A história emocionante de um cristão chinês que levou sua fé às últimas conseqüências



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1. Um início modesto

Meu nome é Liu Zhenying, mas os meus amigos cris­tãos me chamam de Irmão Yun. Certa manhã, no outono de 1999, acordei na cidade de Bergen, no oeste da Noruega. Sentia meu coração pul­sando, tamanha era a minha animação. Eu estivera pre­gando em igrejas da Escandinávia. Testemunhei sobre as igrejas domésticas chinesas e convidei os cristãos a nos unir­mos para evangelizar não só a China, mas todas as nações. E, nessa manhã, as pessoas que me hospedavam haviam me perguntado se eu gostaria de visitar o túmulo de Marie Monsen, ali em Bergen. Ela fora uma grande missionária luterana, a quem Deus muito usou para avivar a igreja em várias partes do meu país no período de 1901 a 1932. O ministério dela exerceu influência principalmente na por­ção sul da Província de Henan, minha terra natal.

Fisicamente, a Senhorita Monsen tinha baixa estatura, mas, para o reino de Deus, ela era uma gigante. A igreja chinesa, além de receber o impacto de suas palavras, foi profundamente desafiada por sua vida de sacrifício. Seu compromisso com Jesus Cristo era total. Ela o seguia com determinação, e mostrou como sofrer pelo Senhor e perse­verar nele.

Deus usou Marie Monsen poderosamente, de modo que muitos milagres, sinais e maravilhas acompanhavam seu ministério. Em 1932, ela completou sua missão na China. Nesse ano ela voltou para a Noruega, para cuidar dos pais idosos. Nunca mais retornou ao nosso país, mas seu legado de fé inabalável e de zelo constante permanece vivo até hoje. Além disso, a igreja chinesa aprendeu com ela que é neces­sário ter o coração completamente comprometido com a causa de Cristo.

Naquele dia eu teria o imenso privilégio de visitar o túmulo dela, em sua terra natal. Fiquei imaginando se outro crente chinês já tivera tal oportunidade. Quando ela chegou em nossa região da China, havia poucos cristãos, e a igreja era fraca. Hoje são milhões de crentes. E, em nome deles, eu pre­tendia agradecer a Deus pela vida da sua missionária.

Subimos de carro pelo cemitério. Ele ficava ao lado de uma colina, num vale estreito cortado por um riacho. De­pois de estacionar, andamos por alguns minutos, tentando encontrar o nome dela em uma das centenas de lápides. Como não conseguimos, fomos ao escritório, em busca de informações. O administrador não reconheceu o nome dela, então procurou no livro de registros de sepultamentos. De­pois de folhear um pouco, disse uma coisa que achei difícil de acreditar:

"Marie Monsen foi mesmo enterrada aqui, em 1962, mas faz muitos anos que ninguém cuida do túmulo dela. Hoje é só um local vazio, sem lápide."

Na cultura chinesa, respeitamos por várias gerações a memória de pessoas que se tornam notáveis pelos seus fei­tos. Por isso, jamais imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer. Os crentes que me acompanhavam explicaram que ainda a tinham em alta consideração e que a honra­vam de outras formas, como, por exemplo, publicando a biografia dela décadas após sua morte. Mesmo com tudo isso, para mim, o túmulo sem marca era um insulto que deveria ser reparado.

Fiquei profundamente ofendido. Com o coração pesa­do, disse em tom sério aos noruegueses que me acompa­nhavam:

"Vocês precisam honrar essa mulher de Deus! Vou dar a vocês um prazo de dois anos para construírem um túmulo e uma lápide em memória de Marie Monsen. Se não fize­rem isso, vou dar um jeito de arrumar uns irmãos chineses para virem a pé da China até aqui para que o façam! Mui­tos crentes no meu país sabem trabalhar bem com pedras. Eles aprenderam o ofício nos anos em que estiveram em campos de trabalhos forçados por causa do evangelho. Se vocês não dão a devida importância, eles terão o maior pra­zer de vir fazer o serviço!"


*******
Nasci em 1958, ano bissexto no calendário chinês. Eu sou o quarto de cinco irmãos. Vim ao mundo em uma vila rural tradicional, chamada Liu Lao Zhuang, na Comarca de Nanyang, no sul da Província de Henan na China.

Henan tem mais de cem milhões de habitantes - é a pro­víncia mais populosa do país. A despeito disso, havia mui­to espaço quando eu era criança - várias colinas a escalar e árvores para subir. A vida era difícil, mas eu me lembro de me divertir bastante na minha infância.

