A história do senhor sigma umberto Eco (1977)



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A HISTÓRIA DO SENHOR SIGMA

Umberto Eco (1977)1

Adaptação José Luís Félix (2005)
Imaginemos que um certo italiano chamado Sr. Sigma, durante uma estadia em Paris, tenha, de repente incômodos na “barriga”. Empreguei uma expressão inexata porque isto que o Sr. Sigma está sentindo ainda é desconhecido. O Sr. Sigma se examina melhor e tenta precisar estes incômodos: será que ele tem gases ou cólicas ou dores na barriga? Ele tenta encontrar um nome para estes estímulos imprecisos: dando-lhes um nome, culturaliza-os, isto é, resume aquilo que era um fenômeno natural em precisas rubricas “codificadas”, tenta assim qualificar uma experiência pessoal, tornando-a semelhante a outras experiências já descritas nos livros de medicina.

Agora o Sr. Sigma encontrou a palavra que lhe parece adequada: esta palavra corresponde aos incômodos que ele está sentindo. Visto que ele gostaria de falar com um médico sobre seus incômodos, ele sabe que poderá usar a palavra escolhida (que o médico está à altura de compreender) ao invés do incômodo (que o médico não sente e talvez jamais tenha sentido). […]

O senhor Sigma decide marcar uma consulta com um médico. Procura na lista telefônica de Paris: signos gráficos precisos dizem-lhe quem é médico e como encontrá-lo. Ele sai de casa e procura com os olhos algo que lhe seja conhecido: ele entra num bar. Se fosse um bar italiano ele procuraria um canto perto do caixa no qual teria que ter um telefone de cor metálica. Visto que ele sabe que se trata de um bar francês então ele dispõe de outras regras para interpretar este ambiente: ele procura uma escada que leva ao porão. Lá tem – isto ele sabe – banheiro e telefone, como em todo bar parisiense. O cenário representa-lhe um sistema de signos de orientação que lhe dão indicação de onde ele pode telefonar.

O Sr. Sigma desce ao porão e topa com três cabines bastante estreitas. Um outro sistema de regras lhe mostra como ele deve inserir o cartão telefônico (são muitas maneiras e nem todas adequadas a este tipo de telefone; ele precisa, portanto, escolher o telefone compatível com o cartão disponível e, finalmente, um sinal acústico vai lhe dizer se a linha está livre ou não: este sinal é diferente daquele que se emprega na Itália, motivo pelo qual ele precisa conhecer outra regra que lhe permite decodificar isto: até mesmo este barulho corresponde ao equivalente verbal “linha livre”. Agora ele está diante do teclado com letras e números: ele sabe que o médico procurado tem o número DAN 0019; esta seqüência de letras e números corresponde ao nome do médico...

Este número, por sua vez, é definido por um código bastante sutil: as letras, por exemplo, correspondem a um determinado bairro e cada letra significa de novo um número, e se eu fosse telefonar de Milão então eu teria que substituir DAN por números correspondentes, pois o meu telefone italiano emprega um outro código.

O Sr. Sigma digita o número: um novo tom lhe diz que o número está livre. Finalmente ouve uma voz: esta voz fala em francês, que não é a língua materna do Sr. Sigma. O Sr. Sigma, para marcar a consulta (e também depois quando explicar ao médico o que sente), tem que passar de um código para outro e isto que ele pensou em italiano precisa traduzir para o francês. Agora o médico marcou uma consulta e passou o endereço. O endereço é um signo que remete a um lugar bem definido na cidade, a um determinado andar em um edifício, a uma determinada porta deste andar. A consulta se baseia na possibilidade de ambos estarem usando o mesmo sistema de signos para coincidir o horário da consulta.

Assim então o Sr. Sigma precisa realizar diferentes operações para reconhecer um carro como táxi e tem que comunicar ao taxista determinados signos; o taxista interpreta as placas de trânsito e faróis e tem que comparar o endereço recebido verbalmente com o endereço das placas das ruas...; então seguem inúmeras operações que o Sr. Sigma precisa realizar para reconhecer no edifício encontrado o elevador, para encontrar o botão correspondente ao andar desejado, apertá-lo para que o elevador comece a se movimentar na posição vertical e, finalmente, reconhecer por meio das placas das portas, a porta que leva ao consultório do médico.

Finalmente o Sr. Sigma está sentado diante do médico, e tenta explicar o que lhe aconteceu naquela manhã: “J’ai mal au ventre”.

O médico compreende as palavras, mas não entende; isto é, não está seguro de que o Sr. Sigma tenha empregado as palavras corretas para descrever seus sintomas. Faz perguntas, começa um diálogo, o Sr. Sigma é levado a esclarecer melhor seus incômodos. Daí o médico apalpa o estômago e o fígado do Sr. Sigma. – Determinadas apalpadelas têm para o médico um significado que para leigos não têm, pois ele estudou livros de medicina nos quais é explicado que determinadas apalpadelas provocam determinadas reações. O médico interpreta os sintomas que o Sr. Sigma tem (e os que ele não tem), e compara com as reações percebidas durante o exame. Se os códigos de uma semiótica medicinal estão corretos então os sintomas e as reações precisam coincidir. Claro, os sintomas do Sr. Sigma são transmitidos ao médico através dos sons da língua francesa. O médico, por sua vez, precisa constatar se as palavras que se manifestam acusticamente através de um uso lingüístico corrente confirmam os sintomas do Sr. Sigma; o médico desconfia que o Sr. Sigma se expressou de forma imprecisa e isto não porque os seus sintomas seriam imprecisos mas sim porque ele traduziu mal do italiano para o francês. O Sr. Sigma disse “ventre” mas pensou estar dizendo “foie” (e pode ser também que o Sr. Sigma seja uma pessoa sem formação e que para ele, em sua língua materna, fígado e barriga sejam uma determinada unidade indistingüível).

Agora o médico examina a palma das mãos do Sr. Sigma e ve que elas estão cobertas de manchas vermelhas irregulares: “Mau sinal”, murmura – “O senhor não está bebendo um pouco de mais?” O Sr. Sigma não consegue esconder: “Como é que o senhor percebeu?” – A pergunta é ingênua, pois o médico aponta os sintomas como se fossem signos muito convincentes: ele sabe a que corresponde uma certa mancha, um certo inchaço. Mas ele não sabe com total segurança. Ele descobriu os sintomas nas palavras do Sr. Sigma, nas suas percepções e nas apalpadelas e os associou à experiência obtida na Universidade. Mas ele também sabe que os mesmos sintomas podem corresponder a doenças diferentes e vice-versa. Agora ele precisa encontrar uma relação entre o sintoma e a doença e isso depende totalmente de sua capacidade. Esperamos que ele não precise fazer ainda um raio X, pois neste caso ele teria que correlacionar os sintomas representados através de sinais fotográficos e os sintomas resultantes da reação orgânica. Portanto ele teria que se valer não só de um sistema convencional de signos mas também de outros sistemas. Isto tudo seria tão complicado que poderia levar facilmente a um erro de diagnóstico.



Mas nós não precisamos nos preocupar com isto agora. Podemos deixar que o destino se encarregue do Sr. Sigma (e desejar tudo de bom para ele): se ele vai conseguir ler a receita que o médico deu para ele (tarefa nada fácil porque letra de médico implica em dificuldade de leitura); talvez o Sr. Sigma se recupere e possa curtir suas férias em Paris.

1 Apud SPILLMANN, Hans Otto. Einführung in die Germanistiche Linguistik. Kassel: Langenscheidt, 2000.


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