A ilusão dos inocentes wladimir Pomar tt scritta sumário



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Tão ou mais doloroso do que isso é constatar, como faz Kagarlitsk, que o vertiginoso crescimento do envolvimento popular na esfera pública entrou em colapso. É verdade que os princípios programáticos de várias correntes que se encontravam à testa dos movimentos populares que derrubaram os regimes socialistas de tipo soviético da Europa central e oriental eram fundamentalmente liberais, não ensejando muitas ilusões. Tanto as principais lideranças do Solidariedade, na Polônia, quanto do Fórum Cívico, na Tchecoslováquia, ou do Fórum Democrático, na Hungria, para ficar apenas em algumas, defendiam proposições que ficavam restritas aos princípios elitistas da democracia liberal: domínio da lei, garantida por um judiciário pretensamente independente, eleições livres em todos os níveis, economia de mercado e justiça social, como se ambas fossem complementares.

Somente alguns movimentos aparentados ao socialismo democrático, como o Novo Fórum, na Alemanha Oriental, preocupavam-se realmente na criação de mecanismos de participação popular que mantivessem o processo de reformas nas mãos do povo. Esses movimentos, porém, foram atropelados pelos acontecimentos. Os liberais e neoliberais tiveram êxito, como ainda constata Kargalítsk, em retirar o processo de reformas das mãos do povo, fragmentar e isolar as forças populares e, assim, derrotar todos os movimentos populares.

A disputa entre Bóris Ieltsin e a maioria do parlamento russo, que resultou no bombardeio do principal símbolo da democracia liberal, parece comprovar o colapso e a desintegração do envolvimento popular nas lutas políticas que marcaram as revoluções anti-socialistas do Leste europeu. Na resistência ao golpe de agosto de 1991, quando estiveram do mesmo lado Ieltsin, Rutskoi e Khasbulatov em apoio a Gorbachev, ainda foi possível notar uma mobilização popular espontânea, embora em escala inferior à das vezes anteriores. No caso mais recente, a disputa cingiu-se ao contingente dos grupos rivais, que antes eram aliados. A decisão, porém, ficou por conta do alto-comando das forças armadas, quando pendeu a favor de um dos grupos. A população não passou de simples espectadora. Os contin­gentes populares que entraram na liça parecem tê-lo feito mais por ódio e frustração do que em apoio a um dos lados.

Depois de caminhar durante estes poucos anos pelo vale de lágrimas, talvez Jiri Dientsbierjá não esteja fazendo as mesmas perguntas. Afinal, vai ficando claro que depois da revolução não está acontecendo nenhuma contra-revolução. As antigas sociedades socialistas também não estão conseguindo se transformar em sociedades de consumo de massa. Como tinha notado Hans Enzensberger, as revoluções do Leste não apresentaram nenhuma nova demanda. As únicas são de 1848, que permanecem inconclusas até hoje. Nessas condições, a abolição do que muitos chamavam de socialismo real resultou não na elevação a um novo patamar de vida e trabalho, mas no retorno ao velho, aos símbolos nacionais e, onde foi possível, representou a continuação de tradições políticas e das organizações partidárias dos anos entre as duas guerras mundiais. O renascimento do neonazismo alemão e ucraniano é apenas a ponta do iceberg que está por vir à tona.

A revolução do Leste foi a própria contra-revolução travestida, aproveitando-se das contradições, erros e crimes do tipo soviético de socialismo ali implantado. Para a maioria de suas populações, o vale de lágrimas talvez não desemboque nem mesmo em sociedades semelhantes às desenvolvidas do terceiro mundo. O que pode levar alguns de seus setores à enganosa suposição de que eram felizes mas não sabiam.

A MANCHA PAUPER1ZANTE
A tese de Marx sobre a pauperização absoluta e relativa dos trabalhadores sob o capitalismo sempre foi muito discutível. Não somente os liberais e conservadores a atacavam como irreal e inconsistente. Muitos socialistas igualmente não a aceitavam com tranqüilidade. E, durante o desmoronamento dos regimes socialistas do Leste europeu, ela se tornou uma das opiniões marxistas mais desprezadas e vilipendiadas pelos Panglosses liberais e socialistas, deslumbrados com as perspectivas de vida que a expansão do capital pretensamente abria aos trabalhadores.

Se aquela tese era antiquada nas condições anteriores do sistema produtor de mercadorias, ainda mais irreal e inverossímil aparentava mostrar-se nas modernas condições do capital na nova revolução das forças produtivas sociais. O melhor exemplo, seriam os países capitalistas centrais, onde as taxas de emprego se mantinham elevadas, sendo acompanhadas por um aumento constante da renda per capita e por uma distribuição mais ampla da riqueza social. Jürgen Habermas concluiu, a partir daí, que o conflito clássico da distribuição da riqueza na sociedade havia mudado de natureza nos países de bem-estar social. Neles, a maioria do povo trabalhador se confrontaria com uma minoria de grupos marginais. E o ex-presidente Bush, provavelmente embriagado pelo que deve considerar como o maior sucesso do chamado mundo livre em todos os tempos, sequer pestanejou ao declarar que os Estados Unidos eram a sociedade mais igualitária do planeta.

Evidentemente, Pangloss e os que o acompanhavam nessa cruzada contra Marx fingiam ignorar que o sistema de produção-para-lucro, ao criar um mercado global único, havia incorporado seu sistema todos os países periféricos. Neles, o processo de pauperização não podia ser mascarado. Saltava aos olhos, de irmã clara e insofismável, mesmo quando as taxas de crescimento eram ascendentes. Já vimos isso nos capítulos anteriores e não vamos mais nos deter nesse aspecto. Entretanto, em relação centro do sistema, Pangloss e seus aliados pareciam ter razão.

O poder social dos trabalhadores nos países centrais se alargara consideravelmente. Salários crescentes, benefícios sociais, seguro-desemprego e outras modalidades de seguridade social, tudo isso permitia aos trabalhadores, ou à maioria esmagadora, uma vida confortável. Nos Estados Unidos, por exemplo, para ser considerado pobre era preciso ter uma renda anual inferior a 6,8 mil dólares. Na França, apenas quem percebesse salário correspondente à metade do salário mínimo era dado como estando no limiar da pobreza. Durante os anos 70 e início dos anos 80 não atingia 10% a porcentagem da população dos países capitalistas desenvolvidos que poderia ser tida como pobre. Uma minoria residual que, como pensava Habermas, talvez não chegasse a manchar o bem-estar dos outros 90%.

A situação era de tal ordem favorável que os trabalhadores momentaneamente desempregados recusavam-se a aceitar trabalhos sujos e estafantes, de menor remuneração. Assim, mesmo com uma taxa residual de 2% a 3% de desempregados, como média, em cada país central, abriu-se campo para a imigração de trabalhadores estrangeiros que se dispusessem a aceitar trabalhos pouco qualificados.

A Europa rica se encheu de força de trabalho portuguesa, espanhola, iugoslava, grega, turca, africana, árabe e asiática. Três milhões de imigrantes das ex-colônias britânicas reforçaram o mercado de trabalho inglês. Dois milhões de turcos e outros quatro milhões de estrangeiros localizaram-se nas diversas cidades da Alemanha Federal. A França foi invadida por mais de cinco milhões de argelinos, marroquinos, vietnamitas e outros traba­lhadores oriundos de países africanos, árabes, latino-americanos e asiáticos. Ao todo, cerca de dezessete milhões de imigrantes se espalharam por toda a Europa.

Os Estados Unidos também viram afluir a seu território levas crescentes de chineses, coreanos, vietnamitas, árabes, me­xicanos, costa-riquenhos e outros latino-americanos. Os novos bárbaros invadiram o centro do império do capital. Aproveitavam-se das ofertas de trabalho e das melhores condições de vida que o opulento primeiro mundo proporcionava. Somente o Japão, por uma questão de cultura e uma deliberada política estatal, resistiu por mais tempo à importação de mão-de-obra estrangeira. De qualquer maneira, a teoria da pauperização de Marx, como disse alguém, parecia haver sido definitivamente levada pelo vento.

Uma aparente distribuição ampla da riqueza social mascara-a, no entanto, o alargamento do fosso entre os detentores do "capital e o restante da sociedade. Em 1977, por exemplo, os 40% mais pobres dos Estados Unidos ainda abocanhavam o dobro da renda dos 1% mais ricos. Em 1988, seja devido ao crescimento dos lucros do capital, seja porque a era Reagan propiciou uma queda de 18% nos impostos sobre os ricos, essa situação se inver­teu e a renda dos 1% mais ricos igualou-se à renda dos 40% mais pobres. Em dez anos, os ricos tinham aumentado sua renda familiar em 122%, enquanto os 40% mais pobres viram minguar a sua em 10%. Dessa forma, se em 1982 aqueles 1% detinham 31% do patrimônio privado dos Estados Unidos, em 1989 havi­am alargado essa posse para 37%. Cerca de 834 mil americanos possuíam um patrimônio de 5,7 trilhões de dólares, maior do que o patrimônio total de outros 150 milhões de habitantes do país mais rico do mundo. Bush, quando disse que os Estados Unidos eram a sociedade mais igualitária do planeta, provavelmente estava fazendo uma piada.

