A gestualidade nas bibliotecas; normas de comportamento e bom uso de bibliotecas no brasil – SÉculos XIX e XX



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A GESTUALIDADE NAS BIBLIOTECAS; NORMAS DE COMPORTAMENTO E BOM USO DE BIBLIOTECAS NO BRASIL – SÉCULOS XIX E XX


Cláudio DeNipoti - Universidade Tuiuti do Paraná


A história do livro proporcionou diversos desdobramentos conexos à história da leitura, como a história da alfabetização, do comércio e circulação de livros, da formação de bibliotecas, das relações historiográficas entre o historiador e suas leituras, etc. Se tomarmos, por exemplo, o caso da Grécia Antiga, veremos que a leitura era designada por palavras que significavam tanto “o ato de reconhecer” quanto “falar”. Assim, “mesmo o leitor solitário [...] não [era] silencioso: ele provavelmente [lia] à meia voz, o que [reduzia] as distâncias entre a leitura individual e a leitura coletiva. Jamais se [lia] unicamente com os olhos; mesmo nas bibliotecas, onde o ruído deveria ser insuportável. Mesmo quando se [estava] completamente só, como vemos na comédia quando aquele que recebia uma carta, a [lia] alto não somente porque [era] necessário informar o público, mas também porque [era] o costume”.1

Há porém, um grande fosso entre ser capaz de “reconhecer” sinais alfabéticos e ler livros ou opúsculos mais ou menos longos. E essa capacidade tem uma ligação íntima com a disponibilidade de material de leitura em uma dada sociedade. No caso da leitura na antigüidade, estudado por Luciano Canfora, ainda que os livros fossem objetos de “circulação limitada”, havia uma crescente preocupação com a formação de bibliotecas - como a de Alexandria.2

Aqui aponta-se para um dos mais instigantes campos de estudo na história da leitura, a formação e manutenção de bibliotecas. No caso acima, o fenômeno da criação de bibliotecas não criara ao seu redor, nem na Grécia, nem em Roma, um “universo de leitores”. Em Atenas, segundo Aristóteles, apesar da circulação limitada de livros, a maioria dos atenienses, ainda que alfabetizada rudimentarmente, só se utilizava desse conhecimento “para os negócios e para a administração do patrimônio e para a política”.3 Em Roma, a moda de grandes bibliotecas particulares iniciada por Silas e Lúculo no início do Império, também não significava uma generalização do hábito da leitura. A biblioteca de Lúculo continha essencialmente obras clássicas gregas, acessíveis somente aos eruditos romanos bilingües, como Cícero e o próprio Lúculo.

Eventualmente, próximo do fim do Império Romano, essas bibliotecas particulares passaram a ser um aspecto decorativo do domus de alguns cidadãos romanos que, apesar do esforço - capitaneado por Cícero - de tradução para o latim dos clássicos, não tinham o hábito de ler. Sêneca e Plínio, o moço, lamentavam a decadência do interesse pela leitura, tanto individual (nas bibliotecas particulares), quanto as leituras públicas, realizadas nos palácios e nas bibliotecas, como a de Alexandria.4 Em outros momentos, a constituição de bibliotecas teve características diferenciadas. Se pensarmos nos conventos medievais ou nas grandes bibliotecas do século XVII, teremos dois universos intelectuais distintos com o fator comum de que a palavra escrita tinha um valor crucial, qual seja o de que o destino das idéias estava intimamente ligado “à precariedade da página escrita”.5 No caso da Itália do início do século XVII, as grandes bibliotecas, como a Ambrosiana de Milão, a Vaticana e a do Colégio Romano, serviam “como instrumento de monopólio intelectual [...] [e] exprimiam a força e o prestígio da cultura humanística e teológica tradicional que forjava novos instrumentos de erudição e exegese: as armas mais modernas para sustentar em todos os fronts intelectuais o esforço da reforma católica e a luta religiosa”.6 Contudo, ao mesmo tempo que as bibliotecas serviam como “pontos fortes da cultura teológica e humanista”, elas eram também o instrumento por excelência da formação de novas idéias. Assim, à riqueza das grandes bibliotecas do período corresponde a perseguição e o ocultamento da palavra escrita considerada perigosa. Através da constante patrulha (buscando livros novos com os viajantes e os correios que chegam à cidade, por exemplo) o Santo Ofício, auxiliado pela Congregação do Índex, tentava controlar a circulação de livros. Seu sucesso é relativo, se considerarmos a ampla circulação que livros proibidos tiveram, principalmente na Itália. Pensemos nas obras proibidas (inclusive um exemplar do Decameron) que o moleiro estudado por Carlo Ginzburg lera antes de ser processado pela Inquisição.7

