A história emocionante de um cristão chinês que levou sua fé às últimas conseqüências



Baixar 1.03 Mb.
Página17/31
Encontro29.07.2016
Tamanho1.03 Mb.
1   ...   13   14   15   16   17   18   19   20   ...   31

15. Um cemitério coberto de espinhos

Fui transferido para o Campo de Trabalhos Forçados Xinyang, que fica no sul de Henan, perto da fronteira com Hubei. É uma região com numerosas plantações de chá. O clima é frio, com poucos dias de sol no ano. Há sempre garoa e forte nevoeiro. As condições de extrema umidade tornam a área um refúgio para nuvens de mos­quitos e várias espécies de cobras venenosas.

Havia mais de cinco mil criminosos no campo, separa­dos em quatro unidades de trabalho. Designaram-me para as plantações de arroz irrigado e os criadouros de peixes. Só em minha unidade trabalhavam mais de mil prisionei­ros.

Todas as manhãs enfrentávamos sessões de lavagem ce­rebral política e treinamento físico militar. Os dias iam do amanhecer até depois do pôr-do-sol - quatorze horas de trabalho, sete dias por semana.

Cavávamos com as mãos viveiros para os peixes e traba­lhávamos sem cessar nas plantações alagadas de arroz, junto com serpentes e sanguessugas. Logo em meu segundo dia, fomos obrigados a carregar nas costas cestos cheios de lama e pedras. Passamos o dia todo subindo uma ladeira com o peso e jogando o conteúdo em uma encosta próxima. Eu me sentia fraco demais. As pequenas porções de alimento que nos davam não eram suficientes para nos sustentar. Desmaiei muitas vezes e caí na subida, rolando de volta até o buraco.

Guardas armados nos vigiavam o tempo todo e nos ator­mentavam. Quem diminuía o ritmo recebia logo o golpe do cabo de um rifle. Era uma existência terrível.

Quando voltávamos para o quarto, à noite, muitos sofriam com as pernas e os ombros inchados por causa do trabalho árduo. Em várias ocasiões, eu não tinha força nem para subir em meu beliche, então dormia no chão, nos pés da cama.

Minha força evaporou, e eu não suportava mais. Acha­va que não iria sobreviver a outro dia.

Para piorar tudo, Xinyang fica a quase 300km da minha casa; então era muito difícil minha família ir me visitar. Durante os primeiros meses, não me enfraqueci apenas fi­sicamente, mas também no espírito.

Fiquei desanimado porque não podia ver minha família. Imaginava qual seria a aparência do meu filhinho. Apesar das torturas impiedosas que sofri na prisão de Nanyang, pelo menos sabia que minha família e meus amados esta­vam por perto. Agora o teste era diferente - uma forma opressiva de tortura lenta. Pouco depois de chegar, escrevi um poema para descrever o lugar:


Primavera, verão, outono e inverno;

A neve substitui a chuva;

Neblina constante e poucos dias de sol.

Serpentes venenosas, mosquitos e sanguessugas por

toda parte; E também chicotes, cordas e cassetetes elétricos;

Este lugar é como um cemitério coberto de espinhos.

Aquele que chega com um demônio sai com sete,

Pois cadeias jamais transformarão o coração de um homem.

Quem quiser mudar seu coração tem de se arrepender

e nascer de novo. Todas as coisas se tornarão novas,

e todos os dias ele louvará o Senhor!
No fim de 1984, antes da celebração do ano-novo lunar, fomos obrigados a escrever um relatório do ano e a fazer um esboço dos nossos planos para o ano seguinte.

Eu não sabia o que escrever. Enquanto pensava, um versículo surgiu em minha mente: "Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas" (Ap 2.5).

Escrevi um poema, confessando que minha vida devocional com o Senhor estivera fraca naquele semestre. Estava tão cansado que vivia apenas para comer e dormir.

Quanto aos planos para o ano seguinte, escrevi que ti­nha me arrependido e que recebera o perdão de Deus. Pro­meti que todos os dias, às 5:00h da manhã e às 9:00h da noite, oraria e meditaria na Palavra de Deus.

