A história emocionante de um cristão chinês que levou sua fé às últimas conseqüências



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28. Uma semente no solo

No segundo dia depois que fui preso, pararam de me espancar e me levaram para uma cela no posto policial que ficava perto do aeroporto. Para grande surpresa deles, a investigação mostrou que meu passaporte alemão era verdadeiro, e não falsificado. Além disso, encontraram comigo documentos da Comunidade Sinim de líderes de igrejas domésticas da China, que declaravam que eu era representante autorizado deles. Começaram a acreditar que eu era mesmo pastor e não um espião!

As cartas de Sinim ajudaram a esclarecer minha identi­dade, mas também levaram as autoridades de Mianmar a avisar à embaixada da China que haviam detido um líder cristão de lá. A essa altura, muitos cristãos em todo o mun­do já haviam sido avisados de que eu fora preso, e milhares de orações subiram ao Senhor, pedindo que ele não permi­tisse que eu acabasse nas mãos do governo chinês. Muitos temiam que a China descobrisse que eu havia fugido da prisão em 1997, me repatriasse e me executasse.

Poucos dias depois, o diretor do posto policial me avisou que um representante da embaixada alemã estava lá para me visitar. O funcionário me perguntou como eu estava e me entregou roupas e alimentos.

Logo no dia seguinte fui informado de que representan­tes da embaixada chinesa iriam me ver às 10:00h da ma­nhã. Fiquei preocupado e clamei em oração ao Senhor, para que a vontade dele fosse feita.

Na tarde do dia anterior à visita programada pela em­baixada chinesa, alguns cristãos birmaneses me visitaram. Contei-lhes o que sabia. Meus amigos perceberam a gravi­dade da situação e se dirigiram imediatamente à embaixa­da alemã para notificá-los da visita. Os alemães conheciam todo o meu passado na China e estavam plenamente cons­cientes do perigo que eu correria se caísse nas mãos dos chineses. Decidiram chegar à minha cela antes da delega­ção da China e notificar à embaixada que eu era cidadão alemão e que estavam tratando do meu caso.

O diretor percebeu que havia uma disputa entre as duas embaixadas quanto ao acesso a mim, por isso, chamou os chineses e disse que não era uma boa hora para visitas. Pe­diu que remarcassem a entrevista.

Fui conversar com o diretor e deixei bem claro que não queria me encontrar com nenhum funcionário da embai­xada da China. Ele entrou em contato com a embaixada e informou:

"Yun agradece a preocupação sincera com o bem-estar dele, mas agora ele é cidadão alemão e prefere que a em­baixada da Alemanha conduza o caso."

Entretanto os chineses não desistiram. Ficaram sabendo quem eu era e insistiam em se envolver no assunto. Tenta­ram reunir provas contra mim para convencer as autorida­des birmanesas a me entregarem a eles. Os birmaneses fica­ram em uma situação difícil. Por um lado, queriam agra­dar aos alemães, mas também se sentiam pressionados pelo vizinho gigante do Norte.

No entanto, pela graça de Deus, as autoridades chine­sas não tiveram permissão para me ver, e nunca recebi visi­ta delas.

Normalmente os prisioneiros não ficam mais do que alguns dias no posto policial do aeroporto, mas as autori­dades não sabiam o que fazer comigo. Passei um mês lá. Permitiram que eu ficasse com a minha Bíblia. Usei o tem­po para decorar os livros de 1 Samuel, Ester, o Evangelho de João e Gálatas.

Os prisioneiros não recebem comida em Mianmar. Pre­cisam comprar seu alimento todos os dias de vendedores que ficam na porta das prisões. Só podíamos tomar um banho de dois minutos a cada quatro dias. O banho era sempre bem-vindo, por causa do calor e da umidade exces­sivos.

