A força da paródia em confissões de ralfo



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A FORÇA DA PARÓDIA EM CONFISSÕES DE RALFO

Selma França Rodrigues (UEL/CAPES)


Este artigo tece algumas considerações sobre Confissões de Ralfo: uma autobiografia imaginária, de Sérgio Sant’Anna, observa-se, na obra em questão, a recorrência à paródia. Sendo assim, priorizou-se os teóricos, Linda Hutcheon, Uma teoria da paródia, e Affonso Romano de Sant’Anna, Paródia, paráfrase & cia. Mas verificou-se que o estudo da paródia está intrinsecamente ligado a teoria da carnavalização, então, valeu-se ao teórico russo Mikhail Bakhtin através da obra Problemas da poética de Dostoievski.

O escritor Sérgio Sant’Anna nasceu em 1941 no Rio de Janeiro e tem 15 obras publicadas, inclusive três delas agraciadas com o prêmio Jabuti. As obras premiadas são: O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982), Amazona (1986) e Um Crime Delicado (1997). Desde os anos 60 Sérgio Sant’Anna vem sendo reconhecido como um dos grandes escritores contemporâneos. Sua obra literária inaugural foi o livro de contos O Sobrevivente (1969) e, devido a ele, recebeu uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. O grande poder do escritor Sérgio Sant’Anna é enredar o leitor por meio de seu estilo anticonvencional e da linguagem comprometida com a arte literária no sentido que registra a História em uma narrativa sem o ranço da denúncia explícita, todavia, evidenciando todos os malefícios impostos contra a liberdade do ser humano. Silviano Santiago em Nas Malhas da Letra resume bem esta visão:

Refletindo sobre a maneira como funciona e atua o poder, a literatura brasileira pós-64 abriu campo para uma crítica radical e fulminante de toda e qualquer forma de autoritarismo, principalmente aquela que, na América Latina, tem sido pregada pelas forças militares quando ocuparam o poder, em teses que se camuflam pelas leis de segurança nacional. (SANTIAGO, 2002, p.14)
Confissões de Ralfo: uma autobiografia imaginária, publicado em 1975, romance em questão neste artigo, é anárquico pois desmistifica as estruturas sociais e também as formas artísticas de revelá-las. Isto é conduzido por um narrador insatisfeito com o seu presente e cético para com o futuro, desempenhando um jogo polifônico alicerçado na paródia, elemento que procurou-se investigar neste trabalho.

A paródia, de maneira nenhuma, pode ser considerada um fenômeno atual. Muito menos um fenômeno literário, pois ela aparece na escultura, propaganda, cinema, música e outras formas de manifestações artísticas. Mas parece que através dos anos vem assumindo uma força persuasiva incontestável por possibilitar a aproximação entre os opostos e por expressar o desejo de renovação nas formas contemporâneas. Como afirma Affonso Romano de Sant’Anna: “A paródia é um efeito de linguagem que vem se tornando cada vez mais presente nas obras contemporâneas” (SANT’ANNA, 2002, p.7). Por sua vez, Linda Hutcheon ao teorizar sobre a paródia afirma: “a paródia é, neste século, um dos modos maiores da construção formal e temática de textos. E para além disto, tem uma função hermenêutica com implicações simultaneamente culturais e ideológicas” (Hutcheon, 1985, p.13). É por isto que definir a paródia apenas como “contra-canto” seria muito simplista, mesmo porque o seu sentido etimológico dá mais pistas da sua complexidade. Ao pensar sobre o prefixo para tem-se claro a idéia de oposição e contrariedade, que marca bem o componente ridículo intrínseco em muitos casos e, que por vezes, é largamente associado ao fenômeno em estudo. Mas também, para em grego significa “ao longo de” revelando um caminhar paralelo ao invés de oposição.

