e a catequese dos jesuítas.

A sua principal chave de leitura estava dada na introdução: a narrativa era construída na tentativa de responder por que o Brasil, um país rico pelas “dádivas da Natureza” não atingia “o mais alto grau de desenvolvimento” (Keller-Leuzinger, 1875: 20). Esta formulação incluía a natureza com suas potencialidades na equação da civilização e progresso. Assim, cabe notar a dinâmica estabelecida entre homem e natureza no capítulo V, A vegetação da floresta virgem no Amazonas e Madeira. Lá havia a seguinte descrição da passagem da floresta Amazônica: “(...) a Natureza, imperturbada pelo homem, criou seus próprios prodígios, na qual não há separação ente suas crianças do solo maternal, e onde nenhum telhado de vidro intervém entre eles o éter azul!” (Keller-Leuzinger, 1875:113).

Entretanto, longe estava sua narrativa de uma imagem edênica do Amazonas. Dentre as riquezas da floresta estava elencada a borracha (Siphonia elástica) utilizada na confecção de artigos que iam das galochas como protetores dos fios do telegrafo e segundo o autor, a potencialidade de usos da borracha ainda não haviam se esgotado. Para ele, infelizmente não havia nenhum esforço de um cultivo ordenado e concentrado desta árvore e que toda borracha exportada no Pará provinha da floresta, demonstrando uma preocupação com a exploração e o consequente esgotamento deste recurso. Keller-Leuzinger fica chocado com a combinação da indolência do mestiço e a falta de visão do governo e denunciava que isto acarretaria na diminuição da produção e era só questão de tempo para que a Europa e a América do Norte (então maiores importadores do Brasil) achassem um substituto para aquela cara resina (Keller-Leuzinger, 1875:117).

O engenheiro alemão via com pessimismo os índios do Amazonas, com clara influência de um determinismo mesológico, ele sentenciava que somente os “peles vermelhas” (palavras dele) do México, América Central e Peru passaram da condição de nômades para criadores de gados e agricultores e assim atingiram o mais alto grau de civilização, enquanto o resto da América, imersa na floresta, que inviabilizava a criação de gado, reduzia a agricultura ao mínimo e a dispersão necessária das tribos, fazendo com que o desenvolvimento se tornasse inviável (Keller-Leuzinger, 1875: 133). Contudo, a solução para ele não estaria na eliminação dos indígenas como estava ocorrendo nos Estados Unidos, mas na miscigenação. Segundo Keller-Leuzinger, os indígenas eram o grupo humano mais adaptado aos trópicos. Assim, uma nova geração deveria surgir fruto de um processo de “amalgação” e produziria uma raça estável e adaptada ao clima e se não fosse dotada plenamente da capacidade de trabalhos dos europeus, pelo menos poderiam conviver pacificamente, pois, apesar de não ter sofrido com ataques dos índios, ele ouviu inúmeros relatos de conflito entre índios e brancos.

Em meio a esta floresta acontecia uma forma de exploração dos coronéis e os coletores que vendem os seu produto por baixo custo e que é vendida pelo triplo no Pará. Para piorar o quadro, Keller-Leuzinger afirmava que a borracha raramente era paga em dinheiro, mas em provisões criando um vínculo de servidão que dificilmente era rompido, mantendo esta população de mestiços e índios em permanente estado de tutela. Assim, observamos as denuncias de Keller-Leuzinger antecipava as de Euclides da Cunha em a Margem da História com relação às condições de trabalho nos seringais.




  1. A circulação da obra de Franz Keller-Leuzinger

Em 1874, mesmo ano de lançamento do livro Vom Amazonas und Madeira, a revista Le Tour Du Monde publicou um extenso artigo reproduzindo 23 das 68 xilogravuras originais, traduzido do alemão por J. Gourdault. Segundo Michel Riaudel esta obra influenciou o romance La Jangada, 1881, de Júlio Verne. A presença dos relatos de Keller-Leuzinger no livro do autor francês muito provavelmente foi inspirada pelo artigo de Le Tour Du Monde como a referência a algumas figuras míticas do Amazonas. Riaudel acreditava que a influência do trabalho de Keller-Leuzinger estava também na força de seus desenhos que acompanhavam o texto, como por exemplo, o ataque de jacaré sofrido pelos personagens de Verne no capítulo XVII (2007:67). Não só na ficção e nas revistas de divulgação a obra de Keller-Leuzinger estava presente, anos mais tarde Vom Amazonas und Madeira era largamente utilizado no livro do geógrafo Élisée Reclus Nouvelle Géographie Univesalle la terre et lês hommes de 1894, no capítulo sobre a Amazônia Keller-Leuzinger fora citado como fonte em vários aspectos de descrição da região, seja no que diz respeito aos rios por ele estudado, a flora e fauna, bem como na etnografia.

