A fabricaçÃo de uma história monumental para elizabeth teixeira



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A FABRICAÇÃO DE UMA HISTÓRIA MONUMENTAL PARA ELIZABETH TEIXEIRA
Roberto Silva Muniz

UFCG – Universidade Federal de Campina Grande

muniz.roberto@hotmail.com


1962. A Paraíba recebe por meio dos Jornais da imprensa as primeiras notícias da morte do líder camponês João Pedro Teixeira:
João Pedro Teixeira, líder atuante das Ligas Camponesas foi morto em emboscada e a tiros de fuzil, ontem à tarde, na entrada Café do Vento – Sapé. Voltava para casa, regressando de João Pessoa, levando cadernos e livros para seus filhos. Seu corpo, visto no hospital de Sapé, apresentava cinco ferimentos a bala, um em cima do coração, outro no peito direito e um na região glútea que a perícia supõe ter sido o primeiro disparo, além de mais dois no abdome. ... Era líder mais atuante das Ligas Camponesas, sendo um dos seus fundadores, pelo seu trabalho de esclarecimento dos camponeses foi escolhido como vice-presidente da federação das Ligas Camponesas, representando-a no último congresso de camponeses realizado em Belo Horizonte. Como líder apenas liderava sem a preocupação de se destacar dos companheiros. Morreu com cerca de 40 anos, deixando 9 filhos sendo que novo tinha poucos meses (Jornal A União, 1962, p. 02).

Como esse acontecimento foi recebido por Elizabeth Teixeira viúva do líder camponês da Liga Camponesa de Sapé, João Pedro Teixeira? Assim, logo podemos começar a puxar os primeiros fios da tessitura do livro “Eu marcharei na tua luta: a vida de Elizabeth Teixeira”(1997), tratando-se de uma biografia que foi escrita por meio de entrevistas orais, dando início à fabricação de uma história monumental para Elizabeth Teixeira. Segundo as narrativas dessa biografia que foi organizada para ela. E que ela nos conta que antes desse acontecimento da morte do seu esposo, Elizabeth Teixeira era uma mulher fora da política. Através dessa biografia coloco as primeiras informações para que o leitor estrangeiro dessa história fique conhecendo um pouco da sua história de vida.

E por meio da tessitura dessa biografia ficamos sabendo que logo após o assassinato do seu esposo, Elizabeth Teixeira assumiu a luta de João Pedro Teixeira a frente da Liga Camponesa de Sapé como forma de protesto contra a morte de seu esposo, como também sendo uma forma de continuidade a sua luta. A morte de João Pedro Teixeira foi um duplo acontecimento na vida Elizabeth Teixeira, pois esse acontecimento mudou sua vida por completo, sobretudo a sua condição de mãe já que função de continuar a luta de João Pedro, ela foi obrigada a se afastar de quase todos os seus filhos.

No entanto antes da morte do seu esposo ela tinha como única atividade cuidar da sua própria família, como também trabalhava um pouco para no sustento da própria família e nas horas vagas ajudava João Pedro na sede da Liga Camponesa com as leituras dos Jornais que divulgavam as idéias de reforma agrária como o Jornal O Terra Livre.

A tessitura da biografia que foi organizada para Elizabeth Teixeira, nos informa que João Pedro Teixeira sempre a perguntava, se ela daria continuidade as Ligas Camponesas caso ele fosse morto. Diante de tal pergunta ela deu o silêncio como resposta ao seu marido talvez pelo medo das mudanças, que ela saberia que tinha que enfrentar para continuar a luta de João Pedro Teixeira.
03/04/62. É chegado o dia de Elizabeth Teixeira dá finalmente a resposta a João Pedro Teixeira. Elizabeth ficou sabendo da morte do seu esposo no dia 03 de Abril de 1962 quando essa notícia chegou a sua casa. Diante de tal notícia recebida, Elizabeth num misto desespero chama seu filho Abrão seu filho mais velho. Para ir de encontro ao corpo morto de João Pedro Teixeira, mas, no entanto quando ela chegou, ela foi tomada pela vontade de vê-lo, mas logo ela esbarrou com as ordens dos políciais, que a proibiu de deixá-la entrar. Diante de tal fato Elizabeth não se intimidou e com isso não acatou as ordens, mas acaba conseguindo entrar. E logo ela ver João Pedro morto com o seu corpo ainda sujo de sangue e olhos entre aberto.

