A ilusão dos inocentes wladimir Pomar tt scritta sumário



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II

No melhor dos mundos

O desmoronamento dos regimes socialistas do leste europeu parece haver exercido um efeito mágico sobre o ânimo das pessoas em muitas regiões do mundo. Num passe ilusionista, fez renascer o terno e crédulo Pangloss, personagem que Voltaire tornou famoso em seu romance Cândido. Para Pangloss, tudo estava sempre bem no melhor dos mundos. No rastro do estrondoso fim do socialismo e da festejada morte do marxismo, multiplicaram-se Panglosses e panglossianos por toda parte, de todos os matizes. Panglosses e panglossianos capitalistas, liberais, neoliberais e nem tanto. Panglosses e panglossianos socialistas, social democratas, democratas e neodemocratas. Panglosses e panglossianos do meio-termo, amarelos por dentro e rosa por fora, ou vice-versa. Todos, quase sem exceção, prevendo uma nova era, uma nova modernidade, um tempo em que afinal as coisas iriam ajustar-se e tudo passaria a fluir harmoniosamente.

Nunca mais seremos escravos! O brado de Sandor Petofi, poeta e revolucionário húngaro de 1848, ressoou na Budapeste de 1989, durante os funerais de Imre Nagy, de uma forma ao mesmo tempo irônica e sarcástica. Nagy fora um líder comunista, assassinado pelo regime socialista, após a invasão de 1956. E, em 1990, Vaclav Havei, também poeta e escritor, transformado em presidente da Tchecoslováquia na crista das manifestações populares que derrubaram o regime, proclamou com ingênua sinceridade: Povo, teu governo voltou a ti!

Francis Fukuyama, um até então obscuro funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, talvez tenha se tornado o mais famoso e o mais radical da primeira leva de panglossianos capitalistas. Ele não deixou por menos: a vitória do capitalismo sobre o socialismo teria sido a vitória sem ressalvas do liberalismo econômico e político, o triunfo do Ocidente, da idéia ocidental, assinalando o fim da história como tal. Ainda segundo ele, não restando mais conflitos fundamentais dentro da sociedade, tornar-se-iam claros os contornos do "estado homogêneo universal", uma feliz combinação de democracia liberal na esfera política com fácil acesso a videocassetes e estéreos na economia. A democracia liberal seria a forma de organização social que apresenta reais perspectivas de convivência democrática, progresso econômico, ampliação do bem-estar e paz internacional.

Essas teses tiveram grande repercussão em todo o mundo. A mídia capitalista empenhou-se em difundi-las largamente, sob os mais diferentes pretextos. Fukuyama transformou-se num conferencista solicitado pelas mais seletas audiências do mundo rico de cada país. Mesmo assim, suas teses foram consideradas medíocres até por outros panglossianos. Elas poderiam não ser levadas a sério, colocando em risco a exploração positiva da vitória capitalista. Afinal, como explicitou Ralph Dahrendorf, era preciso enunciar inequivocamente que o socialismo morrera e que nenhuma de suas variantes poderia ressuscitar. E isso deveria ser feito com argumentos convincentes.

Timothy Ash, que chegou a participar ativamente dos acontecimentos no leste europeu, afirmou categoricamente que o movimento operário internacional não mais existia. Para ele, entre todas as idéias bem experimentadas, cujo tempo chegara com os levantes populares daquela parte do mundo, a mais importante seria a descoberta fundamental da modernidade, a sociedade aberta, um tipo de sociedade defendida pelos liberais radicais e que, teoricamente, nada teria a ver com o capitalismo.

A euforia capitalista era de tal ordem, e a pressão dos Panglosses da vida tão consistente, que um socialista como Eric Hobsbawn teve de reconhecer que o medo capitalista da instabilidade de seu sistema e por uma alternativa soviética fora reduzido consideravelmente. A diminuição da classe operária industrial, o declínio de seus movimentos e a redescoberta da autoconfiança modificaram o ânimo do capitalismo. Nessas condições, Jeffrey Sachs não se incomoda em reconhecer, ao contrário de Fukuyama, que o colapso do comunismo talvez não tenha acabado com a história. O importante seria propalar que tal colapso certamente tornou possível uma era de paz e prosperidade.

