A formaçÃo da mulher republicana no oeste do brasil: avante professoras!



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A FORMAÇÃO DA MULHER REPUBLICANA NO OESTE DO BRASIL: AVANTE PROFESSORAS!


CHAGAS, Alessandra Pereira da Silva isale@hotmail.com

ROSSI, Michelle Pereira da Silva. mpsrossi@hotmail.com

Universidade Católica de Goiás - UCG

Universidade Federal de Uberlândia – UFU

Capes
Com objetivo de compreender a educação da mulher no Oeste do Brasil, especificamente no Estado de Goiás e oeste de Minas Gerais, recuamos ao primeiro período republicano, buscando apreender os desafios e conquistas oriundas da formação feminina neste período, marcado pelo desencadeamento de uma nova estrutura de sociedade e governo. Assim, verificamos que a profissionalização feminina no magistério primário e o seu desencadeamento ao tornar-se estritamente feminino desencadeou a fundação de instituições de ensino para a educação da mulher.

Mesmo diante dos ideais relacionados à humanidade, pátria, família, de forma perfeita e sonhadora, a nova fase representada pela república nada mudou em relação ao antigo regime, a monarquia. À mulher juntamente com os analfabetos e os mendigos era vetado o direito ao voto. O Brasil persistia caracterizado como um país rural na Primeira República e uma grande quantidade de pobres e marginalizados, ajudavam a diferenciar de forma nítida o espaço urbano. Percebemos que essas transformações foram introduzindo novos padrões de comportamento dentro da sociedade e, por conseguinte, a necessidade de um sistema público de educação, o qual encontrava-se ancorado naquilo que Jorge Nagle (1974) categoriza como entusiasmo pela educação e otimismo pedagógico. Diante dessas afirmações, é importante compreender o papel da mulher nessa sociedade em metamorfose.

A Educação entrou como elemento capaz de amalgamar esse espírito de nacionalidade, como forma de conter as diferenças sociais e impulsionar sua economia para o desenvolvimento. Há a preocupação com assuntos como: os livros didáticos, moral e cívica, o ensino das tradições brasileiras, ensino na língua pátria nas escolas estrangeirais, como também os conteúdos de historia e geografia voltados para a realidade do Brasil, dentre outras. Assim, a criança e o adolescente precisavam ter em mente a formação de uma nação brasileira, ou pelo menos o sentimento patriótico pela mesma (FARIA FILHO, 2000). Durante este período, o Brasil iniciou uma nova transição de uma sociedade rural com base no modelo agro-exportador, para uma sociedade urbana voltada para a industrialização.

Com o intuito de combater o analfabetismo e capacitar pessoas para o trabalho industrializado, voltaram-se os olhos para a propagação da educação popular e profissional. Foram os primeiros movimentos voltados para a educação no Brasil. Por conseguinte, a preocupação pela formação da mulher tomou rumos diferentes nos últimos anos da Primeira República. A mulher, considerada professora natural de seus filhos, deveria estar preparada para educar e preparar o novo homem.




  1. A Imagem da Mulher Republicana no Oeste do Brasil

Por razões históricas específicas, a República foi simbolizada por uma figura feminina. No entanto, o símbolo desse novo regime nada representava quanto aos direitos destinados à mulher. E tal simbologia poderia ser “considerada apenas um meio para compensar a sua exclusão no seio político, advertindo que a política não era coisa de mulher”. Assim, observamos que

se o povo masculino esteve ausente da proclamação, que dizer do povo feminino? Se não havia povo político masculino, como pensar em povo político feminino? Havia uma elite política de homens, que eram chamados públicos. A mulher, se pública, era prostituta (CARVALHO, 1990, pp. 92-93).
De fato, não só a política não era coisa de mulher, como a própria educação não era para a mulher. Percebe-se que nesta época, que a mulher não tinha lugar no mundo político e nem tão pouco fora de casa (CARVALHO, 1990, pp. 92-93). E é justamente dentro deste espaço tão singular, o lar, que iremos entender a função destinada à mulher nesse período. No entanto, para percebermos melhor a visão que a República tinha sobre a mulher, voltaremos aos primórdios do colonialismo brasileiro.