Diante desse encontro Elizabeth Teixeira se lembrou em meio há um choro contido da conversa que ela teve com João Pedro Teixeira. Diante de sua lembrança Elizabeth diz sim ao seu esposo mesmo que morto que ela iria dá continuidade a sua luta “Eu marcharei na tua luta”. Mas podemos perceber que ela não diz apenas sim a continuação às lutas como também as convicções políticas do seu marido, mas ela diz sim a existência de uma líder, mas uma nova forma de vida que passa a ser (re)escrita com a função de continuar a luta de João Pedro Teixeira.

No entanto, Elizabeth Teixeira quando assumiu a luta de João Pedro Teixeira. Por meio dessa escolha fez com que ela entrasse para as páginas da história das Ligas Camponesas. Já que ela assumiu os riscos e perigos de uma época em que questionar a ordem existente em favor de outra era uma insurgência política da qual, muitos sofreram as penalidades com a própria vida. Elizabeth Teixeira também foi alvo de muitas perseguições quando ela assumiu como também continuou a luta de seu esposo, e como líder camponesa foi muitas vezes intimada, presa e insultada. Diante do aumento das perseguições que aumentavam até que Elizabeth Teixeira decidiu fugir para o Rio Grande Norte. Por mais de uma década Elizabeth Teixeira ficou “auto” exilada, passando até mesmo despercebida já que ela assumiu também outra identidade, passando a se chamar Marta Maria Costa. Dessa forma ela nos conta,
Quando eu vim de Pernambuco para o Rio Grande do Norte, eu vim com o nome da Marta pra não ser pega pela repressão. Para todos dona Marta.

Marta era o nome da minha filha, mas também um nome muito parecido com mártir, com alguém sofredor, perseguido...(BANDEIRA e et al, 1997, p. 114)


Teria Elizabeth Teixeira, expressado ao final dessa citação uma vontade de ser mártir ou até mesmo de se tornar um monumento, palavra esse que nos lembra a idéia de ficar escrita para a posteridade. Dessa forma podemos explorar um pouco a biografia que é escrita. Elizabeth Teixeira tem a sua vida organizada numa biografia que é escrita mediante a entrevista com a própria biografada. E assim se instaura as primeiras perguntas, como é organizada essa biografia e como ela produz uma rostidade para a biografada?

E assim podemos começar outro acontecimento: Elizabeth Teixeira teve a sua vida encadernada para que os outros leiam por meio dessa biografia que começou a ser escrita em 1985, quando ela foi vista em um encontro emocionou a todos com a sua história de vida, dessa forma escreveu Neide Miele uma das organizadoras da biografia,


No dia 8 de março de 1985, num encontro comemorativo do Dia Internacional de Trabalhadores do Brejo, em Guarabira, a presença marcante de Elizabeth emocionou a todos. Sua fala, sua força, sua coragem, sua decisão de não abandonar jamais a luta estavam como que a exigir o registro de sua história, para que esta não perdesse no vazio do esquecimento (BANDEIRA e et al, 1997, p. 11).
Essa biografia começou a ser escrita quando Elizabeth Teixeira voltou do seu “auto-exílio” sendo recebida por todos com grande atenção diante de tal impacto da sua história de vida. História de vida que foi colonizada com a função de resgatar sua memória para que ela não se perdesse diante das erosões do próprio presente. Podemos notar que Elizabeth Teixeira volta no meio da década de 80 do século passado, momento político de mudanças no Brasil, período onde os intelectuais queriam colocar novamente o debate das Ligas Camponesas na ordem do dia. Mas, no entanto essa biografia só veio a ficar pronta depois de mais dez anos, já na década de 90: E assim uma das organizadoras colocou,
O destino, porém, manhoso e perverso, mais uma vez colocou barreiras imensas para a execução deste projeto.

