A história emocionante de um cristão chinês que levou sua fé às últimas conseqüências



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20. O caminho para a unidade

No período especial de treinamento por toda a China, em 1992 e 1993, desfrutamos de momentos maravi­lhosos e frutíferos com o Senhor. Quando Deus nos abençoa, o diabo passa a se esforçar ao máximo para deter o avanço do reino de Deus. Satanás tentou apagar o fogo do Senhor com perseguição e sofrimento, mas Deus derra­mou seu óleo em nossas lâmpadas e fez nossa chama cres­cer e se tornar mais brilhante!

No início de 1994, Deus me revelou que, antes que ele pudesse derramar verdadeiramente seu poder sobre a Chi­na, era necessário que as várias redes de igrejas domésticas se unissem.

Havia um único movimento de igrejas domésticas na década de 1970. Não existiam redes nem organizações, mas apenas grupos de crentes fervorosos que se reuniam para adorar a Deus e estudar a Palavra. Todos os líderes se co­nheciam. O Senhor os unira durante tempos muito difíceis. Aprenderam a comunhão e a confiança mútua enquanto estavam algemados juntos na prisão. Saíram da cadeia e trabalharam lado a lado pelo avanço do evangelho. Naqueles primeiros dias, havia verdadeira unidade. O sofri­mento destruíra as barreiras denominacionais da igreja chinesa.

As fronteiras do país começaram a se abrir no início da década de 1980, e muitos cristãos estrangeiros quiseram nos ajudar. A primeira providência foi contrabandear Bíblias através de Hong Kong. Apreciamos demais essas doações; precisávamos delas desesperadamente!

Certa ocasião, eu e vários líderes de igrejas domésticas pegamos um trem para a cidade de Guangzhou, que fica no sul do país, para receber Bíblias dos nossos amigos oci­dentais. Após um ou dois dias de comunhão, embarcamos de volta no trem, com nossa carga preciosa. Estávamos muito felizes, cheios de amor uns pelos outros.

Contudo, poucos anos depois, as mesmas organizações missionárias começaram a misturar outros livros nas saco­las de Bíblias, obras que tratavam da teologia de uma deno­minação específica, ou então enfocavam determinados as­pectos da Palavra de Deus.

Creio que tenha sido esse o início da quebra da unidade entre as igrejas domésticas.

Os livretes afirmavam que só uma determinada forma de adoração era correta, ou que era imprescindível falar em lín­guas para ser um verdadeiro crente, ou que só os batizados em nome de Jesus (e não em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo) seriam salvos. Outros ensinamentos enfoca­vam a fé extrema e ainda havia os que defendiam e os que combatiam a participação da mulher na igreja.

Lemos os livros e logo ficamos confusos! Começaram a surgir grupos que acreditavam em uma coisa e grupos que acreditavam em outra. Em vez de falar apenas de Jesus, começamos a falar também contra os crentes que não com­partilhavam das nossas opiniões.

Pouco tempo depois, nossos amigos estrangeiros passa­ram a nos dar mais coisas - dinheiro, câmeras e outros objetos que consideravam necessários para servirmos o Se­nhor com mais eficiência. Lembro claramente que isso cau­sou divisões entre os líderes. Em nosso coração perverso, indagávamos: "Quem recebeu mais livros?" ou "Por que aquele irmão ganhou mais dinheiro do que eu?"

Foi um problema enorme. Em um ou dois anos, as igre­jas domésticas da China estavam divididas em dez ou doze grupos distintos. Foi assim que surgiu a maioria das redes.

Era muito fácil dividir uma igreja doméstica. Às vezes, uma pessoa chegava e se aproximava de um grupo de líde­res do segundo e do terceiro níveis. Oferecia dinheiro para o "sustento" e uma lista de contatos. Em pouco tempo, nas­cia um novo movimento. Nossos irmãos estrangeiros, em seu zelo para ajudar, na verdade causaram divisão e enfra­quecimento nas igrejas domésticas. "Porque lhes dou teste­munho de que eles têm zelo por Deus, porém não com en­tendimento." (Rm 10.2.)

