A história do uso político do esporte introdução



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Disciplina: Dimensões Históricas da Educação Física.

Prof°. Luiz Ernani Santos Braga


A HISTÓRIA DO USO POLÍTICO DO ESPORTE
Introdução

O Esporte e Educação Física tiveram em diversos momentos da história uma função ligada aos interesses políticos e estratégicos das instituições sociais e dos Estados.

Na antiguidade o Esporte de forma geral, não tinha uma finalidade em si mesmo, era sempre um elemento interno de instituições militares, educacionais ou ainda religiosas. As atividades atléticas tiveram seu desenvolvimento a partir de atividades utilitárias que visavam simular situações de combate, caça e rituais religiosos (RAMOS, 1982).

Na Grécia Antiga as atividades atléticas e ginásticas faziam parte do ideal grego de formação integral do homem. Além de possuir valores morais e pedagógicos, o Esporte era utilizado na época escolar como preparação militar para os jovens. Os jogos gregos tinham caráter predominantemente religioso, neles eram homenageados os Deuses do Olimpo. Os Jogos Olímpicos significaram o intercâmbio cultural entre as cidades-estado gregas, eram realizados para celebrar a paz entre os povos gregos (GODOY, 1996).

Na História de Roma surgiram os Jogos Públicos, configurados em grandes espetáculos realizados nos circos e anfiteatros, onde ocorriam corridas de bigas, lutas entre gladiadores, combates com feras e execuções. Na época do Império Romano os Jogos foram utilizados na “Política do Pão e Circo” para alienar a população diante das ações antipopulares do Imperador (GRIFI, 1989).

No século XIX uma série de eventos reafirmou a instrumentalização política do Esporte e das atividades Ginásticas. Inspirados pelas idéias iluministas vários filósofos e pedagogos desenvolveram métodos de treinamento físico, que culminaram com o surgimento das Escolas Ginásticas Européias. As principais vertentes do movimento Ginástico foram a Escola Dinamarquesa de Nachtegall, a Escola Sueca de Píer Henrik Ling, a Ginástica francesa idealizada por Amoros e Clias e a Escola Alemã influenciada pelas idéias de Guths Muths, Badow e Friedrich Jahn. Estas escolas visavam o desenvolvimento pedagógico, higiênico e social do homem. As escolas ginásticas foram amplamente utilizadas na preparação militar, incitavam o nacionalismo e foram instrumentos militares nas guerras napoleônicos e nas guerras de unificação da Alemanha (MARINHO, 1980).

Na Inglaterra, o movimento de regulamentação dos jogos populares, ocorrido nas escolas aristocráticas (Public Schools), culminou no surgimento do Esporte Moderno, que foi institucionalizado pelo associacionismo (clubes e federações) no final do século XIX. O esporte foi utilizado como instrumento de disciplina e fortalecimento do trabalhador visando evitar faltas e aumentar a produção nas fábricas. A Inglaterra foi o berço da Revolução Industrial, tornando-se uma grande potência econômica. O poderio econômico aliado a sua imbatível esquadra marinha fez da Inglaterra a grande potência Imperial do século XIX, com colônia e áreas dependentes em todas as partes do globo. Juntamente com as fábricas têxteis e a ferrovias a Inglaterra exportou o Esporte para todo o mundo, caracterizando uma grande difusão cultural. (GONZALEZ, 1993).

Outro evento esportivo importante do século XIX, que se tornou ferramenta política dos Estados foi o Olimpismo desenvolvido por Pierre de Coubertin em um congresso na Universidade de Sorbonne em 1894. O movimento olímpico foi inspirado no Esporte Britânico e nas descobertas arqueológicas de meados do século XIX a respeito da antiguidade grega e dos Jogos Olímpicos. Em 1896 o movimento Olímpico restabeleceu a realização periódica dos Jogos Olímpicos. Os Jogos Olímpicos Modernos foram responsáveis por uma grande propagação do Esporte pelo mundo, além disso, a participação nos jogos agregou o sentimento de representação nacional. Muitos países utilizaram este valor para angariar prestígio político internacional (HENRY, 1955).

A idéia de nação poderosa constituída por cidadãos fortes e saudáveis fez com que os estados totalitários utilizassem o Esporte como veículo publicitário de seus regimes políticos, fato ocorrido nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, que foram usados como propaganda do Estado nazista alemão, servindo para unir os alemães em torno do sentimento ultranacionalista do nazismo, divulgando também a suposta superioridade da raça Ariana, ideais estes de Adolf Hitler (HOLMES, 1974).

Com o fim da Segunda Guerra Mundial o mundo se dividiu em dois blocos políticos e militares antagonistas caracterizando a divisão bipolar do poder mundial. De um lado posicionou-se o bloco socialista liderado pela União Soviética e de outro o bloco capitalista, sob a liderança dos Estados Unidos. Estes dois países protagonizaram nas décadas de 60, 70 e 80 a Guerra Fria caracterizada pela disputa ideológica e estratégica dos blocos conflitantes. Junto às pressões bilaterais, o Esporte foi inserido como arma ideológica na disputa pelo prestígio político. Os campos e ginásios esportivos se transformaram em locais de batalha e os Jogos Olímpicos foram palco de uma disputa política que culminou com os boicotes dos Jogos de Moscou em 1980 e Los Angeles em 1984 (HOBSBAWM, 1995; LANCELOTTI, 1996).

No Mundo Contemporâneo, o Esporte foi inserido nas estruturas neoliberais da economia de mercado, transformando-se em uma grande instituição financeira que representa os interesses das corporações transnacionais, as quais ditam as regras no mercado mundial (BRACHT, 1997).