Desde a época colonial, no Brasil, o imaginário da mulher foi desenvolvido sobre o colonialismo da sociedade portuguesa, e esta ligava-se aos ideais católicos (AZEVEDO, 1971). Assim, a “ex-colônia, ainda sob valores monárquicos, estabeleceu um padrão de mulher frágil e abnegada” (ALMEIDA, 1998, p. 114). Características indispensáveis para uma moça de família, que futuramente necessitava do casamento, a mulher deveria ser sempre dócil, gentil, submissa, e uma boa mãe. Toda a sua vida era voltada para a oportunidade do casamento como realização pessoal. Portanto, sua educação estava relacionada às prendas domésticas, e o único meio da mulher estudar estava nos conventos femininos da Igreja Católica.

Um paralelo da história da mulher goiana e mineira, é um recorte importante para o desenvolvimento do nosso estudo, considerando que de forma específica podemos apreender particularidades da vida de mulheres que viveram no cerrado, oeste do Brasil e, mesmo brasileiras, vivenciaram as vicissitudes locais. Daí a valorização da história regional como ponto de partida do nosso diálogo.


    1. A mulher Goiana

O isolamento da província goiana em relação ao Brasil, permaneceu como marca fundamental da sociedade até o início do século XX. A ausência de contato com os centros culturais contribuiu para que a sociedade goiana caracterizasse como conservadora em relação aos valores e sentimentos que orientam o cotidiano das pessoas. Isto legitimou atos de submissão, de crueldade, perseguições, mortes e as intimidações que marcaram os acontecimentos relacionados à política do Império aos dias atuais.

De origem rural, a família goiana manteve sobre as mulheres um rígido controle, e a autoridade patriarcal foi inquestionável no ambiente doméstico. Vale ressaltar que a maioria da população feminina goiana no século XIX era constituída por negras e índias, pois ao se aventurar nas minas, o homem branco não estava acompanhado de suas famílias. A mobilidade da província, devido a vida nômade dos mineiros, teve como conseqüência uniões ilegítimas, resultado também da natureza escravista da sociedade e do significativo processo de miscigenação. Daí o constante discurso da Igreja na valorização da família, do papel virtuoso da mulher e da autoridade do marido na organização da família, pois além do lar, o único lugar de refúgio e prazer para elas era a igreja. Verifica-se portanto, as contradições históricas: Esse lugar, no entanto, apesar de reforçar os mecanismos ideológicos de dominação e submissão da mulher ao ambiente doméstico e à autoridade patriarcal, abre-lhe também as portas para a participação em um universo maior da sociedade através da organização de festas, romarias, sintetizações de orações, ações de caridade (Capel e Ataídes, 1991, p. 38 a 42). Segundo a carta pastoral de D. Cláudio Gonçalves Ponce de Leão (apud Silva 2003):

[...] O Sacramento do Matrimônio deve ser tratado de modo muito diverso do que se tem feito; dando-se as bençãos intra missam, e recebendo o consentimento dos noivos immediatamente antes d'essa missa; devem ser publicados os trez proclamas, bem examinados os noivos, seos parentes e outras pessoas, que conheçáo os impedimentos; os parochos devem ajudar seos frequezes na redação das petições de dispensa, indicando as razões valiosas existentes para ser concedidas as dispensas; podem os parochos accostumar seos frequeses de sorte que os noivos sejáo sempre sujeitos ao exame de doutrina. Os livros de assentos de baptisados, casamentos e obitos devem andar sempre em dia, preparados e redigidos de tal sorte, que possão as certidões d'elles tirados servir de documentos legaes. Cada um pois vá estudando seriamente o ritual, e examinando as dificuldades, que encontra para serem ellas resolvidas.


