A formaçÃo do ‘total trabalhador sadia’ – estratégias de qualificaçÃo de trabalhadores



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A FORMAÇÃO DO ‘TOTAL TRABALHADOR SADIA’ –

ESTRATÉGIAS DE QUALIFICAÇÃO DE TRABALHADORES

EM UMA EMPRESA AGROINDUSTRIAL

Dulcinéia Cruz (UNOESC)

Lucídio Bianchetti

1. Situando o contexto e a problemática de pesquisa

Através deste trabalho trazemos a público parte do processo e dos resultados de uma pesquisa realizada no interior de uma empresa agroindustrial1 - Sadia S.A. - localizada no oeste de Santa Catarina. Por meio desta pesquisa objetivamos discutir as estratégias de qualificação da força de trabalho implantadas por essa empresa, na busca de adequar-se aos novos desafios relacionados às suas necessidades de manter-se competitiva num mercado crescentemente globalizado. Dessa forma, esta empresa forneceu a base empírica a fim de que pudéssemos verificar como as transformações tecnológicas e de gerenciamento mais gerais e as estratégias de qualificação requeridas aos trabalhadores se manifestam neste(s) setor(es) particular(es), bem como suas repercussões e desafios para a educação.

A agroindústria Sadia S.A.2 desempenha um importante papel na economia e na política dessa região, num conjunto de atividades diretas e indiretas que tem na industrialização de carnes a sua manifestação mais visível. Falamos em mais visível uma vez que da lavoura dos agricultores integrados3 até o desenvolvimento de estratégias comerciais e de exportação a empresa está presente, formando um todo orgânico. Sua relevância no setor agroindustrial está centrada na capacidade de produção, na competitividade e na tecnologia empregada. Entretanto, a crise do modelo de produção taylorista/fordista registrada nos anos 70 e 80 do século XX (Harvey, 1993; Gounet, 1999) na sociedade capitalista também desafiou a agroindústria a buscar novos métodos de produção e estratégias para aumentar a produtividade e manter a competitividade. Nesta perspectiva a empresa, em particular, corporifica perfeitamente aquilo que Ianni (1992, p. 47) afirma a respeito do modo de produção capitalista em geral:

O capital dissolve, recobre ou recria formas de vida e trabalho, de ser e pensar, em âmbito local, regional, nacional e internacional. Simboliza uma espécie de revolução burguesa permanente, ainda que desigual e contraditória, progressiva e regressiva, democrática e autoritária.


Com o desafio de manter-se no mercado, de um lado e de outro com as possibilidades criadas a partir do desenvolvimento da automação tecnológica e informacional, as empresas, de modo geral, foram impelidas a contarem com as condições de investir na modernização do parque de máquinas, na qualificação dos trabalhadores e em novas formas de gestão para acompanhar as nuanças das políticas de mercado e da globalização econômica4. Seguindo essas tendências e buscando ser coetâneos ao seu tempo, os dirigentes da empresa encaminharam um processo de reestruturação produtiva, gerencial e organizacional ainda no início da década de 1990, e a Unidade de Chapecó – SC foi escolhida como piloto.5

As novas normas internacionais instituídas para a produção e comercialização dos produtos – com destaque para as diversas ISOs (International Standard Organization) - também desafiam as empresas a acompanhar as inovações (Campos, 1992). A exigência de qualidade imposta pelo mercado impulsionou os empresários da Sadia a adotar a normatização e padronização de produtos e processos. A implementação da Total Qualidade Sadia6 efetivou-se a partir da contratação de assessorias brasileiras e japonesas e a reorganização gerencial da empresa contou com consultoria da empresa norte-americana McKinsey.

Além disso, a introdução de novas tecnologias de base microeletrônica tem sido fundamental nesse processo de mudanças. Por elas estarem na base e possibilitarem o desenvolvimento de uma produção flexível em grande quantidade e qualidade, há uma significativa redução do número de trabalhadores, maior integração das funções na produção e mudanças nos processos de trabalho. Como resultado, verifica-se a constante elevação da produtividade industrial.7

Contudo, esses ganhos de produtividade não representam necessariamente a superação da crise sistêmica. A grande competitividade leva as empresas a investirem cada vez mais recursos financeiros em máquinas e equipamentos. Isso muda substancialmente a composição orgânica do capital pela crescente participação do capital constante em detrimento do capital variável. Assim, como afirma Marx (1996, p.234), o capital constante “não muda a magnitude do seu valor no processo de produção”, ao contrário, o capital variável, entendido por força de trabalho, “muda de valor no processo de produção, reproduz o próprio equivalente e, além disso, proporciona um excedente, a mais-valia”. Esta contradição leva a uma tendência de queda na taxa média de lucro, gerando novas crises de acumulação.

