A história emocionante de um cristão chinês que levou sua fé às últimas conseqüências



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19. A distribuidora do óleo de Deus

Fazia um ano e sete meses que eu estava no Campo de Trabalhos Forçados Da'an. Antes, passara cinco meses no centro de detenção. Minha sentença era de três anos, mas eu seria solto antes, por bom comportamento. Dois anos já haviam passado.

Informaram a Deling que eu seria solto. Ela foi imedia­tamente à prisão para me encontrar. Todos os procedimen­tos haviam sido concluídos, e estávamos prestes a sair do escritório da administração quando o telefone tocou. Era para eu ir conversar com o presidente do Comitê Político. Ficamos assustados, pois não sabíamos as implicações dessa mudança súbita. Achei que havia surgido algum fato novo na igreja e que minha situação tivesse piorado. Disse à minha esposa para partir imediatamente e levar todos os meus objetos, inclusive as anotações que havia feito nos períodos devocionais durante os dois últimos anos.

Entrei no escritório do presidente do Comitê Político e me deparei com vários oficiais graduados do DSP à minha espera. Mandaram que eu me assentasse. O presidente fa­lou:

- Yun, outro dia visitei o Departamento da Província e me indagaram especificamente sobre seu caso. Queriam saber se você mudara alguma coisa em seu comportamen­to. Informei que você se saiu muito bem nestes dois anos e que foi um prisioneiro exemplar. Eles ficaram felizes com a notícia.

- Desejo agradecer à administração da cadeia por ter cuidado de mim nestes dois anos, respondi.

O guarda entregou meu alvará de soltura e falou:

- Tudo bem, Yun, você está livre!

Saí da prisão no dia 25 de maio de 1993. Deling estava me esperando no portão. Enquanto o ônibus nos levava para casa, agradecemos a Deus por sua misericórdia.

Ao chegar, nossa primeira providência foi agradecer ao Senhor junto com minha mãe. Eu sabia que ela sofria por mim e que levava uma carga imensa havia vários anos. Ela orava por mim todo dia, sem cessar. Cantamos juntos, e depois eu e minha amada esposa oramos.

Nossos dois filhos estavam num sono profundo, e não queríamos acordá-los. Fui até o quarto deles e fiquei con­templando os rostinhos lindos. Sentia-me feliz demais, por­que podia sentar com eles no colo e tocar no rosto deles, em vez de vê-los através de barras de ferro, com um guarda ouvindo tudo que dizíamos.

Fora, nos campos, era tempo de colheita, mas em nosso coração desejávamos uma colheita muito maior, eterna, para o Senhor - colheita de almas. No consolo e na alegria dele, nos deitamos e descansamos.

No dia seguinte, enfrentei novo desafio. O Senhor man­dou que eu e Deling deixássemos tudo, subíssemos uma montanha perto da nossa vila e buscássemos a orientação dele para nossa vida.

Minha esposa acreditava que a necessidade mais pre­mente da igreja chinesa era o treinamento de novos líderes. Eu concordava com ela, mas sabia que havia muito serviço esperando por mim. Poucos dias depois que fui solto, um líder da igreja doméstica marcou várias reuniões para mim. Outro irmão me convidou para ir com ele a várias províncias, a fim de ensinar e fortalecer as igrejas. Ainda outro estava iniciando uma escola de treinamento e discipulado e queria que eu o ajudasse.

No entanto eu havia aprendido a lição com o erro que cometera antes. Recusei todos os convites e esperei com mi­nha esposa até ouvirmos Deus falar conosco.

Depois de uma semana em jejum e oração, subitamente ouvi o Espírito Santo dizer: "Distribuidora de óleo". Os dis­cípulos precisam estar com o óleo queimando em suas lâm­padas quando ele voltar. Ele nos mostrou que a maior ne­cessidade desta geração é o óleo do Espírito Santo. Precisa­mos treinar obreiros capazes de levar a presença de Deus a todo lugar que forem.

