A glória do Criador nos esplendores da criação



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Sumário/Roteiro


  1. O humano nos textos sagrados

(Link remetendo para a) Seleção de textos

A criação do homem

A glória do Criador nos esplendores da criação


  1. A paidéia grega e a formação do homem

    1. O humano na tragédia grega

Seleção de textos

Ésquilo

Sófocles

    1. A concepção do humano em Platão

Seleção de textos

O mito do Prometeu e a origem do homem

A alma, a queda, o céu platônico, a reminiscência

Alegoria da caverna. As ciências e a formação dos filósofos

    1. A concepção do humano em Aristóteles (parei aqui)

Seleção de textos

O homem como animal cívico

O homem e o desejo de conhecer

O homem e a felicidade


O homem e a virtude

O homem como animal social e político

3 O humano no pensamento estóico

Seleção de textos

Sobre a natureza humana

Sobre a convivência humana

O homem e as suas circunstâncias

Escolher um homem de bem como modelo

O que é um homem de bem?

A virtude é o sumo bem

Cultura não é o mesmo que sabedoria

A convivência humana

O homem, cidadão do mundo

4 O humano no pensamento medieval

O humano em Santo Agostinho (imagem)

Seleção de textos

O lugar do homem na escala dos seres

5. O humano no pensamento renascentista

O Humanismo Renascentista

5.1 Dante Alighieri

A natureza humana

O homem e a monarquia universal

5.2 Francesco Petrarca



Da ação humana

5.3 Marsílio Ficino

Do homem

Da alma humana

Do corpo e da alma humanas

Da felicidade

5.4 Giovanni Pico della Mirandola

A dignidade humana



5.5 Leon Hebreu

O amor faz o homem

5.6 Erasmo de Rotterdam

Elogio da loucura

Educação do príncipe cristão

5.7 Juan Luis Vives

Da alma e do engenho humanos

5.8 Michel de Montaigne

Da desigualdade entre os homens

5.9 Giordano Bruno

A Idade de Ouro e as virtudes civis

5.10 Comênio


O homem tem necessidade de ser formado para que se torne homem

Temática 3. Concepções filosóficas do ser humano
Filosofia da Educação – Antropologia Pedagógica
(Organização de Luiz Carlos Bombassaro)
1. O humano nos textos sagrados

Quem é o homem? Essa pergunta tem uma longa e profunda efetividade histórica. Formulada já no alvorecer da cultura ocidental, ainda continua sem uma resposta plenamente esclarecedora e definitiva, permanece uma pergunta em aberto, a suscitar em cada época o questionamento próprio da experiência do pensar. Para quem quer compreender o alcance histórico e conceitual dessa pergunta, impõe-se uma reconstrução sistemática dos textos que marcaram a mentalidade do ocidente. Assim, todo aquele que deseja compreender o sentido da indagação pelo homem no pensamento ocidental há de ter presente a decisiva influência dos textos sagrados elaborados e assumidos pela tradição judaico-cristã. Nesse sentido, uma das primeiras respostas – e possivelmente aquela que teve a maior efetividade histórica em nossa cultura – é apresentada no Gênesis. Nele encontra-se uma concepção muito bem determinada: o homem é apresentado como obra suprema do Criador, cuja glorificação será um tema freqüente nos textos sagrados. Porém, ao mesmo tempo, é o Gênesis que fornece a descrição originária da verdadeira condição humana, ao descrever a queda e a expulsão do paraíso, que pode ser interpretado como o momento da descoberta do homem por si mesmo e a do início da história.




Seleção de textos
A criação do homem
“Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra”. Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. Deus os abençoou: “Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. Deus disse: “Eis que vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas quem contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda erva verde por alimento”.

E assim se fez. Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o sexto dia.” (Gen. 1, 26-31)1



A glória do Criador nos esplendores da criação

“Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!

Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus.

Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor

Que confunde vossos adversários,

E reduz ao silêncio vossos inimigos.

Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos,

A lua e as estrelas que lá fixastes:

“Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele?

Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?

Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos,

De glória e honra o coroastes.

Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos,

Vós lhe submetestes todo o universo:

Rebanhos e gados,

E até os animais bravios.

Pássaros do céu e peixes do mar,

Tudo o que se move nas águas do oceano.

Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!” (Salmo 8)2
Questão: Em nosso dia a dia lidamos com o ser humano, e você, já parou para pensar qual a sua concepção de ser humano? Com os elementos destes textos (lição 1), o que tu pensas sobre quem é esse que está nas nossas salas de aula?
2. A paidéia grega e a formação do homem
A concepção do humano entre os gregos está estreitamente vinculada ao modo como eles compreendem o processo de formação cultural e transmissão dos valores constitutivos de sua visão de mundo. No centro dessa concepção emerge a questão da educação, de tal modo que, entre os gregos, somente é possível compreender o humano através da educação. Nesse sentido, está claro para os gregos que o processo de formação do homem, o que era chamado de paidéia, constitui a própria razão de ser da cultura grega. O esforço humano em compreender a si mesmo e em superar-se na direção de um aperfeiçoamento revela-se o elemento decisivo na criação de uma concepção do humano que dificilmente iria encontrar uma forma mais elaborada na história do pensamento ocidental.
“A posição específica do Helenismo na história da educação humana depende da mesma particularidade da sua organização íntima – a aspiração à forma que domina tanto os empreendimentos artísticos como todas as coisas da vida – e, além disso, do seu sentido filosófico do universal, da percepção das leis profundas que governam a natureza humana e das quais derivam as normas que regem a vida individual e a estrutura da sociedade. Na profunda intuição de Heráclito, o universal, o logos, é o comum na essência do espírito, como a lei é o comum na cidade. No que se refere ao problema da educação, a consciência clara dos princípios naturais da vida humana e das leis imanentes que regem as suas forças corporais e espirituais tinha de adquirir a mais alta importância.

Colocar estes conhecimentos como força formativa a serviço da educação e formar por meio deles verdadeiros homens, como o oleiro modela a sua argila e o escultor as suas pedras, é uma idéia ousada e criadora que podia amadurecer no espírito daquele povo artista e pensador. A mais alta obra de arte que o seu anelo se propôs foi a criação do Homem vivo. Os Gregos viram pela primeira vez que a educação tem de ser também um processo de construção consciente.

‘Constituído de modo correto e sem falha, nas mãos, nos pés e no espírito’, tais são as palavras pelas quais um poeta grego dos tempos de Maratona e Salamina descreve a essência da virtude humana mais difícil de adquirir. Só a este tipo de educação se pode aplicar com propriedade a palavra formação, tal como a usou Platão pela primeira vez em sentido metafórico, aplicando-a à ação educadora (Rep. 377b; Leis 671e). A palavra alemã Bildung (formação, configuração) é a que designa do modo mais intuitivo a essência da educação no sentido grego e platônico. Contém ao mesmo tempo a configuração artística e plástica, e a imagem, ‘idéia’, ou ‘tipo’ normativo que se descobre na intimidade do artista. Em todo lugar onde esta idéia reaparece mais tarde na História, ela é uma herança dos Gregos, e aparece sempre que o espírito humano abandona a idéia de um adestramento em função de fins exteriores e se reflete na essência própria da educação. O fato de os Gregos terem sentido esta tarefa como algo grandioso e difícil e se terem consagrado a ela com ímpeto sem igual, não se explica nem pela sua visão artística nem pelo seu espírito ‘teórico’. Desde as primeiras notícias que temos deles, encontramos o homem no centro do seu pensamento. A forma humana dos seus deuses, o predomínio evidente do problema da forma humana na sua escultura e na sua pintura, o movimento conseqüente da filosofia desde o problema do cosmos até o problema do homem, que culmina em Sócrates, Platão e Aristóteles; a sua poesia, cujo tema inesgotável desde Homero até os últimos séculos é o homem e o seu duro destino no sentido pleno da palavra; e, finalmente, o Estado grego, cuja essência só pode ser compreendida sob o ponto de vista da formação do homem e da sua vida inteira: tudo são raios de uma única e mesma luz, expressões de um sentimento vital antropocêntrico que não pode ser explicado nem derivado de nenhuma outra coisa e que penetra todas as formas do espírito grego. Assim, entre os povos, o grego é o antropoplástico.