Desse dia em diante, desfrutei de momentos devocionais com meu Senhor. Ele substituiu minha fraqueza pela força dele, e passei a suportar com muito mais facilidade a carga de serviço.

Certo dia, o diretor da prisão aproximou-se de mim e falou:

"Li os registros do seu julgamento. Você foi condenado como contra-revolucionário e inimigo do Estado, mas sei que é apenas um pastor que deseja que os outros acreditem em Jesus. Não entendo por que o governo manda gente como você para esta prisão."

Não me contive e chorei. Senti indignação por todas as injustiças que havia sofrido. De repente, o Senhor me fa­lou:

"Não sinta pena de si mesmo. Essa é minha vontade para sua vida. Você deve seguir o caminho que tracei."

Agradeço a Deus, pois ele conhece minhas fraquezas e limitações. O diretor vinha me observando havia muito tempo, para ver se eu tentaria fugir. Vendo que esse não meu intento, transferiu-me do criadouro de peixes para a fazen­da. Meu serviço passou a ser levar baldes cheios de excremento humano para adubar a horta. Era um trabalho mais leve do que carregar lama e pedras.

Fui designado ainda para a lavanderia e para ajudar internos analfabetos a escrever cartas para a família. O fa­vor do Senhor repousava sobre mim. Muitos prisioneiros sabiam que eu era um cristão sincero e começaram a me respeitar.

Certo dia um guarda se aproximou de mim e falou:

"Lá na unidade de trabalho da horta há um padre cató­lico de 70 anos. Você já o conhece? Ele é um bom cristão."

Ele também havia sido considerado contra-revolucionário. Fora condenado a dez anos de cadeia por se recusar a aceitar a Associação Patriótica Católica controlada pelo governo. Já estava cumprindo o último ano da sentença.

Quando encontrei pela primeira vez o Padre Yu, ele já sabia que eu era cristão. Como eu não era católico, ele foi muito frio e recusou-se até a me cumprimentar. Orei por ele e procurei formas de servi-lo. Coloquei leite em pó na caneca dele durante o almoço e lhe dei um pouco da minha comida.

Depois ele percebeu que, mesmo não sendo católico, eu cria mesmo em Jesus. Alguém lhe contara sobre meu sofri­mento e sobre o jejum de 74 dias.

Pouco a pouco a atitude dele para comigo foi mudando. Mostrou-me o caderno em que anotava suas devoções espi­rituais. Não queria arrumar problemas por compartilhar a fé com outros presos, então foi muito cauteloso. Ele nunca quis que seus amigos católicos lhe levassem uma Bíblia, com medo de arrumar confusão, então sobrevivera todo o tem­po sem a Palavra de Deus.

Minha família tinha permissão para me visitar espora­dicamente. Cada um que ia dava um jeito de passar por­ções da Bíblia escondida entre o alimento e os presentes. Certa ocasião minha esposa levou um pão que ela fizera especialmente para mim. O presente era precioso mesmo – ela escondeu páginas da Bíblia dentro do pão! Uma outra vez, colocou páginas dentro de um pacote de macarrão ins­tantâneo.

Emprestei minhas páginas da Bíblia ao padre, e nossa amizade cresceu. Ele era muito culto, lia e falava latim, hebraico, inglês e chinês antigo.

Depois que saiu da prisão, Yu visitou minha casa. Nos­sos obreiros o acolheram com carinho e lhe deram Bíblias para distribuir aos católicos. Desfrutaram de gostosa co­munhão. Nessa época, o Padre Yu foi promovido e tornou-se bispo da igreja católica secreta. Ele ama a Deus de ver­dade.

O Senhor abriu muitas portas para o testemunho do evan­gelho. Também estava em Xinyang um homem chamado Shi Zhou Ba. Ele fora enviado aos oito anos de idade para um grande monastério budista, onde estudou até se tornar monge.

Era exímio calígrafo e mestre de kungfu. Certo dia, esta­va no mercado e um batedor de carteiras roubou o dinhei­ro dele. Irado, usou seu conhecimento da arte marcial para atacar o ladrão. O rapaz caiu morto.

