A história emocionante de um cristão chinês que levou sua fé às últimas conseqüências


"Aquiete-se e saiba que eu sou Deus''



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8. "Aquiete-se e saiba que eu sou Deus''



"E a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus."

(Fp 1.14.)


Sou grato a Deus por sua graça e seu chamado. Ele tem imenso poder para dar aos que crêem nele! Apesar da perseguição terrível que grassava por toda a China, eu e Deling nos preparamos para viajar para o Norte. Cantávamos juntos uma canção baseada na decla­ração corajosa do apóstolo Paulo em Atos 20.22-24:

E, agora, constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém, Não sabendo o que ali me acontecerá,

Senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura Que me esperam cadeias e tribulações.

Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo,

Contanto que complete a minha carreira

E o ministério que recebi do Senhor Jesus

Para testemunhar o evangelho da graça de Deus.

Continuamos a nos reunir com os crentes, encorajando-os a buscar a direção do Senhor. Durante uma reunião de oração, um servo do Senhor subitamente entregou uma profecia para nós:

"Na hora em que você e sua esposa forem para o Norte, enfrentarão um grande perigo. Mas não importa o que vai acontecer, Deus estará com vocês."

Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, eu e Deling pegamos o ônibus para a Comarca de Wuyang, no Norte. Vimos os cartazes com minha fotografia em muitos pontos de ônibus. Informavam meu nome e anunciavam que eu era um criminoso perigoso, um contra-revolucionário. Afir­mavam que eu era líder de uma organização antigovernista que incitava o povo contra a política religiosa do Estado.

Chegamos a uma cidade e descemos do ônibus para pe­gar outro. Eu estava de óculos escuros para esconder os olhos. Muitos na estação haviam visto minha fotografia e ouvimos os comentários. Um homem disse:

"O governo vai dar uma grande recompensa para quem ajudar a capturar esse fugitivo."

Por dentro, regozijávamo-nos por saber que o Senhor era nosso refúgio. Sentíamo-nos muito honrados em ser cri­minosos procurados por estarmos lado a lado trabalhando por Jesus. E uma grande honra ser humilhado por amor ao nome dele.

Os crentes de Henan eram completamente diferentes dos de Hubei. Estavam dispostos a arriscar a vida por nós e receberam os "criminosos" em suas casas. Quanto mais ten­sa a situação, mais desejavam mostrar amor e respeito aos servos de Deus.

Seguimos nossa jornada. Prepararam uma reunião em uma determinada vila. O Espírito Santo nos levou a cantar um poderoso hino intitulado Mártires Pelo Senhor:
Desde o nascimento da igreja no dia de Pentecostes,

Os seguidores do Senhor se dispuseram a se sacrificar.

Dezenas de milhares morreram para o evangelho prosperar,

E assim conquistaram a coroa da vida.

Coro:

Ser mártir pelo Senhor, ser mártir pelo Senhor,



Estou pronto a morrer em glória pelo Senhor.

Os apóstolos que ninaram o Senhor até o fim

De boa vontade o seguiram no caminho do sofrimento.

João foi exilado na solitária ilha de Patmos;

Estêvão, apedrejado até a morte pela multidão irada.

Mateus morreu apunhalado por uma multidão na Pérsia;

Marcos, quando dois cavalos separaram suas pernas;

O Dr. Lucas foi enforcado com crueldade;

Pedro, Filipe e Simão, crucificados.

Bartolomeu foi esfolado vivo pelos pagãos;

Tomé morreu na índia, despedaçado por cinco cavalos;

O apóstolo Tiago foi decapitado pelo rei Herodes;

Tiago, o pequeno, cortado ao meio por uma serra afiada.

Tiago, irmão do Senhor, foi apedrejado;

Judas, amarrado a um poste e atravessado por setas;

Matias foi decapitado em Jerusalém;

Paulo, mártir sob o poder de Nero.

Estou pronto a tomar a cruz e prosseguir,

Seguir os apóstolos no caminho do sacrifício.

Que dezenas de milhares de almas preciosas sejam salvas.

Estou pronto a deixar tudo e ser mártir pelo Senhor.
Terminamos de cantar, e o lugar foi abalado. Houve muito pranto. Levantei-me para falar sobre o sofrimento do Senhor. O Espírito Santo caiu sobre nós, e passamos a interceder com fervor por nossa nação. Dedicamo-nos mais uma vez à luta do Senhor.