BRACHT (1997), afirma que o Estado utiliza o Esporte porque este é facilmente instrumentalizado politicamente pelo poder institucionalizado. O Esporte reúne as seguintes características que o tornam suscetível à utilização política:



  • É uma atividade com regras de fácil compreensão, sendo utilizado como elemento de comunicação de massa portador de uma linguagem simples. O Estado por meio desta linguagem utiliza o elemento de tensão emocional do Esporte para veicular os seus objetivos e ideologias;

  • Oferece à população a possibilidade de identificação com o coletivo e com as aspirações patrióticas dando sentido de união nacional;

  • É um elemento alienador que permite ao expectador a compensação para as tensões e aflições da vida cotidiana;

  • A apropriação do atleta como representante do sistema, os sucessos esportivos fornecem prestígio político;

  • O Esporte é reflexo da concepção de valores resistente na sociedade em que está inserido. Isto lhe confere uma neutralidade interna, permitindo que o direcionamento político seja determinado de fora do seu contexto.

Por representar interesses de diferentes grupos sociais o esporte foi submetido a uma organização central dentro dos países. A configuração da instituição esportiva ocorreu paralela a um grande movimento mundial de estatização (GONZÀLEZ, 1993). As organizações esportivas foram coordenadas geralmente pelo Estado através de estruturas de controle centralizador (estruturas corporativas), ou em parceria com as sociedades civis privadas (estruturas neocorporativas) (BRACHT, 1997).

Dentro deste contexto o esporte evoluiu durante a primeira metade do século XX como instrumento político dos governantes, atuando como ferramenta de propaganda do prestígio internacional das nações, da superioridade de sistemas políticos, e do orgulho nacional (GONZALEZ, FERRANDO e RODRIGUEZ, 1998).

BROHM (1982), afirma que o esporte é um novo tipo de aparato ideológico do Estado, uma ferramenta para a manutenção da estrutura social estabelecida. Passa a ser utilizado pelas forçais hegemônicas do Estado civil, que não deve ser entendido apenas como as forças governamentais, mas também representa os grupos privados dominantes, tais como a Igreja, os sindicatos, os partidos, as escolas, os grupos financeiros.

Segundo o mesmo autor, a instituição ao esportiva é uma personificação ideológica que participa na manutenção da ordem burguesa, destilando massivamente a ideologia dominante.

Assim o estudo do uso político e ideológico do esporte ganha importância, pois não se trata apenas de entender como o Estado se apropria deste fenômeno, e sim verificar como toda a sociedade se favorece das qualidades do esporte em beneficio de seus próprios interesses.


O Esporte Na Grécia Antiga
Devido à fragmentação política do território, ocorria na Grécia antiga diversas guerras e disputas territoriais, em função destes conflitos a organização social das cidades gregas valorizava a militarização, sobretudo nas cidades alinhadas a Esparta. Em Esparta o cidadão era criado com o propósito de servir aos objetivos da sociedade, sua educação era voltada para a preparação militar. As atividades atléticas e ginásticas eram amplamente utilizadas neste contexto educacional. Dos 7 aos 21anos o jovem Espartano freqüentava instituições escolares estatais cujo currículo valorizava predominantemente as práticas esportivas com fins militares. A educação espartana, além de proporcionar uma hegemonia militar também refletia o domínio de Esparta na disputa dos Jogos Olímpicos (SOUZA, 1975).

Os Jogos Olímpicos da Grécia Antiga tinham grande caráter religioso, eram realizados em Olímpia nos arredores do templo de Zeus, além dos jogos atléticos, incluíam em seu programa inúmeras cerimônias religiosas, oferendas, sacrifícios, em honra ao deus supremo dos gregos. No entanto a instauração dos Jogos Olímpicos tem origem em um ato político. Em 884 a.C. foi assinado um tratado de paz entre os reis das cidades-estado de Pisa, Esparta e Elis. O tratado chamado Ekeheiria propôs a realização dos jogos em Olímpia para celebrar a paz ente as cidades gregas. Durante os doze séculos em que os Jogos Olímpicos foram disputados, imperou na Grécia a trégua sagrada nos períodos em que os jogos eram realizados. A cada quatro anos os conflitos e guerras cessavam para que os gregos pudessem disputar os jogos sagrados de forma harmoniosa. Este evento foi responsável por uma grande difusão cultural e religiosa em todos os povos que habitavam a Grécia antiga, criando a identidade helenística. (SOUZA, 1975; GODOY, 1996; LANCELOTTI, 1996).

A utilização política das atividades atléticas na Grécia antigas abrangia, além do uso das mesmas para a preparação militar, a realização de Jogos com o intuito de promover um relacionamento político saudável entre as cidades estado. O estabelecimento da paz sagrada durante a realização dos Jogos Olímpicos simbolizava o contrato entre os governos das cidades e dava um sentido de identidade entre os povos gregos.

Os Jogos Romanos e a “Política do Pão e Circo”
A Cultura Romana continha Jogos religiosos realizados nos grandes Circos e Anfiteatros nos dias de festas sagradas e nos feriados. Esses Jogos eram oferecidos pelos governantes romanos ao povo e serviam para aliviar as tensões sociais. A função alienadora dos Jogos Romanos já era aplicada durante a Republica, quando os Jogos simbolizavam a pacificação entre os patrícios (aristocratas) e os plebeus (povo). No entanto foi na era do Império Romano que os Jogos tiveram o apogeu, e tornaram-se grandes espetáculos e reunindo milhares de pessoas (RAMOS, 1982).

Os Jogos tiveram papel importante durante o Império. Nesta época de grandes conquistas territoriais e expansão externa, as políticas sociais internas muitas vezes eram sonegadas causando a ira da população. Para evitar rebeliões e levantes populares os imperadores adotaram a “Política do Pão e Circo” (panis et circences). Nesta política o calendário de jogos foi expandido, chegando ao número de 175 dias festivos, quando eram oferecidos os Jogos e cotas de pães à população (GRIFI, 1989; RAMOS, 1982).

Ao contrário dos Jogos Gregos repletos de honra e disputas leais, os Jogos Romanos eram caracterizados por espetáculos bizarros e sangrentos, contendo lutas armadas que se prolongavam até a morte dos gladiadores, lutas contra animais selvagens (tigres, leões, panteras), e execuções de criminosos e cristãos. Também eram realizadas corridas de bigas como uma herança grega (GRIFI, 1989).