Cientes da habilidade de Shi na luta, vários oficiais ar­mados do DSP o cercaram e o espancaram sem piedade. Shi se defendeu e feriu alguns oficiais. Por fim, um policial quebrou o braço dele com o cano de uma espingarda e con­seguiu dominá-lo. O espancamento foi tão violento que quase o mataram. Acabaram enviando-o para o Campo de Trabalhos Forçados Xinyang.

Muitos homens na prisão pediam a Shi para ensinar-lhes a doutrina budista. Alguns dos mais jovens tentavam adorá-lo e pediam que ele lhes ensinasse kungfu.

Eu sentia em meu coração um peso muito grande para compartilhar o evangelho com ele. Uma noite nos encon­tramos. Falei com ele e, na mesma hora, ele se arrependeu dos seus pecados, aceitou Jesus e nasceu de novo. Pegou os livros budistas, os amuletos e os talismãs e me pediu para destruir tudo.

Muitos prisioneiros vinham de lares destruídos. Eu compartilhava a mensagem com eles, e alguns dedicaram a vida para seguir a Jesus. Batizávamos os novos convertidos no tanque dos peixes. Dois deles, os irmãos Xi e Sun, tornaram-se cristãos firmes. Depois de solto, o Irmão Xi tornou-se pastor.

No Natal de 1985, os irmãos Shen e An foram me visitar em nome das igrejas domésticas. O Natal é uma data parti­cularmente dura para os crentes presos. Éramos forçados a trabalhar duro enquanto desejávamos celebrar o nascimento do Senhor Jesus com nossos irmãos e irmãs.

Quando os irmãos chegaram, eu estava trabalhando no campo, carregando excremento. As autoridades mandaram que eles fossem embora, mas os dois tinham vindo de mui­to longe para me ver, então esperaram do lado de fora do portão.

Alguém me falou sobre meus dois visitantes, e corri ao escritório da prisão. Normalmente os prisioneiros só podem receber visitas na sala de recepção, mas, como eu tinha boa reputação, fui até o diretor e lhe disse:

"Dois parentes vieram lá da minha cidade para me ver! Foram obrigados a esperar lá fora, mas precisam ir ao ba­nheiro. O senhor permite que eles entrem no pátio e usem o banheiro? Se o senhor autorizar, eu posso ir até lá com eles para conversarmos um pouquinho."

É incrível, mas o diretor autorizou!

Conversamos livremente enquanto caminhávamos, e eles me colocaram a par do que estava acontecendo. O ano de 1985 havia sido poderoso para as igrejas domésticas em todo o país. Um grande avivamento espalhara o evangelho por toda parte, e milhares de almas eram acrescentadas à igreja todos os dias. Até hoje os cristãos chineses conside­ram 1985 um ano crucial no avanço contra o inimigo. Fi­quei tão encorajado pelo que ouvi que derramei lágrimas de pura alegria.

Entramos juntos no prédio dos banheiros e adoramos a Deus, celebrando o Natal. Ajoelhei-me no chão sujo e orei:

"Senhor, o único lugar que temos para te adorar é este banheiro sujo, mas sei que entendes, pois deixaste a glória do céu e nasceste em uma manjedoura suja. Tu te dispuseste a seguir o caminho da obediência e do sofrimento. Nós te adoramos hoje!"

Meus dois visitantes também se ajoelharam e, de mãos dadas, oramos ao Senhor e encorajamos uns aos outros.

Naquele instante, um prisioneiro chamado Yong entrou e nos viu. Era homem perverso e violento. Como sempre delatava os presos, fora promovido a líder de grupo. Assim que nos viu, gritou:

- Yun, é muito atrevimento seu trazer gente de fora para realizar suas atividades supersticiosas aqui dentro da ca­deia! Vou comunicar imediatamente às autoridades!

O Espírito Santo me encheu e ordenei a ele:

- Em nome de Jesus, como você se atreve a falar contra o Deus vivo? Ordeno agora que você se ajoelhe e se arrependa dos seus pecados. Receba o Senhor e talvez ele lhe perdoe!

Imediatamente, como se atingido por um raio, Yong ajoelhou-se, e nós três impusemos as mãos sobre a cabeça dele e oramos. Aprendi que, se obedecermos a Deus, os mila­gres acontecem em qualquer situação.