Meus amigos birmaneses disseram que eu seria solto de­pois de um mês. Entretanto a previsão deles não se confir­mou. Em vez de ser libertado, fui transferido para a maior cadeia de Mianmar, no meio da cidade de Yangun. A insti­tuição abriga dez mil homens. Não há palavras para des­crever as condições do lugar. Muitos prisioneiros sofrem de aias, e há grande número de leprosos. O cheiro de carne apodrecida está impregnado em todos os cantos do prédio escuro e abandonado, onde almas preciosas são deixadas para morrer em silêncio.

Cem prisioneiros se espremem em cada cela. É tão aper­tado que não dá para dormir esticado. Cada um tem de se encolher, e dormem todos um ao lado do outro. Ficamos amontoados, como sardinhas em lata. A noite, se um prisi­oneiro começa a se mexer ou tosse demais, os que estão por perto batem nele.

Conheço muitas prisões chinesas, mas nenhuma nem se compara às condições terríveis de sobrevivência desse lu­gar. Yangun (que antes se chamava Rangun) é uma das cidades mais quentes e úmidas do mundo. Durante o dia, a temperatura varia entre 35°C e 40°C, e a umidade, entre 85% e 90%. Suávamos o tempo todo no ar enevoado e féti­do. Para piorar a situação, proibiram que eu ficasse com a minha Bíblia.

Eu sabia que tinha sido preso por desobedecer à orienta­ção do Senhor. Mas, apesar de parecer uma contradição, eu também sentia que fazia parte do plano dele que eu testemunhasse de Jesus Cristo aos criminosos desesperados da­quela prisão. Foi por isso que Deus me enviou para aquele lugar destituído de esperança.

Antes de eu sair da China em 1997, Deus havia me dito:

"Enviarei você a um novo lugar, onde não entenderá nem uma palavra sequer do que eles dizem."

Era exatamente essa a minha situação. A incapacidade de me comunicar com os outros prisioneiros foi minha maior carga enquanto estive na prisão em Mianmar.

Havia muitos homens sem esperança em minha cela. Um deles, condenado por trafico de drogas, cumpria sentença de 387 anos! Outros foram condenados a mais de 160 anos. Mianmar é uma nação budista, e as pessoas acreditam em reencarnação. Assim, essas sentenças enormes pretendiam punir os criminosos não apenas pelo restante desta vida, mas também em várias das seguintes!

Em um canto da nossa cela, havia um santuário budis­ta, com um altar e ídolos. Os outros prisioneiros ficaram sabendo que eu era pastor e, desconhecendo a diferença entre idolatria e o Deus vivo, me mandaram dormir bem embaixo do santuário. Acreditavam que eu saberia seguir os ritos religiosos melhor do que eles.

Três vezes por dia, entre 5:00h e 6:00h da manhã, entre meio-dia e l:00h da tarde e entre 7:00h e 8:00h da noite, todos os prisioneiros eram obrigados a se assentarem em posição budista para orar e meditar na frente dos ídolos da cela. O governo de Mianmar acredita que obrigar os crimi­nosos a orar a Buda é a melhor forma de reeducá-los. Se alguém dormir durante as orações, sofre uma surra violen­ta dos guardas.

Havia um prisioneiro que falava um pouco de chinês e, através dele, fiz um protesto veemente aos guardas:

"Não posso participar do culto de vocês. Sou pastor cris­tão. Mesmo que vocês me prendam com correntes e me ar­rastem para perto desses ídolos, eu não vou adorá-los nem orar a eles!"

Certo dia, enquanto os prisioneiros oravam a Buda e meditavam, o Espírito Santo me deu uma melodia simples:

Aleluia,, aleluia, aleluia

Aleluia, aleluia, aleluuia


Fui cantando, e o Senhor deixou meu coração livre como um pássaro! Grande alegria inundou minha alma. Eu senti que Deus estava tocando o coração dos outros prisioneiros. Eles não tinham a menor idéia do significado da palavra, mas alguns começaram a cantar comigo. Estes logo passa­ram a estampar um enorme sorriso no rosto. A música sim­ples foi estabelecendo alegria e paz em um recinto apinha­do de pecadores endurecidos.