Essa situação não é particular aos Estados Unidos. Na Austrália, Nova Zelândia e Suíça, em 1991, os 20% mais ricos dispunham de renda dez vezes maior do que a dos 20% mais pobres. Proporções relativamente idênticas ocorrem na Alemanha, França, Inglaterra e Itália. Mesmo no Japão, considerado m dos países centrais menos desiguais, a renda dos mais ricos é mito superior à renda dos mais pobres. A pauperização relativa para uma realidade também no mundo rico, apesar dos efeitos pirotécnicos para escondê-la.

No início dos anos 90, porém, para complicar ainda mais os panglossianos em seu momento de glória, os bolsões de pobreza as países centrais se rompem e começam a alastrar-se a um ritmo desconhecido do pós-guerra. Há uma conjunção perversa. Cresce o desemprego estrutural, resultante da introdução de novas tecnologias e dos cortes de custos efetivados pelas empresas durante toda a década. Acrescenta-se o desemprego conjuntural, causado pela recessão. Há, finalmente, uma redução de subsídios e cortes profundos nos benefícios sociais, resultantes adoção de medidas estatais para solucionar a chamada crise cal dos países desenvolvidos.

Dahrendorf já tinha chamado a atenção para o fato de que a década de 80 presenciara o renascimento do empresário, com todas as suas qualidades criativas e destrutivas, mas que o preço desse novo milagre havia sido alto. Do ponto de vista social, fizera emergir uma subclasse de indivíduos há muito desemprega­dos e continuamente pobres. O problema novo para boa parte dos cientistas sociais, e aparentemente sem solução à vista, é que essa subclasse passou a crescer muito rapidamente.

Entre 1980 e 1990, os países centrais ainda mantiveram uma taxa média de crescimento econômico (3,1%) superior a sua taxa de crescimento demográfico (aproximadamente 1,0%), mas a taxa de desemprego manteve-se em torno de 6,0% da popu­lação economicamente ativa. Em 1991, essa taxa elevou-se para 7,1%, com uma assustadora tendência ao incremento. Relatório da OCDE estima que em 1994 os países desenvolvidos deverão ter 36 milhões de desempregados, 8,5% da força de trabalho do primeiro mundo. E no horizonte futuro desses países não há qualquer perspectiva séria de que a reanimação das atividades econômicas conduza a uma diminuição sensível no desemprego.

O aumento da competitividade das seis grandes empresas automobilísticas européias frente às japonesas significará um corte de 100 mil a 120 mil empregos, entre 1992 e 1996, de um total de 800 mil. Em 1978, a Ford britânica possuía 30 mil empregados. Em 1992, esse número fora reduzido a 8 mil, tanto devido à robotização quanto à terceirização (subcontratação de serviços). Esse processo tem se aprofundado, inclusive através da exportação de unidades terceirizadas para países de mão-de-obra mais barata, como vimos no caso da Polônia.

Essa tendência não se restringe à indústria automobilística. Todos os ramos industriais estão passando pelo mesmo tipo de reformulação. A provável saída da recessão deve deixar à mostra, então, de uma forma mais crua, a extensão do desemprego tecnológico e da mancha da pobreza estrutural dos países centrais. Kurz tem razão quando sustenta que o sistema produtor de mercadorias, em seu atual nível de desenvolvimento, tem que produzir perdedores em massa.

As massas de desempregados, coadjuvadas pelo fluxo migratório (apesar das fortes medidas restritivas e discriminatórias adotadas pela Comunidade Européia e pelos Estados Unidos), exercerão uma crescente pressão sobre o mercado de trabalho. Nessas condições, embora a tendência do capital seja libertar a mão-de-obra, como resultado do uso de novas tecnologias, ele não se furtará de aproveitar as chances que lhe propiciam essas pressões do mundo do trabalho. Tentará impor formas mais intensivas de exploração da força humana. Na Itália, por 'exemplo, as centrais sindicais aceitaram um acordo com os empresários sobre o custo do trabalho, pelo qual os salários só poderão crescer em função da inflação programada e da situação das empresas. O acordo prevê, também, a adoção do traba­lho eventual (contrato por tempo limitado, através de agências privadas), até então considerado ilegal. Os capitalistas saúdam o acordo como exemplo de modernidade, embora muitos trabalhadores vejam nele um retorno às capatazias da era feudal. Qualquer que seja a interpretação, porém, há um resultado incontestável: os salários serão mantidos em níveis mais baixos.

Estudos realizados nos Estados Unidos sobre o declínio do lazer apontam também para fenômenos que destoam da tendência à libertação da mão-de-obra, proporcionada pelo aumento da produtividade. Esse aumento, teoricamente, deveria combinar a liberação da mão-de-obra excedente com uma progressiva redução da jornada de trabalho. Tal redução daria possibilidade a que o desemprego estrutural fosse, inclusive, menor. No entanto, nos últimos vinte anos, o americano médio aumentou em nove horas o tempo que passa trabalhando, em cada ano.

Nesse ritmo, no final do século os trabalhadores americanos estarão como na década de 20: sessenta horas por semana, cinqüenta semanas por ano, três mil horas anuais. Para as mulheres casadas que trabalham fora de casa, deve-se acrescentar a isso mais 5 horas semanais de atividades caseiras. A escassez crônica de empregos tornou difícil aos trabalhadores resistir às pressões patronais por maiores jornadas e menores salários. Thurow calcula que 10 milhões de norte-americanos recebem salários abaixo do salário-mínimo legal. Qualquer economista medianamente informado veria aí a tradicional extração combinada de mais-valia relativa e mais-valia absoluta. A modernidade capitalista torna-se cada vez mais uma caixa cheia de surpresas.

Os cortes nos benefícios sociais, outra importante bandeira do neoliberalismo para a economia retomar o seu funcionamen­to normal, agravam ainda mais as mazelas do desemprego. Fazem aumentar, por toda parte do centro do sistema, as parcelas da população sem acesso à moradia e a qualquer tipo de seguro-saúde. Na Inglaterra, em 1990, os homeless já eram mais de duzentos mil, enquanto nos Estados Unidos chegavam a um milhão. Esses números podem tornar-se ainda mais dramáticos se os cortes nos subsídios à agricultura forem finalmente efetivados. Alguns milhões de agricultores, principalmente na França e nos Estados Unidos, incapacitados de concorrer com os novos conglomerados agroindustriais que empregam a biotecnologia e a informática, deverão falir irremediavelmente e engrossar as fileiras dos desempregados.

Pelo jeito, o vale das lágrimas que os povos do Leste deveriam atravessar para alcançar a felicidade capitalista, estende-se como uma viscosa mancha pelos países centrais, ameaçando o sistema de produção-para-lucro com a ressurreição da teoria da pauperização relativa e absoluta e com o redemoinho de suas próprias contradições. Mesmo porque, como diz Dahrendorf, o custo mais alto do milagre econômico dos anos 80 nos países centrais ainda poderá estar por vir. Afinal, repetindo uma frase de Susan Strange, aquela década foi uma década de capitalismo de cassino, no qual dinheiro era gerado por dinheiro e não pela criação de riqueza duradoura. A cobiça, a fraude e o interesse de curto prazo substituíram, com freqüência grande demais, a poupança, o negócio honesto e a perspectiva a prazo mais longo, para nada dizer da preocupação com os semelhantes.

Em outras palavras, nada de novo em relação ao que o velho Marx já dissera em relação ao capital. O problema deste não é produzir mercadorias, ou mais empregos. É produzir mais capital. O resto é detalhe complementar.

Quando um liberal radical chega a reconhecer o quadro real da marcha do capitalismo, mesmo que de forma benevolente e com esperança de que as coisas melhorem, é porque as contradições internas do sistema afloraram com tal força que até mesmo alguns panglossianos não podem ignorá-las.
A GLOBALIZAÇÃO CONFLITUOSA
O processo de expansão do capital jamais foi linear ou harmonioso. Em todo o seu curso, ele tem apresentado tendências extremamente contraditórias, que se chocam, mas ao mesmo tempo andam unidas como a unha e a carne. A tendência à concentração e centralização dos capitais, por exemplo, que vem agindo desde o nascimento do sistema de produção-para-lucro, acelerou-se consideravelmente nos últimos tempos, conduzindo à expansão das empresas transnacionais, à formação de intrin­cadas redes financeiras produtivas e comerciais e à internaciona­lização e globalização das relações econômicas. Todo esse processo tendencial parece tornar insustentável a manutenção de barreiras e fronteiras nacionais, a preservação dos Estados-nação e qualquer tentativa de revigorar o protecionismo.