O uso do espetáculo dos Jogos Públicos como ferramenta política dos governantes romanos é análogo a instrumentalização sofrida pelo esporte na era contemporânea, quando a mídia bombardeia os espectadores com notícias esportivas, causando um desvio na atenção e consciência das pessoas para assuntos importantes da política e do cotidiano.



As escolas ginásticas: educação, saúde e nacionalismo

A Educação Física moderna sofreu influências dos pensadores iluministas do século XVII e XVIII, dentre eles se destacou Jean Jacques Rousseau (1712-1778), cuja obra colaborou com a criação de um novo método educacional e uma nova visão de homem. Rosseau afirmava que a criança deveria ser educada livre das influências negativas dos pais e das instituições da sociedade, sobretudo da Igreja, grande condutora ideológica da época. Para Russeau a educação deveria estar na autonomia da vontade e na razão. Russeau valorizava em seus preceitos educativos a formação moral e física do jovem. Esta condição abriu espaço para o desenvolvimento da Educação Física e influenciou um grande número de estudiosos e pedagogos em diversos países da Europa, culminando com o surgimento das Escolas Ginásticas (MARINHO, 1980).

As Escolas Ginásticas surgiram na Europa no inicio do século XIX e tiveram desenvolvimento simultâneo em diversos países, o que favoreceu o intercâmbio de informações e tendências. Os objetivos gerais do movimento ginástico europeu estavam voltados ao desenvolvimento pedagógico, higiênico e militar do homem, buscando preparar os jovens para a vida e para a prestação de serviços à sociedade (GRIFI, 1989).

Na Dinamarca o pedagogo Franz Nachtegall (1777-1847) é considerado o idealizador de uma doutrina ginástica altamente pedagógica, sendo o precursor de diversas escolas e institutos voltados à prática. A ginástica Sueca foi implantada por Per Henrik Ling (1776-1839) e teve influência dinamarquesa. Ling desenvolveu uma ginástica essencialmente educativa e social, exaltando os benefícios à saúde e a serviço à pátria via a ginástica de preparação militar (RAMOS, 1982; MARINHO, 1980).

Na França a ginástica foi introduzida primeiramente pelo general espanhol Francisco Amoros (1769-1848), auxiliado pelo oficial suíço Enrico Clias (1782-1854). Amoros reconheceu a existência de quatro tipos de ginástica na França, cada qual com a sua função: a ginástica civil ou industrial, que tinha por objetivo fortalecer os cidadãos para o cumprimento de suas tarefas e trabalhos; a ginástica militar, utilizada na preparação dos contingentes do exército; a ginástica médica de cunho higienista, atendendo às necessidades da saúde da população e a ginástica funambulesca, praticada por malabares em apresentações cênicas e circenses (GRIFI, 1989; MARINHO, 1980).

Nasceu na Alemanha em 1759 Guths Muths, o pedagogo considerado o pai da ginástica pedagógica moderna. Podem ser destacados na sua obra os seguintes livros: “A Ginástica para a Juventude” de 1793 e “Livro de Ginástica para os Filhos da Pátria” de 1817, o último destacando o nacionalismo e a nobreza do povo alemão. As idéias de Guths Muths influenciaram toda uma geração de pedagogos da qual surgiu Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852), que desenvolveu profundamente a ginástica militar prussiana de cunho nacionalista e político, incitando a juventude patriótica a se preparar para as guerras de unificação da Alemanha (MARINHO, 1980; RAMOS, 1982; GRIFI, 1989).

Apesar dos grandes avanços pedagógicos, científicos e higienistas provocados pela evolução das escolas ginásticas européias, foi sensível a importância dada ao uso dos exercícios com objetivos militares. As instituições educacionais e militares passaram a utilizar métodos ginásticos na preparação de exércitos e na propagação ideológica e nacionalista. Estas prerrogativas políticas e militares das escolas ginásticas permaneceram no século XX, acompanhando o desenvolvimento da Educação Física pelo mundo.


O esporte moderno - a grande ferramenta
No ultimo quarto do século XVIII, ocorreu na Inglaterra uma grande evolução cientifica, tecnológica e econômica. Impulsionada pela estruturação política estável da monarquia parlamentar e pelo pensamento racionalista do Iluminismo, em meados de 1760 ocorreu a Revolução Industrial. Este movimento acompanhou um grande êxodo rural que favoreceu o crescimento urbano e o fornecimento de mão de obra para as industrias (MOTA e BRAICK, 1997).

A Revolução Industrial influenciou a mudança na forma de se pensar o mundo. O pensamento racional foi direcionado a formas de otimização da produção, através de processos que visavam o acúmulo de capitais (PILATTI, 1999).

O esporte moderno se desenvolveu paralelamente ao processo de industrialização herdando dele a racionalização, sistematização e a orientação ao resultado. A origem do esporte na Inglaterra está em jogos e recreações populares, assim como em algumas atividades lúdicas da nobreza britânica. As modalidades esportivas foram concebidas pela regulamentação destas práticas. O esporte moderno foi regulamentado nas escolas aristocráticas inglesas (Public Schools). A educação nessas escolas era muito rígida e formal, visava preparar futuros dirigentes políticos, empresários e legisladores. No entanto nos períodos de tempo livre, os jovens estudantes tinham autonomia para praticar as atividades que bem entendessem. De maneira geral os jovens se entretinham com atividades de moral duvidosa, invadiam propriedades privadas, cometiam atos de vandalismo, beberagens, arruaças e com freqüência praticavam jogos populares de forma violenta e vulgar (ELIAS e DUNNING, 1992; GONZALEZ, 1993).

