A história emocionante de um cristão chinês que levou sua fé às últimas conseqüências



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13. Uma alma preciosa ao Senhor



"A misericórdia triunfa sobre o juízo." (Tg 2.13.)
Todos os dias eu ensinava os novos crentes na cela. A justiça e a verdade floresceram. Os homens cresciam em graça e conhecimento. Alguns testemunharam que, quando o Espírito Santo os convenceu dos pecados, tinham visto mentalmente, como um filme, toda a vida e os atos malignos que haviam praticado.

Certa manhã, o diretor da prisão me chamou em seu gabinete. Com educação, ofereceu-me uma xícara de chá e me convidou a me assentar em uma cadeira macia. Em se­guida, falou:

"Yun, sei que você crê em Jesus. E decidi hoje lhe dar uma tarefa especial."

Pensei que ele iria me pedir para delatar os outros prisi­oneiros, mas ele prosseguiu:

"Na cela número 9, está preso um assassino chamado Huang. Ele tenta se matar todos os dias. É louco e morde os colegas de cela. Resolvemos transferi-lo para sua cela. Quere­mos que o vigie até o dia da execução, para ele não se machu­car nem ferir os outros prisioneiros. Se você se descuidar, e ele se suicidar, nós o consideraremos culpado pela morte dele."

Ouvi isso e logo concluí que Huang era uma alma preci­osa que o Senhor nos entregara para resgatarmos.

Contei a novidade na cela, e todos ficaram apavorados. Não queriam receber aquele homem. Alguém disse:

- Ele não é um homem; é um demônio.

Deixei que todos se manifestassem, esperei um momen­to e disse, com calma:

- Irmãos, antes de aceitarmos Jesus, éramos todos como ele. Também somos como demônios, mas Jesus nos resga­tou quando nossa alma estava prestes a morrer. Precisa­mos ter misericórdia desse homem e tratá-lo como se ele fosse o próprio Jesus.

Meus companheiros entenderam que eu falava a verda­de e mudaram de atitude. Aguardaram a chegada de Huang como se ele fosse um amigo que não viam há muito tempo.

Huang foi levado para a nossa cela na manhã seguinte. Ao vê-lo, associei sua aparência à do homem possuído por uma legião de demônios, cuja história foi contada no capí­tulo 5 do Evangelho de Marcos. As mãos estavam algema­das atrás das costas, e cadeias prendiam os tornozelos dele. Falava palavras imundas e tentava continuamente se ferir com as cadeias que prendiam seus pés. Era feroz e cheio de ódio, apesar de ter apenas 22 anos.

Não tinha como mover braços nem pernas, mas tentava arrancar com os dentes a orelha ou o nariz de qualquer pessoa que se aproximava dele. Mesmo amarrado com fir­meza, pulava tanto que os ossos dos tornozelos ficavam visíveis sob a pele.

Os prisioneiros da cela 9 o tratavam como se ele fosse um animal - chutavam-no e davam socos nele. Passavam vários dias sem lhe dar comida. E ainda zombavam dele, entornando sobre ele o alimento que deveriam lhe dar. As roupas dele estavam cobertas de manchas de comida.

Certo dia, movido por puro desespero e dor, Huang es­perou um momento em que ninguém o observava e tentou se matar batendo a cabeça na parede com toda força. Ele sobreviveu, mas a parede ficou com um buraco.

No instante em que entrou em nossa cela, Huang perce­beu que alguma coisa ali era diferente. Demonstramos amor e simpatia. Nós o recebemos de braços abertos e colocamos os objetos dele em ordem ao lado da sua cama.

As correntes o impediam de se lavar, e ele exalava um cheiro horrível. Amamos Huang por causa do amor de Deus presente em nosso coração. Os companheiros de cela me apontaram e disseram:

- Este é Yun, nosso líder. Ele é pastor. Eu falei:

- Irmão Huang, todos já fomos criminosos. Não tenha medo. Vamos cuidar de você.

Levei-o a assentar-se e acalmar-se. Pedi aos colegas que cada um desse a Huang um pouco da valiosa água para beber. Enchemos uma vasilha e a levamos para perto dele. Rasguei um pedaço da minha camisa e molhei o pano na água. Então, com suavidade, limpei a sujeira e o sangue seco do rosto e da boca dele.