Sob a hegemonia americana, a vitória do capitalismo sobre o socialismo soviético tornou aparentemente ainda mais irresistíveis o livre-comércio, a transformação do mundo num único mercado e a superação dos pruridos de soberania nacional onde se fizerem presentes. No entanto, os Estados Unidos não estão mais sozinhos nem dão mais a última palavra, embora continuem esbanjando um forte poder militar, econômico e político. Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa e o Japão elevaram a produtividade de suas economias muito mais aceleradamente do que os Estados Unidos, enquanto estes se afundavam na corrida armamentista com a União Soviética, elevando perigosamente os gastos públi­cos, permitindo a disseminação da especulação financeira e endividando-se de uma maneira até então desconhecida.

Nesse novo quadro mundial, a hegemonia americana passou a ser contestada justamente por seus antigos aliados centrais. Acentuou-se a multipolaridade econômica e política, fazendo crescer, simultaneamente, a pressão pela conformação de blocos regionais e multinacionais. Em quase todas as partes do mundo, os Estados nacionais esforçam-se' em renovar sua vitalidade e reafirmar sua soberania. Os próprios países centrais retomam práticas protecionistas para garantir a prosperidade de suas empresas e a competitividade de seus produtos. A Nomura Securities, uma gigantesca corporação financeira japonesa, afirma que está preparada para um mundo no qual a competição pela conquista de mercados deverá ser muito intensa. Nessas condições, a todo momento os povos são assustados com a possi­bilidade da eclosão de um verdadeiro confronto comercial entre as principais nações desenvolvidas.

Manifestam-se, assim, tendências opostas de grande vigor, embaralhando a percepção dos acontecimentos e interferindo e modificando seu curso. Tendências opostas comumente se combinam em composições complexas, com resultantes aparentemente inesperados e inexplicáveis. Uma guerra comercial, por exemplo, poderia conduzir à fragmentação do mercado mundial, chocando-se contra a tendência à globalização do capital e ao atual processo acelerado de elevação da produtividade. Sem mercado mundial, o capital pode, eventualmente, resvalar para uma crise ainda mais grave e profunda, assemelhada às que o afun­daram nas duas guerras mundiais.

Essas tendências contraditórias manifestam-se de forma cada vez mais nítida, indicando que o capital alcançou uma fase bem mais madura de sua evolução. A economia mundial é cada vez mais dominada pelas grandes empresas transnacionais, numa simbiose impressionante entre os sistemas financeiro, produtivo e comercial. Em 1970, 64 das 100 maiores corporações industri­ais estavam sediadas nos Estados Unidos, 26 na Europa e 8 no Japão. Em 1968, essa situação havia mudado: 42 das 100 maiores ficavam nos Estados Unidos, 33 na Europa e 15 no Japão. Em 1970, 19 dos maiores bancos do mundo eram americanos, 16 europeus e 11 japoneses. Em 1988, unicamente 5 eram americanos, enquanto 17 eram europeus e 24 japoneses. Atualmente, 9 das 10 maiores firmas de serviços são japonesas.

Essas transnacionais, sediadas nos três principais pólos econômicos do planeta, concentram recursos incalculáveis, empregam milhões de trabalhadores e estão ramificadas por todos os países, seja diretamente, através de filiais ou associadas, seja indiretamente, por meio do sistema financeiro ou do comércio internacional.

Exxon, Chase Manhattan, Mitsubishi, Lockheed, Philips, IBM, Unilever, Volkswagen, Hitachi, General Motors, Sumitomo são alguns poucos exemplos de transnacionais conhecidas prati­camente em cada canto do mundo e cujos investimentos e proje­tos em larga escala influenciam a economia e a política a nível local e mundial. A grandeza dessas empresas e de suas redes pode ser medida, em parte, pelo fato de que a frota de petroleiros da Exxon era maior do que a da antiga União Soviética e a receita das vendas da General Motors, no início dos 70, já era superior ao produto nacional bruto da Bélgica e da Suíça. Segundo o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, as 200 maiores empresas americanas produziam, em 1987, 43% do valor adicional total na indústria manufatureira contra 30% em 1948.

Articuladas a um sistema financeiro que funciona à velocidade da luz, 24 horas por dia, rompendo os fusos horários, as empresas transnacionais estruturaram uma vasta rede de organizações econômicas cobrindo o globo. Com isso, elas controlam todas as movimentações de dinheiro e mercadorias e aceleraram desmesuradamente a velocidade de circulação desses bens. Vários autores concordam em que as transnacionais transfor­maram o sistema de circulação monetária num cassino que funciona sem parar. Thurow diz explicitamente que o capitalismo tem uma tendência natural a derivar para a instabilidade financeira e o monopólio, concordando, assim, com os vários autores marxistas que trataram do assunto.

Um exemplo desse processo é a fusão da Bell e da TCI num negócio de 44 bilhões de dólares, estabelecendo um novo pata­mar das corporações na área de telecomunicações. Forma agora um full service network (rede completa de serviços), que vai da telefonia à educação e da saúde ao entretenimento, através de um único equipamento.

Roland Leuschel, do Banque Bruxelas Lambert, assegura que o sistema financeiro de paridades flutuantes resultou num enorme cassino para especuladores internacionais. A cada 24 horas negociam-se de 500 bilhões a 1 trilhão de dólares em divisas, com apenas 3% a 5% desses negócios vinculados a efetivas transações internacionais de bens e serviços. Esse cassino especulativo já causou sérias comoções internacionais no passa­do mais longínquo, como a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, e mais recente, como os 20% de queda das ações na mesma Bolsa de Nova York, em outubro de 1987. Esse perigo permanente tem exigido dos Bancos Centrais dos países ricos uma constante vigilância e intervenção no mercado financeiro, tornando-os fiadores da especulação internacional.

É evidente que essa integração e internacionalização do sistema só se tornou possível com a nova tecnologia e com os novos meios de comunicação. O sistema global de comunicações, baseado em satélites, computadores, teleimpressoras e outros dispositivos eletrônicos, permite um processo de integração e uma velocidade de transmissão e recepção que na década de 60 não passavam de ficção. O sistema financeiro, compreendendo uma malha extensa e diversificada de bancos e outras instituições financeiras, faz com que o dinheiro e o crédito fiquem fora de controle de qualquer governo nacional e à mercê dos interesses especulativos do próprio sistema.

Por outro lado, as novas tecnologias de produção tornaram os ciclos de vida dos produtos mais curtos, estimulando a adoção de padrões mais voláteis de consumo e incrementando a rapidez de obsolescência das mercadorias. Esse desenvolvimento forçou a reestruturação dos mercados em todo o mundo e tornou a produção e a circulação transnacionais uma necessidade imperiosa para a reprodução do capital.

A globalização da produção através das empresas transnacionais permite que elas organizem a produção aproveitando-se ao máximo das vantagens comparativas que o desenvolvimento desigual do modo capitalista de produção apresenta. Muitos acreditam que essa internacionalização da produção estaria diminuindo a importância da nacionalidade das corporações. As atividades estratégicas, como pesquisa e desenvolvimento, por exemplo, também estariam se dispersando geograficamente, seguindo a tendência geral das transnacionais. Lawrence Franko contesta essa alegação. Os trabalhos de maior capacitação e maiores salários continuariam quase universalmente perto das sedes, assim como os processos decisórios sobre questões sensíveis, como a alocação fiscal das multinacionais.

O mais comum é que as transnacionais realizem a pesquisa e o desenvolvimento, em geral, na sede da empresa, ou ao mesmo tempo nos países desenvolvidos que ofereçam melhores condições para isso. A produção de componentes, por sua vez, pode estar distribuída por diversos países, enquanto a montagem pode ser realizada por outros. Às vezes, a comercialização dos produtos (tanto o equipamento montado quanto os componentes) não é realizada em nenhum dos países que serviram de território para a produção e a montagem. Finalmente, os recursos obtidos com as vendas podem ser depositados num banco situado em alguns dos paraísos fiscais existentes, para escapar dos controles e maximizar ganhos. O sistema transnacional de produção, com filiais, associados, dealers, franquias e outros mecanismos que conformam uma vasta e intrincada rede de vasos comunicantes, atravessa toda e qualquer fronteira nacional.

Essa situação de relativa debilidade dos Estados nacionais é agravada pelo fato de que a maioria dos distúrbios econômicos e das ondas de poluição penetra pelos territórios dos diferentes países com a maior facilidade, ignorando as divisões formais e artificiais dos espaços territorial, marítimo e aéreo. A globalização é de tal ordem que, como constata Alvim Tofler, mesmo centenas de milhões de lavradores que trabalham para a subsistência, em países pobres, encontram-se integrados ao mercado e ao sistema monetário que o acompanha.

Do ponto de vista político, o efeito mais evidente do desenvolvimento das empresas transnacionais e da globalização do mercado capitalista tem sido a pressão para modificar a posição do Estado-nação (ou nação-Estado). Isso ocorre tanto porque os interesses das transnacionais nem sempre coincidem com os interesses da nação-sede e quase nunca respeitam os interesses da nação-hospedeira, quanto pelo fato de que o Estado-nação, em ambos os casos, não consegue comportar a escala das relações em nível global. São significativos os crescentes ataques teóricos e práticos à autodeterminação. Glotz não titubeia em afirmar que neste final do século XX a nação-Estado estaria econômica, ecológica, militar e culturalmente ultrapassada. Dahrendorf, por seu lado, embora reconheça que não existem sinais no processo europeu de cooperação que tornem supérflua a nação-Estado, considera que a autodeterminação é, na melhor das hipóteses, um direito de segunda classe que não pode prevalecer sobre os direitos básicos individuais dos cidadãos.