O supervisor se aproximou de mim e falou:

- Não é permitido cantar nesta prisão. Pare com isso imediatamente!

- Sou um pastor cristão. Jesus ama ouvir as pessoas can­tarem sobre ele. Por isso peço que o senhor entenda minha situação e me permita praticar minha religião da forma que Deus determinou, repliquei.

Pela graça de Deus o homem considerou meu pedido razoável e permitiu que eu continuasse cantando.

Nos dias seguintes, todos os outros prisioneiros foram se unindo ao meu cântico Aleluia. O rosto sombrio deles pas­sou a demonstrar alegria e, por algumas horas a cada dia, o sofrimento deles era aliviado. A atmosfera na cela mu­dou da água para o vinho. Meus colegas viam a presença de Jesus em mim e por isso me respeitavam e me considera­vam um homem que conhece a Deus.

Havia uma pequena capela no complexo penitenciário. Eu tinha autorização para ficar lá enquanto os outros prisi­oneiros oravam a Buda. Na capela, conheci alguns cristãos birmaneses que haviam sido presos por motivos diversos. Fiquei espantado ao ver que vários homens da minha cela, inclusive um monge budista, me seguiam até a capela to­dos os dias para me ouvir cantar. Eles sabiam que havia algo diferente em meu coração e estavam curiosos. Quan­do eu me ajoelhava para orar, eles se ajoelhavam também, esperando receber uma bênção do meu Deus! A barreira da língua me impediu de pregar o evangelho a eles, mas sei que o Senhor encontrará uma forma de satisfazer a fome espiritual deles.

De vez em quando, os presos estrangeiros eram levados à delegacia do centro da cidade para interrogatório. Na volta, parávamos em uma loja para comprar suprimentos para os presos birmaneses. Certa vez, comprei, com meu dinheiro, mais de 40 escovas de dente, dezenas de sabone­tes e grandes pacotes de alimentos para os meus compa­nheiros de cela. Alguns estavam quase morrendo de des­nutrição, e essa era a única comida que conseguiriam.

Enquanto isso, as informações sobre o meu caso esta­vam desencontradas. Eu não fora acusado de nenhum cri­me. Várias vezes meus amigos birmaneses afirmavam que eu seria solto logo, mas os dias passavam sem haver mu­dança. Logo entendi que a solução estava unicamente nas mãos de Deus. Sabia que sairia da cadeia assim que meu ministério lá estivesse concluído. Não seria solto nem um minuto antes nem um minuto depois.

No dia 9 de abril de 2001, escrevi uma carta que foi trans­mitida para crentes do mundo todo. Sabia que muitos ora­vam por mim todos os dias. Escrevi:


"Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

"Agradeço muito sua preocupação e suas orações. Minha situação em Mianmar depende exclusivamente de Deus, e me submeti por completo à vontade dele. Confio de todo o cora­ção que meu Senhor tem o tempo dele e guarda meu futuro em suas mãos, porque é meu Senhor e Salvador.

"Aqui neste país não podemos confiar em advogados e juízes, porque eles mudam de opinião como o vento muda de direção. Prefiro me entregar totalmente ao cuidado do meu Senhor. Só ele conhece o amanhã.

"As condições de vida aqui são piores do que nas prisões chinesas, mas tenho liberdade para cantar e orar a Deus to­dos os dias. Sei que meu Senhor encontrará um caminho para mim até quando parecer que não existe mais caminho ne­nhum.

"Graças a Deus, conduzi dois prisioneiros a Cristo. Ora­mos juntos a oração dos pecadores. Há cerca de cem prisioneiros em minha cela, e sou o único estrangeiro. Todos sabem que sou pastor.

"Por favor, transmitam minhas saudações à minha famí­lia e a todos os irmãos que se preocupam comigo. Continuem orando sem cessar, porque a oração torna todas as coisas possíveis!