Mesmo com essas restrições, as bibliotecas de então contavam com diversas obras que com freqüência chocavam-se com os interesses da Igreja Católica tridentina. Se os jesuítas “cobriam o mapa da Europa com bibliotecas muito atualizadas” nas quais, inspirados na Biblioteca Vaticana, eles modelavam uma súmula do saber (a ratio studiorum), leigos, reunidos em academias como a dos Lincei - que incluía Galileu Galilei - também aspiravam instituir bibliotecas científicas por várias cidades na Itália. Esses, responsáveis pela renovação do pensamento que a obra de Galileu representava, inspiravam suas bibliotecas naquela do mentor dessa academia, o príncipe Federico Cesi. Esse intelectual menor do período tinha características extraordinárias que proporcionaram-lhe a possibilidade de realizar aquilo que “todos, de Bacon a Campanella, sonhavam”, criar academias, bibliotecas e edições - como as das obras de Galileu.8 Similarmente, os clubes de leitura tiveram um importante papel na difusão de idéias por toda a Europa dos séculos XVIII e XIX,9 facilitando que um maior número de leitores tivesse acesso a uma maior quantidade de obras.

Devemos manter em mente que existem diferenças óbvias ligadas à equação tempo/espaço ao relacionarmos os estudos mencionados acima com a situação específica deste estudo, que refere-se às bibliotecas brasileiras durante a segunda metade do século XIX e as primeiras três décadas do século XX. Contudo, podemos pensar na instituição e manutenção destas bibliotecas no Brasil como forma de obtermos acesso a diferentes padrões culturais pelo estudo sistemático da História da Leitura, como nos exemplos historiográficos mencionados acima. Algumas dessas bibliotecas apresentam conjuntos de regras de comportamento que, ao olhar contemporâneo, causam estranhamento. Certas proibições – como a de manusear os livros, de usar chapéus e fumar na biblioteca, por exemplo10 – ajudam a definir universos representativos em torno do livro e da biblioteca. Essa reflexão pode auxiliar o historiador a compreender melhor a leitura no passado.

O que se propõe neste texto é trabalhar a partir de um corpus de fontes que inclui regulamentos, estatutos, regimentos e normas de funcionamento, além de prescrições anotadas por diretores, bibliotecários e funcionários das bibliotecas.11 Deste universo de fontes, procurar-se-á observar o conjunto de representações elaborados em torno da própria idéia de biblioteca como local de transformação civilizadora, idealizada por elites brasileiras voltadas, por sua vez, para projetos nacionais, em geral europeizantes. Nesse sentido, interessam tanto as justificativas para a criação das bibliotecas quanto as delimitações de códigos de vestimenta e comportamento dentro dessas instituições, tentando compreender como se estabelecem campos de “respeito” aos recintos e, por conseguinte, aos livros ali contidos.

Da necessidade de instalação e criação de bibliotecas


No período em foco, o Brasil viu surgir uma grande quantidade de bibliotecas – promovidas pelo Estado ou de iniciativa privada – que permitem pensarmos em categorias mais gerais de afirmação de cultura erudita. Para abarcamos este processo, partimos das análises de Franklin Baumer sobre essa cultura como sendo voltada fundamentalmente para a idéia de civilização ocidental e informada pela noção de progresso.12 Nesse contexto, podemos pensar a criação – e manutenção – de bibliotecas como “ritos de instituição”, definidos por Bourdieu como a naturalização de matrizes civilizatórias arbitrárias.13

Seja como parte da tentativa de criar nacionalidade e identidades brasileiras, seja como afirmação da superioridade de um modelo político sobre seu antecessor (o republicano sobre o monárquico, por exemplo), seja ainda como construção em direção à civilização, a biblioteca no Brasil – bem como na Europa – foi dotada de uma aura redentora verificável na documentação. Em um outro trabalho, ocupei-me dos atos de criação considerados no contexto do progresso, verificando mais do que uma simples associação de idéias.14 Aqui, tentaremos ver quais são as motivações alegadas para a criação e manutenção de bibliotecas.