Depois que Yong recebeu o Senhor, nós ficamos muito amigos. O coração dele ansiava pela Palavra de Deus. Ele havia sido uma pessoa muito difícil e tinha muitos inimigos na cadeia. Para se vingar, muitos fizeram acusações falsas contra ele depois que ele se converteu.

Certo dia, durante o intervalo do almoço, Yong deitou em sua cama e estava lendo minha Bíblia, que eu havia es­condido com cuidado em nossa cela, e foi descoberto. Os guardas tomaram minha Bíblia. Yong perdeu o controle e começou a lutar. Quase arrancou o dedo de um policial com os dentes. Por fim eles o venceram e o levaram embora.

Dois irmãos correram até onde eu estava e me contaram o que havia acontecido. Eu disse:

- Vamos orar e pedir a Deus que ajude Yong. Procurei os guardas para tentar ajudar, mas eles esta­vam irritados demais e não me deram atenção.

Nessa hora, vi um dos diretores da prisão. Corri até o portão e falei com ele:

- Capitão Wong, a Bíblia que Yong estava lendo é mi­nha. Sei que é uma falta grave, mas será que o senhor pode me ajudar a recuperá-la?

Esse era um dos diretores que me tratavam com bonda­de. Ele sofria de uma infecção terrível na garganta que o fazia tossir dia e noite.

O capitão Wong entrou no escritório e gritou para Yong:

- Que audácia é essa de lutar assim com os guardas? Vou lhe dar um castigo que você nunca vai esquecer, mas, primeiro, me entregue a Bíblia de Yun!

Dias depois, quando a situação se acalmou, o capitão Wong me chamou em seu gabinete. Inclinou-se e me falou:

- Yun, eu li sua Bíblia, mas não entendi nada.

Vi logo que era uma oportunidade preparada por Deus. Falei ao capitão:

- É fácil entender a Bíblia, se o senhor quiser. Primeiro, precisa aceitar Jesus em seu coração. Confie nele, e ele o ajudará a entender todos os ensinamentos do Livro. Capi­tão Wong, a Bíblia vai ensiná-lo a receber a salvação e, além disso, Jesus vai curar sua garganta.

Percebi que o Espírito Santo estava tocando nele. Fechei a porta do gabinete e disse:

- Capitão Wong, por favor, ajoelhe-se, Jesus vai abençoá-lo.

Ele se ajoelhou e orou:

- Jesus, acredito que és Deus. Por favor, cura-me. Impus as mãos sobre ele, que se arrependeu e recebeu o Senhor. Deus o libertou de sua aflição, e pouco a pouco ele recuperou a saúde. Desse momento em diante o Irmão Wong tornou-se discípulo de Jesus. Deus o promoveu e lhe deu posição de mais autoridade, mas ele nunca se esque­ceu de mim. Transferiu-me da horta para a ferraria e me incumbiu de carregar água para os guardas.

Em minha nova incumbência, eu tinha mais tempo para orar e ler a Bíblia. Quando minha família vinha me visitar, podíamos nos encontrar na ferraria.

Recebi ainda as tarefas de pastorear um rebanho de ove­lhas no campo e de alimentar os peixes no tanque. Com isso, aprendi mais algumas lições. Aprendi que jamais devemos bater nas ovelhas, mas que temos de alimentá-las para que elas nos sigam. Enquanto dava comida aos peixes, tive opor­tunidade de compartilhar o evangelho com prisioneiros que trabalhavam perto do tanque. Alguns se converteram.

O tempo ia passando. Os dias se transformaram em se­manas, que viraram meses. Passou 1986 e depois 1987. Muitos prisioneiros ouviram o evangelho e aceitaram Je­sus. Eu estava constantemente ocupado no discipulado de novos crentes. Foi uma grande alegria vê-los crescer na gra­ça de Deus e compartilhar o evangelho com os outros.

Por fim, chegou 1988. Faltavam apenas três meses para eu ser solto. Eu estava empolgado, sonhava com o momen­to em que estaria nos braços da Deling. Meu filho, Isaque, já tinha quatro anos, e eu ainda não o conhecia. Perdera seus primeiros passos e suas primeiras palavras. Tinha es­perança de que ele viesse a gostar de mim, mas um garoti­nho tão pequeno não tinha como entender o que havia acon­tecido com o pai dele.