Outras vozes poderosas têm enfatizado que a indignação provocada por abusos aos direitos humanos vem minando o sólido princípio de não-intervenção. Nessas condições, a chamada comunidade internacional (leia-se grupo dos 7 países ricos) estaria inclinada a adotar a tese de que não existiria justificativa moral para, em defesa dos direitos humanos universais, recuar diante das fronteiras de um país. O grupo dos países ricos parece haver encontrado nos direitos humanos a justificativa para romper as fronteiras dos Estados nacionais e, na prática, fazer valer os interesses da transnacionalização ali onde a nação está sendo um obstáculo à globalização do mercado.

A guerra do Golfo é um exemplo cabal dos verdadeiros interesses que movimentam os Estados nacionais poderosos. A intervenção dos exércitos liderados pelos Estados Unidos simplesmente ignorou os interesses e os direitos humanos dos curdos e xiitas do Iraque, assim como a opressão sofrida por eles. O que realmente movimentou o dinheiro e as tropas foi a defesa dos interesses petrolíferos no Kuwait. A pretensa intervenção humanitária na Somália evidenciou-se como uma máscara que encobre o interesse estratégico americano no chifre da África.

A constituição do grupo dos sete (Estados Unidos, Alemanha, Japão, França, Itália, Inglaterra e Canadá) como comitê coordenador do processo de transnacionalização representa uma das manifestações mais evidentes da tendência à globalização. Como diz Thurow, uma economia multipolar e aberta requer coordenação monetária e fiscal, que só pode existir se os grandes países estimularem ou restringirem suas economias de forma articulada e unânime. Além disso, os acordos que funcionavam para um mundo unipolar, hegemonizado pelos Estados Unidos, não funcionam para um mundo multipolar.

Thurow explica que, nas crises recessivas dos anos 70 e 80, para impedir que elas se transformassem numa depressão (e causassem sérios danos à luta contra o socialismo soviético, acres­cento), os Estados Unidos apelaram para as suas políticas fiscal e monetária para estimular a demanda, conforme o receituário de Keynes. Essa ação beneficiou tanto os produtores americanos quanto os estrangeiros. Pode-se dizer que a maior parte do crescimento da Europa, Tigres Asiáticos, outros países em desen­volvimento, assim como dos próprios Estados Unidos, deveu-se às exportações para o mercado americano.

Entretanto, é ainda Thurow quem afirma, a recessão de 81-82 marca o esgotamento dessa capacidade dos Estados Unidos. As exportações americanas, necessárias para equilibrar as impor­tações, tornaram-se coisa do passado. A revolução verde restringiu o mercado externo para os produtos agrícolas americanos. De exportador de petróleo, os Estados Unidos tornaram-se importador. Os produtos de alta tecnologia deixaram de ser exclusividade americana. Pela primeira vez, os Estados Unidos viram-se confrontados com grande déficit comercial, que de cíclico passou a estrutural.

Em lugar de solucionador dos desequilíbrios econômicos mundiais, os Estados Unidos transformaram-se, muito provavelmente, no principal fator de desequilíbrio. Nessas condições, não lhe restou alternativa senão aceitar a co-participação dos outros países centrais na coordenação econômica e, consequentemente, política mundial. Como sede da maioria esmagadora das transnacionais que operam no planeta, esses países se outorgaram o direito de determinar os rumos de todo o mundo. Deles depende a recuperação da economia, a efetivação ou não dos acordos de proteção ambiental, a decisão de intervir em tal ou qual nação e a implementação das medidas adotadas pela ONU.

Paradoxalmente, o grupo dos sete reflete, também, todas as tendências que se opõem à globalização. Na reunião de Tóquio, em julho de 93, os sete ricos reiteraram a decisão de eliminar barreiras ao livre-comércio e à circulação de capitais, aparentemente dando um impulso decisivo a essa globalização. Entretanto, a lista dos produtos liberados é justamente aquela em que os países centrais possuem uma evidente vantagem comparativa em termos de custos, eficiência e qualidade. Em relação aos demais produtos, que foram objeto de uma acirrada disputa no âmbito da Rodada Uruguai do Gatt, as nações desenvolvidas continuam praticando um protecionismo aberto ou maquiado, seja em relação aos demais países do globo, seja em relação aos próprios parceiros de hegemonia mundial.

Os americanos têm acusado os japoneses de permitir práti­cas discriminatórias em relação aos produtos e capitais dos Estados Unidos. A balança comercial do Japão só aponta 6% do total para importados, enquanto a dos Estados Unidos indica 15%. Pior do que isso, a balança comercial entre os dois países apresenta um déficit contra os Estados Unidos de 50 bilhões de dólares, quase a metade de seu déficit total de 106 bilhões de dólares, em 1992. Os Estados Unidos reclamam do Japão, e também da França (que quer manter os subsídios de sua agricultura), mas sobretaxam o aço brasileiro e produtos de diversos outros países para proteger suas indústrias. Os desequilíbrios da balança comercial dos países ricos são hoje a principal razão para o aumento das barreiras protecionistas de suas economias, embora continuem exigindo a aceitação do livre-comércio pelos demais.

O acirramento da concorrência, segundo Thurow, leva todos a querer assegurar posições de superioridade. As barreiras não tarifárias estão aumentando, enquanto as portas para merca acordos bilaterais rompem com o estatuto do GATT e estão liquidando com o princípio de nação mais favorecida, que permi­tiria a todas ser tratadas igualmente no patamar da que estivesse em melhores condições.

Essa atitude de duas faces dos ricos diante do livre-comércio e da eliminação das barreiras protecionistas estimula os países em desenvolvimento e os mais pobres a adotar diferentes tipos de proteção, apesar de bem menos eficazes. De qualquer modo, todas essas ações levantam novos obstáculos à globalização e são reforçadas, ainda mais, pelo processo de regionalização incentivado pelos países centrais europeus e acompanhado, com nuances acentuadas, pelos Estados Unidos e pelo Japão.

A Comunidade Européia é, sem dúvida, o movimento mais forte e consistente de regionalização ou conformação de um novo e poderoso bloco de comércio. A reunião de cúpula de Maastricht, apesar de todas as resistências nacionais e problemas que tem encontrado, representou a consolidação da linha de unificação de uma nova Europa. Estabeleceu as condições para a existência de uma moeda única européia, a ECU (European Currency Unit ou Unidade Monetária Européia). Definiu as nor­mas para uma estratégia comum de defesa, com a criação da União Européia Ocidental, seu braço armado que deve atuar em cooperação, e não subordinado à OTAN. Finalmente, aprovou sua carta social, estabelecendo a livre circulação de pessoas, a assistência previdenciária e a igualdade de salários e das condições de trabalho entre os diversos países membros.

Essa integração européia num bloco desse tipo, no qual são estabelecidas regras para seus membros diferentes das regras para as relações com países fora do bloco, deve conduzir, quase certamente, a uma confrontação econômica. Apesar de todas as tentativas para manter vivas as regras de comércio livre, estabelecidas no Acordo Geral de Comércio e Tarifas (GATT), o que vai predominando são as novas regras de comércio administrado, estabelecidas pela Comunidade Européia.

Não por acaso, os Estados Unidos se lançaram na tentativa, ainda não consolidada, de formação do Nafta, juntamente com o Canadá e o México. O Japão se movimenta para articular-se mais intimamente aos Tigres Asiáticos e aos países de industrialização recente do Pacífico Oriental. Outras articulações, como o Mercosul, apontam no sentido da constituição de blocos regionais, destinados a facilitar a cooperação entre os países que os formam. Elas propiciariam condições para competir com vantagem no terreno econômico e político internacional, frente aos outros blocos e países.

Entretanto, a formação desses blocos regionais, apesar de aparentemente vantajosa para seus membros, não consegue sufocar interesses estritamente nacionais e corporativos que eventualmente se chocam com os interesses do bloco. A Inglaterra resiste à moeda única e à carta social européias, a Alemanha praticamente rompeu o acordo de paridade cambial quando elevou suas taxas de juros para captar capitais necessários a financiar seu déficit comercial e seus investimentos na antiga Alemanha Oriental, a Argentina quebrou o acordo de comércio do Mercosul, sobretaxando produtos brasileiros, e assim por diante. Além disso, a moderna tecnologia, particularmente nas comunicações, pode facilitar a formação de blocos comerciais entre países sem fronteiras geográficas. Baseado nisso, o Chile pretende integrar-se ao Nafta, em vez de participar do Mercosul, enquanto países da Ásia do Pacífico tendem a aliar-se aos Estados Unidos, em vez de ao Japão.