As mudanças no sistema produtivo têm contribuído para um redimensionamento das relações capital/trabalho sem alterar, contudo, a lógica da acumulação capitalista, levando a transformações superficiais, meramente aparentes (Harvey, 1993). Nesse processo visualiza-se um aprofundamento do grau de exploração dos trabalhadores, uma crescente extinção de postos de trabalho, bem como a demanda por novas qualificações. Na empresa Sadia, especificamente, esse processo se revela assustador.8

A modernização tecnológica e a reestruturação do processo produtivo contribuem para a alteração do perfil profissional desejado para o trabalho. Aumentam as exigências de qualificação profissional, sobretudo a formação de uma base educacional. Entre outros requisitos, além da escolaridade básica, o trabalhador precisa apresentar9 “capacidade de adaptação a novas situações, compreensão global de um conjunto de tarefas e funções conexas, o que demanda capacidade de abstração e de seleção, trato e interpretação de informações” (Machado, 1998, p.15). Esses requisitos vão contribuir para uma suposta polivalência e flexibilidade do trabalhador, atributos considerados indispensáveis da chamada empregabilidade10, esta entendida como capacidade de manter-se em um mercado de trabalho em constante mutação.

Essa caracterização do novo perfil de trabalhador supostamente exigido pelos empresários diante das mudanças já mencionadas, no caso da Sadia por nós investigado, ganha nuanças diferenciadas. Enquanto nos documentos da empresa verificamos questões como:

O domínio de um ofício ou de uma técnica, hoje não garante emprego. Atualmente o perfil do empregado inclui a capacidade de “aprender a aprender”, que só pode ser adquirida por intermédio da educação básica geral (Integração n. 153, 1997 p.6),


nos depoimentos registramos falas no seguinte sentido:

A instrução formal vai ajudar na parte de conhecimentos e toda essa parte de deixar a pessoa mais perceptiva, por mais que ela tenha condições de entender o processo dela ou entender os treinamentos que ela participa, que por exemplo nós temos um treinamento de trabalho em equipe que a gente precisa que as pessoas saibam ler, que as pessoas tenham uma facilidade de análise, tenham dinâmica que você faz a dinâmica depois você tem que analisar o porquê daquilo. A escola, uma instituição formal de 1º grau pelo menos, ajuda nessa parte da pessoa estar entendendo. Em primeiro lugar para poder participar. Em segundo lugar ela vai ser mais ágil, vai conseguir captar a coisa, conseguir entender e a gente não conseguia colocar uma pessoa na sala de aula antes (Chefe de RH).


Na prática a escolarização básica restringe-se a dar suporte para o desenvolvimento dos treinamentos, torna-se funcional e vem ao encontro daquilo que é desejado pelos empresários e preconizado pelos principais mentores/gurus das mudanças requeridas às empresas, com destaque para P. Drucker, A. Toffler e P. Senge, como se pode verificar em Bianchetti (1999). No bojo dessas mudanças, a partir de meados da década de 1990, a escolaridade básica passou a compor o novo perfil cognitivo do "Trabalhador Sadia". E é justamente sobre a implementação e gestão desse processo educativo instaurado no interior da empresa que procuramos nos aprofundar.
2. Políticas de qualificação dos trabalhadores da Sadia - Chapecó
Visando, cada vez mais, integrar a empresa ao novo modelo de organização e gerenciamento da produção para atender as especificidades do mercado e aumentar a competitividade, os últimos anos demarcaram mudanças estratégicas na política de gerenciamento da força de trabalho implementada pelos dirigentes da Sadia. A empresa desencadeou uma mobilização visando “conquistar” os operários para o alcance de seus objetivos: produzir mais, com qualidade, em menor tempo e com menos custos. Dessa forma, os trabalhadores precisariam ter um maior grau de escolaridade para acompanhar os treinamentos e a implementação de uma nova dinâmica na produção. De acordo com a nova política os operários deveriam retomar os estudos, já que, no ano de 1993, cerca de 60% dos trabalhadores da produção não contavam com o ensino fundamental completo e parcela significativa era analfabeta. Objetivando ter todos os trabalhadores com o ensino fundamental concluído até o ano de 200111, o processo de escolarização formal destes passa a ser desencadeado na “Escola da Sadia” – Unidade de Chapecó ainda no ano de 1993.