Paz, prosperidade, democracia, sociedade aberta, capitalismo virtuoso, pensamento positivo, alegria, muita alegria, no melhor dos mundos, onde tudo vai bem, esse deveria ser o marketing panglossiano da vitoriosa façanha do cavaleiro capitalista sobre o dragão comunista (ou socialista, para a propaganda tanto faz). Como diria Liberatore, o panglossiano criado por Jacob Gorender para exprimir o conjunto das idéias liberais, o capitalismo moderno dispensa guerras e conquistas coloniais: o imperialismo seria um tipo de expansionismo arcaico, estranho à natureza do capital. Este, segundo Schumpeter, teria introduzido a racionalidade em todas as esferas da vida social e precisaria de ambiente de paz para o florescimento de seus negócios. Depois de tudo isso, estamos quase convencidos de que as desgraças que a história nos apresenta foram causadas pela ausência ou pelo desenvolvimento insuficiente do capital. Ainda bem que Pangloss nos garante que agora é a vitória definitiva e eterna do sistema de produção-para-lucro.

Dahrendorf assegura, no entanto, a continuidade dos conflitos sociais. Estes só podem ser administrados e dirimidos dentro das regras de jogo aceitas por trabalhadores, empresários e governo, conduzindo a soluções adequadas às sociedades abertas e não às sociedades capitalistas. As lágrimas de 1989, derramadas na Europa central e oriental, em sua maioria teriam sido lágrimas de alegria, mas não para cair sob o sistema capitalista.

Mas, baseado em sua própria vivência dos acontecimentos dessa parte do mundo, Ash garante que a aspiração de suas populações era a constituição de uma autêntica economia capita­lista de mercado. Para ele parecia certo, no início de 90, que haveria uma nova Europa, um lugar diferente para os países outrora descritos como europeus orientais e, pelo menos, para uma Alemanha menos dividida. A Comunidade Européia, com sua autoconfiança recuperada, havia reiterado seu objetivo de constituir um único mercado até fins de 1992. Seriam corporificadas assim as quatro liberdades do movimento de bens, serviços, capital e pessoas.

Nada mais certo, então, como Fizeram todos os panglossianos, do que propalar aos quatro cantos as necessidades recuperadoras do Leste europeu e dos mercados novos, com centenas de milhões de pessoas. Lester Thurow garantiu que a Europa central e oriental estava tentando fazer uma coisa que o mundo capitalista nunca fizera — começar o jogo de mercado honestamente.

Premido por essa nova aura, o presidente Bush teria mesmo de prometer uma América mais bondosa, mais suave, como fez para que todos ouvissem. Estavam dadas, desse modo, todas as condições para o capitalismo experimentar uma nova era de expansão global, a ser acompanhada de uma crescente ampliação do mercado de trabalho e do poder social dos trabalhadores. Dahreridorf curva-se a essa perspectiva, anunciando que deveria sobrar um único mundo com pretensões sérias ao desenvolvimento e à hegemonia. O primeiro e o segundo mundos deveriam reunir-se em algo que ainda não teria nem nome nem número, mas seria simplesmente o Mundo. Na mesma linha de raciocínio, John Naisbitt previa que o mundo, em poucos anos, se transformaria numa economia global próspera. Um mundo em que, de acordo com Ash, a cidadania e a sociedade civil seriam os faróis da nova marcha para a liberdade.

O grito por uma autêntica economia de mercado teria mobilizado a esperança das massas dos antigos países socialistas quan­to a uma elevação rápida do nível de vida, plenamente possível com a colaboração e os investimentos do primeiro mundo. Enquanto Liberatore supõe que o progresso dos países desenvolvidos se transmitiria aos países atrasados, Thurow confiava que o sistema americano seria adotado em toda parte e duraria eternamente. E, em caso de dúvida, Fukuyama aconselhava que se tomassem os Tigres Asiáticos como exemplo de que é possível alcançar a igualdade sob o capitalismo.

