A história de israel no antigo testamento



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• Capítulo 7: Tempos de transição

Nos séculos X e XI, Israel estabeleceu e manteve a mais poderosa monarquia de toda a sua história. Nem antes nem depois a nação teve tão extensas fronteiras e nutriu tanto respeito internacional. Tal expansão foi possível em grande medida a causa da não interferência que podia ter-lhe chegado desde as extremidades do Crescente Fértil durante esta época de sua história.


As nações vizinhas

Egito tinha declinado a uma posição de fraqueza. Ramsés III (1198-1167 a.C.), o Faraó da Cruz Dinastia que tinha sido o bastante forte como para rejeitar todos os invasores, morreu em mãos de um assassino. Sob Ramsés IV-XII (perto de 1167-1085 a.C.), o poder dos reis egípcios sucumbiu gradativamente à política agressiva da família sacerdotal 126. Por volta de 1085 a.C. Heri-Hor, o sumo sacerdote, começou a governar Egito desde Karnak em Tebas, enquanto que príncipes da família controlavam Tânis. A perda de prestígio do Egito se reflete no tratamento menosprezível que se permitiu Wen-Amon 127 em sua jornada rumo a Biblos, como enviado egípcio (por volta de 1080 a.C.). não foi senão até o quarto ano de Roboão (927 a.C.), que o Egito esteve em posição de invadir a Palestina (1 Reis 14.25-26).

Os assírios, sob Tiglate-Pileser (113-1074 a.C.), estenderam sua influencia para o oeste, à Síria e à Fenícia. Contudo, antes que transcorresse muito tempo, os próprios assírios sentiram os efeitos da invasão procedente do oeste 128. Durante o reinado de Assur-Rabi II (1012-975 a.C.), os estabelecimentos assírios ao longo do Eufrates foram descolados pela imigração das tribos aramaicas. Somente depois do ano 875 a.C. a Assíria voltou recuperar o controle do alto vale do Eufrates, para desafiar os poderes ocidentais na Palestina.

O inimigo que tão seriamente ameaçava o crescente poder de Israel eram os filisteus.

Rejeitados em sua tentativa de entrar no Egito, os filisteus se estabeleceram em grande número sobre a planície marítima da Palestina pouco depois do 1200 a.C. 129 Cinco cidades se converteram em praças fortes dos filisteus: Ascalom, Asdode, Ecrom, Gaza e Gate (1 Samuel 6.17). sobre cada uma dessas cidades independentes governava um "senhor" que supervisionava o cultivo da terra anexada. Embora fossem ativamente competitivos com os fenícios no lucrativo negócio do comércio, como registrava Wen-Amon, os filisteus ameaçavam com dominar Israel nos dias de Sansão, Eli, Samuel e Saul. independentes em si mesmas, as cinco cidades e seus governantes se uniam ocasionalmente para propósitos políticos e militares.

A explicação real da superioridade filistéia sobre Israel se encontra no fato de que os filisteus guardavam o segredo do ferro forjado. Os heteus na Ásia Menor tinham sido fundidores de ferro antes do XII a.C., porém os filisteus foram os primeiros que utilizaram o processo na Palestina. Guardando zelosamente seu monopólio, tinham a Israel em seu poder. Isto está claramente refletido em 1 Samuel 13.19-22: "E em toda a terra de Israel nem um ferreiro se achava, porque os filisteus tinham dito: Para que os hebreus não façam espada nem lança. Por isso todo o Israel tinha que descer aos filisteus para amolar cada um a sua relha, e a sua enxada, e o seu machado, e o seu sacho. Tinham porém limas para os seus sachos, e para as suas enxadas, e para as forquilhas de três dentes, e para os machados, e para consertar as aguilhadas. E sucedeu que, no dia da peleja, não se achou nem espada nem lança na mão de todo o povo que estava com Saul e com Jônatas; porém acharam-se com Saul e com Jônatas seu filho" (ACF). Não só se encontravam os israelitas sem ferreiros para forjar espadas e lanças, senão que inclusive dependiam dos filisteus para a reparação de seus instrumentos de trabalho agrícola.