Podemos agora determinar com maior precisão a particularidade do povo grego frente aos povos orientais. A sua descoberta do Homem não é a do eu subjetivo, mas a consciência gradual das leis gerais que determinam a essência humana. O princípio espiritual dos Gregos não é o individualismo, mas o ‘humanismo’, para usar a palavra no seu sentido clássico e originário. Humanismo vem de humanitas. Pelo menos desde o tempo de Varrão e de Cícero, esta palavra teve, ao lado da acepção vulgar e primitiva de humanitário, que não nos interessa aqui, um segundo sentido mais nobre e rigoroso. Significou a educação do Homem de acordo com a verdadeira forma humana, com o seu autêntico ser (Cfe. Aulo Gélio, Noct. Att. XIII, 17). Tal é a genuína paidéia grega, considerada modelo por um homem de Estado romano. Não brota do individual, mas da idéia. Acima do Homem como ser gregário ou como suposto eu autônomo, ergue-se o Homem como idéia. A ela aspiram os educadores, bem como os poetas, artistas e filósofos. Ora, o Homem, considerado na sua idéia, significa a imagem do Homem genérico na sua validade universal e normativa. Como vimos, a essência da educação consiste na modelagem dos indivíduos pela norma da comunidade. Os Gregos foram adquirindo gradualmente consciência clara do significado deste processo mediante aquela imagem do Homem, e chegaram por fim, através de um esforço continuado, a uma fundamentação, mais segura e mais profunda que a de nenhum povo da Terra, do problema da educação.

Este ideal de Homem, segundo o qual se devia formar o indivíduo, não é um esquema vazio, independente do espaço e do tempo. É uma forma viva que se desenvolve no solo de um povo e persiste através das mudanças históricas. Recolhe e aceita todas as transformações do seu destino e todas as fases do seu desenvolvimento histórico. O humanismo e o classicismo de outros tempos ignoraram este fato, ao falarem da ‘humanidade’, da ‘cultura’, do ‘espírito’ dos Gregos ou dos antigos, como expressão de uma humanidade intemporal e absoluta. O povo grego transmitiu, sem dúvida, à posteridade, de forma imorredoura, um tesouro de conhecimentos imperecíveis. Mas seria um erro fatal ver na ânsia de forma dos Gregos uma norma rígida e definitiva. A geometria euclidiana e a lógica aristotélica são, sem dúvida, fundamentos permanentes do espírito humano, válidos ainda em nossos dias, e dos quais não é possível prescindir. Mas até estas formas universalmente válidas, independentes do conteúdo concreto da vida histórica, são, se as consideramos com um olhar impregnado de sentido histórico, inteiramente gregas e não excluem a coexistência de outras formas de intuição e de pensamento lógico e matemático. Com muito maior razão é isto verdade para outras criações do gênio grego mais fortemente moldadas pelo ambiente histórico e mais diretamente ligadas à situação do tempo.

Os Gregos posteriores, do início do Império, foram os primeiros a considerar como clássicas, naquele sentido intemporal, as obras da grande época do seu povo, quer como modelos formais da arte quer como protótipos éticos. Nesse tempo em que a história grega desembocou no Império Romano e deixou de constituir uma nação independente, o único e mais elevado ideal da sua vida foi a veneração das suas antigas tradições. Desse modo foram eles os criadores daquela teologia classicista do espírito que é característica do humanismo. A sua estética vita contemplativa é a forma originária do humanismo e da vida erudita dos tempos modernos. O pressuposto de ambos é um conceito abstrato e anti-histórico, que considera o espírito uma região de verdade e de beleza eternas, acima do destino e das vicissitudes dos povos. Também o neo-humanismo alemão do tempo de Goethe considerou o Grego como manifestação da verdadeira natureza humana num período da História definido e único, o que é uma atitude mais próxima do racionalismo da ‘Época da Luzes’ (Aufklärung) que do pensamento histórico nascente, ao qual com suas doutrinas deu tão forte impulso.