As associações em torno da criação de bibliotecas afirmam serem impulsionadas por aspirações bastante grandiosas, como “O desejo de promover o adiantamento das sciencias, das artes, e da industria, de facilitar a instrucção geral” manifestada pelo diretor da Sociedade Litteraria do Rio de Janeiro em seu discurso de abertura da Assembléia Geral de criação dessa instituição.15 Na mesma linha de raciocínio, a Biblioteca Pública do Paraná (BPPR) tinha “por fim a propagação dos conhecimentos humanos [...] Prestando gratuitamente aos amigos das lettras meios de estudos proficuos e variados”.16 Esses altos ideais, ligados à noção de educação universal, por sua vez intimamente associada às idéias de progresso, são comumente usados como justificativa ou legitimação para a criação dessas instituições. Não obstante, outros ideais mais práticos – embora devam ser vistos a partir do mesmo conjunto ótico – informam a necessidade de criar-se bibliotecas. Em 1858, a Bibliotheca da Marinha ampliava sua ação criando pequenas filiais nos próprios navios. Além de educar, elas deveriam evitar que os marinheiros se aplicassem a formas de entretenimento repreensíveis e ajudar os oficiais a vencerem a preguiça:

Já o amor dos livros se espalha pelos navios com a installação das Bibliothecas Parciaes e é de presumir que o nosso marinheiro, lendo romances maritimos, viagens e episodios navaes, va insensivelmente trocando por esta distração outras que a disciplina nem sempre consegue reprimir. O oficial possue agora os meios de aprofundar ao (sic.) ramos prediletos de sua profissão, e, tendo ao seu alcance tantos livros bons, vencerá a natural indolencia do espirito para os estudos serios, sem que a desculpe com a impossibilidade de obter uma bibliotheca.17

Na mesma vertente, o Club Litterario de Paranaguá se define, em 1914, como uma “organização litteraria e recreativa”, cujos principais fins eram tanto educativos quanto de entretenimento:

a) manter uma bibliotheca em condições de facilitar a leitura de obras litterarias e scientificas, de jornaes, revistas e outras publicações. b) manter aos socios, toda a especie de diversões, como sejam: Dança, musica, leitura, conferencia, jogos licitos e outros, procurar por meio de correspondencia continua, a approximação de associações congeneres deste e de outros Estados, mantendo permuta de livros, jornaes, revistas e publicações.18

Reunindo essas características, as bibliotecas exerciam sua influência nos projetos civilizadores das elites nacionais. Pode-se também perceber alguns elementos desses projetos nas definições sobre as restrições de acesso às bibliotecas, pensadas por seus idealizadores ao elaborarem suas regulamentações.

Do público


As serem criadas as bibliotecas, definia-se também a quem elas deveriam atender. Na categoria de bibliotecas públicas, que seriam, ao menos em tese, abertas a todos, algumas restrições se impunham. No caso da Bibliotheca Nacional e Pública da Corte (BNPC), por exemplo, durante todo o período sob análise, seriam atendidas “todas as pessoas que se apresenta[ss]em devidamente vestidas”.19 A mesma regra se aplicava à Bibliotheca da Câmara Municipal do Município Neutro, que era “franca às pessoas decentemente vestidas”.20 No caso da BPPR, embora em 1858 oferecesse entrada franca a “todas as pessoas a [sic.] leitura ou exame de alguma obra”,21 em 1886, o novo regulamento da instituição, outorgado com o intuito de reformulá-la, previa que “as pessoas que frequentarem a Bibliotheca deverão apresentar-se vestidas com decência [...]”.22