Uma noite, sem nenhum aviso, chegou na prisão uma ordem vinda do governo central. Todos os presos políticos deveriam se reunir. Alguém anunciou que era um problema que me envolvia e que eu estava em uma situação dificílima.

O governo enviara funcionários à minha casa, e eles con­fiscaram Bíblias impressas no exterior e cartas que havía­mos recebido de pastores chineses que trabalhavam fora do país. Uma das cartas que o Irmão Xu me escreveu colo­cou o DSP em polvorosa.

A carta dizia: "O americano Billy Graham irá à China e se encontrará com o presidente e o primeiro-ministro. Pre­tendo procurá-lo e falar sobre seu caso. Talvez ele possa ajudar, e você seja solto logo. Assim, gostaria que você es­crevesse exatamente como foi tratado na prisão, e conte todas as suas experiências".

A carta chegara a mim clandestinamente, e eu havia res­pondido na mesma hora. Mas, antes que a resposta alcan­çasse o destinatário, o DSP descobriu tanto a carta do Ir­mão Xu quanto minha resposta.

Parte da minha carta para o Irmão Xu dizia:

"Aprendi muito através do sofrimento. Não estou revol­tado por ter sido preso, porque Deus é o verdadeiro juiz. Ele acertará todas as coisas. O campo em que me encontro é como um enorme cemitério. Os prisioneiros sofrem terri­velmente. Somos acorrentados e algemados e somos

sub­metidos a trabalho árduo do nascer ao pôr-do-sol.

"Fui preso porque amo a Deus e desejo alcançar as al­mas de todos os homens. Embora a cruz que carrego seja pesada, a graça do Senhor me basta. Meu coração está cheio de alegria, e canto novos cânticos ao meu Deus. Aleluia! Glória ao meu Deus e Rei!"

A polícia dirigiu-se imediatamente para a prisão quan­do encontrou essa carta. Chegaram à meia-noite e começa­ram a interrogar meus companheiros de cela. Fui amarra­do a um mastro de ferro no centro do pátio da prisão.

Depois me pegaram, me empurraram para dentro de uma van e me levaram para outro lugar. Passei por vários portões de ferro, e por fim me trancaram em uma cela mínima, escu­ra, com porta de ferro. Parecia mais uma caixa. Tinha ape­nas l,20m de altura e de comprimento e 0,90m de largura. Era tão pequena que eu não conseguia ficar em pé nem me esticar. As mãos estavam algemadas atrás das costas.

Fazia muito tempo que aquela cela não era usada. Ela estava com um cheiro terrível de mofo. Fiquei tonto e enjo­ado. O chão era sempre úmido, e isso me fazia sentir um frio inacreditável, especialmente à noite. Quando me lem­bro daquele lugar, não penso nele como minha cela, penso que era meu caixão refrigerado!

Sobre a porta havia uma pequena janela, protegida por três barras de ferro. Era o único lugar por onde entrava luz.

Na manhã seguinte, com muito esforço, cheguei à jane­la e olhei para fora. Vi pássaros cantando e voando de um galho para outro. O desespero me invadiu, e comecei a can­tar uma nova canção. Sentia-me como um pássaro que de­seja ser livre, mas está preso numa gaiola. Eu me achava longe das belas montanhas, florestas e árvores. Queria ser como um pássaro que voa livremente.

Faltavam poucos meses para minha libertação, e agora parecia que o problema estava ainda mais grave. Perguntei ao Senhor:

"Quando voltarei a ser livre? Quando poderei testemu­nhar às pessoas e contar tua maravilhosa história?"

Levantei as mãos o máximo que consegui e clamei:

"Senhor, estou pronto a obedecer à tua vontade. Ó Deus, por favor, me diz, que lugar é este? Onde estou? Por que vim parar aqui?"

A Palavra de Deus, escrita em Apocalipse 1.9, chegou a mim: "Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha cha­mada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemu­nho de Jesus".

Na mesma hora as nuvens carregadas desapareceram do meu coração.