Daquele ponto de vista nos separa um século de investigação histórica desenvolvida em oposição ao classicismo. Quando, atualmente, com o perigo inverso de um historicismo sem limite nem fim, nesta noite em que todos os gatos são pardos, voltamos aos valores permanentes da Antigüidade, não podemos considerá-los de novo como ídolos intemporais. A sua forma reguladora e a sua energia educadora, que ainda sentimos sobre nós, só podem manifestar-se como forças que atuam na vida histórica, como o foram no tempo em que nasceram. Já não é possível para nós uma história da literatura grega separada da comunidade social de que surgiu e à qual se dirigia. A superior força do espírito grego depende do seu profundo enraizamento na vida comunitária, e os ideais que se manifestam nas suas obras surgiram do espírito criador de homens profundamente informados pela vida superindividual da comunidade. O Homem que se revela nas obras dos grandes gregos é o homem político. A educação grega não é uma soma de técnicas e organizações privadas, orientadas para a formação de uma individualidade perfeita e independente. Isto só aconteceu na época helenística, quando o Estado grego já havia desaparecido – época da qual deriva em linha reta a pedagogia moderna. [...] As maiores obras do helenismo são monumentos de uma concepção do Estado de grandiosidade sem par, cuja cadeia se desenrola numa série ininterrupta, desde a idade heróica de Homero até o Estado autoritário de Platão, dominado pelos filósofos, e no qual o indivíduo e a comunidade social travam a sua última batalha no terreno da filosofia. Todo o futuro humanismo deve estar essencialmente orientado para o fato fundamental de toda a educação grega, a saber: que a humanidade, o ‘ser do Homem’ se encontrava essencialmente vinculado às características do Homem como ser político”3.
Questão: A partir deste texto, como se relacionavam educação – formação do Homem – ideal de Homem – sociedade, no período helênico. Reflita e disserte sobre as contribuições gregas para a educação.

2.1 O humano na tragédia grega

É difícil dizer com poucas palavras da natureza e da complexidade dos problemas tratados pela tragédia grega. Ela representa uma herança cultural marcante para a civilização ocidental. Os gregos foram seus criadores. Ninguém que se dedique seriamente ao estudo aprofundado da questão do humano em nossa cultura pode prescindir de fazer uma referência explícita às peças de Ésquilo (524?-456 a.C.), Sófocles (496?-406 a.C.) e Eurípides (484-406 a.C.). De Ésquilo, as principais peças conhecidas são Agamêmnon, Coéforas, Eumenides, Prometeu Acorrentado, Os Persas, Sete contra Tebas e As Suplicantes. Sófocles escreve, dentre outras, as seguintes peças: Édipo rei, Édipo em Colono, Antígona, Ajax, Eletra, As Traquínias, Filotetes, De Eurípides são conhecidas especialmente as peças Electra, Medeia, Hipólito, Andrômaca, As Troianas, Alceu, Os Heraclidas, Hécuba, As Suplicantes, Íon, Ifigênia entre os Tauros, Hércules, Helena, As Fenícias, Orestes, As Bacantes, Ifigênia em Aulis, Os ciclopes.


Mas qual o tema central da tragédia grega? Podemos entender com Aristóteles que o trágico tem a ver com o solene, com o desmedido. Em sua Poética, o célebre filósofo grego tratou de definir a tragédia como “a imitação de uma ação importante e completa, de certa extensão; num estilo tornado agradável pelo emprego separado de cada uma de suas formas, segundo suas partes: ação representada não com a ajuda de uma narrativa, mas por atores, e que suscitando a compaixão e o terror, tem por efeito obter a purgação das emoções”. Nesse sentido, não podemos esquecer que, em seu desenvolvimento histórico-conceitual, tragikós também passou a significar tudo que é terrível, estarrecedor.

Prometeu acorrentado de Ésquilo é sem dúvida o símbolo da condição humana. Na mitologia grega, numa narrativa que encontra um paralelismo impressionante com àquela apresentada pela tradição judaico-cristã, Prometeu é considerado o criador do homem. Prometeu teria feito o homem a partir de uma mistura de argila e água, ou talvez mesmo com suas lágrimas. Após ter moldado a criatura, Atenas teria intervido para nela insuflar a vida. Toda a estória de Prometeu seria marcada pelo dualismo do crime e castigo. Acusado de roubar o fogo do Olimpo para traze-lo ao mundo dos humanos, Prometeu é condenado por Zeus a ser acorrentado às rochas do Cáucaso e sofrer dores terríveis, pois uma águia deveria bicar-lhe eternamente o fígado. Para sair desse estado, ele precisará fazer uso de sua astúcia e de sua coragem. Ousadia, sofrimento e dor passam a ser a marca da personagem que encarna o próprio homem.