Em todos esses procedimentos para incentivar ora uma, ora outra das tendências em curso, o Estado tem desempenhado papel de estimulador e regulador da economia e instrumento eficaz para enfrentar e suplantar pelo menos alguns aspectos da presente crise mundial. Aqui também aparece com crueza a dupla face dos países ricos. Eles recomendam e mesmo impõem aos países mais pobres, através do FMI e outras instituições financeiras internacionais, a receita de menos Estado e menos intervenção na economia, enquanto eles próprios adotam medidas para transformar o seu Estado na principal alavanca para revitalizar e modernizar suas empresas e enfrentar, externamente, a concorrência das empresas de outros países.

Os japoneses há muito, através do seu Ministério de Indústria e Comércio Internacional, realizam o planejamento macroeconômico de sua economia e incentivam e financiam suas corporações na competição externa. Para atacar e conquistar mercados estrangeiros, tornou-se prática comum nipônica a utilização do sistema de dumping, compensado posteriormente pela elevação dos preços após desaparecida a concorrência. A Europa está investindo pesadamente na constituição de projetos de pesquisa e desenvolvimento, num sistema de consorciação entre o Estado e empresas transnacionais, como o Eureka, Jessi e Esprit. Os Estados Unidos, sob a rubrica de projetos militares, estão caminhando no mesmo sentido de aumentar o financia­mento às empresas para elevar sua competitividade na guerra comercial.

Aspecto complementar e ilustrativo desse processo pode ser observado na reformulação dos objetivos dos diversos serviços de espionagem dos países centrais. Helena Celestino relata que tais serviços estão voltados agora para infiltrar espiões em companhias estrangeiras no exterior, a fim de roubar idéias e tecnologias. A CIA considera o Canadá e a Alemanha muito ativos na espionagem econômica e comercial, só perdendo para a França, a mais desenvolta de todas. Jim Woolsey, diretor da Central americana, afirmou que eles derrotaram o grande dragão comunista, mas vivem hoje numa sala infestada de perigosas serpentes venenosas. aqueles que se dizem amigos dos americanos espionam suas empresas e corrompem governos estrangeiros para obter contratos destinados às companhias estadunidenses. Durante a guerra Fria, os Estados Unidos precisavam de sua cooperação contra o inimigo comunista e, por isso, fechavam os olhos. Mas essa época acabou e será colocado um ponto final nisso.

Essa situação reflete bem o novo nível de disputa pela hegemonia mundial, antes restrita às duas superpotências. Com o desmantelamento de uma delas, foi aberto espaço para que as outras potências econômicas se firmassem como tais e passassem disputar seu espaço no cenário internacional. Os países emergentes da Ásia do Pacífico, aí incluída a China, que resistem à onda recessiva que afoga o sistema capitalista, também acirram a tendência à multipolaridade e a disputa pelos diversos mercados nacionais e pelo mercado global.

Esses movimentos de sentido contraditório disseminam incertezas. Muita gente enxerga na crise atual, na qual se conju­garam o desmantelamento do socialismo soviético e uma recessão duradoura do capitalismo ocidental, uma crise geral da civilização industrial em seu todo. Tofier e Kurz chegam a con­lusões idênticas, embora com formulações diferentes quanto ao futuro. Tofier chega a parafrasear Marx ao dizer que esta civilização, agora moribunda, se teve alguma missão, essa teria sido a de mercadizar o mundo.

Se, diante dessas incertezas, os executivos das empresas transnacionais têm dificuldades para enfrentar as oscilações das políticas industriais e monetárias e tomar decisões, nem por isso essas empresas paralisam seu inexorável processo de expansão. Movidas por sua lógica interna, elas procuram adaptar-se às próprias forças que desencadearam ao realizar o desmembra­mento generalizado do mercado de consumo e do mercado de trabalho. Procuram criar, continuamente, milhares de novos modelos de produtos para todos os usos e todos os gostos, embora se esforcem por demonstrar que os parâmetros da nova com­petitividade mundial se encontram nas tecnologias do processo e não nas tecnologias dos produtos. Na verdade, um dos pontos críticos de sua crise atual reside precisamente na dificuldade de encontrar um ou alguns novos produtos que possam penetrar no saturado e cada vez mais restrito mercado de consumo da maioria dos países.

Além disso, as transnacionais têm que especializar seus pontos de venda para atender aos segmentos diferenciados do mercado e dar mais visibilidade à diferenciação das mercadorias. São obrigadas, portanto, a transformar mercados de massa, como o de tecidos, em mercados de nicho, como o das confecções de moda. E mercados de nicho, como o de computadores pessoais, em mercados de massa, como o de calçados. Vêem-se, assim, obrigadas a proliferar o cada vez mais restrito mercado de trabalho com novas ocupações, que atendam aos novos processos tecnológicos e aos novos produtos, impondo aos trabalhadores necessidade de adquirir diferentes especialidades para pode competir melhor em seu próprio mundo do trabalho.

É bem verdade que as tecnologias de processo, baseadas na flexibilidade, em estoques programados (just-in-time) e no controle estatístico, indispensáveis para a fabricação de produtos cada vez mais baratos, dependem em grande escala da coopera­ção da força de trabalho, de sua melhor qualificação e de sua autonomia no próprio trabalho. Como veremos mais adiante, isso se choca frontalmente com a tendência, igualmente presente no atual processo de reestruturação do sistema de produção-para-lucro, de pagar baixos salários e realizar cortes na mão-de-obra.

Não há dúvida de que as novas tecnologias tornam possível a construção de fábricas mais compactas, fisicamente menores, mas de alta intensidade de capital e de alto poder produtivo. O capital sente-se atraído, assim, a investir em sua própria nação-sede e a diminuir os investimentos no exterior, onde os riscos são grandes em virtude da instabilidade política, dos altos índices inflacionários e de outros fatores de incerteza que podem incidir sobre as taxas de retorno do capital. Kurz constata esse fenômeno ao verificar que os investimentos baseados no deslocamento de partes da produção para o Norte da África, o Sudeste da Ásia e a América Latina não apenas ficaram muito atrás dos investimentos em países ocidentais capitalistas como também diminuíram consideravelmente durante os anos 80.

Kurz descobre na intensidade elevada do capital os motivos dessa nova tendência. Goendevert, ex-presidente da Ford em Colônia, Alemanha, reforça a opinião de Kurz ao afirmar que o deslocamento da produção para os lugares com mão-de-obra mais barata teria perdido sua importância em virtude da compulsão das empresas pela rentabilidade. Elas estariam preferindo cortar custos e, com isso, libertar a mão-de-obra. Para Kurz, essa tendência principal do capital na atualidade fecharia para o próprio Ocidente uma saída exteriorizante de sua crise por meio da exploração daqueles mercados novos. Daí a concluir que o capital não tem mais saída foi um passo.

Entretanto, tanto a tendência que expusemos acima como essa tendência contrária são faces opostas de um mesmo proces­so contraditório. É verdade que na década de 80 houve uma certa reversão na tendência das transnacionais produzirem no exterior componentes intensivos de mão-de-obra. A revolução científica e tecnológica exigiu investimentos vultosos, principalmente na pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias de processo e novos materiais, realizados fundamentalmente nas nações-sede. Apesar disso, mesmo durante os anos 80, as transna­cionais continuaram investindo nos países em desenvolvimento, em especial naqueles que apresentavam maior estabilidade econômica, financeira e política. E há indicações de que a prática de instalar fábricas em países onde a mão-de-obra é mais barata voltou a intensificar-se no início dos anos 90.

De algum tempo para cá apareceu um novo elemento de atração para o capital das nações centrais: os países onde a legislação ambiental é menos rígida e oferecem condições para implantação de indústrias e equipamentos sujos. Jamais esqueçamos as propostas de Summers a respeito. A implantação do Nafta sofreu um sério bloqueio dos ambientalistas dos Estados Unidos e do México, certamente porque eles descobriram que o interesse de muitas empresas americanas, na con­cretização desse bloco regional, consistia na possibilidade de fugir das exigências da nova legislação ambiental dos Estados Unidos. No México, não seriam obrigadas a dispender somas consideráveis na fabricação de equipamentos antipoluentes.

Sintomático é que as empresas transnacionais também estejam realizando mudanças significativas em seu perfil produtivo. A competitividade mundial as fez ingressar de forma crescente na comercialização de tecnologias e serviços gerenciais, produtos que antes eram segredos guardados a sete chaves. A rapidez com que as novas tecnologias, incluídos aí os novos materiais, tornam-se superadas por outras, ainda mais novas, reduziu em muito o tempo em que vale a pena para as empresas mantê-las em segredo. Tornou-se muito mais rentável concentrar esforços na pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias e novas técnicas gerenciais e ampliar os mercados para sua circulação.