O Senhor Jesus nos mostrou com clareza a vontade dele. Havia muitos vasos vazios na China, mas poucos carrega­dores de óleo divino para enchê-los. Deus não desejava que voltássemos a ficar sobrecarregados, mas queria que aju­dássemos a acender a chama de muitos outros servos que servissem com fidelidade o corpo de Cristo.

Reunimo-nos com líderes e presbíteros da igreja. Eles vi­nham orando ao Senhor, pedindo que ele me orientasse sobre a igreja.

Eu ainda não compartilhara a visão da "distribuidora de óleo" com os líderes quando o Irmão Fu me disse:

- Oro pela igreja três ou quatro horas todos os dias, mas conheço muito pouco a verdade bíblica. Não sei ler, então só me lembro de alguns versículos. Conheço muitos pasto­res que perderam o primeiro amor de Jesus e voltaram, com seus filhos, para o mundo.

O Irmão Fu continuou, chorando:

- Irmão Yun, agora que você voltou para nós, será que não poderia reunir a geração mais jovem e ensiná-la a se­guir o Senhor?

A Irmã Sheng acrescentou:

- Nos dois últimos anos, enquanto você e o Irmão Chuan estavam presos, nossa igreja ficou como órfã, sem orienta­ção. Pouca gente participava das reuniões. Os pregadores não sabem o que ensinar. Alguns colaboradores foram obrigados a deixar o ministério e arrumar emprego para pagar as multas impostas pela polícia.

Todos choramos. Entendi que o chamado para iniciar a distribuidora de óleo era mesmo do Senhor. Sem treinamen­to, a luz de Deus em nosso meio iria se apagar pouco a pouco.

Levantei-me e compartilhei a visão da distribuidora de óleo que Deus me dera. Como a maioria dos nossos obrei­ros é gente simples, vinda do campo, muitos não entende­ram nada. Depois de uns instantes de silêncio, o Irmão Fu perguntou:

- Distribuidora de óleo? Você vai abrir uma empresa? Nem se juntarmos o dinheiro de todos em nossa igreja vai dar. Estamos na época da colheita. Temos de ajudar as fa­mílias necessitadas, os órfãos e as viúvas. Não dá para abrir­mos uma distribuidora de óleo. Você pode explicar melhor?

Sorri e expliquei:

- Quero iniciar uma distribuidora de óleo do Espírito Santo!

Finalmente eles entenderam o que eu estava falando.

Depois de orarmos, escolhemos trinta jovens para rece­ber dois meses de treinamento na primeira distribuidora de óleo. Esta foi instalada em uma caverna no topo de uma montanha.

Até ali nossa igreja vira o grande poder de Deus em nos­so meio, presenciara milagres e muita gente se encontrara com o Senhor. Contudo era a primeira vez que implemen­távamos um programa sério de treinamento para mandar novos obreiros para o campo. Chamamos a distribuidora de óleo de "Centro de Treinamento Profeta Samuel".

Durante o curso, os alunos liam todo o Novo Testamen­to e decoravam um capítulo por dia. Um mês depois, a maioria sabia recitar de cor todo o Evangelho de Mateus.

Morávamos juntos na caverna. Antes, havia muitos con­flitos de personalidade, atitudes inadequadas e ciúmes en­tre nós. Entretanto, como estávamos juntos na distribuido­ra de óleo, aprendemos a orar juntos e a amar com sinceri­dade uns aos outros.

No princípio, 80% dos alunos não conseguiam orar em público. Em algumas semanas, porém, já haviam aprendi­do e passado a sentir o peso de buscar as almas perdidas.

Acordávamos todos os dias às 4:30h da manhã e cuidá­vamos da higiene pessoal. À 5:00h adorávamos o Senhor. As horas seguintes eram dedicadas à oração pelos obreiros que estavam no campo. Às 8:00h começava a primeira aula. Fazíamos apenas duas refeições por dia - às 10:00h da ma­nhã e às 5:00h da tarde. Nós nos revezamos para cozinhar e fazer as outras tarefas. A noite, todos tínhamos algum trabalho a realizar.

