A África através das imagens de Fortier



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A África através das imagens de Fortier
Bruna Gomes Borges Barcellos

Camila Alexandre da Silva

Gislaine Alhadas Ribeiro

O processo de ocupação territorial, exploração econômica e domínio político do continente africano por potências européias, têm início no século XV e estende-se até a metade do século XX. Ligada à expansão marítima européia, a primeira fase do colonialismo africano surge da necessidade de encontrar rotas alternativas para o Oriente e novos mercados produtores e consumidores.

No século XIX após quatrocentos anos de presença, o domínio europeu não fica mais restrito aos entrepostos comerciais e fortalezas do litoral, por onde se escoava o comércio. Houve um aumento da demanda de matérias primas e a monetarização da economia que requisitariam mais do ponto de vista espacial. Acredita-se que em 1880 cerca de 80% da população das terras africanas ainda eram governados pelos próprios reis, rainhas, chefes de clãs e de linhagens. Essa era uma situação do ponto de vista europeu que não poderia perdurar, os africanos teriam que se submeter às novas necessidades européias pela busca de riquezas, novos mercados produtores e consumidores1.

Foi aplicada na África a doutrina dos três Cs: C de Comércio, C de Cristianismo e C de Civilização. Essa doutrina seria o antídoto para a primitiva concepção religiosa, a indigência social e cultural, a ausência de um Estado que compactuasse com as demandas do industrialismo. Isso tudo de acordo com o modo de pensar do Ocidente.

O grande fervor civilizatório dos europeus do século XIX, em alguns casos, teve início com expedições cientificas no interior do território africano, depois vieram os missionários catequizadores, os comerciantes com tecidos e bebidas alcoólicas e por último os exércitos de ocupação, os europeus armados destruíram a resistência da população e dos reinos locais, entretanto, alguns reinos locais também compactuaram com os europeus como forma de fortalecer e estender o seu poder.

A Europa se lançou na conquista da totalidade do continente, numa verdadeira corrida colonial, conduzindo ao retalhamento do território africano. Foi realizada na Alemanha a conferência de Berlim (1884- 1885), reunindo as principais potências coloniais com interesses territoriais no continente. Participaram dessa reunião internacional 15 países, 13 eram europeus, mais os Estados Unidos e Império Otomano. O principal objetivo foi regulamentar a expansão das potências coloniais na África, procurando ordenar e estabelecer consensos diplomáticos: “dividir para reinar”.

As fronteiras nacionais nasceram da imposição desta conferência, os Estados-Nacionais, segundo uma concepção clássica – unidade, homogeneidade e delimitação de território –, sendo impostos pelas potências colonizadoras partilhando a África sem muitas preocupações quanto ao que já existia. Várias nações, no sentido de formações sociais antigas africanas, passaram a estar reunidas dentro de novas fronteiras. Tribos amigas e inimigas passaram a pertencer ao mesmo espaço colonial. Para tomar ciência desse fato, basta prestar atenção ao predomínio de linhas de fronteira retilíneas e traçadas com régua e esquadro. A França foi consagrada com grande parte do continente africano, com o segundo maior em extensão, perdendo apenas para a Inglaterra. A maior parte das colônias francesas na África foi reunida em duas federações: a África Ocidental Francesa (A.O.F.) e a África Equatorial Francesa (A.E.F.).

A África Ocidental Francesa foi constituída em 1895, chegando a reunir oito territórios: Alto-Volta, Costa do Marfim, Daomé, Guiné, Mauritânia, Níger, Senegal (onde tinha como capital Dacar) e Sudão Francês. Enquanto que a África Equatorial Francesa, criada em 1910, englobava os territórios que hoje são: República do Chade, República Centro-Africana (ex-colônia de Oubangui-Chari), República do Congo (ex-Congo Médio ou Middle Congo) e República do Gabão.

As conquistas coloniais desencadearam em diversas regiões da África uma série de rebeliões anticoloniais organizadas por grupos locais. Diante do poderio militar e econômico das potências coloniais, a maior parte dessas revoltas foram sufocadas. Nenhuma potência colonial exerceu sua dominação sem sofrer contestação.

