A história de Cesarino Gobbo, vovô Cesarino, como era chamado por nós, seria igual a de todos imigrantes vindos da Itália não fosse por particularidades que marcaram sua presença nos tempos em que viveu nesta região



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Encontro29.07.2016
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A história de Cesarino Gobbo, vovô Cesarino, como era chamado por nós, seria igual a de todos imigrantes vindos da Itália não fosse por particularidades que marcaram sua presença nos tempos em que viveu nesta região. Podemos dizer que a sua história é a história de sua família e porque não representa também a história de todos os Gobbos.

Vindo da Itália em 24/05/1892 com apenas 3 anos de idade com seus pais Antônio Gobbo e Antônia Peroni e outros 8 irmãos já teve seu primeiro infortúnio quando na viagem viu seu irmão de apenas meses de idade morrer e que para não ter seu corpo sido jogado ao mar como era de costume, sua mãe desesperada o escondeu entre as longas vestes e não deixou que ninguém percebesse que se tratava de um bebê falecido, até que chegaram em terra e aí o sepultaram dignamente.

Já no Brasil, instalado com sua família na fazenda do Fortunato da Portela viu seus dois irmãos mais velhos morrerem após 3 anos de sua chegada.

Teve depois outros dois irmãos nascidos no Brasil e assim acompanhou seus pais se dedicando ao trabalho conforme ia ficando adulto.

Era nervoso e bravo como todos os Gobbos daquela época. Era devoto a Santo Antônio de Padova mas não era de ir a igrejas. Bebia, fumava e não dispensava um bom baile que sempre havia nas redondezas, não se importando em ir e voltar a pé. Sempre em companhia dos seus melhores amigos.

Após o casamento com Eliza Frizzeira em 05/11/1910 foi morar na Fazenda União na época de propriedade de seu sogro Camilo Frizzeira. Em seguida comprou um bom pedaço de terra em Santa Joana, barra da Esperança.

Quando da morte de seu pai que continuava morando na Fazenda Portela, Cesarino levou sua mãe Antônia para morar consigo em sua pequena fazenda no Santa Joana. Prosperou rapidamente e ali criou sua família.

Antônia Gobbo teve os cuidados dele e de sua esposa, vindo a falecer em data ainda desconhecida enquanto o casal formava sua própria família. Sendo que dos seus filhos a primeira veio a falecer com 3 anos de vida e a quinta filha também faleceu com 5 anos de vida. Na seqüência vieram mais 3 filhos e depois uma adotiva e por fim um filho homem que era seu sonho.

Passou a ser respeitado e admirado por todos da região não se cansava de fazer visitas intermináveis aos moradores da Portela, Esperança, São Luiz, etc... Sempre teve bons cavalos para facilitar estas andanças, para visitas, compromissos e um dedinho de prosa em italiano.

Sua esposa Elisa especializou-se em uma profissão muito importante na época, a de Parteira com diploma e tudo.

Por volta de 1960 vendeu sua fazenda na Barra da Esperança e comprou outra no Bairro Preto, época esta que já havia decidido o destino de sua pequena herança.

Desde o casamento de seu filho José Gobbo ficou acertado entre os irmãos que este filho cuidaria dos velhos até a morte e por isso a maior parte da herança seria passada para ele.

Esta é a história deste imigrante que se tornou o eixo desta linhagem de Gobbos vindos da Itália e muito poderíamos contar mas que seria a história igual a de todos, se diferenciando apenas pelo dom adquirido por ele que até hoje é um mistério como surgiu, que foi o seu poder de benzer, rezar e “responsar”.

Cesarino Gobbo, O Benzedor, era assim que ficou conhecido na região e até nas regiões vizinhas. Não era magia, milagre ou fanatismo. A verdade é que as pessoas o procuravam sempre por problemas de saúde como dores, tumores, inflamações, resfriados, espinhela caída, enfisemas, etc...

