A guerra de canudos: uma reflexão sobre a história através do enfoque jornalístico e do literário



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A GUERRA DE CANUDOS: UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA ATRAVÉS DO ENFOQUE JORNALÍSTICO E DO LITERÁRIO
Deived Oliveira

(Bolsista institucional - CLCA/UENP-CJ)

Orientadora: Luciana Brito
RESUMO
O objetivo deste projeto de pesquisa é confrontar informações obtidas através da leitura e análise de obras literárias juntamente com os registros de jornais e demais meios de comunicação da época em que ocorreu a Guerra de Canudos. Pretende-se abordar os estudos já realizados acerca do tema para agregar a estes informações que enriqueçam os materiais disponíveis sobre esse fato histórico. Assim, futuros estudantes, pesquisadores e demais interessados contarão com a disponibilidade de maior quantidade de informações e materiais para seus estudos. Para tal, analisaremos a obra Os Sertões de Euclides da Cunha e A Guerra do Fim do Mundo, romance escrito pelo peruano Mario Vargas Llosa, fazendo um paralelo com a leitura de livros de história e de registros jornalísticos da época para que possamos confrontar as diferentes visões acerca do mesmo tema, oriundas de autores distintos.
Palavras-chave: Literatura. Imprensa. Comparatismo. Guerra de Canudos.
ÁREA: LINGUISTICA, LETRAS E ARTES
ABSTRACT
the aim of this research project is to compare information obtained through reading and analyzing literary production with newspapers compositions and other media at the time of occurrence of the War of Canudos. It is intended to broach previous studies about the topic to add to these details that enrich the materials available on this historic fact. Thus, prospective students, researchers and other interested people will have the availability of greater amounts of information and materials for their studies. To this end, we review the work Os Sertões, of Euclides da Cunha and The War of the End of the World the novel written by Peruvian Mario Vargas Llosa, drawing a parallel with the reading of history books and newspaper articles of the time so we can confront the different views on the same subject, coming from different authors.
Keywords: Literature. Press. Comparing. War of Canudos.
INTRODUÇÃO
Guerra ou Massacre de Canudos? Com esta interrogação é que se dá início à apresentação deste estudo, financiado por bolsa institucional de pesquisa da Universidade Estadual do Norte do Paraná.

Buscamos analisar em diferentes obras, tais como registros jornalísticos e literários, dados que nos proporcione uma reflexão acerca do tema proposto, de modo a identificarmos qual dos conceitos melhor se adequa ao fato, ocorrido há mais de um século no Brasil. No entanto, entender um acontecimento histórico de maneira menos parcial possível, pois o conceito de imparcialidade é questionável, é uma tarefa em que se faz necessário atentarmos não somente às obras de um determinado gênero, mas a todos os dados que se possa reunir sobre o momento em que o evento ocorreu.

O que se propõe é uma análise sobre o contexto histórico, as correntes filosóficas vigentes, e os interesses políticos e econômicos com que conviveram os autores que nos deixaram suas obras e que até hoje nos servem de ponto de partida para conhecermos a tragédia ocorrida naquela comunidade.

Para este trabalho, partiremos da análise de artigos jornalísticos publicados à época e reunidos por Walnice Nogueira Galvão em O Calor da Hora. Em seguida, pretendemos analisar Os Sertões, livro de Euclides da Cunha, que é tido como referência maior sobre Canudos, e por este ter sido um dos jornalistas que fizeram a cobertura in loco do conflito. Ainda, pretendemos buscar a visão de Mario Vargas Llosa, romancista peruano que escreveu A Guerra do Fim do Mundo, sobre o mesmo tema, baseando-se na obra de Euclides.

A escolha desse tema e dos livros sobre ele se deu pela amplitude e importância histórica para o Brasil do assunto, bem como pelo fato de ter influenciado diferentes escritores a criarem obras com tal conteúdo, motivo que nos despertou o interesse por buscar o entendimento sobre a visão desses autores em relação ao mesmo tema, assim como a influência dos jornais que fizeram a cobertura do conflito, ligando dessa maneira os diferentes gêneros.

Socializar, através de pesquisa e sua divulgação, os produtos que dizem respeito à memória histórica e cultural nacional, é, de alguma forma, transformá-los em bem coletivo e, simultaneamente, pensar a atuação do intelectual como existindo em um mundo público ou lutando em um (e por um) mundo público. (ARENDT, 1997)



METODOLOGIA
O projeto de pesquisa, ainda em andamento, está sendo desenvolvido com base em leitura, fichamento dos textos constantes da bibliografia e análise do material coletado. Dessas fontes constam obras literárias, obras de cunho teórico, artigos de jornais, sítios da internet, filmes e documentários.

