A história do Jornalismo como formadora de consciência crítica



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A História do Jornalismo como formadora de consciência crítica

Dirceu Fernandes Lopes - dirceu_f_lopes@bol.com.br

dirceu_f_lopes@yahoo.com

UNISANTOS/USP




Introdução


A história é fundamental para o jornalista entender, explicar o presente e projetar o futuro. Já a História do Jornalismo no Brasil, disciplina que leciono para o primeiro ano de Jornalismo, na Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Santos – UNISANTOS, é indispensável para conscientizar o aluno de sua futura profissão e resgatar nomes como Cipriano Barata, Líbero Badaró e Vladimir Herzog.

Através dessa disciplina, o estudante toma conhecimento de que vários jornalistas morreram em defesa da profissão, desde que a imprensa chegou ao Brasil, em 1808. Com a resistência desses idealistas, o jornalismo chegou ao seu estado atual e, apesar das críticas, tem mais altos do que baixos. Se, por um lado, temos aspectos condenáveis como o caso da Escola Base, por outro, há pontos positivos como a contribuição do jornalismo para a queda do presidente Collor e denúncias contra vários fatos envolvendo corrupção. Sem falar na contribuição para a renúncia do presidente Nixon, nos Estados Unidos, com o caso que ficou conhecido como Watergate.

Para o aluno de Jornalismo, é fundamental conhecer a imprensa em vários momentos históricos do Brasil. No entanto, é mais importante ressaltar personagens e entidades que contribuíram para a ética do Jornalismo. Cipriano Barata, com seus Sentinelas da Liberdade, durante o Império; Associação Brasileira de Imprensa – ABI, criada na Primeira República, defensora ferrenha da liberdade de imprensa; O Cruzeiro e Última Hora, durante o Estado novo; Vladimir Herzog, AI-5 e revista Realidade, nos 21 anos da Revolução de 64. São exemplos indispensáveis para o estudante entender a profissão. Mesmo o jornal Folha da Tarde, que em vários momentos da Revolução de 64 colaborou com a ditadura.

“Que bobos, eles pensam que os jornalistas escrevem com as mãos” (Antonio Maria, que teve as mãos esmagadas pelo poder) e “Morre um liberal, mas não morre a liberdade” (Líbero Badaró, um pouco antes de morrer assassinado em São Paulo). Expressões como essas levam os alunos a entenderem melhor a resistência de jornalistas contra a censura através dos tempos.

Se uma das principais marcas da imprensa brasileira foi a censura, que começou com a Imprensa Régia, em 1808, a resistência também ficou registrada na história desde o Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa. Nessa mesma linha está a imprensa anarquista do princípio do século XX, a resistência contra o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, durante o Estado Novo e, principalmente, a criatividade da grande imprensa, especialmente o jornal O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e revista Veja, durante a Revolução de 64. Paralelamente, o maior destaque nesse momento histórico foi a Imprensa Alternativa iniciada pelo Pasquim em 1969. Uma imprensa de esquerda também conhecida como “nanica”, que resistiu à ditadura com jornais como Opinião, Movimento, Versus, Coojornal e mesmo o Preto no Branco, da Cooperativa dos Jornalistas de Santos.

Censura e resistência


Em cada item do curso de História do Jornalismo no Brasil, que vai da Imprensa na Colônia à Imprensa na Nova República, paralelamente ao momento histórico, o destaque fica para a censura e a resistência, marcas inconfundíveis da imprensa brasileira. Sempre procurando conscientizar o aluno da importância da história para o futuro jornalista e, principalmente, a história da profissão que escolheu, um retrato da própria história da sociedade brasileira.

Domínio pela ignorância


Tudo começa com as três tentativas de implantar a imprensa no Brasil: 1706, em Pernambuco; 1747, no Rio de Janeiro, e 1807, em Vila Rica, Minas Gerais. Todas suprimidas pelo governo português que tinha como objetivo manter a Colônia atada a seu domínio, nas trevas e na ignorância.

