A história de israel no antigo testamento



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• Capítulo 2: A Idade Patriarcal


O mundo dos patriarcas tem sido por ponto focal do intensivo estudo das recentes décadas. Novos descobrimentos iluminaram as narrações bíblicas, ao subministrar um extenso conhecimento das culturas contemporâneas do Próximo Oriente.

Geograficamente, o mundo dos patriarcas está identificado como o do Crescente Fértil. Estendendo-se para o norte desde o Golfo Pérsico, ao longo das correntes do Tigre e do Éufrates e suas bacias, e depois para o sudoeste através do Canaã para o fértil Nilo e seu vale, esta zona foi o berço das civilizações pré-históricas. Quando os patriarcas surgem na cena, no segundo milênio a.C., as culturas da Mesopotâmia e o Egito já ostentavam de um passado milenar. Com Canaã como o centro geográfico dos começos de uma nação, o relato do Gênesis está inter-relacionado com o ambiente de duas precoces civilizações que começam com Abraão na Mesopotâmia e terminam com José no Egito (Gn 12 – 50).
O mundo dos patriarcas

Os começos da história coincidem com o desenvolvimento da escritura no Egito e na Mesopotâmia (por volta de 3500-3000 a.C.). os descobrimentos arqueológicos nos proporcionaram uma perspectiva que diz respeito às culturas que prevaleceram durante o primeiro milênio a.C. o período 4000-3000 a.C., ou a chamada idade Calcolitica, está usualmente considerado como civilização com escassez de materiais escritos. As cidades estratificadas de tais tempos indicam a existência de uma sociedade organizada. Conseqüentemente, o quarto milênio a.C., que revela a primeira criação de grandes edifícios, estabelece os limites da história em termos aceitáveis para o historiador. O que se conhece das civilizações precedentes é denominado, com freqüência, como pré-histórico.



Esquema 1: Civilizações dos tempos patriarcais *





Egito

Vale do Nilo

Palestina

e Síria

Vale do Tigre-Eufrates

e Ásia Menor

Pré-histórico - antes do 3200
Período primitivo - 3200-

2800


Egito unido sob as

I y II dinastias.


Antigo Reino - 2800-2250

Dinastias IV-VI

- grandes pirâmides

- textos religiosos

Declive y ressurgimento -

2250-2000

Dinastias VII-X

Dinastia XI

- poder centralizador em Tebas
Reinado Médio - 2000-1780

Dinastia XII

- governo central poderoso com capital em Mênfis y em Faijun

Literatura clássica

(Dinastias X-XII)
Decadência y ocupação -

1780-1546

Dinastias XIII-XIV

- escuridão

Dinastias XV-XVI

- os hicsos como invasores ocupam

Egito com cavalos e carros de guerra

Dinastia XVII

- os hicsos são expulsos pelos

reis tebanos


Novo Reino - 1546-1085

Dinastias XVIII-XX

(Idade Amarna - 1400-

1350)

2100 a.C.

Patriarcas

em

Canaán
1700 a.C


Os israelitas

estão no

Egito


Cultura suméria - 2800-2400

- primeira literatura na Ásia

- tumbas reais

- o poder estendido até o Mar Mediterrâneo
Supremacia Acádia - 2360-2160

- Sargão, o grande rei

- invasão gutiana - pt. 2080

Terceira dinastia de Ur - 2070-1950 - pressão hurriana desde o norte


Primeira dinastia babilônica -

1800-1500

(Amorreus ou semitas ocidentais, 1750)

Zimri-Lim, rei em Mari

(Shamshi-Adad I em Nínive)

Hamurabi – o maior dos reis - 1700
Declive de Babilônia
a. Antigo Império Hitita - 1600-1500
b. Reino Mitanni - 1500-1370
c. Novo Império Hitita - 1375-1200
d. Ressurgimento de Assíria - 1350-1200


* Todos estes dados devem ser considerados como aproximados à realidade.



Mapa 1: O mundo antigo





Mesopotâmia

Os sumérios, um povo não semita, controlava a zona mais baixa do Eufrates, ou Sumer, durante o período da Primitiva Dinastia, 2800-2400 a.C. Estes sumérios nos proporcionariam a primeira literatura da Ásia, já que o mundo cuneiforme sumério se converteu ma língua clássica e floresceu na escritura das culturas da totalidade da Babilônia e a Assíria, até aproximadamente o primeiro século a.C., ainda que fosse falada de forma descontinuada até aproximadamente 1800 a.C. A origem da escrita suméria permanece ainda sumida na escuridão 18. Pôde muito bem ter sido tomada emprestada de um povo anterior, mais primitivo, embora letrado, a respeito do qual, desafortunadamente, não se dispõe de textos inteligíveis.

A avançada cultura suméria da Primeira Dinastia de Ur, a última fase do período da Primitiva Dinastia, foi desenterrada num cemitério escavado por C. Leonard Woolley 19. Os ataúdes de madeira das pessoas comuns, onde se encontraram alimentos, bebidas, armas, utensílios, colares, objetos de adorno em caixinhas e braceletes, sugerem a idéia de que aquelas pessoas já antecipavam uma vida após a morte. Os túmulos reais continham uma ampla provisão de objetos para o além, incluindo instrumentos musicais, jóias, roupas, veículos e inclusive serventes, que aparentemente beberam sem violência da droga que lhes foi subministrada ao efeito, ficando sumidos no último sono. no túmulo do rei Abargi foram achadas sessenta e cinco vítimas. Evidentemente, era considerado essencialmente religioso o sacrificar seres humanos no enterramento das pessoas sagradas, tais como reis oi rainhas, esperando, em conseqüência, assegurar-se servidão no além.

No campo da metalurgia, igual que nas obras artesanais dos joalheiros e cortadores de pedras preciosas, os sumérios não tiveram rival na antigüidade. Informes comerciais preservadas nas tábuas de argila, revelaram um detalhado analise de sua vida econômica. Um painel de madeira (56x26 cm) num dos sepulcros, representam cenas tanto da guerra como da paz. A falange, que tão efetivamente foi utilizada por Alexandre Magno, muitas centúrias mais tarde, era já conhecida pelos sumérios. Os princípios básicos para a construção, utilizados pelos modernos arquitetos, também lhes resultavam familiares.

Com êxito nos cultivos agrícolas e prósperos no comércio geral, a civilização suméria alcançou um avançado estádio de cultura (2400 a.C.), e indubitavelmente foi desenvolvido ao longo de um período de vários séculos. Seu último grande rei, Lugal-zaggisi, estendeu o poder sumério longe para o oeste, e alcançou o Mediterrâneo.

Nesse ínterim, um povo semítico, conhecido como acádio, fundou a cidade de Acad ao norte de Ur, sobre o Eufrates. Começando com Sargão, esta dinastia semítica ultrapassou à suméria, e desta forma mantiveram a supremacia por quase dois séculos. Após ter derrocado a Lugal-zaggisi, Sargão nomeou sua própria filha como a grande sacerdotisa de Ur, em reconhecimento ao deus-lua Nannar. Assim estendeu seu domínio por toda a Babilônia, de tal forma que Finegan fala dele como "o mais poderoso monarca" que jamais tiver governado a Mesopotâmia 20. Seu domínio se estendeu até a Ásia Menor.

