A igreja católica e a produçÃo do campo educacional no sul do rs: uma história a partir do periódico a palavra (1912-1959)



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A IGREJA CATÓLICA E A PRODUÇÃO DO CAMPO EDUCACIONAL NO SUL DO RS: UMA HISTÓRIA A PARTIR DO PERIÓDICO A PALAVRA (1912-1959)


Adriana Duarte Leon

PPGE-FaE/UFMG

Eixo temático: Eixo 2 Pesquisa em Pós-graduação em Educação e Formação de Professores

Modalidade: Pôster

Resumo

O objetivo deste trabalho é analisar o campo educacional promovido pela igreja católica no sul do Rio Grande do Sul e expressado pelo periódico A palavra. A história da educação explicitada pelo impresso anuncia diversos conflitos da época, bem como apresenta as iniciativas da igreja católica no sentido de estabelecer sua consolidação no campo educacional e junto aos professores. Através da análise da imprensa é possível indicar os antagonismos e as filiações ideológicas, presentes nas práticas. As questões sociais explicitadas nas práticas sociais, se explicitam nos meios de comunicação que cumprem ao seu modo e ao seu tempo uma função social. No entanto não basta compreendê-los como mecanismos que apresentam opções sociais e políticas é preciso compreendê-los como síntese dessas disputas, ou seja, é preciso entender os campos de conflito que produzem a fonte. As fontes utilizadas neste trabalho são escritas e a periodização anunciada corresponde ao período de circulação do jornal. As conclusões são preliminares, pois o estudo está em fase inicial, no entanto é possível afirmar que o periódico interveio na produção de um campo educacional no período de sua circulação, pois se consolidou como um meio de comunicação eficiente que aglutinava leitores de diversos setores da sociedade, dentre esses os professores. Diversas são as notas direcionadas ao público docente que indicam a considerável intervenção da Igreja Católica junto aos professores da região Sul.



Palavras-chave: Igreja Católica, periódicos, campo educacional.


A Igreja Católica e a modernidade: a produção de um campo educacional no sul do RS - uma história a partir do periódico A Palavra (1912-1959) -
Introdução

O objetivo desta proposta é analisar o campo educacional promovido pela Igreja Católica no sul do RS, como a Igreja se posicionava frente ao processo de modernização, que papel atribuía à educação e quais as suas estratégias para influenciar os educadores, incluindo processos socializadores e redes sociais de influência. A história da educação que pode ser evidenciada pelo impresso anuncia diversos conflitos da época e apresenta algumas iniciativas da Igreja Católica no sentido de estabelecer novas práticas e novas representações.

Através da intervenção organizada a Igreja Católica adentrou em diversos espaços, dentre eles a educação. Os discursos apresentados no periódico A palavra anunciam a forma de organização adotada pela Igreja Católica, os discursos por ela legitimados e as opções sociais e políticas da instituição.

Lançar um olhar sobre o Sul do Brasil por intermédio do periódico Católico é um desafio que me proponho, estimulada pelas reflexões que realizei no Mestrado em Educação. Na época pesquisei duas instituições representativas de professores1 e dentre as fontes que encontrei estava o periódico A palavra. O jornal circulou na região sul de 1912 a 1959, mantinha edição semanal, formato e número de páginas variáveis, era uma publicação da Diocese e pretendia ser um veículo de comunicação da Igreja Católica com a região.

De certa forma o periódico A palavra é uma expressão importante dos acontecimentos, no que tange as práticas sociais e políticas da Igreja Católica, pois nenhum um outro periódico católico se manteve por período igual no RS. Cabe ressaltar que a história da educação expressa pelo impresso anuncia conflitos e consensos no campo educacional, bem como as iniciativas da igreja católica no sentido de estabelecer sua consolidação no campo educacional.
Algumas indicações teórico-metodológicas: os periódicos como fonte de pesquisa

Os periódicos são uma fonte em potencial para a pesquisa historiográfica, pois fornecem elementos substanciais, no que se refere ao contexto e às disputas locais. Barreira (2004) afirma que a analise de impressos possibilita apreender como os indivíduos produzem seu mundo social e cultural.

Como observa Le Goff (1996) todo registro é fruto de um contexto e não é possível analisá-lo de forma isolada, o documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder.

Catani e Bastos (1997), ao analisarem a imprensa pedagógica, observam que é possível indicar os antagonismos e as filiações ideológicas, presentes nas práticas. A imprensa pedagógica sugere práticas e explicita as diferenças e disputas do campo educacional. No entanto, não basta compreender os impressos como mecanismos que apresentam opções sociais e políticas, é preciso compreendê-los como síntese dessas disputas, é preciso entender os espaços de conflito em que são produzidos.

Biccas (2002, 182) ao estudar a Revista do Ensino em Minas Gerais faz uma análise muito objetiva sobre a função do impresso e sustenta a idéia da revista como uma importante estratégia de formação e de conformação do campo e das práticas escolares. Segundo a autora, a revista atendia de forma estratégica as necessidades cotidianas da prática do professor e, paralelamente, estimulava o professor a apropriar-se de determinados preceitos e colocá-los em prática.

