A história de snow charlotte Vale Allen



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A HISTÓRIA DE SNOW
Charlotte Vale Allen

Aos 31 anos, Snow Devane é uma fotógrafa de sucesso que vive em Manhattan, com uma vida maravilhosa, ainda mais depois que conseguiu se desgarrar dos sufocantes laços maternos. Então, sua mãe, à beira da morte, faz uma revelação surpreendente: Snow não é sua filha. Na verdade, ela a raptou em um supermercado em Nova York quando era apenas uma bebê de colo.

A vida de Snow fica de cabeça para baixo — toda a sua existência não passa de uma mentira. Agora Snow tem de recuperar sua verdadeira identidade. Mas, acima de tudo, achar resposta para a seguinte questão: o que levou Anne Cook a roubar a criança de outra mulher?
Digitalizada por Marcilene

Revisada por Ártemis


Copyright © 2005 by Tara Taylor Quinn

Originalmente publicado por Mira Books

Titulo original SOMEBODY´S BABY

Sobre a digitalização desta obra:

Esta obra foi digitalizada para proporcionar de maneira totalmente gratuita o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para leitura. Dessa forma, a venda deste e-book ou mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância.

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Capítulo l

— Desculpe não poder ficar.

— Está tudo bem.

— Amo você.

— Também amo você.

— Ligo para você amanhã.

— Ótimo.


— É melhor me apressar, ou vou perder o meu trem. Desculpe, de verdade.

— Está tudo bem.

Ele pegou a pasta e se dirigiu para a porta. Ela o acompanhou.

— Ligo para você amanhã, está bem?

— Está bem, Mark.

Ele a beijou, rapidamente, abriu a porta e foi embora.

Ela esperou até que a porta do elevador houvesse se fechado, depois voltou para dentro do apartamento, trancando a porta. Deprimida e zangada, olhou ao redor, perguntando-se — como costumava fazer cada vez que isso acontecia — por que não dava um fim neste caso. Não era do que ela precisava, nem o que queria. E, embora ela repetisse as palavras sempre que ele dizia eu amo você, não apenas não o amava, mas desejava ardentemente que pudesse encontrar alguém que realmente amasse, ou que passasse a não dar a mínima para os homens.

No chuveiro, ao lavar os sinais do amor que havia feito, ela considerou como poderia passar sua inesperada noite livre. Havia amigos que poderia convidar para jantar ou para pegar um cinema, talvez até tentar arrumar algum ingresso de última hora para um show da Broadway, mas a simples idéia de se sentar e vasculhar sua agenda telefônica em busca de pessoas para ligar só fazia contribuir para a sua depressão. Ele se secou e resolveu trabalhar. Poderia revelar o filme de hoje e preparar o índice de fotos. Isso lhe daria mais tempo para imprimir as sessões de Dunfield e Rubenstein da semana anterior. Com as cópias prontas, poderia preparar a cobrança. Ótima idéia. Trabalho era sempre a solução. Seu humor começava a melhorar.

Usando uma camiseta e jeans, meias e tênis, ela se dirigiu para a área do apartamento reservada para o estúdio, para pegar três rolos de filme da cesta de coisas-a-fazer de Katie. Depois de um ou dois minutos colocando o primeiro CD de La Bohème, foi para a câmara escura.

A música gloriosa de Puccini tomou conta do apartamento. Ela acabara de pôr três filmes nos tubos de revelação quando o telefone tocou. Certificando-se de que o filme agora não corria perigo da menor exposição à luz resultante do ato de abrir e fechar a porta da câmara escura, correu para diminuir o volume do aparelho de som antes de atender ao telefone.

— É você, Snow? — perguntou a voz de um homem mais idoso.

— Sou eu, Rudy — ela respondeu, reconhecendo na mesma hora a voz do vizinho de sua mãe, e ficando alarmada. Só havia um motivo para Rudy Howell estar ligando: algo acontecera com sua mãe.

— Acho melhor você dar um pulo aqui, Snow — ele disse, num tom hesitante. — Sua mãe teve um enfarte, e a coisa parece feia.

— Meu Deus! Quando? Onde ela está?