Em função da má fama gerada pelos atos dos estudantes das Public Schools foi colocada em questão a reforma educacional nas escolas aristocrática inglesas, sobretudo no que dizia respeito à regulamentação das atividades do tempo livre dos alunos. Esta reforma teve destaque no colégio de Rugby sob a direção do pedagogo e sacerdote Thomas Arnold, que assumiu em 1828 e implantou uma série de regras para as atividades e jogos com o intuito de reduzir a violência e atribuir valores educacionais a praticas esportivas. A linha pedagógica de Rugby foi modelo para o sistema de educação das escolas inglesas, fazendo do esporte componente curricular fundamental que visava atribuir valores de liderança e disciplina aos futuros dirigentes ingleses. (CAGIGAL, 1996; GRIFI, 1989)

Na sociedade inglesa o desenvolvimento do esporte moderno foi influenciado pelos preceitos oriundos das escolas. A sistematização dos jogos populares e das atividades recreativas foi implantada pelos legisladores e empresários formados pela linha educacional de Rugby. Sob o pretexto de melhorar a saúde e combater vícios foram implementadas diversas campanhas e leis contra os jogos populares, que também eram acusados de incitar a violência e ocasionar faltas ao trabalho, causando prejuízos ao sistema de produção industrial capitalista. Foram instituídas nas fábricas atividades físicas regulamentadas que visavam manter a saúde dos trabalhadores, aumentando a produção e diminuindo as faltas (GONZALEZ, 1993; GRIFI, 1989).

A burguesia industrial inglesa usou habilmente os princípios educativos do esporte para desenvolver junto à classe proletária valores como disciplina, hierarquia, rendimento. Assim a regulamentação da prática esportiva dos trabalhadores atendeu aos interesses de doutrinação da burguesia, sob o pretexto da higienização e conseqüentemente da melhora da saúde.

O esporte atingiu na Inglaterra todos os segmentos da sociedade e teve a igreja e as escolas estatais como agentes propagadores de grande importância. As igrejas, com o objetivo de atraírem fiéis construíram ao lado de seus templos campos de futebol, onde eram disputadas partidas após as cerimônias nos finais de semana. As escolas estatais incluíram o esporte em seus programas seguindo determinações do governo e foram importantes agentes de massificação da prática esportiva. (GONZALEZ, 1993)

No último quarto do século XIX com o desenvolvimento das atividades esportivas, o surgimento de ligas e campeonatos nasceu a figura do espectador esportivo. Foram construídos estádios que abrigavam grande número de torcedores. O crescimento do número de espectadores fez com que o esporte fosse utilizado como forma de alienação dos trabalhadores que aos sábados, após o expediente se dirigiam em massa aos estádios para assistir aos jogos das equipes formadas em suas respectivas fábricas. As fábricas fundaram diversas equipes formadas por seus operários. A disputa esportiva entre as empresas gerou a idéia de fidelidade entre o trabalhador e a fabrica através dos laços de afetividade proporcionados pela tensão emocional provocada nos embates esportivos. A discussão esportiva desviava a mente dos trabalhadores de problemas empregatícios e de organizações sindicais. Os operários que se destacavam nas equipes esportivas recebiam benefícios, horários para treinar, dias de folga e bonificações. (BRACHT, 1997; GONZALEZ, 1993).

Em fins do século XIX o esporte arrastava multidões aos estádios, surgiu então o interesse jornalístico sobre os jogos e competições esportivas. A principio os jornais se limitaram a noticiar os resultados, mas com o aumento do interesse dos leitores pelas seções esportivas foram criados novos espaços, crônicas, colunistas e entrevistas que formataram uma nova linguagem jornalística dando espaço para o crescimento da discussão popular do esporte no cotidiano. Os órgãos governamentais perceberam o poder de abrangência do esporte e passaram a fazer uso de suas estruturas. Ocorreu a estatização de entidades esportivas o que trouxe ao esporte o sentimento de patriotismo e representação nacional, sobretudo com a convocação de seleções para disputa campeonatos internacionais. O Estado usurpou do esporte valores como prestigio político e econômico internacional (GONZALEZ, 1993).

A Inglaterra se firmou no século XIX como a grande potencia imperial do mundo. Amparada por um imenso poder econômico proveniente da grande produção industrial e também pela soberania militar de sua marinha a Inglaterra expandiu seu domínio por todas as partes do globo. Esta posição possibilitou a exportação de tecnologia e empresas para suas áreas coloniais, sobretudo nas áreas têxteis, de energia elétrica e ferroviária. Junto a essas empresas foi exportado para o mundo todo o modelo esportivo inglês. Este fato favoreceu a difusão cultural junto aos países dependentes da Inglaterra (RUBIO, 2001).



O Olimpismo: o nobre ideal corrompido

No final do século XIX o pedagogo humanista, Pierre de Coubertin, foi incumbido de buscar novos modelos para a educação na França. Após uma série de viagens pela Europa e pelos Estados Unidos, Coubertin retornou a seu país determinado a implantar uma teoria pedagógica inspirada principalmente pelo sistema educacional inglês e também sob forte influência da obra do arqueólogo alemão Ernst Curtius, que havia encontrado ruínas da Grécia clássica em escavações realizadas em 1952 (CARDOSO, 2000).

Do modelo educacional inglês Coubertin absorveu os valores pedagógicos do Esporte para a formação de cidadãos honrados e líderes enérgicos. O Esporte tinha por preceitos a competição, a regulamentação das atividades e o jogo limpo (fair play) (HENRY, 1955). As escavações na Grécia revelaram a educação helenística denominada Paidéia. Esta educação visava, sobretudo em Atenas, a formação global do homem, aliando conhecimentos de filosofia, de gramática e musicais à prática de exercícios ginásticos e atividades atléticas (SOUZA, 1975).

Coubertin também reteve da obra de Ernst Curtius os princípios que levaram os antigos gregos a realizarem os Jogos Olímpicos: a celebração da paz e o ideal puro da luta pela vitória em busca de ser o melhor e aproximar-se dos deuses. Coubertin incluiu o esporte nas escolas francesas através de um amplo projeto pedagógico, que contemplou a restauração dos Jogos Olímpicos. (GODOY, 1996).