Contudo, com a fuga da família real de Portugal, para escapar do exército de Napoleão Bonaparte, o navio Medusa trouxe material tipográfico que acabou sendo utilizado na implantação da imprensa no Brasil. 308 anos depois da descoberta. Em 31 de maio de 1808, D. João VI oficializa a imprensa com a criação da Imprensa Régia. E, com ela, surge o primeiro jornal, bem nos moldes dos atuais diários oficiais, A Gazeta do Rio de Janeiro, em 10 de setembro de 1808. Esse periódico, que no início saía duas vezes por semana, passando depois a três edições semanais, só publicava atos oficiais, notícias sobre o estado de saúde dos príncipes europeus e informações sobre a família real. Não falava em democracia, nem fazia críticas ao governo português. Seu texto era extraído da Gazeta de Lisboa e de jornais ingleses. Nada podia ser impresso contra a religião, governo ou bons costumes.

Apesar de ser um veículo que, hoje, seria considerado chapa branca, a Gazeta do Rio de Janeiro só era publicada depois que os textos eram lidos pelos condes Linhares e Galveias, que pertenciam à Junta Censória da Coroa. Dessa forma, as notícias sempre deixavam claro que, no Brasil, se vivia um verdadeiro paraíso onde ninguém expressava queixas. Uma marca clara da censura, que terminou em 1821, mas o governo continuou caracterizando os chamados crimes de imprensa com punições. A Gazeta do Rio de Janeiro terminou em 1822, com a Proclamação da Independência.
Início da resistência

Três meses antes do surgimento da Gazeta do Rio de Janeiro, em 1o de junho de 1808, nascia em Londres o Correio Braziliense ou Armazém Literário, de Hipólito José da Costa, maçon e liberal, exilado naquela cidade. O Correio Braziliense era um jornal mensal com 72 a 140 páginas, doutrinário, não do tipo noticioso como a Gazeta do Rio de Janeiro. Tinha como principal objetivo discutir as questões que afetavam o Brasil e a Inglaterra, além de preparar instituições liberais e melhores condições políticas para nosso país.

O Correio Braziliense defendia o livre comércio com as nações, atacava a corrupção e a imoralidade e criticava os monopólios portugueses e ingleses, que mandavam mercadorias ao Brasil enquanto produtos de outros países eram proibidos. E o fundamental: defendia o abolicionismo, desagradando os escravagistas portugueses.

A resistência de Hipólito José da Costa logo foi combatida pela Junta Censória da Coroa, que, em 1809, proibiu o jornal de circular no Brasil. A importância do jornal, que publicou 175 números de junho de 1808 a dezembro de 1822, quando fechou, fica clara com a transformação do 1o de junho no Dia da Imprensa no Brasil. Anteriormente, a data era comemorada em 10 de setembro, dia da criação da Gazeta do Rio de Janeiro.

Um pioneiro da liberdade de imprensa



Se a resistência começou com Hipólito José da Costa, seu ponto alto surgiu durante a Independência com o jornal Sentinela da Liberdade, de Cipriano Barata, um jornalista punido várias vezes com prisão por irreverência ou injúria ao governo colonial. Mas, principalmente, porque defendia a Independência com mudanças radicais e era contra a escravatura. O jornal saía às quartas-feiras, com linguagem vigorosa e crítica, mostrando as podridões do poder.

Barata iniciou o contato com a imprensa com a distribuição de panfletos durante a Revolução Francesa, agitando a burguesia contra a monarquia. Participou de várias revoltas no Brasil e, em 9 de abril de 1823, estreava com o Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco. Cada vez que era preso, Barata publicava um Sentinela da Liberdade anexando o local da prisão no logotipo do jornal. Criava, assim, o que se chamava, na época, de jornalismo do cárcere.

Considerado um dos pioneiros da liberdade de imprensa, Cipriano Barata escreveu em um dos Sentinelas, em 1823: “Toda e qualquer sociedade onde houver imprensa livre, está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alegria, segurança e fortuna; se, pelo fato contrário, aquela sociedade ou povo que tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for, é povo escravo que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro.” Em 1835, aos 75 anos, Barata escrevia seu último Sentinela da Liberdade. Um exemplo puro de resistência.
Jornais ou panfletos?