Diante das novas necessidades da produção, a discussão sobre a viabilização da escolaridade básica à massa de trabalhadores tornou-se central no contexto das políticas públicas. O discurso empresarial também passou a voltar-se à defesa da escolaridade básica a todo cidadão, assumindo uma postura propositiva na redefinição da estrutura e funcionamento das redes de educação pública e privada (Cordiolli apud Carvalho, 1999).

Desse modo, a urgência em obter resultados na qualificação dos trabalhadores impulsiona os empresários, num primeiro momento, a assumirem diretamente o processo de escolarização. No caso Sadia, essa atitude culminou num fortalecimento da filosofia de trabalho da empresa, provocando um encurtamento do espaço/tempo necessário à implementação de novas estratégias qualificacionais.

A iniciativa de criação da “Escola da Sadia” em Chapecó, em 1993, foi uma das estratégias utilizadas para a qualificação dos trabalhadores. Conforme depoimento da Coordenadora da escola, os operadores de produção, principalmente, precisariam estar respondendo aos novos desafios das auditorias na fábrica, aperfeiçoando a comunicação e desenvolvendo um maior grau de compreensão do processo como um todo. Tendo em vista estas necessidades, a centralização da escolarização dos trabalhadores na própria empresa favoreceu a aceleração do cumprimento das metas.

A viabilização da escolarização dos trabalhadores na própria empresa teve como objetivo principal ‘estimular’ os trabalhadores a retomar a escolarização formal de modo a facilitar o acompanhamento das mudanças produtivas, organizacionais e gerenciais em implementação. Todavia, esse estímulo inicial transformou-se em obrigatoriedade na medida em que se instituiu a meta de ter todos os trabalhadores com o ensino fundamental completo até o ano de 2001.

Esta escola está vinculada administrativamente ao setor de recursos humanos, porém não possui ‘autonomia’ enquanto instituição de ensino. É coordenada por uma funcionária da Sadia (pedagoga e analista de sistemas) que cumpre a função de integradora entre a empresa e as instituições conveniadas. Nesta escola são desenvolvidos o ensino fundamental e o médio na modalidade supletiva.

O ensino fundamental e médio funciona por meio de convênios com a Secretaria Municipal de Educação (Totalidades - alfabetização e pós-alfabetização), Secretaria Estadual de Educação, através do Centro de Educação de Adultos (ensino fundamental e médio) e Fundação Bradesco (ensino fundamental e médio). As propostas pedagógicas dos diferentes convênios são independentes. Cada qual estabelece formas de trabalho diferenciadas e, muitas vezes, conflitantes entre si, como veremos adiante.

Os professores estão vinculados às instituições conveniadas (SME/Chapecó e, SEE/SC) seguindo as orientações pedagógicas (conteúdos programáticos, metodologia de ensino, avaliação), porém estão ligados intrinsecamente à organização da empresa (horário de trabalho conforme as trocas de turno na empresa, normas da escola, observação das metas de escolarização, controle rígido da freqüência e, especialmente, adesão e concordância às diretrizes de formação do “Total Trabalhador Sadia”). Os trabalhadores, por sua vez, estudam fora do período da jornada de trabalho, que na maioria dos casos ultrapassa as oito horas diárias, representando uma extensão da jornada de trabalho.

Esse processo de escolarização, contudo, acontece em meio e num misto de conflitos, resistências e adesões por parte dos trabalhadores (e da parte de alguns professores também!). A grande maioria dos operadores de produção entrevistados percebem a escolarização como obrigatoriedade; porém, concomitantemente, a compreendem e a expressam como necessidade para manterem-se no emprego.

Por outro lado, conforme depoimento da Chefe de RH, os investimentos na instrução formal dos trabalhadores (criando até mesmo uma escola dentro da empresa) estão acontecendo porque, com as mudanças tecnológicas, as pessoas precisam ter conhecimento, capacidade de estar se desenvolvendo, de estar aprendendo coisas novas. Assim, aumenta a produtividade, a criatividade, e as pessoas participam mais. É muito mais fácil de lidar com as pessoas, de conversar, de compreender, além de elas se sentirem mais importantes.

Observa-se que a escolarização dos trabalhadores torna-se condição para a implementação das mudanças estruturais da empresa. Assim, é necessário que o trabalhador desenvolva as habilidades ou “instrumentais” básicos como ler, escrever e interpretar para acompanhar a formação requerida pela empresa. Todavia, este processo educativo fragiliza-se na medida em que condiciona a participação dos trabalhadores à manutenção do emprego.

