A história das instituiçÕes de ensino confessionais: um estudo do colégio nossa senhora das lágrimas



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A HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO CONFESSIONAIS: UM ESTUDO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS LÁGRIMAS
Lucélia Carlos Ramos1

Geraldo Inácio Filho2


O presente trabalho procura reconstruir um pouco da história do Colégio Nossa Senhora das Lágrimas, escola religiosa da cidade de Uberlândia–MG fundada especialmente para a educação feminina. Buscando através de alguns documentos do colégio e textos pesquisados compreender as especificidades do ensino confessional e suas

particularidades.

Desde o princípio a educação escolar foi influenciada pela Igreja Católica que muito interferiu e interfere no plano moral, nos costumes, na vida e nas bases cristãs das famílias. Através das fontes pesquisadas foi possível perceber a grande influência do ensino particular na região, salientando que a formação das famílias de melhores condições financeiras esteve em grande parte nas mãos de instituições de ensino particulares, principalmente católicas.

Os costumes dos colégios religiosos de certa forma se diferem dos das instituições escolares em geral, talvez para marcar essa distinção, o uso de uniformes diferenciados, os muros altos, os horários rígidos, as exigências de silêncio nas salas de aulas ou corredores, a vigilância constante, a rigidez quanto à preservação da moral e dos bons costumes, caracterizando um mundo misterioso que abrigou várias personagens reservando-lhes uma vida à parte e de certa forma controlada.



O interesse da Igreja no campo da educação e o apoio do governo tornaram possível às congregações estabelecerem seus colégios. Elas conquistaram espaços sociais cada vez maiores, seus efetivos se multiplicaram e, enfim, a vida religiosa feminina solidificou suas raízes em nosso país. Na Segunda metade do século XIX, religiosas e religiosos detinham praticamente o monopólio da educação no Brasil: das 4600 escolas secundárias existentes, 60% pertenciam `a Igreja e gozavam de enorme prestígio.3

Assim, as escolas confessionais se expandiram, visando preservar os princípios cristãos e resguardando sua força na sociedade através do controle das instituições educacionais.

Para trabalhar a história do Colégio Nossa Senhora das Lágrimas foi necessário um corte temporal, assim, o período de análise inicia-se em 1932 , foi nesse ano que ocorreu a sua fundação em Uberlândia. Momento também em que tomou força no Brasil o movimento da Escola Nova, quando os Pioneiros da Educação Nova lançaram seu Manifesto, travando uma polêmica com os católicos em torno da educação. O Manifesto afirma que a finalidade da educação se define de acordo com a filosofia e as exigências de cada época e como a sociedade estava mudando era necessário que a educação acompanhasse e refletisse essas transformações. Assim, o Manifesto dos Pioneiros, redigido sob os ideais do liberalismo, apresentou a educação como um problema social, reivindicando uma maior participação do Estado no sentido de assegurar escola para todos, contestando a educação como um privilégio das elites, porém não menosprezando a contribuição do ensino particular, desde que fosse controlado também pelo Estado.

O Manifesto sugere em que deva consistir a ação do Estado, reivindicando a laicidade do ensino público, a gratuidade, a obrigatoriedade e a co-educação. Reconhecendo pertencer ao cidadão o direito vital à educação e ao Estado o dever de assegurá-la de forma que ela seja igual e portanto única, para todos quantos procurem a escola pública, é evidente que esse direito só possa ser assegurado a todas as camadas se a escola for gratuita. Por outro lado a necessidade de colocar o ambiente escolar acima das seitas, disputas religiosas e dogmatismos. (...) Impõe-se que seja leigo o ensino na escola pública.4

A partir do Manifesto inúmeras discussões se sucederam, sendo os principais pontos de divergência entre a Igreja e os Pioneiros, aqueles em que ela se via ameaçada, quanto ao controle do processo educacional, no que tange ao direito e dever de educar, a laicidade do ensino e a educação única.5



O liberais opositores ferozes do conservadorismo católico, expressam também sua crítica ao ensino ministrado pelas religiosas. Insistem nos prejuízos causados pela educação confiada aos padres e freiras.6

Os representantes da Igreja Católica afirmavam que a finalidade das escolas confessionais era formar cristãos. Assim, o Colégio Nossa Senhora das Lágrimas também se preocupava em evidenciar seu caráter religioso oferecendo catequese e retiros espirituais, dentre outras atividades.