Que os acádios não tivessem nenhuma hostilidade cultural, parece estar refletido no fato de que adotaram a cultura dos sumérios. Sua escrita foi adotada pela língua semítica babilônica. Tabuinhas descobertas em Gasur, que mas tarde foi conhecida como Nuzu ou Nuzi em tempo dos humanos, as séries bíblicas, indicam que este antigo período acádio foi um tempo de propriedade, no qual o plano de instalação foi utilizado comercialmente por toda a extensão do império. Um mapa de argila, entre o extraído das escavações, é o mapa mais antigo conhecido pelo homem 21. Sob o domínio de Naram-Sin, o neto de Sargão, o poder acádio alcançou seu ponto culminante. Sua Estela de vitórias pode admirar-se no Louvre de Paris. Contém o testemunho de suas triunfais campanhas nas montanhas Zagros. A supremacia de seu grande reino semítico declinou sob os governantes que lhe sucederam.

A invasão gutiana procedente do norte (por volta de 2080 a.C.), acabou com o poder da dinastia acádia. Embora se saiba muito pouco destes invasores caucásicos, ocuparam a Babilônia durante quase um século. Um governante em Erech em Sumer acabou com o poder dos gutianos e preparou o caminho para um ressurgimento da cultura suméria, que chegou a seu máximo esplendor sob a Terceira Dinastia de Ur. O fundador da dinastia, Ur Nammu, erigiu um grande zigurate em Ur. Tijolo por tijolo, foram escavados desta grande estrutura (61x46 m na base e alcançando uma altura de 24 m), têm escrito o nome do rei Ur-Nammu com o título de "Rei de Sumer e Acad". Aqui, Nannar, o deus-lua e seu consorte Nin-Galiléia, a deusa lua, foram adorados durante a idade dourada de Ur.

Após um século de supremacia, esta dinastia neo-suméria foi colapsada e a terra de Sumer reverteu no antigo sistema das cidades-estado. Isto permitiu aos amorreus, ou semitas ocidentais, que se tinham gradualmente infiltrado na Mesopotâmia, uma oportunidade para ganhar ascendência na questão. Virtualmente toda a Mesopotâmia foi logo absorvida pelos semitas. Zimri-Lim, cuja capital era Mari, sobre o Eufrates, estendeu sua influência (1750 a.C.) desde o curso médio do Eufrates em Canaã, como o governante do estado mais importante. O magnífico palácio de Mari teve logo quase trezentas habitações construídas numa extensão de 60.000 m2 de terreno; dos desperdícios, os arqueólogos têm recuperado algo assim como 20.000 tabuinhas cuneiformes. Estes documentos de argila que revelam os interesses políticos e comerciais dos governantes amorreus, demonstram uma eficiente administração de um império de altos vôos.

Por volta do 1700 a.C. Hamurabi, que fizera evoluir a pequena cidade de Babilônia num grande centro comercial, esteve em condições de conquistar Mari com seus extensos domínios 22. Não somente dominou o alto Eufrates, senão que também subjugou o reino de Sami-Adad I, cuja capital estava em Assur, sobre o rio Tigre. Marduk, o rei-deus da Babilônia, ganhou uma proeminente posição no reino. O mais significativo dos logros de Hamurabi foi seu Código da Lei, descoberto em 1901 em Suas, que tinha sido tomado pelos elamitas quando caiu o reinado de Hamurabi. Já que os antigos costumes sumérios estavam incorporados nessas leis, resulta muito verossímil que elas representassem a cultura que prevaleceu na Mesopotâmia nos tempos patriarcais. Muitas das cartas de Hamurabi que foram descobertas indicam que foi um eficiente governante, emitindo suas ordens com claridade e atenção ao detalhe. A Primeira Dinastia de Babilônia (1800-1500 a.C.) se encontrava em seu apogeu, sob o mando de Hamurabi. Seus sucessores foram perdendo gradativamente prestigio até a invasão dos cassitas, que conquistaram Babilônia em 1500 a.C.


Egito

Quando Abraão chegou ao Egito, esta terra podia presumir de uma cultura de mais de um milênio de antigüidade. O começo da história do Egito se inicia usualmente com o rei Menes (3000 a.C.), quem uniu dois reinos, um do Delta do Nilo e outro do Vale 23. Os governantes do primeiro e segundo período dinastia, tiveram sua capital no Alto Egito, perto de Tebas 24. Os túmulos reais escavados em Abydos mostraram vasos de pedra, jóias, vasilhas de cobre e outros objetos enterrados com os reis, refletindo assim uma elevada civilização durante aquele primitivo período. Foi a primeira era do comércio internacional em tempos históricos.

A idade clássica da civilização egípcia, conhecida como o período do Antigo Reino (2700-2200 a.C.), e que compreende as dinastias III-VI, testemunha um número de notáveis logros.

Gigantescas pirâmides, as maravilhas dos séculos que seguiriam, provêem um amplo testemunho da avançada cultura destes primitivos governantes. A Pirâmide escalonada de Saqqara, a mais primitiva grande estrutura feita em pedra, foi construída como um mausoléu real por Inhotep, um arquiteto que também ganhou renome como sacerdote, autor de provérbios e mágico.

A Grande Pirâmide em Gizeh alcança um teto de 147 m por uma base de quase 40.000 m² de base. A gigantesca esfinge que representa o Rei Kefrén da Quarta Dinastia é outra obra que não teve comparação. Os "Textos das Pirâmides", inscritos durante a Quinta e Sexta Dinastias sobre os muros das câmaras e salões, indicam que os egípcios em sua adoração ao sol se anteciparam à posteridade. Os provérbios de Pathotep, que serviu como Grande Vizir sob um Faraó da Quinta Dinastia, são realmente notáveis por seus conselhos práticos 25. As seguintes cinco dinastias que governaram o Egito (2200-200 a.C.), surgiram num período de decadência. Decresceu o governo centralizado. A capital foi trasladada de Mênfis a Herakleópolis. A literatura clássica deste período reflete um governo débil e mutável.

Para o final deste período, a Undécima Dinastia, sob o agressivo Intefs e Mentuhoteps, se construiu um estado forte em tebas.

O Reino Médio (2000-2780 a.C.) marca a reaparição de um poderoso governo centralizado. Embora nativa para Tebas, a Dinastia Décimo Segunda estabeleceu sua capital perto de Mênfis. A riqueza do Egito aumentou de valor por um projeto de irrigação que abriu o fértil Fajum com seu vale para a agricultura. Simultaneamente uma enorme atividade em construir grandes edifícios se produziu em Karnak, perto de Tebas, e em outros lugares do país. Além de promover operações de mineração para a extração do cobre na península do Sinai, os governantes também construíram um canal que conectava o Mar Vermelho com o Nilo; isto os capacitou para manter melhores relações comerciais com a costa somali da África oriental.