Com semelhante ameaça pesando sobre Israel, estava à beira de cair numa escravidão sem remissão por parte dos filisteus.

Embora Saul ofereceu alguma resistência, ao inimigo que avançava, não foi senão até os tempos de Davi em que o poderio dos filisteus ficou quebrantado. Pela ocupação do Edom, Davi aprendeu os segredos da utilização do ferro e ganhou acesso aos recursos naturais que existiam na península do Sinai. Em tais condições, se achou capaz de unir firmemente a nação de Israel e de estabelecer uma supremacia militar, que nunca foi seriamente desafiada pelos filisteus.

Do norte, a principal ameaça para Israel e sua expansão procedia do Aram 130. Já a princípios dos tempos patriarcais, os arameus tinham-se estabelecido no distrito de Khabur 131, na alta Mesopotâmia, conhecido como Aram-Naharaim (ou Naor). A zona sob seu controle pôde muito bem ter-se estendido para o oeste até Alepo e ao sul até Cades-Barnéia, sobre o Orontes. Até onde pode ter-se estendido na zona de Damasco e para o sul durante a época dos juízes, é algo incerto.

O estado aramaico mais poderoso foi Zobá, situado ao norte de Damasco. Hadade-ezer, governador de Zobá, estendeu seus domínios para o Eufrates (2 Sm 8.3-9), e possivelmente tomou pela força algumas colônias assírias de Assur-Rabi II, rei da Assíria (1012-975 a.C.). as dinastias hititas em Hamate e Carquemis foram gradualmente substituídas pelos arameus conforme se expandiram para o norte. Outros estados arameus situados para o sul de Damasco foram Maaca, Gesur e Tobe. Ao leste do Jordão e ao sul do monte Hermom jaz Maaca, com Gesur diretamente ao sul 132. Já que sua mãe procedia daquela região, Absalão se apressou em acudir a Gesur em busca de segurança depois de ter matado a Amnom 133. Tobe (Jz 3.11) estava no sudeste do mar da Galiléia, porém ao norte de Gileade 134. Estes estados, sob a chefia de Hadade-ezer, representavam uma formidável coalizão para a expansão do Israel nos dias de Davi.

Os fenícios ou cananeus ocuparam a costa marítima do Mediterrâneo no norte.

Enquanto os arameus estavam formando um forte reino além da cordilheira do Líbano, os fenícios se concentravam em interesses marítimos. Em tempos de Davi, as cidades de Tiro e Sidom tinham estabelecido um forte estado incluindo o território costeiro imediato. Mediante o comércio e os tratados, estenderam sua influência comercialmente por todo o Mediterrâneo.

Hiram, rei de Tiro, e Davi, rei de Israel, acharam mutuamente proveitoso manterem uma atitude de amizade sem fricções militares.

Os edomitas, que habitavam a zona montanhosa do sul do Mar Morto, foram governados por reis antes do surgimento da monarquia de Israel (Gn 36.31-39). Embora Saul lutou com os edomitas (1 Sm 14.47), foi Davi em realmente os submeteu. A declaração de que se haviam convertido em servos de Davi, quem tinha estabelecido guarnições por todo o país, tem a maior importância (2 Sm 8.14). Das minas de Edom Davi obteve recursos naturais tais como cobre e ferro, que Israel necessitava desesperadamente para acabar com o monopólio filisteu na produção de armamentos.

Os amalequitas, também descendentes de Esaú (Gn 36.12) mantiveram o território ao leste de Edom até a fronteira egípcia. Saul tentou destruir os amalequitas (1 Sm 15), mas fracassou em fazer uma purga completa. Mas tarde, os amalequitas atacaram Ziclague, uma cidade ocupada por Davi quando era um fugitivo do território filisteu, mas apenas se são mencionados.

