A igreja nas casas



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A IGREJA NAS CASAS

Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas” – Atos 6:2

Nunca houve na História uma época em que igrejas cristãs em todo o mundo cresceram de forma numericamente tão intensa. As estatísticas de missiólogos atestam que anualmente se formam 2.000 a 3.000 novas igrejas por semana. Conforme dados da Aliança Evangélica Mundial, os cristãos evangélicos passaram de cerca de 150 milhões no ano de 1974 para cerca de 650 milhões em 1998. Desse modo, afirmam especialistas em missões como C. Peter Wagner ou Ralph Winter, os cristãos evangélicos se tornaram a minoria que mais rapidamente cresce no mundo.

Não obstante, numa época em que é grande a alegria ou até o triunfo sobre o crescimento de muitas igrejas, ficou ainda maior o grau de insatisfação com a “igreja que conhecemos”. Milhões de cristãos em todo o mundo sentem que uma nova e surpreendente Reforma está se aproximando. Afirmam: “A igreja como a conhecemos impede uma igreja como Deus a quer”.

A tradição cristã legou-nos um conceito de igreja sempre ligado a prédios ou santuários como lugares de encontro do povo e de adoração a Deus. Igreja virou sinônimo de prédio, templo, lugar de adoração. Por isso, o entendimento comum considera a igreja nos lares apenas um método a mais na estratégia de evangelização quando, na realidade, é a razão de existência da igreja.

As igrejas nos lares não são mais uma manifestação cristã da moda, que rapidamente desaparece, um fogo de palha que em breve se apaga. Não são uma nova onda, o último grito, a edição mais moderna no mercado de possibilidades eclesiológicas. As estruturas eclesiásticas tradicionais requerem um investimento considerável de controle, hierarquia, infra-estrutura, finanças, retórica, motivação e mobilização, para manter viva a organização - e o organismo espiritual nela contido. Em comparação, as igrejas nos lares têm uma estrutura diferente porque se configuram de modo muito mais orgânico: um ente vivo, solto, um ganso selvagem com autonomia de vôo, não um ganso caseiro domesticado.

Na verdade as igrejas nos lares não precisam produzir provas de que não são um fenômeno efêmero da moda, porque já se afirmaram durante séculos. Foram as estruturas das igrejas nos lares que sustentaram a igreja cristã até os tempos de Constantino. E com certeza não é exagero afirmar que através dos séculos as igrejas nos lares constituíram uma das mais importantes estruturas de sobrevivência da vida espiritual, quando depois de Constantino e durante toda a Idade Média a igreja de pastores foi decretada como único modelo válido de igreja. Muitas vezes formas de igreja no lar tornaram-se, no seio das igrejas existentes, uma espécie de arca de Noé espiritual, na qual a comunhão vivida pelos cristãos rebrilhou constantemente e a fé cristã buscou e encontrou outros espaços de vida. A maioria dos movimentos de renovação espiritual da história desenvolveu-se em pequenos grupos, "conventículos", células ou classes. Muitas pessoas não viram o surgimento fragmentário de igrejas nos lares nessas formas estruturais, como hoje estamos novamente fazendo, porque a atmosfera eclesiástica e o controle social eram muito mais intensos no passado. Contudo, rapidamente fica explícito que as estruturas das igrejas nos lares que repetidamente se formaram representaram uma espécie de "conservatório", que preservou muitos aspectos de uma fé cristã viva através dos séculos - inclusive na forma monástica, que constitui uma reação um pouco extremada demais ao padrão eclesiástico frio e sem comunhão.

Qual é o lugar mais simples para uma pessoa ser santa? Ela se esconde atrás de um grande púlpito e, trajado com túnicas sagradas, prega palavras santas a uma massa sem rosto, desaparecendo depois em seu gabinente. E qual é o lugar mais difícil e, por isso, mais significativo, para uma pessoa ser santa? Em casa, na presença de sua família, onde tudo o que ela diz e faz é submetido a um teste espiritual automático e conferido com a realidade.

A presente aula não visa oferecer estudos exegéticos exaustivos sobre o tema, mas apenas proporcionar uma breve visão panorâmica.

NATUREZA


Igreja no lar é vida comunitária de cristãos conduzida por força sobrenatural em casas bem normais. É o estilo de vida redimido, vivido na situação concreta. É o caminho orgânico pelo qual os cristãos seguem a Jesus conjuntamente no cotidiano. Pelo fato de não mais pertencerem a si próprios, os redimidos adotam consistentemente um estilo de vida comunitário. Já não vivem num mundo particular e individualista. Igrejas nos lares nascem quando os cristãos entendem que não podem mais conduzir sua própria vida mas, junto com outros, começam a colocar em prática os valores do Reino de Deus em suas vidas, iniciando por compartilhar com outros cristãos e ainda pessoas não cristãos ao seu redor.

Igreja no lar significa que o corpo de Cristo se reúne em casas. Nas palavras do conde von Zinzendorf, é a comunhão dos triplamente convertidos:

- primeiro uma conversão vertical em direção a Deus, a Jesus, o cabeça da igreja

- depois, os cristão se convertem uns aos outros. Essa é a conversão ao corpo de Cristo na terra

- disso resulta a conversão ao mundo, num serviço de doação pessoal e, precisamente, sustentado pela comunhão

COMO SÃO


Igrejas nos lares espelham as qualidades e o caráter de Cristo. Em decorrência, o estilo de vida comunitário das igrejas nos lares é marcado por amor, verdade, perdão, fé e graça. Igrejas nos lares constituem um caminho ideal para que as pessoas demonstrem amor mútuo, se perdoem, lamentem com os enlutados e riam com os alegres, para que experimentem e pratiquem pessoalmente a graça e estejam incessantemente, no dia-a-dia, em contato com a verdade e o perdão de Deus. É um espaço em que todas as máscaras podem ser removidas, em que as pessoas podem ser francas umas com as outras, e apesar disso continuar se amando.

Um lar cristão é um lugar onde a presença de Cristo é a característica mais notável e a principal atracão. Cada membro da família é consciente de sua presença, de seu governo e orientação e, de forma agradável, conduz sua vida e sua relação com os demais com um sincero interesse de agradá-lo.

O que faz com que a vida no lar seja dinâmica, vital e espiritual é a presença real de Cristo operando em nosso interior para transformá-lo à Sua semelhança. Isto significa que todos nós devemos desenvolver nossa vida familiar com a plena consciência de que Ele está presente, ou seja, praticar a presença de Jesus Cristo.

Se reconhecemos que Deus criou a família humana como meio para formação de sua família eterna, devemos estar atentos a toda oportunidade que surgir para comunicar a graça de Deus aos nossos vizinhos e levá-los à salvação. É o reino de Deus no lar que torna possível viver em paz e amor, e é essa realidade que falta na maioria dos lares ao nosso redor.

