A fortuna dos antigos: considerações sobre a tyché em Políbio e Flávio Josefo”



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Núcleo de Estudos Clássicos - NEC

Universidade de Brasília

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A fortuna dos antigos: considerações sobre a tyché em Políbio e Flávio Josefo”


“Aspectos da escrita da história em Josefo”


SBEC – CONGRESSO NACIONAL, 5-10 de agosto 2001

Carlos Gomes de Oliveira

História / 8º período

Prof. Vicente Dobroruka

Resumo / abstract (máximo 15 linhas)

No mundo helenístico, a deusa tyché assume grande relevância com o declínio dos deuses tradicionais da polis. Os eventos do séc. IV a.C., como o crescimento do poder macedônico, levando a uma rápida mudança na ordem mundial (formação do oikoumene), promovem a crença no caráter randômico e irracional da sorte. Neste estudo pretendemos trabalhar a confluência dos conceitos de tyché nos métodos historiográficos de Políbio (II a.C.) e de Flávio Josefo (I d.C.), pois, segundo nossa tese, esses dois historiadores, ainda que localizados em momentos distintos do helenismo, utilizam a idéia de tyché no mesmo sentido quando se referem à Roma e seu sucesso bélico e expansionista pois, segundo eles, foi graças à Fortuna que Roma tornou-se um império. O paper discutirá algumas das principais implicações dessas semelhanças.

A Fortuna dos antigos: considerações sobre a tyché em Políbio e Flávio Josefo (texto final, máximo 8 páginas)
Tyché. Segundo o Oxford Classical Dictionary, tyché pode ser entendida como destino, sorte, fortuna boa ou má, com um forte senso de mudança súbita e acontecimentos fortuitos na vida humana. Filha de Zeus Eleutherius, esta nobre tyché dispensaria mais benefícios que malefícios aos homens,;embora ambivalente por natureza, ela tenderia a ser favorável. Todavia, a idéia de “sorte” como principal agente na vida humana encontra menos condescendência na filosofia clássica, mormente entre os estóicos, para os quais a deusa Fortuna é menos benévola em seus caprichos, agraciando apenas a alguns com seu sorriso.

De modo geral, essa divindade pagã permanece vagamente personificada. A deusa tyché era desconhecida para Homero. Não há um mito definido que testemunhe sua origem. Na tragédia ela raramente ultrapassa o conceito básico de “fortuna”, de acontecimentos inesperados, em geral enviados pelos deuses.



Tyché assume grande relevância com o declínio dos deuses tradicionais. Os eventos do séc. IV a.C., essencialmente o crescimento do poder macedônico levando a uma rápida mudança na ordem mundial (formação do oikoumene) promovem a crença no caráter randômico e irracional da sorte.

Ela exerce grande papel em Políbio, onde a astuta tyché é imprevista (30.10), mutável (15.6), ciumenta (39.8); nunca, porém, o historiador contrasta essa imagem popular da deusa com o que pode ser esperado como desenvolvimento histórico racional (eikótos), pois, para Políbio, Roma não assumiria o poder da oikoumene apenas por um capricho da deusa; esta não é totalmente autônoma em seus desejos, e Roma foi antes favorecida pela constituição mista.

O historiador grego Políbio nasceu aproximadamente em 208 a.C., em Megalópolis, na Arcádia. De família aristocrática, teve formação literária e filosófica, bem como vida política e militar ativa. Com cerca de 40 anos de idade é levado prisioneiro a Roma, onde escreverá sua História. Morreu aos 80 anos de idade. Compôs originalmente quarenta livros, dos quais apenas cinco completos chegaram até nós, restando dos outros apenas fragmentos.

Como todo bom grego de seu tempo, ele não entendia a História como ciência, pois não poderia haver ciência de coisas transitórias, e estando a história no campo da doca, isto é, tratando do que é aparente, perecível, temporário, a história deveria ter outro estatuto. Daí sua escolha pelo viés substancialista, isto é, onde os acontecimentos são importantes pela luz que lançam sobre entidades eternas e substanciais, das quais eles são meros acidentes.



Tyché é o conceito polibiano que nos interessa mais de perto. A tyché, “sorte” ou deusa fortuna constituem uma força externa que determina os acontecimentos da história, é uma “substância” da história - constitui uma metahistória. Ela determina o curso geral da história, onde o homem perde seu lugar de destaque como agente nos acontecimentos, em favor de uma essência mais ou menos autônoma.

O historiador judeu Flávio Josefo nasce Iosef ben Matias, em aproximadamente 37 d.C., em Jerusalém, na aristocracia sacerdotal. Era da tribo de Levi e dizia-se de família nobre asmonéia por parte da mãe, criado na melhor tradição judaica. Entre seus estudos estão os ligados aos círculos saduceus, farisaicos e essênios; conhecia a gramática e a literatura gregas, bem como o hebraico, o aramaico e o latim.