Os moabitas, situados ao leste do Mar Morto, foram derrotados por Saul (1 Sm 14.47) e conquistados por Davi. Por quase dois séculos permaneceram obedientes a Israel como uma nação tributária.

Os amonitas ocuparam uma franja do território sobre a fronteira oriental do Israel. Saul os derrotou em Jabes-Gileade, quando se estabeleceu por si mesmo (1 Sm 11.1-11). Quando os amonitas desafiaram a amizade de Davi por uma aliança com os arameus, não os venceu (2 Sm 10), mas conquistou Rabá em Amom, sua cidade capital (2 Sm 12.27). Nunca mais desafiaram a superioridade israelita durante o período do reinado.
Sob a liderança de Eli e de Samuel

Os tempos de Eli e Samuel marcam a era de transição desde a esporádica e intermitente liderança dos Juízes até a implantação da monarquia israelita. Os dois homens são mencionados no livro de Juízes, porém os primeiros capítulos de 1 Samuel (1.1-8-22) são considerados como uma introdução à narrativa a respeito do primeiro rei de Israel. Estes capítulos podem ser subdivididos como segue:


I. Eli como sacerdote e juiz 1 Sm 1.1-4-22

Nascimento de Samuel 1 Sm 1.1-2-11

Serviço do Tabernáculo 1 Sm 2.12-26

Duas advertências a Eli 1 Sm 2.27-3.21

Juízo sobre Eli 1 Sm 4.1-22

II. Samuel como profeta, sacerdote e juiz 1 Sm 5.1-8.22

A arca restituída a Israel 1 Sm 5.1-7.2

Ressurgimento e vitória 1 Sm 7.3-14

Sumário do ministério de Samuel 1 Sm 7.15-8.3

A petição de um rei 1 Sm 8.4-22

III. liderança transferida a Saul 1 Sm 7.15-8-3

Samuel unge a Saul privadamente 1 Sm 9.1-10.16

Saul escolhido por Israel 1 Sm 10.17-27

Vitória sobre os amonitas 1 Sm 11.1-11

A inauguração pública de Saul 1 Sm 11.12-12.25
A história de Eli serve como fundo para o ministério de Samuel. Como sumo sacerdote, Eli estava encarregado do culto e sacrifício no tabernáculo em Siló. Foi a ele a quem os israelitas consideraram e buscaram para guia dos assuntos civis e religiosos.

A religião de Israel estava num baixo nível nos dias de Eli. Ele mesmo fracassou em ensinar a seus próprios filhos a reverenciarem a Deus; "não tinham conhecimento de Deus" (1 Sm 2.12), e sob sua jurisdição assumiram responsabilidades sacerdotais tirando vantagem do povo, conforme este se aproximava para o culto e o sacrifício. Não só roubavam a Deus solicitando a porção sacerdotal antes do sacrifício, senão que se conduziam de forma tal que o povo aborrecia levar sacrifícios a Siló. Também profanaram o santuário com as ações pagãs próprias da religião cananéia. Como era de esperar, recusaram ouvir a admoestação e a denúncia de semelhante conduta. Não é de surpreender que Israel continuasse degenerando ao se incrementarem tais práticas religiosas corrompidas.

Em semelhante atmosfera corrupta, Samuel foi levado desde sua infância e deixado ao cuidado de Eli. Dedicado a Deus e alentado por uma santa mãe, Samuel cresceu no entorno do tabernáculo, incorruptível à maléfica influência de carência de religiosidade dos filhos de Eli.

Um profeta cujo nome se ignora reprovou a Eli porque honrava seus filhos mais do que honrava a Deus (1 Sm 2.27). Seu relaxamento tinha provocado o juízo de Deus, daí que seus filhos perdessem suas vidas inutilmente e um fiel sacerdote ministrasse em seu lugar. a reiteração deste decreto chegou a Samuel quando Deus lhe falou durante a noite (1 Sm 3.1-18).