Foi um tempo muito especial. Cada dia era inesquecível, e Deus nos cobriu com suas bênçãos.

No dia 5 de janeiro de 1994, foi minha vez de orar antes do café. Reparei que tínhamos apenas metade da porção costumeira. Minha esposa falou:

"Não temos mais macarrão nem verduras."

Deling e a Irmã Hannah achavam que seria melhor con­cluirmos o treinamento naquele dia. Assim mandaríamos os alunos partirem para colocarem em ação o que haviam aprendido.

Eu não concordei com essa idéia! Propus que continuás­semos a nos encher do Espírito de Deus, mesmo que isso implicasse ficar de estômago vazio.

"Se cancelarmos o curso só porque não temos comida, os soldados não ficarão bem preparados para entrar na batalha. Precisamos orar com fé e esperar que o Senhor supra nossas necessidades", falei.

Naquela noite, depois que a maior parte dos alunos foi dormir, eu e alguns líderes nos ajoelhamos no chão sujo da caverna e oramos. O Senhor nos mostrou que a prioridade deveria ser enviar obreiros para as áreas mais pobres e ca­rentes - onde as pessoas ainda não tinham ouvido o nome do Senhor Jesus.

Compartilhamos isso com os alunos, e eles se consagra­ram a essa missão. Entregaram seus corpos como sacrifício vivo para o serviço do Senhor. Poucos dias depois, começa­ram a chegar cartas de toda parte do país. Crentes das regiões ainda não-alcançadas da China, como Guizhou, Guangxi, Hunan, Tibet, Gansu e Qinghai, insistiam conosco para irmos ajudá-los.

Os obreiros jovens, cheios do óleo de Deus, foram muito bem recebidos em toda a China, e o trabalho deles, muito apreciado. Tornaram-se guerreiros do evangelho. No dia 16 de janeiro, os presbíteros da nossa igreja impuseram as mãos sobre eles e os enviaram ao campo. Espalharam-se da nossa base para todas as partes do país.

Nosso maior desafio era a falta de recursos financeiros para sustentar os novos obreiros.

Quando voltei para casa, ao final do treinamento, en­contrei uma carta registrada de um irmão, dizendo que precisava entrar em contato comigo com urgência. Não havia telefone em nossa vila, por isso viajei até a cidade mais próxima para ligar. Fiquei assustado quando um norte-americano atendeu! Ele estava muito empolgado por fa­lar comigo!

Ele não se expressava bem em chinês, mas entendi que queria se encontrar comigo. Combinamos de nos ver na ci­dade de Zhengzhou na noite seguinte. Contudo houve al­guma falha em nossa comunicação, e não o encontrei. Fui a vários hotéis, mas ele não estava em nenhum. Voltei para casa desanimado.

Mais tarde, descobri que ele se hospedara em um hotel pequeno e que chorara o dia todo, achando que havia per­dido a oportunidade de me ver. Entretanto não desistiu e enviou outra mensagem para o meu endereço. Percorri novamente a longa distância até Zhengzhou, e dessa vez nos encontramos!

Depois que nos cumprimentamos, ele falou:

"O Senhor me disse de forma muito clara para entrar em contato com você e lhe dar isto para o sustento de seus obreiros."

Ele me entregou um envelope cheio de dinheiro.

Dessa vez voltei para casa com o coração explodindo de júbilo. Compartilhei o que havia acontecido, e nos alegra­mos muito por Deus ter providenciado os recursos para os obreiros. Ajoelhamo-nos e agradecemos ao Senhor por sua provisão. Embora o dinheiro um dia fosse acabar, isso for­taleceu nossa fé, e passamos a confiar mais em Deus.

