A greve das castanheiras da Companhia Industrial de Óleos do Nordeste – cione – experiências e memórias sobre uma consciência de classe (1968)” The strike of chestnut Industrial Oils Company Northeast cione experiences and memories of class consciousness



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A greve das castanheiras da Companhia Industrial de Óleos do Nordeste – CIONE – experiências e memórias sobre uma consciência de classe (1968)”

The strike of chestnut Industrial Oils Company Northeast - CIONE - experiences and memories of class consciousness (1968)

Marcelo Henrique Bezerra Ramos - UECE

RESUMO

O objetivo deste trabalho é analisar historicamente a greve das castanheiras operárias da CIONE, ocorrida em 1968 em Fortaleza, tendo como foco a compreensão dos conflitos ocorridos a partir do desenvolvimento de uma consciência entre aqueles que construíam a greve. Buscamos através deste trabalho, entender como se desenvolveu esta consciência, caracterizando-a, compreendendo as experiências que tiveram os envolvidos e como estas foram marcantes na construção desta singular greve que explodiu num momento de pouca mobilização no movimento operário local e nacional visto o alto nível de repressão aos movimentos sociais por parte do Estado ditatorial. Esta pesquisa pretende historicizar o episódio da greve das castanheiras operárias da CIONE compreendendo a relação das experiências de conflito com o afloramento de uma consciência de classe nos sujeitos que construíram a greve. Utilizaremos para esta pesquisa a metodologia de análise comparativa entre as fontes localizadas, traçando assim uma relação de confronto entre as fontes para assim subtrair uma maior fidelidade do que é encontrado, entendendo que todas fontes são construídas por sujeitos cheios de emoções e posicionamentos e que de a memória presente nestes discursos são fundamentais para a construção de uma história compreensível. Por fim, estamos chegando ao entendimento que a experiência de luta coletiva através que este grupo de operárias viveu através da greve fortaleceu entre elas uma consciência de que elas eram um ser coletivo e precisavam se organizar de forma coletivista para o conflito de interesses com o patrão, para garantir conquistas de seus direitos reivindicados.



Palavras chave: movimento operário; consciência de classe; greve.
ABSTRACT

The objective of this research is to analyze historically the strike of the workers of chestnut CIONE, occurred in 1968 in Fortaleza, focusing on understanding the conflicts that occur from the development of an awareness among those who built the strike. We seek through this work, to understand how it developed this awareness characterizing it, including their experiences involved and how they were marked in the construction of this unique strike that blew a little time to mobilize at the local and national labor movement since the high level the repression of social movements by the dictatorial state. This research aims to historicize the episode of the strike of the workers of chestnut CIONE comprising the relationship experiences conflict with the outcrop of a class consciousness in subjects who built the strike. We will use this research to the methodology of comparative analysis between point sources, thus drawing a confrontational relationship between the sources so as to subtract a greater fidelity than is found, meaning that all sources are constructed by subjects full of emotions and attitudes and that this memory in these discourses are fundamental to building a comprehensible story. Finally, we are coming to understand that the experience of collective struggle through this group of workers who lived through the strike strengthened among them an awareness that they were a collective and needed to be collectivist way to arrange the conflict of interest with the boss to ensure achievement of their claimed rights.

Keywords: labor movement; class consciousness; strike.

Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem” – Conflitos de uma greve e consciências na ditadura.

A ditadura civil militar instaurada em 1º de abril de 1964 no Brasil tinha como um dos objetivos combater as tendências de esquerda e as reformas de base que estavam ganhando espaço no país em prol de uma maioria populacional. Convencionou-se na historiografia chamar estas iniciativas de populistas. Este governo instalado por golpe militar tinha também como fim o combate das organizações populares, que confluíam desde a base partidária do Presidente João Goulart até os movimentos sindicais, estudantis e camponeses. Além disso o regime militar implantado tinha objetivava dar condições sociais, políticas e econômicas para o avanço do projeto capitalista no Brasil, assim como apresenta Ridenti em “Em busca do povo brasileiro”. Projeto capitalista este fundamentado nas bases do desenvolvimentismo, constituído por um crescimento da infra-estrutura nacional e financiado por fundos monetários internacionais, como o FMI, dando assim suporte para a entrada de grandes multinacionais como General Motors, Shell e tantas outras empresas estrangeiras (RIDENTI, 2003).