A reunião acabou, todos foram dormir, mas Zhen, ir­mão humilde e fiel, ajoelhou-se no pátio e continuou oran­do por nossa nação. O Espírito Santo disse a ele, com toda clareza:

"Daqui a três dias, alguns de vocês serão presos e espan­cados por minha causa. Alguns morrerão."

Ele me contou isso, e senti que o Senhor estava falan­do comigo. Sussurrei uma oração:

"O, Pai, estou pronto a sofrer por causa do teu nome."

Orei com minha esposa, e sentimos que ela precisava voltar para casa a fim de consolar as famílias de muitos companheiros de ministério que estavam presos. Despedi-me dela, e os crentes a acompanharam até a estação de ônibus.

Nevou ininterruptamente durante os três dias da reu­nião. As casas mais antigas ruíram com o peso da neve no telhado. Um lençol branco de gelo e neve cobriu a vila, mas na reunião todos queimavam com o fogo de Deus.

O trabalho foi encerrado à meia-noite do terceiro dia, 17 de dezembro de 1983. Os donos da casa aqueceram água para lavar os pés dos participantes. Lavei os pés dos meus colaboradores com lágrimas. Eles insistiram comigo para eu me assentar. Tiraram minhas meias e lavaram meus pés com lágrimas, antes de recolocar meus sapatos, com a maior gentileza. Nossa reunião aconteceu em um lugar chamado "A Vila do Amor". Como esse nome se mostrou verdadei­ro!

Nós nos separamos, pois cada um iria descansar em di­ferentes casas de crentes. Antes de sairmos, o Irmão Zhang pegou seu grande cachecol e o deu para mim.

Quando deixamos o local da reunião, cerca de dez ho­mens com lanternas nos confrontaram nos arredores da vila. Gritaram:

"Quem são vocês? O que estão fazendo aqui?"

Nossos colaboradores percebendo que havia algo erra­do, deram meia-volta e fugiram. Também tentei escapar, mas não consegui.

Um homem, com um cassetete elétrico, correu em mi­nha direção e me deu um choque de centenas de volts. Ime­diatamente fui jogado para trás, e caí na neve. Uma dor horrível percorreu todo o meu corpo.

Eles me chutaram com as botas de ponta de metal e me deram coronhadas. Mais quatro irmãos também foram pre­sos. Naquela hora, ouvi uma voz bondosa que vinha do alto dizer apenas duas palavras:

"Eu sei!"

Entendi que a voz conhecida era a do meu Senhor Jesus, que, muitos anos antes, dissera aos crentes perseguidos de Esmirna: "Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram ju­deus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás. Não te­mas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida" (Ap 2.9,10).

Meu Senhor sabia o que eu estava enfrentando e tudo o que teria de suportar. Senti-me tremendamente encoraja­do!

A profecia do Irmão Zhen voltou à minha mente, e toda a dor me deixou. Um dos oficiais indagou:

- Qual é o seu nome? De onde você vem? Quantas pes­soas trabalham com você? Onde estão elas? Fale agora! Diga a verdade!

Inclinou-se para frente e falou em tom ainda mais ame­açador:

- Diga a verdade. Se você mentir, vou esfolar você vivo!

De repente, fiquei tenso. Lembrei-me de que ainda ha­via muitos irmãos e irmãs no local da reunião e que eles corriam risco. Só havia um pensamento em minha mente: avisá-los do perigo que estava por perto.

Imediatamente o Espírito Santo me fez lembrar da his­tória do Rei Davi, em que ele fingiu insanidade diante de Abimeleque.

Gritei, em voz bem alta:

- Sou um homem do céu! Moro na Vila do Evangelho! As pessoas me chamam de Estrela da Manhã! O nome do meu pai é Bênção Abundante! Minha mãe se chama Fé, Esperança, Amor!

Os policiais me chutaram com violência, me agarraram, me puseram em pé e gritaram:

- Que maluquice é essa que você está gritando? Pergun­tamos onde você mora e quem são seus companheiros!

Nesse momento eu estava virado para o Leste. Dei-lhes esta resposta:

- Eles estão naquela vila lá. Depois voltei a gritar:

- Fui capturado pela Polícia de Segurança! Sacudiram-me e mandaram que eu os levasse aonde es­tavam meus amigos:

- Mostre onde eles estão. Se você estiver mentindo, va­mos esfolar você vivo! ameaçaram, de cara fechada.