O ambiente familiar é o idel para atrair e envolver outras pessoas, e aproximá-los do reino de Deus. A sinceridade e ternura do lar derrubam as barreiras e a resistência com que muitos se opõem a uma apresentação mais formal do evangelho. E quando esse testemunho é dado noite e dia, ano após ano no mesmo bairro, o efeito é inegável e maravilhoso.

IGREJAS NOS LARES NA HISTÓRIA

A igreja do Novo Testamento era uma família extensa orgânica e espiritual, edificada sobre relacionamentos, e que tinha a capacidade de se multiplicar. Muitas vezes os primeiros cristãos chamavam a si mesmos de paraoiki (1 Pedro 2:11), estrangeiros assentados, os “estranhos da porta ao lado”. De acordo com sua autocompreensão, eram parte de uma “colónia de estrangeiros”, que se sentiam em casa em qualquer lugar e, no entanto, em nenhum lugar de fato.

- o Evangelho não somente se dirige a pessoas individuais, mas também a casas inteiras: Mateus 10:12-14, Lucas 10:5, Lucas 10:7, Atos 10:22, Atos 10:10, Atos 16:15, Atos 16:32.

- o Pentecostes aconteceu numa casa: Atos 2:2.

- cristãos se reúnem regularmente em casas: Atos 2:46, 5:42, 8:3, 9:11, 12:12, 16:40, 18:7, 20:20, 21:8, Romanos 16:5, 1 Coríntios 16:19, Colossenses 4:15, 1 Timóteo 5:13 e 14, Filemon 2; 2 João 10.

O QUE FAZEM

Temos que levar muito a sério os princípios e valores fundamentais do Novo Testamento, como bases irremovíveis dadas por Deus, e somente então empreender o desenvolvimento de igrejas nos lares em nosso contexto cultural, linguístico e histórico, revestindo-as novamente de “carne”.

Há quatro elementos básicos das igrejas nos lares:


  1. Refeições conjuntas

Sob diversos aspectos a igreja no lar é primordialmente uma comunhão de mesa, o lugar em que se toma uma refeição em conjunto. O Novo Testamento descreve os primeiros cristãos da seguinte forma: “Tomavam as suas refeições (em conjunto) com alegria e singeleza de coração” (Atos 2:46), o que seguramente deve ter sido uma experiência diária. Comer era um dos objetivos principais do encontro. “Quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros”, diz Paulo (1 Coríntios 11:33). A comida não constitui o elemento central do Reino de Deus (Romanos 14:17), porém um elemento importante na sua expansão. Quando Jesus envioui seus discípulos de dois em dois (Lucas 10:1-8), instruiu-os para encontrar uma pessoa de paz, “comendo e bebendo do que eles tiverem”.

  1. Ensinamento dinâmico

O alvo do ensino no Novo Testamento não é a transmissão unilateral do conhecimento, mas consiste em ajudar pessoas a obedecer a Deus e poder colocar-se melhor à disposição dos seus propósitos (Romanos 1:5). Os presbíteros das igrejas nos lares detinham o papel paterno e agiam como professores paternais, em conjunto com mestres com dons carismáticos, que viviam no lugar ou chegavam como visitantes, ou de ministérios apostólicos que ensinavam de “casa em casa” (Atos 20:20). Embora a primeiera igreja experimentasse um crescimento muito intenso sem ter parte alguma do Novo Testamento escrito, é fato que “a palavra de Deus crescia” (Atos 6:7), “crescia e se multiplicava” (Atos 12:24), “se divulgava” (Atos 13:49) e “crescia e prevalecia poderosamente” (Atos 19:20).

  1. Partilha das bênçãos materiais e espirituais

Os cristãos sabiam que não pertenciam mais a si mesmos, porque Cristo os havia “comprado”, de maneira que agora eram propriedade sua. Quando se reuniam, partilhavam uns com os outros sua vida e aquilo que tinham para dar, tanto de natureza material quanto espiritual (Atos 4:32-35 e 1 Coríntios 14:26). Na prática é provável que muitas igrejas nos lares tenham mantido um fundo comum, no qual se recolhia tudo o que os membros ofertavam: dinheiro roupas, mantimentos, etc. Cada um tinha algo que podia repartir com outros e com o que podia ser prestativo. Essa prática levou a que todos aprendessem a valorizar e respeitar os outros.

Esse estilo de vida bíblico radical de partilha material ajuda a economizar uma grande quantia de dinheiro no dia-a-dia, cria um profundo vínculo de comunhão entre os cristãos do lugar e constitui por si próprio um testemunho vivo e claro de Cristo. Jesus não preservou nada em detrimento de outros, nem mesmo sua própria vida.



  1. Oração comunitária

“Perseveravam… nas orações” (Atos 2:42). A oração é a pulsação no relacionamento de um filho com seu Pai celestial. Por isso, sempre que cristãos se reúnem, intercederão uns pelos outros, pelo governo, pela paz, por seus inimigos. Abençoarão aqueles que os amaldiçoam, expelirão demónios e suplicarão por cura.

Na oração que Jesus nos ensinou, ele nos encoraja a orar assim: “E perdoe-nos os nossos pecados” (Lucas 11:4). Quando as pessoas confessam uma diante das outras seus pecados e se perdoam mutuamente, elas podem tirar as belas máscaras e finalmente ser autênticas, ganhando assim a aceitação e o amor de outros pecadores, que na verdade estão na mesma situação.

Porém, o próprio Jesus já havia alertado seus discípulos diante de seduções, de falsos profetas, de falsos Cristos, que têm todos o mesmo objetivo: aliciar os eleitos. Para Wolfgang Simson, o disseminador dessa sedução é um clericalismo institucionalizado, a caricatura da igreja como Deus verdadeiramente a concebeu.

Os primeiros cristãos – ainda por muitos anos após a conclusão do cânon bíblico – reuniam-se em casas, geralmente no recinto maior de que um dos membros dispunha. A maioria dos historiadores da igreja concorda com o fato de que o número de cristãos por igreja no lar dificilmente excedia a 15 ou 20, no máximo, membros. Quando uma igreja no lar começava a contar com um número maior que esse, ela se multiplicava, e surgia uma nova igreja no lar.

Cada cristão era um candidato potencial à morte. Isso estava incluído no preço de se tornar cristão. Quando alguém queria ter uma vida agradável ou obter sucesso na sociedade, a pior decisão imaginável era tornar-se cristão. A força para encarar a perseguição originava-se da visão de futuro, da expectativa viva pelo retorno do Messias. As pessoas sabiam que um cristão confesso estava disposto a morrer por sua fé.

Embora os eleitos de Deus, seu povo, seus profetas e os reis devotos de Israel quase sempre tenham sido ameaçados e perseguidos, os dias de perseguição da igreja do Novo Testamento não começaram por acaso. "E Saulo se comprazia na arte de Estêvão. Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria" (At 8.1).