Essa investigação encerra-se na década de 1960, momento em que é possível perceber um certo descompasso da Igreja frente ao “mundo”. A situação favorável das ordens religiosas, em relação a direção das instituições, principalmente educacionais, começa sofrer mudanças a partir da segunda metade do século XX, pois sua organização e seu discurso legitimador estavam sendo considerados ultrapassados diante das transformações sociais e culturais ocorridas. Com isso, o Concílio do Vaticano II, buscou reorientar a doutrina católica

Nas décadas de 1950 e 1960, período de efervescência na sociedade brasileira, desenvolvem-se os processos de industrialização e de urbanização acelerada, de decisivo atrelamento da economia ao capital internacional mudando-se a composição dos blocos de poder nacional. As transformações na área cultural são também marcantes . Os meios de comunicação de massa, especialmente a televisão interligam pessoas e grupos. Novos comportamentos no âmbito da sexualidade são propiciados pelo uso da pílula anticoncepcional.7

Diante de tais mudanças na sociedade, a Igreja e os colégios religiosos se viram obrigados a alterarem , mesmo que sutilmente, seus discursos e suas atividades dando maior abertura à “modernização”, tentando pregar seus valores de forma mais livre.

Na área educacional o movimento escolanovista, no Brasil, atingiu seu auge sendo constituída a lei 4024/61, o primeiro Plano Nacional de Educação. Esta foi a primeira lei a tratar da educação como um todo, estabelecendo diretrizes e bases para todos os ramos e graus do sistema educacional brasileiro. Esta lei contém em seu artigo 97, o dispositivo do ensino religioso como disciplina normal dentro do currículo comum, de matrícula facultativa e sem ônus para o Estado.

O Colégio Nossa Senhora das Lágrimas foi fundado em Uberlândia em 1932 pelas Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado e, como já foi dito anteriormente, dedicou suas atividades iniciais à educação feminina, sendo que só a partir de 1971, o sexo masculino passou a fazer parte do seu quadro discente, com o início do Curso Colegial em substituição ao Curso Normal que durante vários anos funcionou formando grande número de professoras primárias e preparando as jovens para o vestibular. O Colégio ocupa, ainda hoje, aos 69 anos de funcionamento, papel de destaque no meio educacional uberlandense.

O colégio funcionou sob regime de internato, semi-internato e externato com os cursos Primário, Ginasial, Colegial e Normal. Entretanto, por ser uma instituição religiosa possuía algumas atividades diferenciadas das outras escolas dentre elas retiros espirituais, aulas de etiqueta, doutrina social e cursos para empregada doméstica.

Não é difícil perceber que a maioria de suas alunas pertenciam à classes sociais mais elevadas8 dado o seu caráter de escola particular. Como podemos constatar através de um documento redigido pelas Irmãs Missionárias



A Igreja trabalha sobretudo as elites, acreditando que elas é que puxam o povo, e colabora com o governo para manter a ordem e a autoridade constituída na sociedade brasileira.9

Logo no início de seu trabalho, contou com um número de 50 (cinqüenta) alunas matriculadas para as quatro primeiras séries primárias, primeiro ano de Adaptação e Jardim da Infância, evidenciando o seu prestígio. A instituição funcionou durante os primeiros cinco meses numa casa particular de onde foi transferida para o endereço atual e registrada como estabelecimento particular.

Um dos aspectos interessantes do ensino do Colégio Nossa Senhora das Lágrimas é a preocupação com a disciplina e formação moral bastante vivas em sua concepção de educação, condizentes com os preceitos básicos que nortearam a educação católica, isto é, preservar o senso moral e religioso das populações, sobretudo as femininas.

As Irmãs Missionárias, durante décadas, foram responsáveis pela formação das moças de Uberlândia e mesmo daquelas vindas de outras regiões como: Mato Grosso e Goiás, pois devido a existência de poucas escolas nessa época era necessário que as pessoas interessadas em estudar, muitas vezes o fizessem fora de suas cidades e longe de suas famílias. A partir dos documentos consultados foi possível perceber que as escolas confessionais, geralmente têm uma função diferenciada das demais escolas privadas, que são instituídas visando mais o lucro. As escolas religiosas objetivam também a evangelização e a preservação de seus fiéis. Assim, o trabalho das Missionárias iniciou-se na década de 1920 com centros de catequese nos bairros periféricos de Campinas-SP, onde trabalhavam com a população carente. Sua finalidade precípua estava na "salvação das almas"10.