Naquele dia fático 15 de março de 1991, Penha e Bete Lobo despediram-se da vida, tendo ambas passado boa parte da noite anterior em companhia de Lurdes Bandeiras, todas na casa de Elizabeth, realizando mais entrevista gravada. A tragédia fez com que todo o material deste livro ficasse mais de 2 anos à espera.

Em 1993, Lurdes e Rosa e eu [Neide Miele] decidimos que seria a nossa vez de driblar o destino e finalizar este livro, acontecesse o que acontecesse.... Infelizmente, por razões que escapam á nossa compreensão, este trabalho ficou à espera de sua publicação, mesmo estando pronto. Finalmente, em 1997, ele pode cumprir seu destino chegando às mãos dos seus leitores (BANDEIRA e et al, 1997, p. 12-13).
Seria mesmo o único destino de um livro e, sobretudo de uma biografia ter apenas como único destino o de chegar mãos dos leitores como resultado final? Antes de explorar essa questão vamos para os gestos da organização dessa biografia,
Na organização do texto final preservei rigorosamente o discurso de Elizabeth Teixeira e respeitei a lógica do aparecimento de suas lembranças. Os cortes realizados foram apenas no sentido de evitar as repetições, comuns ao discurso oral. Durante essa fase de organização do texto final, novas entrevistas com Elizabeth se fizeram necessárias, a fim de preencher algumas lacunas entre um acontecimento e outro. Encarreguei-me de recolher esses últimos depoimentos e entre uma entrevista e outra, à medida que o texto ia sendo escrito, ele era levado para que Elizabeth o lesse e eventualmente corrigisse alguma imprecisão. Esta tarefa foi bastante penosa para ela, pois, à cada página, choro incontido revelava que as feridas não estavam ainda cicatrizadas... e talvez nunca estejam (BANDEIRA e et al, 1997, p. 13).
Por meio das palavras de Neide Miele que foi uma das organizadoras nos fica claro a vontade que ela tem nos passar a idéia de isenção quanto a sua interferência no resultado da escrita. Seria possível tal isenção? Diante da organização da história de vida de Elizabeth Teixeira diante da forma como Miele organizou as entrevistas. Por que algumas falam se repetem e como não interferir no resultado final se as entrevistas conduzem a fala da entrevistada e interferem no resultado final, como também a eliminação das repetições. Neide Miele parece querer resgatar os bons tempos da história metódica ao buscar para o seu texto uma posição neutra diante da organização de tal biografia, onde sabemos que a escolha pela própria biografada já foi um gesto interessado.

Dessa forma podemos também chegar à outra peça que escrevem a biografia por meio dos jogos de prefácios como no caso do prefácio escrito por Jades Nunes que na época era reitor da Universidade Federal da Paraíba,


Uma publicação internacional sobre as grandes heroínas que ajudaram a construir a aventura humana na terra ficaria incompleta – e injusta – sem um capítulo desta obra, comprova. A percepção da grandeza de uma vida dedicada à causa do povo mais sofrido, que ela própria encarna como ninguém, quer no plano pessoal, que o político reforça. As emoções que fluem do relato de um exemplo, da posição mais genuína de referência que se cristaliza.

Quando os olhos batem no ponto final, não há como fugir das misturas de sentimentos tão contraditórios que se apossam do leitor. Orgulho por ser contemporâneo da guerreira Elizabeth. Revolta por sabê-la enfrentado, ainda, as dificuldades mais prosaicas da vida. Sensação de falta, com ela e tudo o que representa, em razão do pouco ou coisa alguma que fizemos ou fazemos por um mundo menos injusto. É certo que se este mundo melhorou um pouquinho, nos últimos 35 anos, deve muito a Elizabeth Teixeira.