Para as classes dominantes, latifundiários e, principalmente, a burguesia nacional, era preciso a organização de um estado autoritário, onde os “insatisfeitos” não tivessem a oportunidade de desviar o país do projeto de desenvolvimento capitalista da nação. Visto que a via democrática não estava sendo o melhor meio de aplicar isso naquele momento histórico.

Cumprindo esse objetivo, foram promovidos ataques contundentes a maioria das ferramentas de mudança ou reforma da ordem, por dentro ou por fora da institucionalidade, ao passo que foi forjado um amplo aparato de repressão para destruir toda e qualquer resistência popular as medidas governamentais. Foram poucos momentos da história recente do capitalismo ocidental que se utilizou tanto da força bruta para liquidar iniciativas contra-hegemônicas na sociedade. Torturas, seqüestro, prisões, exílios, censura, e toda uma gama de agressões foi a opção do estado brasileiro como forma de inibir e coibir as forças da democráticas e de esquerda do país.

Efeito deste processo foi uma série de mobilizações sociais sejam de caráter estudantil, trabalhista ou mesmo camponesa que foram paulatinamente combatidas com um grau de destruição equivalente a de guerras anteriores.

Como em algumas poucas localidades do Brasil, no Ceará a política de arrocho salarial, repressão às mobilizações, enfraquecimento das representações sindicais e populares somada a uma política de desenvolvimento da infra-estrutura e crescimento quase que milagroso da economia para usufruto de uma pequena parcela da população, demarcou um período curto que contribuiu para o desencadeamento de algumas greves que conseguiram superar a lógica “aparelhista” pela qual o Estado Militar vinculava os sindicatos em 1968. Até a instauração do Ato Institucional nº 5 (MARTINS, 1979).

Essas greves e mobilizações operárias romperam com o cerco estabelecido pela ditadura ao movimento sindical no pós-64. É só observarmos que no ano de 1968 os jornais deixam de somente colocar os sindicatos na parte de esportividades, onde eram expostos seus campeonatos, e começa figurá-los como espaços perigosos, situando-os nos cadernos policiais e até mesmo na primeira página. Assim ocorre no O Povo e no Correio do Ceará quando explode a greve das “insensatas” operárias da Companhia Industrial de Óleos do Nordeste – CIONE – nos finais de 1968, em Fortaleza.

O ramo da extração industrial de óleo da castanha de caju era naquele período um dos mais produtivos no ramo fabril cearense. Várias empresas, inclusive multinacionais, estavam se instalando em Fortaleza com o objetivo de explorar a atividade, exemplo maior é a Brasil Oiticica que chegou a empregar, segundo Jaime Libério, 800 funcionárias na produção.

Na CIONE expressou-se uma das políticas mais corriqueiras por parte dos patrões aos empregados naquele período: o arrocho salarial. Através desta política permitia-se um maior acúmulo de capitais para o desenvolvimento e crescimento industrial.

Por outro lado este arrocho salarial, somado a condições de trabalho degradantes, que iam desde a falta de equipamentos de trabalho até abusos morais por maior produtividade, deixavam as operárias numa situação explosiva. Essa condição de super-exploração chegava a gerar conflitos diretos que exprimiam algum ódio de classe das operárias para com seus patrões. É o que deixa claro, por exemplo, o depoimento do Senhor Jaime Libério (Diretor do Sindicato dos Extratores de Óleos do Ceará – entidade que representava as trabalhadoras da CIONE) quando nos conta sobre o episódio em que as operárias avançaram sobre um dos fiscais da fábrica, jogando-o num latão de lixo do banheiro, cheio de papel com fezes.

A situação cotidiana em que se encontravam as castanheiras nas vésperas da greve é evidenciada pelo rápido depoimento da Dona Mazé, operária da CIONE quando da eclosão da greve adiquirido por telefone:

“Meu filho, era muito sofrimento, nós tínhamos que trabalhar feito umas condenadas pra conseguir 'fechar' o tambor de óleo. Você sabe quantas castanhas são preciso queimar pra encher um tambor daquele tamanho? Ainda mais sem nem sequer o álcool e as luvas. Depois de alguns poucos dias de trabalho na fábrica, já se via em toda mulher as manchas e as queimaduras.”