Essas resistências podem ser classificadas, grosso modo, em três tipos: (1) lutas de resistência diante da invasão militar colonialista, (2) rebeliões que procuravam preservar as tradições e propunham a restauração do passado anterior à chegada dos europeus; (3) movimento de tendência ocidentalizante que pregavam a modernização como modo de fazer frente à invasão ocidental. (FACINA; CASTRO, 2000).

Podemos ver na figura 1 um ícone da resistência à colonização francesa, Samory Touré, guerreiro de etnia Malinkée2 - a dominação francesa foi assegurada ao derrotarem suas tropas, o que deu aos franceses o controle do que é hoje a Guiné.



Figura 1- Samory - Diola Sudanês (Fortier/1907)

O modelo neocolonialista aparece já na ocupação imperialista da África. Esse modelo refere-se às modalidades de dominação nas quais a metrópole deixa de exercer dominação direta e passa a exercê-la indiretamente, apelando para a elite local submissa aos seus interesses. A lógica central desse princípio residia em respeitar as estruturas tradicionais de poder agregando os chefes locais em colaboradores, verdadeiros fantoches do colonialismo, que recolhiam impostos em nome dos colonizadores, administravam conflitos e por fim representavam os mandatários europeus, à administração local.

“Todo ano, era dever dos chefes de província (transformados em chefes de cantão depois da reforma administrativa e da destituição do rei) coletar o imposto cobrado das populações para os cofres da administração colonial. Fazia parte do cargo.” (BÂ, 2003)
Quando a França vivia esse período de colonização dos países africanos, no século XIX, surge uma nova profissão, reconhecida mais tarde, como arte: a fotografia.  A fotografia deu ao homem uma nova maneira de fazer registros, tornando-se assim, um instrumento de como captar imagens dos fatos históricos.

Através desse novo material, temos como aliado, observando essas mudanças ocorridas na África, o fotógrafo francês Edmond Fortier (1862 – 1928), que foi viver na África por opção e não regressou mais à Europa, ficou vários anos em Senegal e passou o restante de sua vida em Dakar. Pouco se sabe sobre sua vida particular, mas muito deixou de sua obra: um acervo com mais de três mil postais.

Como fotógrafo e editor de postais, ele esteve em Benin (antiga Daomé), Costa do Marfim, Guiné, Mali (antigo Império Gana, com a chegada dos franceses, se torna parte do Sudão Francês), Mauritânia, Nigéria e Senegal - África Ocidental Francesa.


Figura 2 - Mapa do caminho percorrido por Fortier: Territórios localizados na África Ocidental Francesa, Fortier em grande parte da sua expedição seguiu o curso do rio Níger, fez seus percursos a pé e de barco.
Fortier fotografava de tudo, reunindo assim, vários temas,
[Como] a convivência na mesma região de diversas sociedades com traços culturais particulares, as atividades coletivas (construções de casas e celeiros), as interações e interdependências das diversas formas de trabalho, destacando-se aí o feminino e o masculino (muito evidente na produção têxtil; os instrumentos musicais, as práticas agrícolas, pastoris e a alimentação; os mercados e a arquitetura em adobe. (MOREAU, 2008)



Figura 3 Guiné - Dança Malinkée (Fortier/1905).


Figura 4 Guiné - Festa em Mamou - cidade ao norte da Guiné (Fortier/1905)



Figura 5 Mali - Mercado de Bandiagara (Fortier/1905)

“[Ele] registrou um momento de transformações intensas e violentas [...] marcadas pela penetração e presença cada vez maior do colonizador europeu3”, porém ainda havia muito da cultura original dessas regiões, onde as civilizações africanas e européias se deparavam pela primeira vez. Nas fotos a seguir, temos os postais que revelam o processo dessa mistura cultural.




Figura 6 Bandiagara - Recolhimento de imposto in natura, tecidos de algodão (Fortier 1906-1907)


Figura 7 Atiradores Sudaneses em Kati (Fortier 1906-1907)



Figura 8 Estação de trem em Senegal


Figura 9 Construção de Ferrovia em Dacar (Fortier 1907)

Na figura 6 vemos o procedimento de recolhimento de imposto que não era feito até então, mas ainda é muito marcado pela tradição sudanesa in natura4. Há na figura 7 o posto militar feito pelos franceses com um regimento de atiradores senegaleses, que usavam uniformes militares franceses. Já nas figuras 8 e 9 temos a construção de estradas de ferro e ferrovias, a estação é uma construção de estilo francês. Fortier desse modo apresenta um processo de aculturação. Esse processo não foi fácil, ocorrendo várias resistências, eram poucos os que aceitavam e cooperavam com os franceses.