Em breve e de forma repentina aquelas proféticas palavras receberam seu total cumprimento, quando os espantados israelitas viram que estavam perdendo seu enfrentamento com os filisteus, se impuseram sobre os filhos de Eli para levarem a arca da aliança de Deus, o objeto mais sagrado de Israel, ao campo de batalha. A religião tinha chegado a um extremo tal que a arca, que representava o verdadeiro poder de Deus, os salvaria da derrota. Mas não podiam forçar a Deus a que os servisse. Sua derrota foi esmagadora. O inimigo capturou a arca, matando os filhos de Eli. Quando Eli ouviu as surpreendentes notícias de que a arca estava em mãos dos filisteus, sofreu um colapso que lhe custou a vida.

Aquilo foi um dia de catástrofe para Israel. Embora a Bíblia não diz nada a respeito da destruição de Siló, outra evidência respalda que por esse tempo os filisteus reduziram a ruínas o santuário central que tinha sustentado e mantido unidas a todas as tribos. Quatro séculos mais tarde, Jeremias advertiu aos habitantes de Jerusalém para não depositarem sua confiança no templo (Jr 7.12-24; 26.6-9). Da mesma forma que os israelitas tinham confiado na arca para sua própria segurança, assim, a geração de Jeremias assumiu que Jerusalém, como lugar de residência de Deus, não podia cair em mãos das nações gentias. Jeremias sugeriu que prestassem atenção às ruínas de Siló e aproveitassem daquele histórico exemplo. As escavações arqueológicas puseram ao descoberto o aniquilamento de Siló no século XI. Sua destruição naquele tempo conta pelo fato de que pouco tempo depois os sacerdotes oficiavam em Nobe (1 Sm 21.1).

É também digno de perceber em relação a isto que Israel em nenhuma ocasião tentou voltar a levar a arca a Siló.

A vitória filistéia desmoralizou efetivamente os israelitas. Quando a nora de Eli deu a luz um filho, ela lhe deu por nome "Icabode", porque ela sentiu profundamente que as bênçãos de Deus tinham sido retiradas de Israel (1 Sm 4.19-22). O nome do menino significava "Onde está a glória?", e ao mesmo tempo podia demonstrar que a religião cananéia tinha já penetrado no pensamento dos israelitas, já que para um devoto de Baal teria sido como uma alusão à morte do deus da fertilidade 135. O lugar de Samuel na história de Israel é único. Sendo o último dos juízes, exerceu a jurisdição por toda a terra de Israel. Além disso, ganhou o reconhecimento como o maior profeta de Israel desde os tempos de Moisés. Também oficiou como sumo sacerdote, embora ele não pertencesse à linhagem de Arão, a quem pertenciam as responsabilidades do sacerdócio.

A Bíblia tem conservado comparativamente pouco a respeito do ministério real desde grande líder. Quando Eli morreu e a ameaça da opressão filistéia se fez mais aguda, os israelitas se voltaram naturalmente a Samuel para que lhes servisse de líder. Depois de ter escapado ao despojo e à destruição de Siló, Samuel estabeleceu seu lar em Ramá, onde erigiu um altar. Não há indicação, contudo, de que aquilo se convertesse no centro religioso ou civil da nação. O tabernáculo, que de acordo com o Salmo 78.60 tinha sido abandonado por Deus, não se menciona em relação com Samuel. Israel recuperou a arca de mãos dos filisteus (1 Sm 5.1-7-2), mas a guardou em Quiriate-Jearim, na casa privada de Abinadabe, até os dias de Davi. Aparentemente, não esteve em uso público durante este tempo.

Samuel, não obstante, agiu com seus deveres sacerdotais, ao oferecer sacrifícios em Mispá, Ramá, Gilgal, Belém e onde quer que fossem precisos por todo o país 136. E continuou cumprindo com este dever e esta função inclusive após ter entregado todos os assuntos de estado a Saul.