Em 70, o imperador Vespasiano fez dele cidadão romano e deu-lhe um cognomen associado à sua gens - Flavia, passando a chamar-se Titus Flavius Josephus. Já vivendo em Roma, dá início a suas obras historiográficas: Guerra dos Judeus (7 tomos), obra também conhecida por seu nome latino “De Bello Judaico” – BJ, Antiguidades judaicas – AJ (20 tomos), Contra Apião – CA (2 tomos) e a Autobiografia – V.

Josefo comunga com Políbio a presunção de uma “substância” em história, quer seja Deus, quer seja a Providência, guiando os rumos da história dos romanos e mesmo a história universal. A influência farisaica, grupo ao qual Josefo pertenceu, combinava a crença no destino com a crença no livre-arbítrio e outras noções filosóficas (AJ 18.13-15), onde os fariseus acreditavam poder conhecer o futuro pela compreensão da torah (AJ 17.41-3), e, sem dúvida, se achavam os melhores intérpretes da Lei.

A tyché na Guerra dos judeus de Josefo não estará deslocada de um contexto histórico específico. Além de ela ser uma deusa pagã comum ao mundo mediterrânico, também os judeus demonstravam sua devoção por uma potência divina superior aos planos humanos e, com um comportamento que lembra o estoicismo, tendiam a aceitar o que quer que viesse a acontecer - por pior que fosse - como sendo a vontade de Deus.

Nesta apresentação, pretendemos trabalhar a confluência dos conceitos de tyché nos métodos historiográficos de Políbio e de Flávio Josefo, pois, segundo nossa tese, estes historiadores compartilham de uma explicação metahistórica similar (tyché ou Deus) para os eventos que procuram explicar.

Entre Políbio e Josefo semelhanças curiosas residem também no campo das vicissitudes da vida: ambos são levados prisioneiros a Roma, ambos são libertados, tornam-se membros das gens que os levaram cativos e escrevem sob tutela romana suas histórias. Talvez mais um capricho da deusa ou da Providência divina.

O historiador grego pensa que a história que conta tem alguma relevância para o futuro, onde os eventos precisam ensinar algo. A história assumiria o papel de exemplo e conselho; é a história pragmática de Tucídides e Políbio. Outra característica da historiografia grega é a possibilidade da escolha entre o provável e o improvável, onde a narrativa não significa necessariamente a inteira expressão da verdade.

Já o caso judaico é diferente. Ali a história é contínua desde o começo do mundo, mostrando, essencialmente, a relação especial de Iahweh com Israel, onde lembrar-se é uma obrigação religiosa, isto é, recordar-se da ação de Deus.

O critério de confiabilidade também era outro na historiografia judaica. Os judeus sempre foram mais preocupados com a verdade; o deus hebreu é um deus da verdade. Nenhum deus grego é chamado aletinoj isto é, verdadeiro. De modo geral os judeus não assimilaram a historiografia grega, a história de maneira geral nunca foi parte de suas vidas: tudo o que lhes interessava estava na torah, na Lei. Portanto, acima da história1.

Josefo, judeu helenizado, parece ter se envolvido com a historiografia grega pelo menos num sentido, naquele em que ela conflui com a religião judaica na medida em que procura explicações metahistóricas para as vicissitudes humanas. Na sua interpretação bíblica mistura-se à doutrina judaica a doutrina grega da fortuna (tyché). Deus tende a se despersonalizar, a se confundir com a providência anônima dos gregos ou com a fatalidade do destino.

Josefo ainda pertence ao grupo de judeus anteriores à civilização cristã para quem história e religião eram uma coisa só. Testemunha isso o uso em suas obras dos conceitos de tyché, Deus ou Providência, alternadamente ou de modos distintos, para explicar os eventos ocorridos em Jerusalém em 70.
Josefo sente necessidade de encontrar um sentido para a história, de extrair o significado da terrível catástrofe que atingiu seu povo. Sua familiaridade com a Bíblia ensina-lhe que, com efeito, Deus intervém incessantemente nos assuntos humanos2.
“Substancialismo” judaico é a rememoração de um Deus que se manifesta na história. É uma teodicéia o que Josefo faz, pois, apesar de crítico e tentar escrever como Tucídides (quando explica de outro modo as causas da guerra dos judeus, usando o conceito de stasis, como um desarranjo interno dentro da Judéia do séc.I, com suas facções rivais, os stasiastai, motivados por interesses de classe, políticos e religiosos, com doses maiores ou menores de expectativa messiânica), também é um substancialista, pois desenvolve uma concepção metahistórica; a explicação de que uma força, um agente externo (Deus) determina o curso da história, não os homens.

