A história emocionante de um cristão chinês que levou sua fé às últimas conseqüências


Preso pela terceira vez - o pior momento da minha vida



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21. Preso pela terceira vez - o pior momento da minha vida

Em março de 1997, onze líderes de igrejas domésticas se reuniram na cidade de Zhengzhou, capital da Provín­cia de Henan. Pretendíamos nos reunir em um aparta­mento que ficava no segundo andar de um prédio. Convi­damos uma irmã chinesa-americana idosa, e os agentes do governo a seguiram até o local da reunião.

Não sabíamos ainda, mas o Irmão Xu e vários outros líderes já haviam sido presos antes de chegarmos ao apar­tamento. Oficiais armados da Segurança Pública se escon­deram no apartamento e ficaram nos esperando.

Era uma noite muito escura e chuvosa. Telefonei para o apartamento para perguntar se o Irmão Xu já estava lá. Não reconheci a voz que atendeu e em seguida falou:

"Por favor, suba. Suba, por favor!"

Encontramos a porta completamente aberta, entramos e fomos recebidos por uma tropa com armas apontadas em nossa direção. Os oficiais foram tirando nossos cintos e usando-os para prender nossas mãos atrás das costas. Meu único pensamento era fugir. Antes que prendessem minhas mãos, andei para trás, rumo à janela. Abri-a o mais rápido que pude, gritei aos outros: "Corram!", e saltei com os pés na frente.

Não podia imaginar que o DSP havia colocado vários oficiais de prontidão embaixo da janela. Despenquei de mau jeito no solo e, por causa da altura, machuquei gravemente os pés. Os oficiais que estavam no térreo não pensavam que alguém seria louco o bastante para pular pela janela, então houve uma breve pausa enquanto eu olhava para eles, e eles, para mim. Aí, todos gritamos de susto!

Eles correram até onde eu estava, me seguraram no chão e começaram a me dar chutes e golpes violentos. Pisotearam minhas pernas e peito com as botas pesadas, puxaram meu cabelo para trás e me deram coronhadas. Senti meus ossos se partindo sob os golpes e chutes brutais. Depois aparece­ram com o temido cassetete elétrico e usaram os choques para me torturar.

O ataque foi tão duro que minha única reação foi me encolher e fixar o pensamento em Jesus, tentando não pen­sar na dor. Por fim, perdi a consciência.

O incidente foi tão violento que só não morri por mila­gre. Mais tarde, as palavras do salmista me vieram à men­te: "Não fosse o Senhor, que esteve ao nosso lado, quando os homens se levantaram contra nós, e nos teriam engolido vivos, quando a sua ira se acendeu contra nós; as águas nos teriam submergido, e sobre a nossa alma teria passado a torrente; águas impetuosas teriam passado sobre a nossa alma. Bendito o Senhor, que não nos deu por presa aos den­tes deles. Salvou-se a nossa alma, como um pássaro do laço dos passarinheiros; quebrou-se o laço, e nós nos vimos li­vres. O nosso socorro está em o nome do Senhor, criador do céu e da terra" (Sl 124.2-8).

Acordei em uma cela no quartel general do Departa­mento de Segurança Pública da cidade de Zhengzhou. O Irmão Xu e outros líderes estavam comigo. Eu me encon­trava coberto de lama das botas dos oficiais, minhas ore­lhas estavam inchadas por causa da surra, e eu não conse­guia ouvir muito bem.

Ficamos sabendo que a ordem para nos prender viera do governo central de Pequim, que havia descoberto que planejávamos nos unir. As igrejas domésticas isoladamen­te já respresentavam um espinho na carne para o estado comunista ateu. Sendo assim, a perspectiva do que pode­ria acontecer se nos uníssemos gerou terror nos escalões mais altos do governo. A ordem de Pequim determinava que as autoridades da Província de Henan deveriam tra­tar nosso caso com extrema seriedade. Os governantes des­conheciam que o reino de Deus não é deste mundo e temiam que os debates sobre a unidade resultassem em um parti­do político de oposição que poderia ameaçar a estabilida­de do país.

As autoridades filmaram e fotografaram nossa deten­ção. A notícia vazou da China para o resto do mundo.

Sofremos torturas horrendas. Fomos algemados e amar­rados juntos, com cordas, e depois surrados com varas e cassetetes. Não ficaríamos surpresos se nos levassem e nos executassem sem nenhum aviso.