Podemos pensar que esta regra, repetida e reiterada serviria como excludente de grande parte da população brasileira do século XIX, que não poderia preencher os requisitos da “decência” de trajes, por serem pobres demais, por um lado, ou por serem escravos, por outro. De qualquer modo, esta parcela majoritária da população não estava incluída em projetos civilizadores nas condições em que se apresentavam ao olhar público, mas sim como o material sobre o qual a civilização deveria agir. Vale a pena notar a absoluta ausência de qualquer referência à escravidão nos documentos analisados, demonstrando aquilo que Lilia Moritz Schwarcz caracteriza como a auto-imagem nacional do Segundo Império, a ser perpetuada como “européia mas ‘romanticamente nacional’, tradicional mas ligeiramente moderna, rica, sábia, cristã, catequizadora, vitoriosa, conquistadora. Escravocrata? Nem pensar...”23

Havia um segundo tipo de biblioteca que restringia o acesso a seus acervos a partir de pressupostos profissionais. As bibliotecas militares eram geralmente corporativas, embora permitissem a eventual consulta de “paisanos”. Assim, a Bibliotheca da Marinha estabelecia que:

É permittido aos officiaes Generaes d’Armada, e aos chefes dos differentes departamentos da repartição da marinha o requisitarem, por officios dirigidos ao official encarregado da Bibliotheca, os livros que quizerem ler fora dela. A excepção desses á ninguém mais se emprestará livro algum fora da Bibliotheca, sem ordem superior.24

Da mesma forma, a Bibliotheca do Exercito era “destinada especialmente aos officiaes e praças de pret [sic.]”25 mas permitia, como a sua congênere da Marinha, que as obras fossem consultadas in loco por “todos os empregados do ministerio da Guerra, bem como ao publico em geral”.26

Já as bibliotecas particulares, como o Gabinete Portugues de Leitura e a Bibliotheca Fluminense restringiam o acesso a seus associados “subscritores”, que pagavam taxas de 12$rs ao ano para consultarem e emprestarem as obras contidas nesses acervos. Porém, enquanto o Gabinete aceitava “subscritores de qualquer nacionalidade e sexo” desde 1854,27 a Fluminense limitava-se “só para nacionaes”,28 em 1848. Menos de uma década depois, no entanto, esta mesma biblioteca aboliu suas restrições, aceitando “[...] assignaturas de qualquer nação e sexo [...]”.29

A partir dessas definições, podemos caracterizar os prováveis leitores dentre a população como sendo 1; letrados ou – no mínimo - alfabetizados, 2; capazes de arcar com os custos das subscrições (no caso das bibliotecas e clubes particulares) e 3; desejosos de conhecimento “sadio” e civilizado, como pregado pelos defensores da idéia de progresso.

Com a honrosa exceção das bibliotecas militares, que pretendiam incluir a soldadesca e os marinheiros embarcados nesse universo de leitores em potencial, as outras instituições demonstram estar trabalhando em um plano antes normativo que descritivo no sentido em que os documentos expressam uma “vontade” civilizadora. mesmo levando em conta a especificidade das fontes, que são normativas por definição. Estes documentos produzem também uma falsa noção de que o império tropical (e seu sucedâneo republicano) eram sociedades amplamente letradas ou, pelo menos, amplamente devotadas às letras e ao universo da leitura.


Da consulta aos livros


Conquanto o público fosse restrito às camadas letradas da população, mesmo estas precisavam ser disciplinadas no contato com os livros, já que estes, por sua vez, guardavam ainda uma aura de preciosidade onde quer que estivessem armazenados. Em nenhuma das bibliotecas estudadas, os leitores tinham permissão para escolher os livros que desejassem, diretamente das estantes. Na BNPC, não era “permittido a qualquer pessoa de fóra tirar livro algum das estantes, nem pôl-o; mas dirigir-se aos Empregados que para esse fim estiverem presentes.”30 De forma semelhante na BPPR, nenhuma pessoa podia “tirar livros ou outros quaisquer objectos das estantes, e em tão pouco repol-os em seu lugar”, sendo também proibido “entrar na Bibliotheca com livros, e ainda mais sahir com elles”.31 Um último exemplo desse distanciamento entre leitores e as formas de organização das bibliotecas é dado pelo regimento do Gabinete Português que proibia “expressamente [...] aos leitores e visitantes [...] mexerem nas estantes; deverão pedir ao guarda qualquer obra que pretenderem ler ou consultar, e devolver-lha depois, a fim de não transtornar-se a ordem da sua collocação”.32 No caso da biblioteca pública paranaense, o regimento de 1886 era ainda mais incisivo, proibindo inclusive o “estar examinando os livros nas estantes”, mas abrindo uma exceção semanal “ás quintas feiras de cada semana, em que será consentido esse exame, sempre discreto e pouco demorado”.33 Naquela instituição, a forma de solicitação de livros era prosaica, demonstrando a precariedade dos serviços:

