A hora e a Vez de Augusto Matraga



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A Hora e a Vez de Augusto Matraga

Guimarães Rosa


1. contexto histórico
O terceiro Período Modernista marca uma renovação da ficção através do experimentalismo e da atividade lúdica com os elementos ficcionais. Embora a ficção não tenha tido uma manifestação revolucionária como o concretismo na poesia, está claro que ela também vai se transformar em algo mais denso.

Até os anos de 1945, o que temos de “marcos” literários sempre estão relacionados com acontecimentos políticos, como os de 1930, e 1945, que são as datas que a nossa literatura registra como as três fases do movimento modernista que foram tomadas como empréstimo da política.

Guimarães Rosa situa-se na terceira fase do Modernismo brasileiro, chamada de Neo-modernismo ou geração de 45. Ao lado de Clarice Lispector, ele rompeu com os esquemas narrativos dos anos 30 e instaurou um novo processo ficcional, baseado na estilização inventiva de dados regionais e em constantes pesquisas cujo instrumento de base é a linguagem. Por essas razões, José Aderaldo Castelo irá considerar Guimarães Rosa um instrumentalista. Em relação ao marco temporal da estréia do livro em 1946 temos a afirmação de Eduardo Coutinho:
Foi desde essa estréia, que a língua até então manipulada pelos nossos ficcionistas começou a sofre reformulações no sistema que se estratificara havia muito tempo. Assim, a unidade tradicional da língua literária sofreria um impacto. O escritor mineiro quebra, definitivamente, toda e qualquer ligação entre as formas de expressão lusitanas (clássicas) e brasileiras. É evidente que a raiz comum da língua persiste, bem como a presença etimológica e uma certa erudição latinista.
Assim, tendo estreado em 1946, com os contos de Sagarana, João Guimarães Rosa tornou-se o escritor de maior importância e prestígio da Literatura do Século XX. Escreveu contos, novelas, um romance e poesia. Costuma ser retratado como regionalista, pois quase todo seu trabalho nasce da observação de tipos, costumes e da geografia do interior mineiro. Mas ao imenso material observado, ele sobrepõe uma forte camada de matéria pensante e problematizadora. Esse segundo componente é não só devido à sua imaginação, como também à sua compreensão, através da cultura, de questões conceituais que envolvem a noção de um homem universal. Suas narrativas, carregadas de mistério e revelação, possuem uma estrutura mítica ou alegórica, isto é, apresentam sempre uma interpretação pessoal e poética da existência e de seus grandes problemas. Versam sobre Deus, o bem, o mal, o medo, a felicidade, as relações do homem com a natureza, questões inerentes à universalidade do mundo e do homem.

Da mesma geração, o seu correspondente formal e temático na poesia é João Cabral De Melo Neto, como podemos observar em sua obra (Pedra do Sono, 1942). A Geração de 45 vai abrir caminhos para novas representações da realidade que se faz a partir de três tendências distintas: a permanência realista do testemunho humano; a atração pelo transreal, numa tentativa de justificar a condição humana por sua projeção no mundo místico da Arte:


Guimarães Rosa está consciente que o sertanejo é um ser dividido entre dois universos distintos, de ordem mítico-sacral e lógico-racional, e o que faz é pôr em xeque a tirania do racionalismo, condenar sua supremacia sobre os demais níveis da realidade. Rosa não rejeita o racionalismo como uma entre outras possibilidades de apreensão da realidade, mas procede a uma avaliação e relativização de sua autoridade, do cunho hegemônico e dogmático que este adquiriu na tradição ocidental.

(COUTINHO, p.13).


E, por fim, a redescoberta da linguagem como elemento estético dotada de uma singularidade própria do universo rosiano que instaura o real, cria-o, plasma-o. Segundo o próprio Eduardo Coutinho:
À época em que Guimarães Rosa produziu as suas primeiras narrativas – os contos enfeixados no volume Sagarana – O tipo de ficção predominante no meio intelectual brasileiro era ainda o romance do Nordeste, com o seu veio épico acentuado e um tônus marcadamente de protesto, mas calcado em uma linguagem que, por se subordinar muitas vezes a função de denúncia, tornava-se amiúde descritivista, voltada para o aparente e convencional, não se diferençando muito, a despeito da maior ênfase sobre o coloquial, da utilizada em finais do século XIX pelos adeptos do Real- Naturalismo.(COUTINHO, p.20).
Além dessas tendências, a partir das descobertas trazidas pela lingüística – a palavra cria a realidade -, define-se o melhor fenômeno da “ficção”. O romance deixa de ser uma simples representação da realidade para ter um valor em si.

