A igreja Cristã na Alta Idade Média domínio da sociedade pela religião Márcia Alves de Carvalho Machado Resumo



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A Igreja Cristã na Alta Idade Média - domínio da sociedade pela religião

Márcia Alves de Carvalho Machado*


Resumo: Este artigo busca promover uma breve reflexão sobre o poder da Igreja Cristã na Europa, desde a decadência do império romano e construção dos reinos germânicos até o fim da alta idade média, quando se consolida o sistema feudal. E ainda, sua atuação e influência nas mudanças do sistema social, e consequentemente na formação da sociedade daquele período.
Palavras Chave: Igreja, poder, sociedade, Europa.
O cristianismo percorreu dois mil anos de história, continua atuante nos dias de hoje, e esteve sempre presente nas relações sociais da civilização ocidental. Particularmente em Roma, a sociedade cristã até mesmo quando perseguida por imperadores nos primeiros séculos por ser considerada perigosa, ou posteriormente quando através da Igreja Cristã se fortalece no seio da sociedade romana, entre erros e acertos mostrou sua força e capacidade de organizar-se e tornar-se poderosa. Com relação ao cristianismo emergente Eduardo Hoornaert afirma, em resumo
“numa sociedade sem serviço social como a romana, a comunidade cristã desempenhava funções altamente apreciadas pelas camadas mais pobres, o que lhe rendeu respeito e admiração. Doravante, os tempos em que os cristãos eram ridicularizados pertenciam ao passado e o cristianismo se tornou um fator de humanização de todo o Império”. (2007, p.36)
As publicações nas últimas décadas sobre a Idade Média confirmam o papel de destaque exercido pela Igreja Cristã, hoje Igreja Católica Apostólica Romana, na formação da civilização européia, em particular no período chamado de Alta Idade Média. Período este demarcado com controvérsia por alguns historiadores, porém determinado pela maioria entre o século V a fins do século X. Tais publicações nos possibilitam examinar mais profundamente a relação de poder exercida pela Igreja sobre a civilização ocidental e sua influência direta nas mudanças das relações sociais que afetaram as camadas da sociedade deste período. Através da bibliografia apresentada, podemos estabelecer os diversos campos influenciados pela Igreja Cristã, seja de forma espiritual ou temporal, que só colaboram para comprovar seu destaque.

Após o declínio de Roma no Ocidente e das posteriores ondas de migração e invasão dos bárbaros na Europa, mesmo na migração inicial existindo a dualidade dos dois credos: germânico e romano, foi a Igreja Romana a única instituição que se manteve organizada, já que possuía conhecimento e dominava tanto o campo da leitura como da escrita, sendo os componentes das ordens eclesiásticas os únicos capazes de registrar, organizar e disciplinar as regras de relação econômica e espiritual das sociedades. Dessa maneira a Igreja fortaleceu seu poder político; serviu de apoio às novas populações, abrigando e protegendo os indefesos; e atuando de forma predominante na formação da sociedade medieval na Europa seja no plano espiritual ou material.