"Bem, amigos, que o Senhor conceda a vocês alegria e paz. Espero vê-los em breve!

"Que Deus esteja conosco!

"Irmão Yun."
Em ambientes úmidos e imundos, as bactérias e as doen­ças se espalham rapidamente. Em nossa cela, cem homens usavam o mesmo vaso sanitário. Isso resultou em uma epi­demia horrível que matou vários prisioneiros. A infecção era transmitida pelas nádegas e partes íntimas. Na fase pior da epidemia, durante semanas, vários homens morriam todas as noites. O sintoma da doença era o estômago quei­mando. Os doentes rolavam em agonia horrível antes de morrer.

Dessa vez também fui infectado pela doença terrível e passei um mês sem conseguir digerir alimentos sólidos. Como os outros prisioneiros, a única coisa que podia fazer era ficar deitado o dia todo me coçando. Os parasitas to­maram conta do meu corpo. Algumas vezes eu olhava para minha barriga e via o verme se movendo sob a pele. Às vezes a pequena cauda saía pelos meus poros.

Foi um período horrível, mas tentei manter o espírito ale­gre no Senhor. Mais de 80% dos prisioneiros foram infectados. Por fim, piorei tanto que fiquei inconsciente durante cinco dias. Acordei no hospital da prisão.

Depois de vários meses na cadeia, finalmente chegou o dia da decretação da minha sentença. Meus amigos birma­neses tinham certeza de que eu seria solto, talvez mediante o pagamento de uma multa, e deportado. Eu não sabia o que esperar, mas coloquei minha vida nas mãos de Deus.

Algemaram-me e levaram-me do hospital ao tribunal. O juiz leu meu caso e, depois, sem esboçar emoção, declarou simplesmente:

- Sete anos.

Meus amigos e o meu advogado ficaram arrasados. Jamais pensariam numa sentença tão longa. Ficaram sem palavras e fitaram-me com lágrimas nos olhos. Naquele dia eu estava cheio de fé, e sabia que o Deus todo-poderoso estava comigo, qualquer que fosse o veredicto. Curvei-me diante da bancada do juiz e, através do tradutor, falei:

- Meritíssimo, quero agradecer-lhe por me conceder o visto para permanecer durante sete anos em seu país.

Com um aceno ele me fez sair. Os guardas me levaram de volta, algemado, ao hospital da prisão. Contei a um dos meus colegas de cela a duração da minha pena, e ele se alegrou comigo. Isso me ajudou a ver tudo sob outra pers­pectiva. A sentença dele era de 150 anos.

Bem no fundo, eu achava que Deus iria me deixar sair assim què eu tivesse aprendido a lição pela minha desobe­diência. Nunca pensei que seria condenado a tanto tempo de prisão. Queixei-me ao Senhor:

"Pai celestial, minha esposa e meus dois filhos estão me esperando. Eu me arrependi por ter desobedecido, mas ago­ra será que o Senhor pode derramar sua misericórdia e me deixar ir para casa?"

Quando me recordo desse tempo na prisão em Mianmar, vejo com clareza que foi uma viagem missionária organi­zada pelo Senhor. Não foi por acaso que ele me mandou para aquele lugar tenebroso. Havia inúmeras almas deses­peradas que precisavam conhecer Jesus.

Contaram-me que havia cinco chineses de Singapura naquela prisão, cumprindo prisão perpétua mais 50 anos por tráfico de drogas. Eram todos bem jovens, com cerca de 30 anos, e mesmo assim já estavam presos havia alguns anos. Outro chinês, de Taiwan, fora condenado a prisão perpétua e mais 100 anos. Esse tinha uns 40 anos. Como eles falavam minha língua, eu estava ansioso para conhecê-los e compartilhar o evangelho, para ajudá-los em sua situ­ação desesperadora.