Depois de secar seu rosto, rasguei um pedaço do meu cobertor e limpei as feridas causadas pelas algemas e cor­rentes. Usei um pouco de creme dental para desinfetar os ferimentos, que estavam em carne viva, e fiz um curativo.

Huang não pronunciou nem uma palavra sequer. Limitou-se a nos examinar de olhos arregalados. Eu sabia que o Senhor já estava tocando o coração dele.

Na hora do almoço, cada um deu um pouco do arroz para o novo companheiro de cela. Depois, oramos o "Pai Nosso" e comemos. Com uma colher, alimentei Huang.

Depois do almoço, cantamos em voz baixa uma canção que eu ensinara ao grupo, baseada em Mateus 6.25-34:


Nosso Pai celestial é grande em misericórdia.

Ele nos alimenta e veste a cada dia.

Com humildade o adoraremos e aprenderemos dele,

Pois o Senhor veste a erva do campo.

Não te preocupes com o que comerás hoje

Nem com o que beberás amanhã.

Por certo nosso Pai celestial nos sustentará.

Vê o pardal, que voa livre;

Vê o lírio do campo, que não trabalha nem fia;

Mas o Senhor os veste em todo esplendor.

Não valemos nós muito mais do que eles?

Irmão, transforma teu coração e segue a Cristo,

Pois este mundo não é o teu lar.
Depois falei sobre o capítulo 6 de Mateus. Nessa passa­gem, Jesus mostra a diferença entre os pais terrenos e o Pai celestial, e enfatiza o valor da vida humana.

Aconteceu que aquela era exatamente a noite do jantar semanal em que recebíamos o mantou. Todos os irmãos olha­ram para mim. Eu sabia que eles estavam com muita fome. Por isso, lhes disse:

- Já compartilhamos hoje o arroz e a água com nosso novo amigo, Huang, então podemos comer o mantou, mas espero que vocês lhe dêem um pouco da sopa amanhã.

Dei a comida de Huang a ele e depois comecei a jantar. Quando dei a primeira mordida no mantou, senti vonta­de de chorar. Uma voz suave surgiu dentro de mim:

- Morri por você na cruz. Como você pode mostrar que me ama? Se eu estiver preso, com fome e com sede, e você cuidar do menor dos meus irmãos, estará fazendo isso para mim.

Soube imediatamente que Deus queria que eu sacrificas­se o pedaço restante do meu mantou e o desse a Huang. Curvei-me e chorei. Disse a Deus:

- Senhor, eu também estou com muita fome. Fome demais.

Um versículo surgiu em minha mente: "Quem nos sepa­rará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?" (Rm 8.35.)

Embrulhei o resto do mantou em um lenço e o coloquei dentro das minhas roupas, para guardá-lo para Huang. A paz e a alegria voltaram imediatamente.

Na manhã seguinte, o café era uma sopa aguada com pouquíssimo macarrão. Todos demos um pouco para Huang, mas ele não ficou satisfeito e gritou para o guarda:

- Vou morrer! Por que vocês não me dão uma refeição decente? Estão tentando me matar de fome antes de me executar?

No mesmo instante, o Senhor me disse: "Depressa, tire seu mantou da camisa e dê para ele." De costas para Huang, parti o pão sobre a sopa. O cora­ção de pedra dele quebrou-se imediatamente. Ele caiu da cadeira, de joelhos no chão, e chorou. Disse:

- Irmão mais velho, por que você me ama assim? Por que não comeu seu pão ontem à noite? Sou um assassino, todos me odeiam. Até meus pais, meu irmão, minha irmã e minha noiva me rejeitaram. Por que você me ama tanto? Não tenho como pagar sua bondade agora, mas depois que eu morrer e virar um fantasma, vou voltar a esta cela e servir você, em agradecimento.

Percebi que chegara a hora em que o Senhor queria que eu falasse do evangelho. Então lhe disse:

- Nós o tratamos assim porque Jesus ama você. Se não acreditássemos nele, teríamos agido exatamente como os homens da cela 9 fizeram. Agradeça a Deus pelo Filho dele, Jesus Cristo.