Como podemos conferir em Atos 7, Estêvão havia proclamado sua mensagem diante das autoridades religiosas de seu tempo. Quase tudo o que afirmou era plenamente aceitável para eles, até que abordasse um tema bem específico. Aí ele atingiu uma ferida aberta e quebrou um tabu, porque está escrito: "Ouvindo eles isto, enfureciam-se no seu coração e rilhavam os dentes contra ele ... clamando em alta voz, taparam os ouvidos e, unânimes, arremeteram contra ele. E, lançando-o ora da cidade, o apedrejaram" [At 7.54,57,58].

O que exatamente eles ouviram, para que ficassem fora de si? Que tema terrível e explosivo Estêvão havia abordado? Ele dissera: "Não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas" (At 7.48). Estêvão havia colocado em xeque a substância central de seu sistema de fé: o templo, o "edifício sagrado".

No Antigo Testamento inicialmente o tabernáculo ocupa o centro dos aconteci­ mentos religiosos e mais tarde o templo. O Novo Testamento, porém, introduz uma dimensão completamente nova do culto a Deus, na qual o Espírito Santo se despede claramente dos tijolos. De agora em diante as próprias pessoas são o templo de Deus (lCo 3.16; 6.19). O que isso significa para o velho templo? Veio algo "maior que o templo" (Mt 12.6). O templo de tijolos é substituído pelo templo do corpo (João 12.19-21). Encerra-se o capítulo cheio de templos de pedra, altares de pedra e cultos centrados no templo, e começa um novo capítulo.

A adoração não mais acontece em Jerusalém ou Samaria, numa "casa do Senhor" especial, um "tabernáculo", em construções sacras ou em torno de símbolos ou altares sagrado mas sim "em espírito e em verdade" (João 4.23,24), porque Deus é Espírito e verdade. Passou definitivamente a época do templo e de sua importância para o povo de Deus. Mesmo no céu não haverá mais templo: "Na cidade, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor. Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro" (Ap 21.22).

Quando Jesus conversou com a mulher samaritana na fonte de Jacó, ela dirigiu o diálogo imediatamente para a adoração correta, que evidenteme se constituía num tema central para ela. "Nossos pais adoravam neste monte. Vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Quem tem razão?" "Ninguém", respondeu Jesus. "Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade" [Jo 4.20,23], não num lugar que seja mais santo que outros lugares. Toda a concepção de uma "casa sagrada de uma "casa de Deus", um templo como um local de alguma forma religioso e até sagrado, uma morada de Deus entre as pessoas, desapareceu completamente do Novo Testamento.

No Novo Testamento Deus nunca pediu a uma pessoa que construísse um prédio para fins religiosos. "O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso?", pergunta Deus (At 7.49). Quase podemos sentir o seu sorriso diante da idéia absurda de que o Criador do céu e da terra pudesse caber numa construção de 10 por 30 metros. Ao invés disso, Jesus nos edifica para sermos "casa espiritual", a igreja, e nos transforma numa parte de seu lar. Não somos nós que construímos uma casa para ele, mas é e Ele que constrói uma casa para nós, na Jerusalém celestial.

NÃO SE PODE QUEIMAR A IGREJA

A verdadeira igreja de Jesus Cristo não se deixa queimar. Ela não é feita de madeira, feno, palha nem de pedras, mas de pessoas redimidas, o povo de Deus. Os monumentos mais visíveis do cristianismo tradicional, p. ex., os prédios eclesiásticos, podem ser atacados, demolidos ou queimados. Contudo, a maioria das casas em que residem cristãos dificilmente sofrerão esse destino. Em quase todas as culturas a casa particular é instintivamente protegida. "É simplesmente atestado de má educação atacar uma moradia particular", afirma Met Castillo. Não estou querendo afirmar que nas moradias das pessoas a igreja estaria segura até imune a perseguições, mas antes que casas particulares não são somente o mais natural, mas também de longe o mais seguro para a igreja.

ESTRUTURA FLEXÍVEL

Durante muitos anos e em muitos países, as igrejas nos lares representaram a espinha dorsal espiritual dos movimentos cristãos - e em parte continuam sendo até o presente. As igrejas nos lares proporcionaram um lar espiritual a muitos cristãos, mesmo sob severas perseguições ou num clima de constante controle, como, p. ex., na Rússia, na China ou no Oriente Médio. Uma vez que igrejas nos lares podem ser inseridas de forma quase invisível na arquitetura de um país, elas tão em condições de se adaptar rapidamente a novas circunstâncias e reagir de forma flexível. Visto que a idéia central das igrejas nos lares consiste em que cristãos partilhem suas vidas uns com os outros e não promovam apelativos eventos religiosos nem cultos com alta intensidade de decibéis, as igrejas nos lares conseguem existir sem chamar atenção de toda a vizinhança ou da polícia secreta. Suas reuniões não estão necessariamente associadas a música ruidosa, bater palmas, danças, pregações e orações em alto volume.

Algumas igrejas nos lares seguem um sistema de rodízio, isto é, as pessoas raramente se encontram no mesmo lugar, mas sempre numa residência diferente um lugar que somente é do conhecimento dos respectivos membros. Ocasionalmente pode ser também um quarto de hotel ou um ônibus alugado para uma excursão. As pessoas podem encontrar-se sob uma árvore ou simplesmente nas diversas casas dos membros. Em alguns países, as pessoas já chegam cedo pela manhã, sempre sozinhas ou em duplas, a fim de não chamar atenção desnecessariamente. Quando, apesar disso, algum curioso faz perguntas demais, poderá descobrir que algumas pessoas simplesmente têm um número incrível de conhecidos e festejam com eles refeições ou aniversários, bodas, jubileus e outras reuniões de família.

É muito marcante que na história eclesiástica antiga praticamente não se fala de evangelização na forma como em geral a conhecemos. A igreja não apenas tinha uma mensagem, ela era uma mensagem. A evangelização sem um modelo convincente de igreja é uma evangelização por causa da falta de um modelo de igreja que esteja funcionando. Isso conduz a experiências não vinculadas à comunidade. Essa é a causa das “conversões” sem a subsequente integração na igreja. Somente quando a igreja se institucionalizou, ou seja, quando deixou de ser uma “boa notícia”, tornou-se “necessário” desenvolver empreendimentos evangelísticos especiais.

Embora as igrejas em Corinto sem dúvida estivessem abertas para os de fora, a partir da metade do primeiro século o acesso aos encontros cristãos era vedado à maioria dos gentios. Depois da perseguição sob Nero, nos anos 60 do primeiro século, a maioria das igrejas fechou suas portas para não-cristãos. Paulo já alertara os gálatas diante dos “falsos irmãos que se entremetem com o fim de espreitar a liberdade que temos em Cristo” (Gálatas 2:4).