Quase sempre era eu quem ia lá no terreiro buscar três raminhos de vassoura para que ele efetuasse a benzição ali mesmo na frete de todos. Eu o entregava os três raminhos e ele usava um de cada vez enquanto balbuciava uma oração que ninguém conseguia ouvir. Depois juntava os três raminhos e terminava a reza fazendo o sinal da cruz. Isto levava apenas alguns segundos mas, pasmem, no final do ato os raminhos que antes eram verdes e viçosos ficavam opacos e murchavam.

Eu mesmo presenciei ele curar meu irmão assim. Com muita habilidade, quando meu irmão chorava desesperadamente com dores de cabeça, eu busquei os raminhos de vassoura, ele disse algumas palavras que eu não entendi e meu irmão de repente começara a se acalmar e logo estava cantando e gritando.

Muitas pessoas também o procurava para “responsar” algum objeto roubado. Responsar seria o ato de provocar a devolução do objeto, fazer aparecer o objeto, o objeto ser entregue ou ser achado. Desde porcos, milho, jóias de família, cavalos, arados, gado, etc...

Este trabalho não era feito com raminhos de vassoura e nem sempre era feito na presença das pessoas. Quando o solicitante ia embora ele entrava no seu quarto, fechava a porta e ficava em frente ao seu guarda roupas. Abria os braços e fazia gestos com as mãos como se traçasse cruzes no ar. Eu sei disso porque às vezes ele me deixava ficar dentro do quarto porque eu era muito criança ou eu ficava da gretinha da porta bisbilhotando mesmo não entendendo como aquilo podia fazer efeito.

A verdade é que não passavam 15 dias e a pessoa voltava para informar que o objeto “responsado” havia aparecido. Os objetos apareciam das maneiras mais impressionantes. Recordo-me de uma vez e vou contar aqui:

Foi assim: A pessoa que pediu para “responsar” contou que certo dia foi procurado por alguém pedindo desculpas e dizendo que tinha roubado o determinado objeto, mas que ficou tão angustiado e passou a temer tudo a sua volta e que não suportando mais, teve que entregar o objeto roubado para ter paz na vida. Meu avô ouvindo isso dava um sorriso num canto da boca, porque no outro estava um enorme cigarro de palhas genuíno. Aí ele dizia: ”Menino, pega meu isqueiro!”. (Menino era eu). Às vezes ele ganhava presentes por estes trabalhos, mas não podia ser dinheiro de maneira nenhuma. Assim eu via chegar como presente: Galinhas, pedaços de fumo de rolo, milho, feijão, rapé, rapadura, etc...

Apos solicitar qualquer uma destas rezas a pessoa não podia agradecer. A palavra “obrigado” era proibida. Mas podia dizer, “Deus lhe pague”, e a conversa estava encerrada. “Menino chama sua vó!”. Era para servir um cafezinho e a visita ia embora feliz. Na saída ele ainda dizia: “Nesta hora os ladrões já estão com a pulga atrás da orelha”.

Mas o que eu sempre achei muito extraordinário era a reza para parar fogo que ele fazia. Quando alguém ia queimar um pasto e o fogo pulava invadindo outras áreas que não devia ele era chamado imediatamente. Ele pegava uma varinha ia passando pelo mato na frente do fogo. Pois o fogo só chegava até ali. Ia parando, parando, até apagar ou facilitar que as pessoas o apagassem. Mas quando a coisa estava feia e ele notava que não daria para chegar até o local a tempo ele benzia de longe. Pasmem! Fiquem arrepiados! Mas ele apontava em uma direção e o fogo só ia até ali. Deixando todos perplexos. Isto eu nunca vi com meus próprios olhos mas é confirmado por muitos.

Por último, dos mistérios que envolviam meu avô eu posso contar que quando formava um enorme temporal, nós ficávamos com muito medo porque os temporais daquela época vinham com muita chuva, raios, coriscos, relâmpagos e ventos. Imediatamente pedíamos a ele para “rezar o temporal”. Ele ia lá para o terreiro e com as mãos na cintura ficava olhando para a direção das nuvens fazendo uma oração e o temporal ia se distanciando. Somente uma chuva normal caia para nosso alívio. Mas ele não gostava de fazer esta reza porque ele dizia que esta reza não parava o temporal e sim mudava sua direção e assim os efeitos iam ser transferidos para outra região e isto ele dizia que não era correto. É que nós pedíamos com tanta insistência e medo que ele às vezes não deixava de atender nosso pedido.

