A imagem da leitura



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Encontro29.07.2016
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A imagem da leitura

Sou professora alfabetizadora de um 2º Ano. São 18 alunos, com idade entre 7 e 8 anos, em processo de consolidação da alfabetização. Quando iniciei o ano letivo, em fevereiro de 2014, observei que os alunos gostavam dos livros, mesmo que muitos ainda não dominavam totalmente o ato de ler. Alguns ainda não haviam assimilado todos os fonemas, porém, ao manusear os livros ficavam encantados com as imagens. Às vezes, eu observava que eles “liam do seu modo”. Assim, as ilustrações dos livros possibilitaram um pensar diferente sobre a leitura, motivando esta prática didática, uma vez que é um desafio nortear a alfabetização de forma lúdica, demonstrando que por trás das imagens há uma história sendo contada. Muitas vezes, ao nos referimos a uma literatura infantil lembramos quase sempre do autor (daquele que criou o texto) e o ilustrador, na maioria das vezes, é esquecido.

Leio para meus alunos várias histórias utilizando como recurso, além dos próprios livros, outros, como equipamnetos multifuncionais. Ao ler a história para eles enfatizo-a com tom de voz diferente, imito alguns sons explorados pelo autor de forma onomatopeica, exploro a observação das imagens. Sempre reforço a importância que o ilustrador tem na obra do livro. Ao observar as imagens, quero que meu aluno entenda o que o ilustrador quis expressar, a ideia que ele organizou diante do texto escrito. O brilho no olhar dos alunos ao ouvir e visualizar as histórias é recompensador.

Às vezes eu conto histórias em que não utilizo nenhum tipo de recurso visual. Somente minha voz, com algumas modulações diferentes. Como, por exemplo, “tic-tac do relógio, um grito, uma pausa.” De modo baixinho, falo: “Peço que escutem e imaginem a história formando as imagens lá ‘dentro da cabeça’.” Eles adoram e chamam de história sem ler: “Profe, conta uma história sem ler?”

Faço algumas atividades onde eu conto as histórias e eles devem ilustrá-la, assim, não há texto escrito como apoio. Ao gerar imagens a criança utiliza o processo que assimilou ao ouvir a história. A interpretação que faz está ligada diretamente ao fato de sua capacidade de construir imagens e registrá-las mentalmente. Quando começa a desenhar, busca no seu banco de dados as imagens que formou ao longo do tempo que ouviu a história.

Gradativamente, introduzi o empréstimo de livros, os quais estão organizados em uma estante, na sala de aula. Também, providenciei uma caixinha com fichas, onde cada aluno escolhe seu livro e anota o título na sua ficha. Primeiramente, deixei livre, quem queria analisar um livro e fazer o registro eu incentivava. Alguns não mostraram interesse, contudo, ao ver os colegas registrando, ao poucos todos foram se familiarizando com a ficha. Hoje já fazem suas anotações colocando, inclusive, a data que levam o livro. Geralmente, dou um prazo de 15 dias. O mais interressante é observar que eles comentam entre eles os livros e, no retorno, indicam para um colega. Mostram imagens e fazem algumas observações a respeito da história. A minha orientação é que eles mostrem o livro, falem algo, mas que não contem a história ao colega, instigando, assim, a curiosidade.

No mês de maio, coloquei na estante um livro que ganhei de minha irmã: 111 poemas para crianças (autor Sergio Caparelli- ilustração Ana Claudia Gruszynski) uma das alunas (Ge ) questionou: “- Profe, eu posso anotar na ficha aquele livro que tem o teu nome e levar para ler?” Eu respondi: “- Claro, que sim!” Mesmo sabendo que era um livro um tanto extenso, com vários poemas, achei importante que ela conhecesse a obra. Fiquei surpresa ao ouvir dela no decorrer dos dias: “- Eu tô lendo o seu livro , é cheio de poesia engraçadas e diferentes.” Quando chegou o momento de entregar o livro, ela solicitou se poderia ficar com ele mais alguns dias. Ela leu todo o livro e ainda citou: “- Profe, você ganhou da sua irmã este livro, eu li o que ela escreveu para você, muito legal!” Assim, os dias passam e este livro já foi lido por outras crianças.

Uma das práticas que considero também importantíssima para a mediação da leitura, foi um caderno de leitura que organizei. Cada aluno tem um caderno de leitura onde colamos vários textos de diversos gêneros. O objetivo principal do caderno é motivá-los ao exercício da leitura e interpretação. A interpretação, a que me refiro, não é aquela com perguntas e respostas e sim aquela que encanta os olhos e faz com que o texto ganhe ainda mais vida. Falo das imagens formadas por meio dos desenhos que os alunos criam após a leitura dos textos. Geralmente, de 15 em 15 dias, eles recebem a missão de ser o ilustrador do texto.