Os prisioneiros condenados à prisão perpétua eram confinados em solitárias, pequenas salas escuras, com pouca luz e sem ventilação. Isso impedia que eu tivesse contato com eles.

Em sua provisão, Deus fez com que eu ficasse sabendo da existência deles e eles também ouvissem falar sobre um "pastor chinês que ama Jesus" que estava preso na mesma cadeia. Eles sentiam tanta vontade de me conhecer quanto eu de encontrá-los.

Eles descobriram que eu me encontrava no hospital da prisão. Estavam tão desesperados para me conhecer e ter notícias do mundo exterior que elaboraram um plano. Cada um fingiu uma doença, e os guardas os enviaram para o hospital a fim de serem examinados.

No momento em que os vi, a compaixão vinda do Se­nhor encheu meu coração. Eles eram como animais feri­dos, com o espírito completamente destruído e sem motivo para viver. Não consegui me conter e abracei cada um de­les com força. Disse-lhes:

- Queridos irmãos, vocês são abençoados! O perdão supremo já desceu do céu para vocês!

Ficaram empolgados, achando que eu estava dizendo que as autoridades birmanesas iriam revogar as sentenças deles. Tinham esperança de que algum tribunal internacio­nal tivesse conseguido garantir a libertação deles.

Prossegui, com lágrimas nos olhos:

- Irmãos, não sei nada sobre a situação de vocês diante das autoridades deste mundo, mas vim aqui para dizer-lhes que Jesus Cristo é o verdadeiro e eterno Juiz. Ele ofere­ce a vida dele por vocês. Ele é o Senhor do perdão.

Eles retorquiram:

- Todos crescemos em famílias que acreditavam em Buda, e ele nunca nos ajudou. Como podemos receber Je­sus?

Compartilhei o evangelho com eles e disse:

- Quando vocês morrerem, não sofrerão mais. Vocês receberão vida eterna em Jesus. Só Jesus pode salvar vocês!

Um deles caiu de joelhos e agarrou meus tornozelos. Desesperado, pediu:

- Ó pastor, por favor, me ensine como ser salvo! Nesse exato momento, os guardas do hospital nos inter­romperam. Gritaram:

- Não é permitido conversar sobre religião aqui! Mandaram os homens saírem do meu quarto.

Fiquei muito frustrado, porque queria dizer muitas coi­sas mais e, acima de tudo, queria falar de Jesus. Orei para que Deus nos desse outra oportunidade.

Os prisioneiros condenados à prisão perpétua usavam uniforme vermelho. Pedi ao meu advogado que me levasse, na visita seguinte, uma camisa vermelha. Esperava conse­guir me aproximar deles sem chamar a atenção dos guar­das.

Quando me encontrei de novo com quatro desses prisio­neiros, perguntei:

- Vocês acreditam mesmo que Jesus morreu na cruz por vocês?

Eles responderam com firmeza:

- Acreditamos!

- Estão prontos a abandonar os ídolos para sempre e a receber Jesus como seu Senhor e Salvador? Vocês acredi­tam que o sangue dele pode limpar vocês de todo pecado? indaguei.

Mais uma vez eles responderam em uníssono:

- Sim, acreditamos!

Oramos juntos, e cada um deles recebeu Jesus no cora­ção. Fizeram a passagem da morte para a vida. Eu sabia que não havia tempo a perder, então levei-os ao banheiro, onde havia uma pia e uma torneira. Pedi que cada um co­locasse a cabeça sob a torneira e batizei-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Disse a eles:

- Alguns homens passam a vida fora da cadeia, mas depois enfrentam a prisão eterna no inferno. Vocês estão presos nesta vida, mas, a partir de hoje, o nome de cada um de vocês está escrito no céu, e vocês estão livres!

Eu ainda não tinha acabado o batismo quando um guar­da entrou correndo no banheiro e gritou:

- O que vocês estão fazendo?

Gritei em resposta:

- Não se preocupe! Sei o que estou fazendo! Sou servo do Deus Altíssimo!