Para o sul, Núbia foi anexada até a terceira cachoeira do Nilo, e ali se manteve uma colina comercial fortificada. Os objetos egípcios encontrados pelos arqueólogos na Síria, Palestina e Creta, testemunham as poderosas atividades comerciais dos egípcios na esfera do Mediterrâneo oriental.

Enquanto que o Antigo Reino é lembrado por sua originalidade e seu gênio na arte, o Reino Médio fez sua contribuição na literatura clássica. As escolas de Palácio treinavam oficiais em ler e escrever durante o próspero reinado dos Amenhemets e Sen-userts da Décimo Segunda Dinastia. Embora a massa permanecia na pobreza, resultava possível para o indivíduo médio naquela época de feudalismo entrar no serviço do governo por meio da educação, treinamento, e especial capacidade. Os textos de instrução escritos nos ataúdes de pessoas alheias à realeza, indicam que muitas pessoas então gozavam da possibilidade de entrar "na outra vida". "A história de Sinhué" é o mais fino exemplo da literatura procedente do antigo Egito destinado a entreter. "O Canto do Harpista" é outra obra mestra do Reino Médio, enriquece os homens para que gozem dos prazeres da vida 26. Dois séculos de desintegração, declive e invasão, seguiram ao Reino Médio; conseqüentemente este período é bastante escuro para o historiador. As débeis dinastias XIII e XIV deram passo aos hicsos ou povo amurito. Estes intrusos, que provavelmente chegaram desde a Ásia Menor, destruíram os egípcios por meio de carros guerreiros tirados por cavalos e do arco composto, ambas armas desconhecidas para as tropas egípcias. Os hicsos estabeleceram Avaris no Delta como sua capital. Contudo, os egípcios foram autorizados para manter uma espécie de autoridade em Tebas. Pouco depois do 1600 a.C., os governantes de Tebas se fizeram poderosos o bastante como para expulsar aquele poder estranho e estabelecer a Dinastia XVIII, introduzindo assim o Novo Reino.
Canaã

O nome de "Canaã" se aplica à terra que existe entre gaza ao sul e Hamã no norte, ao longo da costa oriental do Mediterrâneo (Gn 10.15-19). Os gregos, em seu comércio com Canaã, durante o primeiro milênio a.C. se referem a seus habitantes como fenícios, um nome que provavelmente teve origem na palavra grega para designar a "púrpura" 27, uma tintura têxtil de cor avermelhada desenvolvida em Canaã. Já no século XV a.C. o nome "Canaã" se aplicava em geral à província egípcia na Síria ou pelo menos à costa fenícia, um centro da industria da púrpura. Conseqüentemente, as palavras "cananeu" e "fenício" têm a mesma origem cultural geográfica e histórica. Mais tarde, esta zona se conheceu como Síria e Palestina. A designação "Palestina" tem sua origem no nome "filisteu".

Com a emigração de Abraão para o Canaã, esta terra chegou a ser o ponto focal do interesse no desenvolvimento histórico e geográfico dos tempos da Bíblia. Estando estrategicamente localizado entre os dois grandes centros que ninavam as primitivas civilizações, Canaã serviu como uma ponte natural que agia de ligação entre o Egito e a Mesopotâmia.

Conseqüentemente, não é surpreendente achar uma população misturada naquela terra 28. Cidades de Canaã, tais como Jericó, Dotã e outras, foram ocupadas séculos antes dos tempos patriarcais 29. Com o primeiro grande movimento semítico (amorreu) na Mesopotâmia, parece provável que os amorreus estenderam seus estabelecimentos para a Palestina. Durante o Reino Médio os egípcios avançaram seus interesses políticos e comerciais até chegar na Síria pelo norte 30. Muito antes de 1500 a.C., o povo de Caftor ficou estabelecido sobre a Planície Marítima 31. Não menos entre os invasores, foram os hititas, que penetraram no Canaã procedentes do norte e apareceram como cidadãos bem estabelecidos quando Abraão comprou a cova de Macpela (Gn 23). Os refains, um povo algo escuro além das referências escriturais, tem sido recentemente identificados na literatura ugarítica 32. Se conhece muito pouco a respeito dos outros habitantes que se anotam no relato do Gênesis. A designação "cananeu" muito verossimilmente abraça a mistura composta de gentes que ocupavam a terra na época patriarcal.




Geografia 33

Estendendo-se numa longitude de 241 quilômetros desde Berseba pelo norte rumo a Dã, Palestina tem uma área de 9656 km² entre o mar Mediterrâneo e o rio Jordão.

A largura média é de 64 quilômetros, com um máximo de 87 desde Gaza até o mar Morto, estreitando-se até os 45 quilômetros no mar da Galiléia. Com a adição de 6437 km² ao leste do Jordão, cuja zona era chamada com freqüência a Transjordânia, esta terra compreende aproximadamente 16.093 km².

Além de ter uma situação central e estratégica relativa aos centros de civilização e grandes nações dos tempos do Antigo Testamento, Palestina tem também uma variada topografia que teve um efeito significativo sobre o desenvolvimento histórico dos acontecimentos.

Por causa dessa situação, Palestina esteve sujeita aos invasores, e sua neutralidade em mãos do poder mais forte. Os acontecimentos locais com freqüência surgem de fatores de topografia.

Para uma analise destas características físicas, a Palestina pode ser dividida em quatro áreas principais: a Planície Marítima, o País das Colinas, o Vale do Jordão e o Planalto Oriental.

A Planície Marítima costeira consiste na zona litorânea do mar Mediterrâneo. A linha da costa é pouco aproveitável para facilidades portuárias; conseqüentemente o comércio, em sua totalidade, era dirigido para Sidom e Tiro, no norte. Inclusive Gaza, que foi um dos maiores centros de comércio da antiga Palestina e situada somente a cinco quilômetros do Mediterrâneo, não teve tampouco facilidades portuárias. Esta rica terra ao longo da costa, pode facilmente ser dividida em três áreas: a Planície de Acor, ou Acre, que se estende ao norte desde o pé das colinas de monte Carmelo por quase 32 quilômetros, com uma largura que varia de 3 a 16 quilômetros.

Ao sul do monte Carmelo está a Planície de Saram, de aproximadamente 80 quilômetros de longitude, alcançando um máximo de largura de 19 quilômetros. A Planície Filistéia começa a 8 quilômetros ao norte de Jope, se estende por 113 quilômetros para o sul e se expande por uns 40 quilômetros de largura em direção a Berseba.