Ele falou imediatamente:

- Senhor, agradeço por amares um pecador como eu. Em pranto, o criminoso implacável aceitou o amor de Jesus em seu coração. Foi liberto da carga do pecado.

Os outros prisioneiros exultaram. Viram que somente o amor de Deus dá esperança verdadeira aos que vivem pre­sos pelo pecado.

Depois que Huang recebeu a salvação de Deus, a atmos­fera na cela melhorou muito. Começamos a cantar juntos. Huang estava ansioso para aprender o máximo possível. Ensinei a ele sobre Jesus - sua vida, ensinamentos, sofri­mento, ressurreição e segunda vinda.

Também o adverti de que suicídio é pecado. Ele come­çou a chorar ao ouvir isso e confessou seu pecado. Pediu que eu levantasse o colarinho de sua camisa, onde escon­dera uma pequena lâmina de barbear para se matar na primeira oportunidade que surgisse.

Totalmente quebrantado, Huang compartilhou comigo a sua história: o pai dele era rico, administrador de uma grande empresa e membro do partido comunista. Assim que concluiu o ensino médio, Huang conseguiu um empre­go técnico em uma usina de energia.

Aos vinte anos, ficou noivo de uma moça que o amava muito. Entretanto ele se uniu a uma gangue. Logo se afas­tou do caminho certo. Passou a beber muito, todos os dias. O grupo saqueava lojas, matava gente inocente e estupra­va mulheres.

Um dos membros da gangue foi preso e interrogado. Contou ao DSP que Huang estava envolvido, e ele foi pre­so. O pai dele entrou em ação, o juiz foi condescendente, e Huang foi condenado a três anos apenas, apesar de ser culpado de assassinato. No dia 1º de maio de 1983, o pai pagou uma grande soma em suborno, e o filho foi liberado do campo de trabalhos forçados.

Embora estivesse "livre", Huang não tinha objetivo para sua vida. Não tinha razão de viver e caiu em depressão pro­funda. Voltou a se envolver com más companhias. Uma noi­te, saiu com um amigo para beber. Eles fizeram um acordo:

"Não há esperança nem sentido na vida. Não temos for­ça para viver, então vamos morrer juntos."

Os dois, embriagados, fizeram um pacto de morte. Deci­diram roubar, do depósito da usina de energia em que Huang trabalhava, duas cargas de dinamite de 8kg cada.

Resolveram brigar até um deles morrer. O sobrevivente carregaria o corpo do outro até um grande transformador elétrico e detonaria a dinamite. Os dois morreriam juntos.

Começaram a lutar com bastões de metal. Huang foi atin­gido no ombro, mas acertou um golpe fatal que partiu o crânio do amigo com tanta violência que esparramou parte do seu cérebro. Vendo isso, apavorou-se e fugiu. Não vol­tou para pegar a dinamite.

Ele sabia que as autoridades iriam atrás dele, por isso re­solveu sair sem rumo pela China, entregue aos prazeres de uma vida de pecado. Por fim cansou e pensou em voltar para casa e ver a família uma última vez antes de se suicidar.

Comprou uma faca afiada, que usou para assaltar lojas para financiar a viagem. Passou por muitos lugares onde estuprou garotas inocentes. Visitou vários templos budis­tas famosos para adorar os ídolos em busca de paz para seu coração. A incursão no pecado e na luxúria não o satis­fizera, só conseguira piorar mais ainda sua situação.

Cansado das viagens, embarcou no trem que o levaria até sua casa para ver a família pela última vez. Comprou duas caixas com remédios para dormir, pois pretendia tomar to­dos os comprimidos de só uma vez. O trem parou antes do destino final, e ele saltou. Não queria chegar em casa antes de escurecer, então se escondeu no meio de uns arbustos.

A polícia o viu e o prendeu. Encontraram em sua bolsa a faca que ele usara para matar várias pessoas e também a carta suicida, na qual confessava seus crimes.

Dessa vez o pai de Huang não pôde ajudar. O golpe de misericórdia que partiu o coração de Huang foi quando seu pai mandou entregarem para ele na prisão uma camisa que tinha estes dizeres nas costas:

"Não posso ver você agora, mas nos veremos no dia de sua execução!"