Fui andando adiante deles, gritando bem alto:

- Fui preso pela Polícia de Segurança! Não sei onde fo­ram as reuniões porque sou um homem do céu! Não sou deste mundo!

Gritava cada vez mais alto, desejando que meus amigos ouvissem e conseguissem fugir antes de serem presos.

Desse dia em diante, sem que eu tivesse a menor inten­ção, os crentes da China me deram o apelido de "Homem do Céu". Como se pode ver, não pedi para ser chamado assim, pois não passo de um frágil vaso humano. Entretan­to recebi esse apelido.

Em vez de fugir com minha gritaria, os irmãos e irmãs saíram para ver o que estava acontecendo! Achavam-se mais preocupados comigo do que com a própria seguran­ça.

Fui à frente dos oficiais pela neve, rumo à vila que ficava a Leste. Eles me agarraram e exigiram:

- Rápido, mostre em que casa! Leve-nos até lá! Fingi estar confuso e gritei:

- Ih, não é esta vila. Estou enganado! Meus amigos es­tão em outro lugar!

Jogaram-me no chão, me chutaram e bateram em mim. Usaram de novo o cassetete para me dar choques. Sei que teria morrido se o Senhor não tivesse me protegido.

Os irmãos nos seguiam de longe, em silêncio. Viram o castigo que me infligiam, ficaram aflitos e começaram a orar. Os oficiais notaram a presença deles.

Eu não queria que eles corressem risco, então gritei de novo:

- Sou um homem do céu. Não sei onde foi a reunião. Não conheço nenhuma dessas pessoas que estão nos se­guindo. O homem do céu nunca será Judas! Conheço ape­nas o Senhor do céu.

Os irmãos perceberam que eu os estava avisando do pe­rigo. Deram meia-volta e fugiram.

Os policiais ficaram furiosos ao ver que eu os enganara. Eu e os outros quatro que haviam sido presos junto comigo fomos empurrados e colocados na carroceria de um trator. Seríamos levados assim até a cidade de Wuyang. Fomos todos amarrados em uma só corda, como o gado que vai para o matadouro. Em pé ali, cantei bem alto:
Primeiro vem o sangue, depois o óleo da unção.

Primeiro temos de ser limpos,

depois recebemos a bênção do Senhor.

Primeiro passamos pelo Calvário, depois virá o Pentecostes.

Cruz, cruz, para sempre minha glória.

O sangue dele apagou meus pecados.

Só pelo sangue de Jesus.
Colocaram-nos em uma cela dentro do posto policial. A temperatura estava muito abaixo de zero. Não havia ne­nhum tipo de aquecimento, e os oficiais haviam tirado meu casaco e o jogado na neve. Tremíamos, e nossas pernas e braços foram ficando roxos. Quase perdemos a

consciên­cia. As algemas geladas cortavam como faca nossos pulsos inchados.

Usei as algemas para bater na porta e nas janelas de ferro. Olhei em volta e vi vima caixa de madeira quebrada em um canto da cela. Dentro dela havia um velho tambor. Bati nele com as algemas, fazendo muito barulho. Com toda a força dos meus pulmões, cantei o Salmo 150:
"Aleluia!

Louvai a Deus no seu santuário;

louvai-o no firmamento, obra do seu poder.

Louvai-o pelos seus poderosos feitos;

louvai-o consoante a sua muita grandeza.

Louvai-o ao som da trombeta;

louvai-o com saltério e com harpa.

Louvai-o com adufes e danças;


Quanto mais eu cantava, mais me enchia de alegria. Levantei-me e louvei o Senhor. Pouco a pouco, voltei a sen­tir minhas mãos e pés e parei de sentir frio. Os quatro ir­mãos se ajoelharam e oraram com fervor pela China. O vento cortante assobiava fortemente do lado de fora, mas dentro da cela ouviam-se gemidos de intercessão.

O barulho do tambor e da cantoria irritou profundamen­te os guardas, mas eles não quiseram deixar a cama quenti­nha para me fazer parar. Durante toda a noite, nós cinco encorajamos e fortalecemos uns aos outros. Aprendemos, exatamente como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que há liberdade onde o Espírito do Senhor está, seja em uma cela congelada ou em uma fornalha de fogo. Aleluia!