Naquela cela pequena e escura, senti-me transbordante de alegria. Eu disse:

"Senhor, muito obrigado. Eu tinha apenas 16 anos quan­do colocaste em meu coração o desejo profundo de memo­rizar tua Palavra. Agradeço por tua preciosa Bíblia. Agora, Senhor, quero pedir uma coisa. Por favor, dá-me outra Bí­blia, aqui neste lugar, para que eu possa recitar tuas pala­vras."

De repente ouvi alguém abrir o portão e, em seguida, mi­nha porta de ferro. Dois oficiais me puxaram para fora e me conduziram à sala para interrogatório. Quando cheguei lá, o chefe do DSP, os líderes da província e o diretor do campo de trabalhos forçados esperavam por mim. Todos tinham expressão sombria. Tentei encontrar uma cadeira para me assentar. O chefe do DSP ordenou, com firmeza:

- Ajoelhe-se, criminoso de morte! Você tem consciência da gravidade do crime que cometeu?

Ele não sabia que eu estava acostumado, fazia vários anos, com esse tipo de intimidação. Assim, não me ajoe­lhei, e repliquei:

- Desde o dia em que fui preso, obedeci a todas as re­gras da prisão. Sempre me submeti aos líderes, fiz meu trabalho sem reclamar e ajudei os outros prisioneiros. Fui elei­to duas vezes o melhor preso e nunca fiz nada de errado na prisão.

A expressão dele mudou. Ele gritou:

- Cale-se, seu falso! Temos todos os registros. Há quatro anos você fingiu ser louco. Depois, fez greve de fome con­tra o governo. No julgamento, pensamos que seu compor­tamento havia mudado e só o condenamos a quatro anos. Mas no campo de trabalhos forçados você foi de mal a pior e continuou com as atividades religiosas. Tememos que, se o mantivermos preso, você domine toda a prisão.

Ele prosseguiu:

- Em primeiro lugar, você teve contato com estrangei­ros e recebeu literatura supersticiosa de outros países. Ago­ra, você é informado, com meses de antecedência, da che­gada de uma delegação religiosa da América! O pior de tudo é que, quem o avisou, foi Xu Yongze, o criminoso mais procurado na China.

- Em segundo lugar, continuou, você sempre se opõe ao governo e às políticas religiosas. Ataca a Igreja Patrióti­ca dos Três Poderes e a chama de prostituta. Durante esses quatro anos não vimos nenhuma indicação de mudança de comportamento nem de arrependimento de seus muitos crimes.

- Em terceiro lugar, prosseguiu, cuidamos de você na prisão como pais amorosos, mas você teve a audácia de escrever um poema declarando que nosso campo é como um grande cemitério coberto de espinhos! O governo ten­tou tudo que foi possível para tornar você útil e produtivo para o país, mas você resistiu a tudo.

Quanto mais falava, mais irado ele ficava. Bradou:

- Hoje lhe daremos a lição mais séria que você já rece­beu! Talvez assim você acorde e conserte seus caminhos.

Chamou vários guardas e lhes disse:

- Levem Yun e lhe dêem um pouco de distração!

Fui levado para uma sala de tortura. Algemaram-me e usaram cassetetes elétricos, chicotes e varas para bater em mim e me torturar. Minha carne foi cortada, e feridas cobriram meu corpo. Antes de cair na inconsciência, uma pa­lavra do Senhor surgiu em minha mente:

"Esse é seu chamado. Suporte com paciência por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus."

Quando recobrei a consciência, estava imóvel no solo, como morto. Os guardas me pegaram e me jogaram de vol­ta em minha cela minúscula. Meus pés e mãos estavam pre­sos por correntes.

Naquela mesma noite, o Senhor me deu um sonho mui­to vívido. Nele, as algemas se abriam subitamente e eu fica­va livre! Eu me vi lendo uma Bíblia de estudo. Pregava para alguns dos irmãos que tinham estado presos comigo e os encorajava a testemunhar do Senhor. O Padre Yu aproximou-se e, com alegria, ficava repetindo:

- Jesus é vitorioso sobre tudo! Jesus é vitorioso sobre tudo!