Contudo Huang se arrependera totalmente em nossa cela e se tornara nova criatura em Cristo. Gostava de cantar uma música que lhe ensinei:
Amo Jesus, amo Jesus.

Todos os dias da minha vida, amo Jesus.

Nos dias de sol eu o amo.

Quando a tempestade se forma eu o amo.

Todo dia em meu caminho,

Sim, eu amo Jesus.


A mudança no coração dele foi tão grande que passa­mos a chamá-lo de Huang Enguang (Huang "graça e luz").

Mesmo ciente de que morreria logo, ele queria saber como poderia viver os dias que lhe restavam de modo a dar mais glória a Jesus.

Em geral, os guardas puniam severamente quem fazia barulho. Na parte de baixo da porta da cela havia um bu­raco, do tamanho exato de uma cabeça. Eles mandavam o prisioneiro barulhento enfiar a cabeça lá e o chutavam ou usavam o cabo do rifle para bater nele. Por isso, sempre verificávamos se não havia nenhum guarda na frente da nossa porta e adorávamos e orávamos em voz baixa. Já Huang louvava Jesus em voz bem alta. Os guardas vinham e o mandavam ficar quieto, mas, por causa da execução iminente, não o castigavam.

Ele não tinha nada a perder, então cantava o tempo todo, o mais alto que podia. A cela número 2 transformou-se em centro de louvor e adoração! Muitos presos de outras celas foram tocados pelas palavras que ouviam.

Huang me pediu para entalhar uma cruz na parede da cela. O cimento era muito duro, mas trabalhamos juntos para abençoar nosso irmão. Ele falou que, se os guardas vissem a cruz, ele assumiria a responsabilidade. Toda vez que nos levavam até o pátio, procurávamos cacos de vidro e pregos velhos para fazer as marcas na parede.

Gravei uma cruz bem grande. Além disso, desenhamos o globo terrestre e escrevemos sob a cruz: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira". Huang pediu para dese­nharmos também um túmulo sob a cruz, e uma lápide com o novo nome dele, para mostrar que ele pertencia a Jesus.

Quando acabamos, ele chorou e gritou de alegria. Conti­nuamos a desenhar e cobrimos as quatro paredes da cela com frases sobre a mensagem de Jesus e versículos bíblicos, tais como: "O filho pródigo voltou", "Confie em Deus na tribula­ção" e os versículos "Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, me­diante a redenção que há em Cristo Jesus" (Rm 3.23,24).

Foi estranho, mas os guardas, mesmo vendo nossas "obras de arte", nunca falaram nada. A cruz e os versículos conti­nuam na cela até hoje. Centenas de prisioneiros leram as palavras, e muitos se arrependeram e passaram a confiar em Jesus.

Usamos os alfinetes minúsculos do nosso crachá de iden­tificação como agulhas e, com todo cuidado, tiramos fios das toalhas de banho. Cada homem bordou uma pequena cruz no lado esquerdo de seu uniforme. Fizemos uma cruz vermelha para a camisa de Huang. Os novos convertidos estavam tomados de inspiração! Receberam muita força e encorajamento depois que passaram a carregar a cruz no peito.

Na noite de 16 de agosto, batizamos o Irmão Huang. Cada prisioneiro recebia apenas um copo de água por dia, mas sacrificamos metade da porção para reunir o suficien­te para derramar sobre a cabeça dele. Foi o melhor que pudemos fazer naquelas circunstâncias!

Depois de ser batizado, ele perguntou:

"Será que Jesus pode salvar minha família também? Minha mãe, meu pai, meus irmãos e irmãs e a garota que era minha noiva podem se converter e me encontrar no céu?"

Repeti para ele a promessa bíblica: "Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa" (At 16.31). Ele passou a noite inteira orando para que sua família toda encontrasse a sal­vação de Deus através de Jesus Cristo.

A data da execução de Huang se aproximava rapida­mente. Ele queria muito escrever uma carta para a família, mas isso era impossível porque suas mãos continuavam al­gemadas atrás das costas.

Depois de se converter, Huang se tornara bondoso, e toda a prisão notara a diferença. Argumentei com os guardas que ele não representava mais uma ameaça e que não tentaria se suicidar. Colocaram nele algemas maiores e mais frouxas, mas se recusaram a deixá-lo sem elas. Era política da cadeia manter os condenados à morte amarrados o tempo todo.