A maioria dos historiadores eclesiásticos concorda em que o descaminho da igreja começou quando a própria doutrina apostólica sobre arrependimento, santidade e pecado, o batismo e a própria divindade foi questionada, ou lentamente modificada.

Uma das primeiras tentativas de realizar a diferenciação não bíblica entre “clero e laicato” veio da parte dos nicolaítas, um grupo que fazia a distinção entre os “leigos que eram ouvintes e os irmãos que prestavam serviço”. Provavelmente tem sua origem em Nicolau, um dos sete diáconos da primeira igreja (Atos 6:5). Segundo Watcchamn Nee, nicolaíta é alguém que conquista o povo simples, que se eleva acima dos leigos”.

Depois aconteceu a reintrodução de duas correntes vigorosas na concepção geral do cristianismo: “moralismo” e “religião”. O moralismo apontou para determinado padrão de comportamento, uma série de leis espirituais, de acordo com as quais as pessoas têm de viver. Já a religião levou o cristianismo a modelos de comportamento deste mundo, chegando a tudo que faz parte dele, como imagens de ídolos, amuletos, ritos e sacerdotes.

O desejo de exercer mais controle constitui a decorrência natural de uma perda de confiança ou simplesmente do medo. Ao invés de prestar mais trabalho de relacionamentos orgânicos, a igreja se concentrou no desenvolvimento de “rituais seguros”, fórmulas de fé corretas, liturgias sancionadas.

No ano 220, Orígines introduz em Alexandria a doutrina do batismo de crianças, que em 416 não apenas se tornou “dever do cristão” na igreja ocidental, porém a atividade “evangelística” principal.

Quando o imperador Constantino se converteu ao cristianismo no ano de 312, declarando em seguida, no édito de Milão, o cristianismo como religião estatal do Império Romano, os cristãos o festejaram como um redentor. Estavam cansados dos três séculos cheios de perseguições – e, extrasiados com os processos maravilhosos, tiveram de experimentar as piores consequências. Durante esse período a igreja foi intensamente profissionalizada: sacerdotes aprovados e autorizados realizados casamentos e outras cerimônias públicas, e a igreja experimentou a duvidosa bênção de ser equipada com a introdução de uma casa religiosa de mediação entre o povo e Deus: os sacerdotes.

Em seguida, os imperadores Teodósio e Graciano (por volta do ano 380) aboliram a liberdade de religião e ordenaram que deveria haver somente uma única igreja ortodoxa legitimada pelo Estado, bem como um único sistema doutrinário válido, o dogma ortodoxo. Cada cidadão romano foi forçada a tornar-se membro da igreja e a crer na lex fidei, a lei da fé. Outros grupos e movimentos foram proibidos – inclusive os que continuavam se reunindo em casas. Isso significou o fim legalizado das igrejas nos lares por ordem da igreja de catedrais.



Retorno a formas de cultos da sinagoga – Os cristãos herdaram suas formas de culto não tanto do templo, mas mais da sinagoga judaica, argumenta o teólogo filipino Met Castillo. O erudito judaico Rabinowitz evidencia cinco elementos próprios do culto na sinagoga:

- convite para adoração com hinos e um chamado formal à oração:

- orações e súplicas;

- leitura a escritura;

- pregação sobre a leitura da Escritura;

- encerramento com a bênção.

Depois de sair das igrejas nos lares e entrar nos prédios de igrejas, na era pós-Constantino, quando o culto cristão se concentrou cada vez mais em fórmulas litúrgicas rígidas, os líderes retomaram o modelo de culto da sinagoga judaica, com a diferença de que nas igrejas cristãs naturalmente se recitava a confissão de fé cristã.

O movimento de Prisciliano – Prisciliano era um nobre espanhol que já no século IV resistiu a essa religião sacerdotal ordenada pelo Estado. Fundou pequenas comunidades na Espanha e França, chamadas de “irmandades”, nas quais somente cristãos convertidos e batizados eram admitidos, e que se encontravam para reuniões singelas em casas. Ele foi assassinado, junto com 6 seguidores. Tornou-se precursor de muitos movimentos similares de reforma nos moldes de igrejas nos lares, como os bogomilos, petrobusianos, patarenos, valdenses, lolardos e outros.

Os celtas – Um dos fatos mais ignorados da história é que não foi a Igreja Romana que converteu a Europa ao cristianismo, mas os celtas, uma tribo originalmente bárbara e depois cristianizada, que parece ser parente dos gálatas da Ásia Menor e dos gálios da Franca. Esse grupo étnico detinha como território inicial a região superior do Danúbio até Portugal, colonizando depois a Inglaterra e a Irlanda.

Os celtas deram origem a poderosas personalidades apostólicas, como Patrício da Irlanda, que iniciou um dos movimentos mais estratégicos de fundação de congregações de todos os tempos, ou um homem apostólico como Galo, que levou o evangelho à Suiça, ou também Bonifácio, o apóstolo do Norte da Alemanha. Eles viviam em clãs e tribos, manifestando um cristianismo de compreensão integral, que tinha fortes laços com o dia-a-dia em suas cabanas e casas.

Entre os séculos VI e IX a devoção celta foi paulatinamente minada pelas doutrinas e valores papais, e não raro também pelo poder político. A igreja orgulhosamente instalou cemitérios na proximidade protegida dos prédios “sagrados” das igrejas, onde as pessoas imaginavam que os restos mortais de seus amados estariam seguros diante dos monstros e dragões da profundeza.

Cátaros, albigenses e valdenses (desde antes do século XII) – conhecido por esses e outros nomes, eram grupos que se reuniam em casas espalhadas pelo sul da França e norte da Espanha (cátaros e albigenses) e pelo norte da Itália (Piemonte) e vales alpinos (valdenses). Embora existam mais registros históricos dos valdenses, a partir do século XII, há várias evidências de que todos eles se consideravam uma continuação histórica dos cristãos dos primeiros séculos.

Irmãos Unidos, Lolardos e Amigos de Deus (século XIII) – Contemporâneos de John Wycliffe da Inglaterra e Jan Hus da Boêmia (hoje, República Tcheca), esses grupos já proliferavam sementes da Reforma no século XII, 200 anos antes de Lutero. Fugindo a perseguição, à semelhança dos valdenses, os Amigos de Deus muitas vezes nem casas tinham nos vilarejos; construíam pequenos agrupamentos de casas nas montanhas – como foi o caso de John Tauler de Oberland, que usou os próprios recursos para edificar refúgios nas montanhas.

Ao mesmo tempo, na famosa Universidade de Oxford, havia muita gente estudando as Escrituras em pequenos grupos e reunindo-se em casas como resultado da influência dos valdenses, de Wycliffe e seus seguidores, os lolardos, semeando ideias da Reforma entre a classe estudantil e professoral.