Como já foi dito, além do caráter instrumentalista, há, entre Guimarães Rosa e Clarice Lispector, outros pontos que os aproximam: a busca de uma universalização do romance nacional, através da sondagem do mundo interior de personagens com poder universalizante, e a concomitância da realização do romance e do conto.

Contudo em Guimarães Rosa ainda há a preocupação em manter o enredo e o suspense. Já Clarice Lispector abandona totalmente a noção de trama romanesca, para mergulhar na própria consciência das personagens, relatando, “de dentro”, suas operações mentais ou registrando a incomunicabilidade do ser humano, preso a um cotidiano monótono e sufocante.

Referindo-se à importância dos dois autores como “divisores de águas” da ficção brasileira, o professor Antônio Candido observa que:


O grande impacto renovador de Clarice Lispector, nos anos 40, e o de Guimarães Rosa, nos anos 50, parecem ter desnorteado um pouco a ficção brasileira. Imitá-los seria difícil, porque apresentam fórmulas demasiado pessoais, sem a racionalização teórica que permite transmiti-las, como as que serviam de base à difusão das inovações poéticas. Além disso, tanto um quanto outro se caracterizam por desromancizar o romance, puxando-o da prosa para a poesia, do enredo para a sugestão, da coerência temporal para a confusão do tempo. E isto tudo era mais ou menos difícil de incorporar a um gênio que, ao contrário da poesia, é objeto da demanda relativamente grande por parte do público, o que obriga a manter certa comunicabilidade.

Por outro lado, era igualmente difícil continuar escrevendo como se aqueles dois grandes escritores não tivesse existido, porque eles abalaram padrões anteriores: os do romance de análise, que Clarice Lispector dissolveu no caleidoscópio das impressões; ou os do romance regional, que Guimarães Rosa despojou das suas cômodas muletas, o pitoresco e o realismo. Sem contar que ambos abalaram e questionaram a linguagem da ficção.


Temos por fim que, embora a complexidade formal da obra de Guimarães pareça, à primeira vista, um obstáculo para um leitor comum, a quantidade de edições e traduções que ela suscita, denuncia a sua popularidade, como define Eduardo Coutinho: “E com era de se esperar de obra de tal porte, a sua fortuna crítica não só é das maiores da literatura brasileira contemporânea, como inclui o que de melhor se tem publicado no país em termos de crítica literária”.
2. tema
O tema predominante em “A hora e vez de Augusto Matraga” é a questão da religiosidade, que está presente em todo o conto. A história de Augusto Matraga é apresentada em três partes: na primeira, as características da personagem são reveladas invariavelmente negativas. A segunda parte é o momento de transformação da personagem, na qual ela é submetida a diversas punições e, a terceira, simboliza a divindade de Augusto Matraga, segundo afirma Suzy Frankl Sperber, no texto “A hora e vez de Augusto Matraga” (1982). Por isso pode-se dizer que a história divide-se em: pecado, penitência e redenção.

O tema da religiosidade estabelece analogias constantes em todo o conto, de acordo com o texto de Walnice Nogueira Galvão, “Matraga: sua marca” (1978) a história de Augusto Matraga pode ser comparada a uma história de salvação, pois o conto representa a trajetória de um homem devasso que se transforma em santo. Notam-se semelhanças com São Francisco, São Domingos e até mesmo com Jesus Cristo.

Fica evidente também, que “A hora e vez de Augusto Matraga” trata-se de uma história de conversão, pois a personagem muda radicalmente sua conduta no decorrer do conto. Após a surra levada por Augusto Matraga, ele salta de um abismo, o que pode simbolizar uma nova chance para que ele pudesse mudar o rumo de sua vida. A partir daí ele recolhe-se, com a ajuda do casal de pretos, do mundo ao qual estava habituado e passa a cumprir suas penitências (nesse momento é tentado diversas vezes a abandonar o caminho do bem). No término do conto, Augusto Matraga incorpora o bem como um todo e elimina as forças do mal. Ele então recusa a existência em vida, abandonando seu corpo. Há então o processo de santificação.

Outro tema presente no conto é a violência, diretamente ligada à luta do bem contra o mal, que pode ser observada não só no confronto exterior existente entre Augusto Matraga e Joãozinho Bem-Bem, mas no interior das personagens. Após iniciar seu processo de conversão, Augusto Matraga tenta durante todo o tempo não se deixar arrastar para o caminho do mal. Há uma passagem de grande tensão no conto que se dá no momento em que Joãozinho Bem-Bem convida Augusto Matraga para fazer parte de sua tribo. A personagem fica extremamente tentada, mas resiste e continua seu processo de purgação dos pecados. Essa passagem simboliza a luta interior dentro do próprio indivíduo, que possui o bem e o mal dentro de si, e tem de escolher um dos caminhos. No trecho abaixo, na fala de Augusto Matraga, pode-se observar perfeitamente como a violência aparece de forma paradoxal, beirando até mesmo a comicidade:


Eu vou p’ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!... E a minha vez há de chegar... P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!...(ROSA, 2001, p. 442).