Se de um lado, a imprensa de Hipólito e Barata resistia à censura, com verdadeiros exemplos de democracia, por outro a volta do cerceamento à liberdade de imprensa, em 1822, provoca o aparecimento dos pasquins que, numa visão mais atual, seriam mais panfletos do que jornais. A causa do aparecimento dos pasquins foi o clima agitado da época com a volta de D. Pedro I a Portugal e a implantação das regências enquanto D. Pedro II não completava a maioridade.

O pasquim tinha como característica a linguagem panfletária, violenta, que chegava à calúnia e ao insulto pessoal. Seu conteúdo refletia o ardor das facções em divergência: direita conservadora, direita liberal e esquerda liberal (os exaltados) que publicava os pasquins. Liberais e conservadores travavam verdadeira guerra de palavras utilizando os pasquins que, nos próprios títulos, demonstram o que eram: O Palhaço da Oposição, O Crioulinho, O Burro Magro, o Caolho, entre outros. Pelos títulos dá para sentir que os pasquins recorriam, com freqüência, ao preconceito de cor e aos apelidos das pessoas que eram alvo desses panfletos.

O próprio imperador, D. Pedro I, que antes de voltar a Portugal era criticado constantemente pelos pasquins, respondia com artigos inflamados contra seus adversários. Para isso, utilizava pseudônimos, que refletiam o conteúdo dos artigos, como: O Inimigo dos Marotos, o Anglo-Maníaco, O Derrete Chumbo a Cacete, Piolho Viajante, entre outros.

A partir da metade do século XIX, o Império se consolida e a imprensa política, representada principalmente pelos pasquins, esmorece. É a época da conciliação, com o arrefecimento ou fim das lutas partidárias.


Uma Entidade em Defesa dos Jornalistas

E chega a República com o apoio de jovens de famílias mais abastadas, que iam estudar na Europa e voltavam ao Brasil com idéias novas e liberais: idéias republicanas. Com a República, a imprensa artesanal começa a ser substituída pela industrial, transformando o jornalismo em empresa. Se a Imprensa se moderniza com o progresso das técnicas, acaba ficando sob o domínio do Estado e do capital.

Com essa transformação, a imprensa sente necessidade de ter um órgão que defenda a liberdade de expressão e os interesses da categoria dos jornalistas. Surge em 7 de abril de 1908, com o jornalista, anarquista, Gustavo de Lacerda, a Associação Brasileira de Imprensa – ABI –, um marco na defesa da liberdade de imprensa.

Em seu ideal, Gustavo de Lacerda não concebia o jornal como empresa industrial ou mercantil, ou mesmo sociedade anônima dando lucro aos seus acionistas. O jornal, devido a sua alta e sagrada missão social, deveria ser uma cooperativa, de cujos interesses participassem seus membros, desde os diretores até os mais modestos colaboradores. Os donos de jornais, contrários à nova entidade, diziam que reunia um grupo de malandros chefiados por um anarquista perigoso. Foi a ABI que criou a carteira de jornalista, documento de habilitação profissional substituído mais tarde pelo diploma de jornalista.

A história da entidade é marcada por arbitrariedades policiais, atentados à liberdade de imprensa e violência contra jornalistas, principalmente durante a vigência do Ato Institucional no 5, o AI-5, no golpe de 1964. Durante esse período, além das perseguições, torturas e assassinatos, uma bomba foi jogada na sede da ABI.


Jornais anarquistas conscientizam operários
No começo do século XX, chegavam ao Brasil imigrantes deportados de seus países por razões políticas ou que vinham tentar uma vida melhor aqui. O Brasil incentivava essas imigrações, porque precisava de mão-de-obra para substituir os trabalhadores escravos. Entre esses imigrantes vieram anarquistas e simpatizantes do Anarquismo, que, aqui, procuraram adaptar suas doutrinas com as necessidades do novo modelo de relação de trabalho – o assalariado.