Com o passar do tempo, Samuel reuniu a seu redor um grupo profético, sobre o qual teve uma enorme influência (1 Sm 19.18-24). É muito verossímil que Natã, Gade e outros profetas ativos na época de Davi recebessem seus ímpetos procedentes de Samuel.

Para executar suas responsabilidades judiciárias, Samuel ia anualmente a Betel, Gilgal e Mispá (1 Sm 7.15-17), e pode inferir-se que nos primeiros anos, antes que delegasse as responsabilidades em seus filhos Joel e Abias (1 Sm 8.1-5) incluísse pontos tão distantes como Berseba em seu circuito pela nação.

Acredita-se a Samuel o fato de que prevalecesse sobre Israel para purgar o culto cananeu de suas fileiras (1 Sm 7.3ss). Em Mispá o povo se reunia para a oração, o jejum e o sacrifício. A palavra da convocação se divulgou até os filisteus, os que por esta causa levaram vantagem da situação, para realizarem um assalto. Em meio do fragor, uma terrível tormenta de trovoes semeou o medo nos corações dos filisteus mercenários, produzindo a confusão e colocando-os em fuga. Evidentemente, o efeito dos trovoes adquiriu um caráter portentoso em seu significado para os filisteus, já que nunca mais tentaram comprometer os israelitas numa batalha enquanto Samuel esteve ao mando das tribos.

Eventualmente, os chefes tribais sentiram que deviam formar uma resistência contra a agressão filistéia e, de acordo com isso, clamaram por um rei. Como escusa para o estabelecimento da monarquia, ressaltaram que somente já era ancião e que seus filhos não estavam moralmente dotados para assumirem seu lugar. Samuel, astutamente, rejeitou a proposta, implorando-lhes eloqüentemente o "não impor sobre si mesmo uma instituição cananéia, estranha a sua forma de vida" 137. Quando, a despeito daquilo, persistiram em sua demanda, Samuel aceitou; porém só após a divina intervenção (1 Sm 8).

Quando Samuel consentiu com certa repugnância à inovação do reinado, não tinha idéia de a quem Deus poderia escolher. Um dia, enquanto estava oficiando num sacrifício, foi encontrado por um benjamita que chegou para consultá-lo de algo concernente à localização de uns asnos perdidos de seu pai. Advertido de sua chegada, Samuel advertiu que Saul era o escolhido de Deus para ser o primeiro rei de Israel. Não só Samuel atendeu a Saul como hóspede de honra na festa sacrificial, mas privadamente o ungiu como "príncipe sobre seu povo", indicando mediante aquelas palavras que o reinado era uma questão sagrada de fé. Enquanto voltava a Gabaá, Saul foi testemunha do cumprimento da predição feita por Samuel em suas palavras em confirmação de ser escolhido para aquela responsabilidade. Numa subseqüente convocação em Mispá, Saul publicamente foi escolhido e entusiasticamente apoiado pela maioria em sua aclamação popular de "Viva o rei!" (1 Sm 10.17-24). Devido a que Israel não tinha cidade capital, voltou a sua cidade nativa de Gabaá, em Benjamim.

A ameaça amonita a Jabes-Gileade proporcionou a Saul a oportunidade de afirmar sua chefia 138. Em resposta a seu chamamento nacional, o povo acudiu em seu apoio, resultando uma impressionante vitória sobre os amonitas. Numa assembléia de todo Israel em Gilgal, Samuel publicamente proclama a Saul como rei. Os lembrou que Deus tinha aprovado seu desejo. Sobre a base da história de Israel, lhes assegurou a prosperidade nacional, sob a condição de que o rei e todos os cidadãos deviam obedecer a lei de Moisés. Esta mensagem de Samuel foi divinamente confirmada aos israelitas com uma súbita chuva, um fenômeno acontecido durante a colheita do trigo 139. O povo ficou profundamente impressionado e agradeceu a Samuel por aquela continuada intercessão. Embora os israelitas tinham voltado a um rei para seu governo, as palavras de seguridade de Samuel, o profeta que tinha varrido a maré da apostasia e iniciado um efetivo movimento profético em seu ensino e ministério, deixou-os conscientes de seu sincero interesse por seu bem-estar: "Longe de mim que peque eu contra o Senhor cessando de rogar por vós outros" (1 Sm 12.23).