Enquanto isso, a igreja católica prosseguia dando passos para seu abismo espiritual. O concílio de Éfeso (431) exortou que se orasse a Maria, a mãe de Deus. Leão Magno se autoproclamou bispo de Roma (440). Em torno do ano 500 os sacerdotes começaram a introduzir ordens especiais referentes às vestes. Na época de Justiniano (527-565) a igreja tornou-se realmente a igreja ordenada pelo Estado – todos os sacerdotes tornaram-se servidores públicos. Já no ano 607, depois da ruína do Império Romano, Bonifácio III foi o primeiro bispo que reivindicou para si o nome de “papa” da Igreja Católica Romana. Antes disso, o título de papa (do latim pontifex maximux – grande edificador de pontes) era prerrogativa do imperador de Roma, descrevendo seu papel de sumo sacerdote e suprema divindade no Estado romano.

Outros passos para esse abismo espiritual foram:

709 Introdução do beijo dos pés do papa

786 Adoração de imagens e relíquias

850 O primeiro uso de “água benta”

995 A canonização dos santos falecidos

1079 Instituição do celibato de sacerdotes

1090 Adoção de rosários de oração de religiões gentílicas

1184 Introdução da Inquisição, o controle policial da fé. Milhares de judeus, bruxas (e, mais tarde, depois da Reforma, protestantes) viram a morte pelas mãos da igreja de Roma. A Inquisição foi reconhecida oficialmente pelo papa Inocêncio IV no ano de 1252. Mais tarde as igrejas da Reforma aderiram majoritariamente à mesma mentalidade.

1190 Começa a venda das indulgências – Livramento das punições pelos pecados mediante pagamento de uma soma de dinheiro

1215 Ensino da transubstanciação da hóstia e do vinho: pela invocação do sacerdote esses “elementos” seriam transformados de modo sobrenatural em corpo e sangue de Cristo

1229 A Bíblia foi declarada como santa demais para as pessoas simples. O leigo foi proibido de ler a Bíblia.

1414 Proibiu-se o cálice da Santa Ceia aos leigos

1439 Introduz-se a doutrina do perugatório

1439 Confirma-se o dogma dos sacramentos

1545 A tradição é elevada a fonte de revelação ao lado da Bíblia (concílio de Trento)



A Inquisição – Milhões de protestantes perderam a vida pelas mãos de católicos e, mais tarde, não ficaram muito atrás da igreja católica quando mandaram perseguir os chamados “anabatistas” e “ entusiastas”. Depois da vitória sobre o império islâmico no ano 1492 em Granada, na Espanha, os algozes da Inquisição descobriram um novo alvo para seu êxtase de poder: os mouriscos, antes mouros islâmicos, que haviam aderido ao cristianismo. Os judeus acabaram no fogo cruzado de todas as frentes ao mesmo tempo.

A Inquisição foi singularmente cruel na Espanha, onde ainda em 1826 – 18 anos após José Bonaparte, um irmão de Bonaparte, ter declarado a Inquisição como ilegal – o último herege foi enforcado em Valência.



A Reforma – Mais de 1.100 anos depois que as primeiras ondas vigorosas das igrejas nos lares haviam se quebrado nas praias do sistema eclesiásticos instituído, o monge Martinho Lutero teve o privilégio de ser o primeiro a redescobrir a pulsação do evangelho: “justificação mediante a fé”, “redenção por graça”, “somente a “Escritura Sagrada”.

Reformadores como Zwínglio, Lelanchton, Calvino, John Knox e outros começaram a favorecer o uso da Bíblia pelo cidadão comum. No começo, a Bíblia foi traduzida do latim – o idioma técnico do clero profissional – para 14 línguas conhecidas. No ano de 1600 já existiam traduções da Bíblia em 40 línguas.

Estava lançado o alicerce para que a igreja pudesse lentamente desvencilhar-se de seu próprio cativeiro estrutural e redescobrir dinâmicas bíblicas – inclusive a das igrejas nos lares como forma orgânica de igreja.

No Prefácio à missa alemã, de 1526, Lutero chegou a propor uma “terceira forma de missa”: ”A terceira forma de missa deveria ser uma verdadeira ordem evangélica e não deveria ser realizada publicamente para todos os tipos de pessoas. Aqueles que desejam ser seriamente cristãos e confessam o evangelho com a ação e os lábios, deveriam inscrever-se nominalmente e reunir-se isoladamente, por exemplo, numa casa, a fim de orar, ler a Bíblia, batizar, receber os sacramentos e realizar outras obras cristãs”.

Depois de 1526 Lutero mudou sua opinião, retornando a formas de culto quase católicas – em parte por pressão dos príncipes civis, que do contrário lhe teriam negado a proteção política. Aconteceu com Lutero algo similar do que com Calvino: reformaram o conteúdo, mas não a forma do cristianismo.

O movimento apostólico em torno de Schwenckfeld - Lutero tinha um adepto e professor influente, Caspar Schwenckfeld (1480-1561). No primeiro momento Lutero acolheu Schwenckfeld, um não-teólogo e pregador dotado, "como um mensageiro de Deus", sendo fortemente influenciado por ele. No ano de 1527 Schwenckfeld passou por uma experiência dramática de novo nascimento. Depois disso ele próprio começou a estudar a Bíblia, e não durou muito tempo para que tentasse dissuadir Lutero novamente do curso que iniciara em 1530. Schwenckfeld viu que Lutero se comportava de forma demasiado católica em sua compreensão de igreja e também não podia aceitar a doutrina de Lutero de que por meio do "sacramento do batismo" uma pessoa pudesse ser nascida de novo. O professor de Bíblia francês Alfred Kuen escreve: "Lutero começou a perseguir com extremo ódio seu antigo amigo Schwenckfeld, chamou-o de tolo e herege demoníaco, e negou-se inteiramente a responder às cartas de Schwenckfeld. Devolvia-as sem abri-las." "Schwenckfeld, o reformador da Silésia, teve de viajar pela Europa como um animal caçado", diz Kuen.

Nas viagens o reformador exilado fundou comunidades vivas em muitos lugares, que eram essencialmente grupos familiares, bíblicos e de oração. A fim de evitar maiores conflitos com a igreja estabeleci da, Schwenckfeld abriu mão de introduzir a santa ceia e o batismo nos grupos fundados por ele. Quando faleceu em Ulm, no ano de 1561, pastores luteranos tentaram à força trazer seus muitos seguidores de volta às igrejas luteranas. Caso resistissem, eram lançados na prisão, e tinham de presenciar como lhes eram tirados os filhos.



Os “anabatistas” - Quando Zwínglio começou a realizar a Reforma em Zurique, um grupo de antigos amigos criou coragem para fundar uma comunhão cristã em Zollikon perto de Zurique, porém sem permissão oficial. O grupo era formado por Felix Mantz, um erudito em hebraico, Conrad Grebel, um membro do conselho da cidade, vindo de uma família distinta de Zurique, e Georg Blaurock, um ex-monge e excelente evangelista. Como muitos outros, Grebel havia começado a descobrir pessoalmente a Bíblia, para o que Zwínglio o havia encorajado expressamente.