CAPÍTULO I - O BRASIL DO SÉCULO XIX

No final do século XIX, a Monarquia Parlamentar Constitucional do Brasil encontrava-se em declínio por entrar em contradições, pois, embora fosse um governo parlamentar, o poder estava sempre nas mãos de D. Pedro II. O Rei também já não tinha mais o apoio da elite agrária, que buscava maior poder político, já que tinham grande poder econômico, principalmente os produtores de café do oeste paulista. Somando-se a isso, outros fatores contribuíram para o fim da Monarquia, tais como a interferência de D. Pedro II nas decisões da igreja católica, que até então tinha poder por legitimar o sistema monárquico como sendo a extensão das forças divinas; corrupção existente na corte; a classe média buscando por mais liberdade nos grandes centros e, teoricamente, a população descontente com o sistema vigente, pois, como nos comenta José Murilo de Carvalho (1990), o povo assistia bestializado às transformações no país.

Consequentemente, a Monarquia sendo um modelo de governo que não atendia mais aos anseios do povo, fez com que, no dia 15 de novembro de 1889, Marechal Deodoro da Fonseca, demitisse o Conselho de Ministros e seu presidente e, assinando um manifesto proclamando a República no Brasil, instalou um governo provisório. Nesse momento, os militares entravam em cena demonstrando seus interesses em relação ao processo de instauração da República no país, pondo em prática uma corrente política oriunda do pensamento positivista de Comte e consequentemente legitimando a ideologia da classe dominante, que defendia a ideia de que se foram eles os responsáveis pelo desenvolvimento econômico, também poderiam o ser na administração do país. Se apoiando também no evolucionismo de Darwin, os militares não tiveram grandes problemas junto à classe dominante e à população de se firmar como propositores de uma sociedade chamada por eles de evoluída, findando a monarquia e afastando o Estado da igreja, a qual tivera grande poder e influência nas decisões da sociedade até então. Esse afastamento da igreja nas decisões da sociedade fez com que a religião perdesse, junto à população, sua credibilidade.

Quanto ao clero, nenhuma influência exercia nas classes dirigentes. Submetido ao Estado pelo regalismo, desacreditado junto às classes menos favorecidas e ignorado pelos indivíduos voltados para o pensamento racionalista, era inativo e chegava mesmo a reconhecer que o espírito do catolicismo estava a definhar no nosso país. As relações entre a Igreja e o Estado eram estabelecidas na Constituição do Império e tolhiam a Igreja, prendendo-a aos interesses daquele. (SILVA, 1982, OnLine).

Embora as elites econômicas, a letrada e parte da população quisessem o governo republicano, surgiram algumas revoltas em partes do país, algumas delas classificadas como antirrepublicanas. Um dos motivos disso se deu pelos altos impostos decretados pela Constituição do governo republicano e que fugiam à realidade dos cidadãos. Essas pessoas, em sua maioria analfabetos, pobres, índios e escravos recém-libertos que viviam da oferta de sua mão-de-obra, não tinham como pagar as taxas que passavam a ser cobradas.

O alto valor das terras, após a abolição da escravatura, impossibilitava que os trabalhadores adquirissem propriedades para o cultivo, mesmo o de subsistência, aumentando ainda mais as desigualdades e fazendo crescer o número de brasileiros em situação socioeconômica desfavorecida, reforçado pelos altos níveis de desemprego provocado pela monocultura e pelo latifúndio. Entre esses brasileiros estavam os sertanejos do norte do Brasil, que enfrentavam situações precárias, pois as secas cíclicas deixavam os latifúndios improdutivos, provocando o desemprego crônico e castigando a população.

Sem perspectivas em relação aos locais onde moravam, muitos começam a se unir por uma causa coletiva e que lhes proporcionava a esperança de uma vida melhor. A esperança dessas pessoas vinha das palavras de um homem chamado Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro.

Esse homem de barbas longas e túnica azul liderou cerca de 25 mil sertanejos, os mesmos homens, mulheres e crianças que se encontravam em situação de fome e esquecimento por parte dos governantes. Como já dito, eles não tinham mais esperanças, e viam em Conselheiro a luz que pediam aos céus para sua salvação, seguindo sua crença religiosa. Cada dia mais pessoas seguiam a multidão que passava pelos vilarejos rumo à terra prometida e assim, estabeleceram o arraial de Canudos, no norte da Bahia como sua morada. Naquele lugar, todos compartilhavam o que possuíam e trabalhavam juntos a terra para que pudessem produzir. Os que para lá iam, acreditavam na salvação divina e viam Conselheiro como sendo o messias enviado por Deus para salvá-los. No entanto, os fazendeiros que perceberam que grande parte da população estava indo embora para Canudos, ou seja, a mão de obra, resolvem se unir à igreja, que perdia suas “ovelhas”, para pedir ao governo providências contra Antônio Conselheiro por este representar uma ameaça, pois houve caso em que pequenas cidades ficavam vazias, uma vez que muitos o acompanhavam rumo à terra prometida.