Os oficiais viajaram para minha cidade, Nanyang, três dias depois que fomos presos, a fim de tentar recolher pro­vas contra mim. Chegaram lá e encontraram uma grande reunião, com a presença de cerca de 120 crentes, inclusive minha esposa Deling. Prenderam todos. Identificaram os principais líderes e os mandaram para a cadeia. Deling es­tava entre estes. A maioria dos crentes pagou uma multa e foi libertada depois de interrogatório e castigos físicos.

Em minha audiência no tribunal, o juiz declarou:

- Yun, estou farto de você. Vem fazendo oposição ao governo e virando a sociedade de cabeça para baixo há anos. Fugiu da prisão muitas vezes. Sua última façanha foi pular de uma janela e quebrar as pernas. Responda, Yun, se você tiver oportunidade, vai tentar fugir de novo?

Pensei um pouco e respondi com a verdade:

- É uma boa pergunta, senhor juiz. Não vou mentir. Se eu tiver oportunidade, vou tentar fugir. Fui chamado para pregar as boas-novas por toda a China, e tenho de fazer tudo que for possível para obedecer ao chamado que Deus colocou em minha vida.

Minha resposta enfureceu a todos: juiz, guardas e oficiais do tribunal. O juiz falou com rispidez:

- Que ousadia falar isso, seu delinquente! Vou quebrar suas pernas definitivamente, e você nunca mais vai conse­guir fugir!

Fui levado a uma sala de interrogatório, onde vários guardas me forçaram a sentar no chão, com as pernas se­paradas. Implorei que não batessem em minhas pernas fraturadas, mas um homem de aparência sinistra endureceu o coração e pegou o cassetete. Para garantir que eu nunca conseguiria fugir, golpeou minhas pernas repetidas vezes, entre os joelhos e os tornozelos. Dilacerou-as até que eu não suportei mais a dor. Desabei ali no chão, gritando como um animal ferido. A dor excruciante percorria todo o meu corpo e também a mente. Tudo que eu podia fazer era ten­tar focalizar o pensamento no Senhor Jesus e em seu sofri­mento na cruz.

Tive certeza de que iria morrer, mas Deus me sustentou porque ainda não havia concluído a obra em mim. Minhas pernas ficaram completamente pretas do joelho para bai­xo, e perdi a sensibilidade nelas. Meu corpo todo doía e havia hematomas da cabeça aos pés.

Entretanto, quando meus torturadores me carregaram de volta para a cela, quis desafiá-los e mostrar-lhes que jamais conseguiriam quebrar meu espírito, então ri e lhes disse:

"Muito obrigado pela massagem maravilhosa de hoje. Estou me sentindo bem melhor. Muito obrigado!"

Depois da audiência, fui transferido com outros irmãos para a Prisão de Segurança Máxima Zhengzhou Número Um. Fui para a solitária. Minha cela ficava perto da sala do oficial de plantão e dividia a parede com a do Irmão Xu. Os guardas achavam que eu havia enlouquecido e me deram dois apelidos: "Louco" e "Aleijado".

No dia em que cheguei, eles me espancaram e me inter­rogaram sem parar, das 8:00h da manhã até a noite do dia seguinte. Organizaram turnos para manter a pressão e me bater durante a noite toda. Não recebi alimento nem água durante todo esse tempo.

Todas as vezes que os guardas me acertavam, eu grita­va:

"Salva-me, Jesus! Ajuda-me, Senhor Jesus!"

Foi a única forma que encontrei para afastar meu pen­samento da dor e do castigo que me infligiam.

Depois dessa experiência inicial, ficamos trancados nas celas, exceto pelos períodos em que éramos levados para interrogatório, a cada dois dias. Apesar da minha condi­ção, continuaram a me torturar, na esperança de destruir meu espírito. Algumas vezes nos levavam até o Posto

Poli­cial de Dingshui para interrogatório; outras, para o quartel-general de Segurança Pública Zhengzhou Número Nove, a fim de "experimentarmos dois sabores" de tortura. Eles gostavam mais de bater na cabeça, nas mãos e nas pernas.