O País das Colinas, ou a Comarca Montanhosa, situada entre o Jordão e seu vale e a Planície Marítima, é a mais importante seção da Palestina. As três zonas mais importantes, Galiléia, Samaria e Judéia, têm uma elevação aproximada que varia desde 610 a 1220 metros sobre o nível do mar. Galiléia se estende ao sul desde o rio Orantes, imediatamente ao leste da Fenícia e da planície de Acre. Está dotada de um solo fértil, onde se cultivam as uvas, as oliveiras, as nozes e outras colheitas, igual que algumas áreas de pastoreio. Um dos vales mais pitorescos e produtivos para o cultivo das terras na Palestina separa as colinas da Galiléia e a Samaria. Conhecido como o vale de Jizreel, ou Esdraelon, esta zona é vitalmente importante em sua localização estratégica através dos tempos da Bíblia, igual que acontece hoje em nossos dias. Ao sudeste do monte Carmelo, esta fértil planície se estende aproximadamente por 64 quilômetros, em longitude para o monte More, desde onde se divide em dois vales e continua até o Jordão.

Em tempos do Antigo Testamento, os hebreus distinguiam entre as zonas oriental e ocidental, conhecidas respectivamente como os vales de Jizreel e Esdraelon. A cidade de Jizreel, a uns 24 quilômetros do rio Jordão, marcava a entrada a este famoso vale. A seção ocidental era também conhecida como planície de Megido, já que o famoso passo entre montanhas de Megido era de crucial importância para os invasores. Desde a colina de More no vale de Jizreel, esta fértil planície pode ver-se com o monte Carmelo no oeste, monte Tabor para o norte e monte Gilboa para o sul. O centro geográfico de Palestina, a cidade colina de Samaria, surge abruptamente, começando com monte Gilboa e continua ao sul para Betel. As quebradas colinas e vales desta fértil elevação ofereciam um paraíso para os pastores, o mesmo que para ao que trabalham a terra em agricultura. Siquem, Dotã, Betel e outros povoados desta zona eram freqüentados pelos patriarcas. As terras altas da Judéia se estendem ao sul desde Betel, aproximadamente a 97 quilômetros para Berseba, com uma elevação de uns 762 metros em Jerusalém, alcançando um topo mais elevado de quase 914 metros perto do Hebrom. Começando nas vizinhanças de Berseba, as colinas da Judéia se estendem e espalham em ondeantes planícies no grande deserto, com freqüência mencionado, do Negueve, ou terás do Sul, com Cades-Barnéia marcando o extremo sul. Para o leste das colinas da Judéia está a grande extensão que se designa como "o deserto de Judá". Para o oeste deste ocidente geográfico está o Siquem, conhecido também pelas terras baixas. Nesta área estrategicamente importante para a defesa e valiosa economicamente para os cultivos agrícolas estavam situadas as cidades fortificadas de Laquis, Debir e Libna.

O vale do Jordão representa uma das mais fascinantes zonas do mundo. Além dele, a uns 64 quilômetros para o norte do mar da Galiléia, se fecha na altura do monte Hermom com uma altitude de 2793 metros. Ao sul, o vale do Jordão alcança seu ponto mais baixo no mar Morto, a uns 389 metros por debaixo do nível do mar. Quatro correntes de água, uma procedente da planície ocidental e três do monte Hermom, se combinam para formar o rio Jordão a uns 16 quilômetros ao norte do lago Hule. Desde o lago Hule 34, que estava a uns 6 quilômetros de longitude e a 2 metros por acima do nível do mar, o rio Jordão desce num curso de 32 quilômetros a 209 metros por debaixo do nível do mar, rumo ao mar da Galiléia. Esta massa liquida de aproximadamente 24 quilômetros de longitude, era também conhecida como o mar de Cinerete, em tempos do Antigo Testamento. Numa distância de 97 quilômetros, o Jordão, com uma largura média de 27 a 30 metros, serpenteia ao sul num curso de 322 metros rumo ao mar Moro, caindo 183 metros mais por debaixo do nível marítimo. A zona do vale, que é atualmente um grande passo natural entre duas fileiras de montanhas, é às vezes conhecida como Ghor. Começando com uma largura de 6 quilômetros, no mar da Galiléia, se abre até 11 quilômetros em Betsão, estreitando-se até uns 3 quilômetros, antes de expandir-se a 23 quilômetros em Jericó, dentro de 8 quilômetros do mar Morto. Em tempos bíblicos este lago era chamado de Mar Salgado, já que suas águas têm o conteúdo de um 25% de sal. Muito verossimilmente o vale de Sidim, no extremo meridional deste mar de 74 quilômetros de longitude, era o lugar onde estavam localizadas as cidades de Sodoma e Gomorra nos dias de Abraão 35. Ao sul do Mar Morto, se estende a região desolada e desértica conhecida como Araba. Nos 105 quilômetros distância até Petra, este deserto se eleva a 600 metros, descendo depois até o nível do mar a 80 quilômetros de distância, no golfo de Ácaba.

O Planalto Oriental, ou da Transjordânia, pode geralmente ser dividida em quatro áreas principais: Basã, Gileade, Amom e Moabe. Basã, com seu rico solo, estende-se ao sul do monte Hermom para o rio Jarmute, numa largura de 72 quilômetros, e a uma elevação de quase 610 metros por acima do nível do mar. Sob ele, está o bem conhecido território chamado de Gileade, com seu principal rio, o Jaboque. Estendendo-se ao nordeste do Mar Morto e até onde o Jaboque alcança sua máxima altura, está o território de Amom. Diretamente ao leste do Mar Morto e ao sul do rio Arnom está Moabe, sujos domínios se estenderam muito para o norte em várias ocasiões.


O relato bíblico – Gênesis 12 – 50

O atual consenso dos eruditos concede aos patriarcas um lugar na história do Crescente Fértil, na primeira metade do segundo milênio a.C. A asserção de que o relato bíblico consiste em nada mais que uma lenda fabricada, tem sido substituída por um respeito geral para a qualidade histórica do Gênesis 12 – 50 36. Em grande medida, o responsável desta revolucionária mudança, foi o descobrimento e publicação das tabuinhas Nuzu, o mesmo que outras informações arqueológicas que saíram à luz desde 1925. embora não haja uma evidência concreta para identificar qualquer nome específico ou acontecimentos procedentes de fontes externas ao mencionado nos relatos do Gênesis, resulta fácil reconhecer que o médio cultural é o mesmo para ambos. A sola evidência para a existência de Abraão procede da narrativa hebraica, mas muitos eruditos do Antigo Testamento reconhecem agora sua pessoa pelo lugar que ocupa nos princípios da história hebraica 37. A cronologia dos patriarcas ainda permanece como um ponto discutível. Dentro deste período especial, a data sugerida para Abraão varia desde o século XXI ao XV. Com as cronologias para esta era num estado de fluxo, será preciso tomar nota de várias apreciações a respeito da data dos patriarcas.