Em 1894 ocorreu na Universidade de Sorbonne um grande congresso esportivo reunindo dois mil delegados de 12 países. Sob a organização do Barão de Coubertin o congresso abordou diversos temas do Esporte, dos quais tiveram destaque o anúncio oficial da restauração dos Jogos Olímpicos, a discussão sobre amadorismo e profissionalismo e a nomeação de um Comitê Internacional encarregado da restauração dos Jogos (Comitê Olímpico Internacional). Por ocasião do congresso foi definido, para 1896 em Atenas, a realização da primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna (COUBERTIN, 1965).

O projeto de Coubertin buscou instituir um conjunto de idéias nobres denominado ideário olímpico, ou Olimpismo, ao qual estariam sujeitos os participantes dos Jogos Olímpicos. O preceito básico do Olimpismo era o amadorismo, que pregava uma prática desinteressada das atividades esportivas, não sendo permitida a remuneração dos participantes em função de sua atuação esportiva (CARDOSO, 2000).

O Ideário Olímpico lançou em 1896 a carta olímpica, que tinha por principais objetivos (BINDER, 2001):


  1. Promover o desenvolvimento das qualidades físicas e morais que são a base do esporte;

  2. Educar a juventude através do espírito esportivo para um melhor entendimento e amizade entre os povos, ajudando a construir um mundo melhor e mais pacífico;

  3. Espalhar os princípios olímpicos pelo mundo, criando a amizade internacional;

  4. Unir os atletas do mundo a cada quatro anos em um grande festival esportivo, Os Jogos Olímpicos.

Coubertin ainda afirmava que o movimento olímpico e o Comitê Olímpico Internacional eram instituições apolíticas e independentes que visavam promover o Esporte pelo mundo. No entanto a restauração dos Jogos Olímpicos criou a idéia de representação esportiva nacional, com o passar das edições esta condição gerou um sentimento patriótico nos atletas e na população dos países participantes. A mídia daquela época, representada maciçamente pelos jornais, passou a noticiar cada vez mais os feitos esportivos, aumentando consideravelmente o alcance dos acontecimentos esportivos. O esporte exaltou elementos simbólicos da pátria, tais como bandeiras e hinos, que foram exibidos ostensivamente em cerimônias de abertura e de premiação nos Jogos Olímpicos. Percebendo o grande poder convocatório e nacionalista do Esporte, os governos passaram a investir na preparação das seleções nacionais em busca do prestígio obtido com as vitórias esportivas (GONZALEZ, 1993).

Os países participantes interpretaram os jogos como uma oportunidade para expressar os sentimentos nacionalistas e o sentido de identificação nacional. Assim os Jogos Olímpicos, além de promoverem os jogo limpo, a paz e a compreensão entre os povos, foram usados para manifestar o orgulho e os interesses nacionais (GONZALEZ, FERRANDO e RODRIGUEZ, 1998).

Contudo, as nobres idéias de Coubertin foram utilizadas para objetivos outros àqueles previstos pela carta olímpica. Os Estados passaram a usufruir os valores do Esporte em benefício próprio na disputa de prestígio internacional para seus respectivos regimes políticos. Desde então os Jogos Olímpicos não representam apenas a confraternização entre os povos ou a busca de um melhor desenvolvimento humano, mas também a disputa de interesses políticos e econômicos de Estados e corporações.
A Olimpíada De Berlim –1936 e a propaganda nazista
Um momento histórico bastante característico no que diz respeito ao uso político do esporte foi a olimpíada de Berlim em 1936. Naquele período a Alemanha era governada pelo nazismo tendo como líder supremo e totalitário Adolf Hitler.

As origens do nazismo remontam aos movimentos nacionalistas de extrema direita que surgiram após a primeira guerra mundial como resposta à ascensão socialista provocada pelos ideais da revolução Bolchevique na Rússia em 1917. Os movimentos extremistas de ultradireita eram intensamente nacionalistas, xenófobos, incitavam a violência militar e policial, eram antiliberais, antidemocráticos, antiproletários e anti-socialistas. As condições para o triunfo da ultradireita eram: uma Europa abalada pela guerra, uma massa de cidadãos desencantados e desorientados, fortes movimentos socialistas avançando na sociedade e um forte ressentimento nacionalista contra os tratados de paz do pós-guerra (HOBSBAWM, 1995).

A ascensão do nazismo na Alemanha foi favorecida pelas humilhações sofridas pelo povo em função das imposições do tratado de Versailles após a primeira guerra mundial, que responsabilizou a Alemanha pelo conflito obrigando a pagar pesadas reparações. Estas penalidades e sansões geraram uma grave crise econômica em 1923. Outro fator que colaborou com o nazismo foi os temores de que a revolução comunista ocorrida na Rússia contaminasse a Alemanha. Por fim, Hitler se aproveitou da grande depressão econômica mundial de 1929 para acionar os projetos políticos que estabeleceram o nazismo na Alemanha em 1933. Criando um quadro de supressão dos direitos civis, e de autonomia do Estado totalitário governado pelo partido único nazista.

Uma vez no poder Hitler iniciou uma campanha de perseguição aos opositores do governo, comunistas e judeus. Combateu o desemprego com frentes especiais de trabalho e incentivos a industria, em busca de autonomia econômica, o que sustentou os ideais de expansão do III Reich, culminando na eclosão da Segunda Guerra Mundial quando Hitler invadiu a Polônia em l939 (JAGUARIBE, 2001).


Em 25 de abril de 1931, o Dr. Theodor Lewald, secretário geral do Comitê Olímpico Alemão, apresentou as intenções da Alemanha em sediar os jogos de 1936 na cidade de Berlim. Como argumento Dr. Lewald apresentou os projetos em andamento para a construção de estádios e instalações esportivas, também lembrou que a Alemanha havia sido escolhida para sediar os jogos de l9l6, que acabaram não se realizando em função da Primeira Guerra Mundial. Assim Berlim foi eleita. (HOLMES, 1974).

Em 1931 a Alemanha era governada pela Republica de Weimar. A realização dos Jogos Olímpicos seria utilizada para exaltar a honra do povo alemão, abalada pelas imposições humilhantes do tratado de Versailles. No entanto em l936 os jogos acabaram representando os interesses de propaganda do governo totalitário nazista, e tornaram-se um marco de referência da utilização do esporte para fins políticos.