Isso correspondia plenamente às aspirações dos povos dos antigos países socialistas. Ash confirma que eles queriam ser cidadãos, mas também ser de classe média, no mesmo sentido que a maioria dos cidadãos da metade mais afortunada da Europa era de classe média. Gluksmann assegura que a esquerda russa, esquerda significando aqui o setor avançado da sociedade, quer o capitalismo com direitos humanos, já que fora da privatização dos circuitos comerciais não existe salvação. E Ash reitera que em toda a Europa do leste brotava o mesmo modelo fundamental, ocidental e europeu: democracia parlamentar, domínio da lei, economia de mercado. Não existiria uma terceira via. Nem mesmo o socialismo de rosto humano. Era a concepção de normalidade que parecia estar conquistando triunfantemente o mundo.

Liberatore garante que o capitalismo possui elasticidade para absorver crises e para subir a patamares sempre mais elevados de bem-estar e de organização social. O intenso progresso dos países onde o capitalismo realmente funciona teria permitido que os trabalhadores alcançassem padrões de vida surpreen­dentes. Eles disporiam de assistência médica tão boa quanto a dos patrões e gozariam as férias nos países estrangeiros. A automação teria tornado o trabalho manual extenuante mais interessante e lucrativo.

No bojo desse triunfalismo desbragado, os países do terceiro mundo eram aconselhados a mirar-se no espelho mexicano. Também lá o receituário neoliberal do mercado livre estaria produzindo milagres: a receita fiscal se elevara de 8,7% do PIB, em 1982, para 10,6% em 1992. Com o corte de despesas e a venda de estatais para o setor privado, os gastos públicos haviam diminuído de 44,5% para 30%, no mesmo período. O déficit público fora reduzido de 16,9% para 1,9% do PIB, enquanto a inflação caíra de 131,8% em 1987 para 23,3% em 1991. E, mais importante do que tudo, o PIB crescera 2,9% em 1989 e 4,8% em 1991.

A Venezuela também seguira o mesmo receituário de privatizações, abertura da economia e redução do déficit público, conseguindo alcançar em 1991 um crescimento econômico de 9,8%. Como diria Ash e tantos outros panglossianos liberais: todos sabem que a economia de livre-mercado funciona, sendo capaz de resolver todos os problemas se lhe permitirem gerar um crescimento suficiente.

Diante dessa avassaladora onda triunfante do sistema de produção-para-lucro, muitos socialistas procuraram aproveitar o embalo e aderir ao otimismo de Pangloss. Alguns, como Zalasvskaia, asseguram que do ponto de vista dos princípios, o critério de escolha das formas econômicas é a medida com que elas contribuem para elevar a eficiência da produção. Aquelas que melhor resolvem essa tarefa devem ser consideradas socialistas. Talvez com esse mesmo tipo de pensamento reducionista, Alfonso Guerra, subsecretário geral do Partido Socialista Operário Espanhol, tenha se sentido à vontade para dizer, tranqüilamente, que o socialismo e o capitalismo se transformaram e não mais se opõem. Para ele, a sociedade do futuro deverá ser uma sociedade aberta, na qual o direito à diferença será um dos principais direitos.

Dahrendorf reforça essa idéia e reitera que os países do Leste não teriam alijado o comunismo para aceitar o capitalismo. Teriam derrubado um sistema fechado para criar uma sociedade aberta. Para ser exato, a sociedade aberta, porque embora possa haver muitos sistemas só haveria uma sociedade aberta. Nessa sociedade aberta, o importante é que a propriedade privada esteja disponível como uma opção e seja protegida, que seja impedida a generalização dos monopólios, embora sejam aceitáveis estradas-de-ferro de propriedade do Estado. Nem a administração da demanda a lá Keynes nem a seguridade social a lá Beveridge seriam constitucionalmente incompatíveis com a sociedade aberta. Entretanto, contratos legalmente protegidos deveriam ser uma garantia para a existência de mercados.