todo aquele que precisar de qualquer livro para leitura ou consulta, deverá fazer seu pedido por escripto n’um quadradinho de papel ou boletim que o zelador lhe apresentar.34

Poucas instituições permitiam o empréstimo de obras para fora das salas de leituras das instituições. Mesmo nesses casos, havia regras minuciosas controlando os leitores. No caso do Gabinete Português, havia a necessidade de assinar “com o seu nome e firma por extenso no registro para esse fim destinado. Os subscriptores assignarão da mesma forma em outro livro, sucessivamente, sujeitando-se ás disposições deste regulamento, que lhes são applicaveis”.35 Neste tocante, o regulamento da Biblioteca do Exército é particularmente minucioso:

Art. 13. o Os leitores e visitantes da bibliotheca receberão do porteiro, ao entrar, uma senha numerada, que apresentarão ao ajudante do bibliothecario, e no boletim que por este lhes for dado inscreverão o numero da senha, o titulo da obra que desejarem consultar, e bem assim a sua assignatura e morada.

Art. 14. o A vista do referido boletim o ajudante do bibliothecario procurará nos catalogos a obra pedida; se esta existir na casa, inscreverá no mesmo boletim as condições precisas para que o guarda a encontre; e se não houver, fará esta declaração por escripto e entragará ao leitor a sua senha numerada, que sera restituida ao porteiro na occasião da sahida.

[...]


Art. 16. o Em um só boletim não se poderá requisitar duas obras, nem poderao ser dadas ao leitor a um tempo mais de tres, salvo licença expressa do bibliothecario. Outrossim não será permittido fazer pedidos meia hora antes do encerramento dos trabalhos.

Art. 17. o Os livros raros só serão confiados à leitura em uma mesa especial, proxima da do bibliothecario ou seu ajudante, de modo que possa ser por qualquer destes exercida as necessarias inspecções. Os manuscriptos e estampas serão, sem excepção, prestados ao exame dos visitantes, em presença de qualquer dos mencionados empregados.

Art. 18. o Na mesa dos livros raros só serão lidas também as obras que contiverem estampas, não podendo as pessoas que as consultarem servir-se de tinta, e sendo apenas permittido tomar nota ou fazer dezenhos a lapis.

Art. 19. o Ninguem poderá tirar copia dos manucriptos existentes na Bibliotheca, nem imprimil-os, sem a expressa licença do Ministerio da Guerra, mediante condições que forem ajustadas.

Art. 20. o Havendo manuscriptos reservados, só poderão ser patentes ao leitor por ordem expressa do Ministerio da Guerra e quando a taes manuscriptos se referir a licença para tirar copia, se terá todo o cuidado em preserval-os de qualquer acidente.

Art. 21. o Para fazer extracto dos manuscriptos communs ou tirar copia de alguns trechos somente, bastará permissão do bibliothecario.36

No final do período estudado, o Club Litterario de Paranagua, estabelecia, em 1914, que “para fóra do Club só poderão sahir romances, podendo o sócio tel-os em seu poder durante oito dias, contados da data do recebimento. Findo este prazo, e não tendo recolhido o livro ou livros, pagará o importe da obra e mais 15%.”, prevendo também que os sócios só poderiam retirar um livro de cada vez.37

