A força da solidariedade dos fracos



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Encontro03.08.2016
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A força da solidariedade dos fracos”.
Diante das mais adversas condições que afrontam a humanidade, particularmente a sociedade brasileira, é de acordo comum a urgência da solidariedade.
Ao redor percebe-se, com nitidez, a permanência das coligações que atentam contra a dignidade e a vida de milhões de pessoas. São ações e reações individuais e coletivas encharcadas de violências, preconceitos, marginalizações, indiferenças e censuras. Algumas são notórias, públicas, devassadas. Outras, privativas, sofisticadas, mudas, nem por isso menos perversas e dia-bólicas.
Corremos o risco da banalização ao “matematizar” a miséria e a exclusão sociais, renovando à memória dados que apontam para a escandalosa condição de vida, ou melhor de morte, a que são submetidas diariamente famílias inteiras, estejam presentes na urbe ou no campo. Números que não causam dor. Acostumam nossas mentes. Habituam nosso afastamento.
Por outro lado, somos convidados ao estímulo e à fé. Há que se reconhecer a movimentação da resistência e da profecia. São sinais de esperança e força. “Pedras” que falam, quando muitos optam pelo silêncio. Gente que grita pela urgência da “plenitude dos tempos”, acordando e inquietando a alma e o corpo dos que teimam em dormir. O que ocorre? É a força da solidariedade dos fracos – daqueles que estão à beira da existência e buscam encontrar o outro.
Como propõe o Professor Marcos Monteiro, é no grito do cego de Jericó, à beira da estrada (à beira da saúde); é no sofrimento da discriminação no silêncio da mulher pega em adultério, à beira da falsa moralidade (à beira do preconceito); são nas palavras da mulher samaritana, à beira do poço e da aceitação social (à beira da discriminação religiosa/sócio-cultural)); é na aproximação de Jesus junto ao religioso à beira da morte eterna, e que pergunta: “Quem é o meu próximo?”(à beira da auto-justificação e do isolamento), que podemos encontrar a solidariedade.1
Parece-me que nossas beiras não mudaram. Diferentes apenas os atores que, vale destacar, cresceram em grande número. São os meninos e meninas à beira da avenida, as mulheres à beira dos carros, os homens-gabirus à beira dos latões, a família inteira à beira da colheita do lixo e todos/todas nós à beira da dignidade.
Eu creio que na parábola do Bom Samaritano, poderemos encontrar algumas verdades que marcam “A força da solidariedade dos fracos”. Verdades estas presentes em nossas comunidades e atividades e, ainda, no dia a dia das relações que tecemos.
Recordando um pouco da história contada por Jesus: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto.

Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo.

Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo.

Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele.