No ano de 1524 os Grebel tiveram um filho. Grebel se negou a batizar seu filho bebê, porque dizia que depreendia da Bíblia que primeiro vem a fé e somente - o batismo. Nessa época muitos cristãos começaram a ler a Bíblia em conjunto, a orar e a celebrar a santa ceia. Zwínglio reuniu o conselho da cidade no ano de 1525, fazendo com que se decretasse uma lei que determinava que cada deveria trazer ao batismo todas as crianças não batizadas no prazo de oito dias, do contrário os pais seriam excomungados. O rito batismal em uso naquele havia sido adotado do sistema católico, inclusive com todas as invocações, sinais da cruz e unção com óleo e saliva.

Contudo Grebel não se abalou e batizou a Blaurock, que por sua vez batizou a 15 outras pessoas. Assim nasceu o movimento anabatista. Em tom depreciativo os reformadores chamaram esse movimento de "os anabatistas", declarando que o batismo de adultos praticado por esse grupo minimizaria a graça de Deus, que ele concede no sacramento do batismo de infantes. Por isso ele seria uma blasfêmia. Zwínglio concordou em condenar os líderes do movimento. Grebel morreu na prisão. Blaurock foi açoitado, exilado e queimado sobre a fogueira no TiroI. Mantz foi afogado. Porém o movimento batista expandiu-se como um incêndio. Muitos temiam que a maioria da população aderiria a essa seita, escreve um historiador do século XVI.

Heinrich Bullinger, sucessor de Zwínglio em Zurique, presenciou como milhares aderiram a esses movimentos, apesar de que isso significasse que desse momento diante seriam perseguidos. Muitas pessoas tiveram de dar a vida por suas convicções bíblicas. Nos Países Baixos e na Frísia cerca de 30.000 anabatistas foram mortos apenas entre os anos 1535 e 1546. O teólogo Emil Brunner opina: “Os reformadores os chamaram de seita, herdando com essa escolha um termo da igreja católica, que declarava como seita todas as formas de comunhão cristã fora igreja".



Os conventículos de Labadie – Em 1640 Jean de Labadie, um ex-jesuíta, tomou-se pastor na região francesa de Amiens. Seu único objetivo era: a comunhão dos fiéis em pequenas "irmandades". Contudo, em breve foi-lhe dito que suas atividades "ameaçavam a paz do Estado", de modo que teve de fugir para Genebra. Com essa fuga tinha o intuito de "despertar novamente a igreja dormente de Calvino", escreve Kuen. Por isso pastores céticos de Genebra rapidamente articularam uma manobra para que Labadie fosse deslocado para os Países Baixos. A ênfase de Labadie incidia em transferir a vida cristã de prédios eclesiásticos para casas particulares.

Escreveu um primeiro livro sobre a fundação de "conventículos", pequenas comunidades de crentes convertidos. Na obra ele fornecia instruções práticas do que deveriam fazer nas casas: uma palavra de introdução, oração, hinos, leitura da Bíblia, profecia livre conforme ICo 14.26-31 ou o comentário conjunto sobre um texto bíblico. Seu trabalho causou grande impacto. Um de seus muitos estudantes foi Philipp Jakob Spener. Contudo, devido à sua determinação inflexível de "reunir cristãos em pequenas comunhões", também os pastores reformados dos Países Baixos lhe ofereciam enorme resistência. Finalmente Labadie foi excomungado e veio a falecer em Altona.



Os huguenotes e a “igreja no deserto” - Quando Claude Brousson, famoso líder dos huguenotes, foi publicamente assassinado na Paris do sanguinário Luís XIV no ano de 1698, diante de uma multidão de 10.000 pessoas, ele ainda entoou por último o Salmo 34. De certo modo esse hino, o salmo, bem como o testemunho de vida de Brousson e as circunstâncias de sua morte alcançaram também as praias da Inglaterra, sendo acolhido por Daniel Defoe e outros que faziam parte dos dissenters, os que "tinham opinião diferente" da igreja estatal estabelecida.

Em vários aspectos os dissenters representaram uma edição inglesa dos huguenotes, um movimento protestante da França, que havia sido pressionado para a clandestinidade pela mais extrema e sangrenta perseguição da igreja católica. Na Inglaterra organizaram-se em igrejas nos lares e na "igreja no deserto", como se chamavam, recordando os israelitas libertados do poder opressor egípcio (At 7.38). Aos encontros nas casas agregaram-se grandes reuniões em clareiras em florestas e outros locais adequados, onde tentaram mais uma vez cultivar cell e celebration, igreja no lar e a grande assembléia.

Finalmente Defoe foi encarcerado, onde escreveu a famosa história de Robinson Crusoé. Ken Me Vety, missionário emérito no Japão, diz: "O livre velejar e deslizar de Crusoé pelos mares é uma descrição da liberdade da pessoa em Cristo. O naufrágio simboliza o cativeiro, e a ilha é uma ilustração da cela de Defoe na prisão." Ele também observa que a grande popularidade da história de Robinson Crusoé, p. ex., na Ásia foi reconhecido por bem poucos como ponto de contato para o trabalho missionário de fundação de igrejas.

Spener e a igreja que não tinha coragem de ser igreja - Philip Jakob Spener (1635-1705), pai do Pietismo alemão, reconheceu que a igreja existente carecia de complementação e que era necessário introduzir pequenos grupos para encorajar e exortar cada indivíduo. No ano de 1670 ele iniciou esse encontros sob o nome de "reunião piedosa" (collegia pietatis). Os cristãos se reuniam duas vezes por semana numa casa, discutiam às vezes a pregação do domingo da igreja luterana a que pertenciam, mas depois evoluíram rapidamente para grupos de leitura bíblica.

Isso desencadeou a oposição das igrejas luteranas. Por pressão delas o conselho da cidade natal de Spener, Frankfurt, proibiu tais reuniões nos lares. Bill Beckham comenta: "Spener é vítima de uma autocompreensão deficiente desses pequenos grupos. Embora ele evidentemente tivesse a opinião de que esses pequenos grupos de comunhão eram a verdadeira igreja, não queria assustar e irritar as igrejas constituídas. Transformou os pequenos grupos num apêndice da igreja oficial, bloqueando dessa forma o futuro para o seu próprio movimento." Os grupos de comunhão de Spener eram "não-igrejas com formato de comunhão", reuniões semi­eclesiais, que não visavam seriamente ser um substituto pleno das igrejas existentes. Por essa razão, Spener também proibiu "a distribuição dos sacramentos" nas reuniões domiciliares. No fim da vida Spener havia se tornado um tanto cínico e cauteloso. Quando finalmente saiu de Frankfurt, não começou mais novos grupos.