Este conjunto de normas revela que o universo da leitura em bibliotecas era regido simultaneamente por um endeusamento dos livros e das bibliotecas e pelas tentativas civilizadoras, das quais essas instituições eram tanto fruto quanto índice. Mas, em se tratando de uma sociedade com diferentes formas de hierarquização, havia exceções, consideradas importantes o suficiente para constarem dos códigos de normas. O Gabinete Português previa que suas subscritoras (e os “homens que tiverem algum impedimento”) não precisavam sair do recôndito doméstico para retirarem livros, podendo “assignar em sua casa, para o que o guarda, informado desse motivo pela pessoa interessada, lhe enviará o mencionado livro de registro pelo continuo ou outra pessoa de sua confiança”.38 No caso da BPPR, as exceções diziam respeito ao status social do leitor, pois “pessoas de distincção e em viagem” podiam quebrar as regras estabelecidas quanto ao horário de funcionamento e ao exame das obras nas estantes.39


Dos comportamentos.


Em geral, as bibliotecas estudadas apresentavam conjuntos de regras bastante específicas quando às formas de acesso aos livros. Porém, em alguns casos, essas regras excediam a mera regulamentação da leitura para incidir sobre os comportamentos dos usuários.

Se pensarmos que a grande revolução ocidental no que diz respeito à leitura é a passagem daquela leitura à meia voz para a leitura silenciosa,40 ocorrida ao longo dos séculos XVII e XVIII, é fácil compreender porque a proverbial exigência de silêncio quanto à leitura estava presente em quase todos documentos pesquisados. Ela vinha, geralmente, acompanhada de apelos à “decência” e ao “decoro”, como aqueles citados anteriormente. É este também o caso do Gabinete Português, que demandava de seus leitores o “absoluto silencio, e a decencia que costuma haver em estabelecimentos de semelhante natureza”.41 É também o caso da Bibliotheca do Exército, que exigia que “As pessoas que frequentarem a bibliotheca deverão apresentar-se decentemente vestidas bem como guardar todo decoro e silencio indispensaveis em um estabelecimento desta ordem”.42 De forma semelhante, ainda, na BPPR os leitores deveriam “apresentar-se vestidos com decência, sendo obrigados a guardar o maior silêncio e discrição” enquanto estivessem nas salas destinadas à leitura.43

As formas de entendimento da decência e do decoro são dadas por alguns regimentos ao detalhar as proibições. Além das restrições já elencadas, a BPPR previa ser rigorosamente proibido fumar dentro do estabelecimento, bem como “conservar-se o chapéo na cabeça”.44 No caso da Bibliotheca do Exército, a decência, expressa de forma mais completa que o simples código de vestuário, fica patente na apresentação feita ao Catálogo de 1885:

Com effeito, as vezes que alli estive causou-me certa impressão ver na sala dos soldados muitos delles lendo tranquilamente durante as horas que lhes são concedidas para descanço, empregando assim melhor o tempo do que nas tabernas ou em outros pontos. [...]

A substituição dos divertimentos comuns ao povo pela ilustração através da leitura. Eis ai a noção de decoro buscada. Silêncio, roupas adequadas, comportamentos sóbrios e reverência aos livros eram objetivos a serem atingidos pela sociedade, e as bibliotecas – com seus idealizadores e suas regras – ajudavam a criar os ritos necessários para a instauração e perpetuação desses objetivos. Esses locais privilegiados da leitura ocupavam, assim, posição de destaque na vida das pessoas, tanto aquelas envolvidas com as instituições que os mantinham quanto outras, interessadas no lazer, na informação ou na ritualização civilizatória que tais espaços podiam proporcionar.

Um exemplo final dessas relações processuais pode ser visto no regimento da Biblioteca do Instituto Neo Pitagórico de Curitiba, que estabelecia múltiplas interdições:

Art. 2. Não é permitido:



  1. cuspir no pavimento;

  2. fumar, comer ou beber no interior do edifício;

  3. palestrar, altercar, discutir;

  4. toccar nos livros das estantes;

  5. annotar os livros, assignalar as paginas ou marcar as folhas;

  6. estar folheando o volume, pedido ao bibliotecario, por mero passa-tempo [...].45

O cumprimento de tantas normas civilizacionais era reforçado pela ação dos funcionários – porteiros e bibliotecários, em geral – a quem competia: “Fazer a polícia da casa, admoestando, aos que perturbarem a ordem, para que se corrijam, não permitindo de modo algum discussões de qualque natureja que sejão”,46 bem como pelos próprios leitores e freqüentadores que, embora alvos das normas, participavam em sua aplicação.