Eu não tinha a Bíblia, então meditava na Palavra de Deus que havia decorado e orava com lágrimas pelas igrejas. Gritava versículos bíblicos o mais alto que conseguia, apegando-me às promessas, como a que se encontra no Salmo 27.1-3: "O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei? Quando malfeitores me sobrevêm para me destruir, meus opressores e inimigos, eles é que tropeçam e caem. Ainda que um exército se acampe contra mim, não se atemorizará o meu coração; e, se estourar contra mim a guerra, ainda assim terei confiança".

Também cantava bem alto, dia e noite. Certa vez, o guar­da de plantão ficou furioso comigo e me perguntou:

- Será que você vai passar o resto da vida aqui, crimi­noso profissional?

- Não! Quando chegar o tempo de Deus, serei liberto imediatamente, respondi.

Eu demonstrava coragem e ousadia, mas, por dentro, estava sofrendo muito. Durante um dos interrogatórios, os oficiais me disseram que eu seria condenado à prisão per­pétua ou, se minha atitude melhorasse, poderia receber uma sentença de dez a quinze anos.

Diante de um futuro tão sombrio, murmurei e queixei-me com o Senhor. Cheguei até a acusá-lo:

"Ó Deus, eu quero apenas servir-te e divulgar teu evan­gelho, mas agora estou enfiado aqui nesta cela e não consi­go nem andar. És fraco e não me protegeste!"

Eu não conseguia andar, por isso, três cristãos, entre eles o Irmão Xu, se revezavam para me carregar da cela para a sala de tortura e para o banheiro. Como não estávamos na mesma cela, esperávamos ansiosos esses breves momentos de comunhão.

Para irmos à sala de tortura, passávamos por três anda­res, de modo que era a melhor oportunidade para conver­sar. O Irmão Xu pensou em se recusar a me levar para lá, mas eu lhe disse para não se preocupar, pois, se ele não fosse, os guardas arrumariam outra pessoa. Frequentemen­te, os minutos preciosos de que desfrutávamos me fortale­ciam para suportar as surras e humilhações que me espera­vam na sala escura.

O Irmão Xu é de falar pouco. Não contou o que estava acontecendo com ele, mas um dia eu o vi retornando à cela. Ele é bem corpulento, corre muito, mas naquele dia mal conseguia se arrastar pelo corredor. Vi, então, que ele tam­bém estava sendo torturado.

Às vezes, um guarda jovem me carregava. Ele viu que eu sofria muito e sabia que não recebia tratamento médico. Ele me disse, com simpatia:

- Estou vendo um homem sofrer verdadeiramente pelo nome de Jesus.

Surpreso, fitei o rosto dele. Ele prosseguiu:

- Eu me formei na academia de polícia e vim trabalhar aqui. Sou de família cristã, mas não somos fiéis como você. Por que alguém vai acreditar em Jesus e pregar a mensa­gem dele, se isso é o que recebe em troca?

- Você pode não ver nenhum benefício em minha vida agora, mas, no futuro, receberei uma bênção maravilhosa de Jesus por causa desse sofrimento, respondi-lhe.

Apesar de relutante, o jovem continuou a bater em mim, pois era o trabalho dele. Contudo, sempre mirava as partes do corpo que me causariam menos dor.

Colocaram um "falso criminoso" na cela do Irmão Xu.

Ele fingia ser cristão, mas ficou evidente que estava ali para espionar e reunir o máximo de informações possível. Era sempre simpático comigo na frente dos outros prisioneiros e perguntava ao Irmão Xu:

"Você acha que o Yun vai tentar fugir?"

Apesar das minhas pernas aleijadas, as autoridades con­tinuavam achando que eu tentaria fugir na primeira opor­tunidade!

Certo dia, na hora de irmos ao banheiro, descobri que o espião se achava muito doente. Estava pálido e parecia pres­tes a morrer. Falei para o guarda:

- Tenho certa experiência como massagista. Por favor, permita que eu fique cinco minutos com ele, e ele vai me­lhorar.

O guarda me carregou até a outra cela. Quando entra­mos, o Irmão Xu me fitou com fogo no olhar. Balançou a cabeça e começou a orar. Orei pelo enfermo em nome de Jesus e coloquei as mãos sobre a cabeça dele. Após alguns instantes, ele exclamou:

- Parece que tem um vento quente dentro de mim! Minutos depois, o guarda voltou e indagou:

- Como vai a massagem? O doente respondeu:

- Vai bem. Estou quase curado.