Para não parecer utópico, Dahrendorf dá alguns exemplos de sociedades abertas, sociedades que teriam rompido os estreitos limites do sistema capitalista. Cita a Grã-Bretanha como uma antiga sociedade aberta; assegura que a economia japonesa difi­cilmente pode ser considerada capitalista; estima que a Alemanha dificilmente será compatível com a publicamente defendida economia de mercado. E, para finalizar os exemplos concretos, diz que a Suécia não seria decididamente, em sentido estrito, um país capitalista.

Os panglossianos capitalistas e socialistas podem até divergir, em vários aspectos, sobre o tipo exato de sociedade que desejariam. Afinal, ninguém é perfeito e, apesar das loas em torno da sociedade aberta, o que os Democratas Livres húngaros desejam é mesmo o livre-mercado. O próprio Ash reconhece que essa é a mais recente utopia da Europa central e oriental. De qualquer modo, embora divergindo quanto ao futuro, todos esses panglossianos afirmam que não há democracia socialista. Haveria apenas democracia, a multipartidária e parlamentar. Não haveria legalidade socialista, mas unicamente a legalidade, o domínio da lei, garantida pela independência do Judiciário, ancorada na Constituição. Não haveria economia socialista, mas somente economia; não uma economia de mercado socialista, mas uma economia de mercado social, como proclamou Ludwig Ehrard, o reconstrutor da economia alemã do pós-guerra.

Todos esses panglossianos previram o fim das guerras, da luta de classes e da violência, a disseminação da democracia parlamentar como a única maneira de garantir a justiça social e a consolidação das virtudes da modernidade capitalista. A pauta de ação desses panglossianos, liberais ou socialistas, subordinou-se à pauta de ação do mundo do capital, na suposição de que este se transformara e passara a trabalhar por uma nova ordem interna­cional mais justa e mais humanitária.

Ash tranqüilizava que, na pior das hipóteses, poderiam ainda advir novos ditadores no leste europeu, mas seriam ditadores diferentes. Também achava que poderiam surgir novamente conflitos étnicos, mas que a primavera das nações da Europa central e oriental não seria, necessariamente, uma primavera do nacionalismo. Gorbachev, por seu turno, estava convencido que todos nós, no mundo atual, temos uma dependência mútua e nos tornamos cada vez mais indispensáveis uns aos outros. Como proceder para acabar com a fome e a miséria em vastas áreas da Terra? Somente o trabalho conjunto poderia trazer benefício para a humanidade.

Por isso, acrescentava o mesmo Gorbachev, pela primeira vez na história, tornou-se exigência vital a idéia de se elaborar normas de política internacional baseadas na ética e na moral, comuns a toda a humanidade, ao mesmo tempo que se humanizam as relações entre Estados soberanos. Haveria mundo mais risonho e belo que esse sonhado pelo Pangloss que foi o principal dirigente da ex-União Soviética no período de sua desagregação?

Por tudo isso talvez seja útil retornar, mais uma vez, às opiniões de Fukuyama. Ciente de que sua tese de fim da história causara muitos embaraços aos próprios liberais, procurou explicar-se melhor. O fim da história, acrescentou, dará lugar a um tempo muito triste. A luta pelo reconhecimento, a disposição de arriscar a própria vida por um objetivo puramente abstrato, a luta ideológica mundial que gerou ousadia, coragem, imaginação e idealismo, será substituída pelo cálculo econômico, a solução interminável de problemas técnicos, preocupações ambientais e a satisfação de sofisticadas demandas de consumidores, quase certamente em torno de videocassetes e estéreos de nova geração.

Sem dar-se conta, ou talvez por completo desconhecimento, Fukuyama faz da suposta fase definitiva do capitalismo a mesma caricatura que muitos marxistas vulgares faziam da futura sociedade comunista prevista por Marx. De qualquer modo, até esse mundo triste e insosso, do fim da história de Fukuyama, seria bem menos pior que o verdadeiro mundo que temos realmente à frente.



III

Caindo na real

Pobre Pangloss. O mundo real em que vivemos não e bem o mundo que pensa ser à sua volta. É verdade que do mesmo modo que a Lua possui um lado brilhante, este mundo real apresenta visões panglossianas inegáveis, criadas pela expansão do capital. Este foi competente em criar sociedades avançadas, de bem-estar social, amplas condições de consumo de massa e poderoso desenvolvimento técnico e cientifico. Estados Unidos, Europa Ocidental e Central, nações nórdicas, Japão, Canadá e Austrália são exemplos de riqueza e opulência que enchem os olhos dos Panglosses de todos os tipos. E também daqueles que não alcançaram seus padrões de vida.