Também quando temos presente o modo como o homem vem apresentado na Antígona de Sófocles, por exemplo, podemos perceber o alcance da tragédia. Nela o homem encontra-se com seu destino, seu trágico destino, diante do qual não lhe resta senão proclamar em altos brados aquilo que nunca foi dito, gritar o indizível, a força da paixão. A visão trágica de mundo que emerge desse contexto traduz-se por um sentimento de aniquilação absoluta, lugar inacessível e inexplicável. Na tragédia o homem não encontra um caminho que o leve a sair da necessidade e do conflito. Ele se percebe perdido, vê sua existência abandonada à destruição. Ele se percebe culpado pelas suas ações. Por outro lado, se submetido a grandes infortúnios, é capaz de realizar grandes feitos. Em seu esforço heróico para se libertar do destino, o homem se descobre a si mesmo; descobre-se como aquele que sofre, mas que também luta. Desse modo, podemos dizer que a tragédia grega trata especialmente do homem, que aparece como sendo um ser de mil faces, como o mostram os textos a seguir.


Atividade:. Ficou intrigado(a)? Vá aos textos que se encontram no link tal... Depois de sua leitura, pesquisa sobre os mesmos e compartilhe com seus colegas em nosso blog (filosofia da educação colocar endereço) sobre algumas características do ser humano ali presentes.
Seleção de textos
Ésquilo
“Ó divino Éter, ventos de asas ligeiras, fontes dos rios, sorrisos incontáveis das ondas marinhas, Terra, mãe de todos os seres, e tu, Sol, olho que tudo vê! Invoco vosso testemunho. Vede como um deus é tratado pelos deuses! Vede as torturas que me dilaceram e contra as quais devo lutar por milhares de anos. Eis as correntes injuriosas que o jovem chefe dos bem-aventurados imaginou contra mim. Ai de mim! lamento os tormentos que sofro hoje e os que me aguardam no futuro. Quando serei capaz de ver levantar-se o fim de minhas dores? Mas que digo? Conheço todo o futuro com antecipação. Não cairá sobre mim nenhuma desgraça que não tenha previsto. É preciso suportar tão bem quanto possível a sorte que o destino nos reserva e saber que não se pode lutar contra a força da necessidade. Mas é tão impossível calar sobre o que me acontece quanto não calar. Foi devido aos favores que ofereci aos mortais que me vejo sob o jugo da necessidade, infortunado que sou. No cabo de uma férula tomei a semente do fogo que roubei, semente que é para os mortais a senhora de todas as artes e uma auxiliar sem preço. Eis as faltas pelas quais pago, suspenso nos ares, em correntes que me aprisionam. Ah! Ai! Ai de mim! que ruído, que perfume invisível voou até mim? Vem de um deus, de um mortal, de um semideus? Vem alguém até este penedo, nos limites do mundo, para assistir aos meus sofrimentos, ou o que deseja de mim? Vede como está preso em correntes o miserável deus que sou, o inimigo de Zeus, que incorreu no ódio de todos os deuses que freqüentam a corte de Zeus porque amou demasiado aos homens. Ah! Oh! que rumor de pássaros volto a escutar perto de mim! O ar vibra suave com as batidas leves de suas asas. Tudo que se aproxima de mim me faz tremer. [...] Ai! verdade que para mim é doloroso falar, mas é igualmente doloroso calar. Por todos os lados não vejo senão aflições. Desde o dia em que os deuses se entregaram à cólera, quando a discórdia imperou entre eles, alguns querendo derrubar Crono para entregar a Zeus o trono real, e outros, ao contrário, combatendo para impedir que Zeus chegasse a reinar sobre os deuses, dei as Titãs, filhos de Urano e da Terra, os conselhos mais sábios, sem conseguir persuadi-los. Desprezando a astúcia, os estratagemas, no orgulho de sua força imaginavam que seria fácil triunfar graças à violência. Mas quanto a mim, minha mãe Têmis ou Gaia, adorada sob tantos nomes, predissera várias vezes como seria o futuro, contando que a força e a violência de nada valeriam; seria à astúcia que os vencedores deveriam o império. Foi isso que transmiti a eles, mas debalde; mal se dignaram a ouvir o que eu tinha a dizer. Em tais circunstâncias, pareceu-me que o melhor a fazer era apoiar o partido de Zeus acompanhado de minha mãe, e com muita presteza o deus acolheu nossa boa vontade. Graças aos meus conselhos, o antigo Crono e seus defensores foram lançados à negra e profunda prisão do Tártaro. Tais foram os serviços que prestei ao rei dos deuses: vede os tormentos cruéis com que ele me retribuiu. A desconfiança nos amigos é uma prática que nasce com a tirania. Quanto ao que me perguntais, o motivo pelo qual me maltrata, vou responder. Tão logo ele sentou no trono paterno, dividiu os privilégios entre os diferentes deuses e fixou as castas em seu império. Mas não demonstrou qualquer consideração pelos infelizes mortais; ao contrário, desejava sua destruição para criar uma nova raça. E ninguém, a não ser eu, se opunha a ele. Apenas eu tive essa audácia e impedi que os mortais, despedaçados, descessem para o Hades. Eis a razão pela qual estou curvado sob o peso dessas dores difíceis de suportar, horrendas de ver. Por compaixão para com os mortais, fui julgado indigno de compaixão. Eis o implacável tratamento que me infligem, um espetáculo desonrado para Zeus”.4