O primeiro rei de Israel

Saul gozou do entusiástico apoio de seu povo, após uma inicial vitória sobre os amonitas em Jabes-Gileade. É verdade que nem todos consideraram seu acesso ao reinado com a mesma satisfação, porém aqueles contrários não puderam suportar sua extraordinária popularidade (1 Sm 10.27; 11.12-13). E assim, mediante uma deliberada desobediência, Saul logo estragou suas oportunidades para obter o êxito desejado. A causa das suspeitas ocasionadas pelo ódio, seus esforços estiveram tão mal dirigidos e a força nacional se desagregou de forma tal que seu reinado acabou num completo fracasso.

O relato bíblico do reinado de Saul que se dá em 1 Sm 13.1-31.13 pode ser convenientemente subdividido na seguinte forma:
I. Vitórias nacionais e fracassos pessoais 1 Sm 13.1-15.35

Saul falha em esperar para amém 1 Sm 13.1-15a

Os filisteus derrotados em Micmás 1 Sm 15b-14.46

A submissão das nações vizinhas 1 Sm 14,47-52

Desobediência numa vitória amalequita 1 Sm 15.1-35

II. Saul o rei e Davi o fugitivo 1 Sm 16.1-26.25

Ressurgir de Davi à fama nacional 1 Sm 16.1-17.58

Saul buscar implicar com Davi 1 Sm 18.1-19.24

Amizade de Davi e Jônatas 1 Sm 20.1-42

A fuga de Davi e suas conseqüências 1 Sm 21.1-22.23

A perseguição de Saul a Davi 1 Sm 23.1-26.25



III. O conflito filisteu-israelita 1 Sm 27.1-30.31

Os filisteus permitem o refúgio de Davi 1 Sm 27.1-28.2

Saul busca ajuda de En-Dor 1 Sm 28.2-25

Davi recupera suas possessões 1 Sm 29.1-30.31

A morte de Saul 1 Sm 31.1-13
Saul foi um guerreiro que conduziu sua nação a numerosas vitórias militares. Em lugar estratégico sobre uma colina a 3 km ao norte de Jerusalém, Saul fortificou Gabaá 140 para contra-atacar a superioridade militar dos filisteus. Aproveitando o vitorioso ataque realizado por seu filho Jônatas, Saul pôs em fuga os filisteus na batalha de Micmás (1 Sm 13-14). Entre outras nações derrotadas por Saul (1 Sm 14.47-48) estavam os amalequitas (1 Sm 15.1-9).

O êxito inicial do primeiro rei de Israel não escureceu sua debilidade pessoal. O rei de Israel tinha uma posição única entre os governantes contemporâneos, na qual ele foi o responsável de conhecer o profeta que representava a Deus. A este respeito, Saul falhou por duas vezes. Esperando impacientemente a chegada de Samuel a Gilgal, Saul mesmo oficiou o sacrifício (1 Sm 13.8). em sua vitória sobre os amalequitas, se entregou às pressões do povo, em lugar de executar as instruções de Samuel. O profeta o advertiu solenemente que Deus não se comprazia mediante sacrifícios, que deviam ser substituídos pela obediência. Mediante uma desobediência, Saul tinha perdido o direito ao trono.