No postal 10, trazemos um exemplo de colaboração.



Figura 10 Mademba- si, Fama de Sansanding - Rendeu grandes serviços na época da ocupação do Sudão. ( Fortier – 1906-1907)

“Mademba Sy não era um rei comum... Muito chegado ao coronel Archinard, tinha auxiliado a penetração francesa na região a seu lado, implantando linhas de telégrafos a cada conquista. [...] Para recompensá-lo por seus bons e leais serviços, o coronel Archinard lhe outorgara o estado de Sansanding e, “em nome da República Francesa”, o nomeara rei do estado de Sansanding. ”(BÂ, 2003)

A História africana é marcada pelo mito racial5, que passou a dominar o pensamento ocidental na época colonial, permeando a formulação de princípios políticos, éticos e morais e, Fortier contribui de certo modo para isso, pois determinadas fotos e legendas são no século XIX e hoje, apresentadas como culturais e étnicas da África. Entretanto essas fotos, algumas vezes, não transmitem a realidade retratada, o artista alterando-as e manipulando-as, afim de enquadrá-las no perfil da concepção européia e, com o decorrer do tempo, ele passou a reeditar seus postais com a mesma proposta, fazendo com que sua coleção apresentasse fotos repetidas, mas transformadas. Esse fato devia ocorrer porque ele vivia das suas fotografias e das vendas dos postais.

Seus postais foram espalhados por todo o mundo. Segundo Gombrich, nunca criamos uma imagem, sem antes ter visto uma referência, assim, o estrangeiro só vê o que conhece. Esse material permite ver o olhar francês sobre a África, “o olhar o outro”. Essa era uma época de classificação do negro, que sempre na visão do francês, terá um significado: ele cria a África dentro do imaginário Francês. Ao analisarmos seu conteúdo, podemos aprender mais sobre o francês do que sobre o africano, pois o discurso do que fotografa é o discurso do homem branco, europeu.

O conteúdo ele fez para ele, e as legendas, para o mercado. Podemos observar tal ocorrência através das fotos editadas, onde ele tinha a finalidade de apagar o africano do seu cotidiano, “(...) a ocultação perpetrada por Fortier a partir da ‘maquiagem’ da fotografia chegava a apagar não apenas uma cena, mas a própria História” 6.

Na seqüência, como exemplo, encerramos com dois pares de fotos:






O primeiro par mostra como Fortier apagava o entorno do africano e no segundo, ele simplesmente modifica a História, com a mudança da legenda e a omissão de um personagem. A pessoa que o fotógrafo extinguiu, estava na sacada da varanda e era supostamente um dos maiores resistentes à colonização francesa no Sudão: Aménokal Chebboun, que era um tuaregue7 do grupo Tinguereguif8. Com a simplificação da legenda e a extinção do comandante, o segundo postal só nos mostra um grupo de tuaregues, mais uma vez, mitificando lugares-comuns. Suas mudanças “arrancam” a História e são divulgadas e interiorizadas a respeito da África, onde sua visão é de uma forma externa, mas que é feita internamente, pois ele estava presente e possuía noção do contexto em que seus momentos retratados passavam.


As artimanhas de Fortier [...] fazem com que a mesma cena fora de seu contexto original pareça um evento “típico”, “tradicional”, “original”, “primitivo” e assim por diante... (MOREAU, 2008).

Fortier não fotografava secretamente. De alguma forma, ele estava interagindo, estava interferindo. Por vezes, ele estava mesmo ferindo ao fazer suas edições. Suas fotografias são o resultado de aliar História e o fazer História. Depois de assimilada, elas se incorporam ao olhar, fazendo surpreendentes os resultados obtidos por esse fotógrafo maravilhoso e suas lentes fantásticas.