A mobilização dos trabalhadores dá-se predominantemente em função da compulsoriedade de continuar produzindo a sua existência. A formação do “Total Trabalhador Sadia”, um trabalhador completamente voltado e devotado aos interesses da empresa e à apropriação de espaços e recursos públicos para o proveito privado, são dois dos aspectos criticados, paralelamente à percepção de que, embora tudo o que se pode questionar, a compulsoriedade de os trabalhadores terem que estudar, no limite os recoloca em contato com a escolarização formal, aspecto que só não é mais favorável ao trabalhador pelo fato de os objetivos primeiros dessa iniciativa se coadunarem e se sujeitarem inteiramente aos objetivos da empresa.


3. O processo de construção do “Total Trabalhador Sadia”: teoria e prática em (des)encontro
Objetivando uma melhor compreensão das nuanças na formação dos trabalhadores desenvolvida pela “Escola da Sadia”, analisamos as propostas pedagógicas das diferentes instituições conveniadas (SME/Chapecó CEA/SEE/SC e Fundação Bradesco) e constatamos distintas concepções norteando o processo de escolarização dos trabalhadores. Da mesma forma que nos discursos explicitados nos documentos da empresa, muitos são os desencontros evidenciados na prática pedagógica que acabam caracterizando uma formação ‘fatiada’ ou fragmentada desses alunos.

Um dos principais aspectos observados nas propostas pedagógicas das instituições conveniadas diz respeito às preocupações dos responsáveis em adequar-se às características dos alunos-trabalhadores que freqüentam essa escola; na medida em que foram excluídos ou estão impedidos de participar do processo de educação formal regular (em razão da idade e/ou dos horários de trabalho), todos eles enquadram-se na modalidade de educação de adultos - ensino supletivo. A flexibilização da carga horária (quatro horas semanais) para as quatro primeiras séries do ensino fundamental e a possibilidade de o aluno organizar os próprios horários de estudo extra classe, permite ‘conciliar’ trabalho, estudo e outras atividades. Com isso, a responsabilidade recai novamente sobre o trabalhador, que precisar dar conta da sua formação individualmente e em condições precárias.

É evidente que a implementação do ensino supletivo na empresa significou a possibilidade de superação de uma situação emergencial que é alcançar a meta de escolarização estabelecida pela diretoria executiva mesmo que, em alguns casos, isso signifique apenas titulação. Essa iniciativa justifica-se por um período de tempo, justamente porque a modalidade de ensino supletivo permite acelerar a educação dos trabalhadores e responder pela demanda qualificacional do momento. Contudo, não se evidenciam intenções por parte dos empresários em manter a escola após atingida a meta; pelo contrário, argumenta-se em torno da sua extinção.

Percebe-se que esta consciência não está presente na categoria dos trabalhadores, os quais tantas vezes se sentem auto-responsáveis pela incapacidade ou incompetência em garantir a própria formação no tempo adequado. Já os empresários demonstram ter consciência dessa emergencialidade, tanto é que criaram a escola no mesmo período em que precisavam se adequar às normas da ISO 9001 e garantir a certificação.

Através da “Escola da Sadia” pretende-se a formação do trabalhador - genericamente falando -, em que aspirações como cidadania, participação e integração são enfatizadas. Porém, na análise das práticas pedagógicas percebemos a diversidade ideológica das propostas de cada instituição, revelando que tais aspirações assumem significados distintos conforme o contexto em que estão inseridas. Por exemplo, a cidadania defendida pela proposta da prefeitura (cidadania plena, de conquista de direitos – administração petista) difere radicalmente da pretendida pelos mentores da proposta da Fundação Bradesco (cidadania voltada para a competitividade).

O ‘fatiamento’ na formação dos trabalhadores inicia-se com a diferenciação das instituições responsáveis pelos níveis de ensino, passando pelas distintas propostas e pelas práticas de atuação no mesmo espaço - a “Escola da Sadia”. À medida que cada instituição desenvolver um processo educativo independente, também os alunos terão uma formação em etapas sobrepostas e desarticuladas. Entretanto, nas suas diferenças constitutivas as três instituições convergem para a formação do ‘Total Trabalhador Sadia’,12 ou seja, o trabalhador que corresponde às necessidades e dinamismo requeridos pela nova organização da empresa.

Diante do exposto, perguntamos: será que instituições tão diversas e divergentes em seus interesses seriam efetivamente capazes de formar um homem-trabalhador omnilateral, conforme a concepção marxiana?

Nos documentos e nos depoimentos dos responsáveis pelo convênio com a Prefeitura, a educação é apresentada numa perspectiva popular e tem como proposta curricular o estudo de conteúdos que envolvam a realidade sócio-política, econômica e cultural do trabalhador. Efetivamente os conteúdos nem sempre sofrem uma predeterminação frontal e acintosa e, na definição das redes temáticas, levam-se em conta as falas significativas que expressam as contradições e as vivências dos alunos-trabalhadores. No entanto, e mais adiante veremos isto, o caminho da teoria à prática evidencia-se como uma passagem bloqueada.