— Aconteceu há algumas horas. Foi sorte eu estar trabalhando no jardim e ter visto. Pensei que ela houvesse levado um tombo, mas quando fui ajudá-la, soube na mesma hora o que havia acontecido. Liguei para o serviço de emergência, e fiz-lhe boca-a-boca antes de a ambulância chegar. Ela está na UTI, e está chamando você.

— Deus! Estou indo para aí. — Ela olhou o relógio. Já eram quase sete. — Dependendo do trânsito, devo estar aí lá para as dez, dez e meia. Obrigada por me avisar. Estou a caminho.

— Vou dizer a ela. Vai ficar mais tranqüila ao saber que você está vindo.

— Obrigada, Rudy.

Trêmula e agitada, ela desligou o aparelho de som, e correu para a sala de estar, onde pegou a jaqueta, a bolsa e as chaves. De maneira desajeitada, enfiou as chaves nas duas fechaduras na porta da frente de metal reforçado, depois disparou pelos quatro lances de escada, em vez de esperar o elevador. Assim que chegou à rua, correu para a garagem onde guardava seu carro, a três quarteirões de distância.

Com um frio na barriga e as mãos trêmulas, ficou andando de um lado para o outro, enquanto aguardava que Mário, o jovem atendente sempre simpático, trouxesse o Volvo.

— Qual o problema? — ele perguntou, olhando para o rosto dela, ao sair do volante, e segurar a porta para a moça.

— Minha mãe sofreu um ataque do coração — ela explicou, estranhando o som destas palavras. — O coração a atacou. Ela foi atacada pelo coração. — Estava desesperada para se pôr a caminho.

— Nossa, que horrível. — Ele se curvou para olhar para ela, quando a moça se acomodou atrás do volante. — Escute, Snow, não vá dirigindo muito rápido. Vai acabar sofrendo um acidente. Vá com calma, e chegará lá inteira. Para onde vai mesmo?

— Rhode Island.

— Ela vai ficar boa. Você vai ver. Agora, vá com calma — ele aconselhou, recuando alguns passos, quando ela pôs o cinto de segurança, engatou a marcha e saiu dirigindo.

Ele tem razão, ela se convenceu, com as mãos úmidas na direção, ao se dirigir para a FDR Drive. Tenho de me acalmar. Ao parar no sinal vermelho, em um cruzamento, pegou algumas fitas no porta-luvas e pôs uma delas para tocar no carro.

Nos quinze segundos de silêncio antes de a música começar, respirou fundo várias vezes, tentando recuperar o controle. O sinal ficou verde, Pavarotti começou a cantar Che Gélida Manina e ela seguiu dirigindo, com a voz extraordinária preenchendo o interior do carro de nove anos. Em vez de acalmá-la, a entonação carregada de sentimento do homem trouxe-lhe lágrimas aos olhos e um aperto ao coração.

Quando chegou a 1-95, o tremor interno já se acalmara e o pavor se instalara. A mãe tinha apenas sessenta e três anos, era jovem demais para morrer. Deus sabe que elas nunca foram tão chegadas quanto a mãe gostaria. Mas se Anne Cooke tivesse sido menos obsessivamente atenta, menos superprotetora e vigilante, talvez tivessem conseguido ter uma relação melhor e menos conturbada. Nunca conseguira fazer a mãe entender isso, principalmente durante a adolescência de Snow, quando esta se sentira reprimida e sufocada, e passara a responder às intrusões, interrupções e interrogações incessantes da mãe com “sim, mamãe”. Em particular, lastimavelmente, se congratulava por este pequeno ato de rebelião, pois o que na verdade estava pensando ao dizer essas palavras era “sim, repressora”. Era assim que se sentira a vida toda: reprimida, dominada, como se não tivesse ar e espaço suficientes para crescer. E era por isso que, periodicamente, bebia goles furtivos de uísque, vodca ou gim das garrafas que, em outras ocasiões, passavam mais de um ano intocadas no armário de bebidas. Era por isso que fumava escondida na praia, inicialmente ficando tonta e nauseada, mas, com o passar do tempo, viciando-se. Também foi este o motivo para, aos dezesseis anos de idade, ter ido para um motel em Providence com um homem casado das redondezas, e ter passado aquela tarde, e várias outras subseqüentes, satisfazendo-se com atos sexuais cujo maior prazer era a aflição que eles causariam à sua mãe, caso ela viesse a descobrir. E também foi por isso que, por fim, logo depois da formatura do colégio, deixou Rhode Island e foi para a Escola de Artes Visuais em Nova York.