O guarda se limitou a ficar nos olhando, sem saber o que dizer.

Dirigi-me aos quatro novos crentes:

- De hoje em diante vocês têm autoridade para orar pelos outros prisioneiros e para contar a eles sobre a salva­ção maravilhosa que vocês receberam.

Pela graça de Deus consegui levar doze presos a Jesus, inclusive um homem de Taiwan, Yue Minyu, que cumpria pena de prisão perpétua acrescida de 100 anos por tráfico de drogas. Ele me contou que antes havia passado algum tempo preso em Taiwan, onde a semente do evangelho fora plantada em seu coração por uma equipe cujo ministério era visitar prisioneiros.

Aproveitei todas as oportunidades para ensinar os no­vos crentes a orar e também para contar-lhes as histórias bíblicas. Fiquei internado no hospital da prisão por mais de dois meses por causa da enfermidade.

Depois que contraí a terrível doença que assolou a pri­são, passei cinco dias inconsciente no hospital. Mesmo após me recuperar, continuei tendo febre, dor de cabeça, pres­são alta e muitas dores no aparelho gástrico. Só mais tarde descobri que Deus tinha um plano ao permitir que eu con­tinuasse doente. Isso me deu oportunidade para comparti­lhar o evangelho com os prisioneiros chineses. Além disso, se eu não estivesse internado, teria sido enviado imediata­mente para o campo de trabalhos forçados, na região ru­ral, para cumprir a sentença de sete anos.

Os médicos foram me examinar várias vezes para ver se minha saúde havia melhorado o suficiente para me dar alta. Nos dias anteriores à chegada deles, eu me sentia bem, mas, quando chegavam, minha pressão subia de repente, ou eu tinha um problema gástrico, ou era acometido de febre!

A graça de Deus era com os novos convertidos na pri­são, e eles cresciam no conhecimento do Senhor. Usei mú­sicas para ensinar-lhes muitos textos bíblicos. Como falavamos e cantávamos em chinês, os guardas não sabiam que estávamos conversando sobre a Bíblia. Na verdade, eles assim como os médicos, pareciam gostar das nossas músi­cas. A vida desses prisioneiros mudou completamente, de um jeito que só Jesus é capaz de fazer. Homens antes cheios de ira e ódio passaram a ser cheios de amor e misericórdia. Cuidavam dos enfermos que estavam à morte e gastavam do próprio dinheiro para comprar alimento e levar consolo a eles. Oravam pelos doentes e faziam tudo que podiam para compartilhar o evangelho. Cada um orava ainda com fervor por sua família em Singapura e em Taiwan e pedia que Deus tivesse misericórdia de seus parentes.

Além disso, me contaram que oravam todos os dias para que eu fosse solto, para poder continuar em meu ministé­rio.

Eu choro toda vez que me recordo daqueles homens e me lembro de como a graça de Deus os alcançou em situa­ção tão desesperadora. Ficamos íntimos em pouco tempo e desfrutamos de verdadeira fraternidade. Já tentei de todas as formas possíveis fazer chegar Bíblias a eles, mas até hoje não consegui. Continuo a pedir a Deus para providenciar a Palavra dele para aqueles homens.

Algumas pessoas passam a vida toda fora da cadeia, mas com o coração preso, escravo do pecado e cativo a muitos laços. Esses homens enfrentam a existência mais miserável possível na prisão. Contudo, no interior, são li­vres como pássaros e pairam acima do topo das monta­nhas! Eles amam Jesus de todo o coração. "Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pou­co ama." (Lc 7.47.)

Foram dias maravilhosos, repletos da presença de Deus, e, para ser sincero, eu nem me sentia preso. Poucas vezes pensava na sentença de sete anos, e os dias eram cheios de vida e alegria. Pensava nos sete anos como Jacó quando esperava por Raquel: "Assim, por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava"

(Gn 29.20).

