A história de Ana



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Encontro29.07.2016
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A história de Ana
Logo após sua formatura, Ana está empregada, dando aula de Português em uma escola pública em um município vizinho ao seu. Os alunos de 7ª e 8ª série, em geral adolescentes na faixa dos 15, 16 anos costumam dar muito trabalho – um tipo de trabalho que ela não tinha previsto que teria e que excede em muito as tarefas cotidianas de montar a aula, elaborar provas, corrigir, etc.

É o início de mais um ano letivo. Após respirar fundo, Ana entra em sala e encontra os quatro personagens que iriam fazer daquele ano um bem diferente dos que já tinham passado. No fundo da sala, no canto perto da parede está José, um garoto bem mais velho que os outros, calado, atencioso às aulas, mas com um silêncio misterioso; também no fundo da sala, mas perto da janela, está Pedro Paulo, esse, ao contrário de José, bem falante, ativo, cheio de ‘marra’; e logo nas duas primeiras filas estão Úrsula e Moacir. Os dois vieram de outras escolas e a diretora pediu atenção especial a eles. De início, Ana não sabe porque, mas em breve vai descobrir.

A primeira aula foi como todas as primeiras aulas: apresentação, distração, bagunça, repreensões, algum conteúdo, pouca assimilação, nenhum interesse. No final, uma conversa que vai determinar os rumos dos personagens e de Ana:

- E aí, José, de novo, hein? É a terceira ou quarta vez que tu repete a 8ª? – pergunta Pedro Paulo com seu jeito descolado.

- É a quarta e o que que tu tem a ver com isso? Me deixa, cara – responde um irritado José.

- Aí, ‘carne nova’ no pedaço... prazer, me chamam Pedro Paulo, gatinha.

- ... – é a resposta de Úrsula.

Diante do ‘fora’, e para que os demais colegas não percebessem, Pedro Paulo mudou de alvo:

- E você, meu irmão, qual é a tua? – pergunta ele, dirigindo-se a Moacir.

- Eu aluno, novo, estudar.

- Ih, tu fala português ou o que, cara?

- Deixa ele, Pedro Paulo – interrompe Ana, percebendo que o garoto estava tímido e não queria papo.

- Ah, que isso, professora, olha a pinta dele, é índio mesmo! Será que é canibal, galera?

- Índio sim, orgulho!

- É, cara, tá difícil o português aí hein... como é que ele chegou na 8ª falando assim?

- Ué, se o José chegou, por que ele não?- responde outro aluno, causando risos de todos.

- A diferença é que o José pelo menos fala uma língua, esse aí nem isso...

Ana não teve tempo de intervir porque todos já estavam a caminho do pátio. Também não teve como abordar Moacir, já que o garoto saiu correndo. Na aula seguinte, o clima da sala já estava diferente e as atenções se voltavam para Moacir. Afinal, a idéia de Pedro Paulo de que Moacir não falava língua alguma tinha se espalhado, ou pelo menos a versão de que a língua nativa dele era um amontoado de palavras e sons complicados e estranhos, sem formar um conjunto, sem ter uma estrutura como o português. Por essas e outras, já rolava o papo sobre aqueles adolescentes de Brasília que incendiaram um índio.

Ana sentiu que era preciso fazer algo pelo garoto, que aparentava não ter condições de argumentar que ele falava uma língua que seria tão estruturada e tão complexa quanto o português. Na volta pra casa em vez de ficar cuidando dos diários, das aulas seguintes, se dedicou a uma tarefa mais trabalhosa mas que estava lhe dando mais prazer: como convencer seus alunos de que Pedro Paulo estava errado?

A história de Ana


2ª parte:

À agitação do caso Moacyr logo se seguiu outra. Enquanto Ana quebrava a cabeça para tentar resolver o problema colocado por Pedro Paulo, outra aluna estava tendo problemas nas aulas. Úrsula sentava sempre na primeira fileira, nunca conversava com ninguém e seguia com os olhos, de modo insistente, a professora, onde quer que ela fosse durante a aula.

Um dia, alguns alunos foram conversar com Ana, porque estavam preocupados com aquela garota que sempre estava tão distante e sem manter contato com os colegas. Alguns já pensavam que ela vinha drogada, outros diziam que tinha problemas mentais. A verdade não estava com nenhum deles.