Eu disse a ele:

- Quando me prenderam nessa cela pequena e escura eu orei e pedi a Deus uma Bíblia para que eu pudesse estu­dar.

Então, ainda no sonho, agradecemos a Deus no céu.

Quando acordei, vi que as algemas ainda estavam no lugar, mas o Espírito Santo me disse:

"Relaxe as mãos."

Assim que obedeci, as algemas caíram! Orei ao Senhor, como no sonho. Falei:

"Senhor Jesus, eu te amo. Muito obrigado por permitires que eu cante. Por favor, dá-me uma Bíblia."

Por volta das 8:00h da manhã seguinte, aconteceu um fato notável. O diretor da prisão abriu o portão de ferro e aproximou-se da minha cela. Gritou meu nome:

- Yun, você cometeu muitos crimes, mas respeitamos sua fé. Ontem tivemos uma reunião e decidimos lhe dar uma Bíblia. Venha e pegue!

Coloquei as algemas rapidamente de volta em minhas mãos. Peguei a Bíblia e agradeci ao diretor. Ele falou:

- Yun, faça-me o favor de estudar bem sua Bíblia e se arrepender dos seus crimes para ser um homem útil.

Em seguida trancou a porta e partiu.

Ajoelhei-me e chorei, grato a Deus por essa grande bên­ção. Mal podia acreditar que meu sonho se cumprira! Ne­nhum prisioneiro antes recebera autorização para ter uma Bíblia ou qualquer outro tipo de literatura cristã. E, mesmo assim, de maneira singular, Deus me dera uma!

Através desse evento, o Senhor me mostrou que, apesar dos planos malignos dos homens para mim, ele não me es­quecera e continuava no controle. Nenhum governo ou poder humano pode impedir que o Deus todo-poderoso realize sua vontade! Lembrei-me de quando eu tinha ape­nas 16 anos e, milagrosamente, Deus havia me dado mi­nha primeira Bíblia. Ali estava eu, com 30 anos, sozinho em uma cela minúscula, escura e suja, mas a provisão e o poder de Deus não haviam diminuído!

Minhas mãos tremiam quando abri a Bíblia bem deva­gar, na última página: "Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus! A graça do Senhor Jesus seja com todos" (Ap 22.20,21).

Permaneci isolado na pequena cela durante três meses. Entrava apenas um pouco de luz pela janela, mas era sufi­ciente para eu ler. Li a Bíblia toda nos primeiros dez dias. Aproveitei o tempo para decorar 55 capítulos, de Hebreus a Apocalipse.

Deus me ajudou a entender sua Palavra e a amá-lo mais. Foi um tempo precioso de comunhão com Jesus. Ele me mos­trou lampejos do futuro da igreja chinesa e revelou que de­veríamos levar o evangelho por todo o mundo não-alcançado e de volta a Jerusalém antes da segunda vinda do Se­nhor.

Um mês antes do fim da minha sentença de quatro anos, tive um sonho maravilhoso. Vi uma senhora idosa, de ca­belos grisalhos. Ela carregava o luar nas mãos. Andou em minha direção, sorrindo. Então vi que era minha querida mãe. Corri e me lancei nos braços dela, que me fitou com amor nos olhos e falou:

"Meu filho, não tenha medo."

Quando acordei, meu espírito exultava. Pensei que era uma pena ter sido só um sonho, mas orei para que se tor­nasse realidade e eu visse minha mãe de novo.

Três dias depois, por volta das 11:00hs da manhã, um guarda foi à minha cela e me levou ao escritório principal. Ao entrarmos, minha mãe correu para mim! Abraçou-me e chorou. Viu que eu estava algemado, magérrimo e que mi­nha pele se achava amarelada por falta de sol. Ela não con­seguia parar de chorar. Então lhe disse:

- Mamãe, por favor, console-se; tudo isso é por amor a Jesus.

Ela me interrompeu:

- Sua mãe sabe. Sua esposa e sua família pensam em você dia e noite e esperam sua volta para casa. Meu filho, não esqueça as palavras de sua mãe: "Ouça as palavras do alto e obedeça à voz de Deus. Não tenha medo".

