A história emocionante de um cristão chinês que levou sua fé às últimas conseqüências



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10. A prova de fogo



Em tudo somos atribulados, porém não angustiados, perplexos,

porém não desanimados; perseguidos, porém não desampara­dos; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo." (2 Co 4.8-10.)
Durante o jejum, embora meu corpo estivesse muito fraco, meu espírito se achava alerta, e continuei confiando no Senhor. Sabia que a graça dele era suficiente para mim.

Entendi o que Deus me falou e continuei em jejum de­pois dos quarenta dias. Orava constantemente e buscava o perdão e a misericórdia dele não só para mim, mas tam­bém para minha família, a igreja e nosso país. Citava muito o Salmo 123.1,2: "A ti, que habitas nos céus, elevo os olhos! Como os olhos dos servos estão fitos nas mãos dos seus se­nhores, e os olhos da serva, na mão de sua senhora, assim os nossos olhos estão fitos no Senhor, nosso Deus, até que se compadeça de nós".

Assim, Deus aceitou o desejo do meu coração de conti­nuar a jejuar e orar. Entrei em uma batalha espiritual mui­to intensa, como nunca havia experimentado antes.

Gostaria de me deter um pouco e explicar o que ocorre quando recebo um sonho ou visão do Senhor. Não aconte­ce com frequência; em geral se dá quando Deus deseja me comunicar alguma coisa urgente. Todas as visões que já recebi foram bem curtas, normalmente duram apenas um ou dois segundos. Muitas não passam de um quadro ou cena que cruza meu espírito e minha mente, mas é algo tão vívido e real que sei que veio do Senhor.

Os cristãos não devem viver por visões e sonhos, nem buscá-los. Nossa obrigação é seguir a Palavra de Deus e buscar a face de Jesus. Contudo precisamos nos manter abertos para que ele fale conosco da forma que desejar. Toda visão e todo sonho que recebemos precisam ser avaliados com cuidado diante das Escrituras, pois uma mensagem vinda de Deus jamais entrará em contradição com a Bíblia.

Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, Deus fa­lou a seu povo através de sonhos e visões. E a Bíblia declara isto sobre os últimos dias: "E acontecerá, depois, que derra­marei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vos­sas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jo­vens terão visões" (Jl 2.28).

Em todos esses anos, o Senhor me deu apenas uma ou duas visões que enxerguei de olhos abertos - uma cena real, visível a meus olhos e não apenas uma impressão interior. Uma delas aconteceu na noite do 40º dia do meu jejum.

Vi uma forte tempestade de areia, uma imensa mancha amarela, vindo do deserto. Carregava milhões de vespas, co­bras, escorpiões e lacraias, todos venenosos. O vento arran­cou o telhado da minha casa. A base dela permaneceu fir­me, embora o telhado tenha ficado destruído e as paredes, rachadas. As criaturas venenosas começaram a me atacar.

Naquela hora, voltei-me e me deparei com uma prosti­tuta nua. Ela abrira a saia para se expor, e me convidou a me aproximar dela para me esconder. Fiquei confuso. Por um lado, queria fugir das criaturas que me picavam e me causavam dor, mas não sentia a menor vontade de correr para os braços da prostituta.

Eu não sabia o que fazer. De repente, minha mãe surgiu na minha frente. O rosto dela brilhava de paz. Com amor, ela disse:

"Meu filho, deite-se logo."

Entregou-me um grande pedaço de pão e me ordenou:

"Filho, coma imediatamente."

Os milhares de milhares de vespas, cobras, escorpiões e lacraias continuaram a me atacar. Eu não suportava mais a dor, então gritei:

"Senhor, ajuda-me!"

Minha própria voz me despertou da visão. Vi que já era quase meia-noite e eu continuava na minha cela.

A experiência foi tão real que demorei para entender que tinha sido apenas uma visão.

Mais tarde, ainda na mesma noite, adormeci e recebi outro sonho do Senhor. Foi curto, e não entendi o seu signi­ficado. Vi que alguém me carregava para uma sala de pa­redes brancas. Lençóis brancos me cercavam. Um homem de roupa branca me disse:

"Estenda a mão sobre o lençol."

Quando obedeci, surgiu no pano a marca vermelha da palma da minha mão. Não entendi como ela surgiu, pois não havia tinta, nem nada mais na minha mão.

Acordei e não conseguia entender o que aquilo queria dizer, mas sabia que o Senhor me mostraria o significado no momento certo.