A informação enviada aos republicanos no governo sobre o ocorrido naquela região era a de que Conselheiro e seu grupo estavam se armando para invadir as cidades vizinhas e seguirem rumo à capital para tentar restaurar a Monarquia.

Entendendo Canudos como uma ameaça separatista, o governo decide, com base na Constituição de 1891, enviar tropas para acabar com o movimento popular liderado por Conselheiro. Esse ataque do governo contra Canudos foi narrado por militares-jornalistas que enviavam notícias às famílias e aos jornais, os quais formavam a opinião pública de todo o país com suas publicações, as quais analisaremos adiante.



1.2 INTERESSES POLÍTICOS E ECONÔMICOS
No início da República, grandes eram os interesses dos diversos ramos da sociedade, principalmente os das classes dominantes, assim como eram grandes as transformações e consequências de suas ações na sociedade. Como nos apresenta Carvalho: “por dois anos, o novo regime pareceu uma autêntica república de banqueiros, onde a lei era enriquecer a todo custo com dinheiro de especulação”. (CARVALHO, 1990, p. 22)

O topo dessa pirâmide social ainda contava com latifundiários, produtores de café, que necessitavam de grande contingente de mão de obra barata para cultivo de suas terras. Esses produtores dependiam de toda e qualquer decisão que viesse do governo nacional e do mercado internacional, pois este era o maior comprador do café brasileiro. Com as oscilações desse mercado, os produtores tinham grandes prejuízos, mas quem mais sentia o reflexo desses negócios eram os trabalhadores, pois com fatores ambientais desfavoráveis, o sistema econômico em crise e as relações de trabalho exploratórias, culminaram no desespero por parte desses brasileiros, o que os estimulou a partirem em busca de melhores condições de vida.

Os militares, estando no poder, viam a necessidade de manter tudo sob controle, pois a qualquer sinal de que algo na sociedade não estava a contento, isso poderia configurar uma ameaça, inclusive de restauração da Monarquia, como cita Carvalho:
Os militares tinham provado o poder que desde o início da regência lhes fugira das mãos. Daí em diante se julgaram donos e salvadores da República, com o direito de intervir assim que lhes parecesse conveniente. (CARVALHO, 1990, p. 22).

O distanciamento geográfico em relação a Canudos fez com que o governo federal soubesse dos fatos ocorridos no interior da Bahia somente por meio dos jornais e declarações dos governantes daquela localidade, os quais se uniram à igreja para informar sobre o que ocorria aos republicanos. O Estado então toma a decisão de enviar tropas para lá sem que enviassem antes um representante seu para saber o que realmente ocorria. Essa sequência de omissões e de interesses de alguns culminaria no maior massacre ocorrido no Brasil.



CAPÍTULO II - O JORNALISMO NO BRASILEIRO DO SÉCULO XIX
2.1 BREVE HISTÓRICO
O jornal impresso era o mais eficiente meio de comunicação nessa época e, consequentemente, tudo o que se sabia sobre algum acontecimento se originava por esse veículo. Na extensa obra História da imprensa no Brasil, Nelson Werneck Sodré (1983) faz uma descrição das atividades jornalísticas e culturais da segunda metade do século XIX, e chama a atenção para a importância dos jornais como fontes de expressão das contradições políticas, sociais e o desejo de uma nova ordem política. O influxo dos acontecimentos, como os movimentos republicanos, abolicionistas, as questões religiosas, federativa e militar, teve na imprensa uma forte aliada, fazendo com que os jornais se multiplicassem, espalhados por todo o país.