Sófocles
“De tantas maravilhas,

mais maravilhoso de todas é o homem.

O espumante mar nos ímpetos dos ventos austrais

sulca, bramantes

ondas fende,

e cultiva a dos deuses mãe, a Terra

imortal, incansável,

revolvendo-a ano após ano

com arados movidos por força eqüina.
A linhagem das leves aves

leva capturadas

e as raças das feras agrestes,

peixes em penca prende

nas malhas das redes

o homem perspicaz;

engenhoso persegue a fera

fauna dos montes,

doma corcéis,

ao duro jugo

sujeita touros sanhudos.
A voz, o pensar

volátil e as urbanas leis

das assembléias ele as ensinou

a si mesmo, fugiu

da áspera agressão do frio

e dos dardos das tempestades.

Aparelhado, desaparelhado não acata nada

do que lhe advém; só da morte

fuga não lhe acena,

ainda que de indômitas moléstias

alcance escape.
De saber fecundo, move recursos inesperados

ora ao bem, ora ao mal.

Una as leis da terra

à justiça jurada

dos deuses, e amuralhado será;

desamuralhado

se saiba, porém,

atrevendo-se a insulta-las.

De meus altares

não se aproxime

nem perturbe meu pensar quem assim procede”.5
2.2 A concepção do humano em Platão
Jayme Paviani
Platão nasceu em Atenas em 428 ou 427 a.C., em uma família aristocrática. O pai, Aríston, seria descendente do último rei de Atenas, Codrus, e a mãe, Perictione, pertenceria à linhagem de Sólon, um dos sete sábios da Grécia. O pai era amigo de Péricles. O primo e o irmão de sua mãe, Crítias e Cármides, participaram do governo dos Trinta Tiranos.

A juventude de Platão transcorre em meio a agitações políticas e a desordens devido à guerra do Peloponeso. Reina a instabilidade política na cidade. A oligarquia dos Quatrocentos toma o poder e Atenas submete-se ao governo dos Trinta Tiranos. As cidades gregas desunidas travam guerras, o que favorece as intenções imperialistas de Felipe, rei da Macedônia, pai do futuro Alexandre. Vencedor em Queronéia em 338, Filipe completará a conquista da Grécia, dez anos após a morte de Platão.

Platão aprendeu poesia, especialmente de Homero, música e praticou ginástica. Sua família educa-o no respeito à tradição, às lendas e aos mistérios.

Talvez tenha participado da batalha de Corinto contra Esparta, em 394. Parece, quando jovem, ter realizado viagens ao Egito. De lá teria ido à Cirenaica e depois à Itália meridional, onde teria mantido contato com a escola pitagórica, em particular Arquitas de Tarento. Nesse período, Platão compôs os Diálogos chamados “de juventude”: Hípias menor, Alcibíades, Apologia de Sócrates, Êutifron, Críton, Hípias maior, Cármides, Laquês, Lísis, Protágoras, Górgias, Mênon.

Em 388 ele vai à Sicília, onde é recebido na corte do tirano Dionísio, e faz amizade com seu cunhado Díon. Devido às intrigas da corte, Dionísio o declara indesejável e o embarca à força num navio espartano.