Sobre a base de certas anotações cronológicas dadas nas Escrituras, a entrada de Abraão em Canaã se calcula que teve lugar no ano 2091 a.C. Isto permite 215 anos para a vida patriarcal em Canaã, 430 anos para o cativeiro no Egito e uma adiantada data para o Êxodo do Egito (1447 a.C.) 38. A correlação entre os acontecimentos seculares e bíblicos baseados sobre esta cronologia foi sujeitada a um novo ajuste de cálculo. A teoria, identificando a Anrafel (Gn 14) com Hamurabi, exige uma reinterpretação dos dados bíblicos com a aceitação de uma cronologia babilônica mais baixa 39. Embora Gordon sugere uma data mais tardia, a Idade Patriarcal parece encaixar melhor no período aproximado de 2000-1750 a.C., de acordo com Kenneth A. Kitchen 40. Ressalta que os principais acontecimentos e história externa, tais como a densidade da população, os nomes dos Reis Orientais (ver Gn 14) e o sistema de alianças mesopotâmicas e egípcias deste período. Foi também durante esse tempo que o Negueve foi ocupado temporalmente.

Uma data razoável para a emigração de Abraão a Canaã é a princípios do século XIX a.C. em vista da cronologia reajustada recentemente para o Crescente Fértil, esta data parece permitir uma melhor correlação entre os sucessos bíblicos e os seculares. Isto igualaria a entrada de Jacó e José em Egito com o período dos hicsos e levaria o tempo de Abraão, Isaque e Jacó a uma mais próxima associação com a era de Hamurabi e a cultura refletida em Nuzu e nos documentos Mari. Os documentos Mari revelam a situação política na Mesopotâmia por volta de 1750-1700 a.C. Enquanto que as tabuinhas de Nuzu refletem as instituições sociais entre os humanos (os horeus bíblicos), por volta de 1500 a.C., se conhece que alguns desses costumes provavelmente prevaleceram na cultura da Mesopotâmia do norte, já para o ano 2000 a.C. A presença de uma colônia hitita nos dias de Abraão, também aponta a uma data posterior ao 1900 a.C. (Gn 23) 41. Embora não se encontra resposta a nenhum problema na data do século XIX para Abraão, esta perspectiva parece ter o mais importante a seu favor.

Sobre a base dos personagens importantes da narrativa da idade patriarcal, pode convenientemente ser dividida como segue: Abraão, Gn 12.1-25.18; Isaque e Jacó, Gn 25.19-36.43; José, Gn 37.1-50.26.
Abraão (Gn 12.1-25.18)

I. Abraham estabelecido em Canaán 12.1-14.24

Transição desde Harã a Siquem, Betel e o País do Sul 12.1-9

Permanência em Egito 12.10-20

Separação de Abraão e Ló 13.1-13

A terra prometida 13.14-18

Ló resgatado 14.1-16

Abraão abençoado por Melquisedeque 14.17-24

II. Abraão espera o filho prometido 15.1-22.24

O filho prometido 15.1-21

O nascimento de Ismael 16.1-16

A promessa renovada – A aliança e seu filho 17.1-27

Abraão, o intercessor – Ló resgatado 18.1-19.38

Abraão liberado de Abimeleque 20.1-18

Nascimento de Isaque – Expulsão de Ismael 21.1-21

Abraão habita em Berseba 21.22-34

A aliança confirmada em obediência 22.1-24

III. Abraão provê pela posteridade 23.1-25.18

Abraão adquire um local de sepultamento 23.1-20

A noiva para o filho prometido 24.1-67

Isaque designado como herdeiro – Morte de Abraão 25.1-18


Mesopotâmia, a terra entre dois rios, foi o lar e a pátria de Abraão (Gn 12.6; 24.10 e At 7.2). situada sobre o rio Balik, um tributário do rio Eufrates, Harã constituiu o centro de cultura onde viveu com seus parentes. Os nomes da parentela de Abraão, Taré, Nacor, Peleg, Serug e outros, estão testemunhados nos documentos Mari e assírios como nomes de cidades nesta zona 42. Em obediência ao mandado de Deus, de deixar a terra e parentela, Abraão deixou Harã para estabelecer-se com um novo lar na terra de Canaã.

Abraão tinha vivido em Ur dos caldeus antes de chegar a Harã (Gn 11.28-31). A identificação mais geralmente aceitada de Ur é a moderna Tell el-Muqayyar, que está situada a 14 quilômetros a oeste de Nasiriyeh, sobre o rio Eufrates, ao sul do Iraque. Foram dadas algumas considerações para as notações geográficas modernas nos tempos de Abraão a uma cidade chamada Ur, localizada no norte da Mesopotâmia 43. O lugar meridional de Ur (Uri) foi escavado em 1922-34, conjuntamente pelo Museu Britânico e o Museu da Universidade de Filadélfia, sob a direção de Sir Leonard Wooley. Traçou a história de Ur desde o quarto milênio a.C. até o ano 3000 a.C., quando esta cidade foi abandonada. Neste lugar foram encontradas as ruínas do zigurate que tinha sido reconstruído pelo próspero rei sumério Ur Nammu, quem governou por pouco tempo antes do 2000 a.C. Esta cidade continua sendo a grande capital da Terceira Dinastia de Ur. A deusa-lua Nannar que foi adorada em Ur foi também a principal deidade em Harã 44. A vida de Abraão conduz por si mesma a uma variedade de tratamentos.

Geograficamente se podem traçar seus movimentos começando com a cidade altamente civilizada de Harã. Deixando seus parentes, embora acompanhado de Ló, seu sobrinho, viajou por volta de 647 quilômetros até a terra de Canaã, onde se deteve em Siquem, aproximadamente a 48 quilômetros ao norte de Jerusalém. Além de uma excursão ao Egito obrigado pela fome, Abraão se deteve em lugares tão bem conhecidos como Betel, Hebrom, Gerar e Berseba. Sodoma e Gomorra, as cidades da planície para as quais emigrou Ló, estavam diretamente espalhadas ao leste do País do Sul ou Negueve, onde se estabeleceu Abraão.

Freqüentes referências indicam que Abraão foi um homem de considerável riqueza e prestigio. Longe de ser um nômade errabundo no sentido beduíno, Abraão dispunha de interesses mercantis. Embora a valoração de seus possessões seja modestamente resumida e expressada numa simples declaração "todas as coisas que haviam reunido e as almas que haviam conseguido em Harã" (12.5) é muito verossímil que esta riqueza sua estivesse representada por uma grande caravana quando emigrou à Palestina. Uma força de 318 servos utilizada para liberar a Ló (14.14) e uma caravana de dez camelos (24.10) não significa senão uma indicação dos recursos com que contava Abraão 45. Os servos estavam acumulados por compra, doação e nascimento (16.1; 17.23; 20.14). Seus rebanhos e manadas de gado em constante crescimento, a prata e o ouro, e os servos para cuidar tão extensas possessões, indicam que Abraão foi um homem de grandes médios. Os líderes palestinos reconheceram a Abraão como a um príncipe com quem podiam fazer alianças e concluir tratados (Gn 14.13; 21.22; 23.6).