Hitler assumiu o cargo de chanceler alemão em 30 de janeiro de 1933 e convocou novas eleições para março, no intuito de obter maioria do partido nazista no parlamento (Reichtag). No dia 27 de fevereiro um lunático comunista patrocinado pela policia nazista S.A., incendiou o parlamento. Hitler usou o pretexto para dissolver o partido comunista e prender parlamentares do Partido Social Democrata. Com isso o Partido Nazista conseguiu maioria nas eleições de março e aprovou o “voto de confiança” a Hitler, concedendo ao Chanceler poderes ditatoriais. Com a morte do presidente Hindenburg em agosto de 1933, Hitler assumiu também o cargo de presidente. Investido de plenos poderes Hitler dissolveu os outros partidos e impôs uma caçada aos opositores do governo e aos não arianos judeus (JAGUARIBE, 2001).

Os judeus foram expulsos dos clubes esportivos e das equipes olímpicas alemãs. O COI repreendeu o Comitê Alemão, que aparentemente voltou atrás da decisão repatriando alguns atletas judeus exilados. A ascensão de Hitler ao poder colaborou diretamente com o comitê de organização dos Jogos Olímpicos, que foi amplamente amparado financeiramente pelo Estado. A Olimpíada de Berlim representou para Hitler uma grande oportunidade de divulgar internacionalmente a imagem poderosa da Alemanha Nazista. O ministério de propaganda nazista, chefiado por Goebbels foi acionado para veicular a publicidade dos jogos nazistas. Hitler convocou o exercito alemão para auxiliar nas obras dos conjuntos esportivos e da vila olímpica. Também, promoveu frentes de trabalho, utilizando o grande contingente de desempregados da Alemanha daquela época (HOLMES, 1974).

A intensa participação do Estado Nazista e do Exercito Alemão na organização dos jogos fez surgir na França, na Inglaterra, Nos Estados Unidos e em outros países europeus suspeitas quanto à intenção de utilização política dos jogos por parte dos nazistas. Foram iniciadas diversas campanhas contra a participação na Olimpíada de Berlim. Estas campanhas eram lideradas pelos grandes jornais, por associações judaicas, universidades e tiveram representação nos governos desses países. Os comitês olímpicos dos EUA, da França e da Inglaterra chegaram a proibir a participação de suas delegações, alegando não estarem dispostos a colaborar com a política nazista. Outro receio era a perseguição racial sofrida pelos judeus na Alemanha. Alguns países não se sentiam seguros em levar seus atletas de origem judaica e negra para os Jogos de Berlim. O boicote só foi revertido após uma série de medidas e compromissos firmados pelo governo alemão junto ao COI. Tais medidas camuflaram a perseguição aos judeus. No entanto muitos países só confirmaram presença em Berlim após a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno realizados em Garmisch-Partenkirchen na Alemanha, onde não foram presenciadas manifestações anti-semitistas de qualquer espécie, prevalecendo uma calorosa receptividade forjada por determinação do Estado (HOLMES, 1974).

A máquina do Estado Nazista organizou a melhor edição dos Jogos Olímpicos até então. A população foi orientada a receber bem os participantes. Os hotéis e restaurantes receberam a determinação de atender bem a todos relevando os preceitos racistas. Os jornais e boletins oficiais de perseguição aos judeus foram recolhidos. Os cartazes anti-semitistas foram retirados dos locais públicos. O Exercíto e a Policia Nazista S.A. ocuparam Berlim durante os jogos. A cidade foi decorada com bandeira e pinturas ostentando os aros olímpicos e a suástica nazista. Hinos nazistas e olímpicos eram entoados a todo tempo nos alto-falantes instalados pela cidade. Imagens dos jogos foram reproduzidas em telões espalhados pelas praças de Berlim. Durante os jogos todas as ações exaltavam a ordem e a glória do governo nazista do III Reich. As cerimônias, desfiles e uniformes deixavam a impressão militar e belicosa aparentes (HOLMES, 1974).

Além de mostrar ao mundo a força do governo nazista e a organização gerida pelo mesmo, Hitler também tinha a intenção de comprovar a supremacia da raça ariana nas provas atléticas dos jogos. No entanto a hegemonia alemã foi ameaçada pela equipe de atletismo dos Estados Unidos, composta entre outros, por dez atletas negros que conquistaram oito medalhas olímpicas de ouro. Com destaque para o atleta negro Jesse Owens, ganhador de quatro dessas medalhas de ouro, nos 100 e 200 metros rasos, no revezamento 4x100mts e no salto em distancia, prova em que derrotou o campeão europeu e alemão Luz Long. Após a vitória de Owens, Hitler deixou o estádio irritado, sem cumprimentá-lo como havia feito até então, com os demais campeões. Hitler conseguiu mostrar ao mundo o poder totalitário do nazismo alemão e impressionou a todos com a organização social promovida pelo mesmo, mas não teve sucesso em demonstrar a suposta supremacia racial dos alemães arianos, que foram derrotados por atletas negros, asiáticos e judeus. No entanto a anfitriã, com a maior delegação dos jogos, conquistou o maior numero de medalhas olímpicas, 90 contra 56 dos Estados Unidos (CARDOSO, 2000).
O esporte: arma ideológica na guerra fria
O conflito entre as duas potências mundiais, denominado Guerra Fria, teve inicio após o termino da Segunda Guerra Mundial. Este embate se estendeu pela segunda metade do século XX e foi protagonizado pelos Estados Unidos e pela União Soviética em uma grande disputa ideológica e armamentista. Após a Segunda Guerra Mundial uma série de acordos e conferências entre Roosevelt, Churchill e Stalin dividiram o mundo em dois pólos de influência, que definiram o equilíbrio do poder sobre uma estrutura bipolar. De um lado os países socialistas alinhados à URSS e de outro os países capitalistas liderados pelos EUA. A Guerra Fria foi caracterizada por uma grande corrida armamentista, onde os dois blocos mediam o poderio de destruição nuclear. O equilíbrio nuclear não representava a real intenção em usar este tipo de armamento, o que asseguraria a destruição mútua. Por isso a Guerra Fria foi um combate de tensões e ameaças apocalípticas que deixaram o mundo à sombra da guerra até o final da década de 80 com a queda do muro de Berlim e o declínio e esfacelamento da União Soviética (HOBSBAWM, 1995).