Todas essas instituições e iniciativas tinham como objetivo claro a leitura, ou a possibilidade da leitura, das obras contidas em acervos e coleções. Clubes, escolas e bibliotecas, manifestavam em suas organizações a necessidade de um local adequado para guarda e consulta de livros, local este freqüentemente dotado de uma aura sagrada ou semi-sagrada. O acesso a essas bibliotecas era restrito àquela parte da população devidamente alfabetizada, no caso da Biblioteca Pública, ou que comungasse com os interesses ou necessidades de empregados, sócios, alunos, ou qualquer que fosse a categoria agrupada. De qualquer forma, a presença das bibliotecas e clubes revela um fluxo de leituras e leitores circulando naquela sociedade, permitindo conhecer obras que nem todos tinham, ou tinham possibilidade de ter, em casa.



1 CANFORA, Luciano. Lire a Athènes et a Rome. Annales E.S.C., 44(4). jul./aut., 1989, p. 927.

2 CANFORA, Luciano. A biblioteca desaparecida; histórias da biblioteca de Alexandria. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

3 CANFORA, Lire a Athènes...., p. 930.

4 CANFORA, Lire a Athènes...., p. 936.

5 REDONDI, Pietro. Galileu herético. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 91-92.

6 REDONDI, Galileu ...p. 91.

7 GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes; o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 114.

8 REDONDI, Galileu... p. 94.

9 Ver: DARNTON. Edição e sedição. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. Ver também, para os clubes de leitura no Brasil Império, SCHAPOCHNIK, Nelson. Contextos de leitura no Rio de Janeiro do Século XIX: salões, gabinetes literários e bibliotecas. In: BRESCIANI, Stella. Imagens da cidade; séculos XIX e XX. São Paulo: ANPUH/SP; Marco Zero; Fapesp, 1994. p. 147-162.

10 Regimento da Bibliotheca Pública do Paraná, 1886. Art. 17o, par. único. Gazeta Paranaense, 24/mar./1886, p. 2.

11 Neste ponto da pesquisa, coletamos documentação relativa a bibliotecas nos estados do Paraná e Rio de Janeiro. O projeto original prevê a inclusão das bibliotecas paulistas. Projeto de pesquisa “As normas da leitura; a organização de bibliotecas no Brasil – século XIX”. Universidade Tuiuti do Paraná.

12 BAUMER, Franklin. O pensamento europeu moderno; séculos XIX e XX Lisboa: Edições 70, s./d., 2 volumes.

13 BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas lingüísticas; o que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998.

14 Ver. DENIPOTI, Cláudio. Templos do progresso; instituições de leitura no Brasil oitocentista. 2003, mimeo.

15 Estatutos da Sociedade litteraria do Rio de Janeiro. Typographia Universal de Laemmert. Rua do Lavradio, no 53, 1843, p. 3.

16 PARANÁ, Leis e diretrizes (1857-58). REGULAMENTO nº 2 de 23 de Abril de 1858, art. 2º

17 CATALOGO methodico dos livros existentes na bibliotheca da marinha organizado segundo o systema de mr. brunet. rj, ti. de francisco de paula brito, 1858, p. 1. http://www.unicamp.br/iel/memoria/Acervo/index.htm, consultado em 12 de junho de 2003.

18 Estatutos do Club Litterario de Paranaguá. Curityba, Typographia d’ “A Republica”: 1914, p. 3.

19 Almanak administrativo, mercantil e industrial do Rio de Janeiro para o anno bissexto de 1844. Rio de Janeiro: Casa de Eduardo e Henrique Laemmert, 1843, p. 72; Almanak administrativo, mercantil e industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro para o anno de 1868. Rio de Janeiro: E. & H. Laemmert, 1868, p 91.