É o que mostra este livro. Resulta da natural aliança entre compromisso social, competência acadêmica e talento... Não bastasse isso, traz um diferencial único, que o torna ainda mais interessante do ponto de vista do leitor e lhe dá extraordinária relevância como registro histórico. É obra fundamental, tão substantiva quanto sua personagem. E a diferença é que só este livro contém Elizabeth Teixeira por Elizabeth Teixeira. (BANDEIRA e et al, 1997, p. 09)

Na escrita de Jader Nunes podemos perceber que ele nomeia Elizabeth Teixeira como uma heroína, socialização da sua história já que lutou colocando a sua própria vida em risco, devido a um projeto de uma sociedade mais justa e igualitária. Jader Nunes também menciona o fato de da biografia de Elizabeth ser também uma cartografia de seus sentimentos, pois fica visível nesta obra uma escrita marcada por saudades e projetos por ser realizados. Podemos notar que a escrita de Jader Nunes Juntamente com Neide Miele contribuem para fazer da história de vida Elizabeth Teixeira um monumento para a posteridade na medida em que sua história de vida é apropriada para lembrar a memória das Ligas Camponesas.

No entanto, Rosa Godoy que também é uma das organizadoras da biografia produz um texto em ressonância ao jogo dos prefácios, na abertura da biografia para leitor, ou seja, ele tem como função de apresentar para o leitor a vida Elizabeth Teixeira. Godoy nas primeiras páginas do seu texto apresenta aos leitores informações iniciais sobre Elizabeth Teixeira, informando que ela nasceu em uma pequena cidade do interior da Paraíba – Sapé. Na origem, ou desde a origem, as marcas das contradições: o avô, pequeno proprietário; a avó, de veio familiar latifundiário. Elizabeth, mulher, filha de um pai que esperava um filho homem. Assim podemos notar que Godoy da ênfase em seu texto a condição de Elizabeth Teixeira como mulher por meio do seu texto. 1

Outro lugar que Godoy de destaque em seu prefácio é o seu papel de mãe como ela nos conta que Elizabeth em sua imensurável dor, de mulher e de mãe, incorporou a dor dos excluídos. Dessa forma sua luta continuou. Mais forte e solitária. Como dona-de-casa, as circunstância haviam – na transfigurado também em uma figura pública, como presidente da Liga de Sapé, em um simbolismo cristalino da transcendência da luta por sobre a morte e o medo.

Godoy continua a nos contar ainda em seu prefácio que vida de Elizabeth era cheia de inexplicáveis redemoinhos. Segundo Godoy parecia que a própria Elizabeth Teixeira queria isso, que ela contasse outra tragédia paraibana, camponesa, de mulher, para que a memória da luta não fosse apagada nem pela história oficial nem por intelectuais, que descomprometidos, consideraram, nos dias atuais, não ser importante os movimentos sociais, as lutas dos trabalhadores e das mulheres, seduzidos que estão nas academias pelos temas da moda, quanto deles anódinos.2

Podemos que Rosa Godoy se utiliza do espaço de escrita do prefácio para fazer uma crítica aos historiadores que vem se dedicando a pesquisar novas temáticas dentro do campo da história, pois essa biografia foi escrita nos finais dos anos 90, época também de uma explosão de pesquisas que exploravam temas pitorescos dentro da academia soando para alguns historiadores de início como Rosa Godoy que via essas temáticas como anódinas, sendo para ela na época como um descomprometimento político. Por isso ela justifica a escrita da biografia,