Há um acréscimo no número de casamentos a partir de 1868, possivelmente em razão de duas questões: a primeira, pela aplicação das propostas ultramontanas, uma vez que a celebração dos sacramentos era um dos seus objetivos. Tentava-se impedir que um homem e uma mulher vivessem amancebados, sem o recebimento do sacramento do matrimônio e dos demais sacramentos. A segunda questão: os padres ultramontanos, na capital goiana, tinham conhecimento do projeto de casamento civil que tramitava no Parlamento Brasileiro. Além do mais em Goiás o conceito de casamento subordinava o indivíduo aos interesses das famílias; as asas do cupido estavam amarradas pelas limitações sociais. Até o final do século XIX, a maioria dos casamentos realizados, nas classes sociais mais abastadas, representa mais um contrato de política e de fortalecimento dos grupos de parentesco do que uma intenção amorosa. Casamentos entre parentes eram ideais porque garantiam a preservação do status e dos bens econômicos numa sociedade cheia de etnias misturadas e de aventureiros.

O casamento civil, legalizado posteriormente pela República, foi criticado pela igreja, que em muitos momentos, declarava como um ato de prostituição para uma moça de família. A Revista A Cruz, revista religiosa fundada em Goiás (1890), por Frei Gil Vilanova, apesar da vida efêmera, foi importante veículo de propagação dos ideais católicas, juntamente com os modelos femininos e masculinos esperados pela Igreja (SILVA, 2003).

O historiador Mattos (1979) , quando descreve a província de Goiás dos séculos XVIII e XIX, afirma que as goianas raramente eram vistas em público ou se dirigindo a estranhos. À mulher cabia "o bom desempenho do governo doméstico e a assistência moral à família, fortalecendo seus laços" . A timidez e o acanhamento, conseqüências naturais de sua submissão e obediência, eram tidos como ideais de virtude e feminilidade. Raramente eram vistas em público ou se dirigindo a estranhos. Por isto, as mulheres viam-se limitadas à esfera doméstica, marcadamente divididas entre mulheres “virtuosas” e mulheres “perdidas”. A Igreja, assim, contribuiu com a reprodução de tais representações, já que seguir os mandamentos religiosos, da moral, caracterizava a conduta da mulher cristã, claro, católica. Para ser aceita como "direita", deveria se comportar como a igreja determinava, caso contrário era classificada como de vida "fácil" (GIDDENS, 1993). Igualmente, as mulheres goianas descritas pelo viajante Saint-Hilaire como mulheres grosseiras, tímidas, de hábitos rudes, mas propensas à libertinagem. No entanto, apesar de marcadas pela clausura doméstica, eram hospitaleiras e cuidadosas com o lar.

As famílias costumavam ter uma grande prole, devido à inexistência de métodos anticonceptivos e à necessidade de muitos filhos para as atividades rurais. Um exemplo é relatado em 1811, quando o governador Delgado Freire Castilho registrou que o funcionário José Zeferino Monteiro de Mendonça teve 13 filhos com sua ilegítima esposa. Em artigo publicado no periódico A Informação Goyana, o escritor Hugo de Carvalho Ramos descreve a habitação e os costumes do homem do meio rural em Goiás:

o rancho à beira da estrada, a taipa sem reboco ou a liga deste estrume fresco de vaca, que ao secar deixa largas fendas, o chiqueiro ao pé da cozinha, o tejucal que se forma à frente da palhoça, regorgitando de dejetos da criação - tal o meio que, de dez em dez meses, proliferamente, surge à luz do mundo, o filho do rancheiro. Mal se despega da teta, começa a engatinhar, já está a mulher às voltas com nova prenhez (LIMA, 2006)
A autoridade masculina no ambiente doméstico não sofre mudanças com os ideais republicanos. A situação da mulher nesse início de século foi assim descrita por irmã Áurea Cordeiro Menezes, conforme apresenta Lima (2006):