Vale ainda lembrar que tanto Josefo como Políbio, ainda que em momentos distintos do helenismo, utilizam a idéia de tyché no mesmo sentido quando se referem à Roma e seu sucesso bélico e expansionista. A tyché, neste caso, está relacionada com o crescimento do poder romano, pois, segundo eles, foi graças à Fortuna que Roma tornou-se um império.

Políbio não oferece em todas as passagens uma definição clara e precisa relativa à sua tyché, porém, seu principal uso parece refletir a concepção helenística daquela divindade, que muitas vezes, não passava de mera casualidade, em detrimento da vontade divina. É que “os gregos [tinham] uma maneira, a sua, de acreditar na sua mitologia ou de ser cépticos, e essa maneira só falsamente se assemelha à nossa”3.

Mas a sorte em Políbio também é uma entidade metahistórica, que determina o futuro dos impérios, onde a estabilidade destes, sua ascensão ou queda, dependem tão-somente de sua vontade, conforme a passagem:


[...] Mas isso não obstante a sorte, que nunca se compromete definitivamente quanto à nossa vida, que sempre engana as nossas previsões inovando incessantemente, que sempre demonstra o seu poder frustrando as nossas expectativas, agora também, segundo me parece, mostra claramente a todos os homens, entregando aos macedônios todas as riquezas dos persas, que ela apenas lhes empresta esses bens até querer dar-lhes um destino diferente4.
Vale notar que esta passagem, além de mostrar a semelhança do uso de tyché em Políbio com relação ao uso que dela faz Josefo, faz também uma referência indireta ao mito dos quatro impérios. Esse mito refere-se à sucessão dos impérios babilônico, medo, persa e macedônico. É encontrado no livro de Daniel 2:31-45, e em outros oráculos, e, como nos mostra Políbio, era um mito comum no mundo mediterrânico.

Por vezes fala-se em cinco impérios ao invés de quatro, para que o romano faça parte do mito; outras vezes juntam-se os impérios persa e medo num só, deixando o quarto império como sendo Roma. É isto o que faz Josefo, por exemplo, em AJ 10.276-7.

Então, com base nestas passagens, podemos afirmar que Políbio usa tyché ora como casualidade, ora como a personificação de uma divindade, e que quando fala da deusa Fortuna, aproxima-se do uso que Josefo faz do termo; entretanto também Flávio Josefo, por vezes, dá conotações diversas à sua tyché. Vejamos algumas:

Em BJ 1.214-217, tyché relaciona-se com a providência divina, dando à historiografia judaica conotações de história universal, com a mesma temática da ascensão e queda dos impérios, inspirada no livro de Daniel. Noutros momentos, ora Deus controla a tyché, ora Deus e tyché se confundem em suas explicações. Por exemplo, no discurso de Agripa II (BJ 2.345-401), Josefo cita três vezes que o poder de Roma foi atribuído à tyché, sendo que mais adiante declara categoricamente que Deus foi o responsável pelo crescimento do Império Romano (BJ 2.39). Já em BJ 6.399-400, a vitória romana sobre os judeus em 70 é obra tanto da tyché como de Deus.

Vimos que é a mesma explicação (tyché) que Josefo apresenta, ao lado do conceito de stasis, para a vitória de Roma sobre os judeus em 70 e até para o sucesso de Roma, sucedendo ao império de Alexandre.

Tais noções de tyché, de sorte ou Fortuna, Deus ou Providência, dizem respeito à concepção metahistórica presente em suas explicações da realidade sobre a qual se debruçaram – Políbio, a ascensão de Roma, Josefo, a guerra dos judeus contra Roma em 66.



Mas, o que devemos concluir desse breve estudo? Parece-nos que devemos entender essa confluência de substâncias em história, na historiografia clássica, a partir da perspectiva das intensas trocas culturais do mundo helenístico, onde havia também a comunhão de uma Weltanschauung, de uma visão de mundo metahistórica entre os historiadores antigos, em que pesem todas as suas diferenças individuais, estilísticas ou de ambiência cultural.

1 Arnaldo Momigliano. “Persian Historiography, Greek Historiography and Jewish Historiography” in: The Classical Foundations of Modern Historiography. Berkeley: University of California, 1990. Pp.18-25.

2 Mireille Hadas-Lebel. Flávio Josefo, o judeu de Roma. Rio de Janeiro: Imago, 1991. P.242.

3 Paul Veyne. Acreditavam os gregos nos seus mitos?. Lisboa: Edições 70, 1983. P.16.

4 Políbios. História. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1996. Pp.XXIX, 21.



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