Meu marido queria que eu saísse de lá. O problema é que mesmo o saldo do tambor sendo pouco a micharia ajudava muito em casa, ainda mais tendo meu menino mais novo doente. Quando eles cortaram o álcool para as mãos eu até pensei em sair, já que num tinha dinheiro pra comprar porque o preço era alto. Era ou minhas mãos 'bonitinhas' ou comida dentro de casa. Eu já tava casada, não precisava de mãos de moça [risos].” (Entrevista realizada por telefone, de Fortaleza para Maracanaú, no dia 11/04/2012)

Os preços aumentavam mais e mais por conta da inflação, o salário ganho pela produção não era suficiente nem sequer para suprir as demandas básicas das famílias que muitas vezes eram sustentadas com o ganho das castanheiras. O milagre econômico não era tão mágico para quem morava na periferia das grandes cidades.

O clima na fábrica era de grande descontentamento, ainda mais com os abusos morais que as castanheiras sofriam por parte dos fiscais que as pressionavam para produzir mais. Tanto o sindicalista Jaime Libério quanto o Professor Machado (que era estudante e prestou solidariedade a greve panfletando nas fábricas do ramo) nos apresentam que esta situação era comum em todo o ramo da extração de óleo de castanha. Porém há evidencias que o abuso na CIONE foi fundamental para o estopim do levante operário. Isso fica claro quando Jaime Libério diz:

“No dia anterior a decretação da greve as operárias resolveram “segurar” a entrada na fábrica para discutir os abusos morais e o que deviam fazer pra aumentar o preço pago pelo barril de óleo. Quando as que ficaram do lado de fora tentaram entrar na fábrica foram impedidas pelos fiscais. Uma delas tentou pular o muro, o fiscal a empurrou e ela acabou quebrando a perna. Isso deixou as castanheiras furiosas. Avançaram sobre o fiscal, que era nanico, e resolveram começar os piquetes no dia seguinte. Aí foi quando o sindicato entrou com tudo!” (Entrevista realizada no dia 03/04/2012 na anistia 64/68, Fortaleza-CE)

Portanto, este resistente episódio de revolta operária expressa pelas ações do sujeitos envolvidos algum entendimento da opressão de classe que era exercida pelos patrões sobre o operariado. Evidencia-se também um momento em que a classe se organiza na fábrica e resolve paralisar as atividades, entendendo que são eles que produzem e que merecem melhores condições de trabalho.

Este momento, portanto parece ser bastante influenciado pela singularidade de um episódio que se desenvolve num momento em que havia cada vez menos condições da classe trabalhadora lutar por seus direitos e onde a repressão generalizada se torna ordem do dia. Por que então, mesmo com todas essas adversidades, essas operárias se organizam e resolvem enfrentar estado e patrões?

De entrevistas de sindicalistas como Jaime Libério e ex-operárias como a “Dona Mazé”, verifica-se que em dezembro de 1968 explodiu uma revolta operária na dita indústria onde foram organizados piquetes, paralisações, passeatas e outras formas de enfrentamento aos proprietários da CIONE em defesa do aumento do percentual pago pela produção de óleo de castanha, melhores condições de trabalho (eram vários os casos de acidentes de trabalho) e fim do assédio e punições as operárias que se mobilizavam.

Num rápido levantamento de uma maior gama das fontes hemerográficas, como os jornais O Povo e Correio do Ceará, percebe-se que o período era de intensa movimentação social, especialmente marcado por resistências de sindicatos, movimentos estudantis, partidos e agrupamentos organizados contra a ditadura militar.

Em Fortaleza existem alguns trabalhos que tratam deste período principalmente dando foco ao movimento estudantil e organizações de esquerda em geral, os trabalhos de Edmilson Maia Júnior sobre os estudantes universitários (MAIA JÚNIOR, 2008) e o de Aírton de Farias sobre a luta armada no Ceará (FARIAS, 2007) são exemplo disso. Porém não encontramos trabalhos que exploram as atividades do movimento operário de Fortaleza que ocorreram no período, até mesmo porque, pelo que consta na análise historiográfica, o movimento operário brasileiro em geral estava bastante desorganizado, principalmente por conta da forte repressão que sofreu desde os primeiros momentos da ditadura civil militar brasileira, instaurada em abril de 1964.

Entretanto, pelo que podemos constatar tanto através da oralidade dos sujeitos entrevistados, confluindo com as notícias de jornais da época, o conflito operário na CIONE fez sobressair-se aqui um entre os poucos eventos de mobilização operária no Estado do Ceará durante 1968, ano de intensas mobilizações sociais. Fortalece isso a fala de Jaime Libério apontando que em 68 a greve da COBRASMA, em Osasco-SP, a greve dos canavieiros do Cabo, em Pernambuco, e a greve da CIONE, foram símbolo da resistência operária pelo Brasil.