Na manhã seguinte, os guardas abriram a porta da cela e nos levaram para o pátio. O chão estava coberto por uma camada grossa de neve. Tiraram as algemas dos outros qua­tro e lhes disseram:

- Vocês vão limpar a neve do pátio. Mas esse "homem do céu" maluco vai ficar algemado. Na noite passada ele fez muito tumulto e nos acordou cantando e batendo no tambor.

O chefe deles balançou o cassetete elétrico na frente de meu rosto e disse:

- Agora quem vai ficar acordado é você!

Mandou que eu me ajoelhasse na frente dele, ao que eu protestei com veemência:

- Não vou me ajoelhar na sua frente. Só me ajoelho di­ante do meu Deus!

Em tom arrogante, ele declarou:

- Eu sou o seu senhor! Sou seu deus! Se você se ajoe­lhar, eu posso libertar você agora mesmo.

Irado, respondi a ele:

- Em nome de Jesus, você não é meu deus! Não passa de um funcionário deste mundo. Meu Senhor está no céu. Sou um homem do céu!

Ele ligou o cassetete e rosnou:

- Se você é um homem do céu, não vai ter medo deste cassetete elétrico. Vamos, pegue-o com as mãos!

Vários guardas agarraram meus braços e me obrigaram a estender as mãos. Em um instante, fui atingido por cente­nas de volts de corrente elétrica, que pareciam picadas de escorpião ou milhares de setas atravessando meu coração. Sentindo que estava prestes a morrer, clamei:

- Senhor, tem misericórdia de mim! Imediatamente o cassetete parou de funcionar! Ninguém

conseguia mais ligá-lo!

Abri os olhos e encarei o guarda que ousara dizer que era "deus". Ele estava apavorado. Apesar do frio, achava-se coberto de suor! Virou-se e fugiu o mais rápido que pôde!

Os quatro irmãos haviam testemunhado o fato e, ao ver os policiais colocarem minha mão no cassetete, oraram a Deus, pedindo que ele tivesse misericórdia de mim.

Na manhã seguinte, fomos enfiados numa van e leva­dos para a prisão de Wuyang.

Eu sabia que havia muitos cristãos dentro daqueles mu­ros. Na tentativa de encorajá-los, fui gritando, desde que entrei no pátio até chegar à cela:

- Um homem do céu foi preso. Não sou como Judas! Nunca trairei meu Senhor!

Chegamos a uma cela, e o guarda me deixou lá com o Irmão Zhen e outros dez homens.

Minutos depois, ouvi que o portão da cadeia voltava a se abrir. Mais alguns crentes entraram. O guarda na entra­da perguntou a um deles:

- Você é um homem do céu ou é da Terra? Ele respondeu:

- Não sei do que você está falando.

Os guardas queriam descobrir quais dos cristãos que ha­viam acabado de prender eram como o homem do céu. Por fim, o irmão declarou:

- Sou da Terra, não sou do céu. O guarda disse a ele:

- Já que você é da Terra, vai passar a noite na cela de um homem do céu.

Quando ele entrou, eu me encontrava ajoelhado, oran­do. Fitei-o com muita seriedade.

Meu espírito estava irado porque ele havia negado ser crente para facilitar as coisas.

Com grande fervor, gritei:

- Você tem de dizer Não! Não! Não! Não ao diabo! Levantei-me e continuei a gritar:

- Tem de dizer Não! Não! Não ao diabo!

Ele ficou olhando para mim, e usei meu indicador direi­to para escrever a palavra "não" na parede. Pressionei o dedo com tanta força no cimento áspero que ele ficou dor­mente e começou a sangrar. Com o sangue, escrevi: "Não! Não! Não! Não tenha medo! Não confie nos homens, confie apenas em Jesus!"

Ao ver as palavras escritas com meu sangue, o irmão foi tomado de grande vergonha e convicção do pecado de abrir mão do seu testemunho. Curvou a cabeça e derramou lá­grimas de arrependimento. Depois de ser solto, tornou-se líder de uma igreja em sua cidade.

Senhoras cristãs que moravam por perto souberam que estávamos presos. De noite, atravessaram a neve com difi­culdade para trazer para nós os melhores cobertores e ca­sacos que possuíam. Uma das mais velhas cruzou a neve de muletas. Era grande assim o amor delas pela família de Deus!

