A formação do Trabalhador no Âmbito da Acumulação do Capital Fabiane Santana Previtalli Universidade Federal de Uberlândia



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Segundo a literatura (PREVITALLI, 2006, FARIA e PREVITALLI, 2008) um dos programas mais enfatizados na garantia do aprendizado contínuo, tendo como objetivo assegurar o comprometimento dos trabalhadores foi a gestão participativa. Nesse sentido, as empresas passaram a investir em novos meios de comunicação com o trabalhador, como o circuito interno de TV e os jornais oficiais do grupo nos quais são veiculadas notícias positivas sobre o grupo e a empresa. Tem inicio um monitoramento bastante específico das tarefas e ações dos trabalhadores em função do seu próprio desempenho (metas individuais) e do desempenho da equipe. Ao mesmo tempo, a gerência começa a enfatizar um conjunto de qualificações e habilidades dos trabalhadores do chão-de-fábrica que até então não eram significativos. Pesquisa realizada por Previtalli (2006) mostrou que quesitos subjetivos tais como: saber trabalhar em grupos, ter iniciativa, ser participativo, ser responsável passaram a ter prioridade em detrimento da experiência profissional.


Essas novas qualificações e habilidades fazem parte de um conjunto de ferramentas pelas quais o capital procura captar a subjetividade dos trabalhadores, de forma a ser construído um novo padrão de organização e controle do trabalho que busca assegurar a disciplina e o comprometimento do trabalhador no local de trabalho e também fora dele.
Considerações Finais

O processo de reestruturação produtiva das empresas nada mais é que a reestruturação do capital, visando assegurar sua expansão e acumulação. À medida que esse processo avança, envolvendo mudanças tecnológicas e organizacionais, impõe-se para as empresas a necessidade de encontrar uma força de trabalho mais complexa, mais heterogênea e mais multifuncional que deverá ser explorada de forma mais intensa e sofisticada pelo capital.

A reestruturação produtiva do capital envolve ainda um novo quadro político e institucional, de base liberal, o neoliberalismo, inaugurado com o governo conservador de Thatcher na Gra-Bretanha em 1979. Cada vez mais as empresas beneficiam-se do novo quadro neoliberal para reorganizar as modalidades de sua internacionalização e para modificar suas relações com a classe trabalhadora via intensificação do processo de flexibilização envolvendo práticas de gestão de recursos humanos, bem da terceirização e subcontratação e do trabalho temporário.

Nesse novo contexto, as mudanças tecnológicas e/ou organizacionais associadas ao toyotismo são apresentadas como as mais eficientes e racionais para o desempenho do processo produtivo. A difusão das novas tecnologias associada às novas práticas de gestão de recursos humanos estariam possibilitando a recuperação da inteligência do trabalhador no local de trabalho, particularmente devido à introdução das células de produção e dos times ou grupos de trabalho8. Entretanto, pesquisas sobre a realidade dos locais de trabalho têm evidenciado que há uma limitada reintegração entre concepção e execução através dos grupos de trabalho, havendo uma autonomia meramente nominal dos times de trabalho que devem continuamente aumentar a produtividade.

Portanto, a introdução e difusão de inovações técnicas e/ou organizacionais no processo produtivo estão circunscritas à lógica do capital, tendo como um de seus objetivos fundamentais a garantia da produtividade e da lucratividade via controle sobre o processo de trabalho.

Cumpre dizer ainda que as estratégias das empresas impuseram aos trabalhadores um processo crescente de intensificação do trabalho. Com o avanço da reestruturação produtiva do capital ao longo dos anos 1990, o combate e a crítica às políticas de reestruturação adotadas pelas empresas tenderam a dar lugar a um processo de adaptação e adequação do movimento sindical a nova ordem do capital. As estratégias de resistência da classe trabalhadora passaram a priorizar a negociação com as empresas, visando à defesa e à manutenção do emprego. Se há ainda um quadro potencial para o conflito, o crescimento do sindicalismo de negócios sugere que as formas de oposição ainda são fracas e periféricas.


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As pesquisas são realizadas no âmbito dos Grupos de Pesquisa Trabalho, Educação e Sociedade, sob a coordenação da profa. Fabiane Santana Previtalli e História, Trabalho e Educação, sob a coordenação dos professores Carlos A. Lucena e Robson L. França. Nossos agradecimentos a todos os membros pesquisadores.

1 Para maiores considerações sobre tipos de tecnologias, consultar Previtalli (2005 e 2006).

2 Inovações incrementais são aquelas que ocorrem sem resultado direto de uma pesquisa formal, mas através de pequenas mudanças no processo produtivo. Seus efeitos estão mais relacionados ao crescimento da produtividade. Consultar Previtalli (2005).

3Segundo Balibar (1973), para que os meios de trabalho presentes no modo de produção sejam também indicadores de relações sociais, é importante que sua análise ultrapasse a mera mensuração de sua eficácia para o capital, medida apenas em termos de produtividade ou uma análise descritiva da tecnologia e seus elementos.

4 Assim, no Brasil, inserido de forma tardia e dependente no processo de expansão do capital e ocupando uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho, a acumulação não foi assegurada por meio do chamado “compromisso fordista”. Na verdade, grande parte da sustentação do taylorismo-fordismo e da acumulação capitalista da burguesia internacional se assentou na sub-remuneração e superexploração da sua força de trabalho. Ver Carvalho (1987); Humphrey (1993); Antunes (1998); Antunes (2000 a e b).

5 Essas diferenças relacionam-se, entre outros elementos, à capacidade produtiva, à aquisição e adaptação do novo processo produtivo. Consultar Tavares (1982).

6 A última grande greve foi no inverno de 1937, quando os trabalhadores organizados no UAW forçaram a General Motors e outras grandes companhias a reconhecer o sindicato. Consultar Previtalli (2002).

7O trabalho de Hill (1991) trata especialmente da introdução dos CCQs em empresas inglesas, primeiramente como uma técnica isolada e posteriormente no bojo de um conjunto de mudanças mais sistêmicas, incluindo o TQM.

8 Entre os autores que apontam para a revitalização do trabalho, a requalificação e a tendência à redução da fragmentação do taylorismo-fordismo nas novas condições da produção estão Piores & Sabel (1984), Kern & Schummann (1992), Hoffman & Kaplinsk (1988), Coriat (1988 e 1993), Womack et al (1990).



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