A versão para o inglês da primeira edição ocorreu também no mesmo ano de seu lançamento pela editora Champman and Hall. Em 1875 a obra recebeu uma segunda edição na Inglaterra por James Sprent Virtue, sob o título Amazon and Madeira Rivers: sketches and secriptions from the note-book of na Explorer e não há registro do tradutor. Na segunda edição inglesa havia uma nota afirmando que houve uma conversão para o sistema de pesos e medidas anglo-saxão e que esta edição fora revisada pelo naturalista Henry Walter Bates da Royal Geographical Society, que também esteve no Amazonas em 1847. Nos Estados Unidos foi editada na Filadélfia por J. B. Lippincott. Esta obra é publicada sem o mapa da edição original em alemão. A segunda edição inglesa é comercializada até os dias atuais e é nela que o presente trabalho se baseia.

Até o presente momento, Vom Amazonas und Madeira não foi traduzido para o português. A notícia mais ampla sobre esta expedição no idioma nacional foi editada na luxuosa revista Ilustração Brasileira de Carlos e Henrique Fleiuss6. Nesta revista, a obra do engenheiro alemão surgiu em forma seriada em um conjunto de seis artigos, espalhados entre julho de 1876 a maio de 1877. Ao longo dos artigos temos 22 gravuras permeadas ao texto. A ênfase está na descrição dos índios e dos costumes da região visitada. Assim, ele afirmava:


A indústria do Amazonas é quase toda extrativa, dizem os próprios brasileiros. O que significa que esta indústria repousa quase toda em uma espécie de espoliação do território. O trabalho do homem representa aí insignificante papel, é tudo devido à exuberância da natureza que fornece um tributo de contínuo renascimento. (Keller-Leuzinger, 1876:6).
Para Orlando da Costa Ferreira, Fleiuss transcreveu o texto na íntegra da revista francesa Tour du Monde (Costa Ferreira, 1994:192). Apesar de haver passagens semelhantes e ter o mesmo título e “Viagem d´Exploração ao Amazonas e ao Madeira” tradução literal do francês “Voyage d´Exploration sur l`Amazone et le Madeira”, isto pode ter precipitado a conclusão de Costa Ferreira de ter ocorrido uma cópia. O que verificamos após cotejar os dois artigos, é que esta afirmação não se sustenta. Lembramos que Fleiuss era alemão e não precisaria de uma tradução em francês para publicar o relato de Keller-Leuzinger em sua revista. Cabe acrescentar também que as imagens que ilustraram ambos os artigos eram diferentes.

Segundo Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, esta revista fora um importante marco na história da imprensa no Brasil, entre outros motivos por representar a consolidação do emprego da litogravura sobre a xilogravura. O modelo da Ilustração Brasileira eram as revistas francesas L´Illustration e a inglesa The Illustrated London News, ambas ricamente ilustradas com xilogravuras de grande formato. A maioria das gravuras da Ilustração Brasileira era importada, poucas sendo produzidas no Rio de Janeiro e copiadas de fotografias. Para este autor as páginas do artigo de Franz Keller-Leuzinger fora um marco na história do projeto gráfico das páginas das revistas ilustradas do Brasil, “mesmo considerando-se que as matrizes eram alemãs” (Andrade, 2011:62).

Rafael Cardoso chamou a atenção para o projeto gráfico destas publicações, vedete da produção editorial do século XIX, lembrando que entre o autor e as mãos do leitor estes textos passaram pelos editores e projetistas, o que muitas vezes alterava consideravelmente o conteúdo e a forma da intencionalidade do autor. Cardoso sublinhou em sua análise o caráter inventivo destas iniciativas editorias, que contavam com uma variedade de soluções técnicas empregadas. Isto indicaria um processo da transmissão de ideias dinâmico e autônomo que desmentiria uma concepção corrente da historiografia de que a vida intelectual no Brasil, marcada irremediavelmente pelo atraso estaria condenada a cópia de centros em outras latitudes. Estes projetos eram “fruto de uma cultura visual e material condicionada por práticas de leitura, venda e coleção” (Cardoso, 2009: 73).

Seguindo esta linha de argumentação, importante dar atenção ao trabalho de Henrique Fleiuss a frente da Ilustração Brasileira e seu trabalho de divulgação do livro Vom Amazonas und Madeira. Fleiuss fora mais inovador se comparado ao editor francês de Tour du Monde na composição entre texto e imagem, rompendo a linearidade da escrita, ao fazer com que o leitor vagasse com os olhos na página para seguir com a leitura do texto.