20 ALMANACK LAEMMERT, 1884, p. 1250.

21 PARANÁ, Leis e diretrizes (1857-58). [...] Art. 15.

22 Regimento da Bibliotheca Pública do Paraná, 1886. Art. 17o. [...], p. 2-3.

23 SCWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador; D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo : Companhia das Letras, 1998, p. 187. Ver também: PENA, Eduardo Spiller. Pagens da casa imperial; jurisconsultos, escravidão e a lei de 1871. Campinas: Editora da UNICAMP, 2001, particularmente o primeiro capítulo, onde há menção à ação de Teixeira de Freitas, que se recusa sistematicamente a incluir as leis relativas aos escravos nos códigos legislativos, em nome de um progresso inevitável que apagaria as marcas da escravidão no Brasil.

24 CATALOGO methodico dos livros existentes na bibliotheca da marinha [...], p. 2.. ALMANAQUE Administrativo, mercantil e industrial da corte e província do Rio de Janeiro para o anno de 1865. Rio de Janeiro: Eduardo & Henrique Laemmert, 1865, p. 222.

25 Catálogo da bibliotheca do exército brazileiro precedido de seu regulamento e leis que lhe dizem respeito acompanhado de um índice alphabetico dos autores organizado pelo bibliotecário Joaquim Alves da Costa Mattos, official da Ordem da Rosa, cavalleiro da de Christo, condecorado com as medalhas de mentor militar das Ca[??], do Estado oriental do Uruguay de 1864 – 1865, R.J., Imprensa Nacional, 1885. p. V http://www.unicamp.br/iel/memoria/Acervo/index.htm, consultado em 12 de junho de 2003.

26 DECRETO N. 8336 – de 17 de Dezembro de 1881 ( . . . )Regulamento para a bibliotheca do Exercito, a que se refere o decreto desta data. Art. 1.o p. IX. http://www.unicamp.br/iel/memoria/Acervo/index.htm, consultado em 12 de junho de 2003.

27 ALMANAK administrativo mercantil e industrial da corte e provincia do Rio de Janeiro para o anno de 1854. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1854, p. 318.

28 ALMANAK administrativo mercantil e industrial da corte e provincia do Rio de Janeiro para o anno bissexto de 1848. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1848, p. 273.

29 ALMANAK administrativo mercantil e industrial da corte e provincia do Rio de Janeiro para o anno de 1855. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1855, p.315-316.

30 ALMANACK Administrativo, [...] 1843, p. 73.

31 PARANÁ, Leis e diretrizes (1857-58). [...], arts. 17 e 18.

32 CATALOGO dos livros do Gabinete Portugues de Leitura no rj seguido de um supplemento das obras entradas no gabinete depois de começada a impressão. RJ, Typ. Commercial de F. de º Q. Regadas, Praça da Constituição, MDCCCLVIII. art. 15, p. V. http://www.unicamp.br/iel/memoria/Acervo/index.htm, consultado em 12 de junho de 2003,.

33 Regimento da Bibliotheca Pública do Paraná, 1886 (Manuscrito).Arts 51.

34 Idem.Art. 18.

35 CATALOGO dos livros do Gabinete Portugues de Leitura [...]. art. 19, p. V.

36 Catálogo da bibliotheca do exército brazileiro [...] pp. X-XI.

37 Estatutos do Club Litterario de Paranaguá. [...] arts. 4o e 5o, p. 22.

38 CATALOGO dos livros do Gabinete Portugues [...]. art. 19, p. V.

39 Regimento da Bibliotheca Pública do Paraná, 1886 [...].Art. 51, par. único; art. 16, par. 4o.

40 CHARTIER, Roger. Culture écrite et societé; L´ordre des livres (XIVe – XVIIIe siècles). Paris : Albin Michel, 1996.

41 CATALOGO dos livros do Gabinete Portugues de Leitura [...] art. 16, p. V.

42 DECRETO N. 8336 – de 17 de Dezembro de 1881 [. . .]. Art. 12. o p. X.

43 Regimento da Bibliotheca Pública do Paraná, 1886 [...].Arts. 17.

44 Id. Ibid

45 Regulamento interno da bibliotheca do Instituto Neo-Pithagorico. Myrtho e Acacia III (1 e 2), primavera e estio, 1918, p. 126-7.

46 PARANÁ, Leis e diretrizes (1857-58). [...]. Cap II, Art. 12, Par.6o.



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