Chegaram à prisão e disseram aos guardas que haviam levado aqueles presentes para as pessoas do céu. Eles per­guntaram:

- Para quem? Elas responderam:

- Para as pessoas do céu.

Como estava na cela mais próxima ao escritório da pri­são, ouvi toda a conversa. Meu coração se encheu de grati­dão pelo amor delas. Gritei para elas ouvirem minha voz:

- Sou um homem do céu!

Na manhã seguinte, os guardas trocaram os presentes. Ficaram com as roupas e o cobertor bom e jogaram dentro da cela um cobertor esfarrapado. Um deles roubou tam­bém umas botas novas que elas haviam levado. O cobertor que recebi era um trapo velho, mas o amor daquelas irmãs me conferiu muita fé e coragem.

Havia dezenas de cristãos nessa cadeia, e todos enfren­taram surras e torturas horríveis por amor a Deus. O Se­nhor nos concedeu paciência e sabedoria para lidar com os perseguidores.

As autoridades da prisão gostavam de instigar os prisio­neiros mais violentos a espancar os demais. Ofereciam re­dução de sentença e os subornavam com promessas de re­feições melhores se concordassem em fazer o trabalho sujo para eles.

Nossa refeição consistia em uma pequena tigela com ra­banete e puré de batata-doce mofado. Uma vez por sema­na recebíamos um mantou - pequeno pão cozido no vapor. Os prisioneiros viviam com fome, de modo que a chegada do pão era uma grande ocasião.

Uma noite, após receber meu precioso mantou, ajoelhei-me, fechei os olhos e agradeci ao Senhor, segurando-o com as mãos levantadas. Estava ainda de olhos fechados quan­do um dos prisioneiros pegou meu pão.

Um guarda o viu roubar meu mantou e o esconder no bolso da camisa. Eles o espancaram sem piedade e manda­ram os outros prisioneiros também baterem nele. Depois o forçaram a ajoelhar-se dentro do mictório e lambuzaram a cabeça dele com dejetos humanos.

Como bárbaros irracionais, seguraram a cabeça dele dentro do mictório até ele quase se afogar.

Senti-me muito culpado! Chorei alto, sem conseguir me controlar, diante do que aconteceu com meu colega de cela.

Clamei ao Senhor:

- Oh, Deus, tem misericórdia de mim! Tem misericór­dia de mim! Por favor, perdoa-me!

Na manhã seguinte, os guardas me tiraram da cela e praticaram artes marciais em meu corpo. Chutaram-me, me prenderam no chão e mandaram que vários outros pri­sioneiros pisassem em meu peito e nas partes íntimas. O sangue jorrava da minha boca. Fiquei tonto, sentia muita dor. Tive certeza de que ia morrer.

Até esse dia, eu e o Irmão Zhen - embora estivéssemos na mesma cela - fingíamos não nos conhecer. Os guardas ficariam furiosos se soubessem que dois cristãos estavam juntos, encorajando um ao outro.

Mas, ao ver o que aconteceu no pátio, Zhen correu para mim, abraçou-me e chorou:

"Homem do Céu, meu querido irmão!"

Usou as mangas da camisa para limpar o sangue do meu nariz e da minha boca.

O Irmão Zhen foi para mim como um anjo. Sempre me encorajava com versículos que me davam esperança. Os outros prisioneiros e os guardas sentiam que ele era bondo­so e caridoso e gostavam dele.

Poucos dias depois, o DSP mandou uma viatura para levá-lo de volta à cidade dele, para o julgamento. Eles gri­taram:

- Zhen, prepare-se! Está na hora de ir embora.

Ele não queria me deixar. Choramos e nos ajoelhamos juntos para orar.

- Vá em paz, disse eu.

Esse homem de Deus foi afastado da nossa prisão e da nossa vida.

Ele havia partido, mas o ensinamento dele permaneceu. Alguns prisioneiros começaram a comentar entre si:

"Precisamos acreditar em Jesus."

Como resultado, deixaram de me tratar com crueldade.

Um dos mais jovens era incrédulo, apesar de a mãe dele ser crente. Ficou alguns dias na minha cela e descobriu que eu não era louco, como os guardas haviam falado. E ele contou aos outros prisioneiros:

"Yun não é louco. É um homem que está pagando um alto preço por sua fé em Deus."

Movido por amor e compaixão, tirou seu casaco e me deu. No dia seguinte, foi libertado da cela para trabalhar na cozinha. Um pouco mais adiante, recebeu autorização para ir para casa e tornou-se discípulo de Jesus Cristo, com­prometido com o Senhor.