Os maiores jornais nesse período estavam nos grandes centros como Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. Distantes do conflito de Canudos, os jornais muitas vezes publicavam notícias que os soldados da república escreviam e enviavam às suas famílias dando detalhes sobre o confronto e solicitando que essas mesmas informações fossem levadas às redações para publicação. Os correspondentes e enviados especiais para a cobertura in loco dos fatos se dá somente na etapa final do confronto. Logo, as primeiras publicações continham somente a versão dos militares e consequentemente, apresentavam os sertanejos aos leitores como sendo os bandidos rebeldes. A opinião pública, portanto, era formada acerca do que era apresentado pelos jornais e principalmente reforçada, pondo os leitores contra as atitudes de Antônio Conselheiro, principalmente quando esses veículos de informação apoiavam o governo republicano. Embora aquela comunidade estivesse muito longe do Rio de Janeiro, capital do país e consequentemente polo de distribuição de ideias, ela representava uma ameaça ao novo governo que se instaurava no país, leitura esta feita por alguns representantes dos jornais que cobriam os acontecimentos e que acompanhavam toda a movimentação dos soldados.

No local onde os militares se reuniam para deliberar sobre suas ações, assim como nos campos de batalha, muitas barreiras eram impostas aos repórteres em relação às informações que saiam do arraial de Canudos. A censura militar, a distância entre Monte Santo, Queimadas e Salvador, e dali para que as notícias fossem enviadas para São Paulo ou Rio de Janeiro, muitas vezes não permitia que o conteúdo escrito fosse transmitido aos jornais.

Em No Calor da Hora, obra que reúne as principais notícias da quarta expedição do Exército contra Canudos, Walnice Nogueira Galvão nos apresenta uma coletânea da cobertura dos principais jornais da época sobre o conflito e os divide de acordo com as suas representações dos fatos noticiados, sendo elas a galhofeira, a sensacionalista e a ponderada, como poderemos analisar adiante.



2.2 O PAPEL DA MÍDIA NA SOCIEDADE
Todas as pessoas na sociedade, assim como todo grupo social precisam se comunicar para que haja um entendimento sobre suas ações, pensamentos, e consequente tomada de decisões para que exista uma harmonia entre suas relações. Em se tratando de um país com dimensão continental como o Brasil, esse meio que liga as pessoas informando-as tem a responsabilidade de fazê-lo de maneira clara e imparcial. Às empresas jornalísticas fora atribuída essa responsabilidade no final do século XIX, quando o jornal era o mais eficiente meio de comunicação no país. No entanto, para entendermos todos os significados do que se transmitiu por esses meios, devemos levar em consideração que não somente a imparcialidade é um dos atributos de quem escreve; também é necessário que haja um entendimento sobre os fatores que influenciam o pensamento de uma época, assim como a ideologia de grupos que controlam o que é veiculado pelos meios de comunicação.

Walnice Nogueira Galvão, em sua obra, cita McLuhan, onde este afirma que “a notícia é um bem de consumo e por isso carrega com ela a publicidade” (GALVÃO, 1994, p. 15); existiria a afirmação de que os jornais a época de Canudos apenas noticiavam os fatos ou defendiam eles os interesses de um grupo? Esta pergunta surge inevitavelmente a quem segue lendo a obra, pois esta evidencia que esse meio de comunicação pode ter sido utilizado para criar um imaginário popular em relação aos fatos ocorridos na sociedade e também, transmitir aos brasileiros as novas crenças, valores e ideologias da recém-criada República, e que esses valores fossem aceitos por todos para a legitimação do regime.

Em seu livro A Formação das Almas, José Murilo de Carvalho apresenta a construção do imaginário do povo e nos mostra que os republicanos buscavam essa manipulação de diversas maneiras, assim como nos adverte que “suas armas foram a palavra escrita e os símbolos” (CARVALHO, 1990, p. 138).

Essa busca dos republicanos se dava pelo fato de que ao novo regime era necessária a aceitação e a amabilidade por parte da população. A empreitada era de extrema importância para a implantação da República, e não seria positivo se algo falhasse; logo, qualquer fato que configurasse ameaça deveria ser exterminado para que não atrapalhasse os planos dos militares. Estes, vendo a possibilidade de apressar a marcha da história, tomaram atitudes e agiram com convicção no que faziam com toda energia.

O autor segue nos mostrando que:

[...] se a ação tinha de se basear no convencimento, impunha-se o uso dos símbolos. Em primeiro lugar, sem dúvida, a palavra escrita e falada. Dela fizeram uso abundante em livros, jornais, publicações da igreja, conferências públicas. Era sua arma principal o convencimento dos setores médios. Mas empregavam também o simbolismo das imagens e dos rituais, especialmente tendo em vista dois públicos estratégicos, as mulheres e os proletários, menos afetos, ao menos no Brasil, à palavra escrita. Atingir esses dois públicos, convencê-los da verdade da doutrina era condição indispensável ao êxito final da tarefa que se impunham. A briga pelas imagens adquiria importância central. (CARVALHO, 1990, p.139).