para que a memória da luta não fosse apagada nem pela história oficial nem por intelectuais que, descomprometidos, consideram, nos dias atuais não serem importantes os movimentos sociais, as lutas dos trabalhadores e das mulheres, seduzidos por temas da moda, quantos deles anódinos.( BANDEIRA e et al, 1997, p. 20)
O conjunto dos três prefácios que foi escrito para apresentar a biografia de Elizabeth Teixeira é marcado pela vontade de mostrar a vida de Elizabeth, sobretudo para mostrar sua atuação política à frente da Liga Camponesa de Sapé na Paraíba. Diante de tal gesto desses escritores podemos notar que eles ficam presos a ilusão biográfica como afirmou Bourdieu, quando eles contam e organizam uma memória de vida e também de luta sem questionar como a própria Elizabeth Teixeira organizou sua narrativa de vida. Bourdieu dessa forma esclarece,
Falar de história de vida é pelo menos pressupor – e isso não é pouco – que a vida é uma história e que, [...] uma vida é inseparavelmente o conjunto dos acontecimentos de uma existência individual concebida como uma história e o relato dessa história. [...] Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a associação a um ‘sujeito’ cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio, é quase tão absurda quanto tentar explicar a razão de um trajeto de metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz  das relações objetivas entre as diferentes relações”. (BOURDIEU, 1996, p. 183-184)

Depois do alerta lançado por Pierre Bourdieu podemos explorar algumas linhas de força da biografia de Elizabeth Teixeira. Pois Michel Onfray nos fala por meio de seu livro A Escultura de Si (1995) que da:


profusão de uma biografia retirar, o importante é extrair dela as linhas de força com as quais se constrói uma arquitetura singular. Longe do detalhe, dos passos hesitantes ou dos recuos, o que se constitui uma individualidade com um destino que se encarna encontra-se na conseqüência desses efeitos, mais particularmente as conseqüências desses efeitos (ONFRAY, 1995, p. 23).

Podemos notar que Elizabeth Teixeira ao contar suas memórias para produzir essa biografia ela também se reinventa como líder camponesa onde ela estabelece uma origem para a sua luta em favor de morador das terras do seu pai na sua infância, pois a sua memória é o próprio arquivo que ela manuseia para compor e recompor a sua própria história,


Eu me lembro que meu pai proibia a gente de ir na casa dos moradores dele, ver a miséria. Ele não queria conato dos filhos dele, ver a miséria. Ele não queria contato dos filhos dele com moradores. ...Um dia, eu tinha dez pra onze anos, era de manhã e eu cheguei na casa de Zé Preto, um morador de meu pai, e a mulher dele tinha descansado à noite. O pretinho estava nuzinho dentro do girau de vara com esteira de capim, eu vi o bichinho ali dentro, nuzinho.

Quando eu cheguei em casa disse pra minha mãe:

- Mamãe, a mulher de Zé Preto descansou. Ela tá coberta com um pedaço de tanga de rede, o menino esta nuzinho dentro do girau. Eles não tem nada pra comer, o fogo está apagado, ela sozinha lá, outro barrigudinho no chão. A senhora não vai mandar nada não? Tem tanta galinha aí.

- Oh mamãe! A senhora tem tanta roupinha de nenê, por que a senhora não manda umas roupinhas pra lá?

- Ela foi, pegou uma galinha, chamou um empregado que fazia a faxina em volta de casa, que varria o terreiro e disse pra ele:

- Não bote só a galinha bote também um pouco de farinha, de arroz e um pedaço de charque (BANDEIRA e et al, 1997, p. 32).

Depois da morte João Pedro Teixeira como também após fazer um juramento de diante do corpo morto de seu esposo. Elizabeth decide continuar a luta do seu marido em 1962 depois da morte do seu marido. Esse ano 1962 se institui como um marco que vai modificar a sua vida por completo. Sobretudo por suas escolhas que ela teve que fazer em função desse acontecimento, sabemos que ela teve oportunidade de morar fora inclusive em Cuba e juntos com os seus filhos, mas, não foi. Preferindo construir uma nova vida amarrada ao seu próprio eu,
Quando eu decidi protestar contra o assassinato de João Pedro, quando eu decidi continuar a luta dele, eu decidi mesmo, com força. Não tinha jamais quem me fizesse desistir (BANDEIRA e et al, 1997, p. 95).
Mas ela optou por assumir a liderança das Ligas Camponesas, uma decisão que ela teve que tomar mediante a política do movimento que começou neste mesmo ano a “pedir” que ela ocupasse o lugar do seu esposo articulando também a sua imagem de viúva como forma de agenciamento. Essa política começa quando diversas maquinarias discursivas que cobrava dela a continuação da luta de João Pedro Teixeira por meio de artigos de jornais e pequenos poemas que são veiculados e endereçados diretamente a Elizabeth Teixeira. Essas maquinarias se apropriam do corpo morto de João Pedro e do corpo vivo de Elizabeth Teixeira para fazer dela e da memória de João Pedro um território de revolta para outros camponeses. E assim começam os versos a interrogar Elizabeth e a também compor respostas dadas por ela:
Mulher, por que morreu teu marido