A mudança foi motivo para muitas batalhas, mas, no fim, Snow venceu ao ameaçar que, se necessário, pagaria a Escola com o próprio trabalho. A mãe afinal concordou, mas não antes de obter a promessa de Snow de que ela ligaria para casa pelo menos três vezes por semana. Um pequeno preço a se pagar por tamanha vitória. Ela manteve a palavra e, mesmo agora, com trinta e um anos de idade, ainda tinha o hábito de dar tais telefonemas — apenas com menor freqüência.

Com a distância, adquirira uma certa tolerância com as excentricidades da mãe. Contudo, minutos depois de chegar em casa para uma visita, começava a ficar zangada e na defensiva. Precisava se esforçar para manter a serenidade diante dos conselhos e advertências incessantes. ”Espero que não ande sozinha à noite.” ”Mantenha as portas do carro sempre trancadas.” ”Você está se lembrando de passar a tranca na porta, quando está em casa?” ”Nunca abra a porta para estranhos.” E por aí afora, interminavelmente, como se a segurança de Snow fosse o único aspecto de sua vida de alguma importância. Sua mãe só lhe perguntava sobre trabalho de maneira ocasional. De maior interesse, e perdendo apenas para o seu bem-estar, era a questão de Snow já ter encontrado um homem bom e decente.

O rosto de sua mãe se iluminava ao pensar em netos, mas Snow ainda não estava interessada em ser mãe. Era a primeira a reconhecer que ainda não se recuperara dos efeitos a longo prazo de ser a filhinha da mamãe. E, apesar de adorar crianças, de as reverenciar, de apreciar sua perfeição, ela sabia que ainda tinha muito chão pela frente antes de começar a pensar em maternidade. Mal conseguia se conter para não se entregar à irritação e jogar na cara da mãe o fato de que tivera vários amantes casados. Houve ocasiões em que, enquanto a mãe falava entusiasticamente de bebês, Snow sentira vontade de se levantar e gritar que nunca sujeitaria um filho seu ao tipo de cuidados obsessivos que acabariam por transformá-lo num anarquista de fala mansa com tendências a atos de auto-flagelação.

Considerando que a mãe ficara casada pouco tempo — enviuvara quando Snow tinha apenas alguns meses de vida — e que, nos anos que se seguiram, não tivera quase nada a dizer sobre o marido falecido — nem saíra uma única vez com outro homem —, seu temor incontrolado de que Snow fosse acabar uma ” solteirona” parecia não apenas infundado, como também descabido. Mas ela tinha esse medo, expressava-o em alto e bom som e com muita freqüência. Snow concluíra que fora por isso que, desde o início de sua vida sexual, se envolvera com homens que não tinham a mínima intenção de abdicar de sua vida de solteiro, ou que fossem casados.

Mark era seu quinto amante casado. Infelizmente, desde o começo, ele embarcara na ficção de que abandonaria a esposa por Snow. Parecia pensar que era isso que a moça esperava, apesar de todas as suas declarações em contrário. Parecia estar além de sua compreensão que ela gostasse dele justamente porque estava convenientemente casado com outra pessoa. Mark se recusava a aceitar isso, mesmo que na cabeça dela fosse tudo tão simples.

Sendo casado, não podia deixar diversas peças de vestuário no apartamento, nem aparecer sem aviso nas horas mais inconvenientes. Não tinha o direito de reivindicar nada dela, e Snow não tinha nenhuma vontade de ser reivindicada como um potro premiado num leilão de cavalos. É claro que ela tinha de estar à disposição dele em tardes e noites ocasionais durante a semana, mas nunca sem aviso e nunca por mais do que algumas horas. E, tendo em vista a limitação de tempo, o envolvimento era quase que exclusivamente sexual. O que era perfeito, pois a maioria dos valores e pontos de vista dele eram diametralmente opostos aos dela. Ele era bom de cama e não tomava muito do tempo dela. Não suportava a idéia de ter alguém por perto de maneira constante, sufocando-a ao diminuir o nível de oxigênio disponível no apartamento. Já tivera bastante disso quando estava crescendo.