O fascínio que o mundo moderno tem em relação a explicar os sistemas humanos através de si mesmos dá a paródia espaço para conseguir esta onipresença. A impressão é que o mundo contemporâneo se auto-afirma através deste recurso. Por isto, para entender um texto parodiado, o leitor precisa ser um colaborador ao decifrar os elementos culturais e ideológicos que atuam simultaneamente no texto e, assim, “o descodificador, têm de efectuar uma sobreposição estrutural de textos que incorpore o antigo no novo” (HUTCHEON, 1985, p.50). Ao descodificador cabe a construção de um segundo sentido, sendo ela transformadora, na medida que vai além do texto parodiado para projetar e questionar às normas sociais. Deste modo, no romance Confissões de Ralfo, o narrador não só repete a fala do outro, como a usa para criar situações de hostilidade e denúncia. Em Sérgio Sant’Anna a paródia dialoga criticamente com os acontecimentos reais, construindo não só oposição ao texto original mas transformando-o em elemento intermediador da ironia, responsável por suscitar a reflexão. Como no caso do capítulo “Interrogatório I”, pela introdução dá-se a idéia de que as situações nele discutida, serão semelhantes à realidade. Porém, o seu desfecho é absurdo. Isto é acentuado ainda mais no capítulo posterior, “Interrogatório II”, nele, ao contrário do que rege os manuais de torturas, os interrogadores não se preocupam, como deveriam, com os fatos pessoais. Assim querem saber:
_ Nacionalidade?

_ Brasileira.

_ Quem descobriu o Brasil?

_ Pedro Álvares Cabral.



Uma cusparada por ter pensado na puta que o pariu.(SANT’ANNA, 1995, p.121)
A ironia é a grande responsável pelo interdito pois na década de 70 a literatura preocupou-se em mostrar uma realidade proibitiva ao jornal possuidor de uma linguagem objetiva e, portanto, comprometedora. Antonio Candido, no artigo “A nova narrativa”, discute o papel da literatura dos anos 70: “Outra tendência é a ruptura, agora generalizada, do pacto realista [...], graças à injeção de um insólito que de recessivo passou a predominante [...]” (CANDIDO, 2000, p.211). Como comprova o interrogatório feito a Ralfo , a obra em questão também quer revelar o momento repressivo vivido pela sociedade sem perder seu caráter ficcional. O teor subversivo do livro é transmitido pelo narrador que, mesmo em pensamento, se rebela contra os interrogatórios e as torturas.
_ E o que é um maniqueísta?

_ Alguém que segue uma doutrina fundada nos princípios opostos do bem e do mal.

_ Assim como vós?

_ Não, meus senhores.



Duas chibatadas por não ser maniqueísta (SANT’ANNA, 1985, p.124).
Ao não exitar em tocar num assunto tão delicado como a gratuidade da violência, o narrador subverte a ordem causando um mal estar por mostrar que o interesse dos interrogadores não era o de obter informações, e sim, demonstrar todo o autoritarismo de alguns dementes. “A paródia é, pois, uma forma de imitação caracterizada por uma inversão irônica, nem sempre às custas do texto parodiado. [...] A paródia é, noutra formulação, repetição com distância crítica, que marca a diferença em vez da semelhança.[...]” ( Hutcheon, 1985, p.17).

Esta diferença é representada pelo riso que surge quando se percebe a inversão irônica do texto parodiado. A sobreposição de textos revela a pluralidade de vozes a qual Bakhtin intitulou de polifonia, ligada a carnavalização da literatura por unir elementos opostos:


As leis, proibições e restrições, que determinam o sistema e a ordem da vida comum, isto é, extracarnavalesca, revogam-se durante o carnaval: [...], tudo o que é determinado pela desigualdade social hierárquica e por qualquer outra espécie de desigualdade (inclusive a etária) entre os homens. [...] Os homens, separados na vida por intransponíveis barreiras hierárquicas, entram em livre contato familiar na praça pública carnavalesca [...]. (BAKHTIN, 2002, p.123)
É importante discutir neste trabalho a teoria da carnavalização criada pelo crítico russo Mikhail Bakhtin, por esta teoria apresentar elementos condizentes com Confissões de Ralfo. Um dos elementos, mais marcantes dessa carnavalização é o entronamento e o destronamento (proporcionado pelo riso questionador). “A principal destas ações carnavalescas é, com efeito [...] a coroação bufa e o posterior destronamento do rei do carnaval (NASCIMENTO, 2001, p. 157). Ralfo vive constantemente situações limítrofes que o levam a romper com a hierarquia vigente. Esse narrador é capaz de aproximar elementos opostos como no capítulo “Alice”. Alice, personagem ingênua das histórias infantis, é metamorfoseada em Lolita, adolescente sedutora: “E o fato mais provável é que Alice, em sua viagem de um tempo para o outro, tenha recebido influências de Lolita, transformando-se, deste modo, naquela pequena tentação que estava ali à beira do caminho” (SANT’ANNA, 1995, p. 174). Ocorre nesta passagem o destronamento da idéia de infância inocente porque quem seduz Ralfo é Alice. Então, há o desmascaramento da aura da inocência infantil. Mesmo sendo um assunto tão delicado, ele é discutido com leveza em virtude da ironia. São esclarecedoras as palavras de Bakhtin: “A coroação-destronamento é um ritual ambivalente biunívoco, que expressa a inevitabilidade e, simultaneamente, a criatividade da mudança-renovação, a alegre relatividade de qualquer posição (hierárquica)” (BAKHTIN, 2002, p.124).

Devido a aproximação dos contrários, é procedente mencionar o gênero menipéia, especificamente o item coroação e destronamento, por estar relacionado a carnavalização e explicitar o desejo de Ralfo em dessacralizar as instituições. Segundo Bakhtin:


Na menipéia aparece pela primeira vez também aquilo a que podemos chamar experimentação moral psicológica, ou seja, a representação de inusitados estados psicológicos–morais anormais do homem – toda espécie de loucura (“temática maníaca”), da dupla personalidade do devaneio incontido,[...]. (BAKHTIN, 2002, p.116)

Todas estas contravenções são expostas na menipéia, por meio de uma diversidade textual que desemboca na criação de um sentido único. Caso similar acontece em Confissões de Ralfo, “[...] o romance As Confissões de Ralfo [...], caracteriza-se na sua integridade por reunir todos os elementos peculiares do gênero cômico, constituindo-se, a nosso ver, numa originalíssima sátira brasileira de linha menipéia. (NASCIMENTO, 2001, p. 158). Apesar do romance ser construído a partir de diferentes tipos de textos (carta, relatório, poesia, discurso religioso, diário, discurso político, etc) é o próprio narrador quem confessa a unidade do livro: “Sinto-me quase imortal neste princípio de história, nada pode acontecer-me. Porque estou apenas no início e o mocinho nunca morre no começo do filme, [...]” (SANT’ANNA, 1995, p.17).

A menipéia incorpora um tipo de texto que prima pelo contraste. Constrói-se a partir de situações limites, como por exemplo, sanidade X loucura. Seus heróis são deslocados e vivem peripécias mirabolantes sem compromisso nenhum com as regras sociais. Bakhtin esclarece:
São muito características da menipéia as cenas de escândalos, de comportamento excêntrico, de discursos e declarações inoportunas, ou seja, as diversas violações da marcha universalmente aceita e comum dos acontecimentos, das normas comportamentais estabelecidas e da etiqueta, incluindo-se também as violações do discurso.[...]. (BAKHTIN, 2002, p.117)
Transferir esta situação para a literatura requer pensarmos na linguagem carnavalesca como elemento responsável pela organização daquilo que Bakhtin chamara de “carnavalização da literatura”: “O carnaval criou toda uma linguagem de formas concreto-sensoriais simbólicas, entre grandes e complexas ações de massas e gestos carnavalescos” (BAKTHIN, 2002, p.122). A impressão deixada pela leitura de Confissões de Ralfo é de se ter defrontado, não com uma obra, mas com uma série de discursos; por estar explícito nela a diversificação da linguagem, quer na utilização de termos coloquiais, quer na concepção dos capítulos com vidas próprias, quer na criação de diferentes tipos de textos, quer na elaboração de diferentes focos narrativos.