Coloquei a mão no Irmão Li, que estava perto de mim, e cochichei:

"Amanhã vou passar por outra provação e vou sofrer mais por Jesus. Por favor, ore por mim."

Ele resmungou alguma coisa e tornou a dormir.

No dia seguinte, por volta das 9:00h da manhã, ouvi alguém gritar:

"Tragam Yun para fora!"

As dobradiças de metal da porta da nossa cela rangeram.

O Irmão Li me carregou até a sala de interrogatório, pois eu estava fraco demais para andar. Li era novo convertido. Antes de se encontrar com o Senhor, era conhecido como um ladrão violento e implacável. Recebeu a incumbência de me vigiar atentamente e relatar todos os meus atos aos guardas. Eu sabia que o governo o colocara em minha cela como informante.

Depois de passar algum tempo em minha companhia, ele percebeu que eu era apenas um pastor. Viu a consistência da minha vida e como Deus me sustentou com seu po­der durante o jejum. Notou que eu vivia o que ensinava e que não era criminoso. Certo dia, enquanto me carregava de volta para a cela, inclinou-se e cochichou:

"Eu agora creio no seu Jesus."

Tornou-se um irmão muito amado.

Antes de o interrogatório começar, senti que Deus esta­va ao meu lado e que ele era minha força e minha alegria, como escreveu o salmista: "O Senhor, tenho-o sempre à minha presença; estando ele à minha direita, não serei aba­lado. Alegra-se, pois, o meu coração, e o meu espírito exulta; até o meu corpo repousará seguro" (Sl 16.8,9).

Quanto mais meditava na graça de Deus, mais fé eu re­cebia.

O Irmão Li orava em voz baixa enquanto me carregava, pois eu havia dito a ele que iria passar por uma grande provação. Os oficiais mandaram que ele me colocasse no chão e assentasse em algum lugar para esperar.

Nesse dia, dois novos oficiais me interrogaram. Recusei-me a falar. Limitei-me a fechar os olhos e ficar deitado. Um deles me chutou e gritou:

- Yun, hoje você vai falar!

O outro abriu meus olhos à força e disse:

- Olhe à sua volta, Yun! Temos vários métodos para lidar com gente como você. Se não quiser falar, vamos obrigá-lo!

Dessa vez, haviam providenciado vários instrumentos de tortura, inclusive chicotes e correntes.

Outro oficial aproximou-se com um cassetete elétrico. Colocou a voltagem no máximo e golpeou meu rosto, mi­nha cabeça e várias outras partes do corpo. Imediatamente rui tomado de uma agonia insuportável, como se milhares de setas atravessassem meu coração.

O Espírito Santo me encorajou com três versículos:
"Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca;

como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda

Perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca." (Is 53.7.)
Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que

também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exem­plo para

seguirdes os seus passos." (1 Pe 2.21.)
"Bem-aventurado o homem que suporta, com perseve­rança, a provação;

porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor

prometeu aos que o amam." (Tg 1.12.)
Enquanto eu meditava na Palavra de Deus, ele me forta­leceu para suportar tudo aquilo. Entendi que todo sofrimen­to que eu pudesse vir a enfrentar não seria nada, se compa­rado ao que Jesus suportou na cruz por mim, e que nenhu­ma dor estava além de sua compreensão e compaixão. "Por­que não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado." (Hb 4.15.)

O Senhor bloqueou parte da dor que seria normal eu sentir. Os policiais pisavam em minhas mãos e pés, e me davam um choque atrás do outro. Puxavam minhas pálpe­bras, lábios, orelhas e outras partes do corpo para me hu­milhar.

Eu, porém, continuei me recusando a falar. Eu não pas­sava de um monte de pele e ossos, quase morto, jogado, sem movimento, sobre o cimento frio.

Percebendo que o método não estava funcionando, um dos oficiais subitamente mudou de atitude e passou à per­suasão. Disse:

- Parem! Esperem um pouco! Yun, vou lhe dar mais uma chance. Se você confessar hoje seus crimes contra o gover­no e concordar em frequentar a Igreja dos Três Poderes, nós o libertaremos. Podemos até permitir que você seja pre­sidente da seção regional do Movimento Patriótico das Três Autonomias! Deixaremos de investigar seus crimes anteri­ores e lhe perdoaremos.

Depois chutou-me mais uma vez e perguntou:

- Yun, você ouviu o que eu disse? Aceita minha pro­posta? Responda imediatamente!

Antes de responder, lembrei-me da prostituta que tenta­va me atrair para a segurança.