Já escurecera há muito quando cruzou a divisa do estado de Connecticut, mas a 1-95 estava bem iluminada naquele trecho e ela pôde relaxar um pouco, concentrando-se um pouco menos na estrada. Mas, no instante em que a tensão no pescoço e nos ombros relaxou, foi tomada pelo medo de que a mãe já estivesse morta quando chegasse ao hospital. O frio na barriga voltou e notando o aviso de uma parada adiante, decidiu descansar um pouquinho.

Depois de completar o tanque de gasolina, estacionou e entrou no McDonald’s para usar o banheiro antes de pegar um café para viagem. Ao sair com o café parou para olhar os cartazes de crianças desaparecidas. Três rostinhos sorridentes, retratos tirados em ocasiões mais felizes. Deus, pensou ao se dirigir para o carro. Onde estão vocês? Que monstro os roubou do âmago de tudo que lhes era seguro e feliz? Os cartazes, as embalagens de leite, os sacos de papel no supermercado, todos com aquelas fotos, eram entristecedores. Por todo o país havia pais angustiados rezando pela segurança dos filhos. Durante toda a vida de Snow, a mãe parecia estar aguardando a oportunidade de se juntar nessa fileira. Ela fora tão cuidadosa que Snow se tornara inconscientemente descuidada, só para equilibrar as coisas. Às vezes ficava espantada ao pensar em como tivera sorte de nunca ter se metido numa situação realmente perigosa.

Antes de ligar o motor, organizou as fitas que queria escutar: os melhores momentos de As bodas de Figaro, duetos de Montserrat Caballé e Shirley Verrett, árias de Puccini e Bellini interpretadas por Maria Callas, e O Melhor de Bach de Jacques Loussier. Sentiu um aperto no coração ao perceber que herdara a paixão por ópera e música clássica da mãe, assim como o amor pela leitura e por imagens gráficas, em especial aquelas de crianças. Este foi o motivo de ter decidido se dedicar à fotografia, eventualmente se especializando em retratos de crianças.

Voltando ao fluxo do trânsito, refletiu sobre seu trabalho e o enorme prazer que lhe proporcionava. Aqueles estudos em preto-e-branco, meticulosamente iluminados, literalmente a emocionavam. Ela passava a maior parte do tempo durante uma sessão arrumando as luzes e posicionando a criança, ou crianças no caso de uma sessão em grupo. Devido à pureza imaculada dos rostos, podia usar iluminação forte, direta ou não, para realçar as características que lhe chamavam a atenção. Gostava em especial das crianças de três ou quatro anos de idade, com a doçura arredondada de suas feições em formação, sua vitalidade e seu profundo auto-interesse, assim como sua tremenda curiosidade. Sempre era extremamente difícil fazer com que ficassem paradas, enquanto ela e Katie falavam sem parar, estimulando as crianças a escutar a música alegre que tocava, tentavam ajeitar-lhes as roupas e manter o equilíbrio entre luz e sombra na mais perfeita harmonia. Nos seis anos em que trabalharam juntas, Snow e Katie aprimoraram suas técnicas, conseguindo terminar as fotos antes de a criança ficar entediada e irrequieta, fazendo com que o rosto perdesse aquela luz interior maravilhosa, levando ao fracasso inevitável da sessão.

De repente, percebeu que precisava avisar Katie do que estava acontecendo. E, droga! Esquecera aquelas fotos na câmara escura. Teria de pedir para Katie terminar as revelações, preparar o índice de fotos, cancelar as reservas, pelo menos pela próxima semana, e as remarcar.

Ao se aproximar de New Haven, desejou, como tantas outras vezes no passado, que tivesse um pai, irmãos, primos, tios, membros de uma família para se unir numa crise. Mas não havia ninguém. Sabia ser este o motivo de sua mãe ter feito dela o foco de sua vida. Anna não tinha sequer amigas chegadas, apenas o grupo de mulheres da região com quem jogava buraco nas quintas-feiras à noite. Anne Cooke era uma mulher solitária que sempre alegara não precisar de outras pessoas. Logo no início, explicara para Snow que era independente, auto-suficiente e financeiramente estável, graças a uma herança cuidadosamente administrada que recebera aos vinte e tantos anos.