Em conseqüência, como vimos, as empresas tendem a concentrar na sede as atividades de pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico, que demandam altos investimentos em capital, e transferir para outros países de mão-de-obra mais barata as atividades produtivas comuns. No entanto, ao vender novas tecnologias, mesmo que cercadas de truques e dispositivos que prendam os compradores aos vendedores e dificultem o seu domínio rápido, as empresas transnacionais estão disseminando as condições para o surgimento de novos competidores na arena internacional.

Olhando para todas essas tendências contraditórias, que ora agem de forma conjugada, ora se excluem em sentidos opostos, e às vezes, se transmutam umas em outras, provavelmente seja cedo para afirmar que o capital tenha esgotado sua capacidade de superar mais uma crise, como supõe Kurz. Pode-se admitir que a distância entre uma crise e outra torna-se cada vez menor. Ao mesmo tempo, cada nova crise traz à tona, com mais vigor, as distorções estruturais do sistema produtor de mercadorias. Mesmo assim, as tendências à multipolaridade e ao seu desenvolvimento desigual ainda podem lhe dar algum fôlego, por certo tempo. Mas dificilmente poderão continuar alimentando, como na breve euforia panglossiana do final dos anos 80 e início dos anos 90, a perspectiva de viver no melhor dos mundos, sob a égide do sistema capitalista.
A MORTE DO TRABALHO
As tendências contraditórias do capitalismo manifestam-se com tanta maior nitidez quanto mais madura é a fase alcançada pelo desenvolvimento de suas forças produtivas ou, falando de outro modo, pela socialização da produção. Essas tendências longas do sistema produtor de mercadorias foram analisadas por Marx em O capital e, em geral, estão sendo comprovadas pela vida e pela história. O que Marx dificilmente poderia prever é que o tipo ideal do modo capitalista de produção e distribuição, que ele pensara haver encontrado na Inglaterra da revolução industrial do século XIX, só iria manifestar-se em toda a sua plenitude na. segunda metade do século XX. Com a revolução eletrônica, o capital finalmente constituiu o sistema nervoso central de seu corpo econômico e sentiu-se em condições de comandar todas as atividades viventes do planeta.

Surgiu daí a idéia de que o mundo ingressara na era pós-industrial. Tofler situa a explosão da crise do industrialismo no final dos anos 60. De lá para cá, as tendências longas do capital (concentração, centralização, globalização, multipolaridade, etc.) aceleraram-se de maneira inusitada, estimulando tanto previsões otimistas quanto pessimistas. Kurz, por exemplo, supõe que o sistema produtor de mercadorias, com sua explosão dos últimos trinta anos, esgotou sua capacidade de gerar novos ciclos expansionistas. A crise atual seria a expressão desse esgotamento. Cada tentativa para superá-la apenas tenderia a levar o capitalismo a debater-se em crises mais freqüentes e mais convulsivas. A crise e a derrocada do socialismo soviético não passariam, nesse sentido, do fracasso de um determinado tipo de modernização do próprio sistema produtor de mercadorias e uma preliminar da crise geral que deverá atingir todo o sistema mundial capitalista. A crise dos anos 90 parece lhe dar razão.

Apesar disso, Pangloss também tem carradas de motivos para deslumbrar-se com os resultados mais que visíveis dos avanços científicos e tecnológicos do capitalismo. A robótica oferece condições, sequer imaginadas pelos trabalhadores, para torná-los livres não só dos trabalhos pesados, insalubres e perigosos, mas também da própria obrigação massacrante do trabalho. A informática, além de fornecer o cérebro e o sistema nervoso da robótica, abre para todos os indivíduos um campo novo e ainda pouco explorado para tornar o acesso às informações plenamente democrático. As telecomunicações massificam essa possibilidade, aproximando as pessoas e os aconteci­mentos dos pontos mais distantes do planeta.

As possibilidades não param por aí. A biotecnologia descerra os caminhos para libertar as mulheres e os homens das doenças e melhorar o padrão de saúde de toda a humanidade. De quebra, está produzindo uma nova revolução agrícola, criando as condições para elevar a produtividade das plantas e dos animais a patamares inimaginados, sem precisar degradar os solos, a água e a própria biodiversidade. Por outro lado, os novos materiais, entre eles as fibras óticas, as ligas cerâmicas e as resinas sintéticas, permitirão reduzir sensivelmente os dispêndios de recursos naturais, elevando a produção global e podendo, inclusive, gerar novos produtos capazes de melhorar as condições da vida humana.

A relação das novas conquistas é vasta. A humanidade, porém, ainda está apenas no limiar dessa nova era, descortinada pela revolução científica e tecnológica da segunda metade do século XX. Mesmo assim, embora circunscrita às primeiras décadas do que Tofler chamou de terceira onda, a humanidade já foi capaz de alcançar um poder produtivo e uma produtivi­dade difíceis de imaginar poucos anos atrás. Mais importante do que isso, pela primeira vez na história do desenvolvimento de sua capacidade produtiva, o ser humano parece estar encontran­do os meios científicos e técnicos para limitar ou frear a destrui­ção da natureza, sem que seja necessário abalar aquela capacidade produtiva. Existe a probabilidade real de eliminar o uso indiscriminado dos recursos naturais e a poluição através de novos processos produtivos e novos materiais.

Em nenhuma época anterior da história humana criaram-se condições tão favoráveis para que o trabalho de tão poucos pudesse suprir as necessidades materiais de cada um dos bilhões de indivíduos do planeta Terra. Pangloss teria tudo para sentir-se realmente no melhor dos mundos, não fosse o que chamamos de teorema de Kurz. Para este, acompanhando a teoria geral de Marx, os avanços científicos e tecnológicos e a conseqüente elevação da produtividade não deságuam unicamente em facilidades e conquistas positivas. Com equipamentos mais produtivos e novas formas de organização da produção, o capital introduz um elemento de perversão na possibilidade de o homem libertar-se do trabalho. Simplesmente empurra o trabalho e seu detentor, o trabalhador, para a morte.

Tofler não considera essa alternativa. Thurow, por seu lado, considera que, no futuro, as vantagens competitivas sustentáveis dependerão mais de inovações tecnológicas nos processos de produção do que de novos produtos. As novas indústrias do futuro, como a biotecnologia, dependem da capacidade mental. A vantagem comparativa criada pelo homem substituiria a vantagem comparativa criada pela natureza (dotações de recursos naturais) e pela história (dotações de capital). Assim, embora Thurow tenha consciência da tendência longa representada pelas inovações tecnológicas e pela nova vantagem comparativa da capacidade mental do homem, ele não tira as conclusões sobre a relação desse processo com a realidade do mundo do trabalho (além de não considerar, como devia, esse mundo como a base de sustentação do próprio sistema produtor de mercadorias).

Nos países centrais, onde o mundo do trabalho parecia a salvo da miséria, hoje ele está sofrendo mudanças radicais e destrutivas não só em seu padrão de vida, como também em seu perfil. Nesses países não se pode alegar, como às vezes fazem os cínicos defensores do capital ou os socialistas desatentos, que os trabalhadores se encontram desempregados e sofrem, não pela presença, mas pela ausência do capitalismo. Nesses países, mais do que em quaisquer outros, o capital introduz novas máquinas e novas tecnologias, numa rapidez espantosa, ocupando o espaço da mão-de-obra. O problema não consiste em que o sistema de produção-para-lucro liberte os trabalhadores do trabalho, mas sim que os liberta, ao mesmo tempo, da possibilidade de viver como seres humanos.

Andrada e Silva verifica que o desemprego está se tornando uma epidemia, não apenas em conseqüência da recessão, mas em virtude de um desequilíbrio estrutural. Segundo Ignacy Sachs (não confundir com Jeffrey Sachs, de quem não é parente e com quem não concorda), esse desemprego estrutural tem três raízes: o progresso técnico, que promove crescimento sem emprego; os controles macroeconômicos neoliberais e as iniciativas microeconômicas dos empresários, que abandonaram qualquer preocupação social; e a dissociação da economia real da economia financeira, que tira recursos do circuito do investimento e da produção e os mantém no circuito estéril da especulação. Carson concorda com o fato de que o desemprego estrutural surge como decorrência de empregos eliminados por mudanças nas necessidades de especialização, introdução da automação, declínio permanente de ramos industriais ou relocalização geográfica dos empregos.

Carson também chama a atenção para o fato de que o desemprego estrutural, que, até poucos anos atrás, ficava restrito a alguns bolsões, agora está se estendendo rapidamente. A partir dos anos 70, houve uma crescente propensão para a permanência do desemprego durante os ciclos de pleno emprego da capacidade produtiva (o crescimento sem emprego, de Ignacy Sachs). No início dos anos 70 havia 3,5% de desempregados no ciclo de crescimento. Mais adiante esse percentual subiu para 4,5% e, no final dos anos 80, estava em 6%. Há uma tão grande probabilidade de que esse índice suba, ainda mais significativa­mente, quando o sistema de produção-para-lucro ingressar numa nova fase de crescimento, que os economistas neoliberais deram surgimento à idéia de um desemprego aceitável comum, que chamaram taxa natural de desemprego.