Subitamente meu espírito se separou do corpo, e vi outra vez cobras, escorpiões, vespas e lacraias que haviam me atacado e quase me matado quando eu estava no chão. Entendi por que Deus me dera a visão na noite anterior.

Os oficias experimentaram o uso da brutalidade e de­pois o da sedução para me vencer, mas o Senhor me capa­citou a resistir a ambas as táticas.

Vendo que os métodos utilizados não produziam o efei­to desejado, mandaram o Irmão Li me carregar até a clíni­ca do presídio.

Fui levado para lá e logo entrou na sala um homem bai­xo e gordo, vestido de branco. Ele se dirigiu aos quatro guar­das que haviam me acompanhado e lhes pediu:

- Por favor, deixem-me sozinho para examinar Yun. Quando eles saíram, o médico, sorrindo com maldade, me disse:

- Yun, eu posso fazer você falar. Esta agulha aqui vai ajudar a resolver seu problema. Ela vai fazê-lo falar.

Chamou os guardas de volta. Então pegaram minhas mãos e meus pés e me prenderam na cama. Em seguida separaram meus dedos e seguraram minha mão, com a pal­ma para baixo, sobre uma tábua. O médico pegou em sua bolsa uma agulha grande, marcada com o número 6. Co­meçando pelo polegar esquerdo, enfiou a agulha por baixo de uma unha de cada vez.

Não sou capaz de descrever o que senti. Foi a dor mais excruciante que já sofri. A dor intensa percorreu todo o meu corpo. Não consegui deixar de gritar. Vacilando entre a consciência e a perda dela, não sabia dizer se estava no meu corpo ou separado dele.

Quando o médico chegou ao dedo médio, o Senhor, mi­sericordiosamente, permitiu que eu desmaiasse e não sen­tisse mais a dor que me era infligida.

Ao acordar, não sentia nada nas mãos nem nos dedos, mas ondas de dores terríveis percorriam todo o meu corpo. A despeito do frio, eu estava coberto de suor, da cabeça aos pés. Entendi meu sonho: eu vira a marca das minhas mãos ensanguentadas no lençol branco.

Depois o Irmão Li me contou que não sabia o que estava acontecendo. Foi obrigado a ficar do lado de fora, na outra ponta do corredor. Ele ouviu o médico gritar, quando co­meçou a me torturar:

"Yun, pegue essa sua teimosia e vá se encontrar com seu Deus!"

O Irmão Li ouviu que eu gritava como um animal feri­do, mas a única coisa que podia fazer era orar. Então cur­vou a cabeça e rogou a Deus que preservasse minha vida.

Ao voltarmos para a cela, os outros prisioneiros pergun­taram o que havia de errado comigo. O Irmão Li caiu com o rosto em terra e começou a soluçar incontrolavelmente. Assim que conseguiu se controlar, explicou o que tinha acon­tecido. Todos sentiram pena de mim e até os criminosos mais cruéis ficaram com os olhos cheios de lágrimas quan­do tomaram conhecimento de tudo.

Agradeço a Deus por ter me protegido e me preservado durante essas provações. Eu sabia que ele estava usando a ira dos perversos para cumprir os propósitos dele para mim, acabar com meu egoísmo e minha obstinação. Ensinou-me a esperar nele, a suportar as dificuldades com paciência e a amar mais os irmãos em Cristo.

Depois dessas torturas, senti que as palavras de Davi no Salmo 102.4,5 se encaixavam exatamente à minha situa­ção: "Ferido como a erva, secou-se o meu coração; até me esqueço de comer o meu pão. Os meus ossos já se apegam à pele, por causa do meu dolorido gemer".

Apesar de terem me perfurado, me chutado e me dado choques, nem os oficiais nem o médico conseguiram o que queriam. Com isso, ficaram furiosos. Então elaboraram ou­tro plano. Certa manhã, ouvi o portão da cadeia se abrir. Um dos homens da minha cela subiu para olhar pela jane­la. Viu entrarem oficiais do DSP, bem vestidos, que ordena­ram aos guardas:

"Tragam Yun para fora!"

Mandaram o Irmão Li me enrolar em meu cobertor e me carregar. Um triciclo, com um carro lateral, esperava do lado de fora do portão, para me levar ao Hospital de Nanyang. Ali um médico me examinou e concluiu:

"Yun não tem nenhum problema sério, a não ser desi­dratação. Precisa receber soro na veia."