A unção de Davi por Samuel numa cerimônia privada foi desconhecida para Saul 141. Com a morte de Golias, Davi emerge no cenário nacional. Quando foi enviado por seu pai para levar fornecimentos a seus irmãos que serviam no exército israelita acampado contra os filisteus, ouviu as blasfêmias e as ameaças de Golias. Davi arrazoou que Deus, que o havia ajudado a ele a matar ursos e leões, também seria capaz de matar seu inimigo, quem desafiava os exércitos de Israel. Quando os filisteus comprovaram que Golias, o gigante de Gate, tinha sido morto, fugiram ante Israel. O reconhecimento nacional de Davi como herói foi expressado subseqüentemente no ditado popular: "Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares" (1 Sm 18.7, ACF).

Em anteriores ocasiões, Davi tinha ostentado suas dotes musicais na corte do rei, para acalmar o espírito turbado de Saul. tão grave era o desordem mental do rei, que inclusive tentou matar o justiça músico. Após esta heróica façanha, Saul não só tomou consciência do reconhecimento de Davi, possivelmente para premiar sua família com a isenção de tributos, mas também o agregou permanentemente em sua corte real.

Livrado a seus próprios recursos, Saul virou extremamente ciumento de Davi, suspeitando dele. Com numerosas e sutis artimanhas, Saul tratou de suprimir o jovem herói nacional.

Exposto aos lançamentos de javalina de Saul ou aos perigos da batalha, Davi escapou com êxito de todas as manobras concebidas para sua perdição. Inclusive quando Saul foi pessoalmente a Naiote, onde Davi tinha-se refugiado com Samuel, foi influenciado com o espírito dos profetas até o extremo de que resultou difícil danificar ou capturar a Davi 142. Estando agregado na corte real, resultou vantajoso para Davi em vários aspectos. Em façanhas militares se distinguiu por si mesmo, conduzindo as unidades do exército de Israel em vitoriosos ataques contra os filisteus. Em suas relações pessoais com Jônatas, partilhou uma das amizades mais nobres que se advertem nos tempos do Antigo Testamento. Mediante sua íntima associação com o filho do rei, Davi esteve em condições de captar os malignos desígnios de Saul mais minuciosamente e, desta forma, assegurar-se contra qualquer perigo desnecessário. Quando Davi e Jônatas comprovaram que tinha chegado o momento de que Davi fugisse, ambos selaram sua amizade mediante uma aliança (1 Sm 20.11-23).

Davi fugiu com os filisteus, buscando seguridade. Denegado o refúgio por Aquis, rei de Gate, foi para Adulão, onde quatrocentos companheiros das tribos se reuniram a sua volta.

Estando ao cuidado de semelhante grupo, procurou fazer os arranjos convenientes para algumas de suas gentes que residiam no país moabita. Entre os conselheiros associados com ele estava o profeta Gade.

Quando Saul ouviu que Abimeleque, o sacerdote de Nobe, tinha fornecido a Davi em sua rota rumo aos filisteus, ordenou sua execução com oitenta e cinco sacerdotes. Abiatar, o filho de Abimeleque, escapou e se reuniu ao bando fugitivo de Davi.

Fazia já tempo que Saul dava liberdade a seus maliciosos sentimentos para com Davi mediante uma aberta perseguição. Várias vezes Davi esteve seriamente em perigo. Após socorrer a cidade de Queilá dos ataques filisteus, residiu ali até ser desalojado por Saul.

Escapando a Zife, 6 km ao sul de Hebrom, foi traído pelos zifeus e rodeado pelo exército de Saul. Um ataque dos filisteus impediu a Saul de capturar dessa vez a Davi. Depois, em outra expedição em En-Gedi (1 Sm 24), e finalmente em Haquilá, Saul também foi frustrado em seus esforços para matá-lo.

Davi teve muitas ocasiões para matar o rei de Israel. Em cada ocasião recusou fazê-lo, tendo a consciência e o reconhecimento de que Saul estava ungido por Deus. embora Saul costumava reconhecer temporariamente sua aberração, logo voltava à sua aberta hostilidade.