A fotografia cria uma cultura visual, porque ver é conhecer. Seus postais circulam e se reproduzem, vai ganhando um re-significado em cada época e em cada lugar.
Cronologia
1826 – Surge a fotografia, pelo inventor e litógrafo francês Joseph Nicéphore Niépce.

1862 – Nasce o fotógrafo Edmond Fortier.



1880 – Formação da colônia do Sudão Francês (atual Mali)

1884/1885 – Conferência de Berlin.



1887 – Iniciasse a penetração para o interior da Costa do Marfim.

1895 – Constituição da África Ocidental Francesa.

1898 – Capturado Samory Touré, possibilitando o início da dominação francesa na Guiné.

1910 – Constituição da África Equatorial Francesa.

1928 – Morre Fortier.


Bibliografia
BÂ, Amadou Hampâté. Amkoullel, o menino fula. São Paulo: Palas Athena e Casa das Áfricas, 2003.

COTRIM, Gilberto. História Global: Brasil e Geral. 6 ed. São Paulo: Saraiva, 2002.


DECCA, Edgar de. O colonialismo como a glória do império. In: REIS FILHO, Daniel A. et alli (Org.). O século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. vol.1: O tempo das certezas.

FACINA, Adriana, CASTRO, Ricardo F. As resistências dos povos à partilha do mundo. In: REIS FILHO, Daniel A. et alli (Org.). O século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. Vol. 1: O tempo das certezas.


Hernandez, Leila Leite. A África na sala de aula - Visita à História Contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005.


KI-ZERBO, Joseph. História da África negra I. Publicações Europa-América, s/d.

MOREAU, Daniela Maria. Através das lentes de Fortier – A África do Oeste de 1900 a 1912. In: Reunião Brasileira de Antropologia, 26. 2008, Porto Seguro. P. 1 – 17.

SERRANO, Carlos. WALDMAN, Maurício. Memória D´África: a temática africana em sala de aula. São Paulo: Cortez, 2007.
Palestra “Edmond Fortier – Um fotógrafo francês na África do Oeste. 2009, Niterói, Universidade Federal Fluminense. Palestrantes: Daniela Maria Moreau, Mariana Pinho Candido, Mariza de Carvalho Soares e Milton Guran.

Casa das Áfricas Acesso em: 29/10/2009.



Centre Edmond Fortier Acesso em 18/10/2009.
Unesco Acesso em 20/10/2009.



1 A principal característica desse processo desenfreado por ampliação de espaços era a de que a expansão dos Estados europeus tinha sido motivada por uma necessidade irrefreável da ampliação de mercados das economias competitivas do capitalismo industrial. Isto significava uma mudança radical no modo de organização política dos Estados-Nações, uma vez que as suas fronteiras tornaram-se restritivas e constrangedoras para a expansão dos mercados capitalistas. (DECCA, 2000)

2 Os povos Malinkée vivem, sobretudo, nas zonas sudoeste e sudeste do Mali, com importantes ramificações nos países limítrofes ao sul, como a Guiné.


3 Moreau, 2008.

4 Quando o imperialismo expandiu o capitalismo monopolista e financeiro para todo o mundo, conquistou territórios e estabeleceu colônias, promoveu nas sociedades conquistadas profundas transformações econômicas e sociais. Essas sociedades tinham diferentes sistemas de sociais e econômicos que, em contato com o capitalismo, foram desarticulados, redefinindo-se segundo a dominação capitalista. O capitalismo teve, portanto, a capacidade de manter muitas das antigas relações econômico-sociais anteriores, articulando-as numa nova estrutura, dependente do capitalismo internacional. (FACINA; CASTRO, 2000).

5 No século XIX, vários naturalistas publicaram estudos sobre as “raças humanas”, como Georges Cuvier, James Cowles Pritchard, Louis Agassiz, Charles Pickering e Johann Friedrich Blumenbach. Nessa época, as “raças humanas” distinguiam-se pela cor da pele, tipo facial (principalmente a forma dos lábios, olhos e nariz), perfil craniano, textura e cor do cabelo, onde essas diferenças refletiam no comportamento, no conceito de moral e na inteligência.


6 Moreau, 2008.

7 Grupo étnico que habita a região do Saara

8 Oriundos da região do Tombouctou no Mali.

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