Com relação à influência da Igreja na formação da sociedade européia nos séculos iniciais da Idade Média, BORGES comenta:
“Os primeiros séculos da Idade Média vão ser os séculos da formação da civilização européia ocidental. É então que temos o aparecimento da Europa na história, com a afirmação de uma identidade comum a diferentes povos, que vivem uma forma de vida muito semelhantes. As comuns a esses povos são o mundo romano em desestruturação e o chamado mundo bárbaro (composto por povos que viviam fora domínio do Império Romano). Os elementos desses dois mundos vão se misturar lenta e completamente do século IV ao VI, através da influência da Igreja, que vai marcar profundamente toda a sociedade”. (1986, p.22)
Essa influência não foi exercida pela Igreja apenas por sua capacidade de organizar-se, mas também pelo poder econômico que a mesma acumulava. Foi comum o pagamento de impostos e a prática de doação de terras para Igreja romana pelos cristãos, até porque eles relacionavam essa prática à idéia de salvação. Ainda pesou a favor da acumulação de poder econômico o fato da instituição ser isenta de muitos impostos pagos sobre propriedades e bens. No ano de 756 quando da formação dos Estados da Igreja, marcada pela doação das grandes extensões de terras espalhadas pela Itália, denominadas de Patrimônio de São Pedro ao papado, e em seguida após a morte de Carlos Magno em 814 (quando o clero do Reino Franco fica submetido à Igreja de Roma), o poder da Igreja Cristã se fortalece e torna-se independente da proteção do imperador. A partir daí coube a própria Igreja escolher o papa (dirigente supremo da cristandade ocidental), aprovar a nomeação de bispos, criar contribuições, taxas e impostos que seriam cobradas aos cristãos.
Ainda em relação à economia, a Igreja atuou de várias maneiras sobre as sociedades e as instituições da Idade Média, até mesmo ditando regras econômicas. Encontramos em AQUINO, FRANCO e LOPES exemplo dessas atuações:
“A Igreja formulou igualmente inúmeros princípios relativos às atividades econômicas que deviam atender às necessidades da comunidade e não ao proveito individual; por isso condenou a usura, a especulação e impôs o justo preço: o preço de um produto devia corresponder à soma do preço do custo mas o correspondente à justa retribuição pelo trabalho realizado na produção da mercadoria. Caberia às corporações e autoridades municipais calcular o “justo preço, que permitiria ao trabalhador e à sua família viver segundo os padrões inerentes a sua Ordem ou Estado”. (1982, p.369)
Acerca do poder intelectual, uma das principais ordens responsável pelo desempenho civilizatório da sociedade medieval, no Ocidente, foi a Ordem Monástica. Criada por volta do século III e organizada por São Basílio, bispo de Cesaréia, tinha como principais regras: vida em comum nos mosteiros; votos de pobreza, castidade e obediência ao abade; união da oração e trabalho, como hospedar viajantes, cuidar de doentes; e ocupar-se com os pobres e o ensino. Os mosteiros ocupavam as grandes propriedades da Igreja, que era a maior proprietária de terras na Idade Média e ainda possuía servos para executar os trabalhos. Esses aspectos tornavam a Igreja Cristã forte detentora de poder econômico e de poder intelectual.

Porém é necessário levar em consideração o trabalho realizado com sucesso pela Igreja através dos monastérios durante a Idade Média, mesmo tendo como foco principal a conversão e a expansão do cristianismo junto aos bárbaros recém-chegados a Europa, patrocinou também, pelos inúmeros mosteiros que foram criados, o serviço social a todas as camadas da população. Incluí-se nesse serviço a difusão da cultura, tarefa que William Bark assinala:


“Apesar de toda a importância da nova arte e literatura, e da revolução social, nossa melhor ilustração isolada no novo modo de vida é proporcionada pela expansão monástica. Quando a maioria da Europa ocidental, tanto as partes outrora civilizadas como as ainda Não, assumiram o caráter de sociedade agrária, tornou-se evidentemente impossível a continuação dos velhos processos de propagar a cultura pelos centros urbanos. O Estado – isto é, o governo bárbaro – não podia realizar a tarefa. A Igreja, que sob certos aspectos era mais poderosa que o Estado e muito melhor organizada, tinha condições para tanto”. (1979, p.111)

Os mosteiros multiplicam-se. Lentamente, a instrução, a cultura e o privilégio da sua difusão passam completamente para as mãos dos homens da Igreja ( HERMAN, p.78). Dentre as ordens monásticas destacaram-se os monges beneditinos. Criados no século VI, época da queda do império romano, quando emerge a nova civilização influenciada pelo cristianismo, os mosteiros beneditinos eram comunidades religiosas baseadas no ora et labora (ora e trabalha). E tinham por diretriz a regra criada por Bento de Núrsia (BETENCOURT, 2007. p.38). Possuíam o foco exato desejado pela Igreja Cristã, exercendo missão evangelizadora junto aos povos bárbaros, e convertendo-os a religião cristã, e em paralelo transmitiam a cultura européia.

Dessa forma a Igreja exerceu ascendência tanto espiritual como intelectual na sociedade e nas instituições medievais, através de várias ordens eclesiásticas surgidas na Idade Média, que prestaram também prestavam serviços na área educacional, fixando até mesmo diretrizes pedagógicas e controlando o ensino desde o nível elementar ao superior.