Desde o ponto de vista das instituições sociais, o relato do Gênesis de Abraão resulta um estudo fascinante. Os planos de Abraão para fazer de Eliézer herdeiro de suas possessões, já que não tivera um filho (Gn 15.2) refletem as leis de Nuzu, que determinavam que um casal sem filhos podia adotar como filho um servo fiel, que pudesse ostentar direitos legais e quem podia ser recompensado com a herança, como pagamento por seus cuidados constantes e o enterro em cãs de falecimento. Os costumes maritais de Nuzu, o mesmo que o código de Hamurabi, proviam que, se a esposa de um homem casado não tinha filhos, o filho de uma criada podia ser reconhecido como legítimo herdeiro. A relação de Agar com Abraão e Sara é algo típico dos costumes que prevaleciam na Mesopotâmia. A preocupação de Abraão pelo bem-estar de Agar pode também ser explicada pelo fato de que legalmente uma criada que parisse um filho não podia ser vendida para a escravidão.

Um estudo devocional de Abraão pode resultar altamente proveitoso. A promessa sêxtupla feita ao patriarca tem um grande alcance nas implicações da história. A promessa de Deus de fazer dele uma grande nação se realiza subseqüentemente nos acontecimentos do Antigo Testamento. "Eu te abençoarei", logo se tornou uma realidade em sua experiência pessoal.

O nome de Abraão se fez grande não somente como pai dos israelitas e maometanos, senão também como o grande exemplo de fé para os crentes cristãos, segundo os escritos do Novo Testamento, em Romanos, Gálatas, Hebreus e Tiago. Além disso, a atitude do homem para Abraão e seus descendentes teria uma direta influência na bênção ou maldição sobre o gênero humano; isto assegurou a Abraão um lugar único no desígnio providencial para a raça humana. Certamente, a promessa de que Abraão seria bendito foi literalmente cumprida durante sua vida, o mesmo que nos tempos subseqüentes. Finalmente, a promessa de abençoar todas as famílias da terra se descobre em seu alcance a escala mundial quando Mateus começa seu relato da vida de Jesus Cristo, estabelecendo que Ele é o "filho de Abraão".

A aliança joga um papel importante na experiência de Abraão. Notem-se as sucessivas revelações de Deus após a promessa inicial à qual Abraão responde com obediência. A medida que Deus acrescenta sua promessa, Abraão exerceu a fé, que lhe foi reconhecida como justiça em Gênesis 15. nesta aliança, a terra de Canaã foi especificamente dada em prenda aos descendentes de Abraão. Com a promessa do filho, a circuncisão se converte no sinal do pacto (Gn 17). Esta promessa da aliança foi selada finalmente no ato de obediência de Abraão, quando esteve disposto a executar o sacrifício de seu único filho Isaque (Gn 22).

A religião de Abraão é um tema vital nos relatos bíblicos, patriarcais. Procedente de um fundo politeísta onde a deusa-lunar Nannar era reconhecida como o deus principal na cultura de Babilônia, Abraão chega a Canaã. Que sua família serviu a outros deuses fica claramente estabelecido em Josué 24.2. em Canaã, e em meio de um entorno idólatra e pagão, a meta de Abraão foi a de "construir um altar ao Senhor". Depois de resgatar a Ló e ao rei de Sodoma, recusou uma recompensa, reconhecendo que ele estava por completo dedicado por devoção única a Deus, o "fazedor dos céus e da terra". A íntima comunhão e camaradagem existente entre Deus e Abraão estão belamente retratadas no capítulo 18, onde ele intercede por Sodoma e Gomorra. Talvez seja sobre a base de Is 41.8 e Tg 2.23 que a Septuaginta inseriu as palavras "meu amigo" em 18.17. Através dos séculos, a porta meridional de Jerusalém, que conduz a Hebrom e Berseba, tem sido sempre citada como a "porta da amizade", em memória da relação íntima entre Deus e Abraão.

Isaque, o filho prometido, foi o herdeiro de tudo o que Abraão possuía. Outros filhos de Abraão, tal como Ismael, de onde descendem os árabes e Midiã, o pai dos midianitas, receberam presentes quando partiram de Canaã, deixando o território a Isaque. Antes de sua morte, Abraão deixou a Rebeca por esposa de Isaque. Abraão também comprou a cova de Macpela 46, que se converteu no sepulcro de Abraão, Isaque e Jacó, assim como o de suas esposas.


Isaque e Jacó (Gn 25.19-36.43)

I. A família de Isaque 25.19-34

Rebeca, a mãe dos gêmeos 25.19-26

Esaú e Jacó intercambiam os direitos de primogenitura 25.27-34

II. Isaque estabelecido em Canaã 26.1-33

A aliança confirmada a Isaque 26.1-5

Dificuldades com Abimeleque 26.6-22

A bênção de Deus sobre Isaque 26.23-33



III. A bênção patriarcal 26.34-28.9

Isaque favorece a Esaú 26.34-28.9

A bênção roubada: imediatas conseqüências 27.5-28.9

IV. As aventuras de Jacó com Labão 28.10-32.2

O sonho em Betel 28.10-22

Família e riqueza 29.1-30.43

A separação com Labão 31.1-32.2



V. Jacó volta a Canaã 32.3-35.21

Reconciliação de Esaú e Jacó 32.3-33.17

Dificuldades em Siquem 33.18-34.31

Adoração em Betel 35.1-15

Raquel enterrada em Belém 35.16-21

VI. Descendentes de Isaque 35.22-36.43

Os filhos de Jacó 35.22-26

Enterramento de Isaque 35.27-29

Esaú e seu clã em Edom 36.1-43


O caráter de Isaque, segundo se descreve no Gênesis, está em certa forma escurecido pelos acontecimentos da vida tanto do pai como do filho. Com o anúncio da morte de Abraão, o leitor fica imediatamente apresentado a Jacó, quem emerge como o elo da sucessão patriarcal. Pode ser que muitas das experiências de Isaque fossem similares às de Abraão, pelo que haja pouco que narrar ao respeito.

Embora Isaque herdou a riqueza de seu pai e continuou a mesma pauta de vida, é interessante notar que se comprometeu em questões de agricultura perto de Gerar (26.12).

Abraão em certa ocasião tinha-se detido em Gerar, em território filisteu, mas passou muito tempo nas redondezas de Hebrom. Quando Isaque começou a cultivar a terra, obteve colheitas que lhe proporcionaram o cento por um. Aquele êxito tão pouco comum nas lavouras do campo excitou a inveja dos filisteus de Gerar, de forma que Isaque teve de deslocar-se, por considerá-lo necessário, rumo a Berseba, com objeto de manter relações pacíficas.