Muitas igrejas domésticas no sul de Henan e Anhui co­meçaram a se fortalecer nesse período. O grupo de Zhang Rongliang iniciou o movimento "mês do evangelho". Entre o Natal e o ano-novo lunar, cada membro da igreja deveria levar pelo menos três pessoas a Cristo. A exigência era maior para os líderes, que tinham de conquistar pelo menos cinco no mesmo período.

Assim, o evangelho se espalhou rapidamente, e as igre­jas domésticas tiveram um crescimento tremendo. Depois da primeira experiência com o mês do evangelho, batizamos 13.000 novos convertidos!

Eles foram treinados e desafiados a participar do mês do evangelho no ano seguinte. Ao fim do segundo ano da ini­ciativa, 123.000 pessoas haviam sido batizadas! Novos cres­cimentos espetaculares marcaram os anos seguintes, "até perder a conta, porque ia além das medidas" (Gn 41.49).

Até hoje, o mês do evangelho contribui para o cresci­mento exponencial das igrejas domésticas de toda a China. Cada vez mais pessoas desejavam passar pelo Centro de Treinamento Profeta Samuel, e equipes de novos obreiros saíam para o trabalho.

Muitos obreiros das primeiras turmas voltaram à caver­na e testemunharam as maravilhas que Deus havia reali­zado no ministério deles. Isso nos encorajava e nos fortale­cia cada vez mais.

Além disso, eu e Deling nos dedicamos a unir as igre­jas domésticas para missões. Viajávamos pelo país trei­nando as igrejas para enviarem missionários e evange­listas pioneiros. Incentivávamos cada localidade a inici­ar seu próprio centro de treinamento. A visão do ensino espalhou-se rapidamente quando viram o crescimento espantoso que ele trazia para a obra do reino de Deus. Em pouco tempo centenas de obreiros partiam para o campo missionário.

Em uma das nossas viagens, visitamos uma irmã idosa em Guangzhou. Ela tinha uma mensagem especial, só para mim. Avisou-me:

- Yun, você não pode amar apenas a Deus. De hoje em diante, ame também sua esposa e fique com ela.

Essa admoestação me atingiu profundamente. Confes­sei:

- Nunca, desde que nos casamos, consegui ficar muito tempo ao lado dela. Passei dez anos na cadeia ou em fuga. De agora em diante vou mudar isso. Vou colocar Deus em primeiro lugar e minha família em segundo. Viajaremos jun­tos pelo campo da colheita, crescendo unidos enquanto ministramos para o Senhor.

Creio que minha segunda passagem pela prisão foi um momento de transformação em meu casamento. O Senhor me mostrou que eu precisava me arrepender e mudar mi­nhas prioridades para não perder minha família. Mudei e nunca me arrependi disso, embora nem todos os líderes de igrejas domésticas concordem com minha atitude. Alguns acreditam que a obra do Senhor deve ser prioridade, acima da família. Em minha lista, passei a colocar meu amor por Deus em primeiro lugar; pela família, em segundo; e pelo ministério, em terceiro.

Certa vez, não muito depois de ser solto, fui convidado para pregar a um grupo de líderes de igrejas domésticas. Falei sobre a importância de colocar a família acima do ministério. Enquanto abria meu coração, vi lágrimas surgi­rem nos olhos de muitos dos participantes. Eles precisavam ouvir essa mensagem. Quando acabei, aplaudiram e conti­nuaram a chorar. Falei com base na minha experiência e também no testemunho de muitos irmãos e irmãs da China que perderam a família porque deram mais atenção às via­gens e à pregação do que à própria carne e sangue.

Afirmei que a igreja não pode cair na armadilha que Faraó apresentou a Moisés e a Arão quando tentou con­vencê-los a deixarem as mulheres e as crianças no Egito e irem apenas os homens adorar (veja Êxodo 10.10,11). Acon­selhei os líderes a incluírem a família no ministério e a leva­rem cônjuges e filhos sempre que possível. Comentei que até os apóstolos enfrentaram dilema semelhante, o que le­vou Paulo a perguntar: "Não temos nós o direito de... fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?" (1 Co 9.4,5.)