Enquanto que Davi e seu grupo estavam nos desertos de Parã, rendiam serviços aos residentes daquela zona, protegendo suas propriedades contra os ataques dos bandos de ladrões e bandidos 143. Nabal, um pastor de Maom que pastoreava suas ovelhas perto do povo de Carmelo, ignorou a demanda de Davi de "proteção monetária". Para encobrir sua própria cobiça, recusando partilhar sua riqueza , nabal protestava que Davi tinha fugido de seu amo. Percebendo que a situação era grave, Abigail, a esposa de nabal, judiciosamente conjurou a vingança por uma apelação pessoal a Davi com presentes. Quando nabal se recuperou de sua intoxicação e compreendeu quão perto tinha estado da vingança a mãos de Davi, ficou tão impressionado que morreu dez dias depois. Como conseqüência, Abigail se converteu na esposa de Davi.

Davi temia que qualquer dia Saul pudesse surpreendê-lo inesperadamente. Para assegurar-se a si mesmo e a seu grupo de quase seiscentos homens, além de mulheres e crianças, lhe foi concedida permissão por Aquis para residir em território filisteu e na cidade de Ziclague. Permaneceu ali aproximadamente durante o último ano e meio do reinado de Saul. Perto do imediato deste período, Davi acompanhou os filisteus a Afeque para lutar contra Israel. Porém, foi-lhe negada sua participação. Então voltou a Ziclague, a tempo para recuperar suas possessões perdidas num ataque por surpresa realizado pelos amalequitas.

Os exércitos de Israel acampados no monte de Gilboa para lutarem contra os filisteus, aos que tinha derrotado outras várias vezes, se encontraram com que mais que o medo ao inimigo era a turbação do rei de Israel o que complicava as coisas naquele momento. Samuel, fazia tempo ignorado por Saul, não estava disponível para uma entrevista; Saul se voltou a Deus, mas não houve resposta para ele, nem em sonhos, nem por Urim ou por profeta. Estava doente de verdadeiro pânico. Em seu desespero se voltou aos médios espiritualistas que ele mesmo tinha banido no passado 144. Localizando a mulher de En-Dor, que tinha um espírito similar, Saul perguntou por Samuel. Fosse qual for o poder que tinha esta mulher, se faz aparente o que se registra em 1 Sm 28.3-25, que a intervenção do poder sobrenatural em mostrar o profeta Samuel em forma de espírito estava além de seu controle. A Saul foi-lhe recordado mais uma vez, por Samuel, que a causa de sua desobediência tinha perdido o direito à legitimidade do reino. Em sua mensagem a Saul, o profeta predisse a morte do rei e de seus três filhos, assim como a derrota de Israel.

Com o coração endurecido e o pensamento de tais trágicos acontecimentos que iriam cair sobre ele, Saul voltou ao acampamento naquela funesta noite. No curso da batalha na planície de Jizreel, as forças israelitas foram derrotadas, retirando-se ao monte Gilboa. Durante a perseguição, os filisteus tomaram a vida dos três filhos do rei. O próprio Saul foi ferido por flecheiros inimigos. Para evitar um bestial tratamento a mãos do inimigo, se lançou contra sua própria espada, acabando assim com sua vida. Os filisteus venceram com uma vitória definitiva, ganhando o indisputável controle do fértil vale desde a costa do rio Jordão. Ocuparam também muitas cidades, das quais os israelitas se viram forçados a fugirem. Os corpos de Saul e seus filhos foram mutilados e pendurados na fortaleza filistéia de Bete-Sã, mas os cidadãos de Jabes-Gileade os resgataram para seu sepultamento. Mais tarde, Davi fez o necessário para transferir os restos à propriedade da família de Saul em Zela, na tribo de Benjamim (2 Sm 21.14).

Certamente trágica foi a terminação do reinado de Saul como primeiro rei de Israel. Embora escolhido por Deus e ungido pela oração do profeta Samuel, fracassou em pôr em prática aquela obediência que era essencial no sagrado e único princípio de fé que Deus lhe permitiu: o de ser "príncipe sobre seu povo".

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