A mulher, permanecendo reclusa em casa, evitava exibir-se publicamente. Destinada a ser dona de casa, não recebia nenhuma educação, conservando-se tímida, submissa e pacata. A severidade do pai pesava sobre as filhas, delas exigindo comportamento exemplar, em casa e aos olhos da sociedade, ficando, assim preservado o bom nome da família. O pai ditava as normas quanto à participação na vida social, quanto à religião, quanto ao namoro, ao casamento e, não raro, seu poder se estendia até ao modo da esposa e das filhas se trajarem e se pintarem, quanto à moda dos cabelos (...) A esposa, em geral, pouco ou nada viajada e sem instrução, mantinha-se submissa ao esposo, reforçando assim sua autoridade em casa.


Verifica-se que as bases de mando e obediência em que se assenta o pacto de compromisso entre as oligarquias vai além dos limites políticos ou institucionais. Elas perpassam todas as relações sociais, reforçando ainda mais a autoridade masculina sobre os destinos da mulher.
1.2 A Mulher Mineira
Minas Gerais desviava-se de alguns modelos já construídos na colônia portuguesa: Até meados do século XVIII, na Capitania de Minas, não existia escola de qualquer nível, devido à tardia colonização, que se iniciou somente com a descoberta do ouro no final do século XVII com a entrada para os sertões, Minas começou a presenciar suas terras auríferas dominadas por colonizadores.

Embora, desde a metade do século XVI, já existissem expedições com o objetivo de explorá-la e não de povoá-la, seu objetivo principal era o aprisionamento de índios. Somente com a organização das bandeiras houve o intento de conquistar a terra e nela se estabelecer. Em 1603 as bandeiras percorreram a região de Paracatu, e a bandeira de Lourenço Castanho Taques avançou até os sertões dos Araxás. O povoamento aconteceu em locais dispersos e afastados, foi em 1696 o primeiro ouro extraído em Minas Gerais na região de Itaverava daí se expandiu e formou o Arraial de Ouro Preto, depois Vila Rica.

Minas não propiciava condições para que os forasteiros permanecessem ali por muito tempo. A ausência de famílias era nítida e não existia mulher na região. Somente com a necessidade de vigilância, na medida que a exploração do ouro se ampliava, começaram a estender as residências de pessoas. Além disso, compreendemos que a mobilidade da província tornava o espaço público mineiro “perigoso também pela falta de segurança e de condições infra-estruturais mínimas para o livre trânsito”. Este perigo reforçava a condição das mulheres abastadas serem enclausuradas em seus lares, “protegidas”, do acesso ao público. O que não era privilégio de mulheres das camadas inferiores da sociedade que “a prática foi a transgressão a esse padrão de sociabilidade, com o trânsito de mulheres nos espaços ‘ditos’ masculinos, por força de um trabalho que lhes assegurava a sobrevivência e a de sua família” (MUNIZ, 2003, pp. 145, 146).

Verificamos também que a presença religiosa nas terras mineiras contribuíram com a manutenção destes modelos femininos, como forma de reger a moral e os costumes da sociedade, através da importância que a mulher exerceria como guardiã do lar, da moral e da educação cristã de seus filhos nos lares.Por outro lado, o destaque da presença feminina na Província Mineira nem sempre aconteceu nos moldes religiosos. Devido à característica nômade da região, muitas pessoas que ali ficavam desenvolveram as relações familiares, do tipo consensual, firmado no compromisso informal entre as partes.

Por causa da mineração, muitas mulheres, como as negras, desenvolveram um comércio, as chamadas “negras do tabuleiro”, as quais muitas escravas dedicadas a este comércio entregavam-se à prostituição, que “entretanto, não se restringiu a esse grupo específico, sendo largamente disseminada e aceita pela cultura popular em Minas Gerais” (FIGUEIREDO, 2001, p. 155). Outras mulheres, devido às condições nas quais viviam, com a pobreza e a miséria social, escolhiam a prostituição como estratégia de sobrevivência. Essa foi a constante luta por parte das autoridades religiosas, que devido a proibição de ordens religiosas no local, era mantida pelo clero secular. Então, o clero local permanente, tentava a todo custo, manter a ordem pelo controle moral da população sob sua jurisdição. O que mostrava, muitas vezes, uma constante luta entre uma parcela da população e os padres.