Minha família estava segura, na Alemanha. Escrevi à minha filha Yilin: "Sinto muito não poder estar com você agora, mas seu papai está em uma missão especial do Se­nhor em Mianmar. Assim que terminar o que ele me man­dou fazer aqui, eu irei me encontrar com vocês".

Decidi não contar logo à minha família a duração da sentença. Sabia que estavam enfrentando dificuldades no Ocidente sem minha presença. Sendo assim, não queria par­tir o coração deles com a notícia de que ficaríamos mais seis anos e meio separados.

Cerca de um mês antes do dia em que fui preso, o Se­nhor havia falado um texto bíblico ao meu coração: "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna" (Jo 12.24,25).

Meditando nesses versículos, lembrei-me do tempo em que trabalhava no campo em Henan, e que a semente do trigo, depois de plantada, levava mais ou menos sete meses para brotar. Senti que o Senhor estava me mostrando que eu ficaria "no solo" (prisão) durante sete meses e depois ele me libertaria.

Jesus me ensinou muitas lições enquanto eu estava en­terrado na prisão como semente. Descobri que a vida cristã não é atraente para a carne. A semente que vai para o solo não fica confortável. Permanece isolada na escuridão, no solo áspero, durante vários meses. Sofre no chão congelado no inverno e sente calor no verão. É até coberta com esterco e fertilizante de mau cheiro. Só depois que suporta em si­lêncio todas essas provações é que a semente fica pronta para brotar para a vida e produzir uma colheita que ali­mentará a muitos.

A única opção que a semente enterrada no solo tem é esperar pacientemente o tempo de Deus para brotar para a vida. Da mesma forma, eu sabia que era totalmente inútil confiar na força humana para sair da cadeia. Em lugar de me fiar em organizações de direitos humanos que poderiam exercer pressão política, confiei meu futuro inteiramente nas mãos de Deus. Eu sabia que só seria solto quando che­gasse o tempo dele.

Um dia o diretor da prisão se aproximou de mim e fa­lou:

- Uma representante da embaixada alemã está aqui e quer ver você. Vista-se e vá até o portão.

Fui andando rumo ao portão, onde os visitantes espera­vam os prisioneiros, e a funcionária da embaixada foi logo gritando:

- Hoje eu tenho uma boa notícia! Você vai ser solto! Assim que assinar este formulário, volta a ser um homem livre. Você precisa ter um pouco de paciência e esperar no hospital mais uns dias, enquanto fazemos os preparativos para levá-lo até o aeroporto. Mas, de agora em diante, você está livre!

Assinei o formulário e voltei para o hospital, radiante de alegria. Assim que cheguei ao quarto, tirei o uniforme da prisão e joguei-o no chão. O guarda não sabia que eu tinha sido solto e ameaçou me punir. Ri e informei a ele:

"Não sou mais seu criminoso! Estou livre para ir embo­ra!"

Sinto pena de muitos cristãos que vivem presos, embora Jesus tenha assinado o alvará de soltura deles com seu pró­prio sangue. Quem é liberto deve agir como uma pessoa livre!

Depois da decretação da minha sentença, a embaixada da Alemanha entrara com um pedido de clemência junto ao governo de Mianmar, requerendo que eu fosse deporta­do do país. As autoridades alemãs declararam que assumi­riam a responsabilidade de me levar de volta à Alemanha, onde minha família aguardava por mim.

Pela graça de Deus, o requerimento foi atendido.

Três dias depois, às ll:00h da manhã de 18 de setembro de 2001, fui algemado e levado ao Aeroporto Internacional de Yangun pelos funcionários da imigração. Nessa ocasião foram simpáticos e educados; um contraste chocante com o tratamento que haviam me dispensado quando fui preso!

No aeroporto, fui recebido por vários funcionários da embaixada alemã e por alguns amigos birmaneses. Um de­les era um homem chamado Ding Kai, um dos meus com­panheiros de cela na prisão. Compartilhara o evangelho com ele, mas ele não se entregou a Jesus na mesma hora. Foi solto pouco depois. Ele me dissera:

"Se o seu Deus ajudar você a sair desta prisão, eu come­çarei a segui-lo no mesmo dia em que você for solto."