E, chegando-se pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele.” ”(Lucas 10.25-37).
É evidente nesta parábola que Jesus estava destacando a história de dois fracos: o samaritano, excluído da sociedade daquele tempo e que se dispõe a estar ao lado do outro; e aquele outro homem anônimo e sujeito da violência na cidade. Razão do desprezo dos religiosos.
Porém a história narrada pelo Cristo não foi simplesmente a narrativa dos “fracos”, mas da solidariedade entre eles.
Em primeiro lugar, eu creio que seja importante reconhecer o que é nítido: a força da solidariedade dos fracos acontece através do Encontro.
É isso que Leonardo Boff, indica quando cita Che Guevara, numa carta deixada aos seus filhos pequenos: “se sentires a dor dos outros com a tua dor, se a injustiça no corpo do oprimido for a injustiça que fere a tua própria pele, se a lágrima que cair do rosto desesperado for a lágrima que você também derrama, se o sonho dos deserdados desta sociedade cruel e sem piedade for o teu sonho de uma terra prometida, então serás um revolucionário, terás vivido a solidariedade essencial.” 2
Este é o encontro. A identificação e a encarnação com o clamor no outro. A presença que impede a solidão, o isolamento e a fragmentação.
É possível passar por perto, sem a permissão do encontro, como no caso dos religiosos apresentados por Jesus. O corpo está presente, mas o coração, a sensibilidade e a disponibilidade encontram-se ausentes.
A força da solidariedade dos fracos acontece assim, quando desejamos os encontros e pensamos/agimos em nossas articulações comunitárias, numa participação popular efetiva e transformadora; quando falamos e vivenciamos o encontro da unidade das Igrejas, no respeito as diversidades e na coragem da busca do bem comum. São encontros de serviço.
Se, com atenção, ouvirmos novamente esta parábola de Jesus iremos perceber ainda que o encontro da solidariedade dos fracos vem permeado por dois elementos tão presentes em nossa realidade. O encontro acontece em meio a dor e a esperança. A dor da violência e a esperança do cuidado. Saber cuidar. Na dor, somos solidários para resistir, suportar, permanecer. Na esperança, evidencia-se a solidariedade do recomeço e da restauração à vida.
Um segundo princípio que me parece importante compartilhar, relaciona-se com a ação. A força da solidariedade dos fracos encontra-se na atitude prática diante das circunstâncias. No poder de resposta aos atentados à vida.
Reconhecidamente corremos o risco do pragmatismo, do acúmulo das atividades desacompanhado da reflexão crítica, da avaliação e de outros ingredientes tão necessários à missão. Estes são perigos que devemos evitar.
Entretanto, por outro lado, o fomento ao embate teórico, as premissas de nossas meditações e a burocratização dos desejos, inúmeras vezes impedem a concretização das propostas. Percepção e ação não são contraditórias e excludentes. O que vejo alavanca o que devo fazer, impulsiona meus gestos.
Como diz o Bispo Sebastião Gameleira, “só são sinais do Reino os gestos pelos quais nos tornamos um só corpo com as pessoas necessitadas.” 3
A força da solidariedade dos fracos encontra-se nos gestos. No gesto da mobilização, da militância, da organização e da insistência de fazer/ser ao lado do outro. É a presença ativa que nos aproxima, não primariamente dos ideais, das propostas e alternativas, mas sobretudo das pessoas. Assim, a força da solidariedade dos fracos se dá em movimento.
É preciso ainda dizer que a solidariedade não é apenas uma ajuda social e/ou econômica prestada entre pessoas, comunidades e/ou sociedades. Acertadamente, o Pe. Marcelo Barros afirma: “A solidariedade é mais do que isso. É uma co-responsabilidade amorosa entre pessoas e comunidades, entre igrejas e religiões e mesmo entre povos e nações, em função da justiça e da fraternidade entre os seres humanos.” 4
O sofrimento do outro pertence a nós. A diminuta auto-estima presente no meu semelhante reflete em nós e, de alguma forma, leva-me pessoal e coletivamente, quando não assumida como responsabilidade comum, à “dessolidariedade”, para usar as palavras de Frei Betto.
Na parábola apresentada por Jesus e nas diversas inserções diárias ao lado dos fracos somos convidados não ao personalismo ou messianismo, tentações próprias de nossa época e região, mas à co-responsabilidade, quando a caminhada de recomposição se dá na participação de todos e todas. A onda sempre será a presença e a união das gotas, cada qual com sua participação e valor.
Neste sentido, a oportunidade que nos é colocada pela história faz da Cáritas Brasileira (de cada um de nós) co-responsável pelas esperanças que temos cultivado no coração de nossa gente. Assim, o fracasso ou êxito, o recuo ou avanço, a virtude ou o erro, na história são apresentados e compartilhados por todos e para todos nós.
As relações humanas, com base nos valores e princípios cristãos, reforçam a idéia do “olhar para o outro”, pois o rosto e o olhar do outro lançam sempre uma proposta que deve fazer nascer a co-responsabilidade de gerar uma resposta , dando lugar a uma postura e atitude ética diante da necessidade apresentada no rosto do outro.
Finalmente, creio ser importante ressaltar um princípio implícito nas palavras de Jesus, mas explícito na solidariedade dos fracos.
Por que razão Jesus contava suas histórias? Para multiplicá-las no outro.
Se multiplicarmos, encontraremos a solidariedade. Caso contrário, descobriremos a solidão e, consequentemente, a fraqueza. Como diz a canção: “...sozinho, isolado, ninguém é capaz.”
Sabemos que a força da solidariedade cresce à medida que proclamamos, denunciamos, profetizamos e encarnamos nossa mensagem, convidando o outro a estar com a gente para perceber, questionar, contribuir e propor alternativas vivas e viáveis aos modelos impressos à força em muitos de nós. Esta é a solidariedade que valoriza a expansão e favorece uma virada quando muitos ainda não acreditam nesta possibilidade.
Desta forma, conseguiremos compreender que o samaritano e o seu companheiro, personagens da história bíblica, assumem o rosto de cada um de nós que, dispostos, buscamos a solidariedade no encontro, na atitude prática e na co-responsabilidade para com os nossos irmãos e irmãs – descobrindo a força da solidariedade não dos fracos, mas daqueles que verdadeiramente foram, são e sempre serão os fortes.

Rev. Sérgio Andrade


Presbítero da IEAB

Coordenador do PAADI – Programa de Apoio à Ação Diaconal das Igrejas da

Diaconia

Notas:
1. MONTEIRO, Marcos. Palestra devocional no 1º Seminário dos Estudantes de Teologia, Fotaleza/CE- 07 a 09 de setembro de 2000.
2.BOFF, Leonardo.
3. GAMELEIRA, Sebastião. Ensaio “Diaconia e Profecia”, Publicação – Ação diaconal: uma reflexão no contexto nordestino, Recife/2000.
4. BARROS, Marcelo.


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