As classes de John Wesley (ou sociedades metodistas) – Muitos estudos sobre os inícios do movimento metodista concordam que uma das principais chaves do despertamento metodista foi a coesão dos cristãos recém­convertidos em pequenos grupos - Wesley denominou esses grupos de "classes". Howard A. Snyder escreve no livro The Radical Wesley [O Wesley Radical]: "As classes na realidade não foram outra coisa senão igrejas nos lares. Nos encontros no meio da semana, com duração de cerca de uma hora, cada pessoa relatava sobre progressos espirituais que fazia, expressava aflições ou problemas pessoais, e a maioria das conversões acontecia nessas reuniões domiciliares."

O metodismo estava interligado pela rede de sociedades (classes vinculadas entre si). Em 1768, 30 anos depois do início do movimento, já havia 40 desses distritos no metodismo, com 27.341 membros. No começo do século XIX, de cada ingleses um já era metodista. Snyder escreve: "Aproximadamente um em cinco cristãos metodistas foi formado por Wesley para ser um responsável e um dirigente, que geralmente eram oriundos do segmento dos cidadãos pobres e sem estudo, trabalhadores sem muita escolaridade, porém com dons espirituais e empenho para servir a outros. Dessa forma ele encaminhou milhares de pessoas ao ministério espiritual." Ele demonstrou que era viável aquilo de que Lutero tão somente conseguiu sonhar e o que não ousou ensaiar: a saber, que pessoas comuns - capacitadas por Deus para tarefas extraordinárias e que têm condições de desencadear um movimento imenso no contexto de uma igreja no lar.

No entanto, o metodismo lentamente começou a tornar a Igreja Anglicana como referencial e a dar um valor cada vez maior a cultos nas manhãs de domingo, retornando assim ao sistema de pastores.

O movimento housechurch na Inglaterra - Durante os anos 70 do século XX deu-se na Inglaterra o restoration movement (movimento de restauração) ou, como a iniciativa também foi denominada, o movimento Housechurch (algo como "igreja nos lares"). Uma das palavras de ordem desse movimento foi que os cultos tradicionais precisavam urgentemente de uma revisão e deviam ser restaurados de acordo com princípios do Novo Testamento. No entanto, o impulso central desse movimento partia menos de uma nova compreensão da igreja nas categorias bíblicas das igrejas nos lares, mas antes de uma redescoberta dos dons espirituais e das conseqüências que advinham da prática dos carismas em igrejas tradicionais.

Muitas igrejas simplesmente não estavam dispostas a abrir espaço em sua estrutura para que os dons espirituais fossem praticados. Foi essa a razão por que muitos cristãos abandonaram as igrejas tradicionais, bem à semelhança de John Wesley no passado, a quem havia sido vedado pregar em púlpitos anglicanos e que por isso chocou ao simplesmente começar a pregar ao ar livre. Naquele tempo os cristãos simplesmente visavam criar uma "zona livre de bispos", na qual podiam praticar a nova fé que haviam encontrado, inclusive os dons espirituais, sem mexer nas estruturas eclesiásticas tradicionais. O primeiro lugar que se lhes oferecia eram obviamente as casas particulares. Embora essas novas igrejas e grupos muitas vezes realizassem seus encontros nas casas - do que obtiveram o nome movimento Housechurch, "o nome de igrejas nos lares não era realmente apropriado", disse Arthur Wallis, um inglês conhecedor do movimento, “porque de forma alguma a casa como local de reunião era considerada como algo especialmente importante. Sempre que as novas comunidades cresciam, rapidamente procuravam por um lugar de reunião mais espaçoso, salas de aula, centros unitários, auditórios públicos, às vezes até adquirindo prédios ociosos de igrejas."

As casas como local de encontro de uma forma orgânica de igreja tinham uma importância relativamente pequena. Parece que grande parte desse movimento retornou com bastante rapidez exatamente às mesmas estruturas eclesiásticas e de culto de que havia saído recentemente - com algumas poucas diferenças: mais valor a um pastor do tipo pioneiro dinâmico, uma pessoa capaz de romper barreiras, bem como a tempos longos de adoração (via de regra em forma musical), dons espirituais e evangelização. Em outras palavras: renovaram alguns aspectos qualitativos da igreja sem mudar significativamente as estruturas, e derramaram novo vinho numa forma moderna de odres velhos. Mesmo o fato de formaram muitas novas congregações não alterou muito o aspecto geral da igreja, porque em última análise ainda continuavam sendo as mesmas velhas estruturas, que foram plantadas mais uma vez .

Uma das características precoces - e doenças infantis - desse movimento foi o atendimento pastoral superintenso, conhecido pelo nome heavy shepherding ( pastoreio intenso). Às vezes havia simplesmente a necessidade de um Moisés moderno, para soltar um grupo de cristãos das amarras estruturais das igrejas tradicionais, um passo que nem sempre era viável sem luta. A dependência dos membros de uma figura de fundador ou pastor carismaticamente destacada tem - uma vez sua origem no fato de que nos anos de fundação normalmente se r muito dinamismo de indivíduos, os quais depois não se desvencilham mais – de seu papel como "pessoa-chave". Essa circunstância desencadeou um medo desnecessário naqueles que se encontravam fora dos novos movimentos eclesiais. No próprio movimento ela redundou às vezes na acusação de sectarismo.

Hoje, porém, o fenômeno praticamente desapareceu. Depois de uma espetacular fase de crescimento muitas das housechurches originais não são mais verdadeiras igrejas nos lares, e até é bem possível que jamais o foram realmente. Muitas dessas igrejas evoluíram entrementes para tradicionais igrejas livres segundo o sistema de um pastor só, com ênfase maior em famílias jovens. Às vezes produziram igrejas de jovens ou se coligaram com outras igrejas numa rede ou numa denominação. Cerca de um terço de todas as congregações evangelicais da Inglaterra são hoje integrantes das new churches, as novas igrejas.

Nos tempos mais recentes os exemplos da Rússia ou China evidenciam que as igrejas nos lares não apenas sobrevivem mas até podem florescer em sistemas políticos repressivos. Às vezes essa pequena chama encontrou combustível e incendiou todo um movimento eclesiástico. Muitas vezes, porém, o fogo se manteve apenas por breve tempo, até que a estrutura pequena em formação fosse absorvida pelos sistemas das grandes igrejas e o espírito original de avivamento corresse o perigo de sufocar novamente no peito maternal superpoderoso da igreja institucional. Defino esse ritmo como o "modelo dos gálatas": "Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?" (Gl 3.3).

