A história do mal humor



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Encontro29.07.2016
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A história do mal humor...


“Depois da festa beneficente, em que servíamos juntos, Belarmino Bicas, prezado companheiro a que nos afeiçoamos, no plano espiritual, chamou-me à parte e falou, decidido”:

- Bem, já que estivemos hoje em tarefa de solidariedade, estimaria solicitar um favor...

- Ante a surpresa que nos assaltou, Belarmino prosseguiu:

- Soube que você ainda dispõe de alguma facilidade para escrever aos companheiros escarnados na Terra e gostaria de confiar-lhe um assunto....

- Que assunto?

- Acontece que desencarnei com cinqüenta e oito anos de idade, após vinte anos de convívio espírita. Abracei os princípios codificados por Allan Kardec, e aos trinta e oito e, como sempre fora irascível por temperamento, organizei desde os meus primeiros contatos com a doutrina consoladora, uma relação diária de todas as minhas exasperações, apontando-lhes as causas para estudos posteriores.... Os meus desconchavos, assimilados, suprimiram, inconscientemente, vinte e dois anos da quota de oitenta, que me cabia desfrutar no corpo físico, regressando á Pátria Espiritual na condição de suicida indireto..... Somente, aqui, pude examinar os meus problemas e acomodar-me ás desilusões... Quantos tesouros perdidos por bagatelas! Quanta asneira em nome do sentimento!

- E exibindo curioso papel, Belarmino acrescenta:

- Conte o meu caso para quem esteja ainda carregando a bobagem do azedume! Fale do perigo das zangas sistemáticas, insista na necessidade da tolerância, da paciência, da serenidade, do perdão! Rogue aos nossos companheiros, para que não percam a riqueza das horas com suscetibilidade e amuos, explique ao pessoal na Terra que mau humor também mata!...

Foi, então, que passei á leitura da interessante estatística de irritações, que não me furto á satisfação de transcrever: Belarmino Bicas – Números de cóleras e mágoas desnecessárias com a especificação das causas respectivas, de 1936 á 1956:

- 1.811 - em razão de contrariedades em família;

- 906 - por interpor-se, dentro de casa, em questões de alimentação e higiene;

- 1.614 - por alterações com a esposa, em divergências na conduta doméstica e social;

- 1.801 – por motivo de desgosto com filhos, genros e noras;

- 11 – por descontentamentos com os netos;

- 1.015 – por entrar em choque com chefes de serviço;

- 1.333 – por incompatibilidade no trato com os colegas;

- 1.012 – em virtude de reclamações a fornecedores e lojistas em casos de pouca monta;

- 614 - por mal entendidos com vizinhos;

- 315 – por ressentimento com amigos íntimos;

- 1.089 – por melindres ante o descaso de funcionários e empregados de instituições diversas;

- 615 – por aborrecimentos com barbeiros e alfaiates;

- 777 – por desacordos com motoristas e passageiros desconhecidos, em viagem de ônibus , automóveis particulares, bondes e lotações;

- 419 – por desavenças com leiteiros e padeiros;

- 820 – por malquistar-se com garçons em restaurantes e cafés;

- 211 – por ofender-se com dificuldades em serviços de telefones;

- 90 – por motivo de controvérsias em casas de diversões;

- 815 – por abespinhar-se com opiniões alheias em matéria religiosa;

- 217 – por incompreensões com irmãos de fé, no templo espírita;

- 901 - por engano ou inquietação, diante de pesares imaginários ou da perspectiva de acontecimentos desagradáveis que nunca sucederam.

Total: 16.386 exasperações inúteis.

Esse o apanhado das irritações do prestimoso amigo Bicas: 16.386 dissabores dispensáveis em 7.300 dias de existência, e isso nos quatros lustros mais belos de sua passagem no mundo, porque iluminados pelos clarões do Evangelho Redivivo. Cumpro-lhe o desejo de tornar conhecida a sua experiência que, ao nosso ver, é tão importante quanto às observações que previnem desequilíbrios e enfermidades, embora estejamos certos de muita gente julgará o balanço de Belarmino positivo.



(Extraído do Cap. 16 de Cartas e Crônicas, pelo Espírito Humberto de Campos [Irmão X])


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