Com o corpo ferido?



- Moço, moço morreu ferido pelo inimigo

Porque sabia o caminho.

(...)


Desce o dia

Longo é.
Uma viúva

ouvindo a voz do marido:

Vai mulher que



a luta é
desperta seus companheiros

e sai com alba pelos campos.


Tu és pedra

Pedro Teixeira



e sobre ti levanto.

Essa bandeira.

(SANTA’ANNA, 1962)
Essas narrativas quando somada à sensação de perda e à ânsia de recuperar o passado leva Elizabeth Teixeira a desenvolver uma vontade de reconstruir a memória, que se traduz como dever de continuar a luta de João Pedro Teixeira. E dessa forma ela acabar por construir uma memória tendo como base o seu próprio território afetivado de lembrança para compor os fios da sua história.

Seu gesto de dizer quem é João Pedro cria uma dobra sobre a memória do seu marido para construir por meio dessa memória de João Pedro um espaço de sua autoria. Com os resultados dos seus gestos ela acaba por colocá-lo no presente já que ele se atualiza por meio de sua fala deixando de ser virtual passando a ser atual. João Pedro volta à cena quando Elizabeth Teixeira fala para reivindicar uma ação dos ouvintes e para que eles tomem a memória que ela produz para João Pedro como forma de instrumentalização para lutar por seus direitos. Ao falar Elizabeth Teixeira também fabrica o seu lugar de autoridade quando se utiliza do seu lugar de viúva, lugar se constitui preso ao passado. Pois o presente é colonizado e capitalizado para que ela possa da constituição ao seu território da saudade, já que é produzido a partir da saudade de João Pedro.

A biografia que é escrita para Elizabeth Teixeira é um canal por onde a memória de João Pedro se edifica como um ponto de referência para que ele retorne para junto de si, para que ela não fique desterritorializada e João Pedro não caia no esquecimento. Segundo Albuquerque Júnior podemos observar que Elizabeth Teixeira ao contar sempre a mesma memória ela garante certa paralisia do tempo fazendo com que tempo adotasse uma forma circular tal como a uma roca que manipula durante todo o dia.3 Dessa forma podemos entender que a possibilidade de um tempo ciclo faz com que Elizabeth Teixeira continue urdindo as mesmas tessituras para lutar contra o esquecimento por isso ela segue dando continuidade às memórias da década de 50 e 60 do século passado reatualizando também o conceito de camponês já que ela escreve as mesmas imagens do passado.

Portanto é como se os fios de suas histórias tivessem o poder de colocar seu corpo em contato com o corpo de João Pedro, ou mesmo de parar o tempo através de um encontro fugaz entre a palavra e a escrita, ação essa que se dá pelo território de suas memórias. Como Penélope, Elizabeth produz a tessitura da sua história para não ficar desterritorializada, Elizabeth tece as suas memórias para não perder o seu território de referência, ou seja, seu lugar de autoridade, pois o:


Seu argumento [como o de Penélope] é a eterna atualidade do tecido que tecem para (e com) Ulisses, obra que lhe toma todo o tempo e espaço. Tecido a cada dia desmanchado, reinventado a cada dia. Não é por gosto do tecer que ela tece, mas o gosto reproduzir o tecido – imagem desse amor (GUATTARI & ROLNIK, 1988, p. 152).
No entanto esse lugar de Elizabeth é um tecido sempre por refazer, assim como o de Penélope só que diferente, pois Elizabeth não desmancha a sua tessitura porque ela se faz também pela a ação dos outros já que ela encontra no outro a possibilidade de começar outra tessitura com as mesmas tramas. Por isso para ela é importante estar sempre falando mostrando a seus ouvintes e leitores que existe uma divida social política já que eles lutaram por uma sociedade mais justa e igualitária sonho este que constantemente investido por Elizabeth Teixeira tendo como suporte para isso o seu próprio território de referência, lugar esse de onde ela produz a tessitura da sua história.