Os anarquistas tomam para si o trabalho de organização dos trabalhadores e começam a fundar os sindicatos e, na estrutura dos sindicatos, é incluído o setor de imprensa, que foi considerada uma grande arma para os anarco-sindicalistas, a corrente que surgiu na Europa, mas que teve desenvolvimento maior na América Latina e, especialmente, no Brasil.

Era através dos jornais que os anarco-sindicalistas tentavam conscientizar não só os trabalhadores, mas também suas famílias, sobre a doutrina anarquista, incitando-os à liberdade. No anarquismo, os jornais eram fatores fundamentais de mobilização operária. Uma forma de resistência contra a exploração dos trabalhadores.

A missão do jornalismo não se limitava a difundir idéias, a educar politicamente, a atrair aliados políticos. Para os anarquistas, jornal não era somente um agente coletivo de propaganda, mas também um organizador social. De 1890 a 1920, surgiram 343 jornais no Brasil. Desses, 149 eram de São Paulo e 35% destes em idioma estrangeiro, principalmente italiano. Geralmente em formato tablóide, com quatro páginas, esses veículos tinham uma característica importante: a não existência de repórteres. As salas de redação recebiam farto material sobre o movimento operário, relatórios de sindicatos, denúncias contra maus patrões etc. Nos momentos de crise, ou nos períodos anteriores às greves, os jornais transmitiam a palavra de ordem aos trabalhadores e a orientação a ser seguida pelas bases operárias.

A censura no Estado Novo

Em 1935, com a Intentona Comunista, eram decretados o estado de sítio e a censura à imprensa. Dois anos depois, em 1937, surge o Estado Novo implantado por Getúlio Vargas. Com a ditadura, a Constituição de 37 regulamenta a censura à imprensa, que seria exercida pelo Estado por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP –, estruturado em moldes nazistas. Através de suas sucursais, os Departamentos Estaduais de Imprensa e Propaganda – DEIPS –, o DIP controlava a imprensa, as rádios e emitia lista de assuntos proibidos. A censura era total. Normalmente havia um censor em cada jornal. Nas rádios, eram construídas salas para o censor, que ouvia a programação diária e relatava qualquer irregularidade. As rádios eram utilizadas com freqüência para difundir notas oficiais. Assim, foi criada oficialmente a Hora do Brasil.

Além de subornar jornalistas e os próprios donos de jornais, o DIP e os DEIPS determinavam a comemoração do aniversário de Getúlio Vargas, principalmente nas escolas e os cinemas eram obrigados a exibir documentários do governo exaltando as qualidades do ditador. Um dos setores mais atingidos pela censura foi o das caricaturas políticas, que permaneceu praticamente estagnado nos anos do autoritarismo. Destacou-se apenas o paulista Belmonte, com seu personagem Juca Pato, a própria imagem sofrida do cidadão classe média de São Paulo. Proibido de abordar problemas internos, Belmonte voltou-se à política internacional e notabilizou-se por seus ferrenhos ataques ao nazismo e fascismo, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial. Chegou até a irritar Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler.

Apesar da forte censura, a resistência entrava em ação. Em dezembro de 1937, foi editado o jornal Brasil, redigido por Júlio de Mesquita, Júlio de Mesquita Filho e Paulo Duarte, e impresso na gráfica do jornal O Estado de S. Paulo, atacando Getúlio. Depois de 21 números, a polícia conseguiu confiscá-lo e exilou seus redatores.

Em 23 de março de 1940, o jornal O Estado de S. Paulo foi tomado pela Polícia Militar, acusado de esconder armas, e entregue ao DIP. Depois de ter sido ocupado pela polícia, o Estadão só voltou a seus donos em dezembro de 1945, quando Mesquita Filho e Paulo Duarte retornaram do exílio. Nesse momento, aconteceu um ato de resistência que ficou gravado na história do Jornalismo: foram ignorados todos os números publicados durante o período que vai de 7 de abril de 1940 (quando o jornal foi ocupado) a 6 de dezembro de 1945, quando voltou às mãos de seus donos. Voltou a circular com o número 21.650, última edição antes de ser ocupado pela polícia.