Segundo os economistas, o alto e crescente desemprego estrutural torna inaceitáveis os preços das políticas tradicionais de combate ao desemprego, como as de aumento da demanda agregada através de investimentos públicos, preconizadas por Keynes. Nessas condições, o desemprego tende a sair também das preocupações públicas, como aponta Sachs, Ignacy, deixando-se ao próprio mercado sua solução. Ou seja, como diz Carson, deixando que os salários caiam abaixo do ponto em que o trabalhador anterior, de alto preço, possa ser absorvido por novos empregadores e em que a força de trabalho seja forçada a migrar para novas regiões geográficas de salários inferiores.

Carson relembra, muito apropriadamente, que o fundamental na teoria salarial convencional é que o trabalhador vale apenas o que pode produzir marginalmente, ou seja, a mais, e que vale a pena contratá-lo apenas se o produto em dinheiro que ele cria com seu trabalho é maior do que os retornos possíveis com o aluguel de um recurso alternativo. Carson concorda que essa teoria, aceita como pura verdade econômica, é do ponto de vista humano, implacável. De qualquer maneira, não deixa de ser interessante que a mais-valia, descoberta por Marx, seja admitida, pelo menos, como a teoria convencional dos salários do sistema capitalista.

Nessas condições, os trabalhadores com pouca especialização ou com idades superiores a um certo teto, que varia de país para país, tendem a ficar desempregados permanentemente ou a ser jogados para trabalhos marginais, pesados, perigosos e de baixa remuneração, em que as novas tecnologias ainda não aportaram. Thurow aceita que é assim que o capitalismo funciona. Transforma-se numa selva, onde se trava uma batalha feroz pela sobrevivência. Uma guerra surda e às vezes aberta, corrosiva e destrutiva, entre os trabalhadores mais jovens e os mais velhos, entre os trabalhadores femininos e os masculinos e entre os nacionais e os estrangeiros.

Nos países centrais, a disputa pelo trabalho entre os nacionais, descartados pelo avanço técnico, e os imigrantes, que foram atraídos pelo brilho da riqueza do primeiro mundo e buscam qualquer coisa melhor do que a vida que levavam em seus países de origem, ganha contornos de guerra. Ela pode recrudescer se as previsões sobre o desemprego se concretizarem. A ONU calcula que no ano 2025 poderá haver 500 milhões de desempregados no mundo rico, para outros 500 milhões, ou menos, trabalhando. Por outro lado, todos eles estarão pressionados e sofrendo o assédio de algo em torno de 3 bilhões de trabalhadores sem emprego nos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, para uma força de trabalho empregada de 2,5 bilhões ou menos, segundo estimativas do Banco Mundial.

Para tentar manter-se no emprego, os trabalhadores serão obrigados cada vez mais a apresentar conhecimentos e treinamento multidisciplinar. Thurow afirma que no século XXI a instrução e a capacidade da força de trabalho constituirão a arma competitiva dominante. Mas os progressos científicos e técnicos, assegura Tom Bottomore, tendem a produzir somente duas categorias de trabalhadores: os cientistas e engenheiros informáticos, que criam e mantêm complexos sistemas informáticos de informação e controle; e os usuários rotineiros dos terminais informativos. Os da primeira categoria, pequena minoria altamente qualificada, são trabalhadores autônomos em suas práticas laborais e, às vezes, independentes. Os da segunda categoria, estejam empregados em fábricas, caixas de supermercados, postos administrativos em bancos ou outros serviços, ocupam-se de operações rotineiras mediadas por computadores, subordinados a estritos procedimentos de trabalho, escravos das máquinas.

Para ser mais preciso, deve-se acrescentar que tal tendência, descrita por Bottomore, reduz constantemente o campo de trabalho de ambas as categorias, empurrando elementos da primeira para a segunda, e os desta para fora do mercado de trabalho. O mundo do trabalho do futuro deve exigir operários com conhecimentos científicos e técnicos, mesmo para realizar atividades rotineiras, desfazendo-se constantemente dos operários sem qualificação. Umberto Cerroni aponta para o progressivo assalariamento dos estratos sociais médios — sobretudo os intelectuais, os técnicos é os cientistas —, cujo estatuto social cada vez mais aproxima-se do trabalhador assalariado. Thurow lembra que, para implantar o controle de qualidade estatístico, cada empregado da produção tem que aprender noções básicas de pesquisa operacional, o que exige um nível básico de matemática superior ao que possuem os diplomados do segundo grau nos Estados Unidos.

Essa tendência de redução levará o mundo do trabalho a tornar-se, um dia, se continuar o domínio do sistema de produção-para-lucro, no campo de ação de apenas alguns eleitos. Até mesmo os operários altamente qualificados, aí podendo-se incluir aqueles estratos sociais médios citados por Cerroni, serão descartáveis. Aqueles que a duras penas vislumbraram as tendências do futuro e conseguiram transformar-se em trabalhadores de várias carreiras, polivalentes e capazes de adequar-se com flexibilidade a qualquer tipo de trabalho existente, acabarão sendo paulatinamente incluídos na cota de descarte e jogados na massa dos desnecessários.

Kurz considera que esse processo, que marca com ferro em brasa o desemprego do mundo ocidental desenvolvido, deve-se exclusivamente às conseqüências da penetração das ciências e intensificação da produtividade. No entanto, novas tecnologias e exportação de fábricas foram responsáveis, entre 1960 e 1980, pela redução de 25% para 20% dos operários trabalhando nas indústrias do primeiro mundo. Continuaram sendo responsáveis pelas reduções ocorridas na década de 80 e início dos anos 90 e devem continuar a sê-lo no futuro.

Carson mostra que nenhuma atividade econômica será instalada geograficamente num determinado lugar a menos que esse lugar ofereça o custo mais baixo para a produção do produto específico. Por isso, os trabalhadores não-qualificados dos países ricos terão que aceitar os mesmos salários dos não-qualificados que vivem nos países pobres. Se não aceitarem essas condições, as tarefas que não requerem mão-de-obra especial acabarão sendo transferidas para os países pobres.

Esse procedimento está se alastrando aos operários qualifica­dos. Engolfados no mercado mundial, os países que recebem as indústrias obsoletas do mundo desenvolvido são obrigados a seguir o mesmo padrão. Há uma repetição cega e inexorável dos modelos e caminhos. A Avibrás, uma empresa brasileira de armamentos, situada em São José dos Campos, possuía 5,7 mil empregados em 1990. A crise recessiva levou-a a reduzir seu quadro de pessoal para quatrocentos e a realizar vigoroso processo de recuperação para não fechar as portas. Entre 1990 e 1992, diversificou a linha de produção de material bélico para os setores de fibras óticas e telecomunicações, voltando a trabalhar a plena carga. Adaptou-se, assim, rapidamente, à revolução científica e tecnológica e às novas tendências do mercado. Seu quadro de pessoal voltou a crescer, mas ficou limitado a novecentos empregados. Os salários desse pessoal, em grande parte qualificado, devem ser menores do que os dos países desenvolvidos, transformando-se, assim, em campo de atração de indústrias semelhantes.

Esse é o crescimento em novas bases, de elevação substancial da produtividade, rebaixamento dos salários e descarte da força de trabalho. Foi ele que permitiu às quinhentas maiores empresas brasileiras aumentarem suas vendas de 145 bilhões de dólares, em 1992, para mais de 169 bilhões de dólares, em 1993, um crescimento de 11,5%. E, principalmente, que os lucros, no mesmo período, fossem dez vezes maiores, saltando de quinhentos milhões de dólares para cinco bilhões de dólares. Quem se importa com o destino dos outros 4,8 mil empregados da Avibrás?

O novo padrão de crescimento dos países centrais e dos países em desenvolvimento para sair da recessão pode estar, como acentua Carson, utilizando plenamente sua capacidade produtiva instalada, ter um desemprego cíclico zero e, ao mesmo tempo, ter grande desemprego estrutural. Esse fenômeno, por outro lado, pode permitir que a produtividade média das empre­sas se eleve, mesmo que a produção se encontre em crise cíclica. No Brasil, em 1991, apesar de uma queda de 0,5% na produção, a produtividade cresceu 10,8%.

Esse novo tipo de crescimento pode explicar por que a recu­peração econômica dos países da América Latina, anunciada como a grande novidade deste início dos anos 90, deverá ter um efeito relativamente pequeno sobre os seus milhões de desempregados, podendo inclusive agravar a sua situação. E explica por que o desemprego, como diz Andrada e Silva, está se tornan­do uma síndrome destinada a romper a relação existente entre o trabalho e o capital há mais de cem anos.

Talvez por isso Kurz acredite que a abolição do trabalho, no invólucro do sistema produtor de mercadorias, não nasça como pura alegria e felicidade, mas somente de forma negativa, como crise e, finalmente, como crise absoluta de reprodução. A sociedade mundial capitalista, segundo Kurz, estaria assim se aproximando de sua prova de resistência e ruptura, pois tem de chegar a um ponto em que suprimirá o trabalho abstrato em sua aptidão de ser substância social do valor econômico.