No último artigo Fleiuss inseriu duas imagens que não constavam na obra original como a legenda “Navegação atual no rio Amazonas” em contraste à outra gravura, com os dizeres “Navegação antiga do rio Amazonas” (1877: 340-341). Esta última se assemelha a uma que consta no livro, mas um olhar mais atento percebe facilmente a diferença. No livro esta imagem tem por objetivo ilustrar a variedade de tipos de embarcação que circulavam no rio Amazonas, tais como coberta, batelão, igarité e montaria.
Figura 2 – “Navegação antiga no rio Amazonas” Ilustração Brasileira, 1877. Fonte: Biblioteca Nacional.

Figura 3 – Tipos de embarcações no rio Amazonas. Vom Amazonas und Madeira Fonte: Imagem enviada para a autora por Frank S. Kohl.

Esta composição de legendas e imagens opondo antigo e atual, informação que não constava na obra original. Em uma análise mais atenta, vê-se que ela era proveniente do mesmo ateliê de Sttugart, mas a assinatura era de W. E. A e não F. Keller, como vemos nas demais gravuras do livro.
Figura 4 –“Navegação atual no rio Amazonas” Ilustração Brasileira, 1877. Fonte: Biblioteca Nacional.

Provavelmente, ao importar os clichês esta imagem veio também e Fleiuss fez uma nova diagramação. Cabe comentar que na série de artigos na Ilustração Brasileira texto e imagem nem sempre estavam coadunados. No mesmo artigo que trazia as imagens das embarcações o texto era sobre a catequese dos índios e finalizava com a informação de que haveria uma continuação. No entanto, isto não ocorreu, ficando o leitor com uma visão bastante incompleta daquela viagem. Entretanto a veiculação das imagens de Keller-Leuzinger nesta revista não terminava aí, pois encontramos vinhetas representando utensílios indígenas que adornavam as páginas do livro Vom Amazonas und Madeira e que foram utilizadas pelos editores da Ilustração Brasileira em 1878 em propagandas dos serviços do Imperial Instituto Artístico, sem referência a Keller-Leuzinger.

No jornal O Vulgarisador, de Emilio Zaluar, que circulou no Rio de Janeiro entre os anos de 1877-1881, a primeira imagem da publicação representava o encontro de Franz Keller-Leuzinger com os índios Caripunas. O editor do jornal saudava a publicação em alemão afirmando que ela “deve interessar a todos que ligam a verdadeiro apreço aos trabalhos desta natureza, que, infelizmente, ainda tanto escasseiam entre nós” (O Vulgarisador, 1877:10). Neste jornal o foco estava principalmente no encontro com os Caripunas, que são descritos da seguinte forma:
Eram criaturas fortes, bem conformadas e de estatura mediana; traziam pendentes comprimidos cabelos pretos; um dos homens apenas usava-os enrolados em trança. Um dente de anta atravessava-lhes as pontas das orelhas, e tinha, além disto, em outro buraco na separação de nariz, um pequeno molho de penas encarnadas de tucano. Não traziam armas, a esta circunstancia junto à presença de uma de suas mulheres na embarcação, respondia-nos pela benevolência de suas intenções (O Vulgarisador, 1877:10).
Muito provavelmente pelo valor das gravuras do livro Vom Amazonas und Madeira e a ligação de Franz Keller com George Leuzinger, fez com que Franz Keller-Leuzinger seja frequentemente lembrado na historiografia da iconografia no Brasil. O trabalho de Ana Maria Belluzzo em O Brasil dos Viajantes de seus desenhos é exemplar neste sentido. Ela fora perspicaz ao analisar a passagem dos desenhos para a xilogravura. Para Belluzzo, este processo ressalta a figura humana, que estaria apenas latente nos desenhos originais. “As poses clássicas das figuras e a concepção anatômica permitem harmonizar os movimentos interires e correspondem às exigências de valorização do homem de acordo com a concepção neoclássica da época” (Belluzzo, 1994:138). Disto se depreende a força da figura humana nos desenhos do engenheiro alemão, tornando um tanto contraditória a passagem que se segue fazendo se necessário uma longa citação:

Os desenhos resultam do foco atirado sobre o sentido vital, introduzido pela natureza palpitante, da qual o artista acolhe o gigantismo para se comprazer na expressão sublime. Seu tema é a natureza indomada, à qual o homem se encontra sujeito. Keller-Leuzinger expõe a rivalizarão entre homem e natureza através do embate dos índios com os animais, da ação dos índios coletores, caçadores e tapires. Trata-se de concepção característica do que se convencionou chamar de romantismo europeu, que encontra na paisagem e no homem natural uma de suas expressões, concepções mais próximas da genealogia otimista de Rousseau (idem).