Com as algemas mais largas, Huang pediu aos guardas uma caneta e duas folhas de papel. Quando as recebeu, assentou-se no chão e colocou o papel ao lado. Moveu as mãos para o lado e conseguiu escrever, mas, depois de poucas palavras, acabou a tinta da caneta. Desesperado, ele se in­clinou e mordeu o indicador direito. O sangue jorrou, e ele continuou a escrever a carta aos pais com seu próprio san­gue. Esta foi a mensagem que ele escreveu:

"Queridos pais,

"Não posso voltar a ver vocês, mas sei que me amam. O filho de vocês os envergonhou. Por favor, não se entristeçam depois da minha morte. Desejo contar a vocês uma notícia maravilhosa. Não vou morrer, pois recebi a vida eterna! Co­nheci um homem misericordioso na cadeia, o respeitado Ir­mão Yun. Ele resgatou minha vida e me ajudou a crer em Jesus. Ele me amou, cuidou de mim e me alimentou todos os dias.

"Papai e mamãe, vou para o reino de Deus. Estou orando por todos. Vocês precisam acreditar em Jesus! Por favor, per­mitam que o Irmão Yun compartilhe o evangelho com vocês. Ele contará o resto da minha história quando for visitá-los. Que vocês recebam a vida eterna!

"Nós nos veremos no reino de Deus,

"Seu filho, Huang Enguang."
Consegui que a carta saísse clandestinamente da cadeia e fosse entregue aos pais dele.

Huang foi batizado no dia 16 de agosto e escreveu a car­ta aos pais no dia 17. A execução estava marcada para o dia 18.

A atmosfera na cela ficou muito tensa no último dia da vida de Huang. Dobraram o número de guardas. A cada cinco minutos uma das sentinelas verificava os prisioneiros, examinava o rosto de cada um com uma lanterna, para assegurar-se de que tudo estava sob controle. Sabíamos que isso só acontecia na véspera da execução de um condenado.

Na noite do dia 17 de agosto, o Senhor me mandou la­var os pés de Huang, de acordo com o exemplo de Jesus. Ele estava muito calmo e sorriu para os companheiros. Disse-lhes:

"Nós nos encontraremos de novo no reino do céu."

Na manhã seguinte, o café chegou mais cedo. Às 8:00h os guardas apareceram com uma lista. Gritaram:

"Yun, Huang, Hong, venham!"

Não sabíamos disso, mas eu e o Irmão Hong seríamos julgados na mesma manhã! Os guardas nos amarraram dos pés à cabeça.

Antes de Huang ser levado para o pátio de execuções, ele se jogou em meus braços e chorou. Disse-me:

"Verei você no céu!"

No pátio, um guarda chutou as pernas dele e ele caiu de joelhos. Soltaram as correntes e as algemas. Colocaram na cabeça dele um chapéu com os dizeres: "Criminoso conde­nado".

Foi a última vez que vi o amado e precioso Irmão Huang nesta vida. Eles o levaram e lhe deram um tiro na nuca.

Ouvi o disparo que mandou o Irmão Huang para os bra­ços de Jesus.

Senti tristeza e alegria ao mesmo tempo. Agradeci ao Senhor a oportunidade de ver meu irmão partir para o rei­no de Deus. "Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos." (Sl 116.15.)


*****
Nove prisioneiros das cadeias masculina e feminina de Nanyang enfrentariam humilhação e julgamento públicos naquele dia. Eu era um deles. A viatura nos conduziu pela cidade, enquanto liam nossos crimes pelo alto-falante. Eu exultava pela oportunidade de ser exposto diante das pes­soas por amor a Jesus Cristo! Meu coração transbordava de alegria.

Eu não conseguia me conter enquanto seguia para o jul­gamento. A passagem do Irmão Huang para a glória e a eternidade era uma realidade profunda para mim. Cantei a Deus em voz bem alta. O capitão me ameaçou com o cassetete elétrico:

"Cale a boca, Yun! Não sei como tem coragem de can­tar! Continue com isso que eu esfolo você vivo!"