Ainda sob o conceito de Figueiredo (2001, p. 185), entendemos que estes conflitos geraram verdadeiros discursos sobre o papel feminino na província, quer condenando, como as “negras do tabuleiro”, prostitutas ou concubinas, quer exaltando a mulher: esposa, mãe e devota, como forma de normalizar moralmente as condutas femininas. Recorrendo ao pensamento de Perrot (1998), esta preocupação com a condição feminina, vista pela Igreja, estava sustentada pela própria visão religiosa para a mulher: elas eram agentes secretos da transmissão religiosa, nos lares. Em todos os aspectos, a religião procurou legitimar sua autoridade como forma de controle, as mudanças nos contextos diversos da província, apenas formularam novas estratégias para que a Igreja desempenhasse o seu papel de agente social. Ao considerarmos o período republicano, entendemos que a mulher mineira também foi alvo do discurso religioso e positivista, foi educada com a intensidade moral e religiosa, que acarretava consigo as construções sociais sobre a figura feminina.

De uma forma geral, entendemos, que seja no contexto goiano ou mineiro, o estereótipo criado sobre a mulher (mãe-esposa-dona-de-casa) permaneceu até a República, sem muita alteração, a casa ainda era o seu espaço privilegiado, sendo qualificada pela “categoria de rainha do lar graças aos positivistas e higienistas dedicando-se integralmente à família e aos cuidados domésticos” (ALMEIDA, 1998, p. 114-115).

Percebemos que nesse período, toda a educação informal dada à mulher, tinha o propósito de convencê-la do seu dever de participar da sociedade como alguém submissa ao pai, ou ao marido, obedecendo-os e respeitando-os. Como também, conformá-la a imagem idealizada pelo ideário dominante. Ela mesma seria incapaz de ter o domínio ou direção de sua própria vida.

Como “construtora” da imagem da mulher, a Igreja, desde a época colonial, adotou a mulher com as seguintes características:

o sexo feminino aglutinava atributos de pureza, doçura, moralidade cristã, maternidade, generosidade, espiritualidade e patriotismo, entre outros, que colocavam as mulheres como responsáveis por toda beleza e bondade que deveriam impregnar a vida social. Essa concepção sobre as qualidades femininas, mais a religiosidade e ausência de instinto sexual das mulheres, induzia ao arquétipo religioso da comparação com a Virgem da religião católica (ALMEIDA, 1998, pp. 17-18).


Por isto, nas diferentes regiões do país, a Igreja buscou legitimar o seu discurso, principalmente em Goiás e Minas, as quais a mobilidade das pessoas, as características familiares, em muitos momentos foram obstáculos para os ensinamentos católicos. Deste modo, a Igreja ensinava que a mulher deveria aceitar a natureza dada por Deus (a imagem de pureza, submissão e o exercício das atividades naturais como, cuidar da casa, do marido e dos filhos, bordar, costurar...) e, se a mulher se voltasse contra esta natureza, ela seria considerada rebelde em relação aos princípios “celestiais”, portanto exposta como blasfemadora contra tais ensinamentos. Percebemos, desta maneira, qualidades peculiares entre Igreja e os positivistas: ambos vêem a mulher de uma forma preconceituosa, inferior ao homem em direitos e conhecimentos.

Somente com as mudanças no período de transição entre o século XIX e XX, melhores condições foram consentidas às mulheres. Com o crescimento urbano, as novas exigências cobraram posturas diferentes diante das suas velhas funções, pois as ruas e praças das cidades necessitavam da presença feminina e por meio do crescimento do capitalismo, modelos europeus eram importados para a República, despertando novos pensamentos e imagens do ser mulher.