Contudo o líder daquela rede de igrejas discordava de mim. Depois do sermão, ele me censurou em particular:

"Yun, acho que você desperdiçou a oportunidade de pregar uma mensagem melhor. Você está tentando destruir meus líderes?"

Diante disso, não fico surpreso ao ver que muitos casa­mentos e famílias dos líderes desse grupo estão destruídos. Muita gente parece "bem-sucedida" no ministério, enquanto sua família se desfaz. Apesar de todos os pontos positivos das igrejas domésticas, essa área é uma das mais problemá­ticas.

Em seguida, fomos convidados a visitar a pitoresca ci­dade de Guilin. Compartilhei nossa visão com os líderes e depois fui apresentado a um irmão escandinavo, que tam­bém estava visitando a cidade. Ele ouviu o relato da nossa visão e ficava repetindo:

- Amém, amém, amém. Depois, perguntou:

- O que posso fazer para ajudar vocês?

- Você poderia cooperar com a visão das igrejas domés­ticas e investir sua fé em nós. Por ser fisicamente diferente, você chama muita atenção na China. Mas, se quiser ter o coração de servo, se estiver pronto a pagar o preço, sem medo, eu o levarei para treinar obreiros em Henan. Além disso, precisamos desesperadamente de Bíblias e de outros materiais, O crescimento das igrejas é tão veloz que nunca temos Bíblias para todos, respondi.

Meu novo amigo me perguntou de quantas Bíblias eu precisava. Sem pensar, repliquei:

- Trinta ou quarenta mil, pelo menos.

- Que tal cem mil Bíblias agora? Temos essa quantida­de à disposição, disse ele.

Eu e meus companheiros começamos a planejar como entregar as Bíblias em segurança às igrejas em várias regiões da China.

Mais tarde, ele comentou comigo:

- O Senhor nos enviou para ajudá-los na visão de uni­dade entre as igrejas domésticas. Não viemos para a China com planos de dominar seu trabalho nem de controlar nada. Não queremos impor programas nem construir templos. Es­tamos submissos à visão que Deus tem concedido às igrejas domésticas e desejamos servir-los de todas as formas possí­veis. Queremos ver o que vai acontecer.

Naquele momento, eu não tinha a mínima idéia de que Deus iria me unir no ministério a esse irmão e que trabalha­ríamos juntos por muitos anos. O Senhor o tem usado para ser uma bênção tanto para a igreja chinesa quanto para minha família.

O Senhor Jesus estava começando a nos levar a uma rede de influência em que milhões de crentes poderiam ser pre­parados para o ministério. Muitos crentes - tanto chineses quanto ocidentais - que viviam em outros países foram aju­dar a treinar nossos obreiros e enviá-los como guerreiros do Senhor. Alguns foram tocados para ajudar no sustento fi­nanceiro. Apreciamos tudo, mas não nos esquecíamos de que a verdadeira ajuda vem do Senhor. Tínhamos o cuida­do de nunca olhar para homens esperando nosso sustento.

Ao viajarmos pelo país, tínhamos dinheiro apenas para a passagem de trem. Não sobrava para comer nem para nada mais. Entretanto o Senhor nos supria e sempre conse­guíamos a quantia exata para cada viagem.

Minha família morava em uma casa antiga, prestes a desmoronar. Nossas roupas eram velhas; e os sapatos dos meus filhos, furados. Sempre acreditávamos que a maior parte de nossos bens, tempo e dinheiro deveria ir para o treinamento dos obreiros, para que eles fossem aos locais mais pobres e necessitados. Éramos todos dizimistas. Se ti­véssemos dez patas no quintal, a maior delas, bem como seus ovos, era do Senhor.

Na prisão, cada homem recebia 2,50 yuans (cerca de 30 centavos de dólar) por mês, para comprar itens como papel e creme dental. Os crentes separavam o dízimo até des­se rendimento mínimo. Guardávamos enquanto estávamos presos e, quando saíamos da cadeia, entregávamos tudo ao Senhor.