Não estou afirmando que tudo foi culpa dos estrangei­ros! Nosso coração estava em erro, e sucumbimos facilmen­te à tentação. Também não quero dizer que não necessita­mos da ajuda dos cristãos do resto do mundo nem a quere­mos. Precisamos muito! Há necessidades tremendas, e ora­mos para que Deus as supra da forma que ele escolher, in­clusive através de cristãos de outros países. Mas a motiva­ção no dar e no receber tem de ser pura, e as doações de­vem ser feitas apenas através da liderança estabelecida, para que os mais jovens não sejam tentados a usá-las para usur­par a autoridade dos líderes que estão acima deles.

Os líderes, então, já não atuavam juntos. Achavam que, se o fizessem, estariam abrindo mão daquilo que julgavam correto e verdadeiro.

A situação piorou gradualmente durante mais de quin­ze anos. Chegou ao ponto de algumas redes de igrejas do­mésticas passarem a acreditar que apenas elas detinham a verdade e a considerar os outros grupos seitas que deveriam ser evitadas a todo custo. Os líderes já não conversavam mais e deixaram de amar uns aos outros.

A medida que viajávamos pela China e encontrávamos crentes dos vários grupos e redes, reparamos que o espírito do denominacionalismo estava por toda parte. O Senhor colocou em meu coração um peso para buscar a unidade das igrejas domésticas. Então, comecei a procurar líderes que pensavam como eu e tinham a mesma visão.

Encontrei-me com Zhang Rongliang, líder de uma das maiores redes. Ele era o irmão com quem havia me refugia­do à beira de um lago quase congelado, muitos anos antes, quando uma onda de perseguição ameaçava acabar conosco. Ele também me deu seu cachecol na noite em que fui preso, em 1983.

Contei a ele minha visão sobre a unidade, e Zhang sor­riu:

"Isso é impossível! Os grupos que você quer reunir são seitas. Não temos nada a ver com eles!"

Fiquei tão irritado que senti vontade de dar um soco nele, mas eu sabia que os outros líderes o haviam magoado pro­fundamente. Anos antes, Zhang nutria grande respeito pelo Irmão Xu, líder da rede Nascido de Novo. Certo dia, ficou sabendo que Xu estava pregando em uma vila a cerca de 20km da dele.

Como fazia anos que não via Xu, resolveu ir até lá de bicicleta para conversar com ele. Quando alcançou a en­trada de vila, os colaboradores do Irmão Xu - que haviam sido colocados lá para alertar quanto à possibilidde de sur­gir algum problema - detiveram Zhang e o impediram de passar. Não sabiam quem ele era. Em seu zelo, recusaram-se a ir conversar com Xu a respeito disso e mandaram Zhang ir embora. A verdade é que, se o Irmão Xu soubesse que Zhang estava lá fora, teria saído e o abraçado com alegria.

Devido a incidentes e mal-entendidos tristes como esse, a falta de confiança e a amargura contra os outros líderes brotaram no coração de muitos.

Viajei também para o Leste, para as cidades de Xangai e Wenzhou, onde encontrei alguns líderes idosos que não aceitaram minha visão de unidade. Afirmaram que não tra­balhariam de forma alguma com os outros grupos.

Fiquei muito desanimado e profundamente angustiado. Minha sensação era de estar perto de desistir. A visão de unidade parecia impossível de alcançar, mas o Espírito San­to me disse:

"Não chore. Você não foi o primeiro que escolhi para estabelecer a unidade entre meu povo. Chamei outros, mas eles não perseveraram na visão."

Dediquei-me outra vez ao Senhor e à visão que ele havia me dado. Ele me encorajou com Mateus 19.26: "Isto é im­possível aos homens, mas para Deus tudo é possível".

O primeiro avanço ocorreu quando me encontrei com o Irmão Xu e Deborah, a irmã dele, em 1994. Compartilhei a visão missionária para a igreja chinesa, e eles disseram que não poderíamos ir a outros países enquanto as igrejas do­mésticas estivessem divididas e cheias de ódio. O Irmão Xu, servo de Deus, me disse:

"De hoje em diante viveremos pela mesma visão. Ama­remos um ao outro, como Jônatas e Davi."