Outro ponto que me chamou atenção, foi a finalidade de ajudar no combate à infiltração comunista e à maçonaria, expressa em alguns documentos que versam sobre a história do colégio.

Com o rápido crescimento da população sobreveio a preocupação das autoridades, principalmente a respeito das crianças e dos jovens. Embora a cidade fosse ainda nova, o povo uberlandense logo se achou sob ameaça da infiltração comunista e da maçonaria, O bispo da diocese, Frei Luiz Maria de Santana percebeu que era urgente a organização da catequese. Havia também a necessidade de uma escola cristã, cuja filosofia de vida pudesse orientar os educandos nos caminhos da justiça e da verdade levando-os a atingirem seu desenvolvimento integral. Nos projetos divinos, porém, já se esboçava uma barca da salvação: O colégio Nossa Senhora das Lágrimas11.

Outro documento retoma a idéia, quando diz:



A primeira comunidade missionária a sair da diocese de Campinas e do Estado São Paulo foi a de Uberlândia. Esta cidade mineira conhecida em todo Brasil pela infiltração comunista, foi inicialmente trabalhada por nove Irmãs Missionárias, que deixaram a casa em 3 de fevereiro de 1932. O bispo diocesano, Frei Luiz Maria de Santana, meses depois fora especialmente para Campinas conversar com Dom Barreto e Maria Villac, para entregar uma pequena casa de ensino destinada às famílias daquela região. Via ele assim um meio eficaz para ajudar aquele povo que estava aderindo ao comunismo, a superar a crise.12

Por estes fragmentos percebe-se a intenção dos fundadores e das religiosas, do colégio, em controlar as idéias comunistas na cidade. A Igreja estava consciente de que o decreto de abril de 193113, permitindo o ensino religioso nas escolas públicas por si só não era suficiente. Era necessário lutar pela sua regulamentação que ocorreu com a promulgação da Constituição de 1934.

Nesse sentido, o Colégio nossa senhora das Lágrimas seria um aliado na luta contra o avanço do comunismo na cidade, sendo que segundo documentos encontrados, foi principalmente o combate às idéias comunistas, que propiciou a criação da instituição. Nessa perspectiva a mulher seria um instrumento necessário, pois através da ação das mães e professoras formadas dentro dos moldes do catolicismo seriam levados adiante os ensinamentos e valores cristãos na busca de moralizar a comunidade. Assim, pode-se dizer que:

A igreja protege para melhor controlar a mulher (...) interessada em construir famílias onde o papel da mulher fosse o de instruir e educar os filhos cristãmente, a fim de propagar os ideais do catolicismo, a Igreja contribui para formar uma sensibilidade mais aguda em relação à maternidade e à infância, tanto no mundo da afetividade quanto no do saber.14

Esta mulher "bela e pura", teria então maior capacidade de educar seus filhos e conduzir sua vida conjugal, escapando, desta forma, dos maus costumes e da vulgarização, o ensino católico privilegiava a formação da esposa, da mãe e da professora.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Pode-se afirmar que em cada período da história o modelo de educação corresponde aos interesses do processo produtivo, através do sistema educacional a sociedade forma seus membros moldando-os em função de seus interesses. As instituições educacionais refletem os interesses sociais, políticos e econômicos e têm na educação escolar um dos mecanismos básicos de transmissão de cultura, perpetuando, portanto, representações e valores, a escola constitui um filtro que modela as mudanças que vem do exterior, bloqueando ou dinamizando-as.15 Assim a relação existente no interior do espaço escolar entre educadores e educandos é marcada pela intenção, pelos meios e pelos resultados da ação educativa.16

O primeiro passo da Congregação das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, fundada em 1928 na cidade de Campinas-SP, por Dom Francisco de Campos Barreto e Maria Villac foi levar a evangelização e a catequese aos pobres e operários em locais pouco acessíveis, assumindo mais tarde diversos trabalhos pastorais dentro e fora de Campinas, cidade de origem. Em Uberlândia seu trabalho se desenvolveu voltado para a educação escolar com a fundação do Colégio Nossa Senhora das Lágrimas em fevereiro de 1932. O colégio funcionou durante os primeiros meses numa casa particular e com um número inicial de 50 alunas matriculadas, evidenciando o prestígio concedido ao ensino religioso na região. Tendo em vista a necessidade de melhores condições para o funcionamento das aulas, o colégio passou a funcionar no endereço atual e registrado como estabelecimento particular, com a função de formar professoras.

