A farmácia e a História Uma introdução à História da Farmácia, da Farmacologia e da Terapêutica



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A Farmácia e a História

Uma introdução à História da Farmácia, da Farmacologia e da Terapêutica 

Autor: José Pedro Sousa Dias



História da Farmácia

Embora existam crónicas e outros textos anteriores, podemos considerar o século XIX como o do nascimento da historiografia farmacêutica, com o aparecimento, logo após 1800, de várias introduções históricas em livros de texto alemães. A primeira obra ibérica dedicada à História da Farmácia apareceu em Espanha em 1847, devida a C. Mallaina e Q. Chiarlone. A esta seguiu-se, em 1853, aquela que é geralmente considerada como a primeira obra de fôlego sobre esta disciplina, escrita pelo francês A. Phillippe 1, que deu origem dois anos depois a uma versão alemã, desenvolvida por J. F. H. Ludwig (1855). Em Portugal, a primeira grande obra de investigação sobre a História da Farmácia, da autoria de Pedro José da Silva (1834-1878)2, começou a ser publicada em 1866, poucos anos, portanto, após as suas congéneres espanhola e francesa. A História da Farmácia começou por ganhar um reconhecimento institucional e académico na Alemanha, nos finais do século passado e princípios do actual, principalmente com o trabalho de Julius Berendes (1837-1914)3, Hermann Peters (1847-1920)4 e Hermann Schelenz (1848-1922)5.





Figura: Julius Berendes (1837-1914) e Hermann Schelenz (1848-1922)

O desenvolvimento da História da Farmácia tem assentado essencialmente no trabalho realizado sobre três eixos: as instituições de ensino superior e investigação onde existe esta disciplina, as sociedades científicas a ela dedicadas e os museus de farmácia. A inclusão da História da Farmácia nos programas de ensino superior farmacêutico encontra-se hoje generalizada, tanto como disciplina independente como agrupada com outras matérias de intersecção das ciências farmacêuticas com as ciências sociais e humanas. O primeiro país a incluí-la no currículo farmacêutico foi a Espanha em 1852. Estudos de pós-graduação, incluindo doutoramentos, sobre História da Farmácia, são actualmente realizados em vários países, tanto na Europa como nos EUA. Em Portugal, o primeiro doutoramento com uma tese sobre História da Farmácia teve lugar em 1991. A primeira sociedade dedicada à História da Farmácia, a Societé d'Histoire de la Pharmacie, surgiu em 1913 em França, seguindo-se-lhe várias outras sociedades nacionais e internacionais.

Da história da profissão à história do medicamento.


Central no desenvolvimento da História da Farmácia como disciplina científica é a definição do seu objecto de estudo, o qual tem implicações numa série de outros problemas, como a delimitação das fronteiras da disciplina e as suas relações com outras disciplinas próximas. A primeira tentativa de definir de forma clara a natureza e os limites da História da Farmácia deve-se ao farmacêutico George Urdang (1882-1960) em 1927. Este investigador, cujas ideias influenciaram profundamente a historiografia farmacêutica europeia e dos EUA (país para onde emigrou durante o regime nazi), preocupou-se em demarcar fronteiras para a História da Farmácia, cuja lógica interna consistia em considerar os farmacêuticos e o exercício farmacêutico como sendo o objecto desta disciplina. Esta perspectiva tinha como principal consequência o facto de considerar fora da História da Farmácia um grande número de aspectos da História das Ciências Farmacêuticas, que seriam remetidos para o âmbito da História da Química, da Botânica, da Biologia, etc. Esta perspectiva choca-se frontalmente com as tendências da moderna historiografia, nomeadamente da escola dos Annales, de busca de uma história global, acabando por limitar o estudo da própria profissão farmacêutica, restringindo-a a um ponto de vista estreito que não permite a sua compreensão.

Para podermos identificar correctamente o objecto desta disciplina, temos antes de mais que ver que o termo armáciaserve simultaneamente para denominar uma profissão e uma área técnico-científica. Como profissão, a Farmácia encontra a sua definição nas diferentes actividades relacionadas com a preparação e dispensa de medicamentos. Como área técnico-científica é o produto da intersecção de várias disciplinas, como a Biologia, a Química e a Medicina, tendo como objecto a relação entre os medicamentos e os organismos vivos. Desta forma, qualquer que seja o ponto de vista por onde encaremos o termo Farmácia, o que encontramos no centro do seu significado é o medicamento. Assim, forçoso será concluir que o objecto da História da Farmácia não é a profissão farmacêutica, mas sim o medicamento. Não se trata aqui de estudar um medicamento isolado na redoma ou no almofariz, não se trata de estudar o medicamento em abstracto, mas numa série de diferentes relações com os homens e as sociedades humanas. Parafraseando M. Bloch, a História da Farmácia é a disciplina que estuda a relação homem-medicamento no tempo. É esta relação o seu objecto e ela define o seu domínio, um domínio riquíssimo que mostra em toda a sua amplitude a importância desta disciplina para a formação dos futuros profissionais do medicamento. Neste quadro conceptual, a profissão farmacêutica continua a ser tão importante como anteriormente, mas temos que dirigir igual atenção para o conhecimento dos aspectos da história dos medicamentos que não se encontravam directamente ligados com os farmacêuticos, assim como para os restantes grupos profissionais com intervenção no sistema de produção e distribuição de medicamentos.


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