O conflito soviético/americano confrontou duas potências imperiais. De um lado o Império de Moscou territorialmente contíguo com força militar terrestre e estratégia política de expansão das áreas subjugadas. Do outro lado colocou-se o império norte americano constituído de áreas de influência espalhadas por todo o globo, interligadas por uma força militar predominantemente marítima. O objetivo estratégico dos EUA era cercar o império soviético em uma política de contenção do avanço territorial socialista. O expansionismo soviético e o contencionismo americano ocorreram na disputa pela Eurásia, O grande continente basilar formado pela Europa e pela Ásia, que contem a maior parte dos recursos naturais e riquezas do planeta e a maioria da população mundial (BRZEZINSKI, 1989).

Neste contexto o esporte foi usado como instrumento ideológico e de propaganda por ocasião de competições internacionais e Jogos Olímpicos. Foi uma arma simbólica dos blocos opostos, transformando piscinas, ginásios e estádios em campos de batalha. As vitórias esportivas foram usadas para reafirmar o prestigio político e a soberania de cada regime. As pressões resultantes da Guerra Fria foram sentidas nas disputas esportivas causando grande rivalidade entre os atletas. A mídia difundiu esse confronto, inflamando os sentimentos nacionalistas das populações. (RIORDAN, 1977; LANCELOTTI, 1996).

Também durante a Guerra Fria, o esporte foi utilizado como uma ferramenta diplomática. Em determinados momentos foi uma válvula de escape da tensões políticas da época. Representou a colaboração conjugada entre o Imperialismo americano e a burocracia dos países socialistas durante os esforços de coexistência pacifica. Este fato pode ser exemplificado com a visita do presidente Richard Nixon à China durante a Guerra Fria. A viagem foi precedida por competições amistosas entre equipes esportivas dos dois países. Este episódio ficou conhecido como “Política do Ping-Pong”, em referencia à modalidade tênis de mesa, muito desenvolvida no pais asiático. O Slogan desta política era: “A amizade primeiro, a competição depois” (BROHM, 1982).

O esporte se converteu na imagem da cooperação internacional, assim como em um desafio para a confrontação pacífica entre os Estados com regimes sociais diferentes. Por outro lado, o esporte também representou o embate entre as potências mundiais na busca de prestigio. Os atletas foram transformados em “soldados do esporte” em defesa das cores de sua nação, em uma ampla demonstração de chauvinismo (BROHM, 1982).

A União Soviética iniciou sua participação nos Jogos Olímpicos em Helsinque em 1952 disposta a mostrar ao mundo as excelências do comunismo. Na edição anterior dos jogos, em Londres 1948, a nova potência mundial preferiu não comparecer e medir forças com a hegemonia esportiva dos EUA, ao invés de participar enviou técnicos e pesquisadores para analisar os atletas e os métodos de treinamento do mundo capitalista. Nos quatro anos seguintes o governo soviético destinou grandes recursos a projetos esportivos, visando formar atletas de alto nível que representassem a ideologia comunista nos jogos. Em Helsinque teve início uma disputa paralela à olimpíada, O confronto ideológico entre os dois blocos antagonistas dento dos recintos esportivos. Essa disputa ideológico-esportiva se estendeu pelas outras edições dos jogos, culminando com os boicotes dos Jogos de Moscou em 1980 e Los Angeles em 1984 (CARDOSO, 2000).

Em dezembro de 1979 a União Soviética impôs uma intervenção militar ao Afeganistão, após uma seqüência de golpes de Estado e conflitos civis. O interesse soviético no Afeganistão vinha de seu posicionamento geográfico, que dava acesso ao oceano Índico. O governo dos EUA presidido por Jimmy Carter, exigiu a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão, ameaçando comandar um boicote internacional aos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. A exigência não foi atendida e a ação política dos Estados Unidos promoveu um boicote envolvendo 61 países, prejudicando sensivelmente essa edição dos Jogos. Em retaliação ao boicote americano, a União Soviética se negou a participar da Olimpíada de Los Angeles em 1984. O boicote soviético teve menor abrangência devido a uma grande campanha do COI, que conseguiu convencer muitos países a participarem dos Jogos (CARDOSO, 2000; LANCELOTTI, 1996).
A posição do Comitê Olímpico Internacional
Coubertin criou nos Jogos Olímpicos, principalmente nas cerimônias de abertura e encerramento, rituais paralelos que inflamam o patriotismo e ao mesmo tempo o internacionalismo. Ele acreditava nos dois conceitos e colocou-os simultaneamente nos Jogos, ostentando ideologias contraditórias. A realização dos Jogos incita nas pessoas o sentimento nacionalista, exaltando as cores de sua pátria, seus símbolos, bandeiras e hinos. No entanto o nacionalismo exacerbado cria hostilidades entre os países participantes dos jogos, à medida que se confundem fatos políticos e rivalidades históricas com a disputa esportiva (LUCAS, 1992).

O Comitê Olímpico Internacional adotou uma postura decisiva para reduzir o nacionalismo exagerado nos Jogos Olímpicos. Em 1990 foi redigida uma carta olímpica condenando a influência política externa nos Jogos (LUCAS, 1992). Os principais pontos da carta são:

- Não haverá discriminação racial, religiosa ou política contra qualquer país ou pessoa participante dos jogos;

- Não serão atribuídos pontos e não será determinada uma nação como vencedora dos Jogos Olímpicos;

- Não será permitido qualquer propaganda ou manifestação de cunho político, religioso ou racial.
O esporte e o mundo contemporâneo
O uso político do esporte esteve submetido às relações interestatais do Sistema Internacional, as ações visavam manter o equilíbrio de poder, evitando a possibilidade constante de guerra. O Esporte foi usado em ações estratégicas e em propagandas políticas dos países e seus regimes de governo. Na década de 80 o esporte foi inserido, definitivamente, no sistema econômico mundial e passou a ser um mecanismo financeiro sob influência das corporações transnacionais (ARON, 1987).