Portanto, se faz fundamental uma pesquisa que consiga extrair as singularidades das relações sociais estabelecidas entre os envolvidos construindo assim uma análise histórica deste momento, entendendo o diferencial deste episódio e sua contribuição para o entendimento do momento histórico específico sobretudo para este seguimento da classe operária de Fortaleza.

Em nossa pesquisa busco entrevistar vários dos envolvidos com a greve da CIONE das mais variadas posições sociais. Desde as próprias castanheiras da CIONE; sindicalistas do Sindicato dos Extratores de Óleo do Ceará, como o Senhor Jaime Libério; outros empregados da indústria e os proprietários da CIONE, bem como outros envolvidos nas atividades da greve.

Além disso, estamos buscando através das notícias dos jornais da época, como as manchetes do jornal O Povo dos dias 6 a 17 de dezembro de 1968, resgatar a repercussão que o levante operário gerou na cidade de Fortaleza, expressada numa série de matérias durante alguns dias nos principais jornais de Fortaleza. Em algumas das entrevistas primárias tivemos relatos de que a greve repercutiu profundamente na cidade, envolvendo inclusive outros setores sociais nas movimentações, como os partidos de esquerda e o movimento estudantil da UFC e da UECE.

Estamos percebendo ainda que este era um período de amadurecimento e crescimento da massa de trabalhadores e trabalhadoras operárias na cidade de Fortaleza, sendo acompanhado por um crescimento da população e da massa produtiva da cidade como um todo.

Levantaremos com esta pesquisa a hipótese de que este episódio expressou um intenso conflito entre um segmento da classe operária contra a burguesia local caracterizado por ações de greve, conflitos físicos, passeatas, agitações públicas, demonstrando que havia aí sim uma identificação destas operárias entre si, a partir de interesses comuns, contra aqueles que mantinham interesses antagônicos aos seus, no caso os proprietários da fábrica, comandada pelo industrial Jaime Aquino. A partir disso foi possibilitado nos sujeitos envolvidos tomadas de consciência para a luta por seus direitos de forma coletiva, na perspectiva apresentada por István Mèszaros de que a consciência se desenvolve a partir da situação concreta e real vivenciada em determinados períodos, sendo influenciada por essas condições históricas específicas, expressando coletivamente sínteses entre as histórias construídas pelos envolvidos até o dado momento (MÉSZAROS, 2009).

Uma das principais discussões que irá contribuir com a construção da nossa pesquisa é a compressão da consciência (ou das consciências) de classe. Visto que queremos entender como as operárias, mesmo tendo origens diferentes, a partir de determinado momento, sofrendo uma pressão comum tanto do Estado como de seus patrões, conformam uma identidade que desemboca em ações de defesa de um bem coletivo entre elas. Portanto trataremos da discussão de classe não como um mero aspecto ideológico ocasionado por uma situação econômica da sociedade capitalista. Queremos aqui trazer a discussão defendida por Meszáros, onde esta consciência se constrói historicamente, tanto através de uma síntese coletiva de relações de conflito, como de experiências individuais que em determinado momento se aproximam podendo até conformar uma plataforma política de reivindicações (MÉSZAROS, 2009). Assim como a defesa de melhores salários e melhores condições de trabalho, como no caso da greve da CIONE.

Entendemos então neste trabalho de história social do movimento operário que:

“Tratar a consciência de classe como mera subjetividade e ‘subproduto’ da economia capitalista é uma caricatura de Marx. Esse ponto de vista surge a partir de uma abordagem que substitui o complexo dialético de Marx por um modelo determinista mecânico e unilateral.” (MÉSZÁROS, 2008)

Preferimos então entender o processo de identificação de classe não como uma padronização das visões sobre determinadas experiências, mas sim um processo complexo de entendimento das situações vivenciadas coletivamente, a partir de condições próximas, dando possibilidade do surgimento em determinado setor social (no caso uma parte de uma classe localizada em uma fábrica) de uma consciência de que são um grupo, pois vivenciam as mesma experiências, como as de opressão nas relações de trabalho e conseqüentes destas.

Neste sentido ainda nos é fundamental associar o processo de tomada de consciência a experiência e vivência enquanto classe, assim como explorado por Thompson. Onde mais uma vez a classe não é uma abstração econômica, mas sim uma relação histórica construída por um agrupamento que tem seus interesses e suas forças alinhados historicamente e em conflito com outra classe social (THOMPSON, 1987).