Além disso, o capital foi capaz de criar um novo mercado mundial, transformando nosso planeta numa aldeia global única, onde as leis que valem são as leis que valem são as leis do modo de produção capitalista. A internacionalização ou globalização da economia força as fronteiras nacionais, massifica as comunicações e as informações, universaliza padrões de vida e trabalho e rompe com corporativismos e provincianismos. Mais do que isso, impõe um padrão de produtividade que se transforma em desafio para todas as sociedades nacionais com alguma pretensão de fornecer a seus povos uma vida digna e confortável.

Finalmente, e não menos importante, os países capitalistas desenvolvidos ou centrais foram capazes de assimilar regimes políticos democrático-liberais que, apesar de suas limitações, representam as conquistas das lutas de seus povos pela cidadania, por maiores liberdades civis e políticas. Essa assimilação teve um papel importante na ampliação da perspectiva democrática para o resto do mundo, em particular para aqueles países capitalistas e socialistas de regimes autoritários e/ou despóticos.

Não sem razão, Pangloss se extasia com essas breves pinceladas do brilho capitalista e cerra as pálpebras para o lado escuro de seu mundo real. Basta, porém, entreabrir os olhos para enxergar as outras conseqüências da expansão capitalista. Paul Kennedy reconhece que agora nos damos conta de que o mundo não está vivendo uma nova ordem, e sim uma ordem fraturada. Nesta, o fosso que separa os países ricos dos pobres está aumentando e as pessoas percebem mais suas diferenças que suas semelhanças.

O terceiro mundo foi transformado em repositório do refugo e do exército industrial de reserva do mercado capitalista mundial, com todos os dramas e tragédias que isso pode significar. Quase todos os países desse mundo abandonado pela sorte, mesmo os que chegaram a trilhar a industrialização capitalista, assistiram a seu crescimento econômico ser acompanhado de uma ampliação persistente da pobreza e da miséria de massa. E aquelas nações que tentaram enveredar por um provável caminho não-capitalista ou de orientação socialista foram submetidas a bloqueios, guerras civis e intervenções militares que, em diversos casos, inviabilizaram qualquer progresso econômico e político alternativo mais consistente. Em praticamente todos eles, a década de 80 foi particularmente perversa e trágica. Seus povos viram-se naufragados em mares de miséria e violência incompatíveis com a capacidade produtiva e com o nível de cultura alcançados pelo conjunto da humanidade.

Não menos terrível vem sendo a reconversão do socialismo da Europa central e oriental. Ao fracassar na reforma de seu socialismo soviético, o até então considerado segundo mundo viu-se inapelavelmente atraído pela força e pujança dos países capitalistas centrais, assim como pelas promessas dos líderes ocidentais. Mergulhou, então, de ponta-cabeça, como faria Pangloss tranqüilamente, no sistema de livre mercado do capital. O resultado tem sido uma persistente desorganização econômica, combinada com desagregação social, conflitos étnicos e religiosos e instabilidade política. O antigo segundo mundo está perdendo seu status anterior e se incorporando com armas e bagagens ao terceiro mundo.

Pouco adianta que Ash lastime que os tesouros encontrados no Leste socialista, como companheirismo, tempo e espaço para música e literatura sérias, comunhão cristã na sua forma pura e original, qualidade no relacionamento entre homens e mulheres e um etos de solidariedade, sejam varridos na corrida — que ele considera perfeitamente compreensível — pela afluência. Mesmo no período áureo de Pangloss, logo após os acontecimentos de 1989, Ash se perguntava quantos, dos que puderam sobreviver a quarenta anos de comunismo, seriam capazes de sobreviver a um ou mais anos de capitalismo. Não por acaso ele citava Arpad Goncz, um velho militante húngaro, que afirmava estar feliz por ter vivido para ver o fim daquele desastre, mas querer morrer antes de ver o começo do próximo.