O bem e o mal no conto, porém, não são vistos de forma maniqueísta. Há um respeito e uma cordialidade mutua entre Augusto Matraga e Joãozinho Bem-Bem, essa atração entre personagens tão antagônicas representa no conto a valorização das duas ordens: bem e mal, como se ambas fosses igualmente aprovadas.

Com essa análise, pode-se perceber que há uma grande preocupação de construir o conto de acordo com a maneira que é contada a história de um santo, já que toda a história de Augusto Matraga relata de maneira apostólica seu percurso á santificação.
3. enredo
“A hora e vez de Augusto Matraga” é o último conto de Sagarana, em que o autor ilustra o aspecto religioso dos gerais a partir de um embate entre o Bem e o Mal, porém, escapando da perspectiva maniqueísta. Percebe-se no ritmo do conto uma divisão da história em três movimentos, três atos distintos, remetendo-nos ao teatro clássico e reforçando a construção do sertanejo como herói que perpassa todo o livro. 

O primeiro ato apresenta-nos o protagonista Augusto Matraga, na realidade Augusto Esteves, filho do Coronel Afonso Esteves, valentão da região. Vivendo entre brigas, prostitutas, apostas e dívidas, encontra-se em pleno declínio: todo o dinheiro e poder que possuía, herdados de seu pai, foram dissipados.

Numa noite, após “criar caso” por causa de uma prostituta durante a novena de Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici para logo depois repudiá-la, descobre através do Quim Recadeiro (cuja profissão intui-se pelo sobrenome) que sua esposa o abandonara, junto com sua filha de 10 anos, para ir morar junto de outro homem. Quim lhe informa também sobre os planos dos outros fazendeiros para eliminarem-no, liderados pelo Major Consilva, e que seus capangas haviam abandonado o serviço por falta de pagamento.

Entretanto, ao invés de fugir, Matraga decide enfrentar o major, para depois ir matar sua esposa Dionora. Ao chegar à fazenda deste, é recebido com agressividade e apanha de seus capangas, dentre eles seus próprios “ex-bate-paus”, que agora trabalham para ele: “- Marquem a ferro, depois matem.”(p. 438). Levam-no até um barranco (Rancho do Barranco), de tal modo que “Nhô Augusto já vinha quase só carregado, meio nu, todo picado de faca, quebrado de pancadas e enlameado grosso, poeira com sangue.”(p. 438). Ao marcarem-no com a marca de gado do major, Matraga da um berro e atira-se no barranco.  

O segundo movimento consiste na busca de uma nova identidade, de uma redenção, do protagonista, que é resgatado por um casal de negros pobres e passa a morar e aconselhar-se com eles. A medida em que se curam suas chagas físicas, o protagonista procura curar-se também de suas chagas morais, voltando-se para o catolicismo e recordando das rezas que sua avó havia lhe ensinado quando menino, pois queria fazer-lhe padre. Para que sua recuperação fosse completa, Augusto não bebe, não fuma e não chega perto de mulheres: “Para o céu eu vou, nem que seja a porrete!”(p. 442).

Confessa-se com um padre, que lhe aconselha: para cada dia de trabalho, trabalhe por três, ajude aos outros e tenha autocontrole. O padre conclui com a frase: “cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua”(p. 441), que se tornará o mote da personagem.

Augusto decide partir para a única terra que ainda lhe restava, no povoado do Tombador, bem longe, ao Norte; o casal, que já havia se afeiçoado ele, parte junto. No Tombador, Augusto trabalha de sol a sol, às vezes falando sozinho, só descansando aos domingos, quando explorava a região ou juntava-se as velhas para rezar e vive assim por mais ou menos seis anos, “sem tirar nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma história inventada, e não é um caso acontecido, não senhor”(p.443).

Certo dia, um velho conhecido de Matraga, Tião da Thereza, passa pelo povoado em busca de rezes perdidas e fica “bobo” com a mudança do protagonista. Tião lhe conta que sua esposa Dionora ia se casar com seu novo amante, Ovídio, que sua filha estava “perdida na vida” e que o Quim havia morrido com vinte tiros ao tentar vingar-se da morte dele. Augusto, porém, pede apenas que Tião não revele que ele ainda está vivo. Posteriormente, decide que não lhe faria mal nenhum pitar para atenuar e espera “por sua vez e sua hora”.

Algum tempo depois, chegam oito valentões ao povoado, e dentre eles um de lenço azul no chapéu e dentes “limados em acume”(p. 447), e Augusto imediatamente oferece-lhes comida e pouso. Augusto come e bebe cachaça com o bando, encanta-se com suas histórias e canções de assassinato e testa sua pontaria num galho de árvore, sendo tratado por Joãozinho de “mano velho”, que logo simpatiza-se com ele. Na manhã seguinte o bando parte para prestar ajuda a um amigo de Joãozinho, e este pergunta se Augusto quer unir-se a eles. Embora tentado a tal, Augusto recusa a proposta e abate-se.  

Neste momento, dá-se início ao terceiro movimento do conto, quando, num certo dia, Augusto sente saudades de mulheres e decide então partir para o Sul, dessa vez sem o casal de negros, para encontrar “a sua vez e a sua hora”. Durante o percurso, percebe a natureza em toda a sua beleza e esplendor de primavera e encontra com um cego que desejava ir para a Bahia. O cego confiava apenas em seu bode como guia, paralelamente a Augusto, que também confiava a seu animal (um burro) a mesma função.

Após alguns dias de viagem, Augusto chega ao Arraial do Rala-Coco, onde também estava Joãozinho Bem-Bem e seu bando e depara-se com uma contenda. Um certo habitante havia matado o Juruminho e fugido, e, agora, a família do assassino iria ter que sofrer as conseqüências: o irmão deste teria que morrer e suas irmãs seriam entregues aos homens do bando para fazerem o que bem entendessem.

O pai do assassino implorava a Joãozinho que lhe poupassem a família e matassem-no ao invés do jovem no momento em que Augusto chega ao vilarejo, e ele decide tomar parte e defendê-los, ressurgindo a coragem e a vontade de lutar, mas desta vez por uma causa que considerava justa. Ameaças trocadas, o jagunço Teófilo Sussuarana inicia o conflito, e uma confusão de tiros e facadas se espalham pela casa e passam para a rua, onde Joãozinho morre, rasgado por Augusto do ventre ao estômago e Augusto morre baleado.

Na cena final, mesmo em lados opostos, o tratamento entre os dois supostos inimigos ainda é de respeito e amizade, pois estas duas personagens reconhecem no outro o seu par, seu igual; um primo de Augusto reconhece-o, que diz: “- Põe a benção na minha filha... seja lá onde for que ela esteja... E, Dionora... Fala com a Dionora que está tudo em ordem!”(p. 462) e realiza seu destino, como ser humano regenerado, transformando-se no herói que luta e morre por uma causa nobre.
4. tempo
Débora Ferri, em sua tese sobre a obra em questão, analisa o tempo no conto sob a divisão dual entre o tempo da história (tempo cronológico) e o tempo do discurso (modo como o tempo é retratado).

Com relação ao primeiro, ela afirma não haver uma representação bem determinada devido aos temas transcendentais e místicos abordados. (FERRI, 2002, p. 70) Ainda a este respeito, Débora cita Walnice Nogueira Galvão (1978, p. 64):


O tempo também adquire indeterminação mítica, sendo pouca ou nula a importância da cronologia, predominando os ritmos amplos da natureza e da vida interior.
Há, portanto, uma imprecisão em tudo aquilo que diz respeito ao tempo cronológico, o que verificamos na seguinte passagem:
De manhã, com o sol nascendo, retomaram a andadura. E, quando o sol esteve mais dono de tudo, e a poeira era mais seca, Mimita começou a gemer, com uma dor de pontada, e pedia água.

(ROSA, 2001, p.370)


Nesse sentido, Walnice Galvão define essas passagens de tempo como sendo condicionadas pelos ritmos da natureza e da vida interior. Isto também pode ser observado na própria evolução da personagem que traz fundamentais mudanças interiores exatamente ocasionadas pelas transformações exteriores às quais a vida a submeteu.

Deste modo, percebemos que as mudanças da natureza são utilizadas para marcar a oscilação de comportamento de Matraga. Outro exemplo da determinação exercida pelos elementos naturais sobre o tempo fica evidenciado na mudança da segunda para a terceira parte do conto (redenção de Matraga). É nesse momento em que há a passagem dos pássaros, a qual representa para a personagem o sinal de que ela deve partir em busca de seu destino, tal qual as “aves itinerantes”. (FERRI, 2002, p. 79).

Já sobre o tempo do discurso, Ferri comenta a linearidade dos acontecimentos, a qual se deve ao fato do texto retomar um tema bíblico, cujas histórias ocorrem sempre de forma linear.

Esta linearidade fica evidente já no ponto de arranque da diegése, pois este se dá logo no início da história, quando ocorre o leilão, onde Matraga começa a ser caracterizado por seus atos de crueldade.

Ainda tratando sobre o tempo do discurso, ela analisa a seguinte analepse presente no texto:
− [...] Mãe do Nhô Augusto morreu, com ele ainda pequeno... Teu sogro era um leso, não era p’ra chefe de família... pai era como que Nhô Augusto não tivesse... Um tio era criminoso, de mais de uma morte, que vivia escondido, lá no Saco-da-Embira... Quem criou Nhô Augusto foi a avó... Queria o menino p’ra padre... rezar, rezar, o tempo todo, santimônia e ladainha...

(ROSA, 2001, p.370)


O uso deste recurso no texto ocorre para justificar o comportamento de Matraga e a demonstração de como ele sempre esteve diante da presença do bem e do mal. O bem representado pela religiosidade de sua avó e o mal, pela criminalidade de seu tio.

É também analisada por Ferri, a prolepse existente no título (“A hora e vez de Augusto Matraga”), pois este cria no leitor a expectativa do que seria a hora e vez sugerida e que acaba por revelar algo sobre Augusto Matraga, já que ele terá o seu momento. Desta maneira, o título implicita o motivo da narrativa, uma vez que antecipa um momento crucial na trajetória de Matraga. E assim, provoca no leitor uma sensação de suspense diante da história.

Ao longo do texto, ocorrem prolepses reincidentes que reafirmam o trajeto da personagem:
− Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua. (ROSA, 2001, p. 380)
Em se tratando da velocidade da narrativa que se dá com a sucessão entre cena e sumário, Ferri trata da primeira como sendo, basicamente, formada por diálogos, o que traz à narrativa uma grande dose de intensidade. Isso explica a grande utilização realizada por Rosa na primeira e terceira partes da obra, pois estas focalizam o “pecado e a redenção” (FERRI, 2002, p. 82) de Matraga, respectivamente. Assim, o recurso é utilizado como maneira de enfatizar os momentos mais importantes da personagem e que definem sua transformação e o fechamento de um ciclo de autoconhecimento.

É interessante ressaltar que, devido a sua importância enfática, a cena ocupa um maior espaço no discurso, ao passo que representa um curto espaço de tempo da história, já que ocorre por meio de diálogos. Um exemplo deste recurso se encontra na passagem em que Nhô Augusto se reencontra com seu Joãozinho Bem-Bem, quando se dá uma cena que ocupa sete páginas para retratar apenas algumas horas que serão as derradeiras de ambas as personagens.

Na parte central do conto, onde é mostrado o processo de mudança pelo qual Matraga passa, é utilizado o recurso de sumário que, segundo Genette, se define “pela narração em poucos parágrafos ou páginas, de um período de tempo da história, sem pormenores de ação ou palavras”. (FERRI, 2002, p. 22)

Apesar do predomínio de sumários (na parte citada acima), é importante deixar claro que há períodos narrados através de cenas como: o encontro com o Tião da Teresa e a passagem do bando de Joãozinho Bem-Bem. Diante destas explicações nota-se que cena e sumário são recursos opostos.


5. espaço
Em “A hora e vez de Augusto Matraga”, determinar os espaços não é difícil. A narrativa se inicia no município de Murici, passa então para a vila do Tombador e termina em uma cidadezinha, próxima a Murici, chamada Rala-Coco.

Entretanto, a problemática não é mais o espaço geográfico unicamente. Nos contos de Sagarana, o espaço quer dizer muito mais dos personagens, e não somente um determinado local onde se deu uma seqüência de fatos (Ferri, 2002, p. 41).


A vida de Nhô Augusto é pautada por deslocamentos que atestam a transformação do senhor de posses no redentor do sertão; as mudanças geográficas correspondem às etapas míticas do protagonista que, renascido, realiza um movimento de retorno à origem, em um fluxo circular, no meio do qual figura o sertão.(FERRI. 2002.p. 75)
Entendamos melhor o que ocorre:
Partindo-se dessa idéia, o primeiro momento que se passa especificamente no Arraial da Virgem de Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici, corresponde a fase de pecado de Nhô Augusto, ou, como se julga mais adequado dizer, é o espaço de sua situação infernal.

(FERRI. 2002.p.60) [grifo do autor]


É perfeitamente inteligível o fato, uma vez que desde o princípio da obra, Nhô Augusto Esteves está em um “leilão de atrás da igreja” e “a gente direita foi saindo embora”.

Ferri (2002) define melhor o caráter de Nhô Augusto quando escreveu que “está sempre à volta com prostitutas, jogo, violência, e adultério e a impossibilidade de transcendência, que é representada pela ineficácia das promessas e orações da esposa (p. 62)” e completa “É, portanto, uma localização espacial condizente com a conduta da personagem” (p.62).

É evidente a situação infernal a que Augusto está condicionado e, ainda mais evidente, a intencionalidade do autor em colocar um personagem de sua fase pecadora e acompanhá-lo até a sua redenção e consagração.
Preferimos chamar o protagonista, no nosso trabalho, de Nhô Augusto, pois é somente ao término da sua trajetória que ele se torna parte de uma representação simbólica, convertendo-se em mito. (NAKAGAWA. 2005.p.178)
Então, devido a uma sucessão de fatos, Nhô Augusto termina por ser marcado a ferro no Rancho do Barranco a mando de um se seus inimigos em sua fase infernal e termina por saltar ao precipício.

Essa alegoria significa a ida de Nhô Augusto ao inferno e a sua luta com a morte, a qual vence e obtém o direito de permanecer em sua fase de purgatório.

Essa fase é ligada ao povoado do Tombador, onde passa a morar com um casal de negros.

Este espaço “é uma configuração desse estado de coisas, é um lugarejo afastado, perdido no meio do nada, uma localização espacial propícia à reflexão, à purgação de seus pecados ”. (FERRI, 2002. p.64)

A solidão desta fase é muito bem trabalhada como atesta Ferri (2002).
A passagem que narra a longa viagem até o povoado reforça a idéia de solidão, principalmente através da enumeração dos lugares que foram sendo deixados para trás. (FERRI, 2002 p.65)
É ainda nessa fase que “ele [Nhô Augusto] inicialmente dedica-se com afinco ao trabalho, ao próximo e à supressão dos prazeres ” (NAGAKAWA. 2005. p.176)

A alegoria utilizada para o caminho para o céu é a partida de Augusto Matraga da Vila do Tombador em direção ao Rala-Coco. Essa fase só tem início, por que, segundo Ferri (2002), “Já não é preciso mais que pague pelos seus pecados, a fase de purgação acabou e ele caminha em direção à redenção” (p. 68)

É o caminho que Matraga percorre nesta fase é caracterizado como belo e alegre, afinal, é o espaço da peregrinação de Nhô Augusto em direção à salvação.

A sua redenção e a consagração do mito ocorre quando o mesmo morre no Rala-côco, salvando um inocente que clamava por seu filho, assassinado pelo Joazinho Bem-Bem, que, em sua fase de purgação o tentou a voltar à violência.


6. personagens
Os personagens que formam o universo ficcional rosiano são caracterizados a partir das vivências do homem sertanejo. Entretanto, segundo Eduardo F. Coutinho, isso não significa que esses personagens representam uma simples tipificação do homem comum que vive no sertão mineiro. O caráter regional está presente no jeito de ser dos personagens, e no modo como encaram o mundo, mas, de maneira alguma, os determinam como seres. Ainda segundo o autor:
Os heróis de Guimarães Rosa continuam a ser tipos no sentido de que expressam seu caráter coletivo – sua região ou sociedade e a função que desempenham neste contexto – em cada um de seus atos, mas eles transcendem sua tipicidade pela ampla dimensão humana de que são dotados. (COUTINHO, 1994, pg. 18)
Sendo assim, o jaguncismo retratado em “A hora e vez de Augusto Matraga” se diferencia do “tipo jagunço” recorrente, por exemplo, na ficção regionalista brasileira da geração de 1930, já que neste, o personagem é construído a partir de arquétipos previsíveis e sob uma perspectiva maniqueísta que, ora o tem como herói, ora como vítima social, enquanto naquele, o personagem apresenta um caráter complexo que enfatiza duas constantes da vida sertaneja: a violência e o misticismo na interminável luta entre o bem e o mal; característica esta que configura uma condição existencial pertinente ao ser humano comum.

Em princípio, temos o protagonista Nhô Augusto como um típico jagunço literário: o valentão da região, briguento, debochado e que maltrata os outros por pura perversidade; não apresenta qualquer preocupação com sua mulher, Dona Dionora, nem tampouco com sua filha, Mimita. Com a decadência de sua fazenda e o conseqüente descrédito econômico e político, sobrevém o castigo: sua mulher foge com Ovídio Moura, levando consigo a filha, e seus próprios capangas o espancam e tomam-no por morto, a serviço de seu pior inimigo: o Major Consilva. Contudo, é encontrado por um casal de velhos: mãe Quitéria e pai Serapião, que passam a ser seus protetores.

A partir de então, Nhô Augusto começa uma nova vida, marcada pela penitência como forma de regeneração e garantia de ascensão ao céu. Com isso, se estabelece no personagem um constante conflito entre o desejo de voltar a ser jagunço e o comprometimento devoto como plano de salvação de sua alma. É através desse embate interior que podemos constatar a dimensão humana que o personagem adquire no decorrer do conto, pois nos é revelado as angústias e anseios que essa condição conflitante acarreta.

Ao contrário do protagonista, o chefe jagunço Joãozinho Bem-Bem não apresenta traços de esfericidade. Mostra-se sempre impassível e dono de si, além de compartilhar com Nhô Augusto uma admiração mútua que podemos atribuir ao fato de ambos serem jagunços temidos e respeitados. Nhô Augusto vê no duelo final contra Joãozinho Bem-Bem sua grande chance de conquistar a absolvição de seus erros através do impulso incontrolável da violência. Em outras palavras, é um momento singular em que, paradoxalmente, ele pode realizar o bem através da violência. Nesse sentido, nos diz Antônio Candido:


A oportunidade, a “hora e vez” de Nhô Augusto, consiste em fazer o bem, e com isto assegurar a salvação da alma, por meio da violência destruidora, do ato de jagunço matador, que ele reprimira duramente até então, com medo de perdê-la. (CANDIDO, 1970, pg. 152).
Obviamente, um conto não possui extensão suficiente para abarcar, de forma efetiva, personagens que possuem esfericidades complexas, se compararmos, por exemplo, a um romance. Por isso, a temática abordada em “A hora e vez de Augusto Matraga” pode ser constatada com maior abrangência em Grandes Sertões: Veredas, obra máxima de Guimarães Rosa.
7. narrador e focalização
Em “A hora e vez de Augusto Matraga” destaca-se um caráter fictício e irreal. Com isso se evidencia a não intenção de verossimilhança por parte do narrador, mostrando que tudo foi inventado. Esse fato retoma Machado de Assis, que através das intrusões do narrador rompe com a verossimilhança e faz o leitor nunca se esquecer de que está diante de uma ficção e diante de um ponto de vista.

O narrador deste conto conscientiza o leitor de que está diante de uma obra artística, que a narrativa é livre, transcende as próprias limitações internas de verossimilhança textual, e usa um discurso regido por suas próprias leis, ou seja, ele valoriza a grandiosidade da arte que tem valor em si mesma, ao invés das imitações do real. Isso pode ser exemplificado através do trecho:

E assim se passaram seis anos ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar nem pôr, sem mentira nenhum, porque esta é uma estória inventada, e não é um caso acontecido,não senhor. (ROSA, 2001, p.383)
É importante destacar que na primeira versão do conto, o narrador afirma exatamente o contrário: “(...) esta não é uma história, mas sim um caso acontecido, sim senhor”. In Guimarães Rosa alquimista: processos de criação do mito de Maria Célia Leonel (1985, p.193).

Nota-se no conto um distanciamento entre história e leitor, devido a grande presença do narrador: “(...) E, páginas adiante, o padre se portou ainda mais excelentemente, porque era mesmo uma brava criatura” (ROSA, 2001, p. 380).

Esse é um dos momentos que faz com que o leitor não se esqueça de que é o narrador quem conta a história, apesar de em muitos momentos a presença do narrador não seja sentida e dê ao leitor a sensação de estar diante dos acontecimentos:
- Desonrado, desmerecido, marcado a ferro feito rês, mãe Quitéria, e assim tão mole, tão sem homência, será que eu posso mesmo entrar no céu?!...

- Não fala fácil, meu filho!... Dei’stá: debaixo do angu tem molho, e atrás do morro tem morro.

- Isso sim... cada um tem a sua hora e sua vez, e a minha hora há-de chegar!... (ROSA, 2001, p.385)

A adoção da noção de ficcionalidade é um elemento importante, que influencia na focalização do narrador. Afinal, se a história não é real, se é totalmente inventada por um narrador, este então, a conhece detalhadamente e tem a capacidade de manipular e controlar todas as informações, todos os eventos relatados, o tempo, os cenários, as personagens, produzindo uma focalização onisciente (focalização zero).

Esse tipo de focalização também é justificada pela abordagem do tema da conversão: Augusto Matraga vive a fase de pecado, penitência e redenção da alma, como as histórias de santos. Histórias essas de amor, medo e redenção, que são contadas depois de o santo estar morto, ou seja, depois de a história já estar concluída, tendo o narrador conhecimento total da diegése.

Entretanto, ao ler o conto, pode-se observar que a focalização não é apenas onisciente, há também, uma focalização interna, afinal, além de não haver intrusão na consciência da personagem, os fatos da história só são relatados ao leitor quando também o são a Matraga. Um exemplo disso é o fato de o leitor só ficar sabendo do destino de Dionóra, que continuava amigada com seu Ovídio, e da filha que se perdera no mundo, apenas quando Tião da Teresa reencontra Matraga e conta-lhe as novidades. (ROSA, 2001, p.384)

Pode-se também, pensar em focalização externa, uma vez que os acontecimentos contados poderiam ser observáveis por qualquer espectador comum.