  1. Pensar a formação da mulher: a presença da Educação Católica

A educação feminina inexistia na sociedade brasileira. Durante anos, esse foi um fato ignorado que resultou na exclusão da mulher na educação. Compreendemos essa realidade quando voltamos ao período imperial, onde a Constituição prescrevia o ensino primário gratuito para todo o cidadão, e determinava uma escolarização diferenciada para as mulheres. Mas o Estado não possibilitou as condições para execução dos currículos nessas escolas, que praticamente não existiam, o ensino era precário e as escolas não tinham instalações apropriadas.

As filhas das famílias nobres poderiam ter uma educação muito mais ampla, mesmo que voltada para o lar, considerando que já garantiam através da herança dos pais o meio de sobrevivência. Quanto às mulheres das camadas baixas, necessitavam elas de um casamento, como meio para garantir a sobrevivência. Caso não encontrasse um esposo, teriam que trabalhar para garantir o seu sustento.

No decorrer das décadas na Primeira República, a mulher passou a ser vista como meio possível para o progresso, e como a grande responsável em desenvolver a mais nobre tarefa de sua existência: formar o homem. O processo de escolarização que a nova vida urbana cobrava do país, acelerou a entrada da mulher nas Escolas Normais, pois o modelo criado desde a colônia já não correspondia às exigências da urbanização brasileira, percebendo que não era mais possível manter a mulher no mesmo estado de ignorância e isolamento.


2.1 A Educação da Mulher em Goiás
A mulher goiana do século XIX estava em situação bastante inferior a das províncias do sul e sudeste, mantendo em plena época imperial a situação de servilismo e recato adotado desde a colônia. (Capel e Ataídes, 1991, p. 39), pois por volta de 1824, existiam vinte escolas para mulheres no Brasil, cujos currículos incluíam, além de leitura, escrita e as quatro operações básicas, habilidades manuais necessárias ao trabalho doméstico. A educação feminina se estabeleceu em Goiás para atender as necessidades de uma elite, que reclamava pela educação de suas filhas, que já recebiam, em alguns casos, o ensino particular na própria casa.

O que prevalece como ponto decisivo é que por um longo período, as mulheres goianas não se preocuparam com a formação dos filhos. Somente na segunda metade do século XIX, a preocupação com a elevação do nível intelectual da mulher, assume o discurso da elite brasileira, que em Goiás, embora já existisse Decretos desde 1831 com a inauguração de escolas femininas, somente com a criação do Colégio Santana em 1887, que a educação da mulher de fato firmou-se em Goiás, com a chegada das Irmãs Dominicanas.

A missão dos dominicanos também se empenhava em reformar a moral do povo cristão, convocando as pessoas para regularizarem os casamentos segundo a legislação eclesiástica. Essas congregações foram importantes na vida religiosa do povo e atuaram, principalmente, na região oeste de Minas e Goiás. “Já na última década do império chegaram ao Brasil os dominicanos e os salesianos” (AZZI & BEOZZO, 1986, p. 9-10). Os dominicanos instalaram-se inicialmente, em Uberaba, no ano de 1881, na sua primeira fundação; ao lado deles, em 1885, as Irmãs Dominicanas fundaram a escola para meninas. 1

Ao estudar a penetração das ordens religiosas femininas no oeste de Minas Gerais, Silva (2005) destaca que esses colégios eram vistos pelo bispado como importante espaço para a formação moral e religiosa. “Se a preocupação com a internalização do catolicismo era essencial, por que não começar com a educação das meninas que exerceram importante papel nas suas futuras famílias?” As instituições educacionais católicas, eram responsáveis pela formação de professoras para o setor público, não deixando de transmitir a influência religiosa. A necessidade da criação de escolas femininas ou masculinas estava associada com o conceito de progresso. Assim a Igreja Católica era aquela que poderia fornecer este verdadeiro progresso à sociedade.