Naquele momento, Pangloss sem dúvida diria que era preciso, acima de tudo, ser otimista. O primeiro mundo continuava esbanjando riqueza e bem-estar. A miséria fora erradicada e até os pobres tinham padrões dignos de vida. Mais cedo ou mais tarde, completaria, os demais países do mundo aprenderão com as técnicas e os métodos avançados do mundo desenvolvido e superarão todos os problemas. Como sempre, tudo irá bem no melhor dos mundos.

Pobre Pangloss. Mesmo então, Hobsbawn concordava com o historiador húngaro que considerava terminado o curto século XX (1914-1990), mas assinalava que o século XXI deveria enfrentar, pelo menos, três problemas de longo prazo que já estavam piorando: o crescimento do fosso entre o mundo rico e o pobre (e, provavelmente, dentro do mundo rico, entre seus ricos e seus pobres); a elevação do racismo e da xenofobia; e a crise ecológica do globo, que afeta a todos. A curto prazo, seria possível constatar instabilidade na Europa, ressurgimento das rivalidades e conflitos nacionais e a instabilidade da democracia liberal imposta aos países do Leste europeu.

O que nem mesmo Hobsbawn pode prever é que, em muito pouco tempo e bem antes da chegada do século XXI, a vitória esmagadora do capitalismo sobre o socialismo soviético iria afundar o vencedor numa crise que colocaria à mostra seu reverso perverso e destrutivo. Uma crise aparentemente brusca e inesperada, se levarmos em conta a era dourada de expansão que o capital viveu nos últimos vinte e poucos anos. Nesse período ele conheceu, como sempre, ciclos de recessão e crescimento, mas nenhuma expansão foi tão vigorosa e ampla quanto a que teve lugar nos anos 70 e 80. O desemprego e a pobreza nos países centrais era, então, tão residual que levou Norberto Bobbio a dizer que, neles, a sociedade dos 2/3 dirige e prospera sem ter nada a temer do 1/3 de pobres-diabos que nela vive e vegeta. Bobbio só chama a atenção para ter em mente que o resto do mundo, os 2/3 (ou 4/5 ou 9/10) da sociedade, está do outro lado.

A atual recessão nos países centrais, que não deixou de lado sequer o dinâmico Japão, está apresentando, porém, um assustador crescimento da miséria de massa no coração da riqueza. Com uma característica atroz: a miséria não é apenas resultado do desemprego recessivo, mas também do desemprego causado pela revolução técnico-científica e sua propensão a poupar mão-de-obra. Em outras palavras, o capital ingressou numa fase tecnológica em que a retomada do ciclo de crescimento não é garantia da diminuição substancial do desemprego e, portanto, da miséria. Tão consistente vem sendo esse desemprego estrutural ou tecnológico nos países centrais que é reconhecido como fenômeno estonteante por grande parte dos cientistas sociais e políticos. Seu alastramento acabará recolocando em discussão a tese de Marx, tantas vezes rechaçada como inconsistente e superada, da pauperização dos trabalhadores.

Bem vistas as coisas, como disse Ash, o ano de 1989 terminará por surgir, aos participantes e aos historiadores, como um' breve momento brilhante entre os sofrimentos de ontem e os de (hoje e) amanhã. Ao contrário do que supunham os panglossianos, o capitalismo mundial está longe de apresentar qualquer perspectiva real de paz, prosperidade e convivência harmoniosa. As tendências de longo prazo, com as quais ele vem marcando o tempo presente, são bastante contraditórias e, em diversos casos, antagônicas. A globalização dos mercados tem sido acompanhada, por exemplo, de um intenso processo de concentração de empresas e de centralização e oligopolização da economia. A característica principal dos capitais, centralizados em alguns poucos países, é seu controle sobre poderosas redes interna­cionais de produção e distribuição, que só podem se expandir se tiverem livre trânsito pelas fronteiras que separam os países. A escala alcançada por esses capitais, com ação sobre todo o mundo, tende a unificar os países, num único mundo, conforme disse Dahrendorf.


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