Contudo, ao analisar o modo como o narrador expõe os sentimentos, e pensamentos das personagens, fica clara a predominância do foco onisciente do narrador: “(...) E aí, Nhô Augusto se lembrou da mulher, da filha. Sem raiva, sem sofrimento, mesmo, só com a falta de ar enorme, sufocando (...)” (ROSA, 2001, p.378).

Pode-se pensar na própria essência do narrador onisciente: conhece toda a história, mas pode selecionar o que e quando algo deve ser contado. Em “A hora e vez de Augusto Matraga”, optou-se por narrar a vida do protagonista, portanto o narrador selecionou as informações a serem narradas de acordo com a importância que elas têm para a vida da personagem. Como foi exemplificado acima, o destino de Dionóra, Ovídio e da filha, não são mencionados dentro de uma concepção cronológica, mas sim, quando são importantes para a vida de Matraga, ou seja, quando acrescentam-lhe mais sofrimento, tornando-se parte do processo de penitência.

Além disso, observa-se que o narrador é heterodiegético, pois não participa da diegése, apresentando um discurso na terceira pessoa e no passado, o que mostra que a história já se passou. Com relação aos tipos de discurso, o texto apresenta discurso indireto, indireto livre quando reproduz expressões das personagens e discurso direto.

É muito importante lembrar que a maneira como o narrador revela a história faz com que o leitor só tenha acesso aos acontecimentos através do conhecimento de Matraga. Com essas revelações, e com o uso da descrição das feições, modos de agir, expressões das personagens, o leitor é conduzido ao compadecimento e à mudança da imagem do anti-herói.

Conclui-se então, que o narrador possui um papel fundamental na estruturação de toda a diegése, colocando submissos a ele não só o leitor, mas também, todos os outros termos da estrutura narrativa.


7. linguagem: a oralidade
Através dos diálogos presentes no conto, observa-se o intenso uso de construções populares, que além de ressaltarem o tipo brasileiro representado pelas personagens, também destacam o efeito poético. Essa oralidade é própria do texto, pois segundo Walnice Nogueira Galvão, pode-se estabelecer uma relação entre o conto e os “causos sertanejos”. Relação essa, mantida não só pela oralidade, como também pela desconstrução da fala do sertanejo, pois esse, ao contar um causo o afirma verdadeiro, ao contrário do narrador desse conto.

Como observa Susy Frankl Sperber, em seu artigo “Amor, medo e salvação: aproximação entre Valdomiro Silveira e Guimarães Rosa” (1996, p.110) o conto também se aproxima das sagas do cordel brasileiro – já que estas também são narrativas orais. Esta aproximação se justifica principalmente pelo título Sagarana, que significa “à maneira de saga”.

Além disso, segundo Walnice Nogueira Galvão, em seu artigo “Matraga: sua marca” (1978), o texto estrutura-se dentro de uma concepção tríade, o que se relaciona com a temática cristã. Isso ocorre porque a vida de Matraga se divide em três fases: pecado, penitência e purificação, e cada uma dessas fases é composta por trios: Matraga, Dionóra e a filha; Matraga e o casal de pretos; Matraga, Joãozinho Bem-Bem e o velho.

Além disso, também são usados três nomes para o protagonista: Augusto Esteves, utilizado na primeira parte do texto, quando é fazendeiro, rico, é o nome social da personagem; Nhô Augusto é o nome do indivíduo, da segunda parte da obra; e Matraga é o nome mítico, nome de santo.

É importante destacar, que o conto também se assemelha às parábolas, não só pelo fato de o narrador se utilizar do tema cristão (transformação do pecador em santo), mas também devido ao caráter fictício do texto.

Umas das características mais marcantes da linguagem roseana é o uso de metáforas. Neste texto, por exemplo, tem-se a metáfora da cobra, que se associa à idéia do mal, dentro da condição cristã. É importante lembrar que esta metáfora também possui uma estrutura tríade, pois aparece três vezes no conto. Primeiramente, quando Quim Recadeiro informa Nhô Augusto sobre suas situação: “(...) o senhor nunca respeitou filha dos outros nem mulher casada, e mais que é que nem cobra má, que quem vê tem de matar por obrigação (...)” (Rosa, 2001, p.373).

A segunda vez é também uma comparação de Matraga ao animal: “Deus que me perdoe, -resmungou a preta- mas este homem deve de ser ruim feito cascavel barreada em buraco (...)” (ROSA, 2001, p.377)

E a última vez ocorre no final do conto: “A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca do estômago, e um mundo de cobra sangrentas saltou para o ar livre (...)” (ROSA, 2001, p.411).





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