Nossa vila tinha 600 habitantes, e todos trabalhavam no campo. E assim até hoje. Não houve muitas mudanças por lá. Plantávamos principalmente batata, milho e trigo. Além disso, cultivávamos repolho e algumas raízes comestíveis.

Morávamos numa casa simples, de barro, com o telhado de palha. A chuva sempre dava um jeito de encontrar bu­racos no telhado e, no inverno, o vento gelado normalmen­te soprava pelas frestas das paredes. Não tínhamos dinhei­ro para comprar carvão. Assim, quando a temperatura caía abaixo de zero, queimávamos palha de milho para nos aquecer.

No verão, o calor e a umidade eram tão intensos que ninguém conseguia dormir dentro da casa, pois quase não era ventilada. Por isso, arrastávamos as camas para fora e nos juntávamos aos vizinhos para dormir ao ar livre, numa temperatura amena.

"Henan" significa "sul do rio". O grande Rio Amarelo corta a região norte da província. Há séculos, as cheias fre­quentes vêm infligindo sofrimento às populações ribeiri­nhas. Sabíamos disso quando eu era criança, mas, para nós, o norte de Henan ficava a milhões de quilômetros.

Nossa vila se aninhava nas colinas ao sul da província, longe de inundações devastadoras e de influências exter­nas. Nossa única preocupação era a safra seguinte. A vida toda girava em torno do ciclo de arar, plantar, regar e co­lher. Meu pai dizia que o trabalho árduo só produzia o su­ficiente para comer. A labuta no campo exigia todas as mãos disponíveis, então fui convocado para ajudar, com meus irmãos e irmãs, desde bem pequeno. Como consequência, não pude frequentar a escola por muito tempo.

Nas outras regiões da China, os nativos de Henan têm fama de serem teimosos como mulas. Talvez tenha sido por causa dessa teimosia que a província não abraçou o cristia­nismo quando os primeiros missionários protestantes che­garam, em 1884. Muitos deles trabalharam em Henan sem alcançar resultados visíveis. Em 1922, depois de quase qua­renta anos de esforço missionário, havia apenas 12.400 con­vertidos em toda a região.

A sociedade ridicularizava e condenava ao ostracismo os que aceitavam a religião dos "diabos estrangeiros". Fre­quentemente a oposição adotava atitudes mais violentas. Espancavam os cristãos. E muitos crentes morreram por causa da fé. Os missionários também foram perseguidos. Grande parte do povo os considerava ferramentas do im­perialismo e do colonialismo. Acreditava que haviam sido enviados por seus países para controlar o coração e a men­te do povo chinês enquanto seus governantes saqueavam os recursos naturais da terra.

A violência contra os estrangeiros chegou ao clímax em 1900, quando uma sociedade secreta chamada "Boxers" instigou um ataque nacional contra eles. A maioria conse­guiu fugir da carnificina, porém muitos viviam em áreas remotas no interior da China, longe da segurança das cida­des litorâneas. Os Boxers massacraram com crueldade mais de 150 missionários e milhares de chineses que haviam se convertido pelo trabalho deles.

Essas pessoas valentes tinham vindo para servir nossa nação e, com sacrifício, trazer o amor do Senhor Jesus para nós. E foram massacradas. Vieram compartilhar Cristo e melhorar nossa vida com a construção de hospitais, orfa­natos e escolas. Como recompensa, demos a morte a elas.

Depois de tudo isso, alguns julgaram que os aconteci­mentos de 1900 seriam suficientes para deixar os missioná­rios apavorados, sem jamais pensar em voltar à China.

Estavam enganados.

No dia 1º de setembro de 1901, um grande navio atra­cou no porto de Xangai. Marie Monsen, uma jovem norue­guesa, solteira, desceu pela prancha e pisou o solo chinês pela primeira vez. Ela fazia parte da nova onda missioná­ria que, inspirada pelos martírios do ano anterior, havia dedicado a vida ao serviço de tempo integral na China.

Ela passou mais de trinta anos no país. Durante algum tem­po, morou na minha comarca, Nanyang. Ali encontrou um pequeno grupo de crentes que havia nascido lá e o treinou.

Marie Monsen era diferente da maioria dos missionários. Ela não se importava muito em causar boa impressão nos líderes da igreja chinesa. Muitas vezes, dizia:

"Vocês são hipócritas! Confessam Jesus Cristo com os lábios, mas o coração de vocês não está totalmente com­prometido com ele! Arrependam-se, antes que seja tarde para escapar do julgamento divino!"