Embora a imprensa seja uma fonte em potencial para a pesquisa, o seu manuseio e análise é um desafio que exige domínio de contexto, domínio das condições histórico-sociais e políticas em que foram produzidos os documentos; caso contrário, corre-se o risco de produzir uma descrição sem que o pesquisador tenha consciência dos conflitos ali explícitos.

Faria Filho (2002, p.135) ao analisar jornal O universal em Ouro Preto (1825), observa que utilizando de uma intencionalidade educativa o jornal coloca em circulação uma série de matérias e assuntos que, em sua generalidade, não deixavam de compor uma representação sobre suas idéias de reforma das condutas e dos costumes. Para compreender o impresso na sua subjetividade, nas relações que não estão explicitadas, é necessário que o pesquisador estabeleça uma teia de relações para além da fonte e entenda a condição de produção da mesma.

Para perceber as relações que não estão explicitadas no impresso faz-se necessário cercar a fonte de questionamentos: quem escreve? Por que escreve? Quem escolhe as matérias? Por que escolhe? Enfim, é intrigar-se com a fonte e buscar o contexto de sua produção.

Por fim, este trabalho prevê a utilização de fontes escritas primárias, priorizando a coleta, catalogação e análise do periódico A palavra no período de sua circulação. Parcela do material está caletado, mas ainda no aguardo de análise. Os assuntos tratados no impresso se relacionam com política, economia, educação, religião, comportamento, dentre outros. O impresso busca dialogar com o leitor, independente sua opção religiosa.

Observo também que a socialização de idéias possibilitada pelo impresso, se torna instrumento para organização de grupos vinculados a igreja católica e que atuam em espaços externos a ela, como por exemplo, a Associação Católica de Professores, tal instituição divulga e relata suas atividades no impresso, ao mesmo tempo sua ação é estabelecida para fora da Igreja, ou seja, o foco deste grupo organizado é a escola pública, neste caso o impresso funciona como mecanismo de apoio a processos socializadores e estabelece uma rede social entre os professores.


Aproximações com o campo educacional a partir do periódico A Palavra

O formato do jornal era A3 e impresso em papel jornal. A quantidade de páginas variava entre oito e doze, era impresso em letras pretas e não localizei, até o momento, edições coloridas. O impresso abordava assuntos diversos e mantinha-se em harmonia com os princípios da Igreja Católica.

O impresso era uma forma de intervenção utilizada pela Igreja Católica, adentrava em grupos sociais que não participavam ativamente dos rituais da Igreja, era uma forma de socializar informações e construir discursos. Possibilitava também a organização de diversos grupos sociais, dentre eles a Associação Católica de Professores, tal instituição foi fundada em 1933 e buscava intervir junto aos professores nas escolas públicas.

É visível a ação da Igreja Católica como instituição que visa influir na educação, focando sua ação na doutrina de professores e na divulgação de seu pensamento educacional e religioso. A reaproximação da Igreja com o Estado – por exemplo, no retorno do ensino religioso nas escolas públicas (Vargas) e criação dos Círculos Operários – evidencia uma preocupação com o processo de modernização que se acentua no início do século XX.

É bem possível que a visão de moderno e de modernização da Igreja fosse uma espécie de modernização conservadora, termo usado por Apple (2003) para, em um contexto mais atual, denominar a aliança que se estabeleceu nos países capitalistas como hegemonia neoliberal. No caso, a Igreja Católica apoiava uma modernização, em nome do moderno, da modernidade e do progresso, mas combatia forças progressistas – movimento sindical e educadores progressistas.

Esse tipo de ação se estabelecia por meio de redes sociais como, por exemplo, na organização das pastorais e de ações específicas como o apoio à criação dos Círculos Operários, conjuntamente com o Estado Tambara (1993). No campo educacional a estratégia, muito semelhante, era pela influência direta de professores via criação de associação de docentes, atividades culturais e cursos de formação (Leon, 2008).

Fica claro que o processo de doutrinação e divulgação do pensamento educacional católico supunha um investimento em processos de socialização e na constituição de redes para influenciar educadores.

Na década de 30 do século XX, selecionei várias notas que defendem o ensino religioso nas escolas. As justificativas são diversas, mas interessa aqui explicitar que a Igreja estava interessada, neste período, em disputar ferrenhamente sua inserção nas instituições educativas. O periódico constrói a idéia de que a educação baseada nos princípios do catolicismo é a única viável para os católicos.



Educação

Um dos assuntos que muito deve interessar aos pais é sem dúvida alguma a educação dos filhos, e isso é um problema de não fácil solução por parte de todos aqueles que o encaram devidamente.

Existe vários métodos de instrução: leiga, atéia, etc. aponto como única e verdadeira a que é ministrada sob a base de nossa santa religião e que portanto está apta para formar os homens do amanhã.