Uma coisa Snow tinha de admitir, a mãe fora uma mulher emancipada muito antes da maioria de suas contemporâneas. Voltara a usar o nome de solteira depois da morte do marido — daí a diferença de sobrenomes.

— Se você escolher se desfazer do sobrenome do seu pai, pode fazê-lo assim que completar dezoito anos de idade — ela dissera para Snow, quando esta tinha dez anos de idade. — Não me oporei de forma alguma.

Porque achava que isso a conectava de alguma forma nebulosa com o pai que nunca conhecera, Snow preferiu manter o sobrenome Devane. Além do mais, sempre achara que Snow Cooke não soava bem. Já era bem ruim ter sido balizada em homenagem a um fenómeno meteorológico como a neve — as pessoas automaticamente presumiam que o nome Snow havia sido escolhido por pais hippies chapadões. De qualquer forma, Snow Devane estava se tornando um nome respeitado. Trabalhara duro para se estabelecer, não via por que gerar confusão com uma mudança de nome a esta altura do campeonato.

Pensando novamente na mãe, sentiu-se culpada. Não a visitava com regularidade suficiente. Já fazia mais de um mês desde a última vez em que estivera em casa. Quando iria desenvolver alguma tolerância de verdade e parar de reagir de maneira tão negativa à preocupação bem-intencionada da mãe? Tirando a interminável censura, Anne era uma boa pessoa, culta e generosa, com uma paixão pelo cinema. Comprara seu primeiro videocassete no fim dos anos setenta e alugava dois ou três filmes por semana. Era uma das poucas pessoas que realmente sabiam como programar um aparelho de videocassete.

Snow considerava Anne Cooke compreensivelmente vaidosa. Tinha orgulho da própria aparência, e toda quarta de manhã tinha hora marcada com Lilian, a cabeleireira de Stony Point. Em suas visitas anuais a Nova York, quando insistia em ficar num hotel em vez de no apartamento com Snow “Nós duas precisamos de privacidade, querida”, ela reservava pelo menos dois dias, todas as vezes, para comprar roupas na Bergdorf Goodman e na Henri Bendel. Diferentemente da filha que tinha um metro e sessenta e nove de altura, era magra, de olhos castanhos, com cabelos ruivos encaracolados e pele clara e sardenta, Anne tinha um metro e cinqüenta e sete, olhos azuis, cabelos louros curtos e pequenos pés calçando tamanho trinta e cinco. Mãe e filha não tinham nada em comum fisicamente, e Anne sempre garantira a Snow que ela era muito parecida com o pai, que tinha sido um homem muito bonito.

Anne raramente conversava com a filha sobre Aiden Devane. Para falar a verdade, quase nunca sequer o mencionava.

— Foi uma época muito dolorosa e tenho certeza de que você entende que prefiro não falar a respeito.

A única figura paterna na vida de Snow era Rudy Howell, o homem reservado, mas gentil, que morava na casa ao lado desde o ano do oitavo aniversário de Snow. A esposa falecera no ano anterior à sua chegada, e — como ele lhe contara numa das visitas ao jardim dos fundos, naquele primeiro verão — já que nunca haviam sido abençoados com filhos, e, em vez disso, se concentraram apenas um no outro, ele precisava se afastar da vida que tinham juntos em Boston.

— Eram lembranças demais — dissera.