Um dia, de volta à distribuidora de óleo, impusemos as mãos sobre uma equipe que seria enviada para a Província de Sichuan. O Irmão Wei perguntou aos rapazes e às mo­ças-.

- Vocês não têm dinheiro e vão se afastar muito de casa. O que vocês mais temem que lhes aconteça?

Eles responderam a uma só voz:

- Não temos medo de fome nem de castigos físicos. Es­tamos prontos para morrer pelo evangelho! Nosso único medo é partir sem a presença de Deus. Por favor, orem para que Ele esteja conosco todos os dias.

Esses missionários sofriam muito pelo evangelho. Eram obrigados a trabalhar duro para ter o que comer enquanto pregavam. Uns alimentavam porcos, alguns cortavam ma­deira e outros carregavam baldes de esterco. Muitas pessoas se converteram só de ver o tipo de vida que levavam e o poder do seu testemunho.

Entretanto nem todas as reuniões tinham resultados glo­riosos! Às vezes as coisas não caminhavam com tranquili­dade e havia quem não apreciasse nossos ensinamentos. Uma dessas situações aconteceu na Província de Shandong.

O líder principal havia organizado um programa para sete dias. Na tarde do sexto dia, o Irmão John estava com­partilhando, e alguns crentes de Shandong começaram a criticar a mensagem. Inquiriram John com perguntas difí­ceis sobre versículos controversos do livro do Apocalipse. John respondeu:

- Sinto muito, há inúmeros tesouros escondidos na Bí­blia. Nem os maiores eruditos têm certeza do significado desses versículos.

Um homem idoso, presbítero de uma igreja, levantou-se com mais dois, e então exclamaram:

- Vocês, professores de Henan, precisam calar a boca! São muito jovens e não têm experiência nenhuma. São desprezíveis e não sabem nada. Como se atrevem a ensinar se nem sabem o significado desses versículos?

Os três reuniram seus pertences e se prepararam para ir embora. Mandaram os membros de sua igreja saírem tam­bém. Segui-os até o pátio e orei em voz alta:

- Ó Senhor, sou grato por meus irmãos ilustres. Por fa­vor, ajuda-os a não ficarem tão irados com nossa ignorân­cia das Escrituras.

Dois dos líderes descontentes deram gargalhadas e gri­taram:

- Yun, leve seus soldados de volta para o lugar de onde vieram. Enrole sua bandeira e retorne com ela para Henan.

Eu sabia que o incidente era uma perturbação maligna. Com lágrimas sinceras nos olhos, implorei que eles voltas­sem à reunião para orarmos juntos e buscarmos a vontade de Deus. Eles se comoveram e voltaram em silêncio para seus lugares. Pedi que os presentes se ajoelhassem e buscas­sem o Senhor. Falei a todos que se arrependessem de seus pecados. O amor de Deus foi derramado sobre nós. Houve muito lamento e corações quebrantados. Levantei-me e con­fessei meus pecados. Muitos homens e mulheres fizeram o mesmo.

Os três presbíteros aproximaram-se e ajoelharam-se di­ante de todo o povo. Curvaram a cabeça e disseram:

- Irmão Yun, por favor, perdoe-nos as palavras tão ru­des e ofensivas.

Ao ver o coração contrito deles, os presentes se ajoelha­ram e oraram com muitas lágrimas. Os presbíteros nos pe­diram para ficar e ensinar durante vários dias, em diferen­tes lugares de Shandong.


*****
Viajávamos demais, vivíamos ocupados e nossa vida fa­miliar também enfrentava inúmeros desafios. Encontrei mui­tas famílias cristãs pelo país que enfrentavam dificuldades tremendas devido à política de um único filho.

O governo tentava obrigar as grávidas cristãs a aborta­rem o segundo bebê. Algumas irmãs eram esterilizadas à força para não voltarem a engravidar. Famílias com mais de um filho recebiam multas pesadas e perdiam certos privilégios do governo, como assistência médica e auxílio educação.

