A filologia e suas diferentes formas



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A FILOLOGIA E SUAS DIFERENTES FORMAS
A filologia é o conjunto das atividades que se ocupam metodicamente da linguagem do homem e das obras de arte compostas nesta linguagem. Como é uma ciência muito antiga e a linguagem pode ser tratada de muitas formas diferentes, a palavra filologia tem um sentido muito amplo e compreende muitas atividades diversas. Uma de suas formas mais antigas, a forma, por assim dizer, clássica e que, até agora, é vista por alguns eruditos como a mais nobre e a mais autêntica é a edição crítica de textos.

A necessidade de constituir textos autênticos se faz sentir quando um povo de uma alta civilização toma consciência dessa civilização e quer preservar dos estragos do tempo as obras que constituem seu patrimônio espiritual; salvá-las, não somente do esquecimento mas também de modificações, mutilações, acréscimos e adições ocasionadas, fatalmente pelo uso popular, ou pelo descuido dos copistas. Essa necessidade já se fez sentir na época helenística da Antigüidade grega, no século III A . C., quando eruditos, que tinham seus centros de atividade em Alexandria redigiram os da antiga poesia grega, principalmente Homero, sob uma forma definitiva. Desde então, a tradição da edição de textos antigos existiram durante toda a Antigüidade; teve grande importância quando se tratou de constituir os textos sacros do Cristianismo.

Nos tempos modernos, a edição de textos é uma criação da Renascença, quer dizer, dos séculos XV e XVI. Sabe-se que, nessa época, o interesse pela Antigüidade greco-latina renasceu na Europa, se bem que nunca tenha deixado totalmente de existir. Não obstante, antes da Renascença, não se trabalhava sobre os textos originais dos grandes autores, mas antes, sobre remanejamentos e adaptações secundárias. Por exemplo, não se conhecia o texto de Homero; possuía-se a história de Tróia, nas redações da Baixa Idade Média, que não passavam de novas epopéias adaptadas, mais ou menos ingenuamente, às necessidades e aos costumes da época. Quanto aos preceitos da arte literária e do estilo poético, não eram estudados nos autores da Antigüidade Clássica, que estavam quase esquecidos, mas no manuais de uma época posterior, seja da Baixa Antigüidade, seja da própria Idade Média e que davam apenas um pálido reflexo do esplendor da cultura greco-romana.

Por diferentes razões, esse estado de coisas começou a mudar na Itália, a partir do século XIV. Dante ( 1265-1321 ) recomendava o estudo dos autores da Antigüidade Clássica a todos que desejavam escrever, em sua língua materna, obras de estilo elevado. Na geração seguinte, o movimento se tornou geral entre os poetas e os eruditos italianos; Petrarca ( 1304-1374 ) e Boccacio ( 1313-1375 ) constituem já o tipo do escritor artista, esse tipo que se chama humanista; pouco a pouco, o movimento ultrapassou os Alpes e o humanismo europeu teve seu apogeu no século XVI.



O esforço dos humanistas tendia a estudar e a imitar os autores da Antigüidade Greco-latina e a escrever num estilo semelhante ao deles, quer em Latim, que era a língua dos eruditos, quer em sua língua materna, que eles querem enriquecer, ornar e modelar para que ela fosse tão bela e tão própria a enunciar os altos pensamentos, como o foram as línguas antigas. Para atingir esse fim, seria necessário possuir esses textos antigos, que se admiravam tanto e possuí-los na forma autêntica. Os manuscritos escritos na Antigüidade tinham quase todos desaparecido nas guerras, catástrofes, negligências, e esquecimento; restavam, apenas, cópias, devidas, na maioria dos casos, a monges, e dispersos por bibliotecas dos conventos; elas estavam, muitas vezes incompletas, sempre inexatas, algumas vezes mutiladas e fragmentárias. Muitas obras, então célebres, perderam-se para sempre; outras só sobreviveram em fragmentos; não há praticamente autor da Antigüidade cuja obra inteira tenha chegado a nós e muitos livros antigos só existem em uma única cópia, muita vezes, incompleta. A tarefa que se impunha aos humanistas era, primeiramente encontrar os manuscritos que ainda existissem, em seguida compará-los e tentar extrair a redação autêntica do autor. Era uma tarefa muito difícil. Alguns manuscritos foram localizados pelos colecionadores, outros perderam-se. Séculos transcorreram até que se reunisse tudo que existia. Um grande número de documentos só foi descoberto muito mais tarde, nos séculos XVIII e XIX e nos chamados Papirus do Egipto, que, ainda recentemente enriqueceram nosso conhecimento dos textos, sobretudo na Literatura Grega. Em seguida, foi necessário comparar e julgar o valor dos manuscritos. Eram, quase todos, cópias de cópias feitas sobre cópias e essas já tinham sido escrita numa época em que a tradição já estava muito obscurecida. Muitos erros foram introduzidos nos textos; alguns copistas não sabiam ler bem a escritura de seu modelo, anterior, às vezes, de vários séculos. Há troca de palavras, mudanças de posição e modificações arbitrárias. por falta de correto entendimento; os manuscritos podem também ser alterados por censura, gastos pelo tempo e pelos vermes. A partir dos humanistas, um método rigoroso de reconstituição foi estabelecido. Hoje em dia, é possível fotografar os textos, o que evita novos lapsos. Quando o filólogo tem, diante de si, várias versões do mesmo manuscrito, é preciso compará-las, por um método preestabelecido. O trabalho do filólogo é o de um genealogista. É preciso estabelecer o ancestral, ou arquétipo do manuscrito em questão. Estabelece-se a edição crítica que deve mencionar as variantes. As lacunas podem ser reconstituídas pela lógica, com a devida indicação. Há manuscritos em papel, pergaminho, madeira etc. Naturalmente, as obras escritas antes da invenção da imprensa apresentam maiores dificuldades. Para as obras antigas, muitas vezes é necessário conhecer uma língua morta, ou uma forma muito antiga de uma língua viva. No caso de haver várias edições, a melhor é a última em vida do autor. Há também casos de manuscritos a que o autor não deu importância: cartas, esboços, tudo que por qualquer motivo não foi publicado, às vezes sem qualquer revisão do autor. Principalmente no caso de texto teatral, muita vezes o autor era também ator e diretor, introduzindo modificações a cada apresentação.