Ele e seu grupo foram os primeiros a se juntar ao movi­mento pela unidade.

Conseguimos que Zhang Rongliang e a igreja dele, Fangcheng, se reunissem conosco. Foi um grande passo, por causa da tensão existente entre esse grupo e o do Irmão Xu. Na véspera da chegada de Zhang, tivemos uma reu­nião de oração. O Irmão Fan disse:

- Irmão Xu, o Senhor me deu uma palavra para você, mas não sei se você vai aceitar. Sinto que, quando Zhang Rongliang e os líderes dele chegarem você deve assentar-se com eles imediatamente para conversar. Não deve nem orar antes da conversa. Quando eles chegarem, ajoelhe-se ime­diatamente e lave os pés de todos eles.

O Irmão Xu, que lidera milhões de crentes na China, respondeu sem hesitar:

- Aceito isso como palavra do Senhor. Com toda certe­za, lavarei os pés deles.

Zhang Rongliang e seus companheiros chegaram no dia seguinte. Nós nos cumprimentamos e nos assentamos para comer. Então passamos a conversar. Os dois grupos haviam passado treze anos sem nenhum contato. Cada lado tinha certeza de estar certo e considerava o outro, no mínimo, . um grupo de crentes que se afastara do caminho estreito e adotara crenças perigosas.

A atmosfera foi se deteriorando, e o encontro ficou pa­recido com uma reunião de negócios em que todos falam ao mesmo tempo, sobre assuntos diversos. Feridas antigas voltaram à tona e ficou evidente que os dois grupos esta­vam tão afastados quanto antes. Parecia que o Irmão Xu havia perdido a oportunidade de lavar os pés.

De repente, Zhang deu um murro no joelho e anunciou:

- Essa conversa é pura perda de tempo. Vamos orar e depois eu vou embora.

O Irmão Fan empurrou as costas do Irmão Xu e insistiu:

- Rápido! Arrume água e faça o que Deus mandou! Zhang estava orando, com os olhos fechados, quando

Xu ajoelhou-se na frente dele e começou, com gentileza, a tirar os sapatos e as meias dele. Zhang abriu os olhos e fi­cou espantado. Não podia acreditar que o grande Xu Yongze, líder do maior movimento de igrejas domésticas da China, estivesse ajoelhado, lavando seus pés! Caiu em pranto e envolveu o irmão Xu em um abraço caloroso.

Então Deborah Xu trouxe um balde com água morna e começou a lavar os pés da colaboradora de Zhang, a Irmã Ding. As duas se ajoelharam juntas no chão, abraçaram-se e choraram.

Treze anos de boatos, amarguras e ciúmes foram apaga­dos. Cada pessoa na sala passou a buscar a misericórdia e o perdão de Deus. Os líderes confessavam os pecados uns aos outros. Foi um momento poderoso. Foram tantas lágri­mas que formaram poças no chão daquele lugar abençoa­do.

Cantamos juntos:


Quando o sol começa a se pôr,

Nosso coração deseja ir para casa,

Pois somos uma família para sempre.

Deixamos a família quando éramos jovens

E iniciamos nosso próprio caminho.

Cada um de nós sofreu sozinho

E agora cada um entende a dor do outro.

Devemos aceitar os outros como irmãos

Percorrendo a estrada do evangelho.

Todos os rios e riachos acabam no oceano

Pois somos uma família para sempre.
As duas redes se comprometeram a trabalhar juntas sem­pre que possível daquele dia em diante. O amor de Deus subjugou totalmente nosso coração.

O Senhor colocou um grande peso no coração do Irmão Xu para buscar também a união com outros líderes de igre­jas domésticas. Visitamos juntos muitos grupos. Convida­mos os líderes que não se aliavam ao Movimento Patriótico das Três Autonomias para se juntar ao movimento pela unidade, que chamados de "Comunidade Sinim". Cremos que a "Sinim" mencionada em Isaías 49.12 seja a China: "Eis que estes virão de longe, e eis que aqueles, do Norte e do Ocidente, e aqueles outros, da terra de Sinim".