Entre os objetivos que motivaram a fundação do Colégio na cidade, segundo documentos trabalhados, estava a necessidade de uma escola cristã cuja filosofia de vida pudesse orientar os educandos nos caminhos da justiça e da verdade, e ainda, o perigo da infiltração comunista e da maçonaria.17

No período estudado identificamos uma preocupação especial com a disciplina, a ordem e a formação moral das alunas, bem como, a intenção das religiosas da Congregação em manter a tradição católica, presença marcante em Minas Gerais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AZEVEDO, Fernando de. O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. In: CRESCENTI, Maria Rita Caiuby. Um pouco da nossa história. São Paulo: Gráfica da Revista Presente, edição da Congregação das Missionárias de Jesus Crucificado, 1980.

DEL PRIORE, Mary. A Mulher na História do Brasil: São Paulo: Contexto, 1998.



História do Colégio Nossa Senhora., mímeo, s.d.e.

LIMA, Danilo. Educação, Igreja e Ideologia: uma análise sociológica da elaboração da Lei de Diretrizes e Bases . Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

Missionárias de Jesus Crucificado. A Congregação da Missionárias de Jesus Crucificado no contexto da realidade brasileira e da Igreja no Brasil. São Paulo,1983.

NÓVOA, António. As organizações escolares em análise. Lisboa: Dom Quixote; Instituto de Inovação Educacional, 1992.

NUNES, Maria José Rosado. Freiras no Brasil. In: Mary DEL PRIOIRI (org); Carla BASSANEZI (coord. de textos). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997.

ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da Educação no Brasil: 1930-1973. Petrópolis: Vozes, 1978.




1 Pedagoga e Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia

2 Orientador – Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia

3 Maria José Rosado NUNES. Freiras no Brasil. In: Mary DEL PRIOIRI (org); Carla BASSANEZI (coord. de textos). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997, p. 494

4 Otaiza ROMANELLI. História da Educação no Brasil (1930/1973). Petropolis: Vozes, 1993, p. 147

5 Danilo LIMA. Educação, Igreja e Ideologia: uma análise sociológica da elaboração da Lei de Diretrizes e Bases . Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978, p.74

6 Maria José Rosado NUNES. Freiras no Brasil. In: Mary DEL PRIOIRI (org); Carla BASSANEZI (coord. de textos). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997, p. 494

7 Idem, p. 497

8 Após ter verificado os registros de alunas, disponíveis nos arquivos do colégio, percebeu-se que elas eram em sua maioria , filhas de comerciantes, funcionários públicos e famílias tradicionais de Uberlândia.

9 Missionárias de Jesus Crucificado. A Congregação da Missionárias de Jesus Crucificado no contexto da realidade brasileira e da Igreja no Brasil. São Paulo,1983, p. 1

10 História do Colégio Nossa Senhora, mímeo, s.d.e., p.1

11 Idem, ibidem.

12 Maria Rita Caiuby CRESCENTINI. Um pouco de nossa história. São Paulo, edições da Congregação das Missionárias de Jesus Crucuficado, 1980, pp. 26-27

13 Decreto elaborado por Francisco Campos, em 1931 propondo ainda a regulamentação do ensino religioso nas escolas públicas

14 Maria Del PRIORE. A Mulher na História do Brasil, São Paulo: Contexto, 1998, pp. 56-57

15 António NOVOA. As organizações escolares em análise. Lisboa: Dom Quixote; Instituto de Inovação Educacional, 1992, p.41

16 Fernando de AZEVEDO. A cidade e o campo na civilização industrial e outros estudos. São Paulo: Melhoramentos, 1962, p. 166.

17 História do Colégio Nossa Senhora, s.d.e., p. 1.

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