Acariciou minhas mãos e percebeu que as algemas me apertavam demais. O coração dela estava partido. O guar­da que nos vigiava falou:

- Depressa! Falem rápido! Você não pode receber visi­tas, mas sabemos que sua mãe veio de longe para vê-lo. Acabem logo com isso antes que nos peguem!

Mamãe disse:

- Filho, vim para cá e fiquei procurando-o durante três dias. Ninguém sabia onde você estava, mas, na noite pas­sada, o anjo do Senhor falou comigo em sonho: "Não fique com medo, você vai encontrar seu filho". Hoje de manhã esse guarda me viu no portão da prisão. Ele é crente e sabia que eu estava procurando você. Aí ele me disse: "Seu filho está preso em uma cela minúscula, confinado na solitária". Hoje esse homem de coração bondoso permitiu que nos en­contrássemos.

Ela se virou para ele e falou:

- Deus, com toda certeza, irá abençoá-lo por seu ato de bondade.

Perguntei-lhe se podia escrever uma carta para minha esposa e meu filho. Ele me deu papel e caneta e tirou a algema da minha mão direita. Eu tremia enquanto escrevia para minha amada família e os exortava a permanecerem fiéis ao Senhor e a pregar o evangelho para os perdidos.

Enquanto voltava para minha cela, eu me virei e fitei os olhos amorosos da minha mãe. Ela levantou a mão e ace­nou para mim.
*****
O Irmão Xu sabia que as autoridades haviam intercep­tado a carta que ele me mandara. Mesmo assim, resolveu tentar visitar Billy Graham durante a estada dele em Pe­quim. Decidiu que valia a pena se arriscar para tornar co­nhecida a realidade que vivíamos em nosso país. Preocupava-o o fato de que a igreja de Deus na China estava sen­do representada pelo Movimento Patriótico das Três Auto­nomias, e não pelas igrejas domésticas.

O encontro entre o pregador americano e os líderes da Igreja dos Três Poderes estava marcado para 17 de abril de 1988. Através de um amigo comum, o Irmão Xu marcou um encontro com Billy Graham mais tarde, no mesmo dia.

O encontro nunca aconteceu.

Oficiais do Ministério de Segurança do Estado, que esta­vam à paisana, prenderam o Irmão Xu enquanto ele passe­ava em um parque por volta das 16:00h do dia 16 de abril. Por causa das nossas cartas, as autoridades conheciam o plano dele e organizaram uma grande operação para detê-lo antes de ele ter oportunidade de se encontrar com Billy Graham.

A notícia da prisão de Xu espalhou-se pelo mundo, e um escritor cristão estrangeiro comentou:

"No tocante à natureza e ao impacto de seu trabalho, Xu pode, com todo direito, ser chamado de 'Billy Graham da China'. Então há um toque de ironia no fato de ele ter sido preso enquanto tentava se encontrar com Billy Graham."

O Irmão Xu passou três anos na cadeia por sua tentati­va corajosa e só foi solto em 1991. Foi mantido, sem nem mesmo uma acusação formal, em uma prisão na comarca de Zhenping, na Província de Henan.


















Catálogo: autores -> Biografias%20y%20Historia%20de%20la%20Iglesia
autores -> Norman L. Geisler William E. Nix Introdução Bíblica Como a Bíblia chegou até nós
autores -> Intelectuais e resistência democrática: vida acadêmica, marxismo e política no Brasil Milton Lahuerta
autores -> Victorien Sardou Amargo Despertar Comédia dramática em três atos
autores -> Humberto Mariotti Dialéctica y Metapsíquica (1929)
autores -> Herculano Pires Pedagogia Espírita █ Conteúdo resumido
autores -> Sociedade Espírita Fraternidade
autores -> Herculano pires
autores -> A doutrina Espírita Vista por Amílcar Del Chiaro Filho
autores -> ANÁlise do perfil dos usuários dos parques urbanos da bacia da pampulha – belo horizonte, mg
Biografias%20y%20Historia%20de%20la%20Iglesia -> Francisco A. McGaw o homem que Orava a história de João Hyde, que ganhou 100 mil indianos para Cristo


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   13   14   15   16   17   18   19   20   ...   31


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal