A hora da estrela: o corpo, a palavra e a morte isloany Dias Machado



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A HORA DA ESTRELA: O CORPO, A PALAVRA E A MORTE
Isloany Dias Machado *
Freud extraiu da literatura matéria-prima para falar sobre o inconsciente. Isso é possível porque o artista sabe daquilo que o psicanalista teoriza, desta forma, tomaremos a obra A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, para saber sobre o corpo e a forma como este é atravessado pela linguagem. A Hora da Estrela foi o último romance da autora, publicado em 1977, um pouco antes de sua morte. Nascida na Ucrânia veio para o Brasil com dois meses de idade e, posteriormente naturalizou-se como brasileira. Aqui se casou com um diplomata e por esse fato, viveu muitos anos fora do país.

O livro conta a história de Macabéa, uma moça nordestina que foi morar no Rio de Janeiro. O narrador começa por dizer que a pessoa de quem falará “mal tem corpo para vender” (1). O viver de Macabéa é definido como ralo e insignificante. Ela era uma moça que “Não fazia perguntas. Adivinhava que não há respostas”(2). “Se tivesse a tolice de se perguntar ‘quem sou eu?’ cairia estatelada e em cheio no chão. É que ‘quem sou eu?’ provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto”(3). Macabéa não queria saber nada disso, pois “a paixão humana é da ignorância, paixão fácil de manter já que temos essa debilidade que é o imaginário”(4).

Uma vida pobre de significantes nos faz pensar em algo que é marcado pelo imaginário e Macabéa traz o tempo todo a imagem de si própria com algum estranhamento. Após ter sido demitida, ela foi para o banheiro e

Olhou-se maquinalmente ao espelho que encimava a pia imunda e rachada, cheia de cabelos, o que tanto combinava com sua vida. Pareceu-lhe que o espelho baço e escurecido não refletia imagem alguma. Sumira por acaso a sua experiência física? (...) Viu ainda dois olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos – tinha um olhar de quem tem uma asa ferida – (...), olhos que perguntam. (...) Não fazia perguntas. (...) Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado.(5)

Sua existência corporal já lhe bastava, não havia necessidade de palavras. Macabéa prescindia das palavras para economizar seu corpo já “cariado”(6). Evitava assim que as palavras o furassem ainda mais. “Defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco sua vida para esta não acabar”(7).

Macabéa todos os dias “quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola”(8). Estes significantes a definiam e isso lhe bastava. Nota-se em certos momentos algo nela de quase débil. Segundo Lacan, “Há algo que faz com que o ser falante se mostre destinado à debilidade mental. E isso resulta tão somente da noção de imaginário. (...) Sem a linguagem, nem a menor suspeita nos ocorreria dessa imbecilidade”(9).

Mas havia ainda outros significantes importantes em sua história: cor-de-rosa, por exemplo, que aparece em diversos momentos e relaciona-se com o feminino: “Às vezes lembrava-se de uma assustadora canção desafinada de meninas brincando de roda de mãos dadas – ela só ouvia sem participar (...). As meninas de cabelos ondulados com laço de fita cor-de-rosa”(10). Macabéa queria ser como a Marylin Monroe e num diálogo com o namorado, ela diz: “Sabe o que eu mais queria na vida? Pois era ser artista de cinema. (...) sabe que Marylin era toda cor-de-rosa?”, mas ele joga um balde de água fria em seu desejo e diz: “E você tem cor de suja. Nem tem rosto nem corpo para ser artista de cinema”(11).

Mais uma vez o significante cor-de-rosa aparece, relacionado com a definição do que era ser para ela: “Nunca esqueceria que no primeiro encontro ele a chamara de ‘senhorinha’, ele fizera dela um alguém. Como era um alguém, até comprou um batom cor-de-rosa”(12). Em outros termos, “somente o significante permite a transformação do especular em um campo do visível, onde o não-visto, e mesmo o invisível, terão direito à cidadania”(13). O namorado, que a princípio lhe dá alguma existência, em seguida lhe troca por Glória, uma colega de trabalho de Macabéa. Ele tinha tara por açougue e, quando conhece a outra moça logo se apaixona por ela, pois é filha de um açougueiro. Para terminar com Macabéa ele diz: “Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer”(14).

Macabéa era uma moça muito magra, e seu corpo era tão seco quanto sua existência. Ter o corpo seco faz pensar não só na questão da magreza, mas na secura da falta das palavras. “O corpo para a psicanálise se faz pelas palavras (...). Para Lacan, o corpo só existe pela incorporação da estrutura da linguagem”(15). Ela tinha o costume de colecionar anúncios e havia um, o mais precioso,

(...) que mostrava em cores o pote aberto de um creme para pele de mulheres que simplesmente não eram ela. (...), ficava só imaginando com delícia: o creme era tão apetitoso que se tivesse dinheiro para comprá-lo não seria boba. Que pele, que nada, ela o comeria, isso sim, às colheradas no pote mesmo. É que lhe faltava gordura e seu organismo estava seco que nem saco meio vazio de torrada esfarelada.(16)


O significante gordura também é importante porque ela sempre idealizara ser gorda. Isso fica pior quando seu namorado lhe diz que ela é alguém que não desperta vontade de comer. Macabéa ao ser trocada entendeu uma coisa:

Glória era um estardalhaço de existir. E tudo devia ser porque Glória era gorda. A gordura sempre fora o ideal secreto de Macabéa, pois em Maceió ouvira um rapaz dizer para uma gorda que passava na rua: “a tua gordura é formosura!” A partir de então ambicionara ter carnes (...).(17)


Macabéa faz a relação gordura/formosura/mulher-para-ser-comida, a partir de algo que ouviu de um homem, e Glória, que era gorda, foi a mulher que lhe tomou o namorado. Vai a um médico indicado por ela e este lhe sugere a Psicanálise, pois percebe que é uma boa histérica.

Às voltas com o feminino, certo dia Macabéa resolve comprar um batom vermelho vivante e não cor-de-rosa e, mais uma vez, “no banheiro da firma pintou a boca toda e até fora dos contornos para que os seus lábios finos tivessem aquela coisa esquisita dos lábios de Marylin Monroe. Depois de pintada ficou olhando no espelho a figura que por sua vez a olhava espantada”(18).

A histeria não se manifesta apenas como uma neurose, mas também, simplesmente, como uma maneira de colocar a problemática da feminilidade. Pois a falta de uma identidade propriamente feminina deve ser encontrada por toda mulher. É preciso convir que uma mulher se encontra sempre (...) um pouco em falso no plano de sua identidade imaginária: sua imagem corporal lhe aparece sempre como alguma coisa de essencialmente vacilante e frágil.(19)
Macabéa sai do banheiro com a boca vermelha. Sua rival, assustada, pergunta: “Me desculpe eu perguntar: ser feia dói?”. Responde provocativamente: “Nunca pensei nisso, acho que dói um pouquinho. Mas eu lhe pergunto se você que é feia sente dor.” E a rival, exaltada grita: “Eu não sou feia!!!”(20). Mas Glória é a Outra e, por isso, novamente por indicação dela, procura uma cartomante, que lhe diz:

- Macabéa! Tenho grandes notícias para lhe dar! É coisa muito séria e muito alegre: sua vida vai mudar completamente! E digo mais: vai mudar a partir do momento em que você sair da minha casa!

- (...) Eu sou sempre sincera: por exemplo, acabei de ter a franqueza de dizer para aquela moça que saiu daqui que ela ia ser atropelada. (...) Você não tem busto mas vai engordar e vai ganhar corpo.(21)
Quando a cartomante diz que ela vai engordar e ganhar corpo, Macabéa fica aturdida, “sem saber se atravessaria a rua, pois sua vida já estava mudada. E mudada por palavras (...). Assim como havia sentença de morte, a cartomante lhe decretara sentença de vida”(22). Macabéa toma pra si a predestinação da moça que acabara de sair e se deixa ser atropelada: “ao dar o passo de descida da calçada para atravessar a rua, (...) o Mercedes amarelo pegou-a (...). Então – ali deitada – teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte”(23).

O que impediu Macabéa de seguir seu suposto destino? Diante da possibilidade de realização de desejo, entrega seu corpo seco como sacrifício pra morte precisando mantê-lo insatisfeito. A histérica

(...) recusa para manter-se em falta, desejante, provocante, e assim sustentar seu desejo na insatisfação. Recusa é um dos nomes da histeria. Situando-se do lado do desejo, ela se priva do gozo. Em sua particularidade, sempre encontra um desejo insatisfeito, privando-se daquilo que lhe traria imenso gozo. (...) Com efeito, não se trata na histeria apenas de privação de gozo, mas sim e principalmente de gozo da privação.(24)
O que dá pra saber de forma bem clara é que esta moça, apesar de ter passado a vida toda até aquele momento fugindo das palavras, sufocava-as, na verdade, para que pudesse continuar viva. “O que chamamos a introdução da morte na vida, não é nada além que o efeito maior da tomada do sujeito no constituinte da cadeia significante. Somente o homem que ‘habita a linguagem’, constrói essa espécie de morada que chamamos sepulcro”(25).

Em uma leitura fascinante, é possível compreender, ao longo desta obra de Lispector, que o corpo é atravessado pela linguagem, o que faz com que o leitor reflita sobre a crueza de um corpo quando as palavras permanecem sufocadas. Não é que à Macabéa faltassem palavras, aliás, isso ela tinha de sobra, mas não pôde permitir que seu desejo fosse realizado, correndo o risco de morrer.

Notas

(1) Lispector, 1998, p. 13.



(2) Ibid, p. 26.

(3) Ibid, p. 15.

(4) Brunetto, 2008.

(5) Lispector, 1998, p. 25, 26.

(6) Ibid, p. 35.

(7) Ibid, p. 32.

(8) Ibid, p. 36.

(9) Lacan, 1974, p. 4.

(10) Lispector, 1998, p. 33.

(11) Ibid, p. 53.

(12) Ibid, p. 54.

(13) Safouan, 1988, p. 99.

(14) Lispector, 1998, p. 60.

(15) Brunetto, 2008, p. 47.

(16) Lispector, 1998, p. 38.

(17) Ibid, p. 61.

(18) Ibid, p. 62.

(19) André, 1998, p. 114.

(20) Lispector, 1998, p.62.

(21) Ibid, p. 75-78.

(22) Ibid, p. 79.

(23) Ibid, p.79, 80, 84.

(24) Quinet, 2003.

(25) Safouan, 1988, p. 99-100.


REFERÊNCIAS


André, Serge. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor, 1998.
Brunetto, Andréa. Psicanálise e Educação: Sobre Hefesto, Édipo e outros desamparados dos dias de hoje.Campo Grande, MS: Editora UFMS, 2008.
_________________. O Corpo nas Estruturas Clínicas. Seminário apresentado em Joinville em 29 de Agosto de 2009.

CD Room - Quinet, Antonio. Histeria, sujeito, corpo e discurso. Anais do I Colóquio da Escola de Psicanálise do Campo Lacaniano. Rio de Janeiro: FCLRJ, 4 e 5 de julho de 2003. CD-ROM.


Lacan, Jacques. O Seminário, livro 22, RSI, inédito.
Lispector, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Safouan, Moustapha. O Fracasso do Princípio do Prazer. Campinas, SP: Papirus, 1988.

Resumo


Este trabalho tem como objetivo compreender como a literatura, em sua interface com a psicanálise, fala do corpo. Para tanto, partimos da obra “A Hora da Estrela”, da autora Clarice Lispestor. Nesta obra, Lispector fala de Macabéa, uma moça que tinha um viver “ralo”. A personagem não quer saber sobre si e a única vez que se pergunta “quem sou eu?” fica tão estupefata que para completamente de pensar. Vai vivendo até o momento em que se vê diante de afirmações de uma cartomante que a fazem pensar à força. É o momento crucial do livro, pois o corpo de Macabéa é dado em sacrifício quando as palavras passam a invadi-lo mais intensamente. É possível compreender, ao longo desta obra de Lispector, como o corpo é atravessado pela linguagem, assim como na afirmativa lacaniana de que o corpo só existe pela incorporação da estrutura da linguagem. Trabalharemos também a articulação do romance com a questão da debilidade do imaginário, partindo do Seminário RSI de Lacan, em que afirma que os seres falantes são destinados à debilidade e que sem a linguagem, nem suspeitaríamos dessa imbecilidade. O livro provoca um riso nervoso, que faz com que o leitor reflita sobre a crueza de um corpo no qual as palavras estão sufocadas.

Palavras-chave: Literatura, Psicanálise, Corpo.


Abstract

This work aims at understanding how literature, in its interface with psychoanalysis and deals with the body. To this end, we began with Clarice Lispector’s “The Hour of the Star”. In this work, Lispector talks about Macabea, a girl living low. She does not even want to know about herself and the only time she asks herself: Who am I?”, she is so stupefied that she complete stops thinking. She lives on until the moment when a card-reading fortune-teller affirms things that make her think forcefully. This is the crucial moment of the book, for Macabea’s body is being offered in sacrifice and the words begin to invade her more intensely. It is possible to comprehend throughout this work of Lispector, how the body is traversed by language, as well as, as in the Lacanian affirmation, that the body only exists through the incorporation of the structure of language. We also worked on the articulation of the novel regarding the question of the debility of the imaginary, starting from Lacans seminar on the RSI, in which he affirms that speaking beings are destined to debility and that without language, one would not eve suspect of this imbecility. The book provokes nervous laughter, making the reader reflect on the cruelty of a body in which words are suffocated.


Keywords: Literature; Psychoanalysis; Body




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