Esta anexo, em primeira mão, pode ser visto cópia de uma das rezas forte do meu avó. Guardada por ele a sete chaves e nunca por nós divulgada. Encontrada por minha avó após sua morte em seus guardados. Hoje esta reza não tem mais efeito algum a não ser como curiosidade e lembranças, mas todas as vezes que a leio, as palavras são tão fortes que gelo e fico arrepiado.

Morreu em 24/05/1966 com problemas no estômago, com 76 anos. Chegou a ser operado e no dia em que ele foi para a Casa de Saúde para esta operação, na saída ele olhou para mim e disse: “Adeus menino, eu não vou voltar vivo.”. Mas voltou, só que já estava com os dias contados, já que a operação não foi bem sucedida. No dia em que ele faleceu foi um alvoroço, muita gente, muito choro e eu não entendendo muito bem o que estava acontecendo, já que eu nesta época só tinhas 10 anos. Ele morreu as 14:10 e meu pai parou o relógio de parede neste exato momento, conforme era de costume.

Eu me recordo que um dia perguntei a ele com ele benzia mas, lógico, ele não me falou. Então eu pedi para me ensinar e ele me prometeu mas não deu tempo. Mas não lamento por isso, pois acho, que os tempos são outros e eu não daria certo mesma como benzedor. E eu acho que no fundo ele sabia disso. Ele deixou sua reza de maneira que pudesse ser encontrada para que eu um dia soubesse como ele benzia. Mas o poder foi enterrado com ele.

Tudo são curiosidades: Um certo dia apareceu lá em casa alguns oficiais de justiça fazendo o desarmamento da região. Eles passavam nas casas e gentilmente perguntavam se a família possuía alguma arma de fogo. Se houvesse convenciam as pessoas a entregá-las. Na ocasião não foi nem preciso perguntar se as tais armas existiam em nossa casa porque uma espingarda estava pendurada na parede, na cabeceira da cama do meu avô, e carregada.

Meu avô explicou aos representantes da lei que aquela espingarda era de estimação e que nem funcionava mais, e mesmo estando carregada, não representava perigo nem infração à nova lei. Os oficiais então solicitaram se podiam testar a arma para comprovar a ineficiência da mesma, o que foi prontamente autorizado pelo meu avô. Eles deram uma longa olhada para a espingarda como se tentassem descobrir o sexo dela. Um deles passou levemente a mão pela parte de madeira envernizada, lisa e brilhante indo terminar lá na mira do cano. Com a espingarda já fazendo mira par a ponta de um pé de goiabas puxou o gatilho, não antes de solicitar que as crianças saíssem do quarto. Eu lá de fora tapei os ouvidos esperando o estrondo mas só deu para ouvir um pequeno estampido da queima da espoleta. O oficial fez uma cara de decepção e perguntou ao meu avô se ele possuía uma outra espoleta. Foi dada a ele uma segunda espoleta novinha que agiu da mesma forma. Visto que a mal fadada arma não atirava, não tinha razão seu confisco. Lá se foram os oficiais seguidos por nossos olhos até virarem a curva em passos largos.

Meu pai ali presente também olhou para meu avô e perguntou sem entender nada, porque a espingarda mascou se isto nunca tinha acontecido antes. Meu avô que já tinha municiado a arma com nova espoleta apontou para a janela e puxou o gatilho.

Foi um tiro que me fez dar um pulo e meu coração quase pulou pela boca. Todos começaram a rir e eu sem entender nada pensei que estavam rindo de mim. Muito tempo depois eu entendi o que aconteceu naquele dia e até hoje fico rindo quando lembro deste fato.



Após sua morte tudo continuou normal em nossas vidas mas a presença dele nunca se apagou de nossas mentes e ainda guardamos muitas coisas que era dele como recordação.

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