Pode parecer impressionante que um professor não conheça o aluno que está sentado na primeira fileira,, mas o dia a dia de Ana, dando aulas em mais de uma escola, com 8 turmas, cada uma com média de 40 alunos, não permitia esse nível de detalhamento. Se o sistema queria educação massificada, era isso o que ela teria a oferecer.

No final de um dia de aula, no entanto, Ana arranjou esse tempo e chamou Úrsula para conversar.

- Úrsula, você sempre vem às aulas, presta atenção em tudo, mas nunca pergunta nada, não comenta, tem algum problema comigo ou com a turma?

- Não, professora, com você não. É comigo e um pouco com eles também – as frases saíram perfeitas, mas a voz parecia fraca, como se ela precisasse fazer um esforço muito grande para produzir aquelas palavras – É que eu sou surda.

Ana não conseguiu conter a cara de espanto. Como uma aluna nova, surda, entra na escola e ela não é avisada? Mas logo em seguida se refez, até se culpando pelo pensamento tolo – imagina se a Escola ia ter esse cuidado, ela que descobrisse. Úrsula então contou que nasceu surda, mas seus pais só foram descobrir isso quando ela tinha quase 2 anos. A primeira coisa que eles fizeram foi tentar fazer ela falar português; só mais tarde, aos 5 anos, teve contato com a Língua de Sinais Brasileira. Aprendeu, passou a usar, mas sempre nas escolas onde passava, era vista como a diferente, a que fazia gestos malucos e que ninguém entendia. Ela resolveu então se especializar em leitura labial para que ela pudesse entender melhor o que os professores dissessem – desde que eles estivessem de frente para ela.

A revelação de que Úrsula era surda não passou desapercebida pela sala. Ana aprenderia que não se tem esse tipo de conversa em público.

- Surda? Tipo de surdo-mudo? – já perguntava José.

- Mas ela fala... não pode ser muda! – argumentou Pedro Paulo.

- Mas o nome é esse: surdo-mudo, não importa se fala ou não; e vê se não perturba ela hein Pedro Paulo, já não basta o Moacyr? Não tá vendo que ela precisa de ajuda, que não fala direito, a gente tem que ensinar ela também.

- E tu vai fazer isso, José? Conta outra...

- Craro, é fácil. É só botar ela pra repetir “O vovô viu a uva”, “O vovô viu a uva”, e pronto.

Ana e Úrsula se olharam com uma cara de espanto. Ana, porque sabia que jamais seria assim que se ensinaria alguém a falar; Úrsula, porque tinha ficado com medo de ser submetida a um massacre de repetições e repetições de frases sem sentido, como a que José tinha falado.

Foi idéia da própria Úrsula que Ana fizesse uma atividade em que contasse aos alunos que não é repetindo que se aprende a falar, ou no caso dos surdos a ‘sinalizar’ uma língua. Ana topou o desafio colocado pela esperta garota, já que sabia que isso reverteria bem para ela. Agora, o desafio era convencer a turma de que José estava errado e que as crianças não aprendem a falar repetindo...

A história de Ana

3ª parte:

O ano letivo já estava chegando à metade. Moacir e Úrsula estavam se revelando alunos aplicados e, embora ainda tivessem falhas básicas de Norma Culta, em muitos momentos deixavam para trás o restante da turma. Ana não contava a eles sobre sua preocupação com essas falhas, não queria desanimá-los, mas no fundo sabia o quanto a sociedade em geral iria se centrar nessas falhas e iria conseguir de alguma forma ainda discriminá-los. Para eles, havia a ‘desculpa’ de serem diferentes (um índio e uma surda), pelo menos. Para outros...

Na última semana de aulas antes das férias de julho, outro evento movimentou a turma de Ana. Circulava pela sala um papel que causava gargalhadas altas e desaforadas em quem o lesse. Como esse tipo de distração era comum, no começo Ana não se importou, mas um dia se irritou e tomou o papel da mão de uma aluna:

- O que é isso, Carla?

- Isso aí é a ‘transcrição’ – falou essa palavra com tom de ironia – de uma conversa entre o José e um colega dele... leva a mal não, professora, mas a senhora vai rolar de rir... No papel constava o seguinte:

“Na estação do trem, dois jovens se encontram...