A presença dos filisteus em Canaã durante os tempos patriarcais tem sido considerada um anacronismo. O estabelecimento caftoriano em Canaã por volta de 1200 a.C. representou uma migração tardia do Povo do Mar, que previamente tinham-se estabelecido em outras ocasiões durante um longo período de tempo. Os filisteus se haviam estabelecido em pequenos grupos muito antes de 1500 a.C. Com o passar do tempo se misturaram com outros habitantes do Canaã, porém o nome de "Palestina" (Filistéia) continua levando o testemunho de sua presença em Canaã. A cerâmica caftoriana por todo o sul e a parte central da Palestina, ao igual que as referências literárias, testemunham a superioridade dos filisteus nas artes e habilidades manuais. Nos dias de Saul monopolizaram os trabalhos metalúrgicos na Palestina 47.

Polemico em conduta, Jacó surgiu como herdeiro da aliança. De acordo com os costumes de Nuzu, negociou com Esaú para assegurar-se a herança e seus direitos. Sua capacidade de negociador fica logo aparente em sua aquisição dos direitos de primogenitura pelo escasso preço de um prato de lentilhas. O irreal sentido de Esaú do valor das coisas pôde ter sido provocado pela fatiga temporária e à exaustão de uma expedição de caça que não teve recompensa alguma. Além disso, Jacó ganhou a bênção no leito de morte, usando um truque e a decepção, instigado por Rebeca, sua mãe. O significado desta aquisição se compreende melhor por comparação com as leis contemporâneas que faziam tais bênçãos orais legalmente válidas. Deve notar-se, contudo, o fato que o relato bíblico coloque a ênfase no lugar que ocupa a chefia familiar por acima das bênçãos materiais.

Temendo o provável matrimônio de Jacó com mulheres hititas, tanto como a vingança de Esaú, Rebeca concebeu e instrumentou um plano para enviar a seu filho favorito a Padã-Harã. De caminho, Jacó responde a um sono em Betel com uma promessa condicional para servir a Deus e uma tentativa de dar o dizimo de suas rendas. Tendo recebido uma cordial acolhida em seu lar ancestral, Jacó entra num acordo com Labão, irmão de Rebeca. De acordo com os costumes de Nuzu, isto poderia ter sido mais que um simples contrato para o matrimônio. Aparentemente, Labão não tinha um filho naquela época, pelo que Jacó foi instituído como herdeiro legal. Típico da época foi o presente de Labão de uma criada a cada uma de suas filhas, Raquel e Lia. A esposa de Labão deu a luz mais tarde a outros filhos, pelo que Jacó deixou de ser o herdeiro principal. Aquela mudança nos assuntos não foi do agrado de Jacó; desejou ir embora, porém foi dissuadido por um novo contrato que lhe abria a possibilidade de obter riqueza mediante os rebanhos de Labão. Com o passar do tempo, Jacó chegou a ser tão próspero, apesar do reajuste de contrato de Labão, que a relação existente entre o pai e o genro se alterou.

Alentado por Deus para voltar à terra de seus pais, Jacó reuniu todas suas possessões e partiu no momento oportuno, quando Labão estava ausente num negócio de gado. Três dias mais tarde Labão soube da partida de Jacó e mandou em sua busca. Após sete dias lhe deu alcance nas colinas de Gileade. Labão estava profundamente perturbado pela desaparição de seus deuses-lar. O terafim, que Raquel tinha escondido com êxito enquanto Labão buscava nas possessões de Jacó, pôde ter sido mais legal que de significação religiosa para Labão 48. De acordo com a lei Nuzu, um genro que tiver em seu poder os deuses-lar poderia reclamar a herança da família ante um tribunal. Dessa forma Raquel tentava obter certa vantagem para seu marido, ao roubá-lhe os ídolos. Porém Labão anulou qualquer benefício dessa índole por um convenio com Jacó antes de separar-se.

Continuando rumo a Canaã, Jacó antecipou o terrível encontro com Esaú. O temor o venceu, ainda que toda crise do passado tivesse acabado com vantagem para ele. A ponto de não voltar, Jacó encarou-se com uma crucial experiência (32.1-32). Dividindo todas suas possessões nem rio, Jacó, em preparação para o encontro com Esaú, se voltou a Deus em oração.

Reconheceu humildemente que era imerecedor de todas as bênçãos que Deus lhe havia outorgado. Mas de face para o perigo, suplicou por sua liberação. Durante a solidão da noite, lutou a braço partido com um homem. Nesta estranha experiência, na qual reconheceu um encontro divino, seu nome foi mudado pelo de "Israel" em lugar de continuar chamando-se Jacó. Depois disso, Jacó não foi o impostor; em seu lugar esteve sujeito à decepção e aos sofrimentos por seus próprios filhos.

Quando chegou Esaú, Jacó se prostrou sete vezes —outra antiga tradição mencionada nos documentos ugaríticos e de Amarna—, e recebeu a seguridade do perdão de seu irmão.

Declinando cortesmente a generosa ajuda oferecida por Esaú, Jacó continuou lentamente para o Sucote, enquanto Esaú voltava ao Seir.

A caminho para o Hebrom, Jacó acampou em Siquem, Betel e Belém. Embora adquiriu algumas terras em Siquem, o escândalo e a perfídia de Levi e Simeão tornaram impossível continuar vivendo naquela região (34.1-31). Este incidente, o mesmo que o ofensivo de Rubem (35.22), teve a ver com a bênção de Jacó para seus filhos (49).

Quando recebei instruções de Deus para trasladar-se a Betel, Jacó se preparou para sua volta àquele lugar sagrado suprimindo a idolatria de seu lar. Em Betel erigiu um altar. Ali, Deus renovou a aliança com a seguridade de que não só uma nação, senão um grupo de nações e reis surgiriam de Israel (35.9-15).

Enquanto viajavam para o sul, Raquel morreu ao dar a luz a Benjamim. Foi enterrada na vizinhança de Belém, num lugar chamado Efrata. Seguindo sua viagem com seus filhos e possessões, Jacó chegou finalmente ao Hebrom, ao lar de seu pai Isaque. Quando morreu Isaque, Esaú voltou desde Seir para reunir-se com Jacó no sepultamento de seu pai.

Os edomitas, aparentemente, contavam com uma ilustrativa história. Pouco se conhece a respeito deles, além do relato sucinto relatado em Gn 36.1-43, o que indica que tinham diversos reis inclusive antes que qualquer rei reinasse em Israel. Neste aspecto, a narrativa do Gênesis dispõe de linhas colaterais antes de resumir o relato patriarcal.
José (Gn 37.1-50.26)

I. José, o filho favorito 37.1-36

Odiado por seus irmãos 37.1-24

Vinda ao Egito 37.25-36

II. Judá e Tamar 38.1-30

III. José: escravo e governante 39.1-41.57

José em prisão 39.1-20

Interpretação dos sonhos 39.21-41.36

Governante perto do Faraó 41.37-57



IV. José e seus irmãos 42-.1-45.28

A primeira viagem – Simeão tomado como refém 42.1-38

Segunda viagem com Benjamim –José se identifica

a si mesmo 43.1-45.28



V. A família de José se estabelece no Egito 46.1-50.26

Gósen distribuído aos israelitas 46.1-47.28

As bênçãos patriarcais 47.29-49.27

O sepultamento de Jacó em Canaã 49.28-50-14

A esperança de José para Israel 50.15-26
Numa das mais dramáticas narrações da literatura mundial, as experiências de José entretecem a vida patriarcal no Egito. Enquanto os contatos anteriores tinham sido primariamente com o ambiente da Mesopotâmia, a transição ao Egito resultou numa mistura de costumes, conseqüência daquelas duas formas tão adiantadas de civilização. Nesta narrativa, percebemos a continuidade da antiga influência, a adaptação ao ambiente egípcio e, acima de tudo, toda a guia protetora e o controle de Deus nas fascinantes fortunas de José e seu povo.