De modo geral, a Igreja Católica, seja na província mineira ou na província goiana, assumiu o mesmo discurso ao condenar tudo que se associasse ao liberalismo, optou pela implantação do catolicismo ultramontano de "inspiração romana, eclesial e sacramental", cuja finalidade era legitimar as propostas do clero conservador. Assim, a história da "Igreja é neste período fundamentalmente "conservadora". Toda uma atitude de reação contra o liberalismo, que culmina no Syllabus e no Vaticano I, foi transferida para o Brasil". A Igreja brasileira, ao adotar a linha de romanização conservadora, numa perspectiva marcada pelo centralismo institucional em Roma, estaria optando por um projeto em que os seus representantes frontalmente iriam debater-se com os protagonistas do liberalismo no País, seja em âmbito nacional e/ou regional, a exemplo do que se deu na capital goiana após a Proclamação da República. As escolas católicas assumem um papel coadjuvante para a formação religiosa da sociedade brasileira.


    1. A Educação Feminina em Minas Gerais

A educação feminina em Minas Gerais era precária e inexistia, até meados do século XIX, ela somente apreciou o enclausuramento dos recolhimentos, como a única alternativa educacional, no entanto, estes educandários eram regalias apenas para as famílias da elite conduzirem suas filhas: “o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas, para moças; e o Recolhimento de São João da Chapada, também para moças, em Minas Novas em 1780” (FARIA, 2000, p. 12).

Estes estabelecimentos tinham como objetivos proteger as mulheres, moralmente, do mundo masculino. Proporcionavam uma formação escolar desenvolvida sob um clima de devotamento espiritual, de prevenção moral, de reforma dos costumes, muito mais centrada na aquisição de virtudes do que de conhecimentos (MUNIZ, 2003, p. 161), reforçando o espaço privado como o lugar próprio e natural das meninas. A partir de 1847, aparecem os primeiros colégios religiosos femininos, que atendiam às filhas de famílias abastadas da sociedade. Elas recebiam um ensino privilegiado, com línguas estrangeiras, enquanto as outras, a formação era voltada unicamente para o trabalho doméstico. A partir daí, surgem vários outros estabelecimentos de ensino.

Nestes estabelecimentos, as matérias de ensino eram primeiras letras, prendas próprias do sexo feminino como propósito de formar “boas mães de família e eficientes donas de casa, proporcionando-lhes, ao mesmo tempo, o conhecimento e a prática de artes para o encanto da vida social”, o colégio, em Itajubá, acrescentava latim e francês ao seu currículo. O ensino particular não só dava a instrução elementar nos colégios, como a completavam com os requintes de uma boa educação e de um ensino destinado a integrar a mulher à vida social, pois com o surgimento das cidades, a presença da mulher tornou-se importante na vida pública, daí a necessidade de um comportamento recatado e gentil.

Verifica-se no Oeste de Minas Gerais até 1937, uma ação educacional por parte do Bispado na construção de escolas, principalmente, com o número considerável de Congregações que vieram para a região: 7 congregações masculinas e 5 congregações femininas, que instalaram colégios em regime de internato/externato para atender a elite local. Este considerável índice de Congregações torna-se significativo para compreendermos a ação educacional da Igreja naquele momento republicano.
ORDENS E CONGREGAÇÕES RELIGIOSAS FEMININAS



Congregação


Estabelecimento

1. Irmãs Dominicanas

Estabelecidas, em Uberaba, 1885. Fundaram o colégio de N. Sra. Das Dores.

2. Irmãs do S. Coração de Maria (de Berlaar, Bélgica)

Dirigem na Diocese dois importantes colégios: Colégio Sagrado Coração de Jesus em Araguari, fundado em 1919, e o Colégio N. Sra. Do Patrocínio, fundado em 1929.