José: Opa, e aí tudo bem?

João: É, tudo na merma...

José: Tu continua estudano pra areonáutica?

João: Craro. E tu?

José: Ah, despois que eu vi os estrupo das mulé lá da vizinhança, eu mudei. Quero sê engenheiro mais não, quero sê é adevogado.

João: Só...

José: O ploblema, quer dizer o pobrema, ih hoje tá difícil, o plobrema é tempo pra estudá

João: Ah, mas com esse negócio de Enem, ProUni, as coisas tá ficano mais fácil

José: É, mas num pode dá mole não

João: É, aí, mudano de assunto... tu viu os cara da melícia tirano sastifação com os mendingo lá embaixo?

José: Vi não, tava veno o jogo do framengo

João: Vixe, bateru muito nos homi... bateru cum prego, martelo, tauba...

José: Bom, o trem tá chegano

João: Ih, esqueci de trazer meu sanduíce de mortandela

José: Liga não, eu divido o meu com tu

João: Já é”

Em vez de rir, Ana teve vontade de pegar Carla e quem mais tivesse lido e ainda quem tivesse escrito pelo pescoço e dar uma boa lição... o estresse de fim de semestre estava subindo à cabeça dela e ela sabia que não podia fazer isso. Pegou o papel, guardou e continuou a aula, não deixando de olhar para José, que sabia do papel e o quanto isso o incomodava.

Quando Ana chegou na sala dos professores, jogou o material na mesa e se afundou no sofá velho para descansar pelo menos uns três minutos. Foi o suficiente para alguns professores verem o papel com o diálogo do José e começarem uma sessão de comentários:

- É isso mesmo, tá tudo dominado... meu neto já nem mais vai falar português...

- Essa língua vai acabar mesmo, também com esse povo por aí...

- Mas como falam errado hein, e o pior é que não aprendem nunca...

- Nada, pior é saber que esse jeito de falar impede a pessoa de pensar direito....

Depois dessa frase Ana se levantou e teve a certeza de que estava na porta do inferno... se ela fosse falar o que estava pensando ia dar briga, e em vez disso, preferiu recolher suas coisas e ir pra casa com a desculpa, nem tão inventada assim, de que estava passando mal. Ela não ia conseguir ter tempo de criar uma situação para mostrar para a turma (e quem sabe para os colegas ‘mestres’) o quanto eles estavam errados a respeito da fala de José. Mas prometeu a si mesma que a primeira coisa que ela ia fazer quando voltassem as aulas em agosto seria essa ‘atividade’ com a turma...

4ª parte:

Antes que pudesse anunciar que a atividade sobre a questão do “falar errado” estava pronta e seria trabalhada na aula seguinte, Ana teve mais um sobressalto com a turma. “Esse ano tá demais...”, ela pensou e também como aquelas situações não estavam previstas nas aulas teóricas que ela teve. A nova situação era gerada por Pedro Paulo.

Quando Ana chegou na sala, ele estava em cima de uma cadeira, com um dos pés em uma mesa e falando alto e de modo exacerbado para um grupo de alunos. O que era diferente daquela cena era o tema da conversa. Em vez de ser o último baile funk ou quem morreu e como, o tema era... a aula de História!

- Professora, ainda bem que a senhora chegou, estava querendo justamente trocar uma idéia contigo, pode ser? – perguntou Pedro Paulo

- “Hm, lá vem estória”, pensou Ana, mas contente por ter sido considerada por um aluno tão difícil e influente na escola uma professora que dá abertura para o aluno expor suas idéias. – Pode falar, estou te ouvindo.

- É o seguinte. O seu nobre colega professor de História traz pra aula sempre o mesmo livro ‘didático’, vamos dizer. Pois bem. E o que tem nesse livro? A história do Brasil, claro. Mas ela é sempre contada a partir de um determinado ponto de vista, sabe, a partir de uma visão...

- Como assim? – perguntou Ana

- Olha, a abolição da escravidão é só a Princesa Isabel assinando o decreto? A Revolta de Canudos foi só um padre maluco que tinha que ser exterminado?