Ela trouxe fogo do altar de Deus.

Monsen disse aos cristãos que não bastava estudar a vida dos convertidos, mas que todos precisavam nascer de novo para entrar no reino do céu. Assim, tirou a ênfase do co­nhecimento intelectual e mostrou que cada indivíduo é res­ponsável diante de Deus pela própria vida espiritual. Ela viajava pelo centro da China, e em toda parte por onde passava corações se convenciam do pecado, e o fogo do avivamento varria as vilas.

Na década de 1940, outro missionário ocidental pregou o evangelho à minha mãe. Ela tinha vinte anos na época. E embora não tenha entendido tudo, foi profundamente tocada. O de que mais gostava era cantar os hinos e ouvir as histórias bíblicas que as equipes evangelísticas itinerantes contavam. Logo começou a frequentar a igreja e entregou a vida a Jesus Cristo.

Em 1949, a China tornou-se um país comunista. Em poucos anos, missionários foram expulsos; templos, fecha­dos; e milhares de pastores chineses, presos. Muitos morre­ram. Minha mãe viu os missionários deixarem Nanyang no início da década de 1950. Ela nunca se esqueceu do modo como foram levados na direção da costa sob guarda arma­da. Eles tinham os olhos cheios de lágrima, pois viam o mi­nistério que realizavam para o Senhor ser bruscamente in­terrompido.

Em 1950, em uma única cidade, Wenzhou, na Província de Zhejiang, 49 pastores foram mandados para campos de trabalhos forçados próximos à fronteira com a Rússia. A pena de muitos chegou a vinte anos de cadeia, pelo "cri­me" de pregar o evangelho. Dos 49, apenas um voltou para casa. Todos os outros morreram na prisão.

Na região em que nasci, Nanyang, crentes, que se recu­saram a negar a Cristo, foram crucificados nas paredes das igrejas. Outros foram acorrentados a veículos e cavalos e arrastados até morrer.

Um pastor foi preso e depois amarrado a uma longa cor­da. As autoridades, iradas porque o homem de Deus não renunciava à fé, usaram um tipo de guindaste para içá-lo bem alto. Diante de centenas de testemunhas, que o acusa­vam falsamente de ser "contra-revolucionário", perguntaram-lhe pela última vez se negaria a fé. Ele gritou em res­posta:

"Não! Jamais vou negar o Senhor que me salvou!"

Em seguida, soltaram a corda, e ele caiu com grande impacto no chão.

Apesar da violência da queda, os torturadores constata­ram que ele não havia morrido. Então levantaram-no de novo pela corda, deixando-o cair mais uma vez para termi­nar o serviço. O pastor morreu para esta vida, mas vive no céu, com a recompensa daqueles que são fiéis até o fim.

E a vida não era difícil apenas para os cristãos. Mao lan­çou o projeto chamado "Grande Salto Para a Frente", com o qual levou a fome a todo o país. Foi, na verdade, um gran­de retrocesso. Estima-se que em Henan, minha província, oito milhões de pessoas tenham morrido de fome.

Nesse período difícil, a pequena e inexperiente igreja da minha cidade, Nanyang, se dispersou. Era um rebanho sem pastor. Minha mãe também abandonou a igreja. Nas déca­das que se seguiram, ela esqueceu a maior parte do que aprendera na juventude. Ficara totalmente privada da Pa­lavra de Deus e da comunhão com outros cristãos. O rela­cionamento dela com o Senhor se esfriou.
****
No dia 1º de setembro de 2001 - exatamente 100 anos depois que Marie Monsen chegou à China para iniciar sua carreira missionária - mais de 300 cristãos noruegueses se reuniram no cemitério de Bergen para uma oração especial e uma cerimônia de dedicação. Foi descerrada uma bela lápide em memória de Monsen, adquirida com contribui­ções de várias igrejas e ofertas individuais de muitos cris­tãos.

O monumento apresenta a fotografia de Marie Monsen e seu nome em chinês. Além disso, traz:


MARIE MONSEN 1878 -1962

MISSIONÁRIA NA CHINA 1901 -1932


Quando contei na China que o túmulo de Marie Monsen havia sido reconstruído, os crentes ficaram gratos e tam­bém aliviados.

Temos de relembrar sempre o sacrifício dos que Deus usou para estabelecer seu reino. Eles merecem honra e res­peito.




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