De volta em aproximadamente 387, Platão compra, perto da aldeia de Colona, um ginásio e um parque ornamentado com belos plátanos, reservado ao culto de Academos, herói lendário, e aí funda a Academia, organizada provavelmente segundo o modelo das instituições pitagóricas. Lá se faziam as refeições, e certos cultos. Lugar de encontros intelectuais, tornou-se famosa pela qualidade do ensino que nela se ministrava: matemática, astronomia, medicina, retórica, dialética. A Academia irradiou o pensamento de seu criador até 529 d.C.

Durante duas décadas, Platão assumiu suas funções na Academia e escreveu, nesse período, os diálogos chamados “da maturidade”: Fédon, Fedro, Banquete, Menexenos, Eutidemo, Crátilo; começou também a redação de República.

Em 367, com a morte de Dionísio encorajado por Díon, Platão transmite a direção da Academia a Eudóxio e retorna à Sicília. Dioniso II exila Díon, manda aprisionar Platão e, finalmente, obrigado a conduzir uma campanha militar na Itália, deixa partir o filósofo, que retoma seu lugar na direção da Academia.

Platão compõe então os grandes Diálogos metafísicos: Parmênides, Teeteto, Político e Filebo. Seis anos depois, em 361, aos sessenta e sete ou sessenta e oito anos, Platão realiza sua terceira viagem à Sicília, a pedido de Díon e Arquitas de Tarento, nomeando Heráclides do Ponto para a direção da Academia.

Platão reencontra Díon. Este reúne uma pequena tropa de partidários, desembarca em Siracusa com sucesso, e lá instaura, por três anos, uma verdadeira ditadura.

É uma amarga decepção para Platão, então com setenta e cinco anos. Aquele em quem vislumbrava o filósofo rei fracassara totalmente. Mas ele não renuncia ao ideal de República e redige as Leis. Escreve também Crítias e Timeu.



Platão morreu em 348 ou 347, aos oitenta anos.

A obra de Platão chegou até nós através de manuscritos, dos quais os mais antigos remontam à Idade Média bizantina. O códice Parisinus, do final do século IX, está na Biblioteca Nacional de Paris. Metade dele foi perdida, mas existe uma cópia dos séculos XI e XII na Biblioteca São Marcos em Veneza. O códice Bodleianus, copiado por volta de 895, encontra-se em Oxford. A esses manuscritos pode-se acrescentar os papiros descobertos no Egito. Um deles remonta ao século da era cristã.

Marsílio Ficino, em 1483-1484, publicou a primeira grande tradução latina de Platão. Depois da edição do texto grego em Veneza e na Basiléia em 1534 e 1556, veio a do grande helenista Henri Estienne, em 1578. A numeração das obras de Platão reproduzida em todas as edições modernas é a do texto de Henri Estienne. As obras completas compreendem trinta e cinco diálogos, uma coletânea de cartas, definições e seis pequenos diálogos apócrifos: Do justo; Da virtude; Demódocos; Sísifo; Erixias; Axíocos. Discute-se também a autenticidade de algumas Cartas (a da Carta VII parece confirmada), das Definições, e dos diálogos: Epinomis, Segundo Alcibíades, Hiparco, Minos, os Rivais, Téages e Clítofon. A cronologia das obras platônicas continua sendo um problema de difícil solução.

Seleção de textos (link)
O mito do Prometeu e a origem do homem
“Houve um tempo em que os deuses existiam, mas não as espécies mortais. Quando chegou o momento assinalado pelo destino para a sua criação, os deuses formaram-nas nas entranhas da terra, com uma mistura de terra, de fogo e dos elementos associados ao fogo e à terra. Quando chegou a ocasião de as trazer à luz, encarregaram Prometeu e Epimeteu de as prover de qualidades apropriadas. Mas Epimeteu pediu a Prometeu que lhe deixasse fazer sozinho a partilha. “Quando acabar, disse ele, tu virás examiná-la.” Satisfeito o pedido, procedeu à partilha, atribuindo a uns a força sem a velocidade, aos outros a velocidade sem a força; deu armas a estes, recusou-as àqueles, mas concedeu-lhes outros meios de conservação; aos que tinham pequena corpulência deu asas para fugirem ou um refúgio subterrâneo; aos que tinham a vantagem da corpulência, ela bastava para as conservar; e aplicou este processo de compensação a todos os animais. Estas medidas de precaução eram destinadas a evitar o desaparecimento das raças. Mas, quando lhes forneceu os meios de escapar à mútua destruição, quis ajudá-los a suportar as estações de Zeus; para isso, lembrou-se de os revestir de pêlos espessos e peles fortes, suficientes para os abrigar do frio, capazes também de os proteger do calor e destinados, finalmente, a servir, durante o sono, de coberturas naturais, próprias de cada um deles; deu-lhes, além disso, como calçado, sapatos de corno ou de peles calosas e desprovidas de sangue; em seguida deu-lhes alimentos variados, segundo as espécies: a uns, ervas do chão, a outros frutos das árvores, a outros raízes; a alguns deu outros animais a comer, mas limitou a sua fecundidade e multiplicou a das vítimas, para assegurar a salvação da raça.