Dessa maneira podemos ver este lugar de Elizabeth. Que ela (re)corta a história de João Pedro, produzindo uma história dele e também de si.


Eu não me arrependo de ter casado com ele e ter enfrentado toda essa barra que não terminou, toda essa batalha que ainda não terminou, uma luta que é muito difícil para os companheiros e companheiras que estão aí, dando continuidade à luta. ...Quando eu cheguei em Manaus para o lançamento do filme “Cabra Marcado para Morrer”...fui recebida assim como eu fosse uma atriz ... eu que aquilo reviveu outra pessoa dentro de mim, outra vida não sei, ...eu acho que tudo isso, o meu passado, aminha experiência, eu acho que tudo isso levou-me a um caminho, a uma situação de que hoje eu sou reconhecida, dentro e fora do Brasil ( BANDEIRA e et al, 1997, p. 152-156).
Elizabeth Teixeira constrói o seu lugar a partir do seu “território de memórias” colocando o seu próprio eu para se constituir também como emblema dessa memória, pois falar de João Pedro é colocá-lo de novo no presente e também uma forma para ela construir o seu lugar de guardiã da memória. Assim como também a possibilidade de constitui por meio da sua escrita um lugar de autonomia à medida que ela se constitui como autoridade e lugar de verdade como detentora da memória das Ligas Camponesas e da atuação do seu marido João Pedro Teixeira como líder camponês.

Portanto Elizabeth Teixeira cria uma independência em relação às circunstâncias do tempo presente. Pois o tempo presente para ela como uma memorialista torna-se para ela um instante de perigo nas batalhas das suas memórias por meio do presente que é tido como lugar de erosão. Criando assim a possibilidade de um domínio sobre o tempo pela fundação desse seu lugar autônomo por meio de um território “a salvo” fundado sobre si. No entanto é possível quebrar com a idéia de Elizabeth é uma continuidade de João Pedro Teixeira, mas como autora de si que se constrói quando ela conta as suas memórias sobre ele.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. O tecelão dos Tempos: o historiador como artesão das temporalidades. Natal, 2009. Availiable from Word Wide Web acesso em 03/12/2009.


AMADO, Janaina & FERREIRA, Marieta. Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.
BANDEIRA, Lourdes; MIELE, Neide, GODOY, Rosa (Orgs). Eu Marcharei na tua luta: a vida de Elisabeth Teixeira. João Pessoa: Ed. Universitária, 1997.
BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, Janaina & FERREIRA, Marieta. Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996. p. 183-191.
CERTEAU, Michel de. A Escrita da História. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2001.
DELEUZE, Gilles. Foucault. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1998.
GUATTARI, Félix. & ROLNIK, Suely. Micropolítica: Cartografias do Desejo. RJ: Vozes, 1988
SANTA’ANNA, Affonso R. de. Poema para Pedro Teixeira assassinado, RJ: Civilização Brasileira, 1962.


1 SILVEIRA, Rosa Maria Godoy. Elizabeth Teixeira e a Luta Agrária: das Ligas Camponesas ao MST, agente da Memória e da História. In: BANDEIRA, Lurdes e et al. Eu Marcharei na tua luta! A vida Elizabeth Teixeira. João Pessoa: Ed. Universitária/manufactura, 1997. p. 15-21.

2 Idem.

3 ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. O tecelão dos Tempos: o historiador como artesão das temporalidades. Natal, 2009. Availiable from Word Wide Web acesso em 03/12/2009. p. 03.


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