Kurz tem razão quando destaca a tendência real, negativa, do capital em relação ao trabalho. As crises de reprodução da força de trabalho tendem a ser cada vez mais avassaladoras e degradantes. Entretanto, Kurz parece tentado a cair na mesma utopia que criticou em Marx. Enxerga no capitalismo um ponto de ruptura que pode estar visível, mas que talvez não esteja nem tão próximo nem tão maduro quanto supõe. Apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, as economias dos países centrais, como aponta Bottomore, continuam basicamente industriais, e não pós-industriais. Cerca de 50% de seu produto bruto ainda depende de manufaturas.

Os demais países capitalistas, em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, ainda procuram completar seus processos de industrialização, apesar de todas as dificuldades e da complexidade que a presente divisão internacional do trabalho lhes está impondo. Além disso, o processo de desemprego não é absoluto nem conforma somente dois campos opostos (empregados e desempregados). Em geral, mesmo nos países desenvolvidos, forma-se uma massa intermediária que se mete pelas brechas do sistema. Ela procura sobreviver, às vezes descambando para o banditismo, o tráfico de entorpecentes ou outras formas anti-sociais de redistribuição de renda. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimou em trezentos milhões o número de pessoas atuando na chamada economia informal em todo o mundo e prevê que esse número deve crescer substancialmente nos próximos anos.

O Japão, os Tigres Asiáticos e os países de industrialização recente do Pacífico, por outro lado, ainda não apresentam as mesmas taxas de desemprego e descarte da mão-de-obra que as economias capitalistas ocidentais. Eles basearam seu crescimento numa combinação bem mais ampla, de alta tecnologia de processo, tecnologia muito variada de produtos, longas jornadas de trabalho e baixa participação dos salários na renda nacional.

No Japão, ainda hoje, os operários trabalham seis dias por semana e o mínimo de oito horas por dia, embora esse país seja o que possui o maior número de robôs industriais. Sua taxa de desemprego atingiu 2,2% em 1992 e parece também estar crescendo. Mas o desemprego estrutural ainda não é a fonte principal da morte do trabalho nesse país do Oriente. Lá, 45% dos executivos, segundo pesquisa do British Medicai Journal, trabalham mais de 50 horas semanais e 25% fazem, pelo menos, 120 horas extras por mês. Resultado: o karoshi, morte repentina por excesso de trabalho. Em lugar da morte lenta e degradante do desemprego permanente, a morte rápida e fulminante no posto de trabalho.

Na Coréia do Sul é comum os trabalhadores comparecerem às fábricas para trabalhar três domingos por mês. Os demais Tigres e as nações de industrialização recente seguem padrão idêntico. Com argumentos, motivações e coerção ideológica, os trabalhadores desses países, assim como do Japão, têm sido convencidos de que o importante não são os altos salários nem a capacidade interna de consumo. Importante mesmo seria compartilhar a mesma sorte de construir o país, princípio que era tanto mais assimilado quanto menos importante era o mercado interno para a expansão do capital. O grande êxito nos merca­dos internacionais permitiu ao capitalismo dessas nações desconsiderar o mercado interno para sua própria produção.

Somente agora, com a crise recessiva mundial, o capitalismo ocidental começa a pressionar o Japão e os demais países industrializados da Ásia a mudar seus métodos, por considerá-los desiguais e desleais para a competitividade no mercado mundial, único. Akio Morita, presidente da Sony Corporation, está con­vencido que as empresas japonesas terão que adaptar seu estilo administrativo para não competir desigualmente com europeus e americanos. Terão que equiparar salários, reduzir jornadas de trabalho e assumir responsabilidades sociais (férias, custos ambientais e outros benefícios) que não faziam parte de sua lista de obrigações.

O Japão, pela primeira vez em muitos anos, também começa a sentir o vento morno da recessão. Tudo isso obriga-o a acelerar suas reformulações e mudanças. O povo japonês começa a ser instado a consumir mais. Contraditoriamente, seu mundo do trabalho, até então submisso ao consenso ideológico, cuja base era o emprego vitalício, agora se vê às voltas com o rompimento da garantia da estabilidade. A chaga do desemprego, embora ainda pequena, começa a se estender pela pele pretensamente imaculada da economia do Sol Nascente.

Assim, embora o desemprego estrutural seja uma tendência avassaladora do capital, em todas as suas formas e nuances, produzindo massas deserdadas de maneira crescente e ampliada, essa não é uma tendência linear. Nem mesmo se pode dizer que a crise absoluta, prevista por Kurz, deva dar-se a curto prazo e sem mediações. Até nos países centrais o capital tem imposto aos trabalhadores, temerosos de perder o emprego, aumento nas jornadas de trabalho e reduções salariais.

Em todos os países capitalistas, tem sido comum que os trabalhadores, ameaçados pelos cortes de pessoal, submetam-se às pressões patronais para trabalhar mais por menores salários. Entre 1973 e 1990, segundo Thurow, o produto nacional bruto per capita dos Estados Unidos subiu 28%, mas a remuneração por hora dos trabalhadores em funções não-gerenciais (2/3 da força total de trabalho) caiu 12%. O salário real semanal caiu ainda mais fortemente (18%), em virtude da disseminação da terceirização, dos trabalhos eventuais e por empreitada e da queda da força dos sindicatos.

Tornou-se comum, em países onde o desemprego cíclico ou recessivo se apresenta muito forte, agravando a situação do desemprego estrutural, que os trabalhadores aceitem reduções nos salários, acompanhadas de reduções nas jornadas, desde que haja o compromisso, por parte dos empresários, de manutenção do quadro de pessoal. O acordo da Volkswagen alemã com o sindicato dos metalúrgicos é o exemplo mais recente desse tipo de medida para enfrentar a crise, podendo ser copiado mais amplamente em outros países da Europa. O capital é capaz de admitir combinações variadas, que mantenham seus ganhos, mesmo que elas representem cargas pesadas sobre os trabalhadores. De qualquer forma, a tendência real tem sido a de declínio do salário real e de aumento do desemprego estrutural.

Tudo isso tem resultado numa queda significativa da ética do trabalho e no aparecimento de problemas psicológicos e soci­ais que tendem a se agravar. O que podem pensar gerações crescentes sem empregos, em especial se ao exército de desempregados se agregam indivíduos com conhecimentos técnicos e científicos, que normalmente deveriam estar bem empregados? Que reação devem ter trabalhadores não-qualificados ou de baixa qualificação quando vêem seus postos de trabalho sendo disputados por engenheiros e outros indivíduos com formação técnica superior?

Esse agravamento do desemprego estrutural tem levado muitos cientistas a trabalhar a hipótese de um mundo sem emprego e sem trabalho. Eles sentem, porém, enormes dificuldades para dar solução ao problema nos marcos do sistema capitalista. Como distribuir a riqueza, gerada por muito trabalho morto e muito pouco trabalho vivo, mas apropriada pelo dono do capital, se praticamente já não existe a mercadoria força de trabalho, que desempenhava o papel de instrumento de troca entre os trabalhadores e o capitalista? Como garantir aos indivíduos e famílias não-proprietários de capital (a esmagadora maioria) os elementos de sua reprodução humana, se a única mer­cadoria que possuíam para vender, sua força de trabalho, já não é necessária nem possui, por isso, mais valor algum? Além disso, que sentido terá a produção se a desaparição do trabalho elimi­na uma parte considerável do poder aquisitivo social? Fábricas automatizadas venderão seus produtos e suas tecnologias para outras fábricas automatizadas, que venderão para quem?

Marx foi o primeiro a estudar essa tendência do capital para descartar e assassinar o trabalho e o trabalhador como uma lei de população inexorável do modo capitalista de produção. Há muito chegou à conclusão de que ela não pode ser resolvida a não ser rompendo com o sistema de produção-para-lucro e socializando a apropriação da própria riqueza. Durante mais de um século, os economistas e cientistas burgueses procuraram ridicularizar e desconsiderar essa tese de Marx. Mas não deixa de ser irônico, agora que o marxismo está pretensamente morto, que eles se vejam procurando solução para um problema que consideravam inexistentes, mesmo em perspectiva. Ainda bem que sempre apareceram vozes isoladas, como Rossana Rossanda, para lembrar que Marx nunca escreveu palavras tão fortes como as que tratam do holocausto operário que acompanhou às mudanças do capital. Este sempre demonstrou força capaz de se renovar constantemente, na busca de seu crescimento através da tecnologia e, por ela, da compressão do trabalho humano e de seu valor como mercadoria.

A morte do trabalho sob o capitalismo fere de morte o próprio sistema. Quanto mais ele avançar por esse caminho, internacionalizando o exército de reserva industrial, sem pers­pectiva de vir a empregá-lo, impulsionado por sua própria lógica cega de funcionamento e reprodução, mais forçará o renasci­mento do socialismo, sob as mais variadas formas, como a possi­bilidade real de encontrar uma solução humana para os desafios colocados pela revolução científica e tecnológica e pela elevação constante da produtividade.




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