Nesta interpretação dos desenhos de Vom Amazonas und Madeira fica evidente que a autora praticamente se deteve neles, parecendo desconsiderar o texto. Para uma análise iconográfica eficaz é importante estar atento à dinâmica entre texto e imagem apontando quando ora há uma relação complementar entre os dois registros e ora de contradição. Ao ler os relatos de Keller-Leuzinger fica difícil concordar com Belluzzo e a influencia do bon sauvage de Rousseau na obra do engenheiro alemão. Ele, inclusive, afirmou em seu livro que estava “longe de se juntar à insustentável lamentação de romancistas sobre a iminente da mítica raça vermelha superior aos brancos em suas heroicas virtudes e nobres qualidades do espírito. Tal raça vermelha só existia na imaginação deles.” (1875:157).

O Amazonas para Keller-Leuzinger contava com uma série de desvantagens, dentre ela os indígenas que, segundo ele, era “indolente, sensual e algumas vezes traiçoeira”, mas estavam com os seus dias contados, pois deverão se entregar às “exigências da super populosa Europa” (idem). A solução para o Império, segundo ele, estaria na agricultura e na indústria, que deveriam suplantar o sistema extrativista sem um planejamento ordenado, que além de não promover o desenvolvimento desejado, colocava em perigo os recursos naturais que se esgotariam em poucas gerações.

Assim, ao analisar as formas de circulação da obra de Keller-Leuzinger podemos verificar como a região do Amazonas e sua população era representada na imprensa nacional e internacional. A especificidade do relato deste viajante está na excelência de suas imagens que alcançaram grande circulação pela reprodutividade mecânica da imprensa de sua época, fazendo com que em alguns casos, a força da imagem suplantasse o texto.


  1. Conclusão

A analogia do Vale do Amazonas como um “livro fechado” e que precisaria ser aberto principalmente por sábios e cientistas durou durante muito tempo e há atualmente uma intuição generalizada de que ainda existem capítulos a serem lidos. Apesar de a região ter sido visitada por vários viajantes desde o século XVI, como Pinzón, La Condamine, Agassiz, Martius, Barbosa Rodrigues, Wallace, Bates, Charles Hartt entre outros, permanece a impressão de “terra ignota”. Isto pode ser atribuído a vários fatores, dentre eles, a resistência que o próprio objeto de estudo oferecia ao esforço de conhecimento. Cabe destacar que o termo “Amazônia” esconde uma diversidade geográfica, topográfica e econômica. Em outras palavras, como afirma Arthur Cézar Reis, a Amazônia não é uma só. Por isto não se pode generalizar a partir do relato de um só viajante. Por exemplo, as cachoeiras encontradas por Keller-Leuzinger não estão presentes em todos os afluentes da bacia amazônica e em grandes extensões o rio é facilmente navegável. A atenção para este ponto é fundamental para contestar a ideia da Amazônia como algo homogênio que está longe da realidade.

Para uma apropriação efetiva e simbólica daquela área do território integrando-o como parte do restante do país, a imprensa sem dúvida alguma desempenhou um importante papel. As relações entre a circulação de impressos e a construção coletiva de um passado comum para a nação, já havia sinalizado Benedict Anderson em seu livro Comunidade Imaginadas. A partir dos avanços técnicos nas técnicas de impressão observadas na segunda metade do século XIX, as revistas e jornais, muitas vezes ilustrados, ganharam maior circulação. Um dos assuntos de grande interesse eram os relatos de viagem, que ao serem publicados nestes periódicos faziam com que os leitores “visitassem” locais distantes e até então desconhecidos e desenvolvessem um sentimento de pertencimento em relação a algo que nunca viram.

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1 Carta de Franz Keller-Leuzinger a D. Pedro II, 29 de julho de 1876. Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional.

2 Sobre este ponto específico ver VERGARA, M. R. A divulgação da ciência e a ideia de território na Primeira República, 2010.

3 Após a falência do projeto de construção da ferrovia Madeira-Mamoré no início do século XX a saída boliviana para escoar sua produção para o mercado internacional foi pelo Pacífico mediante ligações ferroviárias com os portos do Chile e Peru (Hardman, 2005: 161).

4 O calculo da longitude é obtida através da diferença de tempo da passagem de uma estrela através do meridiano em dois lugares determinados. Em outras palavras, observa-se o transito da estrela num lugar e observa o transito da estrela em outro lugar, com o apoio de um catálogo celeste pode-se de determinar a longitude de um determinado ponto no globo.

5 Pode-se calcular a longitude, levando em consideração que cada hora representa 15º, ou seja, no caso do Rio de Janeiro em relação a Greenwich, temos 3h a menos de diferença o que significa que estamos a 45º de longitude oeste (Cf. Vergara)

6 Esta era uma publicação quinzenal impressa pelo Imperial Instituto Artístico fundado por Henrique Fleiuss.O Instituto foi aberto em 1860 e durou até 1878, quando faliu justamente por editar uma revista de projeto gráfico ambicioso, a Ilustração Brasileira.




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