- Pedro, é impossível não se tomar partido de um lado na hora de contar a história. Pode ser que você ache esse lado errado, mas é um lado.

- Não, até aí tudo bem... mas o problema é o seguinte: será que contar só um lado não vai acabar ‘fazendo a cabeça’ dos alunos pra pensar só de acordo com esse lado?

- O que que você acha, Pedro?

- Taí, não sei... e pelas minhas conversas, a turma aqui também tá um pouco perdida...


- Essa é mesmo uma questão complicada, Pedro Paulo. Será que se eu só falar coisas boas, as pessoas só vão pensar em coisas boas e fazer boas ações?

Ana não imaginou o quanto de agitação aquela pergunta iria fazer na turma. Metade se levantou pra dizer que sim, e a outra metade pra dizer que não.

- Que isso? Então, os mauricinho e patricinha que só ouve Xuxa, Angélica e essas coisa são anjinho? Corta essa! – argumentou um colega de Pedro Paulo.

- Ah, vai dizer que você ia deixar seu filho de 5 anos ouvir proibidão e ver Tropa de Elite!? Claro que não, se não se vai criar um novo Bin Laden – já argumentava outra colega.

E em seqüência todos continuavam e voltavam a esses argumentos, ora a favor de uma idéia ora contra.

- Gente, vamos parar com esse blá-blá-blá que não vai levar a nada! Agora é aula de português, é outra coisa! – interveio José.

Nesse momento, Ana teve uma reação instantânea:

- Não! Pelo contrário, tem tudo a ver com aula de português; isso é que é aula de português!

- !!!???...

Ana sabia que não podia continuar aquela discussão naquele momento. Mais uma vez pediria pra turma pra esperar que ela tivesse tempo pra organizar os debates sobre o tema. Ana sabia o quanto era importante para aqueles alunos discutir se o nosso pensamento é moldado pela língua. Se aquilo que a gente pensa e faz, na verdade, pode ser determinado por algum fator externo, controlador...



A história de Ana – Final

E assim, como todas as coisas, aquele ano letivo estava chegando ao fim. Um desgaste imenso invadia o corpo e o pensamento de Ana. Afinal, dar aula para uma turma de 40 adolescentes nas condições precárias que o Estado fornecia para no final ver a maior parte dos alunos não ter se desenvolvido de modo adequado não era fácil. Ela, assim como todos os seus colegas, tinham planos para deixar de aula em escola pública, mas a garantia da estabilidade ainda falava mais alto.

Ana pensava em fazer Mestrado, mas em que? Deveria ter decidido isso antes de passar no concurso, porque o choque de realidade que ela tomou colocou todas as possíveis carreiras de pós-graduação a anos-luz de onde ela estava. De que valeria saber diferenciar correntes lingüísticas em um ambiente em que faltava giz, apagador, dignidade e respeito? De que adiantaria analisar romances do século XVIII se não seriam capazes de desvendar o que passa na cabeça de um jovem do século XXI? E por aí vai...

Seria banal e praticamente patético dizer que Ana tinha esperança, que enxergava alguma luz no fim do túnel se, como dizia uma colega dela, nem túnel tinha... A única coisa que ela guardaria daquele ano seriam as atividades extra-classe, as questões sobre as línguas indígenas, sobre aquisição da linguagem, preconceito e sobre linguagem e pensamento. Somente nesses momentos a turma tinha reagido com naturalidade e dado respostas à altura. Sabia, então, que ali estava uma porta que a levaria... onde? que ali estava um caminho que poderia ser traçado... com quem? que ali estavam atividades que serviriam... para que? Perguntas demais para serem respondidas facilmente. Um dia ela teria as respostas e da janela da sala dos professores, que dava para uma favela, daquela escola beirando a insalubridade, Ana teve a certeza de que, pelo menos, sabia para onde não estava indo...


F I M ?
* “Todos os nomes: os nomes” – O nome de cada personagem tem uma explicação:

Ana – 1º nome da filha do professor

Moacir – nome indígena dado ao 1º filho de José de Alencar

Úrsula – homenagem a Úrsula Bellugi, estudiosa das línguas de sinais



José – um nome simples, do povo... “E agora, José?”

Pedro Paulo – nome do ‘Mano Brown’, do grupo Racionais MCs
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