Conforme depoimento das professoras, são trabalhados assuntos da realidade (tema gerador – Paulo Freire),13 mas enfatizados os conteúdos mínimos necessários para o acompanhamento da etapa seguinte, que é o ensino individualizado. Contudo a proibição ou o escamotemento das polêmicas que necessariamente se estabelecem a partir de temáticas envolvendo contradições do sistema capitalista e a situação de exploração vivida pelos trabalhadores, definem a incompatibilidade de intenções e práticas dos projetos de educação por parte da empresa e da Prefeitura. No entanto, é impressionante perceber que, por uma estranha alquimia, concilia-se o irreconciliável: os professores continuam ‘ensinando’; os alunos continuam ‘aprendendo’ e a empresa, ‘gatopardescamente’ falando (Lampedusa), continua ‘mudando’ para que tudo fique como bem lhes interessa!

De acordo com a proposta teórico-metodológica do Centro de Educação de Adultos (CEA) - rede estadual de ensino, administração PPB -, explicitada no Projeto Político-Pedagógico, todo o processo de ensino-aprendizagem é direcionado para o estudo individualizado. O professor tem como atribuição orientar o processo pedagógico e o aluno-trabalhador tem a responsabilidade de estudar sozinho, buscando meios para superar as dificuldades e avançar no processo. Os conteúdos estudados estão distribuídos em módulos (apostilas) e organizados de modo a direcionar o estudo individualizado, ou seja, são acompanhados de exercícios, resumos, atividades de fixação, entre outros. A interação professor-aluno acontece em um encontro semanal, mediada pelo estudo prévio do módulo. Normalmente o aluno busca explicações do conteúdo antes de fazer a prova.

Efetivamente, a proposta curricular do CEA/SC estabelece uma relação de educação compensatória. Os conteúdos são os mesmos do ensino regular e praticamente não são respeitadas as especificidades de uma demanda composta por trabalhadores que, na maioria dos casos, há muito deixou de estudar. Nesta perspectiva, nem sempre o trabalhador consegue fazer relações entre os assuntos estudados, o que dificulta a compreensão deles. Somado a isso está o acelerado ritmo de estudos do trabalhador. Condicionados pela meta estabelecida na empresa, que é condição para permanência no emprego, os trabalhadores normalmente estão sujeitos a uma dinâmica de escolarização em que o processo de aprendizagem é atropelado. Os trabalhadores cursam o Ensino Fundamental, em média, no período de um ano e meio. Esse dado, de certa forma, explica e justifica a angústia vivenciada por eles, já que a pressão (por parte das chefias, por professores, coordenação) para concluir essa etapa é intensa. Diante disso, os trabalhadores ficam sem opção, pois 'o ato de estudar' transforma-se numa condição para barganhar a permanência no emprego e não uma busca para a realização pessoal, na perspectiva individual e na radicalização da cidadania, na perspectiva coletiva.

Diferentemente da proposta do CEA, a Fundação Bradesco apresenta proposições objetivas e práticas relacionadas ao mundo do trabalho no qual está inserido o aluno, abordando assuntos que supostamente ele irá aproveitar no trabalho. Os conteúdos também estão organizados em módulos, e como metodologia são utilizadas fitas de vídeo contendo as aulas do Telecurso 2000 - Fundação Roberto Marinho. Ao optar por esta modalidade de ensino supletivo o aluno precisa destinar uma hora diária de estudo presencial para o ensino fundamental e duas horas para o ensino médio. O monitor organiza a reprodução da aula gravada e propõe atividades de fixação que são realizadas paralelamente ao estudo do assunto. Conforme entrevista com a monitora da Fundação no teleposto da Sadia, é sua função pensar dinâmicas que tornem o estudo estimulante e participativo para que os alunos se mantenham acordados, porque a maioria vai para a escola muito cansada.

Ao compreendermos os objetivos de tal programa de educação (cf. Carvalho, 1999) constatamos que os interesses da empresa Sadia estariam sendo contemplados, visto que a proposta em si foi constituída e conformada aos interesses da classe empresarial. Contudo, o controle e interferência dos dirigentes da empresa estabelecidos sobre a vida escolar do aluno-trabalhador da Fundação Bradesco é maior porque esse programa funciona dentro da empresa (junto à produção), ao passo que os demais programas funcionam na escola (a cerca de 300 metros da empresa).14 Esse fato acirra ainda mais as contradições de um processo educacional desenvolvido sob os auspícios do capital.