O editor, isto é, o transmissor de textos, tem necessidade do auxílio de várias outras ciências, como: paleografia, lingüística, gramática, direito, história, teologia etc.

A filologia germânica, praticada por Grimm, e a filologia românica de Diez e seus discípulos eram, basicamente edições e comentários de textos antigos, com base em textos literários. Essa situação modificou-se por diversas razões:

1) O Positivismo e o Evolucionismo, que quiseram fazer do estudo da linguagem uma ciência exata.

2) O espírito democrático e socialista, combatendo o aristocracismo literário, interessou-se pela língua do povo e tendia a explicar os fenômenos lingüísticos pela sociologia.

3) O nacionalismo de pequenos povos que, querendo cultivar sua tradição nacional, dedicavam-se ao estudo de sua língua, valorizando-as.

4) Enfim, o impressionismo que se dedicou a compreender a linguagem como criação individual, como expressão da alma humana.
Numa fase mais recente, temos:

_ um estudo sistemático, estático e descritivo, na Escola Genebrina de Ferdinand de Saussure;

_ a escola dita idealista, de Vossler, inspirado pela estética de Croce, que considerava a fala e não a língua, considerada do ponto de vista histórico; houve dificuldades em encontrar um método claro e uma terminologia exata;

_ o estudo dos dialetos iniciado na França por Gilliéron tem também uma concepção dinâmica da linguagem, com inspiração na biologia e, por outro lado, no estudo geográfico combinado das palavras com os objetos que elas designam; esse estudo deu contribuições valiosas para o estudo da história dos povos sua agricultura, seus ofícios etc.


A BIBLIOGRAFIA E A BIOGRAFIA
A bibliografia, utensílio indispensável da ciência literária, lista autores com suas obras, e os lista da maneira mais sistemática possível. A bibliografia de um autor deve conter, primeiramente, a lista de suas obras autênticas, com todas as edições que delas foram feitas; a seguir, as obras duvidosas, que lhe são atribuídas; também os estudos de outros autores que lhe são consagrados. Se há manuscritos, é necessário assinalar onde os manuscritos se encontram. Enfim, todos as indicações suplementares que variam de acordo com o caso.

A biografia é, como a bibliografia, uma ciência auxiliar da filologia. A biografia contém, na maioria dos casos, informações bibliográficas. De uma coletânea de biografias pode-se obter uma verdadeira história da literatura.


Leia mais:

AUERBACH, Erich. Introdução aos estudos literários. S. Paulo: Cultrix, 1972.

BASSETO, Bruno. Filologia Românica. S. Paulo: EDUSP, 2000.

CÂMARA Jr. J. M. História e estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, 1980.

MELO, G. C. de. Iniciação à filologia e à lingüística portuguesa. Rio: Ao Livro Técnico, 1997.

MIAZZI, M. L. Introdução à lingüística românica. S. Paulo: Cultrix, 1976.



WALTER, H. A aventura das línguas no ocidente. S. Paulo: Mandarin, 1997.


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