O Senhor o curou completamente. Para demonstrar gra­tidão, ele usou seu dinheiro e sua influência para me dar alimento. Depois desse fato até alguns guardas me pedi­ram para massageá-los quando sentiam alguma dor, e por isso melhoraram o tratamento que me dispensavam.

Embora o homem tivesse sido enviado para nos espionar, Deus usou-o para me abençoar muito. Ele alegava ser crente e disse que sua esposa conseguira contrabandear uma Bíblia para ele na prisão. O mais provável é que as autoridades tenham lhe dado a Bíblia para ele parecer cristão e conquis­tar nossa confiança. Como ele não tinha o mínimo interesse em ler a Palavra de Deus, peguei-a emprestada e estudava de noite e de manhã. Copiei muitos versículos em pedaços de papel e os passei para os irmãos, a fim de fortalecê-los.

Dias depois, o Irmão Xu entalhou uma figura na parede do banheiro para transmitir aos crentes que deveríamos permanecer fiéis, sem jamais negar o Senhor. Acrescentei as palavras "Sangue, Morte, Testemunho", sob a figura.

Depois, o Irmão Xu escreveu uns versículos e umas pa­lavras de ânimo em um pedaço de papel higiênico. Enrolou bem e colocou dentro de um montou, que jogou para mim através do corredor. Estava escrito: "Desde o início da igre­ja até hoje, todos que seguem Jesus tiveram de levar a cruz e pagar um alto preço". Além disso, deu indicações de que achava que eu deveria tentar fugir, caso tivesse chance.

As semanas foram passando lentamente, e eu me en­contrava cada vez mais deprimido por causa da minha si­tuação. Parecia que Deus me rejeitara e me deixara na pri­são a fim de apodrecer ali. Minhas pernas estavam aleija­das, e meu espírito, destruído. À noite, apoiava as pernas inertes na parede para tentar diminuir a dor.

Minha amada esposa Deling estava na prisão feminina, e eu não tinha a menor idéia do que havia acontecido com meus filhos.

Foi o pior momento da minha vida.
*****
DELING: Nossa vida incomum levou nossos filhos a enfrentarem períodos extremamente duros. Mas eles receberam muito amor dos nossos companheiros cristãos, e isso ajudou a diminuir o sofrimento deles.

Nenhum menino da idade de Isaque deveria enfrentar as pressões que ele sofreu. A época mais difícil para ele foi de março a abril de 1997, quando eu e o pai dele fomos presos por causa do evangelho. Ele tinha apenas 13 anos.

Na China, quando o pai e a mãe vão para a cadeia, o Estado tenta assumir a custódia dos filhos e colocá-los em um "ambiente protetor". Isso significa lavagem cerebral com ensinamentos ateus e tentativa de isolá-los e levá-los a odiarem os pais.

Quando eu e Yun fomos presos, amigos cristãos levaram Isaque e Yilin da nossa vila para Nanyang, onde eles tentaram frequentar a escola com nomes falsos. Entretanto a polícia de segurança procurava por eles; por isso, foram levados para Zhengzhou, capital de Henan. Mas até lá era arriscado; então, nossos filhos foram enviados para uma província distante, Shandong, onde uma família cristã passou a cuidar deles.

Foi um tempo de muita tensão para Isaque e Yilin. Em poucos meses, foram obrigados a trocar de escola e de cidade três ou quatro vezes. Isaque carregava muita responsabilidade sobre os ombros tão jovens. Cuidava da irmãzinha enquanto tentava entender o que havia acontecido com seus pais.

Mais tarde nos contaram que em Shandong ele andava olhando para o chão o tempo todo, com esperança de encontrar algum dinhei­ro. A família que os abrigou era muito pobre e mal conseguia comprar comida.

Quando fui solta, me levaram de Henan escondida para ver meus filhos. Assim que me encontrei com Isaque, ele falou:

- Mamãe, agora tenho muitas cargas para levar em minha vida.

- Isaque, você ainda é uma criança. Como pode levar cargas pe­sadas em sua idade? perguntei.

Meu filho de 13 anos respondeu:

- Papai está preso de novo. Como vamos sobreviver? Estou preo­cupado com o futuro.



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