Essa forma de organização do processo educativo visa baratear ao máximo a formação profissional e garantir lucros líquidos e certos advindos dos títulos e prêmios (ISO) obtidos, também, por meio de uma escolarização feita por encomenda. Esta postura pragmática assumida pelos empresários é questionada por Machado (1995) ao denominar a nova proposta e prática formativa do capital de pedagogia just-in-time, ou seja, uma pedagogia caracterizada pela transferência direta dos conhecimentos vinculados à formação para o processo produtivo. Da mesma forma, Gentili (1995) critica a "mcdonaldização do conhecimento escolar" através da pedagogia fast food que os empresários procuram implementar por meio da escola. Assim, é de se perguntar se pode essa perspectiva de formação ser associada à cidadania quando efetivamente o que se busca é uma formação pragmática e utilitaristamente voltada para os interesses da empresa.

Diante de três direcionamentos curriculares tão distintos observa-se que a 'qualificação' desses alunos acontece em forma de degraus. Sobrepondo conhecimentos trabalhados sob diferentes prismas, o aluno dificilmente irá situar as nuanças ideológicas que perpassam o processo. Entretanto, para os dirigentes o que interessa é o resultado final: a obtenção do certificado de conclusão do ensino fundamental ou médio após alguns anos de estudo.

O explícito controle efetivado por parte da empresa sobre o processo de escolarização gera uma tensão muito grande entre os trabalhadores porque, além de a maioria voltar a estudar por sentir-se pressionada, estão sujeitos a um acúmulo de atividades. Esses aspectos, somados às “mudanças nas relações de trabalho, instauram o modo de ser do trabalhador” (Rosa, 1994, p. 155), que diante das pressões sente a sua subjetividade sendo invadida e as imposições das novas relações o obrigam a tomar atitudes, muitas vezes indesejadas, para não perder o emprego. A retomada dos estudos depois de vários anos, por exemplo, na maioria dos casos vem modificar profundamente a lógica de vida organizada por estes trabalhadores. Os depoimentos apontam para a insegurança de quem está entrando num terreno íngreme, condicionando o trabalhador a um encolhimento ou a uma descrença na própria capacidade de acompanhar o processo. Assim, expressões como ‘estou velho demais’, ‘não entra nada na cabeça’, denotam insegurança e baixa auto-estima.

Em virtude disso, muitas são as formas de resistência manifestadas pelos trabalhadores. Nas palavras de um operador, “tem gente que marca a presença e vai embora ou fazem a prova no chute, passam as questões da prova ou colam”. Já os professores relatam que são assediados de inúmeras formas para dizer ‘o que cai na prova’, porque a preocupação maior é com a nota. É ela que condiciona o avanço ou permanência no processo.

Nesse contexto percebe-se uma subserviência da maioria das professoras às determinações dos dirigentes da empresa, condição também para elas de manter-se na “Escola da Sadia”. Tendo como determinante o fato de a escola estar sob a égide da empresa, tudo vai sendo adaptado conforme a sua lógica e às metas de produtividade estabelecidas. Se o professor for muito exigente (no sentido de repetir muitas vezes a mesma prova), o aluno demora mais para concluir e o professor pode ser considerado ineficiente e, no caso específico do CEA, não permanecer na escola no ano seguinte. Nessa lógica de adaptação ao esquema da empresa, o depoimento da monitora da Fundação Bradesco é significativo:

Às vezes a gente até é convidado pra algum treinamento, mas a gente vai, participa porque está dentro da empresa, integrado e é bom saber o que acontece, os alunos estão envolvidos nisso tudo. Então, você querendo ou não acaba fazendo parte da família Sadia, de uma forma ou de outra você está o dia todo aí engajado (grifo nosso).
Diante dessa discussão, questionamos: qual o significado do processo de escolarização para esses alunos-trabalhadores? O que eles realmente aprendem? Esse tipo de ensino prepara o trabalhador para quê? Que diferença faz a escola ser pública (estadual, municipal), se o funcionamento é orgânico à empresa?


4. Considerações finais

Na “Escola da Sadia”, o essencial para a manutenção dos interesses empresariais é garantido. Há a segurança de que SME, CEA e Fundação Bradesco estão agindo em uníssono (com pequenas dissonâncias perfeitamente assimiláveis) para a formação do “Total Trabalhador Sadia”. O próprio trabalho desenvolvido pelos profissionais da escola, mesmo que às vezes implicitamente, acaba sendo plasmado pelas diretrizes gerenciais da empresa.