Sobre o uso da oralidade na pesquisa, é importante ressaltar que é necessário o uso de um corpo teórico específico, a História Oral necessita de um suporte conceitual bem embasado, para não cair em apenas um relato seqüencial e cronológico dos depoimentos e acabar se tornando uma narrativa nos moldes de uma história mais conservadora e tradicional. Para isso, é necessário que a oralidade não seja somente abordada por um conjunto de técnicas, mas sim por uma análise reflexiva, que venha enriquecer o estudo, formando, assim, uma narrativa que valorize o ofício do historiador, por ser baseada na sua interpretação.

O conceito de Memória a ser utilizado nesta pesquisa parte das noções de Memória Social, desenvolvido por James Fentress e Chris Wickham, e deve ser compreendido através de uma relação: História e Memória.

Na construção da pesquisa ainda estamos tendo dificuldades de encontrar castanheiras que vivenciaram a greve da CIONE de 68 (apesar de termos já o relato de uma, o contato de outra e a evidência de onde achar outras tantas). Por isso, não estamos nos limitando em compreender somente as vivências e opiniões dos interiores da fábrica. Estamos buscando também relatos e memórias do que foi a construção da greve, as ações de solidariedade e as impressões sobre as influências da greve para a conjuntura do momento, em especial a do movimento operário. Isso porque, partimos do pressuposto que determinados acontecimentos são vivenciados por um grupo social como um todo, mas interpretados de diferentes maneiras pelos indivíduos que o compõem, daí o entendimento da memória como um campo de disputa. Porém, estas diferentes interpretações do acontecido também trazem benefícios, pois propiciam ao historiador um corpo documental bastante qualitativo, e que, mesmo contendo divergências, trazem consigo informações unificadas por uma consciência coletiva que forma este grupo social, e que possibilitam a problematização das mesmas para se chegar a uma compreensão do objeto de estudo. Segundo Jucá:

“A busca de uma identidade coletiva, mesmo partindo de depoimentos individuais, mas não desvinculados de um espaço cultural constituído por grupos e tradições vivenciadas, estimula a preservação da memória, como uma possibilidade de garantir as sementes de um resgate profícuo à compreensão do passado.” (JUCÁ, 2003:36)

Neste trabalho, a Memória é abordada enquanto fonte histórica por intermédio de entrevistas, enquanto recurso metodológico da História Oral, porém, é relevante discutir também sobre sua legitimidade enquanto parte de um corpus documental a ser trabalhado em uma produção historiográfica. Em sua obra, Jucá mostra que a Memória é legítima para a análise histórica por conta de suas especificidades em relação aos documentos tradicionais. Segundo ele:

“[...] a Memória é considerada, de acordo com a dimensão social que representa, uma realidade onde se mesclam o individual e o coletivo, possibilitando uma compreensão diferenciada daquela transmitida pela documentação tradicional. Além do mais, ela permite revelar aspectos ou espaços sociais outrora esquecidos ou relegados, fazendo brotar a lembrança dos que se consideravam excluídos do processo histórico.” (JUCÁ, 2003:36)

A principal fonte a ser discutida e utilizada é a memória, que, entendida como fonte histórica, será abordada por intermédio de entrevistas enquanto instrumento metodológico da História Oral.

Nesse sentido selecionamos entrevistados a partir do envolvimento direto ou indireto na greve da CIONE. Tentando obter elementos interiores e exteriores ao processo da greve. Usando como critério relatos sobre a greve em geral, participação direta na construção da greve, militância em organizações que se envolveram na greve, participação nas ações da greve (passeatas, piquetes, panfletagens, negociações, etc). A partir da devida problematização e do confronto das informações trazidas nos relatos destas memórias, acredito que se torna viável produzir uma narrativa sobre a os conflitos e as consequências da greve presentes nas memórias dos sujeitos, respondendo aos anseios desta pesquisa.

Os jornais serão trabalhados de maneira simples, porém, objetiva. Serão utilizados para o entrecruzamento de fontes no intuito de reforçar a evidência dos dados coletados para a pesquisa e tornar as informações trazidas pelos relatos de memória verificáveis.

As fontes documentais, principalmente o dissídio coletivo nos servirá para entender qual a conclusão institucional que teve o episódio visto que a cobertura jornalística é cortada no final da greve – suspeitamos que seja por conta da aplicação do Ato Institucional nº5 (AI-5) que sentenciou forte censura à imprensa.

A biografia de Jaime Libério tem como principal papel nos dar um guia geral sobre o transcorrer da greve e a percepção deste ex-sindicalista que teve um papel central nos desenvolvimento da greve.


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