O próprio narrador do romance, através de um roteiro, dá pistas de como acontecerá o fenômeno intitulado por Bakhtin como polifonia sob o aspecto da composição, isto é, há em Confissões de Ralfo uma tipologia textual variada e, ao mesmo tempo que possui vida própria, inter-relaciona-se com outros capítulos por meio da diversificação dos discursos literários; como se este labirinto textual fosse demonstrando a fragmentação do próprio narrador:

Além do prólogo, epílogo e nota final, as Confissões de Ralfo compõem-se de nove pequenos livros. Possuindo muitas vezes um tênue e até suspeito relacionamento entre si, possivelmente esses livrinhos serão melhor desfrutados como unidades distintas, que se subdividem, por sua vez, em outras unidades ou episódios, em número de trinta e dois ( SANT’ANNA, 1995, p.7).

No que se refere a elaboração das personagens, é fácil detectar em Ralfo uma duplicidade camaleônica, advinda do fato dele estar representando um papel “Porque sou Ralfo, o personagem, à procura de seus acontecimentos” (SANT’ANNA, 1995, p. 13). Incorporando o papel de personagem ficcional o narrador adquire mais liberdade para transgredir a ordem institucionalizada. Bakhtin ao analisar as personagens dos romances de Dostoievski afirma sobre elas: “Na carregada atmosfera carnavalesca revelam-se também os caracteres das personagens centrais [...] caracteres ambivalentes, em crise, inacabáveis, excêntricos, repletos das mais inesperadas possibilidades” (BAKHTIN, 2002, p.173). Ralfo é exemplo de todas estas características por viver situações carnavalescas ambientadas no espaço público. Nele há permissão à manifestação sem regras sociais, e, a duração das cenas é determinada pela ação carnavalesca. “No limiar e na praça só é possível o tempo de crise, no qual o instante se iguala aos anos, aos decênios e até a ‘bilhões de anos’”[...] (BAKHTIN, 2002, p.172).

A predominância do discurso em primeira pessoa no romance, Confissões de Ralfo, revela a aproximação do anti-herói às questões sociais, por isto, a obra consegue, muitas vezes, confundir autor e personagem. Esta duplicidade autoral em primeira pessoa é responsável por mostrar a brutalidade da situação transmitida pela brutalidade do personagem que não teme comprometer-se, pelo contrário, quer causar choque no leitor:

O primeiro passo é abandonar a cidade e qualquer vínculo com a existência anterior. Mais do que isso: apagar todos os traços desse passado. Compenetar-me de que sou Ralfo, concebido do nada, com uma realidade física e mental de vinte e poucos anos de idade ( SANT’ANNA, 1995, p.13).


E até mesmo nos momentos em que o texto é direcionado para a terceira pessoa, como no caso do capítulo “Relatório conjunto da comissão de psiquiatras convidada a observar o Baile de Gala no Laboratório Existencial Dr. Silvana”, há influências claras das idéias de Ralfo pela recorrência da ironia, marca fundamental do discurso do narrador personagem.

A paródia ao lado da carnavalização, em Confissões de Ralfo, atuam como subversoras dos modelos sociais pré-estabelecidos. Juntas conseguem dar qualidade à obra e coroá-la como um dos grandes e marcantes textos da nossa literatura.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CANDIDO, Antônio. A nova narrativa. In: A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 2000.

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoievski. Trad. Paulo Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.

HUTCHEON, Linda. Uma Teoria da Paródia. Trad. Teresa Louro Pérez. Portugal: Editora 70, 1985.

NASCIMENTO, Edônio Alves. As Confissões de um guerrilheiro bufo – o tema da carnavalização em Sérgio Sant’Anna. Conceitos. João Pessoa: v.4, n.6, p.154-162, 2001.

SANT’ANNA, Affonso Romano. Paródia, paráfrase & Cia. 7. ed. São Paulo: Ática, 2002.

SANT’ANNA, Sérgio. Confissões de Ralfo: uma autobiografia imaginária. 2. ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.



SANTIAGO, Silviano. Nas Malhas da Letra. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.



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