3. Irmãs de Jesus, Maria José

Dirigem em Uberaba o Asilo Sto. Antônio desde 1914

4. Irmãs Mmissionárias de Jesus Crucificado

Estabelecidas em Uberlândia desde 1933, com o Colégio N. Sra. das Lágrimas, e em Araxá o orfanato, em 1937.

5. Irmãs Missionárias de N. Sra. Das Dores

Hospital em Patos e o Colégio de S. José em Ibiá.

Tabela 1: Número de Ordens e Congregações Femininas – Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba até 1937. Fonte: A Igreja em Uberaba- NABUT, 1986, p.72
Tais congregações trouxeram os reflexos das mudanças sociais que se desencadearam na Europa e são caracterizadas pelos constantes ministérios voltados para a vida social, como saúde e educação. Então, verificamos que a educação feminina, igualmente, recebeu importante atenção com a vinda dessas Congregações Religiosas Femininas. A seguir, a tabela com o número de Congregações.

A inserção feminina na educação formal, tanto em Goiàs como em Minas Gerais, foram conseqüências das necessidades urbanas daquele período. Neste caso, as Escolas Normais foram importantes instituições com este fim. Em Goiás ela se consolidou apenas no século XX. A entrada da mulher para a Escola Normal também está estritamente ligada à demanda do curso primário, devido ao esforço pela democratização da cultura e pela preocupação com o alto índice de analfabetismo da população. A feminização do magistério primário no Brasil aconteceu somente no século XX, enquanto na Europa o século XIX já era palco deste processo. Todavia, esta realidade tornou-se possível devido à laicidade do ensino com a entrada das meninas para a escola.




  1. Considerações Finais

Ao verificarmos a trajetória da mulher na sociedade mineira e goiana, constatamos a sua presença na formação primária como primeira conquista do seu reconhecimento social e profissional. E, ao mesmo tempo, entendemos as origens da feminização do ensino primário no Brasil, como também, compreendemos que as instituições confessionais privadas foram importantes para que a professora primária recebesse sua formação.Esta feminização do magistério primário aconteceu pelo fato da docência ser considerada uma continuidade do lar.

Todo o imaginário criado sobre a mulher também foi para dentro das escolas, percebem-se as discriminações sofridas pelas mulheres, dentro do espaço escolar, pois o cargo de chefia, sempre destinado aos homens, era direcionado por inspetores que nem sempre respeitavam a figura feminina e ainda existia o problema quanto ao local de trabalho, onde as professoras

sempre dóceis e dedicadas, eram enviadas aos piores lugares, às escolas mais distantes, onde eram maltratadas pelos “colonos ignorantes” e detestadas pelos pais dos alunos que não os queriam na escola por necessitar do seu trabalho na lavoura (ALMEIDA, 1998, p. 140).


As camadas sociais médias e dominantes não aceitaram com naturalidade que suas filhas exercessem a profissão de professoras, só em casos extremos, devido a condições financeiras, ou falta de casamento, procuravam a profissão, que mesmo assim, era considerada uma vergonha para a família, daí a procura pelas instituições católicas. No entanto, para outras famílias, a profissão era um meio de aumentar a renda familiar.

As mulheres atendiam às condições profissionais exigidas para o magistério primário, que até então era direcionado para homens. O magistério, comparado à maternidade, tinha na figura da sua representação a mulher, pois, era responsável pela educação dos filhos, sendo pessoa mais apropriada para ensinar, ao agir com brandura, amor e compreensão com os seus alunos. Vale ressaltar que o contexto de Minas Gerais e Goiás reclamaram a educação feminina, como parte do discurso dominante do que estava acontecendo a nível nacional.

Diante dos desafios e obstáculos colocados sobre a profissionalização da mulher do magistério primário, há uma série de estudos que apontam para importância do papel social exercido pela mulher na primeira república.

Referências Bibliográficas

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1 Vale ressaltar que neste período o oeste de Minas (Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba) pertencia à diocese de Goiás, sendo separado somente em 1896, com a criação da Diocese de Uberaba.




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