Oramos com eles e compartilhamos a visão da unidade. Pouco a pouco, o Senhor foi nos concedendo favor, e os líderes começaram a ver a importância da unidade por amor ao Senhor.

Muitos líderes não conheciam o Irmão Xu e se opunham a ele por terem ouvido falar mal dele. Quando ouviram dos lábios dele aquilo em que ele acreditava, e viram que a vida e o caráter dele demonstravam bondade e o fruto do Espíri­to Santo, perceberam que alguém havia mentido para eles. Aceitaram o Irmão Xu como verdadeiro homem de Deus e crente genuíno no Senhor Jesus Cristo. Muitas barreiras caíram, e a unidade tornou-se mais profunda e forte. Os líderes começaram a pregar nas igrejas uns dos outros, aprenderam as músicas dos demais grupos e passaram a elaborar estratégias conjuntas para a obra do Senhor.

No início de 1996, muitos dos principais líderes já haviam concordado em se unir, mas os do segundo e terceiro ní­veis, em especial os mais jovens, ainda não aceitavam total­mente. Não queriam abrir mão dos próprios métodos.

Fiz um propósito em favor da unidade da igreja chine­sa. Falei:

"Senhor, de hoje em diante, só comerei ovo e carne quan­do os líderes se aceitarem de todo o coração."

Certo dia, em uma reunião de líderes, um irmão notou que eu não comia ovo nem carne. Perguntou o motivo des­se meu comportamento. Expliquei, e ele imediatamente se levantou e anunciou:

"Deste momento em diante, eu me recuso a comer ovo e carne, até que as igrejas domésticas se unam."

Em outubro de 1996, cinco homens foram eleitos os pri­meiros presbíteros da Comunidade Sinim: eu e os irmãos Xu Yongze, que foi escolhido presidente, Zhang Rongliang, Wang Xincai e Shen Yiping. Cada um representava uma rede diferente.

Em novembro de 1996, os líderes das cinco redes se diri­giram a Xangai para a primeira reunião oficial da Comuni­dade Sinim. Mais uma vez Deus se moveu de maneira iné­dita e poderosa e quebrou barreiras. Alguns confessaram que haviam abrigado sentimentos negativos contra os ou­tros grupos durante muitos anos. Arrependeram-se diante de Deus e pediram perdão aos presentes.

O irmão Xu levantou-se e declarou:

"Não queremos mais seguir nossas doutrinas prediletas. Queremos aprender uns com os outros e mudar tudo o que o Senhor quiser, para nos fortalecermos mais e chegarmos mais perto de Jesus."

Embora nem todas as diferenças tenham sido resolvi­das, os líderes ficaram se conhecendo e viram que os moti­vos para se unirem eram muito mais numerosos do que as razões para se manterem separados. Além disso, descobri­ram que as diferenças teológicas se relacionavam a ques­tões que não eram essenciais à fé.

Cada grupo representado na reunião ouviu como Deus estava agindo de forma maravilhosa nos outros, e todos deram glória a Deus. Decidimos pregar nas igrejas dos ou­tros e compartilhar Bíblias e recursos, para evitar que um ou dois grupos ficassem com a maior parte da ajuda dos estrangeiros enquanto outros não recebiam nada.

No segundo dia, tomamos a ceia do Senhor. Provávelmente, essa deve ter sido a primeira vez em mais de 50 anos que os principais líderes da igreja chinesa tomavam a ceia do Senhor em união.

O movimento pela unidade prossegue até hoje, embora em 2002 os líderes tenham decidido abandonar o nome "Sinim" e simplesmente se reunir como irmãos em Cristo, sem um nome oficial. Várias outras redes de igrejas domés­ticas se juntaram a eles. Em janeiro de 2000, numa reunião especial, pela primeira vez os líderes estimaram o número de crentes em todas as redes. O total encontrado foi de 58 milhões.


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