A enfermeira preparou dois frascos de soro. Fechei os olhos e ouvi o estalido das máquinas fotográficas enquanto ela examinava meu braço. O médico disse a ela:

"Ele está magro demais, não vamos conseguir encontrar nem uma veia. Vamos ter de enfiar a agulha no braço dele."

Os médicos e as enfermeiras estavam apenas represen­tando para os repórteres e cinegrafistas, que tinham sido chamados para testemunhar a cena arranjada.

Como não conseguiram pegar a veia, deixaram-me em uma maca no corredor. Quem passava me olhava com des­prezo. "Todos os que me vêem zombam de mim; afrouxam os lábios e meneiam a cabeça: Confiou no Senhor! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer." (Sl 22.7,8.)

Eu era uma figura horrível, deplorável. Como disse o apóstolo Paulo: "Porque nos tornamos espetáculo ao mun­do, tanto a anjos, como a homens... até agora, temos che­gado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos" (1 Co 4.9,13).

Por fim, a enfermeira enfiou a agulha de qualquer jeito no músculo mesmo, porque já estava irritada por não con­seguir encontrar nem uma veia. Os repórteres continua­vam esperando, e a equipe médica se achava perturbada com a demora. Esvaziaram dois frascos de soro no múscu­lo do meu braço, que inchou imediatamente e me causou um sofrimento imenso.

Os médicos e as enfermeiras não ligariam a mínima se eu morresse. Fizeram apenas uma encenação para a im­prensa, para "provar" que o Estado se preocupava comi­go. As autoridades tinham certeza de que eu iria morrer logo e queriam mostrar que haviam tentado me "ajudar".

Levaram-me de volta à prisão, onde me aguardava ou­tra sessão na sala de interrogatório. Fechei os olhos, mas de novo os oficiais forçaram minhas pálpebras com os dedos para abri-las. Fizeram o que quiseram, zombaram de mim, mas não conseguiram me obrigar a falar.

Dois oficiais me levaram de volta à cela. Jogaram-me no chão, tomaram meu cobertor e usaram dois cassetetes elétricos para me dar choques e me golpear de novo.

Foi uma hora tenebrosa para mim.

Dessa vez, meus colegas de cela não sentiram pena. Mais cedo, enquanto eu estava sendo torturado, os funcionários da prisão haviam falado a eles:

"Yun é um homem perverso, criminoso, anti-governista. Ele sabe que cometeu crimes muito graves, por isso está fingindo ser louco. Mas descobrimos o plano dele. A greve de fome é para manchar a imagem do nosso governo. Hoje o examinaram no hospital e constataram que ele não tem nenhuma doença. Sendo assim, daqui em diante vamos tratá-lo como ele nos trata. Vocês, prisioneiros, precisam tomar cuidado com esse contra-revolucionário. A presença dele nesta cela trouxe má sorte para vocês. Afastem-se dele e nos informem se ele fizer alguma coisa suspeita. Quem fizer isso será recompensado com a diminuição da pena."

Desse modo, com a promessa de uma recompensa, os ou­tros prisioneiros (exceto o Irmão Li) foram levados a me odiar.

Entre meus companheiros de cela havia condenados à prisão perpétua e outros com sentenças variando de dez a vinte anos. Carregavam muito ódio no coração, e a oferta de pena mais branda era uma recompensa boa demais; não podiam ignorá-la.

Daí em diante, passou a ser difícil até sobreviver dentro da cela. Se não fosse a proteção e a misericórdia de Deus, eu teria morrido, com toda certeza.

Havia 15 ou 16 prisioneiros em nossa pequena cela. To­dos evacuavam no mesmo vaso. Pegaram minha roupa de cama e a encharcaram de dejetos humanos. O cheiro era pavoroso.

O líder da cela, indicado pelos guardas, urinou delibera­damente em meu rosto e mandou que os outros o imitas­sem. Assim, todos - exceto o Irmão Li - urinavam sempre em mim, enquanto davam gargalhadas e zombavam. Foi uma humilhação tremenda, mas eu estava fraco demais para protestar. Sofria por dentro, mas suportei em silêncio.

Pensei nas palavras de 1 Pedro 2.23: "Pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente".

Meditei também na promessa de Jesus: "Bem-aventurados sois quando os homens vos odiarem e quando vos ex­pulsarem da sua companhia, vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como indigno, por causa do Filho do Homem. Regozijai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vos­so galardão no céu" (Lc 6.22,23).

Além de tudo isso, os guardas passaram a tratar meus companheiros de cela com mais crueldade ainda. Então eles me odiavam cada vez mais e me culpavam por terem o sofrimento aumentado.