Para os empresários da Sadia, o objetivo central do processo de escolarização dos trabalhadores vincula-se às necessidades organizacionais para garantir a competitividade, e parece não interessar muito a qualidade da formação via escola. Interessa sim que os alunos sejam instrumentalizados para dar continuidade ao projeto de modernização da empresa via treinamentos. E, nesta perspectiva, a empresa não é exceção. Embora falando em educação, qualificação, a preocupação precípua dos empresários é garantir uma formação, independentemente da adjetivação que se possa apor a esta palavra, pois o importante é que venha ao encontro dos seus interesses, como também pôde observar Bianchetti (1998) num estudo de caso sobre uma empresa de telecomunicações.

Neste contexto, falar em participação não passa de um eufemismo, uma vez que se sabe que há predeterminações no ponto de partida, no processo e no ponto de chegada. A filosofia social da empresa influi diretamente sobre o alcance de uma 'participação imposta', que determina o engajamento dos trabalhadores em atividades e programas considerados indispensáveis ao cumprimento das metas (Amann, 1980).

A participação dos trabalhadores no processo de escolarização pode ser caracterizada como uma participação compulsória, uma vez que antes de tudo está em jogo a garantia da produção da sua existência, na perspectiva que apontam Marx e Engels (1987) ao explicitarem os pressupostos para os homens fazerem história. Tomado como um ato obrigatório, a despeito da concordância (e necessidade!) dos trabalhadores, a busca pelo conhecimento escolar transforma-se num sacrifício. Os alunos demonstram preocupação constante em livrar-se do enfadonho compromisso com a escola, fato que colide com o hegemônico discurso da sua importância defendida pelos dirigentes e por uma determinada literatura da área. Conforme descreve um trabalhador do segundo turno15: "Chegar meia-noite e meia em casa e às 10h já ter que estar na escola e tocar direto de novo até meia-noite, é muito puxado". Aqui os dirigentes parecem contar com a adesão/subsunsão completa dos trabalhadores, como se a vida destes se resumisse, se justificasse e ganhasse sentido na dedicação exclusiva à empresa. Face à conjuntura que move as relações capitalistas de produção contemporâneas, os trabalhadores são praticamente levados a abdicar das demais esferas da sua existência e de outras relações como sujeitos sociais.

Assim como os empresários da Sadia utilizaram-se do Estado para investir e desenvolver esta agroindústria,16 mais uma vez utilizam-no para escolarizar o quadro de trabalhadores. O espaço público novamente é apropriado privadamente. Os convênios da Prefeitura e do Estado atendem uma demanda específica da empresa e no seu espaço físico. Como formar um cidadão crítico e participativo nesse contexto?

Enquanto os convênios estiverem sendo mantidos, o tipo-ideal do “Total Trabalhador Sadia” estará sendo formado, embora haja dúvidas quanto à continuidade da vigência dos convênios após 2001. A postura pragmática e utilitarista dos empresários com relação aos convênios e ao processo de escolarização revela ser esta uma preocupação meramente pontual e emergencial. É de se questionar se quando a necessidade da empresa for suprida os seus dirigentes continuarão mantendo a escola.

Apesar de todo esse processo conturbado, a escolarização, mesmo capenga, ainda é uma forma de o trabalhador diminuir as chances de ser excluído do mercado de trabalho e também continua sendo, com todas as suas limitações, um espaço de acesso ao conhecimento. Contudo, acreditamos que todo o avanço científico-tecnológico melhorará a qualidade de vida de todos os homens quando essas conquistas, que são coletivas, forem plenamente socializadas. Enquanto qualificação significar instrumentalização, adequação, os trabalhadores continuarão reduzidos a relações meramente mercadológicas, e longe estaremos da conquista da cidadania plena, da igualdade de direitos e da construção de novas relações sociais e produtivas que extrapolem os estreitos e seletivos horizontes da lógica do capital.

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SHIROMA, E. Educação profissional e profissionalização de educadores. Rev. Perspectiva. Florianópolis, NUP/CED/UFSC, a. 18, n. 33, p. 77-92, jan./jun. 2000

________. A formação do trabalhador disciplinado. In: FIDALGO, Fernando S. (Org.). Gestão do trabalho e formação do trabalhador. Belo Horizonte: MCM, 1996





1 Esta empresa é um típico exemplo de como a tentativa de dividir a economia em setores, como ocorria até recentemente – primário, secundário e terciário - não consegue dar conta ou explicar a dinamicidade e a fluidez inter e intra-setores que caracterizam o mundo da produção no predomínio do chamado paradigma da integração e flexibilidade. As fronteiras entre os setores perderam a definição, cedendo espaço à fluidez (Deluiz, 1994; Oliveira, s.d.). Ela atua concomitantemente nos setores agropecuário, industrial, comercial e de serviços, tendo nas novas tecnologias da informação e da comunicação um poderoso suporte e meio (Bianchetti, 1998). Esta complexidade, juntamente com outros aspectos que analisaremos, ajuda a compreender a preocupação da empresa em criar a “Escola Sadia” e exigir que os seus trabalhadores ‘se qualifiquem’.