Naqueles dias na prisão, fui interrogado muitas vezes. Eles viram que haviam capturado um "peixe grande", mas não conseguiam descobrir minha verdadeira identidade. Usaram todas as técnicas conhecidas para saber de onde eu era, para pegar meus companheiros. Recusei-me a res­ponder às perguntas, e com isso frustrei todos os planos deles. Jamais delataria os irmãos e irmãs da minha igreja.

Como eu não revelava minha identidade, as autorida­des da Comarca de Wuyang enviaram cartas a todas as outras comarcas de Henan, pedindo que alguém fosse até lá para tentar me identificar. Vários oficiais do DSP de ou­tras comarcas foram e partiram decepcionados por eu não ser quem eles estavam procurando. Os guardas telefona­ram para toda a província, tentando descobrir quem eu era.

Finalmente, mais de cinco semanas depois que eu fora preso, me identificaram. No dia 25 de janeiro de 1984, por volta das 8:30h da manhã, chegaram oficiais do DSP da Comarca de Nanyang. Reconheceram-me imediatamente. Isso os deixou exultantes. Eles me falaram:

- Você conseguiu enganar a polícia daqui fingindo ser maluco, mas não vai nos enganar! Mesmo desfigurado, nós ainda o reconheceríamos. Fugiu muitas vezes e nos fez pa­recer estúpidos, mas não vai escapar agora!

Esbofetearam-me e algemaram minhas mãos atrás das costas. Disseram:

- Vamos! Você vai voltar para Nanyang, e vamos tra­tar de você quando chegarmos lá.

Agradeceram aos funcionários do DSP por terem cuida­do de mim e me jogaram na parte de trás da viatura. Pren­deram a algema em uma barra de ferro no teto da van. Fecharam a porta e me bateram usando os punhos e os cassetetes, deixando-me muito ferido.

Percorremos estradas esburacadas o dia todo. Com os solavancos, as algemas fizeram cortes tão fundos em meus pulsos que o sangue espirrou para todo lado, manchando as laterais da van. Até os ossos dos meus pulsos ficaram expostos. A agonia era tanta que eu mal conseguia respi­rar. Estava prestes a perder a consciência, por causa da dor e da perda de sangue.

Clamei ao Senhor:

"Jesus, não suporto mais. Por que permites que eu seja torturado assim? Por favor, receba meu espírito agora."

Ao ouvir minha oração, os guardas que viajavam na tra­seira da van ligaram o cassetete elétrico e me deram cho­ques. A dor foi demais para mim. Senti que meu coração e meu cérebro iriam, literalmente, explodir.

Voltei a clamar ao Senhor:

- Oh, Deus, tem misericórdia de mim. Por favor, receba meu espírito agora.

A palavra do Senhor veio, com toda clareza:

- A razão de você sofrer é para que participe do meu sofrimento. Aquiete-se e saiba que eu sou Deus. Serei exal­tado entre as nações. Serei exaltado na Terra.

Meu coração orgulhoso pensava que eu era importante para a igreja, que as pessoas precisavam da minha lideran­ça. Ali entendi claramente que ele é Deus, e que eu não passo de um homem insignificante. Percebi que ele não pre­cisa de mim para nada, e que, se algum dia decidisse me usar de novo, isso seria para mim nada mais do que um grande privilégio.

O medo e a dor desapareceram subitamente.

Por fim a van alcançou as ruas de Nanyang, minha ci­dade. A velocidade diminuiu. Vi, pelas janelas, cartazes dos dois lados da rua, anunciando:

"Alegrem-se e cumprimentem o Departamento de Se­gurança Pública! Yun, o cristão contra-revolucionário, que veste suas atividades criminosas com a capa da religião, foi capturado!"

"A prisão do contra-revolucionário Yun é uma grande notícia para o povo de Nanyang!"

"Abaixo o reacionário Yun e seus companheiros! Seja firme e rejeite as reuniões cristãs ilegais lideradas por Yun!"

Os guardas ligaram a sirene para se gabar da grande vitória que foi a minha prisão. A notícia se espalhou rapi­damente, e as pessoas corriam até a van para me ver.

No entanto eu não sentia mais medo. O Senhor já falara comigo: "Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova... Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a co­roa da vida" (Ap 2.10).




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