No plano político também foi marcante a influência da Igreja Cristã. Era comum e constante a interferência direta junto aos reis e imperadores, até em muitos casos gerando discórdia entre eles. O poder conferido ao papa pela autoridade pontifícia o tornava superior diante do poder monárquico, considerado “poder leigo”, uma vez que o papa era responsável pela ordenação dos reis. Segundo a Teoria dos Dois Gládios, esboçada desde o Papa Gelásio, citada por AQUINO, FRANCO e LOPES, :


“Afirmava que o poder leigo (Gládio Temporal) governava os corpos, e o poder eclesiástico (Gládio Espiritual) governava as almas; como a alma era superior ao corpo, a autoridade eclesiástica sobrepunha-se à autoridade leiga; ao Papa, como chefe da Igreja e representante direto de Deus, cabia consequentemente, o governo supremo da sociedade cristã, à qual pertenciam Reis e Imperadores; além do mais, Reis e Imperadores, como os demais homens, poderiam cair em pecado e, consequentemente, estavam sujeitos ao julgamento do poder eclesiástico, cuja autoridade máxima era o Papa. (1982, p.370)
Entre outras atribuições, podemos destacar que a Igreja julgava testamentos, exercia papel de mediadora em litígios, e conferia a pena de excomunhão aos reis e imperados. Diversas foram as intervenções da Igreja na esfera política neste período, como na questão da proibição pelo Papa Gregório VII em que investiduras de bispados e abadias fossem feitas pelo imperador. O que irritou o imperador Henrique IV, e após sua recusa e obedecer a Reforma Gregoriana, foi excomungado pelo próprio Gregório VII e submetido a humilhante penitência para o perdão pontifical. Até nas questões de guerra a instituição demonstrava sua força. Acerca da evolução social da guerra Demétrio Mognoli, afirma:
“Por fim, pressente-se lenta alteração no modo de conceber-se a guerra: de um caráter meramente destrutivo, tal qual se apresentava no momento da desagregação do Império Romano (séculos IV-V), aos poucos ela foi sendo vista como um instrumento que podia ser colocado a serviço dos reis e, sobretudo, a serviço da Igreja.”(2006, p.94).
Diante de tantos poderes que a Igreja acumulou neste período, do seu “domínio religioso”, seja no campo econômico, intelectual, espiritual e político, como poderia a sociedade ocidental deixar de ser influenciada pela Igreja Romana e sua ideologia cristã. Tão presente e de forma atuante em todos os aspectos que envolviam as questões do convívio natural inerente as relações sociais desta sociedade ?

Torna-se inegável diante do exposto, que a sociedade ocidental na Alta Idade Média foi influenciada fortemente por essa ideologia, sendo a Igreja Cristã oriunda de Roma, suas ordens e membros eclesiásticos, os responsáveis por moldar muito dos valores da sociedade, sob vários contextos e pretextos, e que até os dias atuais são percebidos nas diversas populações, através de modelos de cultos, aceitação de dogmas e padrões de moral. Seu poder foi a ferramenta que utilizou para exercer o domínio sobre a sociedade ocidental e assim torná-la dependente, podendo estruturá-la a conveniência de suas verdades e em diversas vezes para seu proveito.

Porém não podemos ignorar o fato de que a Igreja daquela época deixou em parte um legado positivo: na demonstração de perseverança em que os cristãos defendiam sua fé; na forma de organizar uma sociedade; com seus modelos de serviços sociais, obras de caridade, conforto espiritual; e preservando parte da grandeza da cultura romana que poderia não ser conhecida pelas civilizações atuais.


BIBLIOGRAFIA
BORGES, Vavy Pacheco. O que é história. 11ª. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.

AQUINO, Rubim L Santos, FRANCO, Denize de Azevedo e LOPES, Oscar Guilherme P. Campos. Histórias das sociedades da comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Livro Técnico, 1982.

BARK, William Carrol. Origens da idade média. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

BETENCOURT, Dom Estevão. O papel civilizatório da ordens monásticas. Revista história viva – grandes religiões 1 – cristianismo. São Paulo: Duetto, 2007.

HERMAN, Jacques. Guia de história universal. São Paulo: Fontes.

HOORNAERT, Eduardo. Cristianismo emergente. Revista história viva – grandes religiões 1 – cristianismo. São Paulo: Duetto, 2007.

MAGNOLI, Demétrio. História das guerras. 3ª. Ed. São Paulo: Contexto, 2006.


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*Aluna do curso de História – Licenciatura, da Universidade Estadual Vale do Aracaú - Aracaju/SE



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