Meu coração ficou partido quando ouvi contar sobre as grávidas cristãs que não sabiam o que fazer. Orei e tive uma idéia! Eu dizia às que encontrava:

"O aborto é um pecado terrível, então nem pense nisso. Se você concordar em se esconder até o bebê nascer, eu me comprometo a ficar com ele e criá-lo em um lar cristão."

Isso agradou às famílias e logo passei a ser, como Abraão, pai de muitos!

Havia dramas horríveis por trás da história de alguns bebês. Duas mulheres solteiras, da Província de Sichuan, resolveram se dedicar ao ministério. Estavam viajando por Henan quando uma gangue as sequestrou e as levou para uma região montanhosa a cerca de lOOkm da cidade de Chongqing.

As duas belas jovens foram literalmente acorrentadas e usadas como escravas sexuais por mais de um ano. Nin­guém sabia do paradeiro delas. Por fim, conseguiram esca­par e voltar para casa, emocionalmente destruídas pela ex­periência terrível.

Viajei para Sichuan e encontrei-me com as moças e suas famílias. Uma delas ficara grávida pouco antes de fugir. Os pais queriam que ela abortasse, mas implorei a eles para não matarem a criança. Eles relutaram, até que falei:

"Se sua filha tiver o bebê, eu assumirei a responsabilida­de de criá-lo."

Ela teve uma menina, a quem dei o nome de Yang Mu Ai (O Amor do Pastor). Cuidamos dela durante algum tem­po até que encontramos uma família cristã que a adotou.


*****
DELING: O governo local nos atormentava e nos multava porque tínhamos dois filhos. Aí, certo dia, sem o mínimo aviso, Yun chegou em casa com um bebê - uma menina - nos braços! Um líder de uma igreja em que ele estivera compartilhara seu problema durante uma reunião. Já tinha dois filhos e a esposa estava grávida de novo. As autoridades foram à casa deles e disseram que, por causa da política do filho único, eles teriam de concordar com o aborto. A outra opção seria a mulher ficar presa até o bebe nascer, quando as autori­dades o pegariam e o matariam.

Yun ouviu isso e o coração amoroso dele não aguentou. Disse ao irmão:

"Dê algum jeito, mas não concorde com o aborto. A Bíblia diz: 'Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão' (Sl 127.3). Esconda sua esposa e, depois que o bebê nascer, eu assumi­rei a responsabilidade de cuidar dele."

Foi assim que Yun começou a trazer bebês para casa. Adotamos, ao todo, dez ou onze crianças'. Nem tenho certeza absoluta quanto ao número porque ele não levou todas para nossa casa, mas eu ouvia os outros falando sobre as crianças que estavam sob os cuidados dele.

Alguns bebês eram filhos de pastores presos e torturados. A família simplesmente não tinha como levar mais uma carga e criar outro filho. Um bebê nos foi entregue por uma garota cristã que foi enganada por uma promessa de emprego na cidade. Chegando lá, foi estuprada e ficou grávida.

Yun encontrou lares cristãos para os bebês, embora às vezes as famílias que os assumiam fossem tão pobres que tivéssemos de con­tinuar lhes dando sustento financeiro. Também éramos muito pobres, mas Yun acreditava que Deus providenciaria o que fosse necessário, e o Senhor sempre providenciou, de alguma forma.

Fiquei muito brava quando meu marido começou a levar os bebês para nossa casa! Perguntei-lhe.-

"O que há de errado comigo? Se você está tão desesperado para ter mais filhos, por que não me diz?"

Mas o tempo foi passando e, depois de ouvir a história de cada criança, fui aprendendo a ter misericórdia e paciência com meu mari­do.

Passei a entender melhor o coração compassivo de Deus. Devido ao exemplo de misericórdia do meu marido, muitas igrejas começa­ram a cuidar de órfãos e crianças abandonadas.




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