O Estadão resistia: não publicava material enviado pelo DIP, não publicava fotos de Getúlio Vargas, nem de seus auxiliares e nem citava os nomes de pessoas ligadas a cargos de liderança no regime.

A cultura também vivia sufocada pela repressão. O escritor Graciliano Ramos foi preso sem julgamento e sem processo. Fogueiras de livros enchiam as praças e as bibliotecas eram vasculhadas em busca de material considerado subversivo. Em 1938, saía o semanário Diretrizes, dirigido por Samuel Wainer que, com malícia e ousadia, conseguia passar assuntos proibidos pela censura.

No entanto, foi o mesmo Samuel Wainer que, em 12 de junho de 1951, lança o jornal Última Hora, no Rio de Janeiro, com patrocínio de Getúlio Vargas. O jornal revolucionou profundamente a imprensa brasileira, com tiragem de várias edições no mesmo dia, uma grande foto na primeira página, uma das marcas registradas do periódico, além de ter sido um dos pioneiros da diagramação no Brasil. Valorizou a caricatura e a charge, que, na época, andavam meio esquecidas na imprensa e publicou as primeiras histórias em quadrinhos escritas por autores nacionais.

Dez anos depois de fundada, a Última Hora, que chegou a tirar 150 mil exemplares diários, se transformou numa cadeia nacional com 11 edições diárias em sete estados e uma tiragem total de 500 mil exemplares.

Outra marca importante do início do século foi a revista O Cruzeiro, que nasceu em novembro de 1928, com um jornalismo ágil, investigativo, polêmico e uma tiragem inicial de 35 mil exemplares. Um detalhe importante: seu aprimorado refinamento editorial, inédito para o leitor brasileiro.

Pertencente aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, O Cruzeiro chegou a uma tiragem de 720 mil exemplares, em outubro de 1954, numa época em que o Brasil tinha pouco mais de 50 milhões de habitantes. Na década de 50, O Cruzeiro ganhou o 1o Prêmio Esso de Reportagem, com uma matéria sobre uma viagem num caminhão pau-de-arara, na Rio-Bahia. A revista durou até 1975.


Um golpe com muita censura e resistência

Embora a censura começasse em 1964, com o golpe dado pelos militares, ficou mais violenta em dezembro de 1968, a partir do AI-5. Começou com toda força através de bilhetinhos e telefonemas para as redações de jornais, rádios e televisões, alertando sobre assuntos que não podiam ser abordados. Era início da censura prévia com censores nas redações. No começo, a censura visava mais à divulgação de atos terroristas, divisão nas Forças Armadas e no Governo. Depois passou a esconder corrupção, torturas, violências policiais e até epidemias.

Mas os jornais resistiam às pressões, principalmente alguns da considerada grande imprensa, como O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e revista Veja. No entanto, o ponto alto de resistência foi a Imprensa Alternativa, com jornais como Opinião, Movimento, Pasquim, entre muitos outros.

De fins de 1969 a 1976, Estadão, Veja e Jornal da Tarde procuravam mostrar sempre aos leitores que estavam sob censura prévia. O Estadão ensinava a cultivar rosas na primeira página; publicava trechos de Cícero, em Latim, e de Os Lusíadas, de Camões, no espaço das matérias que haviam sido censuradas. O Jornal da Tarde colocava receitas de doces e salgados, que nunca davam certo, para alertar o leitor de que alguma coisa estava errada. A revista Veja publicava paisagens suíças e seu editor, Mino Carta, falava semanalmente dos demônios que barbarizavam um estranho país. Esses três órgãos se recusavam a acatar as ordens telefônicas proibindo a publicação de assuntos que atingiam a ditadura e tiveram a censura prévia implantada nas redações.

Entre 1972 e 1975, a censura federal enviou mais de 300 comunicados aos grandes jornais do país, proibindo notícias e comentários principalmente sobre sucessão de presidentes, manifestações estudantis, abertura política, choques entre policiais e subversivos, denúncias da Igreja contra atentados aos direitos humanos, críticas à política econômico-financeira do governo e entrevistas de ex-ministros.

Mas, se esses dois jornais e Veja resistiam, a Folha da Tarde, pertencente à empresa Folha da Manhã, se destacava, no período de 1969 a 1974, pela sintonia com a ideologia militar. As matérias eram anguladas de forma a defender o governo e tornar legítima a repressão aos opositores do regime. O jornal legitimava a ditadura militar, principalmente o que tinha de pior: a repressão. Quando os órgãos de segurança queriam passar uma informação tanto para a sociedade em geral, quanto para os descontentes com o regime, usavam a Folha da Tarde. Em várias oportunidades, o jornal publicou matérias negando a existência de tortura. Procurava legalizar a tortura e outros atos praticados pela ditadura militar, em nome da defesa da segurança nacional.

Censura legalizada



O AI-5 de 1968 legalizou a censura. Todas as formas de expressar idéias e manifestações eram vetadas atingindo, principalmente, músicas, cinema, teatro e a imprensa. Foram dez anos, até 1978, marcados por muita censura, tortura, repressão e mortes.

Após a implantação do AI-5 foi iniciada uma série de prisões e cassações políticas. Tudo começou com uma sessão no Congresso Nacional, e um discurso do deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, que conclamou, em protesto contra a violência, o boicote aos festejos de 7 de setembro. O pronunciamento foi entendido como uma ofensa aos militares, que queriam processar o deputado, mas como o Congresso resolveu proteger a imunidade de Márcio, o governo do então presidente Artur da Costa e Silva promulgou o AI-5.

Se o discurso de Márcio Moreira Alves mexeu com o governo, o pronunciamento do deputado Mário Covas não ficou atrás. Um pronunciamento fundamental para a conscientização de alunos de História do Jornalismo, que abordava a força do Congresso Nacional, como uma legítima instituição democrática. Era a resistência com força máxima.
O jornalista “suicidado”

Foi em outubro de 1975, ainda na vigência do Golpe de 64, que o jornalista Vladimir Herzog, da TV Cultura, foi “suicidado”, nos porões do DOI-CODI, depois de ser acusado de comunista. Seu corpo foi apresentado à imprensa pendurado em uma grade com um cinto no pescoço. Só que a grade era mais baixa que o jornalista e o macacão que usava não tinha cinto.

Herzog virou um símbolo de luta pela liberdade e defesa dos direitos humanos, em especial para outros jornalistas. Um exemplo para os estudantes de Jornalismo. E, na análise do rabino Henry Sobel, “um catalisador da abertura política e da restauração da democracia”. O único jornal a publicar a morte de Herzog foi O Globo, do Rio de Janeiro. Dia 25 de outubro, quando Herzog foi “suicidado”, foi proclamado Dia da Defesa dos Direitos Humanos dos Trabalhadores.


A resistência alternativa

Foi em 1969, com a criação do jornal O Pasquim, no Rio de Janeiro, que surge a Imprensa Alternativa, também conhecida como nanica ou pequena imprensa. Era uma opção à grande imprensa. Uma imprensa de protesto, de resistência à ditadura implantada pelo golpe de 64 que teve a censura ampliada com o AI-5.

Eram jornais de jornalistas, geralmente em sistema de cooperativas. Entre suas principais marcas estão o compromisso com o leitor, ausência de publicidade, na maioria dos casos, dependendo apenas de venda avulsa e assinaturas. Opinativa, formato tablóide, com peridiocidade de semanal a mensal. Contestava o discurso da imprensa empresarial e do governo. Valorizava recursos visuais como fotos e charges e era efêmera porque, geralmente, saíam poucos números por falta de dinheiro.

Além do Pasquim, considerado o pai da Imprensa Alternativa, houve outros jornais que, também, ficaram conhecidos como Opinião, Movimento, Versus, Em Tempo, Coojornal e até Microjornal, onde tudo era micro, incluindo o editorial e o expediente. Seu formato era de 22 cm de altura por 15 cm de largura.

Mas, se a Imprensa Alternativa era constituída por jornais de esquerda, também havia os de direita, como a Carta, que tinha muita publicidade, principalmente de empresas estatais. Foi um jornal criado para combater a resistência dos veículos alternativos de esquerda.

Em Santos, em 1979 nascia o jornal Preto no Branco, de uma cooperativa formada por jornalistas.
A Realidade sob o signo da ditadura

Ao lado da censura, tortura, mortes e resistência no período do Golpe de 64, nasce em 1966, Realidade, uma das principais revistas de reportagem que o Brasil já teve, com uma tiragem mensal em torno de 500 mil exemplares, até que o AI-5 começou a mudar tudo, implantando a censura.

Nos primeiros anos de existência, a revista reuniu o que melhor se produziu como texto jornalístico. Uma das marcas de Realidade era deixar o repórter durante um mês fazendo uma reportagem. O repórter vivia o problema como um personagem. Por exemplo: para retratar a vida de um bancário, ficava um tempo trabalhando em um banco.

Essas abordagens, além de marcar cada vez mais o jornalismo de texto, transformaram a revista num documento para a história do Brasil, uma verdadeira fonte para historiadores críticos, capazes de observar nas entrelinhas, em função da censura, e espreitar as raízes cotidianas da verdadeira história. Realidade foi um marco na história do jornalismo brasileiro. Foram 10 anos consecutivos de 1966 a 1975, estabelecendo um profundo vínculo com o social. Rejeitou a idéia de um suposto jornalismo objetivo, produzindo textos de profundo envolvimento do repórter.

Uma jogada de marketing



Com o fim do golpe de 64, surge a Nova República com três marcas fundamentais para a imprensa: Diretas-Já, morte do presidente Tancredo Neves e Plano Cruzado. O destaque fica para o jornal Folha de S. Paulo, que percebeu o envolvimento dos brasileiros nos comícios em defesa das eleições diretas, com milhares de pessoas em São Paulo, Rio de Jneiro e Bahia.

Desde o início, muito antes do resto da imprensa perceber a importância desse filão e mesmo com o constante boicote da Rede Globo à campanha das diretas, a Folha assumiu uma posição clara destacando os comícios que bradavam pelas eleições, depois de um período de ditadura de 21 anos. Assim, a Folha assumiu a liderança no jornalismo impresso.


Considerações Finais

Barata, Herzog, receitas no lugar de notícias censuradas, ABI, imprensa anarquista, resistência heróica da Imprensa Alternativa. Censura, torturas, mortes. São momentos que marcam a história da imprensa no Brasil. Momentos fundamentais para os futuros jornalistas se conscientizarem de que o jornalismo, se não muda o mundo, certamente pode ajudar a melhorá-lo. O resgate desses nomes e instituições é fundamental para se entender o jornalismo atual e projetar o jornalismo do futuro. É indispensável para o aluno de Jornalismo assumir compromissos com o social, com a ética, com seu tempo e a sua gente.

Mesclado com textos de Bertold Brecht, Frei Beto, Charles Chaplin, Che Guevara e outros revolucionários dos tempos modernos, o curso de História do Jornalismo no Brasil tem como objetivo aquilo que Fernando Pessoa externava com muita clareza: ser um indisciplinador de almas.

Quando o jornalista Antonio Maria que teve as mãos esmagadas pelo poder, lembrando que os jornalistas não escrevem com as mãos, numa frase que fica marcada em alunos da disciplina, alerta que essa profissão está ancorada na consciência crítica dos jornalistas compromissados com o leitor e a verdade. Ou até como ressalta Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo: o jornalista é a testemunha ocular da história de seu tempo.

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