Todo dia, em uma hora determinada, os prisioneiros iam ao pátio para se exercitar. Uma tarde, também fui levado, e os guardas mandaram que me jogassem no tanque séptico que recebia os dejetos de todos os prisioneiros.

Os guardas urinaram em mim e tentaram me obrigar a defecar, mas, como fazia tanto tempo que eu não comia, isso era impossível. Meu corpo estava reduzindo a quase nada. Pesava apenas 30kg.

Os guardas me davam um choque atrás do outro e me forçavam a andar como um cachorro no meio das fezes humanas. Chutaram-me com as botas de ponta de metal e me obrigaram a rolar no excremento.

Chegaram a usar os cassetetes elétricos dentro de minha boca. Não há como descrever a dor que senti. Pensei que meu cérebro fosse explodir. Até hoje minha mente e meu corpo tremem quando me lembro dessas experiências. Eu queria morrer para me livrar da dor.

Em vez de buscar palavras para descrever o que senti, limito-me a citar as do salmista: "Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam. Contra mim abrem a boca, como faz o leão que despedaça e ruge. Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro de mim. Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da morte" (Sl 22.12-15).

Finalmente, perdi a consciência.

Todos os outros prisioneiros testemunharam esses fatos. Os guardas queriam que eles zombassem de mim e me hu­milhassem. Uns obedeceram, mas outros não suportaram o que viam e choraram muito.

Meu cunhado estava na prisão na mesma época que eu, em outra cela. Quando viu meu estado, saiu correndo do grupo e tentou me ajudar. Os guardas deram choques nele e o chutaram, gritando:

"Quem você pensa que é? Saia daqui!"

Assim que a corrente elétrica o atingiu, ele caiu desmaiado.

Chegou março de 1984. O longo inverno terminava e não nevava mais, embora as manhãs continuassem frias. Eu tremia por causa do vento frio, porque vestia apenas trapos e roupas rasgadas que os outros prisioneiros tinham me dado.

Certa manhã, fizemos fila para ir ao banheiro, mas eu estava tão fraco que não ficava em pé. Então os guardas me mandaram ficar apoiado na parede.

Lembrei-me da noite em que fui preso, quando os irmãos Zhang e Zhen, e também outros companheiros, haviam la­vado meus pés com tanto amor. Lembrei do belo cachecol que Zhang me dera, dizendo:

"Este cachecol vai protegê-lo do frio."

Sentia que meus amados irmãos e irmãs estavam sem­pre comigo, mesmo na prisão. O companheirismo gostoso deles me dava grande consolo. O cachecol, enrolado em volta da cintura, continuava a me aquecer. Com isso, eu sentia que ainda estava ligado aos crentes.

Naquele dia, fui deixado sozinho no muro, até o pôr-do-sol. Então mandaram o Irmão Li me buscar e me carregar de volta para a cela. Quando entrei, descobri que os guar­das ainda não haviam se esquecido de mim. Arrancaram o cachecol da minha cintura. Eu tinha uma pequena caneca de porcelana que ficava amarrada no cachecol. Pertencia à minha família e era decorada com cruzes azuis pintadas. Aquele objeto me fortalecia, me lembrava da cruz de Jesus e também do amor da minha família. Os prisioneiros a desamarraram e a lançaram no mictó­rio. Jogaram o cachecol também no meio do excremento humano.

Fui tomado de dor e ira. Lutando com todas as forças, me arrastei até o mictório para recuperar a caneca. Os pri­sioneiros urinaram nela e em minhas mãos. Agarrei-a e a segurei bem forte contra o peito. Estava muito irado por terem tentado me privar do último bem material precioso para mim.

Tive vontade de revidar o ataque com palavras, mas o Senhor me impediu e me disse: "Não torneis a ninguém mal por mal... não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira... Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem" (Rm 12.17,19,21).

Arrependi-me dos meus sentimentos. Comecei a aben­çoar meus companheiros de cela, especialmente os que me insultavam mais.

Menos de dois dias depois, a ira de Deus caiu sobre eles, que começaram a se coçar, com sarna. A coceira era tanta, por todo o corpo, que eles ficaram enlouquecidos.

Só eu e o Irmão Li fomos poupados. Embora eu tivesse me deitado em dejetos humanos e passado pelas piores con­dições sanitárias possíveis, o Senhor não permitiu que a doença me atacasse.

Os guardas me observavam constantemente, à procura de um sinal de fraqueza. Mas viram que eu passava o tem­po todo deitado de costas, sem falar nada.