(A PALAVRA, 01/03/1930)


É possível acompanhar pelo impresso uma série de iniciativas da Igreja Católica que objetivam orientar a postura dos católicos, sendo muitas relacionadas com as políticas adotadas no país. O ‘programa do eleitor católico’ publicado em 1932 é conseqüência desta organização e orienta sobre a postura que deve ser adotada por um católico nas eleições, quais itens devem ser considerados nos momentos de escolha de sua representatividade.

De todos os itens citados no programa do eleitor percebe-se que a ênfase na década de 1930 está voltada para a garantia do ensino de religião facultativo nas escolas. Após forte investida a Igreja garante o ensino de religião nas escolas e estabelece algumas parcerias com o Estado. O apoio da Igreja ao Estado pressupõe a troca de alguns compromissos, principalmente aqueles referentes à luta anticomunista. Tambara (1993) demonstra que a Igreja e o Estado estabelecem uma relação de interdependência

A Igreja Católica foi hábil em estabelecer relação com Estado e paralelamente manter o diálogo com os grupos sociais em evidência. Como observa Buffa (1979, p. 101), “colocando-se a serviço da classe dominante, a Igreja contribui para a manutenção do status quo”.

É possível acompanhar outras ações por parte da Igreja Católica que intervieram diretamente na educação. Em 1933, foi criada a Associação dos Professores Católicos que tinha como objetivo principal instrumentalizar a ação dos professores da região. É possível acompanhar ações realizadas por essa instituição, tais como: cursos, seminários, reuniões, palestras, entre outras.


Associação de Professores Católicos

Curso de filosofia

Organizado pela associação de professores católicos, desta cidade, qual escolheu para patrono o venerável P. José de Anchieta, foi inaugurado, no dia 14 passado, em uma das dependências do conceituado Colégio Felix da Cunha, o curso de Filosofia.

(...)


Merece elogios essa grande iniciativa da culta associação de professores católicos, que assim vem preencher uma lacuna que existia em nosso meio intelectual, caracterizada na falta de um curso superior de Filosofia. [...]

(A PALAVRA, 23/07/1933)


O discurso da Igreja Católica apresenta-se no periódico sempre de forma muito objetiva, não deixando espaço para contestações sobre a idéia apresentada. A palavra apresentada no periódico é a posição defendida pela Igreja Católica sobre os temas polêmicos do seu tempo.
Considerações Finais

O periódico A Palavra foi uma estratégia da Igreja Católica no sentido de agrupar adeptos e disputar espaço no campo político-ideológico na região sul do Rio Grande do Sul, na primeira metade do século XX.

Do ponto de vista editorial, o periódico buscava abordar assuntos diversos, teóricos e práticos, com uma linguagem fácil, tratando dos problemas do cotidiano. A Palavra é um lugar de circulação de idéias da Igreja Católica sobre educação, política, ética, moral, saúde, comportamento, enfim é uma estratégia de conformar um campo de ação.

As representações produzidas e veiculadas pelo impresso propiciam a construção de um campo educacional influenciado pelos princípios do catolicismo. A organização de setores, dentre eles a associação do professores católicos é uma manifestação real da consolidação de um campo influenciado pela Igreja Católica.

Por fim, o esboço apresentado neste texto é bastante preliminar, pois faz-se necessário conhecer melhor as condições de produção do impresso, bem como analisar com maior profundidade alguns elementos observados.

BIBLIOGRAFIA

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BICCAS, Maurilane de Souza. Da revista à leitura: a formação dos professores e a conformação do campo pedagógico em Minas Gerais (1925 – 1940). In: ARAÚJO, José Carlos Souza; GATTI JÚNIOR, Décio (Orgs). Novos Temas em História da Educação Brasileira. Campinas, SP: Autores associados; Uberlândia, MG: EDUFU, 2002. (coleção memória da educação).

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CATANI, Denise Barbara & BASTOS, Maria Helena Câmara (Org.). Educação em Revista: a imprensa periódica e a história da educação. São Paulo, Escrituras, 1997.

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LEON, Adriana Duarte. A profissão docente na cidade de Pelotas: Associação Sul Rio-grandense de Professores e Associação Católica de Professores (décadas de 1930 e 1940). Pelotas: Biblioteca: Campus II, UFPel, 2008, (dissertação de mestrado).

LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4a. ed., Campinas, São Paulo: Editora da UNICAMP, 1996.

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TAMBARA, Elomar. Círculo Operário e Igreja: a Formação da Classe Trabalhadora. In: GHIGGI, Gomercindo; HYPOLITO, Álvaro; TAMBARA, Elomar. Trabalho, Conhecimento e Formação do trabalhador. Pelotas: Editora Universitária, UFPel, 1993.

1 Ver LEON (2008): A Profissão docente na cidade de Pelotas: Associação Sul Rio-grandense de Professores e Associação Católica de Professores.


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