Quando meus amigos souberam que eu estava livre, te­lefonaram para Ding Kai e contaram a ele. Cheguei ao ae­roporto, e ele correu e me abraçou. Ajoelhamo-nos e ora­mos juntos para ele receber Jesus como seu Senhor. Pela graça de Deus, nos últimos dias que passei em Mianmar eu consegui levar três homens a Cristo.

Embarquei em um avião para Bangcoc, na Tailândia. A notícia já chegara aos ouvidos de amigos cristãos, que foram a Bangcoc para me ver. Quando nos encontramos, eu disse:

"Minha missão na cadeia acabou, então Jesus me tirou de lá. Ele me mandou para aquela prisão para comparti­lhar o evangelho com gente que nunca havia ouvido falar sobre ele, e muitos foram salvos."

Demo-nos as mãos formando um círculo, curvamos a cabeça e agradecemos a Deus por sua bondade e misericór­dia.

Ele é verdadeiramente o Deus Vivo!

Muitos estudiosos da Bíblia afirmam que o número sete representa a perfeição de Deus. Fui condenado a sete anos de prisão, mas Deus não concordou com essa sentença hu­mana. Em seu plano perfeito, fui solto depois de sete meses e sete dias.

Um amigo viajou até a Tailândia para me receber na saída da prisão. Ele me acompanhou no vôo entre Bangcoc e Frankfurt. Estávamos no ar há algumas horas quando ele me perguntou:

- Irmão Yun, lá na cadeia você ficou sabendo de algu­ma notícia do mundo exterior?

Respondi:

- Absolutamente nada.

- Olhe aqui, tenho uma coisa para lhe mostrar, disse ele.

Entregou-me vários jornais chineses da semana anterior. A princípio, não entendi o que estava vendo. Havia foto­grafias de um avião entrando em um edifício alto.

Li os artigos e fiquei sabendo que em 11 de setembro de 2001, exatamente uma semana antes da minha libertação, o terror havia transformado o mundo de forma dramática.
*****
DELING: As semanas foram se transformando em meses, e não havia sinal da libertação de meu marido. Diante disso, minha fé enfra­queceu, e fui ficando cada vez mais frustrada.

Eu tinha sonhado com o dia em que chegaríamos à Alemanha e Yun nos receberia para nos mostrar o país que o recebera de braços abertos quatro anos antes. Havíamos passado quase dois anos em Mianmar. Durante todo esse tempo ele ficara nos esperando. Nunca pensei que eu ficaria na Alemanha esperando por ele enquanto ele estava preso em Mianmar.

Os crentes fizeram tudo que foi possível para nos ajudar a nos esta­belecermos, mas foi muito difícil. No início, não falávamos alemão. A comida e a cultura eram estranhas para nós. Eu nunca tinha ido até uma máquina, colocado um cartão de plástico, apertado uns botões e tirado dinheiro! Tudo era diferente demais do que eu conhecia.

Os meses foram passando, e caí em depressão profunda. Clamei ao Senhor, pedindo uma resposta.

Certa noite, tive um sonho. Vi vários números e também Yun sain­do da prisão. A soma dos números dava 18. Escrevi "18" no meu diário e disse aos meus filhos que achava que o pai deles seria solto no dia 18.

Uma manhã, recebi um telefonema contando que Yun sairia da prisão no dia 18 de setembro! Não quis acreditar imediatamente, ape­sar do sonho, porque tinha recebido muitos alarmes falsos e sofrido muitas decepções enquanto ele estava preso. Preferi esperar até saber que ele estava em segurança.

Então, no dia 18, ele me telefonou do aeroporto de Bangcoc. Esta­va embarcando no vôo para a Alemanha. Deus é muito bom!


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