Todavia, Epimeteu, pouco refletido, tinha esgotado as qualidades a distribuir, mas faltava-lhe ainda prover a espécie humana e não sabia como resolver o caso. Entretanto, Prometeu veio examinar a partilha; viu os animais bem providos de tudo, mas o homem nu, descalço, sem cobertura nem armas, e aproximava-se o dia fixado em que ele devia sair do seio da terra para a luz. Então Prometeu, não sabendo o que inventar para dar ao homem um meio de conservação, roubou a Hefaisto e a Ateneia o conhecimento das artes com o fogo, pois sem o fogo o conhecimento das artes é impossível e inútil, e presenteou com isto o homem. O homem ficou assim com a ciência para conservar a vida, mas faltava-lhe a ciência política; esta possuía-a Zeus, e Prometeu já não tinha tempo de entrar na acrópole que Zeus habita e onde velam, aliás, temíveis guardas. Introduziu-se, pois, furtivamente na oficina comum em que Ateneia e Hefaisto cultivavam o seu amor às artes, furtou ao Deus a sua arte de manejar o fogo e à deusa a arte que lhe é própria, e ofereceu tudo ao homem, tornando-o apto a procurar recursos para viver. Diz-se que Prometeu foi depois punido pelo roubo que tinha cometido, por culpa de Epimeteu.

Quando o homem entrou na posse do seu quinhão divino, a princípio, por causa da sua afinidade com os deuses, acreditou na existência deles, privilégio só a ele atribuído, entre todos os animais, e começou a erguer-lhes altares e estátuas; seguidamente, graças à ciência que possuía, conseguiu articular a voz e formar os nomes das coisas, inventar as casas, o vestuário, o calçado, os leitos e tirar os alimentos da terra. Com estes recursos, os homens, na sua origem, viviam isolados e as cidades não existiam; por isso, morriam sob os ataques dos animais selvagens, mais fortes do que eles; bastavam as artes mecânicas, para os fazer viver; mas tinham insuficientes recursos na guerra contra os animais, porque não possuíam ainda a ciência política de que a arte militar faz parte. Por conseqüência procuraram reunir-se e pôr-se em segurança, fundando cidades; mas, quando se reuniam, faziam mal uns aos outros, porque lhes faltava a ciência política, de modo que se separavam novamente e morriam.

Então Zeus, receando que a nossa raça se extinguisse, encarregou Hermes de levar aos homens o pudor e a justiça para servirem de normas às cidades e unir os homens pelos laços de amizade. Então Hermes perguntou a Zeus de que maneira devia dar aos homens a justiça e o pudor. “Devo distribuí-los, como se distribuíram as artes? Ora as artes foram divididas de maneira que um único homem, especializado na arte médica, basta para um grande número de profanos e o mesmo quanto aos outros artistas. Devo repartir assim a justiça e o pudor pelos homens, ou fazer que pertençam a todos?” – “Que pertençam a todos, respondeu Zeus; que todos tenham a sua parte, porque as cidades não poderiam existir se estas virtudes fossem, como as artes, quinhão exclusivo de alguns; estabelece, além disso, em nome, esta lei: que todo o homem incapaz de pudor e da justiça seja exterminado como o flagelo da sociedade.” (Platão. Protágoras. Tradução de A . Lobo Vilela. Lisboa: Editorial Inquérito Limitada, s/d)




A alma, a queda, o céu platônico, a reminiscência



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