As autoridades penitenciárias descobriram que o Irmão Li me ajudava em segredo. Com amor, impedira que os outros prisioneiros me causassem mais sofrimento e os acon­selhava a me tratarem com bondade. Por isso, eles o trans­feriram para outra cela. Então fiquei sozinho, sem a com­panhia de nenhum crente.

Os guardas me pegaram e me jogaram de novo no mic­tório. Os prisioneiros urinaram em meu rosto. Eu queria gritar, sentia-me solitário demais. "O opróbrio partiu-me o coração, e desfaleci; esperei por piedade, mas debalde; por consoladores, e não os achei." (Sl 69.20.)

Na manhã seguinte, os outros prisioneiros acordaram com o corpo coberto de vergões vermelhos! Era uma doen­ça chamada pústula. Eles não suportavam o incômodo. Coçavam os vergões até escorrer pus.

Os doentes não conseguiam deitar nem dormir, de tanta coceira.

Os guardas me examinaram. Arrancaram minhas rou­pas de baixo para ver se eu contraíra a doença. Achavam que o mais provável era eu ter adoecido e transmitido para os outros, já que tinha passado tanto tempo no meio dos excrementos. Descobriram que eu era o único livre da afli­ção!

Meus colegas de cela me deixaram um pouco em paz e se concentraram em aliviar seu próprio desconforto. O lí­der da cela foi o mais atingido. Todo o corpo dele, até o rosto, estava coberto de feridas. Os outros tinham medo de se aproximar dele.

Como eu não estava doente, os companheiros tiraram minha cama de perto do mictório e a levaram para perto da do líder, para ver se eu pegava a doença dele. Os prisio­neiros e os guardas estavam furiosos porque eu não estava sofrendo como os outros.

Um dos meus colegas de cela, chamado Yu, me observa­va com atenção havia várias semanas. Ele se aproximou e, com muita bondade, pôs um cobertor em cima de mim e se mostrou simpático comigo. Foi um substituto para o Irmão Li, enviado por Deus.

Certa noite, Yu se aproximou para me cobrir. Eu segurei o braço dele. Estava tão fraco que minha voz não passava de um sussurro. Ele abaixou a cabeça para ouvir:

"Yu, você precisa receber Jesus Cristo como seu Salva­dor e Senhor."

Naquele exato momento, em silêncio, ele recebeu a sal­vação.

O líder da cela, que sofrera tanto com a doença, passou a me odiar ainda mais quando percebeu que eu não adoe­cera. Tomou meu cobertor e me enrolou no dele, contami­nado pela doença, sujo de sangue e pus que escorreram de suas feridas. Contudo o Senhor me protegeu e nem assim eu contraí a enfermidade.

O diabo me atacou e me ameaçou através de muitos homens perversos. Mas o Espírito Santo me fortaleceu em Jesus, apesar de meu corpo exterior estar quase totalmente destruído. Todos os meus inimigos foram confundidos.

Eu ouvia os prisioneiros especulando sobre quanto tem­po mais eu viveria. Uns diziam: "Não vive mais do que três dias"; e outros: "Por certo não vai sobreviver nem a esta noite. Aposto que vai morrer antes de amanhecer. Se ele sobreviver a esta noite, eu dou para você meu mantou".

Eles apostaram, mas eu não morri. Os que apostam con­tra os servos de Deus podem ter certeza de que perderão! Eu havia me colocado nas mãos do Senhor da justiça. Não vivia mais por minhas próprias forças, mas somente pela graça de Deus.

O DSP não conseguiu extrair da minha boca nenhuma confissão que pudesse ser usada contra mim. As autorida­des locais temiam que eu morresse, pois teriam de prestar contas às autoridades da província. Diante disso, havia muito nervosismo.

A prisão solicitou a presença de várias enfermeiras. Usa­ram um instrumento para abrir minha boca e uma garrafa para me obrigar a engolir sopa, mas eu me recusei e deixei cair tudo no chão. Repórteres tiraram fotos para serem usa­das como "evidência" de que as autoridades haviam feito todo o possível para preservar minha vida.

Quando viram que eu deixei a sopa cair no chão, zom­baram de mim e disseram:

"Yun, agora tanto faz se você morrer. Não damos a mínima. Fizemos tudo que era possível para ajudar. Você acha que sua greve de fome vai afetar o governo, mas ago­ra até queremos que você morra e vamos dizer que foi sui­cídio. Vamos cremar seu corpo, e ficaremos felizes por nos livrar de você, seu estúpido."


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