Do grande número de jornais ou periódicos que desapareceram por problemas políticos e financeiros, ficaram os que noticiaram os eventos de Canudos.

À época dos ataques do exército ao grupo de Antônio Conselheiro, os jornais eram editados nos maiores centros urbanos do país, sendo voltados à um público presumivelmente mais refinado.

Esse meio de comunicação, assim como outros ramos da sociedade, não poderia deixar de ser influenciados pelas correntes filosóficas da época, como nos apresenta a autora na definição do estilo dos jornais da época em que classifica a estrutura como sendo Parnasiano-naturalista-positivista-patriótico. Segundo o estudioso Afrânio Coutinho, “O século XIX é um campo onde cruzam e entrecruzam, avançam e recuam, atuam e reagem umas sobre as outras, ora se prolongando ora opondo-se, diversas correntes estéticas e literárias” (1997, p. 05)

Em meio aos vários tipos de notícias que o jornal do final do século XIX publica, surgem as notícias vindas do norte da Bahia narrando o que por lá ocorria, como afirma Walnice Nogueira Galvão, “fermentando a desordem e carregando nas cores, a representação escrita e imediata em cima do fato, da guerra de Canudos”. (1994, p. 32)

Como já analisamos nas opiniões de Carvalho, também em Galvão pode-se observar referências à tendência de manipulação por parte dos jornais sobre a opinião pública quando da menção das notícias satíricas sobre o assunto.

RESULTADO E DISCUSSÃO
Depreendemos da leitura e análise dos fatos históricos e sociais da época que, assim como outros movimentos sociais de luta por terra, o caso de Canudos foi transmitido pela mídia no Brasil e consequentemente várias faces foram dadas ao acontecimento, uma vez que havia diferentes ideias e ideais por parte dos jornais que cobriram o acontecimento.

Embora todos os jornais transmitissem informações sobre Canudos, devemos lavar em consideração que os jornalistas que relataram as ações do sertão da Bahia, foram para o local do conflito somente no final deste.

Uma vez observado tal aspecto nota-se que, embora estivessem no local, os jornalistas já tinham uma ideia sobre o que estava acontecendo por lá.

No entanto, tal construção de ideias, das quais foram utilizadas para que as notícias fossem veiculadas na imprensa, foram uma construção sob a ótica dos militares, que desde o início enviavam as informações para os seus familiares e consequentemente serviam para informar aos jornais o que ocorria naquele local.

Outras informações que podemos colher da leitura dos artigos, inclusive os de denúncias, feitas por alguns jornalistas, é o fato de que o massacre movimentava a economia daquele lugar, e era interesse para alguns que ela não acabasse.

Portanto, almejando instigar ao leitor para que busque mais informações sobre o caso, fica o questionamento: o que ocorreu em Canudos: guerra ou massacre?



CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que nos é deixado sobre o passado do Brasil, quase 114 anos depois do que ocorreu em Canudos, são relatos literários, artigos de jornais, documentários, entre outros registros históricos. Compete a nós tentarmos estabelecer conexões entre tais informações para que tentemos nos aproximar o máximo possível do ocorrido, possibilitando a busca do entendimento do que de fato se passou naquele lugar.

Levando-se em consideração que os registros produzidos em determinada época tem relação com o contexto local, regional e outros aspectos, como correntes filosóficas vigentes, subjetividades, interesses de grupo, entre outros, trata-se de um trabalho árduo e que sempre será possível agregar novos conhecimentos obtidos de futuras pesquisas.

A história de Canudos se enquadra nesses aspectos pois muito, no entanto de maneira contraditória, se produziu na época em que o conflito ocorreu, vindo a ser esquecido, ou “apagado” da história do país posteriormente. Portanto, para que não se apague de vez, nos propusemos a buscar um melhor entendimento do que de fato ocorreu no interior da Bahia no final do século XIX, deixando para as gerações vindouras as reflexões sobre uma parte de nosso passado que chega à nós até os dias atuais por meio da literatura e da história.


REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. R. Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados. O Rio de Janeiro e a República que Não Foi. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
________________________ A Formação das Almas. O Imaginário da República no Brasil. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986, vol. IV.

__________________. Conceito de literatura brasileira. Petrópolis: Vozes, 1976.

GALVÃO, Walnice Nogueira. No Calor Da Hora. A Guerra de Canudos nos Jornais 4.ª Expedição. 3 Ed. São Paulo: Ática, 1994.

Chomsky, Noam. O que o Tio Sam Realmente Quer. Brasília: UNB, 1999.

CALVINO, Italo. Por que Ler os Clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.



SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
Contato do autor: deivedoliveira@yahoo.com.br


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