Quando Mao Tse Tung expulsou todos os missionários ocidentais da China em 1949, os cristãos da verdade foram perseguidos, mas seu número começou a crescer como nunca antes. Segundo as estimativas de alguns conhecedores da China, é provável que atualmente até 10% da população chinesa seja formada por cristãos evangelicais, cuja maioria está organizada em igrejas nos lares secretas. Assim, os cristãos da China, um grupo com até 120 milhões de pessoas, formam o maior bloco evangelical do globo. Constatações análogas vêm da Etiópia, da Rússia, do Vietnã, do Sudão e de Cuba. Contudo, os olhares de muitos cristãos dirigem-se para onde respousam igualmente os olhares do mundo: os índices Dow Jones e os centros de poder e finanças do mundo. Muitos tentam aprender como se governa o mundo com os poderosos. Há apenas poucos que estão dispostos a compreender que são "os mansos" que "herdarão a terra" (Mt 5.5).

Independentemente da espiritualidade e do ímpeto com que um novo movimento ou uma igreja começou, mais cedo ou mais tarde ele se torna invariavelmente lento no campo estrutural, muitas vezes pelo simples fato de que não se cansou - relatar as conquistas próprias e os louros espirituais dos tempos de fundação. No fim os cristãos recaíam no trilho antigo, a velha e boa igreja de pastores, o modelo da congregação. P. ex., essa também é uma das evoluções trágicas das igrejas na Índia, como demonstra Donald McGavran em sua obra The Founders of Indian Church [Os Fundadores da Igreja Indiana]. Algo análogo pode ser observado em muitos países: quase todas as igrejas autóctones começam em casas – e acabam em catedrais.



Uma reforma apostólico-profética – De acordo com o texto bíblico de Efésios 2.20 os ministérios apostólico e profético não apenas são decisivos para lançar os fundamentos da igreja, mas os apóstolos e profetas são praticamente o material de construção do fundamento. É correto que a Bíblia nos estimula a "examinar os apóstolos" e "pesar as afirmações proféticas", pois cultuar pessoas e idolatrar personalidades de liderança carismática - atitudes estranhas ao Novo Testamento. Apesar disso parece ser claro que o ministério apostólico é mais "fundamental" com vistas à fundação de novas igrejas que o ministério profético. A este convém que se submeta ao dom apostólico e e quadre nas igrejas locais.

Parto do enfoque de que esse texto (que não descreve quaisquer relacionamentos cronológicos) expressa as funções básicas do ministério apostólico e profético para fundar igrejas cristãs no passado, presente e futuro. A teologia das dispensações, um elemento básico do pensamento evangelical conservador em muitos países, dividiu a história da salvação meticulosamente em etapas, desviando-se em alguns casos a ponto de afirmar que hoje os ministérios apostólicos e proféticos não mais seriam necessários porque agora temos a Bíblia. Uma atitude dessas, porém, muitas vezes leva a um perigoso beco sem saída, porque nessa posição se espera toda e qualquer ação salvadora de Deus na História unicamente a partir da Bíblia. Dessa forma a palavra de Deus é transformada num objeto de estudo, que precisa ser investigado cientificamente ou dissecado e tido intelectualmente em círculos bíblicos - ao invés de ser obedecida!

Christian A. Schwarz, pesquisador alemão sobre o desenvolvimento da igreja, chamou atenção para o fato de que hoje nos encontramos na fase de uma terceira Reforma. A primeira aconteceu no século XVI, quando Martinho Lutero redescobriu o cerne do evangelho: salvação mediante a fé, somente por graça, unicamente a Bíblia. Foi uma reforma da teologia.

A segunda Reforma sucedeu no fim do século XVII e início do século XVIII, quando movimentos influenciados pelo Pietismo redescobriram a possibilidade de um relacionamento pessoal, de uma intimidade espiritual com Cristo. Isto levou a uma reforma da espiritualidade.

No entanto, também naquele tempo continuou-se intensivamente – nas palavras da conhecida parábola de Jesus – a colocar vinho novo em odres velhos e remendos novos em roupas velhas. O sistema eclesiástico e cultual da Igreja Católica Romana havia permanecido muito fiel ao templo do Antigo Testamento e mais tarde às formas de culto judaicas centradas na sinagoga, conservando até mesmo a sequência incluindo incenso, sacerdote, repartições especiais para laicato e clero, bem como um altar.

A reforma de Lutero referiu-se ao conteúdo do evangelho, mas não modificou a estrutura básica dos “cultos a Deus”. Os “cultos a Deus” continuam a ser essencialmente exibições para visitantes, eventos formais e litúrgicos tipicamente religiosos, nos quais muitos espectadores e consumidores predominantemente passivos formam os figurantes de um cenário necessário para o programa de alguns especialistas muito ativos. Contudo, é precisamente isso que parece que está mudando nos dias de hoje.

A terceira e última parte da Reforma é, por isso, uma reforma de estrutura. Não se trata de fazer algumas alterações cosméticas e pinturas naquilo que existe, mas de um novo mas antigo enfoque global de igreja, cujo cerne vem do Novo e não do Antigo Testamento.

Numa pesquisa realizada em 1994 na Escócia com o título Empecilhos para a Fé, John Campbell, assessor de evangelismo da Igreja da Escócia, diz: Muitas pessoas assinalaram que uma das maiores barreiras para crer em Deus é a própria igreja”.

A igreja – e com isso igualmente a opinião pública – acostumou-se com uma imagem desfigurada e distorcida do cristianismo, uma imagem que tem muito pouco em comum com o original bíblico. Segundo o missionário e autor norte-americano Bill Beckham, em seu livro A Segunda Reforma, desde os tempos de Constantino, no século IV, a igreja funcionou principalmente como catedral. Nesse modelo de igreja podemos identificar pelo menos cinco elementos importantes e determinantes:


  1. Um prédio (uma catedral ou igreja)

  2. Um dia especial (domingo)

  3. Uma direção profissional (sacerdote, clero, homem santo)

  4. Um culto especial que é oferecido aos visitantes (cerimônias, missas, interpretação do dogma, motivação)

  5. Um sistema de auto-sustentação financeira (o ´dízimo´, ofertas)

“Independentemente dos diversos sistemas de direção, dos estilos arquitetônicos, dos diferentes títulos e das prescrições de vestimentas para o clero, das distintas formas de culto e das diferentes teologias, a maioria das igrejas da história funcionou de acordo com esse modelo de catedral. Independentemente de tratar-se de igrejas católicas, batistas, metodistas, presbiterianas, comunidades rurais ou urbanas, igrejas pequenas ou grandes, ricas ou pobres, igrejas no Ocidente ou igrejas no Oriente: quase todas as igrejas eram unânimes num ponto – funcionavam como uma catedral.

A revista Época, na edição de 09/08/2010, traz uma reportagem sobre críticas ao modelo teológico vigente no Brasil, cujo resumo segue abaixo:

Inspirado no cristianismo primitivo e conectado à internet, um grupo crescente de religiosos critica a corrupção neopentecostal e tenta recriar o protestantismo à brasileira. Segundo a revista, estaríamos vivendo um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com Deus muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.



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