2 Fundada em 1944, no município de Concórdia, oeste de SC, a Sadia S.A. teve como sócio majoritário o empresário Atílio Fontana e inicialmente contava com um frigorífico e um moinho. Hoje, a Sadia lidera o mercado nacional na produção, abate e industrialização de suínos, frangos, perus e destaca-se como uma das maiores exportadoras de proteína animal do mundo.

3 Os agricultores integrados estabelecem uma relação de exclusividade com a empresa para a criação de aves ou suínos. A empresa fornece as aves/suínos recém-nascidos e a ração necessária para criá-los. Os agricultores, por sua vez, entram com a estrutura física, equipamentos e mão-de-obra. Nesse caso os agricultores não possuem qualquer vínculo empregatício com a empresa.

4 De nossa parte temos presente que a globalização à qual está se fazendo referência nada tem a ver com aquela que Milton Santos (2000) propõe num dos seus mais recentes livros.

5Instalada em 1973, a Sadia SA – unidade de Chapecó é responsável pela criação, industrialização de aves e fabricação de rações. Atualmente responde por mais de 90% da produção nacional de perus e a fábrica de rações está classificada como a maior em capacidade de produção da América Latina.

6A “Total Qualidade Sadia” envolve a gestão participativa, os Círculos de Controle de Qualidade (CCQs), reuniões, treinamentos que objetivam integrar o trabalhador à produção e aproveitar o seu conhecimento tácito para melhorar os processos e acompanhar as constantes inovações exigidas pelo novo paradigma produtivo.

7O processo de modernização tecnológica na Sadia – Chapecó, conforme trabalhadores entrevistados, significou a redução de mais de 50% da força de trabalho empregada e aumentou consideravelmente a produtividade.

8Além da superexploração do trabalho, a perda de direitos sociais e trabalhistas, muitos trabalhadores lesionados pelo trabalho são demitidos e praticamente não há resistência organizada. Os dirigentes sindicais da categoria adotam políticas de total atrelamento aos interesses da empresa. As decorrências dessa situação a que estão submetidos os trabalhadores podem ser visualizadas em Antunes (1995 e 2000), Codo (1992 e 1999) e Maslach & Leiter (1999).

9 Descrição e análise detalhada das novas exigências qualificacionais ao trabalhador é feita também, entre outros, por Ferretti (1993).

10 Para maiores detalhes cf. a coletânea “Empregabilidade e Educação. Novos caminhos no mundo do trabalho”, organizada por Alípio Casali et al, e o artigo de Shiroma (2000).

11 Os dados apresentados são de 1993, ano em que foi feito um diagnóstico do nível de escolaridade dos trabalhadores e entrou em funcionamento a “Escola da Sadia”. As metas traçadas pela diretoria executiva nesse ano determinavam que até 2001 todos os trabalhadores deveriam ter concluído o ensino fundamental.

12 Pelos clubinhos, pela escola, pela ‘participação’ nos lucros os empresários buscam um trabalhador com uma completa identificação aos ideais da empresa. É o que se costuma caracterizar com a expressão “vestir a camisa da empresa” (Shiroma, 1996)! Remete também à “Total Qualidade Sadia” que para ser implementada exige um 'Total Trabalhador Sadia'.

13O método Paulo Freire foi adaptado à realidade de Chapecó pela Secretaria de Educação e Cultura, tendo como base as experiências realizadas por outras administrações populares.

14 Enquanto ideologia, a distância é irrelevante; do ponto de vista da subjetividade do trabalhador, no entanto, é um dado relevante. Na medida em que a escola funciona sob a égide da empresa e transforma-se em extensão do trabalho, para os trabalhadores acaba não havendo distinção entre o espaço de estudo e de trabalho.

15O segundo turno de trabalho inicia às 14h e encerra quando terminadas as atividades (meta de produção), passando às vezes das 24h.

16 Os investimentos estatais no processo de acumulação e centralização de capital do grupo Sadia S.A. aconteceram de inúmeras formas, dentre elas por incentivos fiscais, isenções, infra-estrutura, pesquisas, assistência técnica.



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