Nós todos, os nove prisioneiros, fomos acorrentados jun­tos como animais e amontoados na carroceria de um cami­nhão. Enquanto circulávamos pelas ruas, uma forte chuva caiu inesperadamente e nos encharcou até os ossos. Para mim, foi como um renovo mandado do céu. Gritei:

"Senhor, tenho sede da chuva de tua graça! Derrama tua graça sobre teu servo!"

Continuei cantando bem alto. Muita gente se acotovela­va sob guarda-chuvas e olhava para nós sem entender nada. Éramos todos daquela cidade, e vários prisioneiros baixa­ram a cabeça, envergonhados, para não serem reconheci­dos por parentes e amigos.

Perto de mim estava uma jovem que tinha uns vinte anos. O nome dela era Xiaowei. Estava presa por ter brigado com vizinhos e destruído as roupas deles. Esses vizinhos conhe­ciam oficiais do governo e conseguiram que a polícia pren­desse Xiaowei e sua mãe sob falsas acusações. Ela era cris­tã, mas se afastara de Deus.

Enquanto eu cantava, ela chorava. Perguntou:

- Por que você está tão alegre numa hora tão difícil?

- Só posso estar alegre. Hoje fui considerado digno de sofrer pelo nome de Jesus! respondi.

Ela ficou corada, e eu continuei cantando bem alto:
Mesmo que o mundo todo me odeie,

e os amigos me abandonem;

Mesmo que meu templo carnal seja

destruído por calúnia,

perseguição e açoites;

Darei minha vida e

derramarei meu sangue para agradar

ao meu Pai celestial.

Que, com a coroa da vida,

eu entre no reino de Deus.


Xiaowei não conseguiu mais reter as lágrimas e tirou um lenço do bolso. Eu lhe disse:

- Xiaowei, o Espírito Santo sofre por você. A volta do filho pródigo é mais preciosa do que o ouro. Volte, seu Pai celeste espera por você!

Com muitas lágrimas, ela se arrependeu e clamou:

- Ó Senhor, tem misericórdia de mim, pecadora! Por favor, perdoa meus pecados.

Orei e agradeci a Deus por sua misericórdia. Ela recebeu paz e alegria. Depois, ficou nas pontas dos pés e limpou as lágrimas do meu rosto com o lenço dela.

O caminhão continuou se dirigindo para minha vila natal. Xiaowei virou-se para mim e disse:

- Ouvi dizer que morava aqui nesta vila um servo de Deus muito ousado, chamado Yun. Você tem notícia dele?

Ri e lhe respondi:

- Você gostaria de conhecê-lo? Ela retrucou:

- Ouvi membros da minha igreja contarem o testemu­nho dele. Eu não posso me encontrar com ele.

- Yun é o homem que está conversando com você ago­ra, falei.

Ela caiu em pranto de novo e agradeceu a Deus por ter dado a oportunidade de nos conhecermos. Apegou-se a mim enquanto nosso caminhão continuava a jornada pe­las ruas.

Ficamos completamente encharcados. Até os policiais, que seguravam as metralhadoras sob as capas de chuva, tremiam por causa do vento frio e da chuva torrencial. Os soldados nos deram pouca atenção, preocupados com seu próprio desconforto, e quase ninguém apareceu para assis­tir aos julgamentos. A reunião foi cancelada. Para as auto­ridades, o dia representou um fracasso total.

No posto policial, afrouxaram nossas correntes e cordas. Os policiais receberam uma refeição substancial. Quando se fartaram, nos deram as sobras.

Xiaowei recebeu tratamento especial, por ser mulher. Eles lhe deram um montou. Ela se aproximou de mim e co­chichou:

"Irmão Yun, quero dar meu montou para você. Por fa­vor, aceite."

Eu não queria aceitar, porque sabia que ela estava com muita fome. Vendo que eu não pegava o presente, ela co­meçou a chorar. Lembrei-me das palavras do Senhor: "Mais bem-aventurado é dar que receber" (At 20.35). Assim, acei­tei o presente de amor dela, com coração agradecido. Parti o pão e dei a ela o pedaço maior.

Comemos juntos e agradecemos a Deus a rica comunhão de que desfrutamos naquele dia.




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