José, o filho de Raquel, foi o orgulho e a alegria de Jacó. Para mostrar seu favoritismo, Jacó o engalanou com uma túnica, aparentemente a marca externa de um chefe de tribo 49. Seus irmãos, que já estavam ressentidos contra José pelos maus informes que lhes concerniam, foram incitados por este fato a um ódio extremo. A questão chegou a um ponto álgido quando José lhes relatou dois sonhos prognosticando sua exaltação 50. Os irmãos mais velhos deram liberdade a seu rancor jurando tirar-se de cima a José na primeira ocasião.

Enviado por seu pai a Siquem, José não pôde achar a seus irmãos até que entrou em Dotã, aproximadamente a 130 quilômetros ao norte do Hebrom 51. Após submetê-lo ao ridículo e ao abuso, os irmãos o venderam aos mercadores midianitas e ismaelitas, em quem conseqüência, dispuseram dele como de um escravo para Potifar no Egito. Ao mostrar-lhe a capa que vestia José, suja de sangue, Jacó chorou e se enlutou pela perda de seu filho favorito na crença de que tinha sido morto pelas bestas selvagens.

O leitor fica em suspense pelo bem-estar de José com o episódio de Judá e Tamar (38.1-30). Este relato tem significação histórica, já que subministra o passado genealógico da linha davídica (Gn 38.29; Rt 4.18-22; Mt 1.1). Além disso, a despeito da conduta pouco exemplar de Judá, a prática do levirato 52 é mantida no matrimônio. A demanda de Judá de que Tamar fosse queimada pelo delito de prostituição, pode refletir um costume levado a Canaã pelos indo-europeus, tais como os hititas e os filisteus. As fontes ugaríticas e mesopotâmicas testemunham o uso de três artigos para significar a identificação pessoal. Tamar estabeleceu a culpabilidade de Judá por sua impregnação ao utilizar seu selo, seu cordão e seu cajado como prova. Já que a lei hitita permitia a um pai fazer cumprir as obrigações do levirato ao casar uma nora viúva, Tamar não foi submetida ao castigo sob a lei local por seu estratagema em enrolar o plano de Judá ao ignorar seus direitos de matrimônio.

Na legislação mosaica, a estipulação foi feita para o matrimônio do levirato (Dt 25) 53. As experiências de José na terra do Nilo foram demonstradas como autênticas em muitos detalhes (39-50). Os nomes egípcios e títulos aconteceram, como podia esperar-se. Potifar é designado como "capitão da guarda" ou "chefe dos executores", que era usado como o título que se dava à guarda pessoal do rei. Azenate (nome egípcio), a filha de um sacerdote de Om (Heliópolis), se converteu na esposa de José.

Oficiais importantes da corte egípcia estão apropriadamente identificados como "chefe de mordomos" e "chefe dos padeiros". Os costumes egípcios estão igualmente refletidos.

Sendo José um semita, levava barba; porém para sua presença ante o Faraó, teve de ser raspado de conformidade com as formas egípcias. A fina roupa de linho, o colar de ouro e o anel com o selo enfeitaram a José na típica forma egípcia quando assumiu o mando administrativo sob a divina autoridade do Faraó. "Abrek", provavelmente uma palavra egípcia que significa "tomar nota", é a ordem para todos os egípcios ao produzir-se a designação de José (Gn 41.43) 54. O embalsamamento de Jacó e a mumificação de José também seguiam as normas egípcias do cuidado próprio dos falecidos.

São também de grande valor os paralelos na vida de José e na literatura egípcia. A transição de José desde ser um escravo a converter-se num governante, tem um grande parecido com o clássico egípcio, "O camponês eloqüente". Os sete anos de abundância, nos sonhos do Faraó, comportam igualmente uma grande similitude com uma velha tradição egípcia 55. A todo o longo desses anos de adversidade, sofrimentos e êxito, a relação humano-divina é claramente aparente. Tentado pela esposa de Potifar, José não cedeu. Não queria pecar contra Deus (Gn 39.9). Em prisão, José confessou abertamente que a interpretação dos sonhos somente correspondia a Deus (40.8). quando apareceu frente ao Faraó, José reconheceu que Deus se valia dos sonhos para revelar o futuro (41.25-36). Inclusive no fato de dar nome a seu filho, Manassés, José reconheceu a Deus como a fonte de sua promoção e o alívio de suas dores (41.51). Também tomou a Deus em consideração em sua interpretação da história: ao revelar sua identidade a seus irmãos, humildemente deu crédito a Deus por levá-lo a ele ao Egito. Não disse em nenhum momento que eles o haviam vendido como escravo (41.4-15). Depois da morte de Jacó, José voltou, mais uma vez, a dá-lhes a segurança de que não buscaria vingança. Deus tinha ordenado os eventos da história para o bem de todos (50.15-21).

O engrandecimento feito de Deus por José através de muitas vicissitudes, foi recompensado por sua própria elevação. Na casa de Potifar, foi tão fiel e tão notável e eficiente que foi elevado à categoria de superintendente. Lançado na prisão por falsas acusações, José logo foi considerado com responsabilidades de supervisão que utilizou sabiamente para ajudar a seus companheiros de encarceramento. Através do mordomo, quem por dois anos falhou em lembrar sua ajuda, José foi levado subitamente na presença do Faraó para interpretar os sonhos do rei. Foi certamente um momento oportuno: o governante do Egito tinha a necessidade de contar com um homem como José, que provou sua valia. Como chefe administrador, não somente guiou o Egito através dos anos cruciais da abundância e da fome, senão que foi o instrumento adequado para salvar a sua própria família. A posição de José e seu prestígio fizeram possível o distribuir a terra do Gósen aos israelitas quando emigraram ao Egito.

Aquilo foi uma enorme vantagem para eles, a causa de seus interesses como pastores.

As bênçãos de Jacó formam uma conclusão que encaixa na idade patriarcal do relato do Gênesis. Em seu leito de morte, pronunciou sua última vontade e seu testamento. Ainda se achasse no Egito, suas bênçãos refletem o costume da Mesopotâmia, o lar original, onde os pronunciamentos orais eram reconhecidos como fiel testemunho de fé ante um tribunal.

Mantendo as promessas divinas feitas aos patriarcas, as bênçãos de Jacó, dadas em forma poética, tiveram uma significação profética.




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