A interpretação por intermédio da formação de imagens já foi executada tendo como base os autores: Olavo Bilac, Elias José, Lalau e Laurabeatriz, Sergio Caparelli, Ruth Rocha, Vinicius de Moraes, Joaquim Osório Duque-Estrada (Hino Nacional), músicas como Oras bolas, de Paulo Tutit e Edith Derdyk, Família (Titãs).

No retorno do caderno há a prática da observação das imagens formadas. Inicialmente, passo de carteira em carteira e escuto a explicação das imagens formadas, ou seja, da interpretação que expressaram. Em seguida, solicito que façam a troca de cadernos, assim, um pode analisar o desenho do outro. Chamo isso de integração de ideias, pois no ato da observação das ilustrações, realizada pelos colegas, ocorre a troca de aprendizagem. Claro que também há momentos de avaliação e de certa comparação. Contudo, acredito que são neste momentos que a interpretação se desenvolve. Neste espaço de tempo os olhos observam imagens que antes não tinham visto, isso possibilita a eles ampliar detalhes na formação de novas cenas, que serão desenhadas no próximo texto.

É impressionante a visão que a criança tem dos textos, a interpretação individual que realizam é fascinante. O mesmo texto tem leituras diferentes. A essência da interpretação, muitas vezes, é a mesma, mas a composição da imagem expressada em desenhos é variada, complementada em riqueza de detalhes. Detalhes nos olhos e nas mãos de uma criança em processo de construção da leitura.

Na semana do meio ambiente, fiz uma atividade de leitura de frases importantes escritas por lideres religiosos, cientistas, ambientalistas, escritores, músicos, educadores, etc. Colei as frases em uma folha sulfite, li com eles e expliquei alguns termos que não eram próprios ainda de seu vocabulário, em seguida propus que eles desenhassem o que tinham entendido da frase, que mensagem representava. Ao finalizar a atividade, o que meus olhos observaram foi além do que eu imaginava: a expressão na imagem formada quanto às questões socioambientais estavam marcadas de modo reflexivo, demonstrando que a leitura realizada havia sido assimilada e interpretada com êxito. Isto fez com que minha motivação para despertar leitores ficasse ainda mais latente.

Assim, posso dizer que com o auxílio do registro e formação de imagens, a alfabetização de meus alunos está se consolidando. Percebo a ponte entre a dinâmica dos traços, a alegria das cores e o encantamento das palavras.

Alfabetizar vai além do ato de escrever e ler. Alfabetizar significa, para mim, possibilitar ao aluno a leitura do ontem, do hoje e do amanhã. Interpretar os detalhes de cada palavra lida, a imagem que se forma e em qual conjunto se estabelece, a compreensão de uma frase, de um poema, uma história, uma receita.

É importante ressaltar ainda que a compreensão dos conteúdos explorados nas outras disciplinas (ciências, geografia, história, educação religiosa e matemática) também foram diretamentes contagiadas na representação por imagens. Ao ler um problema matemático, por exemplo, os alunos podem fazer a representação por imagens, dimensionando sua compreensão.

Meus alunos estão lendo, escrevendo e interpretando. Esta era uma meta que havia planejado alcançar somente ao final do ano. Mas foi através desta dinâmica de leitura e interpretação que se estabeleceu a aprendizagem significatica.

Uma das notáveis características da prática de ilustrar é que a leitura vai e retorna. Na produção de imagens, sem dúvida, há uma conversa com o texto. É nesta interação entre o autor do texto e quem o ilustra que vão emergindo ideais, acréscimos e reformulações. Aprende-se a ilustrar observando e reavaliando a imagem que foi criada. Também se aprende a ilustrar lendo o texto várias vezes, comparando-o e imaginando-o.

Ao receber um texto meus alunos o estudam, criando uma primeira impressão, formulando imagens que nem sempre não definitivas. Quando a imagem se forma em definitivo pode-se dizer que ocorre a interpretação.



Assim, posso concluir que a leitura pode ser motivada pela imagem e a imagem motiva a leitura. Os olhos formam imagens e os traços concretizam a leitura de forma ampla e contextualizada. A leitura é iluminada pela interpretação que se projeta em imagens.

Anelize Santanna Simon


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