A década de setenta serviu como laboratório para a inclusão do esporte no mercado mundial. Naquela época as grandes confederações esportivas internacionais, tais como a FIFA (Federação Internacional de Futebol) e o COI (Comitê Olímpico Internacional), perceberam o crescente valor do esporte para a mídia e passaram a negociar cifras cada vez maiores sobre os direitos de transmissão televisiva dos campeonatos internacionais e dos Jogos Olímpicos (SIMSON e JENNINGS,1992).

Os Jogos Olímpicos de Los Angeles marcaram a entrada do Esporte na economia mundial. O Comitê Olímpico Internacional vendeu, pela primeira vez, o evento à iniciativa privada através de contratos de patrocínio. No entanto o grande fluxo de capital recebido pelo esporte só foi possível graças á crescente valorização esportiva na mídia. Devido ao grande poder de audiência do esporte, os patrocinadores surgiram em grande número e a mercantilização do Esporte gerou um lucro inédito aos organizadores dos Jogos Olímpicos. Desde então os eventos esportivos passaram a ter a parceria de grandes empresas. Esta relação com o mercado mundial evoluiu para as instituições esportivas, as confederações, federações, as ligas e os clubes passaram a negociar o esporte como um produto de consumo.

Este alinhamento do esporte aos entraves econômicos seguiu a ótica das políticas neoliberais consolidadas na década de 80. Os Estados nacionais passaram a ter menos influência política e as corporações transnacionais mais influência econômica. A desestatização do esporte e a inclusão do mesmo no mercado mundial caracterizaram as mudanças impostas pela globalização (MOTA e BRAICK, 1997; LANCELOTTI, 1996; BRACHT, 1997; CAGIGAL, 1996).

O processo de mercantilização do esporte transformou as federações internacionais e o Comitê Olímpico Internacional em grandes corporações financeiras transnacionais, que teceram uma rede de filiais por todo o mundo através dos Comitês Olímpicos nacionais e das confederações nacionais. Estas corporações esportivas mantêm relacionamentos comerciais com grandes empresas patrocinadoras, tais como a Coca Cola, a Nike e a Adidas.

O volume de capital envolvido nas transações de patrocínio de eventos, de equipes e de venda de direitos de transmissão, gera interesses que ultrapassam as necessidades da prática esportiva. São interesses voltados ao mercado alvo, horários de transmissão, locais sede dos eventos, oportunidades comerciais. Estes interesses econômicos provenientes das relações entre as instituições esportivas, empresas patrocinadoras e corporações de mídia acabam por influenciar diretamente a realização esportiva, proporcionando mudanças nas regras dos jogos, horários de partidas desfavoráveis á prática esportiva, mas ideais para a audiência televisiva, valorização excessiva do espetáculo e do show em prejuízo das características da modalidade esportiva.


Considerações finais
Durante todas as eras históricas, o homem teve suas manifestações corporais e atléticas usadas para fins outros do que a prática em si. Este fato parece bastante comum nos tempos antigos, quando estas atividades faziam parte de outras instituições sociais, tais como a religião, a preparação militar ou guerreira, ou ainda a educação e preparação dos jovens para as tarefas da vida adulta.

No entanto, BRACHT (1997), afirma que estas atividades antigas não podem ser consideradas como esporte, pois este é um fenômeno moderno que surgiu a partir da regulamentação de jogos populares e da institucionalização oriunda do associacionismo clubístico. Com isso o esporte passou a representar um conjunto de atividades que possuem fim em si mesmas. As atividades esportivas modernas visam a melhor condição e desempenho humano, buscam o refinamento da habilidades com o intuito da competitividade e da vitória.

Porém, mesmo após a definição do esporte como instituição independente, continuou a ocorrer sua utilização por outras instituições da sociedade, assim como ocorria na antiguidade. Os valores do esporte foram utilizados pela sociedade civil, pela iniciativa privada, por instituições estatais e órgãos governamentais, por divisões militares, instituições educacionais e religiosas.

Assim o fenômeno que tem por finalidade elementar a prática de atividades corporais, foi apropriado por outras instituições, em função de seus valores e de sua fácil instrumentalização.

A instrumentalização do esporte seguiu uma tendência paralela ao desenvolvimento histórico da sociedade mundial. Foi utilizado pela burguesia como elemento disciplinador, higienista e alienador no berço da revolução Industrial, procedente do capitalismo. Foi usado como ferramenta de propaganda dos Estados, inflamando valores nacionalistas e até raciais, como no caso da Alemanha nazista. Também serviu de instrumento de intimidação política, estratégica e ideológica durante a Guerra Fria, quando o mundo se encontrava dividido em dois blocos políticos antagonistas. Finalmente foi incorporado ao mercado mundial seguindo as tendências neoliberais da globalização.

Estes fatos demonstram uma influência direta dos acontecimentos da sociedade no âmbito esportivo. Segundo BRACHT (1997), este fato se deve a neutralidade interna do esporte, que não produz ideologia própria e se torna susceptível a instrumentalização da sociedade.

Atualmente o esporte é caracterizado como uma mercadoria da Industria Cultural. O acesso a sua prática, ou seja, seu consumo está baseado nas leis de mercado. Os grandes eventos esportivos são vitrines deste produto, divulgadas amplamente na mídia constroem heróis que alimentarão este mercado.

Contudo apesar das influências sofridas e da utilização para fins políticos e econômicos, o esporte mantém em sua configuração primária, o embate esportivo, seus princípios fundamentais: a busca pelo ideal da vitória e o intuito de ser o melhor. Estes fatores, apoiados na regulamentação esportiva, sustentam a legitimidade do esporte.




Autor : Prof. Mário André Sígoli (msigoli@usp.br)


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