De modo que vendeu a casa e o seu negócio e comprou o chalé e um barco a vela — algo que sempre desejara, ele confessou, certa tarde, como quem reconhece uma falha de caráter —, e embarcou num pequeno roteiro de prazeres diários: velejar em Narragansett Bay, caminhar um quilômetro até a cidade para comprar o jornal e lê-lo durante o café no Stony Point Café. Conversar com Lucy LeGalliene, a alegre e rechonchuda proprietária de meia-idade que tinha orgulho de sua herança acadiana, sabia tudo sobre as idas e vindas dos trezentos e poucos moradores de Stony Point e gostava de uma fofoca quase tanto quanto de cozinhar. Depois da gostosa refeição, caminhava até o mercadinho para comprar mantimentos para o dia, e voltava para casa. Costumava trabalhar no jardim pelo restante da manhã, ou sentava-se à mesa da cozinha para ler um livro que pegara da biblioteca, no inverno. Nas tardes amenas, saía no Bull’s-Eye para dar uma velejada. Mais tarde no dia, preparava uma refeição simples antes de se acomodar para assistir a algumas horas de beisebol ou hóquei na televisão. Duas ou três vezes por mês, tirava a calça caqui, a camiseta esporte e os mocassins que usava diariamente, vestia um terno com gravata e sapatos bem engraxados, e ia jantar com Snow e a mãe. Depois de comer, jogavam xadrez chinês ou dominó ou monopólio. Snow adorava aquelas noites em que Rudy Howell ia visitá-las. Enquanto duravam, parecia que eles eram uma família de verdade.

Rudy recebera permissão para levar Snow para velejar naquele primeiro verão, depois de comprar um colete salva-vidas alaranjado para ela, e depois de ter jurado proteger a criança com a própria vida. Até o dia em que saiu de casa, ela havia passado a maioria de suas tardes de verão na água com Rudy. Eles compartilharam horas de silêncio amigável no barco.

Uma vez por semana, todo verão, por vinte e três anos, Rudy aparecera na porta dos fundos com uma oferenda de flores recém-colhidas de seu jardim. E a cada sábado, durante todo o ano, sua mãe ia até a casa vizinha para dar a Rudy um pouco de um bolo meio seco, ou de biscoitos esfarelados que assaram demais, que ela acabara de preparar. Se Anne tinha algum amigo de verdade — estamos falando de alguém que se importa, de uma maneira reservada e discreta, mas, mesmo assim, que se importa —, este era Rudy Howell. E Snow podia imaginá-lo andando de um lado para o outro nos corredores do hospital, aguardando ansioso a sua chegada. Por algum motivo, a imagem do senhor magro de setenta e um anos de idade andando de um lado para o outro trouxe-lhe lágrimas aos olhos. Realmente não queria que a mãe morresse. Apesar de ter lutado muito pelo direito de viver a própria vida, livre das preocupações sufocadoras da mãe, não suportava a idéia de perder a única pessoa que sempre a amara sem reservas. Resistindo à vontade de pisar fundo no acelerador, ela seguiu o seu caminho, temerosa do que encontraria quando chegasse ao destino.


Capítulo 2

A medida que corria do estacionamento para a entrada do hospital, aquele tremor que ela havia sentido por dentro retornava. Os pulmões estavam tão apertados, que mal conseguiu se fazer entender ao perguntar no balcão de informações como chegava na Unidade de Tratamento Intensivo.

Aquela hora da noite os corredores estavam quase desertos. Achando tudo meio surreal, como num pesadelo, ela correu pelos lustrosos pisos de linóleo, intimidada pelo odor do lugar, pelo vislumbre ocasional, através de portas entreabertas, de figuras pálidas, usando roupas brancas, iluminadas por lâmpadas para leitura acima de suas cabeças, pela cadeira de rodas vazia ao lado do posto de enfermagem, pela visão de um homem sentado com a cabeça nas mãos, numa atitude de profundo desespero, sozinho em uma fileira de cadeiras de plástico alaranjadas.

De um instante para o outro, teve aquela sensação que costumava acompanhar os sonhos com tanta freqüência, de estar simultaneamente observando e participando do enredo que se desenrolava. Não conseguia se centrar. Sua cabeça criava uma realidade alternativa, unia menos alarmante e ameaçadora. Num ato irracional, tentou não respirar muito fundo, pois não suportava a idéia de inalar o ar pestilento do hospital, que cheirava a desinfetante e, lá no fundo, tinha aquele fedor adocicado de decomposição.

Como imaginara, Rudy Howell estava andando de um lado para o outro na sala de espera adjacente à UTI. Aliviada só de vê-lo — por que será que até aquele instante nunca havia percebido que amava aquele querido homem recatado? —, ela o abraçou, e ficou alguns segundos buscando conforto no seu corpo magro e compacto, e no seu constante cheiro de jardim e de mar, um odor de terra fértil e ar salgado comungando sutilmente.

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